Fantasmas da Mente – Paul Tremblay

Livros de terror que envolvem exorcismos não costumam ser a minha leitura habitual. Ainda assim, este foi muito bem recomendado, e tem recebido excelentes críticas internacionais, pelo que me senti curiosa. O que encontrei é uma história sobre uma adolescente possuída, contada, quase sempre, pela perspectiva da irmã mais nova.

A família Barrett está em processo de degradação económica. O pai, desempregado e desocupado desespera, enquanto a mãe constitui o único sustento da família. Os problemas que começam a surgir são, à primeira vista, os típicos de um agregado em tais condições. A frustração dá lugar a brigas entre o casal e as filhas tentam lidar com a situação isolando-se ou criando os seus próprios mundos.

Merry, a filha mais nova, começa a aperceber-se que a irmã está estranha quando, numa normal sessão em que inventam contos, a história que é proferida é de horror – mas real, citando um acontecimento histórico em que várias pessoas terão ficado presas num mar de melaço e falecido tragicamente. Seguem-se as ameaças e os períodos de transe em que Marjorie, a mais velha, refere ouvir vozes antigas que lhe darão conhecimentos estranhos.

Desesperado, o pai procura, na religião, uma salvação. Por sua vez, a mãe prefere recorrer à ciência mas, não havendo melhoras visíveis com os medicamentos, cede ao acompanhamento por padres com vista a um exorcismo. Em cima de todo este processo, a família é levada a assinar um contrato televisivo para fazer parte de um reality show, prevendo-se que todos procedimentos sejam filmados e visualizados a nível nacional.

Com o programa televisivo expõe-se o problema familiar. Chegam os manifestantes e começa o ostracismo da família na comunidade. A escola torna-se cada vez mais difícil. Mas, ao menos, o dinheiro flui e podem finalmente comer outra coisa para além de massa. Entre operadores de câmara e manifestantes, a vida das jovens torna-se ainda mais isolada e estranha. Merry sente que a irmã mais velha se torna o foco da vida familiar e tenta fazer amigos entre os operadores do programa televisivo. Marjorie tem crises cada vez mais fortes, mais violentas e aterradores e ainda que diga a Merry que tudo não passa de fingimento, as suas justificações são pouco convincentes.

A história centra-se, sobretudo, na visão infantil dos acontecimentos, dada por Merry. Esta visão é alternada por pequenos episódios de uma Merry adulta e por entradas num blog em que se relata um parecer sobre o reality show. Mesmo com todos estes elementos ficamos sem perceber se é suposto acreditarmos numa possessão ou apenas numa crise psicológica – são-nos fornecidas pistas em ambos os sentidos e todos os elementos são dúbios.

O que percebemos, com certeza, é que o ambiente familiar se degrada a passos largos. A religião não fornece o apoio necessário ao pai que age de forma irregular. A mãe refugia-se na bebida, arrependida por ter cedido o espaço privado às câmaras e por ter cedido à prática do exorcismo. Paira uma sensação de impotência que quebra todos os envolvidos, mas, sobretudo, os progenitores – incapazes de tornar a filha saudável e de tomar as decisões correctas (se é que as existem).

Sem apresentar uma versão definitiva dos acontecimentos, Fantasmas da Mente é um page turner, uma história que nos impulsiona a querer saber o que acontece e que consegue surpreender, apesar das pistas que antecipam os episódios determinantes. Trata-se de uma premissa bastante simples, até vulgar, que cativa pela forma como é desenvolvida. No final, podemos fazer várias interpretações – mas qualquer uma delas é inquietante.

Fantasmas da mente foi publicado em Portugal pela TOPSELLER e venceu o prémio Bram Stoker de 2015. Curiosamente, na sessão de The Politics of Horror (Worldcon 2019) o livro foi referido por ser um bom exemplo de crítica social que subverte O Exorcista.

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Resumo de leituras – Agosto de 2019 (1)

61 – Osso – Rui Zink – Tal como a Instalação do Medo, este livro do autor decorre num espaço fechado, baseando-se na totalidade na conversa entre duas pessoas, neste caso, um homem preso por tentativa de terrorismo e o seu interrogador. A conversa desenvolve-se, por vezes de forma circular resultando numa maior comunicação entre os dois do que o interrogador pretende. O final tem traços fantásticos, apesar de toda a restante narrativa não ter elementos fora do comum;

62 –O Rasto de García Lorca – Carlos Hernández e El Torres – Enquanto outras narrativas tentam reconstituir o autor através da biografia, esta narrativa centra-se no vazio que o artista deixou nos amigos e na sua terra de origem. Trata-se de uma narrativa em que o artista é, sobretudo, uma figura ausente e se caracteriza exactamente por essa ausência;

63 – Fantasmas da Mente – Paul Tremblay – Uma narrativa curiosa de horror que conta, pela perspectiva de uma menina, os transtornos psicológicos da irmã que se julga possessa. A própria narrativa não tenta impor uma interpretação sobrenatural, deixando  no ar pistas para todas as dúvidas possíveis;

64 – Punk Rock Jesus – Sean Murphy – Este volume da colecção comemorativa dos 25 anos da Vertigo apresenta o retorno de Jesus pelas mãos da ciência. Numa espécie de reality show é explorado este retorno, com a apresentação de uma jovem inseminada com aquilo que se julga ser o clone de Jesus. O responsável pelo programa determina a educação do menino e controla todos os que directa, ou indirectamente, participam – com consequências catastróficas.

Worldcon Dublin

Estarei aqui nos próximos dias, entre palestras, pedidos de autógrafos e muito mais. Por esse motivo (e por causa das férias) o blogue terá um período de pausa. Aproveito também para informar as palestras das quais farei parte:

The Politics of Horror – Domingo, dia 18 de Agosto, 12:00-12:30

Participantes: F. Brett Cox, Rosanne Rabinowitz, Charles Stross, eu.

Is horror political? Should it be? How do the metaphors of horror map onto social and political concerns? What creators are using horror to engage with the contemporary political climate right now?

Games for Science – Segunda, dia 19 de Agosto, 11:00 -12:50

Participantes: Tom Lehmann, Steve Jackson, Bob, eu.

STEM-inspired games have been growing and getting more popular in recent years, with Pandemic as one of the most well-known examples. Board and video games now cover biology, evolution, and terraforming Mars. We’ll look at the use of science in games and how it can encourage interest in science and engineering game designers and players discuss this trend.

 

 

 

City of Miracles – Robert Jackson Bennett

 

Bem vindos a uma das mais fabulosas trilogias de fantasia! A Cidade das Escadas transforma-se, neste livro, na Cidade dos Milagres! Entre divindades desaparecidas e restos de milagres, subsistem os filhos dos Deuses, esquecidos de quem são. Órfãos e abandonados que procuram, nas famílias humanas, uma nova história.

De volumes independentes, esta trilogia apresenta-nos um mundo em que duas civilizações distintas estiveram em guerra – uma baseada na magia e outra na tecnologia. Venceu a da tecnologia, mas com um preço elevado para o mundo em que se encontram.

A premissa é razoavelmente simples (sobretudo no primeiro volume) mas eficaz. Mas o que torna esta trilogia excepcional são as personagens e o enredo. Nenhuma personagem é totalmente boa ou má (sendo que as piores acções são justificadas) ainda que estejamos, claramente, a torcer pelo lado mais humano. Já o enredo fornece as necessárias reviravoltas que permitem um bom ritmo de episódios de acção.

As personagens

Neste volume a personagem principal é Sigrud. Ex-espião, com um treino militar extens, Sigrud é a personagem principal e é através dele que seguimos a maioria dos episódios. Apesar da passagem dos anos, mantém um aspecto relativamente jovem enquanto aguarda por melhores dias enquanto lenhador (tem a cabeça a prémio e a profissão permite-lhemanter-se escondido). Ao saber da morte de Shara – uma ex-colega de missões com a qual tinha um relacionamento especial – sai rapidamente do disfarce, determinado a eliminar todos os que estejam envolvidos.

Shara, para além de também ter recebido treino para espiões, já era, nos volumes anteriores, uma figura politicamente relevante. Aquando da morte era ministra. Tendo tido um papel importante na morte dos deuses, a par com Sigrud, teria agora um programa de proteção de crianças que é muito mais do que parece.

O Enredo

Os Deuses morreram. Mas não os seus filhos. Transformados em crianças, de memória apagada, são órfãos entre os humanos e procuram novas famílias com as quais possam crescer e criar memórias. Mas alguns, acabam por acordar desta ilusão e recordam-se de quem eram e dos poderes que têm. Tal como os deuses, cada criança tem um domínio próprio – mas bastante mais pequeno.

Entre estas crianças existe uma, Nokov, que teve uma vivência especialmente sofrível. Torturado, consegue fugir. A dor e o medo transformam-no numa espécie de adolescente revoltado que usa os seus poderes em crescimento para caçar as outras crianças divinas a fim de lhes captar os poderes. O seu reino é a noite e o seu plano é simples – fazer retornar o mundo à noite eterna para que não haja mais dor.

Nokov é a pessoa por detrás da morte de Shara e a criança divina que Sigrud irá tentar enfrentar. Nokov percebe que Sigrud é mais do que um comum moral, mas não tem o conhecimento necessário para o enfrentar em campo aberto.

A Cidade das Escadas

A cidade de Bulikov é o palco das principais batalhas. Depois de longas viagens no tempo e no espaço em que se cruzam montanhas de neve e se explodem algumas casas (apesar do treino de espião, Sigrud não é muito subtil) a grande luta decorre nesta cidade.

Bulikov já nos tinha sido apresentada no primeiro volume. Capital do Império controlado pelo divino e construída sobretudo por Deuses, mantém as longas escadarias depois dos edifícios terem desaparecido com a morte das divindades. Destacam-se, também, as muralhas que a rodeiam. É uma cidade marcada pelas memórias da Guerra que com ela levou civis e levou ao colapso deste Império. Triunfou a civilização que assentava na Tecnologia.

Neste volume, regressamos a esta cidade – agora recuperada e em expansão, uma cidade que não cabe nas suas muralhas e que ameaça expandir-se para além destas. Ainda assim, dado ter sido a capital dos deuses, mantém restos de milagres – passagens secretas e mistérios que poucos mortais ousam transgredir.

Resultado?

Estas quase 500 páginas de emoção e reviravoltas marcam o final de uma trilogia fabulosa – uma trilogia que permite leitura independente de cada um dos seus volumes. Pegando numa premissa interessante, um mundo que confronta duas civilizações (uma baseada na magia e outra na ciência) e em que a história é escrita pelos vencedores (claro), o autor desenvolve, de forma coerente, os fenómenos que ocorrem com o desaparecimento dos deuses, justificando, neste volume, alguns elementos que encontrámos nos volumes anteriores.

Trata-se de uma história com um final expectável, mas, por isso mesmo, satisfatório do ponto de vista narrativo, coeso com o que acompanhámos ao longo da trilogia. Existem heróis (falíveis) que nos fascinam e envolvem. Heróis que enlouquecem e se precipitam, revelando-se, sobretudo humanos. Heróis que se apaixonam e que, apesar de enfrentarem guerras e múltiplos inimigos, não assumem as suas paixões e receios.

Sim. Existem algumas falhas. Ou melhor, detalhes que poderiam ser limados de outra forma. Senti que, a meio, alguns episódios causam reviravoltas em excesso – algo que já tinha sentido com outros livros do autor. Mas este detalhe é facilmente ultrapassável quando chegamos, finalmente, ao auge da tensão narrativa – e ao contrário de alguns autores, este auge não se apressa, estendendo-se devidamente como necessário para fechar, de forma coesa todos os pontos.

Sim – este livro será facilmente uma das minhas sugestões de leitura deste ano.

Outros livros do autor

Mataram a Cotovia – Harper Lee e Fred Fordham

Começo por referir que ainda não tinha lido o romance original. Apesar de estar na minha biblioteca por ler há algum tempo. Já me tinha sido referido como sendo um bom retrato das cidades interiores americanas das décadas de 30/ 40. O que não esperava era o contraste. A história é contada pela perspectiva de crianças e da forma como se apercebem das diferenças sociais na sua pequena cidade. Existe, claramente, uma hierarquia que é determinada não só pela quantidade de gerações em que essa família vive na cidade, mas pela riqueza e pela cor da pele.

A história começa como a apresentação das férias juvenis. Com o Verão vem o tempo desocupado e a dupla de irmãos, Jem e Scout, inclui, nas suas brincadeiras, o vizinho que parece ter uma imaginação sem fim  – tanto para criar ficções nas quais se divertem, como para criar episódios ficcionais na sua própria vida. Não é de estranhar que o trio se volte para a casa mais singular da cidade – uma casa que dizem estar assombrada, mas que afinal é habitada por alguém que nunca de lá sai. Como desconhecido, a figura que vive nesta casa passa a ser temida. Ultrapassar o portão é mostrar coragem e é claro que, nestas idades, os jovens se desafiam para ultrapassar os limites da propriedade.

As aulas recomeçam. Com elas ausenta-se o rapaz vizinho, mas apresenta-se uma nova professora. Quando, à hora de almoço, um dos rapazes aparece desprovido de almoço, Scout, a irmã mais nova, apressa-se a explicar que tal não é estranho, dada a proveniência familiar do jovem. Razão para Scout levar umas quantas reguadas. Assim começa, na escola, a caracterização das familias que habitam naquela localidade, em que cada uma tem um papel definido: as boas famílias, os agricultores pobres, aqueles que vivem à margem da lei (através de subsídios e em condições miseráveis), e os pretos (que não têm direito a ir à escola).

Esta caracterização vai sendo aprofundada de forma indirecta ao longo da história, mas atinge o auge quando o pai de Scout e Jem, advogado, defende um jovem de uma acusação de violação. Scout e Jem começam a ser gozados pelos colegas – o jovem que o pai está a defender é preto. Respondem, claro, agressivamente, sem perceberem, na prática, o que estão a defender, ou do que está a ser acusado o pai. Os ânimos exaltam-se e até homens bons se unem para tentar fazer ver ao advogado o erro de prosseguir com a defesa – irritados pela confrontação da palavra de um preto contra a palavra de um branco. As designações de raça existem e têm como objectivo impôr, ao leitor, a visão da época.

Utilizando o ponto de vista das crianças, a história consegue ser percepcionada sem a força de todas as barreiras sociais que realmente aqui estão em jogo. As crianças já entendem estas barreiras mas não lhes dão maior importância do que à justiça. O pai, advogado, é uma personagem correcta que não deixa de defender o que é correcto – nem quando a irmã faz questão de aparecer para tentar impor normas mais femininas à menina.

Vencedor de um Pulitzer, trata-se de um romance mais complexo do que parece. Complexo por toda a dimensão social que transporta. O caso de tribunal acaba por quebrar a inocência destas crianças que se deparam com a injustiça baseada na cor da pele, as inevitáveis diferenças económicas e com as diferentes expectativas para o crescimento de um rapaz e de uma rapariga. Tratam-se de elementos que quebram a visão da sociedade e do crescimento – a das personagens e a do leitor.

Mataram a Cotovia foi publicado em Portugal pela Relógio D’Água, tratando-se de uma edição pouco habitual para esta editora. Em termos de edição nota-se que a lombada não tem o tamanho apropriado para o número de folhas (um dos cadernos está colado fora desta).

Resumo de leituras – Julho de 2019 (4)

57 e 58 – All-Start Superman Vol. 1 e 2 – Uma abordagem curiosa ao super homem, colocando-o como mortal no seguimento de um plano do vilão. Surgem réplicas e versões futuras, enquanto o herói se confronta com a sua própria mortalidade.

59 – A Febre de Urbicanda – Schuiten e Peeters – O volume tem nova publicação em Portugal, com uma história adicional no final. As Cidades Obscuras (nome da série de histórias que decorrem neste Universo) possui vários detalhes fantásticos, numa realidade caracterizada pelo retro-futurismo, onde se construiu uma parte da cidade com grandes e harmoniosos projectos. Enquanto outra parte, semi isolada, permanece num caos contido … até quando… !

60 – Mataram a cotovia – Harper Lee – Não tendo lido a obra original, trata-se de uma adaptação competente que consegue transmitir a história e a problemática social numa pequena localidade interior em que cada família tem o seu lugar social. Existe uma hierarquia clara entre cada uma das famílias.

O invisível, a sua sombra e o seu reflexo – António Bizarro

Neste pequeno livro de autoria nacional o autor desenvolve várias histórias de crime centrando-se no assassino e nas suas obsessões. Algumas histórias possuem detalhes ligeiramente fantásticos mas a maioria apresenta narrativas sem qualquer elemento pouco natural.

O volume abre com uma obsessão fotográfica – uma obsessão que tem contornos mais trágicos do que inicialmente se percepciona, passando para o caso de um anjo da morte. Entre assassinos com dupla personalidade e duplas de assassinos encontramos incesto, mortes por impulso e homicidas em série com grandes planos.

Entre estes casos mais detalhados encontramos letras de músicas, poemas e contos mais curtos, como A Colónia ou O Quarto Escuro que se podem considerar de ficção científica ou Jacqueline Hyde que deambula entre a escrita de um conto e o próprio conto. Já em Leonard Pine fala-se da auto publicação como forma de atingir o estatuto de autor.

Os contos são, na sua maioria, bem construídos em termos narrativos. O autor sabe levar o enredo e tecer expectativa, desenvolver o relacionamento entre o assassino e a sua vítima e entregar, por vezes, finais pouco esperados. Digo na sua maioria porque alguns contos, mais curtos, são pequenas deambulações literárias que nos levam brevemente para outros mundos ou enredos mas que não se concretizam em histórias com príncipio, meio e fim. Julgo que o livro seria bastante mais coerente sem estes trechos.

Para quem gosta do género crime / suspense este é um livro aconselhável, com boas histórias que, decerto irão de encontro ao que pretendem. O invisível, a sua sombra e o seu reflexo foi publicado pela Coolbooks.

 

Príncipe Valente – Vol.1 – 1937 – Hal Foster

Príncipe Valente é uma das mais recentes apostas da Planeta De Agostini na banda desenhada, prevendo-se o lançamento até ao último de 2018. Cada livro inclui o material publicado num ano, desde 13 de Fevereiro de 1937. Confesso que, normalmente, material tão antigo não me desperta grande interesse, mas existiam vários comentários muito positivos à série.

O que encontrei foi um volume voltado para um público mais juvenil. Talvez por isso, a história é muito movimentada e o texto que acompanha cada imagem possui o mínimo indispensável, conferindo-lhe uma passada mais leve do que esperava pela antiguidade da história. No início de cada página encontramos um pequeno texto de resumo que nos introduz à acção dos próximos blocos e que facilita a paragem em qualquer momento da história.

Com um grande foco na acção, a maioria dos desenhos possui pouca profundidade, mostrando, em primeiro plano as personagens. Em vários dos desenhos não existem qualquer imagem de fundo. Os momentos mais pausados são poucos e servem apenas como forma de arrancar a próxima aventura do Príncipe Valente.

De origens reais, o príncipe viria a nascer no exílio e cedo fica orfão de mãe, que não aguentou o clima húmido da nova localização. Aspirando a tornar-se cavaleiro, o Príncipe Valente é inventivo e destemido, enfrentando várias bestas sem medo, mas com engenho. O mesmo engenho que lhe permite engendrar uma forma de arranjar um cavalo sem ter de pagar por ele, e o mesmo engenho que lhe permite agir de forma eficaz nas várias lutas que vai travando.

Como se não bastassem estas características, o Príncipe Valente é, ainda, um rapaz justo, sem ser propriamente bondoso. Atacado nos pântanos por algo que achava ser um monstro, o Príncipe Valente poupa a vida de um homem deformado – uma vida que acaba por lhe valer os favores de uma bruxa que prevê o seu futuro.

De cores mais simples e tradicionais e com elementos mais realistas (à excepção dos monstros) Príncipe Valente é uma série de acção que se lê bastante bem, mesmo passados mais de 80 anos do seu lançamento – tal é garantindo pela estrutura e forma como vai apresentando a acção, página a página.

Resumo de Leituras – Julho de 2019 (3)

53 – O invisível, a sombra e o seu reflexo – Antónjo Bizarro – Neste pequeno livro de autoria nacional o autor desenvolve várias histórias de crime centrando-se no assassino e nas suas obsessões. Algumas histórias possuem detalhes ligeiramente fantásticos mas a maioria apresenta narrativas sem qualquer elemento pouco natural;

54 – Príncipe Valente – 1937 – Hal Foster – Eis uma série que, curiosamente, envelheceu bem. Talvez por ser voltada para um público mais jovem possui um bom ritmo e uma narrativa simples, que lhe permitem ser lida na actualidade sem quebras. Reconhece-se, claro, o estilo e a cor típicos da altura;

55 – Frango com Ameixas – Marjane Satrapi – Uma narrativa curiosa em que a autora explora um antepassado que, quebrado o seu instrumento musical de eleição, decide morrer. Mas poderá haver mais do que esta quebra de vontade e a autora mistura factos com outros elementos para tecer uma outra história;

56 – A metamorfose e outras fermosas morfoses – Rui Zink – Uma série de pequenos contos que exploram as fronteiras entre o ficcional e o não ficcional, entre o quotidiano e a demência.

Novidade: A Febre de Urbicanda – Schuiten e Peeters

O terceiro volume da Colecção Novela Gráfica é um livro de Cidades Obscuras, uma das fabulosas criações de Schuiten e Peeters:

Esta quinta-feira, dia 18 de Julho, em banca o terceiro volume da colecção Novela Gráfica “A Febre de Urbicanda” de Schuiten e Peeters, um dos títulos mais emblemáticos da série Cidades Obscuras, premiado em Angoulême em 1985, esgotado em Portugal há mais de 20 anos e que agora regressa  numa edição definitiva que, para além de um dossier final sobre a lenda da Estrutura, inclui também a história A Última Visão de Eugen Robick, feita em 1997 para o número final da revista (A Suivre), onde a série nasceu.

François Schuiten é um dos nomes mais importantes da BD mundial, com um percurso ímpar, justamente galardoado em 2002 com o Grande Prémio da Cidade de Angoulême pelo conjunto da sua obra. Escritor, ensaísta, professor universitário, cineasta e um dos maiores especialistas mundiais na obra de Hergé, Benoît Peeters é também argumentista. Juntos, Schuiten e Peeeters, criaram ao longo de mais trinta anos a série As Cidades Obscuras, uma designação inventada por Jean Paul Mougin, director da (A Suivre). Um universo que é constituído por uma série de cidades fantásticas, verdadeiros protagonistas de histórias fascinantes que têm como pano de fundo as relações entre a arquitectura, as emoções e o poder.

Eugen Robick, o urbitecto responsável pelo plano de urbanização que pretende restituir a simetria à cidade de Urbicanda, é confrontado com a descoberta de um misterioso cubo, feito de uma matéria desconhecida, cujo crescimento geométrico vem perturbar e transformar profundamente a imagem da própria cidade e a vida dos seus habitantes. O que irá acontecer à utopia urbana de Robick, agora que a cidade está desestabilizada pelo cubo, e o próprio arquitecto transtornado pela irrupção do amor na sua vida tão regrada?

 

O Tesouro do Cisne Negro – Guillermo Corral e Paco Roca

No fundo do mar escondem-se tesouros. Montanhas de moedas de ouro e prata. Mas mais do que isso, a história de civilizações e detalhes de eventos importantes que podem ser recuperados com os barcos afundados por tempestades ou confrontos militares. E ainda mais do que isso, os restos mortais de seres humanos que têm a sua própria história de vida, um propósito que se esconde com eles no fundo mar.

Quando a empresa Ithaca Deep Sea diz ter descoberto um tesouro com o respectivo barco, cabe aos organismos oficiais espanhóis descobrirem se se trata de um navio espanhol e qual deles. Esta é a única forma de poderem reclamar os tesouros nacionais. Não só pela riqueza propriamente dita, mas sobretudo porque esta empresa actua como verdadeiros piratas, destruindo rapidamente o que não for metal precioso.

Esta descoberta resulta numa intensa batalha legal, com direito a chantagens políticas, ameaças e alguma espionagem. A empresa Ithaca Deep Sea estará associada a alguns organismos muito poderosos que tentam dissuadir o grupo de prosseguirem com a reclamação do tesouro. O resultado é uma história com algumas reviravoltas e mais acção do que seria de esperar da premissa.

Com o desenho característico de Paco Roca, mas com o enredo de Guillermo Corral (baseado na sua própria experiência com uma situação semelhante) é um volume de agradável leitura que se afasta do tom íntimo que costumam ter as histórias de Paco Roca. Apesar de conseguir ter alguns episódios mais pessoais da personagem principal, a história centra-se sobretudo nos eventos presenciados pela personagem, enquanto membro do grupo que tenta reclamar o tesouro descoberto do fundo do mar.

Os Engonços da Quionga / A loja do desejo agridoce – Rhys Hughes

Ainda que a maioria dos contos da antologia Winepunk sejam de autoria nacional, existem dois de Rhys Hughes que decorrem no mesmo Universo. Na primeira história um estrangeiro explora as origens da sua estranha casa, percebendo que a casa viajou vários milhares de quilómetros. No segundo conto parte este mesmo estrangeiro para salvar uma donzela, utilizando-se elementos narrativos criados no primeiro conto.

Quem conhece o autor percebe o seu fascínio por culturas não ocidentais. Não é, assim, de estranhar, que o autor tenha situado os dois contos em África, começando com os conflitos armados que aí decorriam. Nostálgicos pela terra natal e sem querer largar as suas casas, seguem um inventor louco que cria um mecanismo capaz de viajar longas distâncias, transportando, numa plataforma, todas as casas de quem deseja regressar. A convivência permanente dos viajantes e os trios amorosos resultam em conflitos difíceis de resolver. Os viajantes acabam por se separar de forma inesperada.

Num segundo conto, o mesmo estrangeiro explora as lojas locais e encontra uma de desejos agridoce onde se fala de árvores de bochechas e outros eventos improváveis. A compra de uma poção leva-o à praia, onde encontra uma garrafa com uma mensagem de socorro. Ainda sob o efeito da poção, o estrangeiro parte para salvar uma donzela, sem saber que será uma viagem de reviravoltas inesperadas.

Ainda que as duas histórias possuam um ambiente algo diferente do resto da antologia, são dois contos imaginativos e fantásticos, de leitura divertida pela forma como jogam com ideias mirabolantes.

Outros contos da antologia Winepunk

Resumo de leituras: Julho de 2019 (2)

 

49 – Mar de Aral -José Carlos Fernandes e Roberto Gomes – Um conjunto de pequenas histórias da dupla. Com o humor peculiar de José Carlos Fernandes, as histórias oscilam entre ficção científica, horror ou fantasia, existando, também, as mundanas que retratam vidas menos especulativas. Um conjunto excelente que está disponível em diversos idiomas;

50 – Lenguluka – Onofre dos Santos – Uma ficção científica passada em Lisboa que traça um cenário de crescimento económico através de parcerias com países orientais e africanos. Sendo as parcerias recentes, existem novos focos populacionais de vincadas tradições que nem sempre possuem a mesma percepção sobre as mesmas práticas. Aquilo que começa por ser um mero caso de uma noite acaba como motivo de ruptura cultural e, talvez, até, económica;

51 – Andromeda – Zé Burnay – Belíssimo volume coordenado pelo autor através de Indiegogo. O volume, de capa dura, apresenta uma sucessão de histórias pós-apocalípticas, num mundo quase deserto excepto por monstros. Reconhecem-se elementos fantásticos de horror com fortes detalhes mitológicos;

52 – Duke – Vol.1 – Hermann e Yves H. – No velho Oeste imperava a violência como forma de estabelecer poder e riqueza. Não é, assim, de estranhar, que quem explorava os outros tinha, a soldo, uma série de pistoleiros que faziam cumprir ordens e inspiravam temor. A história começa com a morte de uma mulher e uma criança, sendo este episódio que irá iniciar a necessidade de vingança e mover a história.

Andromeda – Zé Burnay

Andromeda foi um dos projectos que esteve o ano passado em Indiegogo para financiamento colectivo – um projecto de Zé Burnay  que foi financiado e se concreticou conforme o esperado, fornecendo a quem participou um belíssimo volume de banda desenhada, em capa dura e excelente qualidade de impressão. Para além da qualidade do volume, destaca-se, também, a qualidade do trabalho de Zé Burnay, que já tinha constatado no pequeno livro A House on the Horizon.

De poucas palavras, a história cruza elementos míticos e mitológicos, com uma aura permanente de horror fantástico. Por entre paisagens fantásticas carregadas de elementos estranhos, que me recordam mundos pós-apocalípticos, seguimos um homem que vai enfrentando várias bestas e várias divindades.

A história começa com o confronto com um minotauro prosseguindo com a exploração de uma casa para a qual é atraído. Uma casa aparentemente acolhedora mas que esconde vários segredos e da qual a personagem terá de fugir para ganhar nova perspectiva e passar à próxima fase de exploração.

No final podem encontrar arte que decorre no mundo imaginado de Zé Burnay de vários autores de banda desenhada conhecidos como Mike Magnola, Frans Boukas, Matt Smith, Aaron Conley, Simon Roy, John Kenn Mortensen, Artyom Trakhanov e Christian Degn.

Este livro, e outros do autor, podem ser adquiridos na página oficial.

Isola – vol.1 – Brenden Fletcher e Karl Kerschl

Com um visual curioso e uma descrição fantástica, Isola é uma das últimas séries da Image que iniciei a leitura, esperando algo talvez dentro das linhas de Monstress, pelos toques orientais que me parece ter a arte. O resultado tem elementos interessantes mas é, no conjunto algo desapontante – uma história com detalhes que poderiam ser explorados de melhor forma, um visual que tem dificuldades em expressar os saltos temporais e um excessivo foco na personagem principal que retira qualquer possibilidade de percepcionar uma história global. Passo a detalhar.

A história decorre num mundo fantástico onde uma rainha se transformou num tigre. Desconhecemos como ou porquê, mas acompanhamos uma soldado, Rook, que permanece fiel à sua rainha e que a acompanha, afastando-a da cidade por saber que se lá entrarem o tigre será, decerto, morto. Sabemos que a soldado é a capitã da guarda da rainha, mas mesmo assim é difícil de percepcionar a razão para tal nível de dedicação – que se pode dever apenas a honra e a responsabilidade, mas não existem pistas suficientes sobre tais razões. A história é, basicamente, isto. Uma viagem das duas, tigre e capitã da guarda, pelas montanhas, tentando encontrar uma solução para a situação.

Em relação aos toques orientais, estes encontram-se presentes. Para além de alguns detalhes na arte encontramos, também, a dedicação da soldado à rainha (ainda que, novamente, ficamos sem perceber se existe algo mais no seu relacionamento e a questão da dedicação não seja totalmente explícita). Também o aparecimento abrupto de alguns grupos de malfeitores recorda algumas aventuras de anime ou mangás.

Já a narrativa é quase linear, excepto por alguns saltos temporais que nem sempre são percepcionados devidamente. O foco de toda a história é a dupla soldado / rainha, mas dando mais protagonismo à soldado do que à rainha. Sem outras perspectivas ou a apresentação de episódios decisivos que expliquem como a dupla chegou a esta situação, este primeiro volume torna-se meio desapontante. Existe, ainda, uma outra personagem que parece ter o papel de guia mas que, também, não convence.

No final fica-me a sensação de falta de plano global para a história. Ou uma falha em planear devidamente o crescer da expectativa ao leitor, ou o deixar pequenas pistas que poderiam ajudar a revelar os mistérios. Existem alguns obsctáculos mas todas as circunstâncias parecem mais fantásticas do que reais, fazendo com que não me tenha sentido absorvida com este mundo. Conclusão? Talvez leia o segundo volume mas existem, de momento, várias séries mais interessantes pelas quais nutro bastante mais interesse. Achei que em qualidade gráfica o volume é razoável (as páginas conseguem apresentar excelentes gravuras, ainda que tenha problemas com a forma como a luz se propaga nalgumas delas) mas que é em termos narrativos que precisa melhorar.

Novidade: A Companhia Negra – Glen Cook

A mais recente grande aposta da Saída de Emergência já tem data marcada para o lançamento! O primeiro livro da série As Crónicas da Companhia Negra, de Glen Cook está agendado para 02 de Agosto! Até lá, deixo-vos com a sinopse:

BEM-VINDO AO LADO MAIS REALISTA, OBSCURO E VIOLENTO DA FANTASIA.

Durante incontáveis gerações, a Companhia Negra, a mais famosa e temida irmandade de mercenários, serviu grandes senhores. Mas os dias de glória há muito que ficaram para trás. A trabalhar para o governador de uma ilha insignificante, estes veteranos limitam-se a fazer aquilo para que são pagos, enterrando com os seus mortos o desencanto que os atormenta.
Entretanto, depois de séculos de enclausuramento, a Senhora ressurgiu. Alguns acreditam que ela é a única que mantém o mundo a salvo de um mal maior. Outros, temem que ela seja a encarnação desse mesmo mal.
Quando surge a profecia de que, algures, nasceu uma jovem que irá livrar o mundo da Senhora e dos seus exércitos impiedosos, a Companhia Negra terá de escolher um lado.

E assim começa uma das sagas de fantasia mais originais e disruptivas de sempre.

 

No Caderno de Tangerina e Tangerina – Rita Alfaiate

Eis um duo curioso. Se a leitura do primeiro livro, No Caderno  de Tangerina nos faz pensar que estamos perante uma engraçada leitura juvenil, com detalhes semelhantes a outras aventuras de crianças que envolvem monstros e projecções monstruosas que resultam de elementos no seu quotidiano, o segundo livro, Tangerina faz-nos repensar o que lemos no primeiro e perceber que à mesma história podem ser dadas interpretações diferentes consoante os detalhes que nos são mostrados – e que, neste caso, a história pode ter uma versão bastante mais monstruosa do que inicialmente nos parece.

Os verdadeiros monstros andam entre nós, percepcionados apenos por poucos. Para os restantes serão pessoas normais, senão exemplares. No primeiro livro, No Caderno de Tangerina, uma rapariga passa as aulas a desenhar um monstro que terá escapado dos seus sonhos – um monstro com o qual terá vários encontros tenebrosos, encontros estes onde, por vezes, também estará presente o seu colega de carteira, um rapaz que, curioso, se aproxima de Tangerina.

Tangerina, uma rapariga com alguns problemas, mostra episódios agressivos para com este rapaz e uma dualidade de comportamentos que a levam a ser percepcionada de determinada forma pelo próprio leitor (e que a autora facilita pela forma como dispõe os acontecimentos e pela forma como mostra, apenas, alguns detalhes). Já no segundo volume, o acrescentar de mais alguns episódios (na prática de alguns vinhetas) leva-nos a repensar as nossas percepções e interpretações do primeiro e a relê-lo.

Isoladamente, o primeiro volume é engraçado. De leitura rápida apresenta a história da nova aluna da turma, Tangerina, que vai passar pelos óbvios problemas de integração. Não é, assim, de estranhar que a vejamos afastada dos restantes colegas, concentrada nos seus desenhos e deambulando sozinha pelos montes. Por sua vez, o colega de carteira tenta aproximar-se e acaba por se cruzar com o monstro que Tangerina desenha.

Já a conjugação com o segundo volume faz do conjunto uma reviravolta inteligente conferindo maior profundidade à história apresentada, bem como um lado negro e bastante mais arrepiante. Ainda que aparente ser uma história simples, a combinação dos dois volumes torna-a bastante interessante.

No Caderno de Tangerina e Tangerina foram publicados pela Escorpião Azul.

Resumo de Leituras – Julho de 2019 (1)

45 – A viagem da Virgem –  Pepeldelrey, Jorge Coelho, Rui Gamito e Rui Lacas – Oscilando entre autores, mas conseguindo manter uma coerência visual ao longo de todo o volume, este A viagem da Virgem é uma história curiosa em torno e das paixões que move;

46 – Foundryside – Robert Jackson Bennett O primeiro volume de uma nova série fantastica do autor que pode ser lido isoladamente e que nos leva para um mundo em que a realidade pode ser alterada pela escrita! Nesta sociedade aspira-se ao retorno da tecnologia dos antigos, uma civilização extinta que conseguiu mover montanhas – literalmente;

47 – No Caderno da Tangerina – Rita Alfaiate – Uma história juvenil em que a nova aluna da escola tem dificuldades em se integrar e criar amigos. As suas deambulações levam-na a cruzar caminho com um monstro! Apesar de apresentado de forma simplista, é um livro que ganha nova dimensão com a leitura do seguinte da mesma autora, Tangerina;

48- Tangerina – Rita Alfaiate – Neste volume conta-se a história do anterior, com diferentes perspectivas que lhe concedem novas interpretações. Neste segundo volume temos outra leitura da primeira história, fazendo com que o conjunto seja bastante aconselhável.

Novidade: Stranger Things – O outro lado

A Editora Asa anuncia novo volume de banda desenhada:

O Mundo Invertido, um sítio até então só visto em delírios psíquicos e em pesadelos

Will Byers não sabe o que chamar ao lugar sombrio onde vai foi parar, mas tem a certeza de que está sozinho e longe de estar seguro. Um estranho monstro ululante assombra cada recanto e vozes familiares percorrem o ar, vindas do outro lado. Para sobreviver, Will recorre ao que aprendeu com a camaradagem dos amigos e agarra-se à esperança de que será capaz de regressar à família.

Descubra aquilo por que passou Will durante os acontecimentos da primeira temporada de STRANGER THINGS, a série de sucesso da Netflix, com argumento da estrela da banda desenhada Jody Houser (Doctor Who, X-Files, Faith, Mother Panic) e desenhos de Stefano Martino (Doctor Who, Angel: Season 6).