Blankets – Craig Thompson

Tal como Habibi do mesmo autor, adiei a leitura de Blankets devido a todos os comentários positivos que ouvi. Achei que poderia vir a tornar-se uma decepção, por conta da elevada expectativa. Tal como Habibi, fui positivamente surpreendida e aconselho vivamente Blankets a qualquer pessoa!

A história

A narrativa é autobiográfica, centrando-se na infância do próprio autor. Os pais são pobres, mas este não é o elemento mais marcante da sua existência infantil. A mãe é extremamente religiosa e o pai é demasiado austero. Os castigos são duros em termos psicológicos e físicos. A escola, carregada de crianças com melhores condições financeiras, é um lugar de tormento.

Os pontos altos estarão associados ao irmão, com quem partilha uma cama grande. Entre os dois inventam grandes aventuras, fazendo da cama um lugar de imaginação e brincadeira, mas por vezes, também de picardias e zangas.

O crescimento traz novas revelações e, claro, a primeira paixão. É em torno deste primeiro relacionamento amoroso que decorre grande parte da narrativa mostrando um envolvimento emocional que serve, também, de escape para o quotidiano de ambos.

A narrativa

Um dos elementos mais fortes desta narrativa é a representação dos relacionamentos familiares. A excessiva religiosidade da mãe traz um temor perante Jesus e uma vergonha do corpo que irá reflectir-se na forma de estar, anos mais tarde. Por oposição, a excessiva agressividade paterna impõe um receio constante na expressão verbal ou na defesa pessoal que será determinante para a perpetuação de abuso sexual.

Esta existência de abuso não é muito explícita, mas percepcionada através de curtos momentos em que se demonstram reacções. O ambiente familiar da criança impede que se defenda a si própria, ou, até, que defenda o irmão mais novo.

Todos estes elementos, a vergonha do que é carnal e físico, os abusos, a religiosidade que circunda o ambiente familiar, fazem com que a criança (e posteriormente o jovem) seja um pária e uma mistura estranha de reacções contraditórias. Por um lado, desenvolve, também, uma peculiar dualidade entre religião e espiritualidade, por outro, apresenta uma resistência a algumas figuras de autoridade que o levam a estar do lado dos renegados.

Mas é no campo de férias religioso que nos apercebemos melhor desta dualidade estranha. Estando, supostamente, entre outras crianças de semelhante enquadramento religioso, esperaríamos que existissem pontos de empatia e ligação. Ao invés disso, vemos como, mesmo neste ambiente, os pobres são excluídos e descriminados, demonstrando-se a hipocrisia desta comunidade. Ainda assim, nem entre os párias encontra o seu lugar, destacando-se pela sua dedicação religiosa e pouco envolvimento com vícios.

Em todos estes sentidos, Blankets é um relato forte que demonstra uma evolução psicológica e emocional, transformando-se de criança traumatizada em adolescente confuso, e passando por um período de distanciamento do que é físico e tangível. Os factores são demasiados e levam a um entendimento complexo do que são os relacionamentos e do que é o mundo.

Apesar de ser um relato realista e muito pessoal do autor, existem algumas semelhanças com o fantástico de Habibi. Em ambos as crianças apresentam-se como inocentes, brutalizadas pelos adultos que as rodeiam, mas tentando manter algo puro e verdadeiro. Em ambos, as paixões que desenvolvem relevam uma componente de dedicação emocional e amor platónico, como se se procurasse um relacionamento mais elevado que pudesse servir como tábua de salvação psicológica.

Existem, também, semelhanças (mais expectáveis) no visual. Ainda que em Habibi se usem padrões mais orientais, em Blankets também encontramos (ainda que em menor quantidade) páginas belissimamente desenhadas. No entanto, as imagens focam-se mais nas personagens e nas suas expressões, com fundo menos detalhado, mas também com grande transmissão de emoções.

Conclusão

Apesar de toda a suavidade no desenho e, até, na forma como se expressa, Blankets é uma leitura brutal, sendo exactamente essa suavidade, o dar a entender de alguns traumas, que tornam a narrativa mais impactante.

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