O Futuro da FC Portuguesa – Algumas divagações

Se analisarmos os livros de ficção científica que, nos últimos anos, tem sido alvo das melhores críticas e prémios, percebemos que a mesma se caracteriza por uma maior variedade cultural de autores e de personagens. Não será, assim, de estranhar, que pense que o futuro da ficção científica estará em manter esta diversidade. Quem acompanha os lançamentos os ou prémios no género percebe que se dá cada vez mais destaque a obras de origens não anglo-saxónicas. Mas não são só os escritórios que são cada vez menos homogéneos na sua origem cultural ou género. Também as personagens são diversas respondendo à procura dos leitores por personagens diferentes com as quais se possam identificar.

Uma antologia Romena de Ficção Científica que tem sido usada para divulgar o trabalho dos autores romenos

Nada do que eu falei é propriamente novo para quem acompanha as novas tendências da ficção científica. O que penso é que esta tendência se irá manter. Novas localizações serão exploradas. Novos autores terão voz e públicos no lado oposto do globo. Mas então, qual o lugar da Ficção científica portuguesa nesta globalização?

Ainda que os restantes países estejam a aproveitar para divulgar os seus próprios autores e ficções, a ficção científica portuguesa parece estar num estado imberbe. Existem alguns autores mais estabelecidos (que lançam os seus livros pelas pequenas editoras portuguesas, ou directamente em idioma inglês) e meia dúzia de autores ocasionais que vão participando em antologias mas sem uma grande editora que os lance definitivamente. E, neste caso, nem estou a falar de um grande lançamento que dê retorno monetário. Até porque pouco se ganha nestas aventuras da escrita da ficção científica portuguesa.

E porque falo de ficção científica portuguesa? Bem, acho mais fácil vender um conjunto de autores e tentar criar uma corrente do que vender autores isolados e descontextualizados. Talvez este raciocínio justifique algumas antologias de ficção especulativa que apresentam autores de uma única nacionalidade. Mas como vender esta ficção científica portuguesa no estrangeiro? Por um lado, temos poucos autores e poucas histórias. Por outro, que traços existirão em comum que possam caracterizar a portugalidade? Serão estes traços reconhecíveis por nós próprios portugueses para os podermos “vender”? Serão estes traços percepcionados por alguém de fora?

Podemos sem dúvida colar as características mais comuns dos portugueses (ou aquelas pelas quais toda a gente brada). Como a arte do desenrascar. Arte que, no entanto, é atribuída em todos os países que, sendo mais pobres, aos habitantes que têm frequentemente de encontrar caminhos alternativos para concretizar os seus planos. Podemos falar do espírito aventureiro que levou vários portugueses, ao longo dos séculos, a deixar o país em busca de melhores condições.

Uma das poucas antologias portuguesas em que se sentem algumas características nacionais (e em que estas fazem parte da premissa)

Existem outras formas. Como a inclusão de referências ou tradições portuguesas. Ou a busca dos elementos fantásticos presentes na narrativa tradicional. Mas estes elementos também variam de região para região. A sul do país encontramos lendas mouriscas e uma forte influência moura. No norte abundam os lobisomens que podem assumir várias formas e outros “monstros” semelhantes. Estas diferenças tornam-me difícil percepcionar elementos comuns que possam ajudar a designar uma ficção especulativa nacional. Por outro lado, algumas lendas semelhantes podem ser encontradas no país vizinho. 

A mesma questão se coloca se quisermos falar de uma ficção científica europeia. O que pode ser referido como sendo uma FC europeia, sem que tal seja feito em comparação com uma FC africana ou asiática? Será um europeu capaz de fazer esta definição a nível europeu sem estar a pensar em termos comparativos?

O último grande livro de António de Macedo é um romance fantástico com fortes elementos tradicionais

Até aqui estou a apresentar apenas dificuldades. E soluções? Por um lado publicitar, noutro idioma o que é feito em Portugal. Por outro publicar noutros idiomas e tornar estas publicações acessíveis. O idioma continua a ser uma barreira linguística que tem de ser ultrapassada. Alguns autores estão já a seguir este caminho como forma de atingirem mercados de maior volume. Por último, à semelhança do que têm feito outros países, publicar uma antologia de autores portugueses em idioma inglês. 

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