Máquinas Como Eu – Ian McEwan

Depois de expostas algumas considerações sobre o género da ficção científica eis que posso falar, então, um pouco sobre o livro. Máquinas como Eu decorre numa Londres alternativa dos anos 80. Em que difere esta realidade? Bem, Turing não morreu, desenvolvendo novas invenções que anteciparão o avanço tecnológico dos computadores e da inteligência artificial. A Inglaterra perdeu a Guerra das Malvinas (ou Guerra do Atlântico Sul) – um conflito armado contra a Argentina nas Ilhas Malvinas, Geórgia do Sul e Sandwich do Sul (entre os dias 2 de Abril e 14 de Junho de 1982). O conflito tinha por base a soberania sobre os arquipélagos austrais. No Reino Unido da nossa realidade, a vitória no nosso confronto terá sido decisivo para Margaret Thatcher obter a vitória nas eleições de 1983.

Na realidade de Máquinas como eu, as invenções de Turing permitiram um maior desenvolvimento da Inteligência Artificial e no início dos anos 80 desenvolvem-se os primeiros andróides – seres artificiais de aspecto humano capazes de raciocínio e pensamento, de captar informação do que os rodeia, de agir sobre esta informação e de construir os seus próprios modelos da realidade.

Charlie, a personagem principal, é um daqueles jovens que tem algum dinheiro deixado pelos pais e que passa os dias a investir na bolsa. Fascinado pelas últimas inovações tecnológicas, apressa-se a comprar um dos novos andróides que possuem 1001 adaptações para se parecerem com humanos e causarem a empatia equivalente. Apaixonado pela vizinha com quem sai regularmente, Charlie decide-se a partilhar, com ela, a definição do carácter do andróide – não faltam, claro, os paralelismos com o criar um filho, numa versão mais simplista.

O relacionamento a três é estranho. A máquina vê-se a si própria como um indivíduo, com a capacidade de amar e de agir de forma autónoma, enquanto que os humanos o vêem como uma curiosidade – capaz, inteligente, mas demasiado naive e alienado dos relacionamentos humanos, ainda que se diga, também ele, apaixonado.

Independentemente do andróide, algo que se destaca na narrativa é o relacionamento amoroso entre os dois humanos. Um relacionamento que se apresenta pouco honesto e até conflituoso, que envolve duas pessoas que, em vários episódios, não sabem manter o respeito mútuo e que parecem possui a maturidade de dois adolescentes. Sim, existe uma cena de sexo com o andróide. Mas sendo este percepcionado como uma máquina, não é exactamente neste ponto que defino a existência de falta de respeito. Charlie, a personagem principal, procura atingir os seus fins à base de enganos e mentiras e as conversas nem sempre são racionais.

Este ponto é essencialmente importante porque estes dois seres humanos, demasiado emotivos e pouco dados à capacidade de se verem na pele do outro num relacionamento a dois, vão abrigar um andróide – um ser altamente racional e lógico que não percebe os conflitos éticos quando as leis se confrontam com os sentimentos. Sim, o andróide diz estar apaixonado. Mas até nessa suposta paixão age de forma directa e racional. Quase sempre.

Assim se confronta a máquina com a humanidade. Talvez por esse motivo o autor tenha criado duas pessoas tão emotivas, como forma de as confrontar com a máquina – pessoas com passados, com acções irracionais baseadas em emoções e, sobretudo, que precisam de tomar decisões e que colocam outros aspectos no prato da balança. Os sentimentos e as emoções têm forte peso, bem como as promessas feitas aos falecidos.

E em que patamar deve ser colocado um andróide? Parece um ser humano, parece agir como um. Mas terá o mesmo valor nas considerações éticas e sociais? Sexo com um andróide deve ser considerado ao mesmo nível que sexo com outro humano? Será apenas uma máquina que satisfaz o humano? Terminar um andróide é o mesmo que matar um ser humano? Qual o valor que têm os sentimentos artificiais de um andróide, quando comparados com os sentimentos fabricados biologicamente de um humano? A comparação com um andróide leva-nos a questionar a própria essência do que é ser humano e do que é um ser vivo – em que patamar está um andróide.

Para além do confronto homem-máquina, aqui exposto em ambiente doméstico, em pano de fundo desenvolve-se o futuro do trabalho com a robotização. Ainda que o andróide de Charlie seja destinado à convivência humana, desenvolvem-se outros que têm como objectivo substituir os humanos nas suas tarefas mais rotineiras, começando com a recolha do lixo. E quem deve lucrar com a robotização das nossas tarefas? A humanidade num todo, agora livre para perseguir ocupações mais imaginativas ou as organizações que assim acumulam maior riqueza, levando-se o resto da humanidade à precariedade?

Máquinas como Eu debruça-se sobre tudo isto enquanto desenvolve a narrativa em torno de um trio amoroso criado pelos dois humanos e um andróide. As páginas escorregam em frases fáceis de percepcionar, que se vão focando, ora nas personagens, ora na sua própria percepação da realidade. As acções dos humanos nem sempre são lógicas e compreensíveis fazendo com que a minha empatia pelas personagens fosse diminuída – mas compreendendo que este modo de agir pode ter como principal objectivo o contraste com o andróide.

Trata-se de uma narrativa ligeira, passada numa realidade alternativa com divergências que poderiam ser sido mais exploradas no ponto de vista político. O romance segue um homem comum num mundo diferente, numa premissa que pouco traz de novo ao que já foi feito na ficção científica, tanto do ponto de vista psicológico, como tecnológico, ainda que seja uma leitura leve que se possa aconselhar a quem pretende uma leitura pouco densa em referências científicas.

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