Watership Down pode ser descrito resumidamente como um livro sobre coelhos. Das várias descrições que li antes de lhe pegar, foi este aspecto que me intrigou – como poderia uma história que se debruça exclusivamente sobre esta espécie de roedores, ter tanto sucesso. Ficou-me na memória a afirmação de que esta história seria boa demais para crianças. Não concordo. Quanto muito é uma obra que pode ser lida por crianças, que poderão reler com espanto em adultos.

A história roda em torno de dois coelhos que partilham a mesma lura. Nascido da mesma ninhada, são no entanto muito diferentes – Hazel, o mais velho e mais forte pertencerá provavelmente à elite dominante quando crescer; Fiver, o mais novo, é pequeno, fraco e frágil mas possui o dom divinatório.

É por causa da premoniação de um perigo desconhecido que ameaça a coelheira, que ambos resolvem fugir ignorando as ordens do “coelho-chefe”. Conseguem convencer outros a fugir que, temorosos ou descontentes com a situação actual juntam-se à fuga. De início turbulento, a viagem perigosa prolonga-se em busca da terra perfeita dos sonhos de Fiver.

De realçar que nesta história, os coelhos são coelhos. Podem pensar e falar entre eles, mas a sua esperteza é limitada, não possuem tecnologia, nem são tão humanizados quanto em outras histórias. Em compensação o autor desenvolve uma linguagem e uma cultura próprias, com mitologia e expressões características. As histórias contadas são sempre sobre o primeiro coelho, personagem ardilosa, astuta e corajosa que tece sempre incríveis planos não só para proteger a sua espécie, mas para os manter alimentados e livres.

Um livro durante o qual é quase impossível não desenvolver algum carinho e empatia para com estes seres relativamente indefesos. Muito mais do que engraçado ou uma mera história infantil, apesar do aspecto ficcional, a história reflecte um pouco o que é a vida. Como não pretendo estragar o livro a ninguém, do final apenas digo que gostei, o que se tem revelado difícil nos últimos tempos.