A Song for a New Day – Sarah Pinsker

Premiado com o Nebula e nomeado para o prémio Locus, A Song for a New Day leva-nos a um futuro pouco distante onde o medo levou a uma grande transformação na sociedade humana. Antes de lermos, destaca-se a relação com a música, que será um elemento de diferenciação em relação a histórias de tema semelhante.

A história

No seguimento de uma série de atentados a espaços com grande audiência (como eventos desportivos e eventos musicais), e a uma doença com elevada mortalidade, a humanidade recolhe-se a casa e toda a vida passa a ser feita com afastamento de outros humanos.

Rosemary é uma jovem que nasceu após esta mudança, numa quinta, habituando-se a estar perto apenas dos pais. Ainda que a maioria dos jovens estejam ligados por tecnologia, os pais de Rosemary nunca lhe permitiram usufruir destas novidades, apesar de esta exercer um trabalho como suporte técnico. Mas é exactamente este trabalho que lhe dará a possibilidade de fazer outra coisa, passando a angariar artistas para espectáculos online.

Já Luce é uma artista que gosta de actuar ao vivo, viajando por todo o país com vários artistas. As circunstâncias fazem com que seja a última artista a actuar em público antes das medidas que hão-de colocar todo o país em afastamento. A partir desse momento, os ajuntamentos passam a ser proibidos.

Crítica

Rosemary é uma jovem introvertida a quem é dada a oportunidade de fazer algo novo e estimulante. Este novo trabalho obriga-a, no entanto, a sair de casa e a viajar, algo muito receado nesta nova realidade. É pela sua perspectiva que nos apercebemos das novas normas sociais que, de alguma forma, recordam o confinamento por causa do COVID-19 (ainda que a história tenha sido escrita antes da pandemia).

O medo de novas bombas ou tiroteios leva-a a suspeitar de todos os que encontra na rua, enquanto que os ajuntamentos ilegais lhe causam ataques de pânico. A nova sociedade estabelece contacto através da internet, com recurso a avatares que retiram parte da personalidade das conversas profissionais. A maioria das pessoas não sai de casa e os empregos escasseiam (ou estão nas mãos de uma única empresa centralizadora). A exploração de relacionamentos é, também, muito limitada, estando restrita, quase sempre ao envolvimento através de um ecrã.

A premissa é interessante, mas não totalmente original, mostrando-nos um mundo que se habituou às restrições e que evoluiu de forma arrepiante. A perspectiva é, no entanto, muito limitada e diminui, por vezes, os impactos de tal sociedade. A jovem já está habituada, mas sai da sua zona de confronto para procurar locais de espectáculo ilegais onde possa encontrar novas estrelas. Já a artista, sente saudades de actuar em palco para uma multidão.

Do ponto de vista de ficção científica, este livro tem bons elementos que não são usados em toda a sua potencialidade. Sim, existe alguma organização ligeiramente ilegal, mas, a maioria dos cidadãos parece consternada por conta dos riscos das multidões. Não existe, na prática, nenhum desenvolvimento surpreendente nem ideias arriscadas. A narrativa baseia-se sobretudo nas duas personagens, mostrando a forma como se relacionam e como evoluem nas suas profissões.

Mas nenhuma das duas é uma personagem muito emocionante. E mesmo o que pensam ou a forma como se relacionam é demasiado simples e linear, assim como os desenvolvimentos. Esta linearidade é pouco estimulante e não traz nada de novo.

Em termos de representatividade, a história é positiva, com personagens LGBTQ+ e origens raciais diversas, apresentando esta diversidade como comum e quase normal neste futuro – as origens são referidas sobretudo para demonstrar como o assumir com a idade adulta pode afastar alguém de tudo o que lhe é familiar.

Para além do isolamento social e das (poucas) diferenças tecnológicas, outro tema constante na história é a importância da música, tanto para quem a consome, como para quem a faz. Esta questão é de tal forma realçada que, por vezes, parece mais uma obsessão, forçando uma única perspectiva numa premissa que tinha vários pontos para ser interessante.

Conclusão

Escrito antes da pandemia, este A Song for a New Day pega numa premisa que tinha tudo para se tornar memorável à luz de acontecimentos posteriores. Não deixando de ser uma história engraçada, a abordagem banal e demasiado focada num único aspecto, bem como as personagens pouco interessantes, tornam A Song for a New Day numa leitura curiosa, mas longe de ser excelente.

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