East of West – Vol.2 – Hickman, Dragotta e Martin

Depois de um primeiro volume sublime, este segundo dedica-se sobretudo a avançar as várias linhas narrativas, demonstrando a concretização subversiva da profecia em cenários de fazer cair o queixo.

Enquanto a Morte procura a localização do filho, seguindo pistas que o levam a sucessivos confrontos com indicações dúbias e finais sangrentos, acompanhamos um grupo de poderosos que tudo faz pelo cumprir da profecia, até deixar o próprio filho transformar-se num monstro.

Paralelamente assistimos ao estado da degradação das sociedades humanas, em que é possível comprar quer políticos, quer juízes, realçando-se que existirão mais juízes comprados – não que sejam piores seres humanos que os políticos, mas por serem mais baratos.

Tal estado social causa revolta e não é de estranhar que se sucedam os casos de violência e revolta, que aumentam com o acumular da tensão resultante da injustiça e da pobreza de espírito.

Sem o factor surpresa do primeiro volume, este segundo mantém os mesmos elementos, prosseguindo lentamente com as várias linhas narrativas em cenários extraordinários, quer pela imensidão, quer pelos elementos fantásticos. Mais pausado, não provoca o mesmo impacto no leitor mas mantém um bom nível de qualidade e interesse para os volumes seguintes.

Resumo de leituras – Julho de 2017 (5)

97 – Lugar Maldito – André Oliveira e João Sequeira – Uma história de terror centrada numa casa amaldiçoada, local de refúgio de um jovem casal que se pretende unir. Fugidos das autoridades, sob pressão emocional e num local pouco hospitaleiro, não é de estranhar que os relacionamentos comecem a ficar contaminados, assombrados pelas sombras que circundam a casa;

98 – The Walking dead Vol.3 e 4 – Robert Kirkman, Charlie Adlard e Cliff Rathburn – Os dois volume seguem o grupo de sobreviventes que encontra, numa prisão um possível refúgio para se instalarem. Na prisão encontram quatro seres humanos não transformados, reclusos com um passado duvidoso que instiga a imaginação e a dúvida dos restantes. Uma mistura explosiva com o desespero palpável que irá ter o desfecho esperado;

100 – Jardim de Inverno – Renaud Dillies e Grazia la Padula – Fofo e envolvente, demonstra a solidão da cidade e o progressivo afastamento dos entes queridos no seguimento do cinzento urbano. Felizmente existem eventos que fazem contrariar esta espiral descendente.

Lugar Maldito – André Oliveira e João Sequeira

Um livro de banda desenhada que tenha como narrador André Oliveira tem logo vantagem para ser um livro de sucesso. Não é excepção este Lugar Maldito, uma história de terror actual centrada numa casa amaldiçoada no meio do bosque, rodeada por sombras assustadores.

Local de refúgio de um jovem casal que fugiu para se unir, a pressão emocional da fuga exacerba-se com a existência num local pouco hospitaleiro. Perseguidos pelas autoridades e observados por sombras que se movem, não é de estranhar que o relacionamento entre os dois se contamine e se degrade progressivamente.

A juntar à pressão da fuga, a própria casa tem uma história negra que lentamente se faz sentir não só nos que rodeiam o casal, como em Samuel que sente ciúmes do irmão e incompreensão da namorada e que se deixa consumir pela raiva galopante.

Lugar Maldito foi publicado pela Polvo.

Fatale – Vol. 5 – Ed Brubaker e Sean Phillips

Negro e lovecraftiano, Fatale é uma daquelas séries extraordinárias em que só nos apercebemos da dimensão no segundo ou terceiro volume. O primeiro intrigou-me mas não o suficiente, no seu tom pausado que fazia antever a existência de alguns mistérios, sem me mostrar o quão profundo eram.

Os volumes seguintes mostraram a existência de eventos cíclicos, inevitáveis, que ocorriam em torno de uma mulher fatal, uma mulher de palavra inquestionável por todos os homens que permanece inalterável ao longo dos anos e é perseguida por uma poderosa seita.

O poder desta mulher corrompe o que a rodeia, e se no início apenas se denota o fascínio masculino, depressa se torna obsessão violenta para com a própria ou percepcionados rivais. De catástrofe em catástrofe vamos acompanhando os eventos, e percebendo que a quebra do ciclo se aproxima.

De uma dupla quase perfeita, Ed Brubaker e Sean Phillips, esta série fecha com um final simples mas movimentado, materializando a tensão violenta que se acumulava desde o início mostrando que a presa também pode ser a predadora. A série Fatale foi publicada em Portugal pela G Floy.

Restantes volumes

Resumo de leituras – Julho de 2017 (4)

 

93 – Fatale Vol.5 – Ed Brubaker e Sean Phillips – O quinto volume fecha esta extraordinária série com detalhes lovecraftianos, carregada de violência em torno de uma femme fatale a cuja voz poucos homens conseguem resistir. Simultaneamente presa e predadora, mas de consciência clara, esta mulher irá resistir ao papel de sacrificada num culto com um final movimentado;

94 – The new voices of fantasy – Vários autores – Compilação de histórias dos novos autores de fantasia que se têm destacado com prémios para os contos publicados em revistas. Bem escritas e diversas, a maioria das histórias apresenta novas tendências no género, de fronteira menos sólida e premissas menos comuns;

95 – O Homem que passeia – Jiro Taniguchi – Do genial Jiro Taniguchi é publicada esta nova versão do livro, onde acompanhamos os vários passeios de um homem que não percorre caminhos lineares, deixando-se levar por onde a curiosidade chama, por vezes à deriva, noutras com propósitos claros;

96 – Shenzhen – Guy Delisle – Menos interessante que outros livros de Guy Delisle, apresenta um cenário mais monótono onde pouco acontece, e o autor quase não tem interacção com as pessoas que o circundam (por dificuldades linguísticas). De destacar, como sempre, o humor do autor e a capacidade para representar o caricato.

Lightspeed Magazine June 2017

A Lightspeed Magazine continua a ser, para mim, uma das melhores revistas de ficção especulativa do mercado, ou não estivesse a cargo de John Joseph Adams, uma das raras pessoas de quem costumo gostar de todas as antologias. Trazendo duas secções de contos, uma de ficção científica, outra de fantasia, possui ainda uma novela, excertos de alguns livros, críticas e entrevistas.

Este número começa com Yakshantariksh, um conto publicado originalmente em The Bestiary que nos apresenta seres enormes, invisíveis, apenas perceptíveis mentalmente, que projectam imagens de outros Universos e uma enorme solidão.

Marcel Proust, Incorporated de Scott Dalrymple é uma história genial de como o próprio futuro das pessoas é feito refém, ao se poder retirar a educação (que é antes uma licença) se não se pagar o respectivo empréstimo ao banco. Neste conto cria-se uma substância capaz de acelerar e melhorar exponencialmente a memória, mas se se deixar de tomar esta substância todo o conhecimento adquirido durante a toma da droga, desaparece. Se por um lado o conhecimento adquirido pode deixar de ser válido, por outro, pode desaparecer totalmente.

O conto de Elizabeth Bear, The Heart’s Filthy Lesson mostra a capacidade de adaptação dos seres humanos, que, mesmo noutro planeta, se mantém orgulhosos e com necessidade de mostrar que são capazes dos maiores feitos pondo a própria vida em risco.Já Love Engine Optimization é uma história arrepiante de como uma sociopata usa as suas extensas capacidades informáticas, para obter todas as informações necessárias para que as suas vítimas se apaixonem irreversivelmente.

Enquanto que em World of the Three de Shweta Narayan existem seres mecânicos com extensas capacidades que podem ser, até, reis, em The Magical Properties of Unicorn Ivory de Carlos Hernandez uma experiência num laboratório de físico leva a que elementos de uma realidade paralela sejam transportados para o nosso, como Unicórnios que alguns humanos se divertem a caçar por acreditarem nas propriedades mágicas dos seus chifres.

Depois de dois contos que achei pouco relevantes ou interessantes, Iseul’s Lexicon de Yonn Ha Lee é uma novela extraordinária que nos apresenta uma realidade mágica onde alguns feitiços perduram, mais fracos, com a morte da raça inteligente que os criou. Ou será que morreram mesmo? Enquanto rouba a casa de um mágico enfrenta uma criatura que supostamente não existe, e a longa batalha de submissão volta a reacender-se.

De diferentes premissas, cruzando algum horror nalgumas histórias, como já é habitual na Lightspeed, esta edição de Junho vale bem o valor investido, não só pela diversidade, como pela qualidade do conteúdo.

Resumo de leituras – Julho de 2017 (3)

89 – Saga Vol.6 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples – O sexto volume da série reposiciona algumas das personagens principais, em episódios mais calmos do que os do volume anterior, permitindo lançar as bases para novos desenvolvimentos;

90 – Tony Chu – Vol.6 – John Layman e Rob Guillory Também sexto volume mas de Tony Chu, centra-se mais na irmã da personagem principal e está carregado de trechos hilariantes e imaginativos, numa explosão de criatividade cómica que torna este volume um dos melhores mais da série;

91 – Diálogo das compensadas – João Aguiar – Não esperem um romance histórico a desviar-se para o fantástico, antes um livro passado num futuro pouco distante em que a carreira do novo director da produção numa empresa de computadores depende de concretizar negócio com um convento de freiras;

92 – Outlaw of Gor – Vol.2 – John Norman – O segundo livro continua no mesmo Universo, mostrando uma nova aventura numa cidade de estrutura bastante diferente das apresentadas no primeiro – aqui são as mulheres que governam! O nosso herói desvia-se da demanda principal (a procura do motivo pelo qual a sua cidade foi destruída) para se envolver numa revolução.

Saga Vol.6 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples

No sexto volume de Saga voltamos a encontrar a família mais improvável de sempre – Marko e Alana eram dois soldados de fracções opostas, duas civilizações que guerreiam há séculos, opondo magia e ciência, que se apaixonaram e deram origem a Hazel, um símbolo de união que põe ambos os lados a persegui-los por toda a galáxia.

De peripécia em peripécia, de planeta em planeta, fugindo de militares robots e mercenários sanguinários, a família sobrevive, mas separada. Alana e Marko estão juntos, mas numa tentativa de salvar a criança, a avô está com Hazel numa prisão para prisioneiros de guerra, escondendo as asas das costas de Hazel que a denunciariam como o resultado de uma união impossível.

Aproveitando o clímax violento atingido no anterior volume, este é mais pausado e move as personagens para novas posições onde será possível uma nova dinâmica. Os dois jornalistas que foram forçados a largar a investigação da existência de Hazel percebem que podem retomar, Hazel irá deixar a avô e o príncipe robot será envolvido numa nova tentativa de reunir toda a família.

A premissa de Saga pode não ser totalmente original (família separada pela guerra, um amor que ultrapassa a barreira de povos inimigos de longa data, a geração de uma nova pessoa que representa a união impossível) mas a forma como a explora, caracterizando de formas bastante distintas cada civilização e, sobretudo, os episódios hilariantes e imaginativos transformam a série numa excelente banda desenhada de ficção científica.

Série vencedora de vários prémios Eisner, Goodreads, Hugo e Harvey, entre outros, Saga está a ser publicada em Portugal pela G Floy.

 

 

The new voices of fantasy – Vários autores

O mercado anglo-saxónico de ficção especulativa vai-se renovando, seguindo novas tendências, estilos e culturas, gerando cruzamentos impensáveis entre géneros em contos que reflectem as preocupações do seu próprio tempo. Ao longo dos anos vão surgindo novos autores que começam a ser conhecidos pelos contos destacados por prémios ou em antologias de melhores do ano. Este volume pretende reunir algumas histórias destes novos autores e destacá-los como promissores para os próximos tempos.

A antologia começa com um conto de Alyssa Wong, a quarta história publicada da autora, com a qual venceu o Nebula e o World Fantasy Award (a mesma história que foi, também, nomeada para um Shirley Jackson, um Bram Stoker e um Locus Award). Claro que prémios e nomeações não são garantia de boas histórias, mas este conto, Hungry Daughters of Starving Mothers contém detalhes de horror e fantástico num cenário actual onde a corrupção alastra, resultado do consumo imediato e da fome interminável.

Selkie stories are for losers é a história seguinte da autoria de Sofia Samatar, uma autora que não é propriamente uma voz emergente, antes uma autora já reconhecida no género com histórias como A Stranger in Olondria que venceu vários prémios. Cruzando lendas diversas sobre mulheres que se mantém entre os humanos até ao momento em que alguém encontra a sua antiga pele (ou descobre que são algo mais do que parecem), esta história quase banal consegue surpreender pela estrutura e desenvolvimento.

Depois de tornados apaixonados por raparigas (em Tornado’s Siren de Brooke Bolander que apenas possui como elemento distintivo o tornado capaz de sentimento) encontramos Left the century to sit unmoved de Sarah Pinsker que nos traz um fenómeno local, um lago que faz desaparecer totalmente algumas pessoas sem critério específico – mesmo depois de drenado o lago apenas se encontram os objectos e roupas da pessoa.

Max Gladstone também não é propriamente um autor desconhecido, escrevendo sobretudo fantasia urbana. Em A Kiss With Teeth não foge ao género mas apresenta uma das melhores histórias do conjunto, com um tom levemente cómico sobre as preocupações de um pai que vê o seu filho ter más notas. Como pai tenta perceber o que se passa, mas a sua própria natureza torna difícil ajudar sem dicas da professora, a presa perfeita. Ah. É que o pai é um vampiro reformado que tenta passar por humano, simulando os nosso gestos e forma de andar.

Em The Cartographer Wasps and the Anarchist Bees de E. Lily Yu explora-se uma premissa que não é totalmente nova. Recordo que em The Bees de Laline Paull já se apresentava a vida numa colmeia apresentando aspectos sociais da hierarquia e como esta poderia ser subvertida por um único elemento. Confrontando as abelhas com as vespas possuidoras de uma tecnologia mais avançada este conto de E. Lily Yu consegue ser um relato apaixonante sem necessitar de se centrar num único elemento, e comparar vários sistemas de sociedade.
A. C. Wise traz-nos outro dos melhores contos do conjunto, um guia cómico de como a bruxa pode arranjar uma casa. Começando com as formas aborrecidas como aquisição e ocupação, passa por nos apresentar como se pode domar uma casa ou fazer crescer uma, expressando para cada método os cuidados a ter (os humanos podem não gostar muito de ter uma bruxa dentro de casa e podem tentar queimá-la, por exemplo, ou a casa pode pregar partidas a quem a tenta influenciar).
Depois de Hauting o Apollo A7LB (um conto que já conhecia da excelente colectânea do autor Hannu Rajaniemi), segue-se uma história irónica de Chris Tarry, Here be dragons, onde dois homens simulam a existência de dragões para extorquírem dinheiro das vilas mostrando depois entranhas de vários animais como prova de uma chacina. Um dia esta trapaça pode voltar-se contra os supostos salvadores – de mais formas do que o leitor imagina.
Mais juvenil, mas enternecedora pela forma inocente e desiludida como nos apresenta o amor de um pato por uma rocha, The Duck de Ben Loory é um dos contos que vale a pena ler, nem que seja para ver a forma como transforma este premissa simples e aparentemente idiota numa boa história.
Publicado no The New Yorker, The Philosophers de Adam Ehrlich Sachs traz uma história demente de problemas genéticos hereditários que supostamente não trariam problemas psicológicos. Geração após geração, os homens desta família perdem na idade adulta todos os movimentos e passam a comunicar com os restantes recorrendo ao piscar de olhos com o intuito de transmitir as próximas palavras do seu livro. Arrepiante, claustrofóbico e assustador pela degradação, é um bom conto que vai elevando a premissa ao extremo absurdo .
Esta colectânea termina com uma novela mais longa, The Pauper Prince and the Eucalyptus Jinn, de Usman T. Malik, que se centra na problemática da emigração e da integração cultural sob uma fábula contada pelo avô (talvez demente) que recorda interacções com princesas e génios e que foi mudando de país em país até atingir determinados objectivos. Demonstrando como existe sempre muito para revelar da vida dos nossos antepassados, segredos dolorosos que ficaram enterrados, feitos que se silenciaram pelas circunstâncias, esta é uma novela excelente.
Ainda que não tenha apreciado todos os contos de igual forma, até porque os estilos e géneros são muito diversos, esta colectânea possui uma qualidade narrativa bastante elevada. Nem todas as histórias apresentam elementos que se destaquem pela originalidade, mas todos se encontram bem escritos e estruturados. São, na sua maioria, contos que possuem o necessário para envolver, mas sem excesso de detalhes que quebrem o ritmo ou desbalanceiem a história. Para os interessados em se actualizar para o que tem sido publicado recentemente, eis uma boa aposta.
(esta colectânea foi fornecida pela editora via NetGalley)

Criminosos do sexo – Vol.2 – Fraction e Zdarsky

Há poucos livros que consigam falar de sexo sem se assemelharem a adolescentes nervosos. E muito menos de uma forma que demonstra poucos preconceitos e limitações morais que, entre adultos capazes de consentimento só a eles lhes diz respeito. Criminosos do sexo consegue, nestes dois volumes, apresentar um super poder associado a orgasmos e explorar de forma bastante natural várias vertentes, passando por fetiches, trabalhadores do sexo e ginecologistas de forma bastante madura.

Depois de assaltarem bancos recorrendo à capacidade de pararem o tempo quando têm um orgasmo, Jon e Suzie percebem que a polícia do sexo se pretende vingar deles quando a tentativa de pegar o empréstimo da biblioteca falha e se inicia a demolição do edifício.

Para além de verem o objectivo dos seus esforços a cair por terra, Jon e Suzie debatem-se com o esmorecer do desejo sexual – por um lado Suzie iniciou a toma da pílula, por outro, Jon voltou aos medicamentos receitados pelo psicólogo. Neste seguimento Suzie vai ao ginecologista e é atendida por um médico novo que, dadas as características especiais do colo do útero, solicita que os estagiários a examinem. Já Jon, ao expor as suas maleitas a um desconhecido no centro comercial encontra um psicólogo que auspicia ser mais competente.

Ultrapassadas algumas barreiras decidem iniciar um plano para atacar a polícia do sexo recorrendo a outros que, tais como eles, possuem poderes associados aos orgasmos. Neste caso trata-se de uma ex-trabalhadora do sexo que agora é uma académica no tema e que, tal como eles, explora o assunto mas sem saber que não é a única com tal capacidade.

Mantendo uma linha narrativa, ainda que de forma pouco coesa, Criminosos do sexo consegue debater o tema sem juízos de valor e algum humor que usa de forma informativa e adulta, tornando-se este aspecto mais interessante do que o enredo em si.

A série Criminosos do sexo é publicada em Portugal pela Devir.

Outros volumes

The Autumnlands – Vol.2 – Kurt Busiek e Benjamin Dewey

Este segundo volume faz perder todo o glamour da aura fantástica do mundo apresentado no primeiro para ganhar a maior profundidade da ficção científica, com o cruzamento de seres de diferentes origens e diferentes universos, reviravolta que já se podia auspiciar de alguns detalhes anteriores, mas que aqui se concretiza de uma forma estrondosa, mas mantendo grandes mistérios que decerto serão explorados nos volumes seguintes.

Animais falantes e inteligentes em cidades suspensas pela magia – assim é o mundo que nos apresentaram no primeiro volume, em que a estabilidade hierárquica está ameaçada pela diminuição da magia ficando as cidades mais vulneráveis aos bárbaros que subsistem noutros terrenos pelo trabalho manual.

Por esse motivo os grandes mágicos reúnem-se e gastam os últimos recursos em trazer ao seu mundo um herói mítico que, esperam, possa repor a magia. O que aparece é um humano que, não sendo capaz de manipular a magia é perito em estratégia bélica e os leva a uma vitória duvidosa ao recorrer a armadilhas pouco éticas.

Depois da batalha, herói humano e jovem feiticeiro são arrastados pelo rio para as terras do inimigo, procurando, entre a floresta, uma forma de retomar ao seu território. No início do retorno o humano encontra um ser de aspecto humano, de tecnologia avançada, que o toma por alguém a cargo de um rival de profissão, dando-lhe comida e roupa, enquanto discursa sobre a rivalidade sem perceber que o humano não faz parte do seu mundo.

Mantendo o ritmo pausado e as dissertações mais longas entre fascículos, The Autumnlands surpreendeu pela forma como se transmutou de narrativa fantástica em narrativa de ficção científica, demonstrando que o mundo apresentado é, tal como as pistas anteriores indicavam, bastante mais complexo do que uma realidade baseada em magia.

Neste mundo vigiado por seres bastante poderosos, descritos pelos nativos como deuses, existem plataformas de divertimento com uma vasta literatura, que são abertas, não com um “abre-te sésamo”, mas com referências literárias do nosso mundo.

Com um visual rico, variado e detalhado, The Autumnlands promete transforma-se numa das melhores séries da Image que já tive oportunidade de ler – estou curiosa para perceber onde nos vão levar todas estas pistas literárias que se entre cruzam em mistérios cada vez mais profundos!

Outros volumes

Destaque: Anjos de Carlos Silva

Independentemente de conhecer, ao vivo e a cores, o Carlos Silva, e de reconhecer o seu excelente trabalho na divulgação e dinamização da ficção especulativa, Anjos seria sempre um lançamento que me entusiasmaria por conta de outros trabalhos de ficção que tive oportunidade de ler e dos quais gostei. Por outro lado, Anjos foi o vencedor do prémio Divergência!

Deixo-vos a sinopse:

Numa Lisboa futurista, reconstruida após um terramoto ainda maior do que o de 1755, a informação é mais preciosa do que nunca. A mais delicada e desejada não pode correr o risco de circular pela omnipresente Internet — tem de voar sobre ela, nas mãos inefáveis daqueles que se auto-intitulam de Anjos. Mas nem eles estão seguros, agora que os seus inimigos sabem da terrível arma da qual são guardiões. Um engenho apenas possível no passado, capaz de inverter a balança do poder da nova cidade. O círculo está a apertar, cada vez mais letal. Ninguém sairá ileso.

Resumo de leituras – Julho de 2017 (2)

85 – The Autumnlands – Vol.2 – Kurt Busiek e Benjamin Dewey – O segundo volume apresenta a perspectiva tecnológica deste mundo demonstrando que é tão ou mais complexo que o que se previa com as pequenas pistas deixadas no primeiro. Este mundo carregado de magia estará a ser vigiado por seres bastante poderosos com um vasto conhecimento tecnológico que deixaram plataformas de divertimento no planeta;

86 – Criminosos do sexo – Vol. 2 – Matt Fraction e Chip Zdarsky – O segundo volume apresenta mais pessoas capazes de parar o tempo com um orgasmo e o seu relacionamento com o sexo. Um dos pontos fortes é exactamente a forma como apresenta várias vertentes sexuais, desde trabalhadores do sexo a ginecologistas ou fétiches, de uma forma isenta de preconceito ou conotação negativa;

87 – Nimona – Noelle Stevenson – Num ambiente medieval um vilão que gosta de ciência recebe uma nova ajudante, Nimona capaz de se transformar em qualquer animal. De difícil controlo, Nimona vem desbalancear o equilíbrio entre as forças do bem e do mal, pondo em curso uma série de eventos reveladores;

88 – Pétalas – Gustavo Borges e Cris Peter – De uma fofura extrema consegue, sem palavras, apresentar uma história comovente que envolve o leitor de forma fascinante.

Tony Chu – Vol.6 – Bolos Janados – John Layman e Rob Guillory

Se achavam que, com o alongar da série, a temática dos super-poderes associados a comida se esgotava, desenganem-se. Este sexto volume é tão intenso em detalhes cómicos, inusitados e mirabolantes que arrisco a referi-lo como um dos melhores da série, até agora.

Retirando o foco de Tony Chu e do seu colega, este volume segue a irmã, Toni, que apresenta características bastante diferentes do irmão – relaxada, divertida com uma pitada de irresponsável, mas possuindo, também, capacidades psíquicas associadas ao que come.

Se por um lado se investigam quadros com paladar que, dão, a quem os lambe o sabor da comida desenhada, por outro tenta-se perceber a origem da chuva de ovelhas que causou uma catástrofe. Entre investigações, Toni da NASA, passa os dias a cruzar-se com Caesar, sem que este se recorde de onde reconhece Toni. Mas se Caesar não se recorda, já Toni apresenta os múltiplos episódios mirabolantes os seus caminhos se cruzaram, nem sempre em circunstâncias legais .

Entre passagens de moda com roupa feita de carne, e vagas explosivas, assistimos, ainda, à entrada de Poyo no Inferno onde defronta demónios a torto e a direito. Galo de capacidades assustadores, Poyo é o grande herói deste livro.

De tom um pouco mais pesado do que é usual, este sexto volume apresenta detalhes deliciosos centrando-se em personagens mais rebeldes e menos seguidoras da lei, enquanto continua a apostar no visual colorido e caricato que ajudam a manter uma aura cómica, apesar dos detalhes nojentos associados à comida. A série Tony Chu continua, sem dúvida, em grande!

Resumo de leituras – Julho de 2017 (1)

81 – War for the Oaks – Emma Bull – Um dos primeiros livros de fantasia urbana que traz, para o cenário de uma cidade, as guerras e as influências das fadas (e das criaturas que pertencem a esse mundo) não é, em comparação com outros mais recentes, excelente. Percebemos o clima de tensão romântica que se vai acumulando, numa fórmula que é, hoje em dia, comum mas consegue ter elementos interessantes na forma como explora as componentes sobrenaturais;

82 – Wintersmith – Terry Pratchett – Livro de vertente mais juvenil, Wintersmith pertence ao mundo fantástico de Discworld e retoma a temática das bruxas, centrando-se numa jovem que, como todos os jovens, comete acções irreflectidas. No caso, sendo uma bruxa, estas acções têm consequências muito mais pesadas. Com as habituais tiradas divertidas de pequenos toques irónicos, é uma leitura engraçada;

83 – Cidades – Vários – Esta colectânea de histórias de banda desenhada reúne o trabalho de vários artistas do The Lisbon Studio, apresentando, de uma forma geral, um bom trabalho gráfico aliado a uma boa narrativa. Com uma boa diversidade de estilos esperemos que seja apenas o primeiro volume de muitos desta cooperação;

84 – A Morte é uma Serial Killer – Valentina Silva Ferreira – Não sabia o que esperar e ainda bem. O que encontrei foi uma boa narrativa com uma excelente capacidade para apresentar diálogos (o que é raro nos escritores portugueses) numa história em mosaico que apresenta o surgir de monstros humanos.

Nimona – Noelle Stevenson

Obra vencedora do prémio Eisner, Nimona é uma aventura divertida com dragões, castelos e muitos episódios mirabolantes onde os heróis são as personagens menos prováveis e as meninas são muito mais do que aparentam!

A história começa com Nimona a apresentar-se como a nova ajudante do vilão local, enviada pela Agência. Bem, na verdade, não foi enviada pela Agência, mas pretende ocupar o lugar de ajudante e para tal demonstra as suas capacidades de transmorfa, assumindo várias formas diferentes.

De utilidade promissora, o vilão lá aceita Nimona e mostra-lhe os planos para o próximo ataque. Claro que Nimona, no seu entusiasmo, acha os planos demasiado pobres e propõe uma série de actividades perigosas que são rejeitadas. De nada serve a rejeição. Difícil de controlar, Nimona age por conta própria durante o ataque, causando estragos bastante maiores do que os planeados.

Apesar do feitio explosivo de Nimona estabelece-se entre os dois um engraçado relacionamento, de alguma confiança e cumplicidade, uma amizade pouco usual que acaba por demonstrar que a rapariga transmorfa é muito mais do que diz ser.

Ao apresentar detalhes mais sérios e tristes, consequências das acções que vislumbramos, Nimona revela-se ser uma obra sem condescendências, apesar dos detalhes mirabolantes e divertidos que tornam a história movimentada e espirituosa.

Nimona foi publicada em Portugal pela Saída de Emergência.

Resumo de leituras – Junho de 2017 (3)

77 – História Natural da Estupidez – Paul Tabori – Um divertido compêndio de estupidez humana que vai focando diversos aspectos sociais ou económicos, referindo alquimistas, leis, mitologias ou questões pseudo-científicas (com especial destaque para os medicamentos usados na idade média, em que era mais provável morrer da cura do que da doença);

78 – Manual de Etiqueta – José Vilhena – O terceiro livro de Vilhena pela E-Primateur é uma deliciosa compilação de normas subversivas de etiqueta acompanhadas por tiradas irónicas que conseguem estar tão actuais como na época em que foram escritas;

79 – Farmer in the sky – Robert A. Heinlein – Livro de ficção científica direccionado para um público mais juvenil que se centra na colonização de Ganimedes. Com algumas imprecisões científicas, é uma história simples mas suficientemente envolvente para conseguir cumprir o papel de entretenimento;

80 – Tarnsman of Gor – John Norman – Na mesma onda que histórias como John Carter, traz uma aventura num mundo de detalhes quase medievais em tecnologia (ainda que se perceba que existe tecnologia muito avançada mas que é detida apenas pela obscura facção religiosa), onde as cidades são autónomas e rivalizam entre si.

Resumo de leituras – Junho de 2017 (2)

73 – O Incrível Hulk – Part 2 – Greg Pak, Carlo Pagulayan e Aaron Lopresti – Se o primeiro volume parecia trazer “apenas” um  bom cenário para lutas mirabolantes, este apresenta algumas variantes interessantes numa história que parecia demasiado cliché;

74 – O Grande Baro e Outras histórias – Virgilio Piñera – Conjunto de excelentes histórias com detalhes deliciosos;

75 – Babel-17 – Samuel R. Delany – Um clássico no género da ficção científica que apresenta a linguagem como capaz de influenciar conhecimento e inteligência, bem como a percepção do mundo. Uma história movimentada que apresenta detalhes culturais interessantes;

76 – Os Monstros que nos habitam – vários – A mais recente antologia da Editorial Divergência reúne histórias sobrenaturais de vários autores nacionais num conjunto que representa várias vertentes do género, desde criaturas sobrenaturais a bruxas e fenómenos inexplicáveis.