Fantasmas da Mente – Paul Tremblay

Livros de terror que envolvem exorcismos não costumam ser a minha leitura habitual. Ainda assim, este foi muito bem recomendado, e tem recebido excelentes críticas internacionais, pelo que me senti curiosa. O que encontrei é uma história sobre uma adolescente possuída, contada, quase sempre, pela perspectiva da irmã mais nova.

A família Barrett está em processo de degradação económica. O pai, desempregado e desocupado desespera, enquanto a mãe constitui o único sustento da família. Os problemas que começam a surgir são, à primeira vista, os típicos de um agregado em tais condições. A frustração dá lugar a brigas entre o casal e as filhas tentam lidar com a situação isolando-se ou criando os seus próprios mundos.

Merry, a filha mais nova, começa a aperceber-se que a irmã está estranha quando, numa normal sessão em que inventam contos, a história que é proferida é de horror – mas real, citando um acontecimento histórico em que várias pessoas terão ficado presas num mar de melaço e falecido tragicamente. Seguem-se as ameaças e os períodos de transe em que Marjorie, a mais velha, refere ouvir vozes antigas que lhe darão conhecimentos estranhos.

Desesperado, o pai procura, na religião, uma salvação. Por sua vez, a mãe prefere recorrer à ciência mas, não havendo melhoras visíveis com os medicamentos, cede ao acompanhamento por padres com vista a um exorcismo. Em cima de todo este processo, a família é levada a assinar um contrato televisivo para fazer parte de um reality show, prevendo-se que todos procedimentos sejam filmados e visualizados a nível nacional.

Com o programa televisivo expõe-se o problema familiar. Chegam os manifestantes e começa o ostracismo da família na comunidade. A escola torna-se cada vez mais difícil. Mas, ao menos, o dinheiro flui e podem finalmente comer outra coisa para além de massa. Entre operadores de câmara e manifestantes, a vida das jovens torna-se ainda mais isolada e estranha. Merry sente que a irmã mais velha se torna o foco da vida familiar e tenta fazer amigos entre os operadores do programa televisivo. Marjorie tem crises cada vez mais fortes, mais violentas e aterradores e ainda que diga a Merry que tudo não passa de fingimento, as suas justificações são pouco convincentes.

A história centra-se, sobretudo, na visão infantil dos acontecimentos, dada por Merry. Esta visão é alternada por pequenos episódios de uma Merry adulta e por entradas num blog em que se relata um parecer sobre o reality show. Mesmo com todos estes elementos ficamos sem perceber se é suposto acreditarmos numa possessão ou apenas numa crise psicológica – são-nos fornecidas pistas em ambos os sentidos e todos os elementos são dúbios.

O que percebemos, com certeza, é que o ambiente familiar se degrada a passos largos. A religião não fornece o apoio necessário ao pai que age de forma irregular. A mãe refugia-se na bebida, arrependida por ter cedido o espaço privado às câmaras e por ter cedido à prática do exorcismo. Paira uma sensação de impotência que quebra todos os envolvidos, mas, sobretudo, os progenitores – incapazes de tornar a filha saudável e de tomar as decisões correctas (se é que as existem).

Sem apresentar uma versão definitiva dos acontecimentos, Fantasmas da Mente é um page turner, uma história que nos impulsiona a querer saber o que acontece e que consegue surpreender, apesar das pistas que antecipam os episódios determinantes. Trata-se de uma premissa bastante simples, até vulgar, que cativa pela forma como é desenvolvida. No final, podemos fazer várias interpretações – mas qualquer uma delas é inquietante.

Fantasmas da mente foi publicado em Portugal pela TOPSELLER e venceu o prémio Bram Stoker de 2015. Curiosamente, na sessão de The Politics of Horror (Worldcon 2019) o livro foi referido por ser um bom exemplo de crítica social que subverte O Exorcista.

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Resumo de leituras – Agosto de 2019 (1)

61 – Osso – Rui Zink – Tal como a Instalação do Medo, este livro do autor decorre num espaço fechado, baseando-se na totalidade na conversa entre duas pessoas, neste caso, um homem preso por tentativa de terrorismo e o seu interrogador. A conversa desenvolve-se, por vezes de forma circular resultando numa maior comunicação entre os dois do que o interrogador pretende. O final tem traços fantásticos, apesar de toda a restante narrativa não ter elementos fora do comum;

62 –O Rasto de García Lorca – Carlos Hernández e El Torres – Enquanto outras narrativas tentam reconstituir o autor através da biografia, esta narrativa centra-se no vazio que o artista deixou nos amigos e na sua terra de origem. Trata-se de uma narrativa em que o artista é, sobretudo, uma figura ausente e se caracteriza exactamente por essa ausência;

63 – Fantasmas da Mente – Paul Tremblay – Uma narrativa curiosa de horror que conta, pela perspectiva de uma menina, os transtornos psicológicos da irmã que se julga possessa. A própria narrativa não tenta impor uma interpretação sobrenatural, deixando  no ar pistas para todas as dúvidas possíveis;

64 – Punk Rock Jesus – Sean Murphy – Este volume da colecção comemorativa dos 25 anos da Vertigo apresenta o retorno de Jesus pelas mãos da ciência. Numa espécie de reality show é explorado este retorno, com a apresentação de uma jovem inseminada com aquilo que se julga ser o clone de Jesus. O responsável pelo programa determina a educação do menino e controla todos os que directa, ou indirectamente, participam – com consequências catastróficas.

Nenhuma máquina seria capaz disso – Eugene Lim – Granta Futuro

“No futuro, teremos que ser tão interessantes para a IA quanto nossos bichos de estimação são para nós.”

O texto, mais centrado em episódios pessoais da autora do que necessariamente no Futuro, conta como conheceu um conceituado académico que dissertava várias vezes sobre o assunto. Fazendo-lhe a pergunta mais banal e directa recebeu esta resposta. O texto prossegue levando-a a um episódio em que estará a cuidar de um animal de estimação e o sentido da frase finalmente se revela.

Trata-se de uma abordagem mais pessoal ao tema em que, basicamente, a autora revela que, sobre o assunto, raramente pensa, e que a principal ideia que tem sobre o assunto proveio de um especialista no tema.

Worldcon Dublin

Estarei aqui nos próximos dias, entre palestras, pedidos de autógrafos e muito mais. Por esse motivo (e por causa das férias) o blogue terá um período de pausa. Aproveito também para informar as palestras das quais farei parte:

The Politics of Horror – Domingo, dia 18 de Agosto, 12:00-12:30

Participantes: F. Brett Cox, Rosanne Rabinowitz, Charles Stross, eu.

Is horror political? Should it be? How do the metaphors of horror map onto social and political concerns? What creators are using horror to engage with the contemporary political climate right now?

Games for Science – Segunda, dia 19 de Agosto, 11:00 -12:50

Participantes: Tom Lehmann, Steve Jackson, Bob, eu.

STEM-inspired games have been growing and getting more popular in recent years, with Pandemic as one of the most well-known examples. Board and video games now cover biology, evolution, and terraforming Mars. We’ll look at the use of science in games and how it can encourage interest in science and engineering game designers and players discuss this trend.

 

 

 

City of Miracles – Robert Jackson Bennett

 

Bem vindos a uma das mais fabulosas trilogias de fantasia! A Cidade das Escadas transforma-se, neste livro, na Cidade dos Milagres! Entre divindades desaparecidas e restos de milagres, subsistem os filhos dos Deuses, esquecidos de quem são. Órfãos e abandonados que procuram, nas famílias humanas, uma nova história.

De volumes independentes, esta trilogia apresenta-nos um mundo em que duas civilizações distintas estiveram em guerra – uma baseada na magia e outra na tecnologia. Venceu a da tecnologia, mas com um preço elevado para o mundo em que se encontram.

A premissa é razoavelmente simples (sobretudo no primeiro volume) mas eficaz. Mas o que torna esta trilogia excepcional são as personagens e o enredo. Nenhuma personagem é totalmente boa ou má (sendo que as piores acções são justificadas) ainda que estejamos, claramente, a torcer pelo lado mais humano. Já o enredo fornece as necessárias reviravoltas que permitem um bom ritmo de episódios de acção.

As personagens

Neste volume a personagem principal é Sigrud. Ex-espião, com um treino militar extens, Sigrud é a personagem principal e é através dele que seguimos a maioria dos episódios. Apesar da passagem dos anos, mantém um aspecto relativamente jovem enquanto aguarda por melhores dias enquanto lenhador (tem a cabeça a prémio e a profissão permite-lhemanter-se escondido). Ao saber da morte de Shara – uma ex-colega de missões com a qual tinha um relacionamento especial – sai rapidamente do disfarce, determinado a eliminar todos os que estejam envolvidos.

Shara, para além de também ter recebido treino para espiões, já era, nos volumes anteriores, uma figura politicamente relevante. Aquando da morte era ministra. Tendo tido um papel importante na morte dos deuses, a par com Sigrud, teria agora um programa de proteção de crianças que é muito mais do que parece.

O Enredo

Os Deuses morreram. Mas não os seus filhos. Transformados em crianças, de memória apagada, são órfãos entre os humanos e procuram novas famílias com as quais possam crescer e criar memórias. Mas alguns, acabam por acordar desta ilusão e recordam-se de quem eram e dos poderes que têm. Tal como os deuses, cada criança tem um domínio próprio – mas bastante mais pequeno.

Entre estas crianças existe uma, Nokov, que teve uma vivência especialmente sofrível. Torturado, consegue fugir. A dor e o medo transformam-no numa espécie de adolescente revoltado que usa os seus poderes em crescimento para caçar as outras crianças divinas a fim de lhes captar os poderes. O seu reino é a noite e o seu plano é simples – fazer retornar o mundo à noite eterna para que não haja mais dor.

Nokov é a pessoa por detrás da morte de Shara e a criança divina que Sigrud irá tentar enfrentar. Nokov percebe que Sigrud é mais do que um comum moral, mas não tem o conhecimento necessário para o enfrentar em campo aberto.

A Cidade das Escadas

A cidade de Bulikov é o palco das principais batalhas. Depois de longas viagens no tempo e no espaço em que se cruzam montanhas de neve e se explodem algumas casas (apesar do treino de espião, Sigrud não é muito subtil) a grande luta decorre nesta cidade.

Bulikov já nos tinha sido apresentada no primeiro volume. Capital do Império controlado pelo divino e construída sobretudo por Deuses, mantém as longas escadarias depois dos edifícios terem desaparecido com a morte das divindades. Destacam-se, também, as muralhas que a rodeiam. É uma cidade marcada pelas memórias da Guerra que com ela levou civis e levou ao colapso deste Império. Triunfou a civilização que assentava na Tecnologia.

Neste volume, regressamos a esta cidade – agora recuperada e em expansão, uma cidade que não cabe nas suas muralhas e que ameaça expandir-se para além destas. Ainda assim, dado ter sido a capital dos deuses, mantém restos de milagres – passagens secretas e mistérios que poucos mortais ousam transgredir.

Resultado?

Estas quase 500 páginas de emoção e reviravoltas marcam o final de uma trilogia fabulosa – uma trilogia que permite leitura independente de cada um dos seus volumes. Pegando numa premissa interessante, um mundo que confronta duas civilizações (uma baseada na magia e outra na ciência) e em que a história é escrita pelos vencedores (claro), o autor desenvolve, de forma coerente, os fenómenos que ocorrem com o desaparecimento dos deuses, justificando, neste volume, alguns elementos que encontrámos nos volumes anteriores.

Trata-se de uma história com um final expectável, mas, por isso mesmo, satisfatório do ponto de vista narrativo, coeso com o que acompanhámos ao longo da trilogia. Existem heróis (falíveis) que nos fascinam e envolvem. Heróis que enlouquecem e se precipitam, revelando-se, sobretudo humanos. Heróis que se apaixonam e que, apesar de enfrentarem guerras e múltiplos inimigos, não assumem as suas paixões e receios.

Sim. Existem algumas falhas. Ou melhor, detalhes que poderiam ser limados de outra forma. Senti que, a meio, alguns episódios causam reviravoltas em excesso – algo que já tinha sentido com outros livros do autor. Mas este detalhe é facilmente ultrapassável quando chegamos, finalmente, ao auge da tensão narrativa – e ao contrário de alguns autores, este auge não se apressa, estendendo-se devidamente como necessário para fechar, de forma coesa todos os pontos.

Sim – este livro será facilmente uma das minhas sugestões de leitura deste ano.

Outros livros do autor

Oh que cousas grandes e raras haverá – Álvaro Domingues – Granta Futuro

Já tinha sido avisada que pegar numa antologia sobre futuro de autores que pouco ou nada sabem de ciência seria complicado. O aviso concretizou-se logo neste primeiro texto. Entre deambulações sobre a postura religiosa com “o futuro a Deus pertence” e um sermão de padre António Vieira o texto é uma sucessão de referências, umas mais coerentes do que outras.

Mas se ficasse por aqui, o texto até se lia bem, contendo uma série de exemplos de posturas passadas em relação ao futuro. O problema começa quando o autor se atreve por caminhos mais científicos, questionando teorias científicas com argumentos que pouco ou nada têm de tal:

“Na sequência do relatório veio a saturação até à náusea do discurso sobre o futuro do desenvolvimento sustentável, do equilíbrio ambiental, e da presunção, sabe-se lá fundada em quê, de juntar a tecnologa, a economia, a eficiência, a competitividade, a justiça social, o crescimento económico, a ganância do lucro e do dinheiro… (…)

O planeta é muito dado a instabilidades, é esse o seu segredo. O resto são fantasias. Alain Badiou disse que a ecologia era o novo ópio do povo, uma espécie de religião, uma verdolatria.

O argumento é leve. Indirecto. Mas deixa mau sabor e desconforto científico. Seguem-se novas referências a exposições e a cinema em que o autor realça o actual desencatamento pelo futuro e o desgosto que sente pelo algoritmo:

“O algoritmo é como o adivinho, os oráculos, o pensamento e a acção apoiados simplesmente na jazida intensa dos dados, dos padrões, das correspondências, uma espécie de adivinhação artificial, como a dita inteligência (…)”

Este é o primeiro texto do conjunto e demonstra como alguém com autoridade num ramo científico pode tentar, de forma excessiva, exercer essa mesma autoridade noutros ramos. O texto tem pontos de interesse, mas julgo que seria bastante mais interessante o autor usar o seu conhecimento de planeamento e urbanismo para tecer considerações sobre o futuro urbano.

Duke – Vol.1 – A Lama e o Sangue – Hermann & Yves H.

No Faroeste impera a lei da bala. E a febre do ouro. Este primeiro volume de Duke leva-nos a uma cidade mineira onde a personagem que dá nome à série é ajudante de xerife. Trata-se de um homem sério que tem um pequeno romance com uma mulher de um bordel local – uma mulher para quem a presença na cidade mineira já ultrapassou os limites aceitáveis e que pensa em melhores locais para viver.

Nesta cidade mineira, a história apresenta-nos um homem pobre, um mineiro que regressa a casa após o trabalho. Mas o seu descanso irá durar pouco, interrompido por vários pistoleiros que obedecem às ordens do dono da mina. Quando encontram, em casa deste mineiro, algumas pepitas de ouro escondidas, castigam-no matando a família.

Esta será a ocorrência que irá justificar os restantes acontecimentos da série. A morte destes inocentes irá provocar a revolta de um grupo de mineiros que se vira, finalmente, contra os pistoleiros e tenta a fuga. Sem sucesso. Após presenciar a morte cobarde dos mais fracos Duke irá tentar fazer justiça, mesmo contra as ordens do homem mais rico da cidade e sem a ajuda do Xerife.

Visualmente agradável, este primeiro volume de Duke mantém um bom ritmo através de vários episódios de acção que decorrem em cenários detalhados (algo que tem sido abandonado por alguns artistas como forma de expressar, no desenho, a velocidade da acção). Mas não esperem pessoas de aspecto agradável. O Faroeste não era um lugar idílico para se viver, e as personagens apresentam o desgaste real de tal vivência.

Tanto devido ao tema da série (Faroeste seguindo uma personagem justiceira), tanto pelo estilo (francobelga com publicação pela mesma editora), é impossível não comparar Duke a Bouncer. Mas Duke parece-me, por este primeiro volume, menos violento, um pouco mais pausado (apesar de estar carregado de acção) e mais contido no choque ao leitor. Duke apresenta uma personagem principal que parece, neste volume, mais humana que Bouncer, pelo menos na forma como lida com as restantes personagens. Bouncer centra-se numa personagem que parece incapaz de sair do mesmo ciclo de violência. Já Duke parece seguir em frente, para novos percursos.

Duke é uma série publicada em Portugal pela Arte de Autor.

Mataram a Cotovia – Harper Lee e Fred Fordham

Começo por referir que ainda não tinha lido o romance original. Apesar de estar na minha biblioteca por ler há algum tempo. Já me tinha sido referido como sendo um bom retrato das cidades interiores americanas das décadas de 30/ 40. O que não esperava era o contraste. A história é contada pela perspectiva de crianças e da forma como se apercebem das diferenças sociais na sua pequena cidade. Existe, claramente, uma hierarquia que é determinada não só pela quantidade de gerações em que essa família vive na cidade, mas pela riqueza e pela cor da pele.

A história começa como a apresentação das férias juvenis. Com o Verão vem o tempo desocupado e a dupla de irmãos, Jem e Scout, inclui, nas suas brincadeiras, o vizinho que parece ter uma imaginação sem fim  – tanto para criar ficções nas quais se divertem, como para criar episódios ficcionais na sua própria vida. Não é de estranhar que o trio se volte para a casa mais singular da cidade – uma casa que dizem estar assombrada, mas que afinal é habitada por alguém que nunca de lá sai. Como desconhecido, a figura que vive nesta casa passa a ser temida. Ultrapassar o portão é mostrar coragem e é claro que, nestas idades, os jovens se desafiam para ultrapassar os limites da propriedade.

As aulas recomeçam. Com elas ausenta-se o rapaz vizinho, mas apresenta-se uma nova professora. Quando, à hora de almoço, um dos rapazes aparece desprovido de almoço, Scout, a irmã mais nova, apressa-se a explicar que tal não é estranho, dada a proveniência familiar do jovem. Razão para Scout levar umas quantas reguadas. Assim começa, na escola, a caracterização das familias que habitam naquela localidade, em que cada uma tem um papel definido: as boas famílias, os agricultores pobres, aqueles que vivem à margem da lei (através de subsídios e em condições miseráveis), e os pretos (que não têm direito a ir à escola).

Esta caracterização vai sendo aprofundada de forma indirecta ao longo da história, mas atinge o auge quando o pai de Scout e Jem, advogado, defende um jovem de uma acusação de violação. Scout e Jem começam a ser gozados pelos colegas – o jovem que o pai está a defender é preto. Respondem, claro, agressivamente, sem perceberem, na prática, o que estão a defender, ou do que está a ser acusado o pai. Os ânimos exaltam-se e até homens bons se unem para tentar fazer ver ao advogado o erro de prosseguir com a defesa – irritados pela confrontação da palavra de um preto contra a palavra de um branco. As designações de raça existem e têm como objectivo impôr, ao leitor, a visão da época.

Utilizando o ponto de vista das crianças, a história consegue ser percepcionada sem a força de todas as barreiras sociais que realmente aqui estão em jogo. As crianças já entendem estas barreiras mas não lhes dão maior importância do que à justiça. O pai, advogado, é uma personagem correcta que não deixa de defender o que é correcto – nem quando a irmã faz questão de aparecer para tentar impor normas mais femininas à menina.

Vencedor de um Pulitzer, trata-se de um romance mais complexo do que parece. Complexo por toda a dimensão social que transporta. O caso de tribunal acaba por quebrar a inocência destas crianças que se deparam com a injustiça baseada na cor da pele, as inevitáveis diferenças económicas e com as diferentes expectativas para o crescimento de um rapaz e de uma rapariga. Tratam-se de elementos que quebram a visão da sociedade e do crescimento – a das personagens e a do leitor.

Mataram a Cotovia foi publicado em Portugal pela Relógio D’Água, tratando-se de uma edição pouco habitual para esta editora. Em termos de edição nota-se que a lombada não tem o tamanho apropriado para o número de folhas (um dos cadernos está colado fora desta).

Novidade: Cadafalso – Alcimar Frazão

Tal como Entre Cegos e Invisíveis de André Diniz, este livro foi lançado durante o Festival de Beja, mas só agora  chega à distribuição comercial. Eis a sinopse, bem como uma página de exemplo fornecida pela editora:

Nascimento, universo religioso, juventude, mundo do trabalho e morte são os temas presentes no corpo desta obra, e para abordá-los Alcimar Frazão transporta-se no tempo e no espaço, bebendo referências das artes visuais, da literatura e da filosofia existencialista. Nessa viagem, ora se movimenta por uma Florença do século 16, numa busca violenta pela imagem da perfeição; ora destila cinismo sobre a guerra civil e a sua má sorte na Barcelona de 1937; ora perde o compasso da percepção do tempo na urbanidade de São Paulo, no início dos anos 2000. Uma Porto Alegre contemporânea é o cenário do último conto, o único em que o personagem ao qual Frazão empresta a sua forma cede o protagonismo a outro: um homem de meia idade com uma visão muito particular sobre sua própria grandeza diante da fragilidade humana. Em Cadafalso, os personagens tentam a todo o custo sobreviver.

 

Resumo de leituras – Julho de 2019 (4)

57 e 58 – All-Start Superman Vol. 1 e 2 – Uma abordagem curiosa ao super homem, colocando-o como mortal no seguimento de um plano do vilão. Surgem réplicas e versões futuras, enquanto o herói se confronta com a sua própria mortalidade.

59 – A Febre de Urbicanda – Schuiten e Peeters – O volume tem nova publicação em Portugal, com uma história adicional no final. As Cidades Obscuras (nome da série de histórias que decorrem neste Universo) possui vários detalhes fantásticos, numa realidade caracterizada pelo retro-futurismo, onde se construiu uma parte da cidade com grandes e harmoniosos projectos. Enquanto outra parte, semi isolada, permanece num caos contido … até quando… !

60 – Mataram a cotovia – Harper Lee – Não tendo lido a obra original, trata-se de uma adaptação competente que consegue transmitir a história e a problemática social numa pequena localidade interior em que cada família tem o seu lugar social. Existe uma hierarquia clara entre cada uma das famílias.

Novidade: Entre Cegos e Invisíveis – André Diniz

As duas novidades que se indicam da Polvo não são propriamente novidades no sentido em que foram lançadas durante o Festival de Beja. Ainda assim, estão indicadas como tal por terem chegado, durante o mês de Julho, à distribuição comercial. Este novo livro de André Diniz (cujo comentário mais completo podem ler aqui) apresenta-nos uma família de pai ausente que se ressente de tal ausência e fala, no regresso do velório, dos seus traumas e recordações.

Deixo-vos com a sinopse fornecida pela editora, bem como uma página de exemplo da obra:

Brasil, 1971. Enquanto percorrem a longa estrada de regresso a casa após o enterro do Coronel Gilberto Couto, o pai que nunca os reconheceu oficialmente, Jonas e Leona tentam observar o fenómeno da super-lua, anunciado pela rádio. Com eles seguem a mulher de Jonas e um misterioso estrangeiro, a quem deram boleia e do qual não se entende uma palavra. No decorrer desta viagem, a verdade sobre cada um vai sendo aos poucos revelada e vem-se a constatar que, afinal, as coisas não são exactamente aquilo que aparentam ser…

 

Frango com Ameixas – Marjane Satrapi

Em Frango com Ameixas a narrativa centra-se no tio-avô da autora, Nasser Ali Khan, um conhecido músico  que apenas é capaz de tocar no seu tar. Quando, no seguimento de um desentendimento familiar, este se parte, procura, em vão, substituir o tar. Sem sucesso. resta-lhe, tento perdido toda a vontade de viver, aguardar a própria morte.

Apesar da sombra de morte que paira em toda a narrativa, a história tem um tom algo leve, conseguindo aligeirar a componente trágica com elementos caricatos. Os relacionamentos familiares estão desalinhados e Nasser não se identifica com nenhuma das suas crianças – tempestuosas, pouco concentradas, aliadas da sua angústica com a quebra do tar.

Página a página acompanhamos o autor na sua tentativa de substituir o instrumento, viajando e encontrando brevemente uma antiga paixão. Uma paixão que terá estado no centro da sua capacidade criativa. Nasser encontra-se frustrado e deprimido e não consegue estabelecer uma empatia suficientemente forte com nenhum dos seus familiares.

Os desenhos a preto e branco destacam sobretudo as personagens, mantendo o contexto no mínimo. Os fundos escuros são, por vezes, cortados com contornos de personagens anónimas, dando o efeito desejado sem grande detalhe. Não é um tipo de desenho que goste bastante, ainda que seja competente a passar ideias e emoções (através do foco nos rostos e respectivas expressões).

Frango com Ameixas foi lançado pela Levoir em parceria com o jornal Público.

Novidade: Wolverine Vol.2 – Jason Aaron,Yanick Paquette

Já anda nas bancas o segundo volume de Wolverine com o título Demente. Eis mais informação sobre este volume, disponibilizada pela editora:

Desde a sua juventude que Wolverine tem sido tudo menos normal, enquanto viaja pelo mundo e se apaixona, ou se envolve em conflitos e perde o seu amor, no meio da mais antiga das profissões: assassino implacável. Mas, mesmo depois de um século desta vida brutal, conseguiu reflectir sobre as suas memórias, e finalmente, entender verdadeiramente quem ele é… e aquilo que ele é.

Mas agora perdeu tudo isso, memórias e compreensão, e está preso numa cela acolchoada, num asilo para loucos como nenhum outro. Sem memória de quem é, ou de como ali chegou, Wolverine está a mercê do misterioso Dr. Rottwell e dos seus guardas sádicos. E, enquanto Wolverine luta para descobrir quem ele realmente é, e como foi parar a um sanatório cheio de assassinos psicopatas, torna-se claro que os objectivos do Dr. Rottwell são tudo menos altruístas. Conseguirá Wolverine voltar aos seus sentidos antes de sucumbir a uma das terríveis curas do doutor?

Se o primeiro volume de Arma X era como um filme de acção intenso, o segundo volume é um filme de terror ainda mais intenso!

O invisível, a sua sombra e o seu reflexo – António Bizarro

Neste pequeno livro de autoria nacional o autor desenvolve várias histórias de crime centrando-se no assassino e nas suas obsessões. Algumas histórias possuem detalhes ligeiramente fantásticos mas a maioria apresenta narrativas sem qualquer elemento pouco natural.

O volume abre com uma obsessão fotográfica – uma obsessão que tem contornos mais trágicos do que inicialmente se percepciona, passando para o caso de um anjo da morte. Entre assassinos com dupla personalidade e duplas de assassinos encontramos incesto, mortes por impulso e homicidas em série com grandes planos.

Entre estes casos mais detalhados encontramos letras de músicas, poemas e contos mais curtos, como A Colónia ou O Quarto Escuro que se podem considerar de ficção científica ou Jacqueline Hyde que deambula entre a escrita de um conto e o próprio conto. Já em Leonard Pine fala-se da auto publicação como forma de atingir o estatuto de autor.

Os contos são, na sua maioria, bem construídos em termos narrativos. O autor sabe levar o enredo e tecer expectativa, desenvolver o relacionamento entre o assassino e a sua vítima e entregar, por vezes, finais pouco esperados. Digo na sua maioria porque alguns contos, mais curtos, são pequenas deambulações literárias que nos levam brevemente para outros mundos ou enredos mas que não se concretizam em histórias com príncipio, meio e fim. Julgo que o livro seria bastante mais coerente sem estes trechos.

Para quem gosta do género crime / suspense este é um livro aconselhável, com boas histórias que, decerto irão de encontro ao que pretendem. O invisível, a sua sombra e o seu reflexo foi publicado pela Coolbooks.

 

All-Star Superman – Vol. 1 e 2 – Grant Morrison e Frank Quitely

O que seria a humanidade sem o super-homem? Enquanto super-herói, o super-homem luta contra monstros e salva, sucessivamente a humanidade de grandes finais apocalípticos. Mas enquanto figura perfeita de capacidades ilimitadas (segundo a perspectiva humana) o super-homem é, também, o símbolo da perfeição inatingível, um ideal de força, poder e rectidão que nenhum poderá alcançar. Será esta a razão para a eterna frustração de Lex Luthor, transformada em vilania contra a figura que deixa na sombra qualquer ser humano.

Desta vez Lex Luthor tece um plano diferente. Um plano que levará o super-homem até ao sol, a fonte de energia das suas células. Mas, se, aparentemente o plano de Luthor tinha falhado, rapidamente percebemos que o verdadeiro objectivo era sobrecarregar as células do super-homem. Com esta sobrecarga vieram novos poderes, mas, também, a apoptose celular – o super-homem está a morrer. Lentamente.

A perspectiva de mortalidade leva o Super-homem a revelar a sua dupla personalidade a Lois Lane. Desconfiada e desconhecendo a real razão para a revelação, Lane lá se deixa levar por uma comemoração de aniversário onde irá adquirir, por 24h, os poderes do Super-homem. O dia é, como não podia deixar de ser, uma sucessão de reviravoltas, entre lutas com monstros e egos masculinos que se defrontam por uma bela dama com poderes.

Estes dois volumes estão repletos de episodios de acção. Mas também de episódios mais introspectivos. O super-homem confronta-se com a mortalidade pouco distante e tece um plano para a existência de novos seres como ele – existência futura que é comprovada pelas conversas com super-homens dos séculos seguintes. Mas não só. Cruza-se, também, com outras versões dele próprio, sejam provocadas por kriptonite negra, sejam criadas por Bizarro.

E é neste planeta Bizarro que vemos o Super-homem confrontado com uma criação à sua imagem, um bizarro capaz de pensar como nenhum  outro ser criado por aquele planeta vivo. Capaz de pensar, de criar e de aspirar ao convívio com outros mais inteligentes do que aqueles que o rodeiam. Finalmente, depois de uma sucessão de estranhos diálogos (em que tudo o que é dito pelos bizarros tem um sentido contrário e se criam outros seres bizarros semelhantes a super-heróis, mas incapazes de agir eficazmente), o Super-homem volta a salvar o dia. Apenas para enfrentar um Lex Luthor de poderes aumentados, criados à imagem de Super-homem.

Aliás, este parece ser outro elemento constante na história. O Super-homem que se fragiliza e que aguarda o seu momento final, é constantemente imitado. Seja voluntariamente (concedendo os seus poderes a Lane), ora involuntariamente com a chegada de outros outrora habitantes do seu planeta de origem, com a criação de um bizarro super-homem, ou com o ganhar de poderes por Lex Luthor.

Esta constante imitação leva-nos a pensar – afinal, o que faz do Super-homem, o Super-homem? O que o caracteriza enquanto herói? Curiosamente, não são só os poderes. Mas o ter sido criado por humanos, concedendo-lhe uma preocupação pela humanidade e pelo planeta Terra que não poderia existir em outros elementos da sua espécie, ou uma humildade que transporta para a figura humana do Clarke para ter a calma e o controlo necessários. Já os poderes e o sentido de imortalidade, são o que concedem, à personagem, o distanciamento. São os elementos que o levam a isolar-se, a conter para si os segredos da sua identidade. Seja porque é perigoso saber a sua identidade, seja porque existem diferenças biológicas que impedem determinados desenvolvimentos.

Talvez por causa da mortalidade que paira nestes dois volumes, o Super-homem é levado a confrontar o passado e o futuro. O passado sob a forma de uma visita temporal à sua juventude onde revê o pai falecido e fala consigo próprio. E o futuro ao dialogar com os futuros super que existirão nos séculos seguintes. Trata-se de uma abordagem curiosa que apenas poderia ser enfrentada com calma pelo Super-homem e que parece ter como objectivo colmatar uma ansiedade de enfrentar o seu fim.

Esta dupla de volumes vai tocando em todos estes temas sem deixar cair a acção que caracteriza normalmente o género dos super-heróis. Apesar da mortalidade pairar sobre toda a história, existem momentos mais relaxados e divertidos (como a rivalidade por uma Lane com poderes ou a entrevista de Clarke a Luthor) e momentos dedicados apenas a grandes batalhas com monstros estranhos de motivações básicas.

Digam lá que esta imagem não recorda um barquinho de Hades?

All-Star Superman foi publicado em dois volumes pela Levoir em parceria com o jornal Público e trata-se de uma história que pode ser facilmente lida por quem pouco conhece do Universo em causa.

Novidade: Solar Sailors #2 – Daniel da Silva Lopes e Francisco Ferreira

A editora Gorila Sentado anuncia novo número de Solar Sailors. Este número será lançado no dia 27 de Julho, na Legendary Books (Alvalade Lisboa), pelas 19:30h. Eis a sinopse, bem como algumas páginas disponibilizadas pela editora:

Sê discreto ao explorar a terra do Homem e conseguirás ouvir a verdade. Um Sailor, alguns Reavers, um pai e um filho dão o primeiro passo. Estão abertas as hostilidades e a cortina começa lentamente a subir.

 

Príncipe Valente – Vol.1 – 1937 – Hal Foster

Príncipe Valente é uma das mais recentes apostas da Planeta De Agostini na banda desenhada, prevendo-se o lançamento até ao último de 2018. Cada livro inclui o material publicado num ano, desde 13 de Fevereiro de 1937. Confesso que, normalmente, material tão antigo não me desperta grande interesse, mas existiam vários comentários muito positivos à série.

O que encontrei foi um volume voltado para um público mais juvenil. Talvez por isso, a história é muito movimentada e o texto que acompanha cada imagem possui o mínimo indispensável, conferindo-lhe uma passada mais leve do que esperava pela antiguidade da história. No início de cada página encontramos um pequeno texto de resumo que nos introduz à acção dos próximos blocos e que facilita a paragem em qualquer momento da história.

Com um grande foco na acção, a maioria dos desenhos possui pouca profundidade, mostrando, em primeiro plano as personagens. Em vários dos desenhos não existem qualquer imagem de fundo. Os momentos mais pausados são poucos e servem apenas como forma de arrancar a próxima aventura do Príncipe Valente.

De origens reais, o príncipe viria a nascer no exílio e cedo fica orfão de mãe, que não aguentou o clima húmido da nova localização. Aspirando a tornar-se cavaleiro, o Príncipe Valente é inventivo e destemido, enfrentando várias bestas sem medo, mas com engenho. O mesmo engenho que lhe permite engendrar uma forma de arranjar um cavalo sem ter de pagar por ele, e o mesmo engenho que lhe permite agir de forma eficaz nas várias lutas que vai travando.

Como se não bastassem estas características, o Príncipe Valente é, ainda, um rapaz justo, sem ser propriamente bondoso. Atacado nos pântanos por algo que achava ser um monstro, o Príncipe Valente poupa a vida de um homem deformado – uma vida que acaba por lhe valer os favores de uma bruxa que prevê o seu futuro.

De cores mais simples e tradicionais e com elementos mais realistas (à excepção dos monstros) Príncipe Valente é uma série de acção que se lê bastante bem, mesmo passados mais de 80 anos do seu lançamento – tal é garantindo pela estrutura e forma como vai apresentando a acção, página a página.

Novidade: O Rasto de Lorca – El Torres e Carlos Hernandez

Eis o volume desta semana da colecção Novela Gráfica:

O Rasto de Lorca, novela gráfica que a Levoir e o Público editam a 25 de Julho, dá a conhecer a vida do poeta granadino Federico García Lorca, um dos poetas mais importantes do século XX, não só da literatura espanhola, mas também da poesia mundial.

Porque este é um trabalho de autores, um intenso trabalho resultado de muitas leituras,  investigação e  entrevistas,  Carlos Hernández, desenhador e El Torres, o premiado argumentista de O Fantasma de Gaudí,(editado pela Levoir e o Público em 2018) juntaram-se para reconstruir a figura de García Lorca através de 12 histórias, em que nem sempre o poeta está presente, ainda que seja sempre a referência protagonista… Uma família que foge de Granada logo a seguir ao assassinato do poeta, uma conversa entre veteranos num bar ou Dalí sendo entrevistado sobre a importância do escritor. Em algumas ocasiões aparece retratado e noutras no papel de protagonista: doente num hotel de Havana ou ensaiando uma peça de teatro numa pequena povoação.

Em O Rasto de Lorca, descobriremos a inapagável marca que Federico García Lorca deixou em todos os que o conheceram, quer seja na sua Granada natal, quer por Madrid, Havana ou Nova Iorque cidades que visitou.

É uma obra bonita, com um desenvolvimento emocionante e interessante, que não deixará o leitor indiferente. A aproximação emotiva e reflexiva, dá diferentes pontos de vista sobre a sua figura e a sua importância, com uma evidente marca de amargura.

 

 

 

Resumo de Leituras – Julho de 2019 (3)

53 – O invisível, a sombra e o seu reflexo – Antónjo Bizarro – Neste pequeno livro de autoria nacional o autor desenvolve várias histórias de crime centrando-se no assassino e nas suas obsessões. Algumas histórias possuem detalhes ligeiramente fantásticos mas a maioria apresenta narrativas sem qualquer elemento pouco natural;

54 – Príncipe Valente – 1937 – Hal Foster – Eis uma série que, curiosamente, envelheceu bem. Talvez por ser voltada para um público mais jovem possui um bom ritmo e uma narrativa simples, que lhe permitem ser lida na actualidade sem quebras. Reconhece-se, claro, o estilo e a cor típicos da altura;

55 – Frango com Ameixas – Marjane Satrapi – Uma narrativa curiosa em que a autora explora um antepassado que, quebrado o seu instrumento musical de eleição, decide morrer. Mas poderá haver mais do que esta quebra de vontade e a autora mistura factos com outros elementos para tecer uma outra história;

56 – A metamorfose e outras fermosas morfoses – Rui Zink – Uma série de pequenos contos que exploram as fronteiras entre o ficcional e o não ficcional, entre o quotidiano e a demência.

A metamorfose e outras fermosas morfoses – Rui Zink

Este livro publicado pela Teodolito é uma pequena antologia de contos da autoria de Rui Zink. A maioria destes não pertencem explicitamente ao género da ficção especulativa, ainda que façam alusão ao género e deambulam entre a fronteira da ficção e da realidade.

O primeiro conto do conjunto, A Metaformose, retrata o quotidiano de uma família enquanto aguarda que Gregor Samsa se transforme. Talvez numa barata ou talvez noutro insecto, mas decerto que se transformará, fazendo finalmente a fortuna da família que outrora já foi rica e que, agora, lhe cobra esta transformação.

Já em O Jogo Literário um escritor disserta sobre o impacto que tem, para o seu trabalho, o corte da luz.  Principalmente quando o computador está ligado e o escritor ausente, sem possibilidade de o guardar devidamente antes do corte. E que respeito terão os trabalhadores da obra para com o seu trabalho quando pensam em desligar, assim, repentinamente, o computador?

Monzeit é uma história sobre uma personagem (será ficcional, será real) que estará por detrás de todos os grandes espaços e de todas as grandes publicações que residem na memória do narrador com grande saudade. Trata-se do episódio de encontro com esta personagem, numa longa conversa que poderá, ou não, ter existido.

Aquashow demonstra a diferença de classes perante um fenómeno natural. Alguns, mediante o pagamento de bilhete, assistem de lugar privilegiado, com todas as mordomias possíveis, podendo vivenciar do espectáculor por inteiro. Já os restantes, amontoam-se no local possível, gratuitamente, sendo alvo dos comentários dos que lá abaixo, de copos na mão, aguardam o evento.

Largar Kristeva, por sua vez, é um diálogo sobre amores e desamores, listando motivos para afastamento e proximidade. A este diálogo sucede-se Pandora Boxe que acompanha os primeiros dias de um casal na nova casa. Sem luz, sem água e sem electricidade, afastam-se progressivamente do convívio civilizado, embirrando um com o outro, pela falta destes elementos. A compilação termina com um pequeno episódio, A Gaivota e o Peixe, em que um homem é persuadido a alimentar uma gaivota, mas a cena não se desenvolve dentro dos parâmetros da normalidade.

Se, nalgumas histórias de fala da ficção como realidade, aguardando a sua concretização como se de uma profecia se tratasse, noutras historias fala-se de possibilidades e imaginações em narrativas fechadas e auto-contidas. Tratam-se, sobretudo, de jogos de ideias e de conceitos, deambulações quase circulares em que cada iteracção se aproxima cada vez mais do seu fecho. O conjunto é de leitura agradável e ralaxada, ainda que não se possa dizer, da maioria, que explora a narrativa. Algumas fazem-no de forma episódica, outras são deambulações, pensamentos que se vão expondo.