Sebastià Cabot – Entrevista

Sebastià Cabot é o autor de Novembro, uma das obras publicadas na colecção Novela Gráfica (e da qual falei na segunda) pela Levoir, em parceria com o jornal Público. Trata-se de uma história que explora os relacionamentos na actualidade, com as interacções fáceis mas a dificuldade de criar laços fortes. Por um lado, a comunicação é fácil, mas nem sempre é bem concretizada, faltando, por exemplo, na internet, a expressão facial ou vocal, o que dá grande ambiguidade às conversas.

Neste seguimento, estivemos à conversa com o autor, durante a Comic Con que decorreu em Lisboa este ano, mas, infelizmente, o local não foi propício à gravação (nem levei equipamento próprio, nem o meu inglês é muito bom). Optei por apresentar algumas das falas do autor, bem como a transcrição das restantes perguntas traduzidas para português, ainda que a conversa tenha ocorrido em inglês. Claro que nas transcrições perde-se o tom de simpatia do autor (ironicamente, reflectindo o que se perde na comunicação através dos novos meios, elemento que é falado na novela Novembro).

Q: Começo por uma questão simples, mas que costumo realizar – como te interessaste pela banda desenhada?

Quando eu era criança costumava ler banda desenhada e sempre gostei de desenhar mas… sempre tive uma ligação com a pintura e com a banda desenhada – por isso com 18 anos fui estudar Fine Arts para Barcelona e como estava mais interessado em arte contemporânea, só comecei a fazer banda desenhada em 2010, mais ou menos, com o meu primeiro álbum, Perros y clarinetes, em Espanha, e na realidade fi-lo por divertimento, mas quase ganhou um prémio !

Q: Usaste algumas ferramentas do curso?

Nem por isso. A Universidade de Barcelona está mais voltada para a Arte Contemporânea. Claro que existem várias aulas que ajudam a desenhar, mas não fiz muita ilustração ou banda desenhada.

Q: Mas depois de Perros y Clarinetes com Joan March fazes um trabalho a solo. Porquê?

Com o primeiro tinha ideia mas como nunca tinha escrito nada falei com um amigo, falei-lhe da ideia que tinha e escrevemos o álbum juntos. Neste já tinha mais confiança e uma ideia clara do que queria, por isso, fi-lo.

Q: O que preferes? Trabalhar sozinho ou com outra pessoa? Ou estava relacionado com a ideia concreta que querias para este livro?

Bem, Joan é um dos meus melhores amigos e foi bastante divertido trabalhar com ele. Temos visões e ideias diferentes. Claro que temos de dialogar sobre elas e chegar a um acordo. Quando se traabalha sozinho, faz-se o que se quer.

Q: Li Novembro e pareceu-me uma história muito real com personagens autênticas, em que o intenso uso de telemóveis e internet, produz relações rápidas, mas a incapacidade de realmente nos ligarmos. Por outro lado, no fundo, temos referências ao passado, quase cristalizado como perfeito. Pelo menos em aparência. Trata-se de um comentário à sociedade moderna?

Eu queria que a história reflectisse a ideia contemporânea de que hoje em dia temos tecnologia, mas parece que estamos muito sozinhos – a sociedade é muito individualizada. Muito focada no momento e em parecer feliz.  Por isso, sim, tem essa componente. Em relação à nostalgia, é muito comum hoje em dia, certo? Há muita obsessão pelos anos 80, vemos miúdos mais novos a coleccionar cassetes. E pensei voltar ao passado através do cinema noir, e daí a ideia da nostalgia.

Q: La nuit des chat é o teu projecto actual…

Bem, é um projecto que já tenho há dois anos, e a ideia está na minha cabeça, tenho a história mas ainda não a escrevi, ainda vai demorar. Por isso, vou esperar um pouco – o meu projecto actual é com histórias infantis, livros para crianças. Uma novela gráfica é algo muito cansativo, exaustivo. E fazer livros para crianças é mais rápido.

Q: Tens mais projectos planeados?

Tenho ideias. Tenho sempre muitas ideias, mas ainda não comecei a escrevê-las – Às vezes o processo é mais longo. O que faço às vezes é juntar ideias e criar novas para uma história.

Q: Foste publicado em Portugal e em Espanha. Que diferenças encontras no mercado? Ou na recepção?

Bem, não sou um especialista, seria uma pergunta mais para as editoras, porque não sei assim tanto do mercado, mas, pelo que vejo, o mercado aqui é mais pequeno e Espanha tem muitas mais editoras, está mais dividido. Estamos aqui na Levoir, no stand, e vejo livros da Marvel, da DC, autores espanhóis e franceses. Em Espanha seria mais específico. As editoras são mais específicas. Terias Norma com banda desenhada comercial. Mangá noutra. E não sei quantas pessoas gostam de banda desenhada em Portugal.

Q: Porquê a necessidade de publicares noutros países?

Bem, a não ser que estejas nas publicações Marvel ou algo muito comercial, o que ganhas como autor não é muito, precisas de publicar em diferentes autor. Por isso experimenta-se publicar em França, Espanha, Portugal.

Este foi publicado agora em Portugal e em Novembro foi ser publicado em França. Por isso, para Espanha ainda não tive contactos, talvez para o próximo ano.

Q: Como surgiu a oportunidade de ser publicado em Portugal?

Estive em Angoulême. O meu objectivo era ser publicado mais internacionalmente por isso fui a Angoulême e entrar em contacto com várias editoras. Tenho muita sorte porque como autor das Ilhas, porque temos o Instituto dos Estudos Baleares. Eles têm muita força e possuem muitos contactos e foi através deles que entrei em contacto com a Levoir, e eles ficaram interessados.

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