All-Star Superman – Vol. 1 e 2 – Grant Morrison e Frank Quitely

O que seria a humanidade sem o super-homem? Enquanto super-herói, o super-homem luta contra monstros e salva, sucessivamente a humanidade de grandes finais apocalípticos. Mas enquanto figura perfeita de capacidades ilimitadas (segundo a perspectiva humana) o super-homem é, também, o símbolo da perfeição inatingível, um ideal de força, poder e rectidão que nenhum poderá alcançar. Será esta a razão para a eterna frustração de Lex Luthor, transformada em vilania contra a figura que deixa na sombra qualquer ser humano.

Desta vez Lex Luthor tece um plano diferente. Um plano que levará o super-homem até ao sol, a fonte de energia das suas células. Mas, se, aparentemente o plano de Luthor tinha falhado, rapidamente percebemos que o verdadeiro objectivo era sobrecarregar as células do super-homem. Com esta sobrecarga vieram novos poderes, mas, também, a apoptose celular – o super-homem está a morrer. Lentamente.

A perspectiva de mortalidade leva o Super-homem a revelar a sua dupla personalidade a Lois Lane. Desconfiada e desconhecendo a real razão para a revelação, Lane lá se deixa levar por uma comemoração de aniversário onde irá adquirir, por 24h, os poderes do Super-homem. O dia é, como não podia deixar de ser, uma sucessão de reviravoltas, entre lutas com monstros e egos masculinos que se defrontam por uma bela dama com poderes.

Estes dois volumes estão repletos de episodios de acção. Mas também de episódios mais introspectivos. O super-homem confronta-se com a mortalidade pouco distante e tece um plano para a existência de novos seres como ele – existência futura que é comprovada pelas conversas com super-homens dos séculos seguintes. Mas não só. Cruza-se, também, com outras versões dele próprio, sejam provocadas por kriptonite negra, sejam criadas por Bizarro.

E é neste planeta Bizarro que vemos o Super-homem confrontado com uma criação à sua imagem, um bizarro capaz de pensar como nenhum  outro ser criado por aquele planeta vivo. Capaz de pensar, de criar e de aspirar ao convívio com outros mais inteligentes do que aqueles que o rodeiam. Finalmente, depois de uma sucessão de estranhos diálogos (em que tudo o que é dito pelos bizarros tem um sentido contrário e se criam outros seres bizarros semelhantes a super-heróis, mas incapazes de agir eficazmente), o Super-homem volta a salvar o dia. Apenas para enfrentar um Lex Luthor de poderes aumentados, criados à imagem de Super-homem.

Aliás, este parece ser outro elemento constante na história. O Super-homem que se fragiliza e que aguarda o seu momento final, é constantemente imitado. Seja voluntariamente (concedendo os seus poderes a Lane), ora involuntariamente com a chegada de outros outrora habitantes do seu planeta de origem, com a criação de um bizarro super-homem, ou com o ganhar de poderes por Lex Luthor.

Esta constante imitação leva-nos a pensar – afinal, o que faz do Super-homem, o Super-homem? O que o caracteriza enquanto herói? Curiosamente, não são só os poderes. Mas o ter sido criado por humanos, concedendo-lhe uma preocupação pela humanidade e pelo planeta Terra que não poderia existir em outros elementos da sua espécie, ou uma humildade que transporta para a figura humana do Clarke para ter a calma e o controlo necessários. Já os poderes e o sentido de imortalidade, são o que concedem, à personagem, o distanciamento. São os elementos que o levam a isolar-se, a conter para si os segredos da sua identidade. Seja porque é perigoso saber a sua identidade, seja porque existem diferenças biológicas que impedem determinados desenvolvimentos.

Talvez por causa da mortalidade que paira nestes dois volumes, o Super-homem é levado a confrontar o passado e o futuro. O passado sob a forma de uma visita temporal à sua juventude onde revê o pai falecido e fala consigo próprio. E o futuro ao dialogar com os futuros super que existirão nos séculos seguintes. Trata-se de uma abordagem curiosa que apenas poderia ser enfrentada com calma pelo Super-homem e que parece ter como objectivo colmatar uma ansiedade de enfrentar o seu fim.

Esta dupla de volumes vai tocando em todos estes temas sem deixar cair a acção que caracteriza normalmente o género dos super-heróis. Apesar da mortalidade pairar sobre toda a história, existem momentos mais relaxados e divertidos (como a rivalidade por uma Lane com poderes ou a entrevista de Clarke a Luthor) e momentos dedicados apenas a grandes batalhas com monstros estranhos de motivações básicas.

Digam lá que esta imagem não recorda um barquinho de Hades?

All-Star Superman foi publicado em dois volumes pela Levoir em parceria com o jornal Público e trata-se de uma história que pode ser facilmente lida por quem pouco conhece do Universo em causa.

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