A cidade que não existia – Pierre Christin, Enki Bilal

Eis um livro curioso que transforma uma realidade dura e cinzenta noutra futurista e cómoda mas ainda mais desconfortável. A história começa por nos apresentar uma cidade típica em que uma única unidade fabril fornece o motor económico da região. Quase todos os homens trabalham na mesma fábrica, em míseras condições, enquanto que as mulheres trabalham na indústria fabril, costurando sob as ordens de uma dura patroa.

Dadas as dificuldades económicas, nesta dura realidade os trabalhadores revoltaram-se e perpetuam greve atrás de greve, tendo a intenção de ser donos dos seus próprios destinos e terem uma parcela dos lucros do negócio para o qual trabalham. Já o dono da fábrica, que faz, paralelamente carreira na política, enriqueceu à custa do suor dos seus trabalhadores e não pretende terminar este ciclo de exploração – mas a vida termina por ele, fazendo com que faleça, idoso e sovina.

A reviravolta inesperada na cidade acontece com a herdeira, uma jovem com problemas físicos, que resolve tomar as rédeas da situação. Se os administradores da fábrica esperavam uma jovem fraca e idiota, rapidamente percebem que a jovem tem um temperamento tão forte quanto o do velhote, e intenções bastante diferentes, dando poder aos trabalhadores e iniciando os planos para a construção de uma cidade futurista e utópica – mas também aborrecida e desoladora.

A história, de tom inicial cinzento, lentamente transforma a cidade numa utopia materializada – mas e se aquilo que desejamos realmente se concretizasse? Quão aborrecida seria a vida sem objectivos? Na prática é isso que ocorre para alguns, agora sem objectivos de melhoria de vida numa cidade que, simultaneamente, é um sonho e uma prisão. À semelhança da história os desenhos de Bilal são, inicialmente mais comedidos e cinzentos, podendo dar asas à imaginação apenas na última parte deste volume.

 

 

Novidade: Batman 80 anos – Vol. 9 – O Cavaleiro das trevas volta a atacar 2

Esta semana é lançado o nono volume da colecção comemorativa dos 80 anos do Batman, publicada pela Levoir em parceria com o jornal Público:

Neste segundo volume, Batman: O Cavaleiro das Trevas Volta a Atacar 2, que sai em banca a 18 de Abril, conclui-se o regresso do Batman crepuscular de Frank Miller.

A complexa intriga  que  envolve  a  maioria dos membros da Liga da Justiça cruza- se com a dura realidade do ataque às  Torres  Gémeas  em  11  de  Setembro de  2001. Um acontecimento real,  que Frank Miller acompanhou do seu estúdio em Nova Iorque e que acabou por influenciar  decisivamente  a  evolução desta  história,  que  começou  como uma  homenagem  aos  heróis e vilões do universo DC, para se tornar, tal  como  aconteceu  com  O  Regresso do Cavaleiro das Trevas, um reflexo da época em que a história foi feita.

Editado pela DC Comics em 1986, Batman: O Cavaleiro das Trevas foi uma das primeiras histórias de banda desenhada a receber destaque na grande imprensa do mundo inteiro. Juntamente com Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons, (já editado pela Levoir). Até hoje a sua influência faz-se sentir na indústria da BD do mundo inteiro. O Cavaleiro das Trevas inspirou autores a ousarem mais nas suas obras, enquanto levou muitos a cultivar uma estética violenta que quase se tornou padrão dos super-heróis no final dos anos oitenta e começo dos noventa.

Um dos contributos de Frank Miller neste livro para o universo DC foi a criação de Lana, a filha superpoderosa do Super-Homem e da Mulher-Maravilha. Resultado da união entre os dois mais poderosos heróis da DC, relação essa que se tornará canónica durante a fase dos Novos 52, a personagem de Lana irá ser uma das protagonistas de DKIII.: The Master Race, a continuação, ainda inédita em Portugal, deste O Cavaleiro das Trevas Volta a Atacar, que assinalou o regresso de Frank Miller após alguns anos de afastamento, motivado por doença. Obra tão controversa como incontornável, O Cavaleiro das Trevas Volta a Atacar confirma a vontade de arriscar, por parte de um autor que nunca descansou à sombra dos louros conquistados — e obras como Ronin, 300, O Regresso do Cavaleiro das Trevas, Batman: Ano Um, Sin City e Demoli-dor: Renascido já seriam mais do que suficientes para lhe assegurar um lugar no panteão dos melhores autores de comics de todos tempos — e que procurou explorar novos caminhos, mesmo que esses  não sejam necessariamente aqueles que a maioria dos seus leitores esperava que ele seguisse.

 

Novidade: Colecção Spirou

A Asa lança, em parceria com o jornal Público, uma colecção de Spirou! Para quem não conhece trata-se de uma série clássica de banda desenhada de aventuras em que Spirou e Fantásio percorrem mundo enquanto combatem malfeitores, fazem reportagens e descobertas.

Para as crianças esta coleção apresenta aventuras fantásticas. Para os adultos, humor inteligente. Para todos, um clássico sempre jovem – e para muitos, um dos vértices da “Sagrada Trindade” da BD franco-belga clássica, a par de Tintin e Astérix. Junte-se numa viagem pelo mundo à boleia das aventuras de Spirou, do seu amigo inseparável Fan tásio e do esquilo Spip.

Esta coleção, que resulta da parceria ASA/Público é composta por 11 volumes, alguns duplos e outros com várias histórias, e integra todas as aventuras de Spirou e Fantásio da autoria de Franquin, proporcionando assim uma compilação inédita em português.

Eis os volumes que compõem esta colecção:

  1. O Feiticeiro de Champignac / Spirou e os Herdeiros
  2. Os Ladrões do Marsupilami / O Chifre do Rinoceronte
  3. O Ditador e o Cogumelo / A Máscara Misteriosa
  4. O Refúgio da Moreia / Os Piratas do Silêncio
  5. O Gorila e Outras Aventuras
  6. O Dinossauro Congelado e Outras Aventuras
  7. Z de Zorglub / A Sombra do Z
  8. QRN sobre Bretzelburgo / Sarilhos em Champignac
  9. A Herança e Outras Aventuras (*)
  10. Os Chapéus Pretos e Outras Aventuras
  11. Os Elefantes Sagrados e Outras Aventuras(*)

(*) segundo a editora estes volumes incluem histórias inéditas em Portugal

 

Resumo de leituras: Abril de 2019 (2)

 

29 – O outro lado de Z – Nuno Duarte e Mosi – Nuno Duarte volta à banda desenhada com traço de uma nova autora nacional, Mosi, numa história fantástica onde a monotomia do real é quebrada, e as personagens (trabalhadores de call center) que levam vidas cinzentas, são empurradas para melhores existências ;

30 – Isola – Vol.1 – Brenden Fletcher, Karl Kerschl, Masassyk – Visualmente interessante, este primeiro volume denota alguns elementos narrativos que precisavam de ter sido melhor polidos. Existe, desde a primeira página, um sentido de urgência que, sem elementos suficientes, torna difícil ao leitor sentir-se cativado pela história. Percebemos apenas que a rainha foi transformada num tigre e que uma soldado tenta protegê-la e encontrar quem reverta a transformação;

31 – A cidade que não existia – Pierre Christin, Enki Bilal – A história começa como um usual confronto de classes numa cidade à beira do colapso. O homem rico que comandava a cidade morre no meio de uma série de greves laborais – os trabalhadores, contagiados pelo espírito político, pretendem ganhar mão no seu próprio destino e uma percela na fábrica em que trabalham, compreendendo que não existem, ali, outras formas de subsistirem;

32 – Filhos do Rato – Luís Zhang e Fábio Veras – A par com a guerra os soldados descrevem outros cenários nojentos e horríveis, talvez como forma de se afastarem dos horrores que vivem diariamente numa guerra particularmente violenta do ponto de vista psicológico. As facções políticas oscilam, bem como os lados das batalhas e o resultado é brutal.

Assim foi: Contacto 2019

O Contacto, organizado pela Imaginauta, começou em 2018 no Palácio Baldaya em Benfica. Dedicado à ficção científica e fantástico, é um evento que se destaca por ter, para além de palestras e um espaço dedicado à literatura, muitas outras actividades apropriadas para todas as idades – lutas de sabres de luz, aulas de magia influenciadas pelo mundo do Harry Potter, exposições, jogos de tabuleiro, steampunk e muito mais.

Lançamentos

A minha perspectiva do evento é mais literária, destacando os eventos de lançamento que foram decorrendo. O primeiro a que assisti foi o lançamento do novo livro em português de Bruno Martins Soares, As Crónicas de Byllard Iddo – um lançamento em que o autor falou do livro e do interesse nos mundos que cria.

Já no Sábado, ainda presenciar um pouco do lançamento do livro de Nuno Duarte, O outro lado de Z, onde o autor Nuno Duarte falou do mundo fantástico de este livro e de outros. Seguiu-se o lançamento da antologia Winepunk onde participei (no lançamento, não na antologia). A antologia destaca-se por ser uma realidade alternativa que tem por base a história de Portugal, mais propriamente o Reino do Norte que, no meio das convulsões, surgiu no Norte de Portugal mas que apenas durou 3 semanas. E se tivesse durado 3 anos? Após ter iniciado o lançamento, o Rogério Ribeiro falou um pouco da forma como geraram a base antes de enviarem o desafio aos autores, Pedro Cipriano falou da produção que se seguiu por parte da editora, e os dois autores presentes (João Barreiros e João Ventura) falaram do seu processo criativo neste mundo fictício.

O último lançamento a que pude assistir foi o lançamento de Amadis de Gaula por Nuno Júdice, em que o autor falou da incerteza da autoria do livro, da forma como influenciou e é referido em obras posteriores, mostrando um exemplar com vários séculos de existência.

Banda desenhada

Para além do lançamento de O outro lado de Z, o Contacto reservou espaço na agenda para que pudessemos conhecer um pouco melhor outros autores de banda desenhada, como Joana Afonso, Henrique Gandum, Fábio Veras e Luís Zhang (autores de Filhos do Rato).

Ainda, no Lagar (zona central do edifício) estiveram alguns artistas a projectar enquanto desenhavam: FIL e Miguel Santos (da Associação Tentáculo) bem como Diogo Mané.

Ponto de encontro

Este tipo de eventos fantásticos e de ficção científica costumam ser ponto de encontro entre autores e editores, levando à criação de vários projectos. Neste caso o evento ajudou nestes encontros, disponibilizando uma sala para estes pudessem decorrer de forma mais oficial. Destacam-se dois encontros, um para a geração de um portal português de ficção científica e fantástico e outro para o encontro de autores de ficção científica e fantástico onde vários autores trocaram experiências.

Outros detalhes

Durante o evento decorreu uma taberna medieval e uma feira do livro que apresentava bancas das mais conhecidas editoras de ficção científica e fantástico – desde a Saída de Emergência com a colecção Bang!, à Europa-América com a colecção de livros de bolso de ficção científica, passando pela Imaginauta e pela Editorial Divergência entre outras.

Para além das exposições encontrávamos salas temáticas: Steampunk, Harry Potter e Star Wars, mais voltadas para o público jovem; bem como uma pequena oferta de jogos de tabuleiro.

Novidade: Astérix – A Filha de Vercingétorix

Sim, estamos a falar de um lançamento com 6 meses de antecedência, mas o lançamento já está a ser comunicado pela editora com alguns detalhes sobre o livro, por isso, eis! O novo livro do Astérix será lançado em mais de 20 idiomas com uma tiragem global superior a 5 milhões de exemplares – números bastante interessantes quando comparados com o de outras publicações de banda desenhada:

60 anos após a sua primeira aparição nas páginas da revista Pilote, o herói criado pelos dois génios da 9.ª arte, René Goscinny e Albert Uderzo, está de volta! Se Astérix e Obélix pensavam que depois da sua última viagem iriam regressar à quietude da sua bela Armórica, estavam enganados! Escoltada por dois chefes da região de Arverne, uma misteriosa adolescente acaba de chegar à aldeia. Ela é procurada por César e pelos seus legionários, e há boas razões para isso: na aldeia, sussurra-se que o pai da visitante é nada mais nada menos do que… o próprio Vercingétorix, o grande chefe gaulês outrora derrotado em Alésia! Em 24 de outubro, Astérix e Obélix vão estar de volta com uma nova aventura que terá por título A Filha de Vercingétorix, mais uma criação da famosa dupla composta por Jean-Yves Ferri e Didier Conrad. Em Portugal, o álbum sairá, como habitualmente, com a chancela da ASA e será publicado em português e mirandês.

 

 

Novidade: Companhia Silenciosa – Laura Purcell

A TOPSELLER anuncia para o mês de Abril um terror victoriano:

Tendo enviuvado recentemente, Elsie muda-se para a antiga propriedade do marido, a isolada e decrépita The Bridge, para poder descansar durante a gravidez e superar o luto.

Rodeada por criados ressentidos e aldeões que rejeitam a nova herdeira, Elsie tem apenas como companhia a tímida Sarah, prima do seu marido. Ou ela assim pensava. Dentro da grande mansão, descobre um quarto fechado a sete chaves, cujo interior abriga um diário com a obscura história de família e uma figura em madeira absolutamente perturbadora? e muito parecida com Elsie.

Na casa, todos têm medo da figura pintada, à exceção de Elsie? Até que ela própria começa a sentir aqueles olhos a seguirem-na para todo o lado. Inspirado no imaginário de Shirley Jackson e Susan Hill, este é um romance de terror vitoriano que evoca um medo inquietante em relação às presenças fantasmagóricas que espreitam nas sombras?

 

 

 

Dylan Dog – O velho que lê – Celoni, Sclavi e Stano

Depois da passagem do filme Dellamorte Dellamore no Nimas (nas sessões de culto de Filipe Melo) e de algumas publicações ocasionais da Levoir (integradas em colecções mais genéricas) eis que a G Floy avança com uma nova colecção que se inicia com um novo volume de Dylan, lançado com a presença do autor, Celoni, no Coimbra BD e na Kingpin Books.

Este volume, de título O Velho que Lê, apresenta duas histórias que nos levam a deambulações filosóficas para além dos usuais contornos sobrenaturais. Na primeira, que dá título ao volume, Dylan Dog é chamado a resolver o desaprecimento de um velhote conhecido por estar sempre a ler.

A pesquisa do desaparecimento leva Dylan Dog a explorar uma realidade imaginária carregada de receios sinistros baseados na vida do velhote – alguns elementos assustadores, outros simplesmente curiosos que, juntos, o levam a resolver o caso.

Bastante movimentada, esta primeira história integra elementos fantásticos e sobrenaturais bem como referências literárias, encaixando bem com a segunda história do volume, mais curta, onde se joga com a memória numa pequena vila onde Dylan Dog se encontra com a namorada.

Destacando-se pela qualidade gráfica, este primeiro volume de colecção Aleph constitui uma leitura de grande acção, adequada a quem gosta de narrativas que cruzem elementos de horror e fantástico, explorando uma personagem que obteve grande sucesso em Itália mas que, no mercado português, tem apenas agora as primeiras publicações.

Dylan Dog – O Velho que Lê foi publicado em Portugal pela G Floy.

Resumo de leituras: Abril de 2019 (1)

25 – Senlin Ascends – Josiah Bancroft – Primeiro livro do autor, é também o primeiro de uma tetralogia num mundo onde se ergueu uma torre de Babel. Não, quem a rodeia não fala diferentes idiomas, mas a torre, conhecida por ser uma maravilha da tecnologia humana revela-se um pesadelo intrincado de níveis de vivência idiota – ou assim parece à primeira vista! Um livro agradável que melhora com o passar das páginas e que me levará a ler o segundo da série;

26 – Turma da Mónica – Laços – Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi – Laços começa com as usuais quezílias entre o grupo de crianças para passar a apresentar a união destes perante uma desgraça – a fuga do cão de Cebolinha ! A busca pelo animal desaparecido leva o grupo a enfrentar adversidades em zonas desconhecidas da cidade, passando aventuras apropriadas para a idade dos aventureiros. Uma leitura agradável que dá outra dimensão às conhecidas personagens;

27 – Harrow County – Vol.5 – Cullen Bunn e Tyler Crook – Se, no volume anterior, tinhamos sido apresentados à família, aqui descobrem-se alguns segredos da sua origem e interacções entre os seus elementos, com Emmy a tentar manter o equilíbrio do condado, nem que para isso tenha de enfrentar entidades mais antigas;

28 – Gothtópia – John Layman e Jason Fabok – Eis um volume curioso que mostra uma Gotham pouco usual – ao invés de soturna apresenta-se como uma cidade feliz e agradável, uma máscara na qual Batman não acredita e que irá investigar a fundo. O que acontece quando uma cidade inteira é forçada a fingir uma utopia?

A ira da Ferreirinha – Carlos Eduardo Silva – Winepunk

O segundo conto desta antologia é de Carlos Silva, o autor de ficção científica e fantástico que venceu o prémio Imaginauta com o livro Anjos, e que tem participado em várias antologias portuguesas. Aproveitando uma das figuras mais emblemáticas ao Vinho do Porto (a Dona Antónia Adelaide Ferreira que era detentora de dezenas de quintas na região do Douro) Carlos Silva confere-lhe uma aura sobrenatural associada ao próprio Vinho do Porto.

Mulher independente e destemida, gera ira ao recusar um pretendente (ou não achassem sempre os homens que nunca podem ser recusados). Esta ira dá lugar a despeito e a traição, levando a um confronto no ar e à tentativa de acabar com as enormes plantações.

Imaginativo, carregado de elementos fantásticos, este conto aproveita várias referências históricas do Vinho do Porto mas cruza-as com circunstâncias ficiconais de cariz sobrenatural, aligeirando um pouco o tom pesado do conto anterior de Joel Puga, e fazendo de Dona Antónia uma figura marcante.

A antologia Winepunk é uma publicação da Editorial Divergência que tem como premissa que a Monarquia do Norte se manteve durante  3 anos e não apenas uma semana. A antologia foi lançada no Norte de Portugal e terá o seu lançamento a Sul no próximo evento da Imaginauta, Festival Contacto.

A antologia encontra-se disponível na Editorial Divergência.

Novidades fantásticas em Portugal (Março de 2019)

Enquanto se aproxima o Festival Contacto carregado de actividades para todas as idades e todos os gostos fantásticos e de ficção científica (e gratuito), vamos conhecendo alguns dos lançamentos nacionais que nos esperam: Bruno Martins Soares regressa ao mercado português pela Editorial Divergência com As Crónicas de Byllard Iddo (podem ouvir a entrevista com o autor para saber mais sobre o livro), a antologia Winepunk tem o seu lançamento a sul do país (recomendadíssimo), e a próprio Imaginauta (organizadora do evento) aproveita para lançar Amadis de Gaula.

Aproveito, também, para divulgar que se encontra na fase de projecto, a possibilidade de criar um Portal de Ficção Científica e Fantasia que terá por objectivo a divulgação do trabalho que se desenvolve neste género em Portugal. Esta reunião será promovida por mim e estará aberta a todos os interessados que queiram participar (seja activamente na construção do portal, seja com ideias ou sugestões). A reunião irá decorrer durante o Contacto, no dia 06 de Abril, a partir das 11h.

Já sabemos que não vai decorrer Festival Bang! em 2019, mas o Fórum Fantástico já divulgou as suas datas para este ano (11 a 13 de Outubro) e sabemos que irá decorrer Festival Vapor, com a Editorial Divergência a abrir submissões para um Almanaque Steampunk (ver mais detalhe na página da própria editora). Estão, também, abertas as subscrições para uma nova antologia de Fantasia urbana de título Os Medos da Cidade (ver mais detalhe).

Detectámos também (graças ao Jorge Candeias e à Imaginauta) a existência de um novo programa dedicado à ficção científica e fantástico (quantos mais formos, melhor) denominado Em Busca da Fantaciência. Ainda,  o João Barreiros publicou novo conto na revista Fluir o outro, que está disponível online.

Por último, a Colecção Livro B está de volta pela E-Primatur, prometendo livros que integrarão o Plano Nacional de Leitura (espero que este detalhe torne a colecção sustentável para que se possa manter).

 

Batman 80 anos – Vol.2 – Peso Pesado

O Batman morreu! A batalha que fechou o volume anterior parece fechar o duo herói-vilão, mas a necessidade de um herói persiste na cidade de Gotham – outros vilões surgem, não dando tréguas à cidade. Cria-se, assim, um novo Batman, controlado pelas autoridades que terá um papel semelhante mas que só poderá agir dentro dos limites da lei!

O verdadeiro Batman pode ter morrido, mas não Bruce Wayne que recupera a vida que poderia ter tido sem as desgraças que o marcaram. Sem o peso emocional e psicológico da morte dos pais, Bruce dedica-se a ajudar os outros, mas de forma mais próxima e envolvente, conseguindo estabelecer relacionamentos com os que o rodeiam.

Se o volume anterior parece obcecado pela imortalidade e pela regeneração física, este volume é mercado pela identidade e pela regeneração psicológica, questionando as bases do super-herói Batman. Quais os factores determinantes para o surgir de Batman? Ainda que o intenso treino físico e de raciocínio tenham permitido desenvolver as capacidades do herói, foram os eventos traumáticos durante a infância que o transformam numa figura incapaz de estabelecer relações pessoais e lhe dão o foco que precisa para vigiar Gotham.

Esta exploração da identidade de Batman é efectuada de duas formas distintas. Se, por um lado, o homem por detrás da máscara perdeu todas as memórias fundamentais para se assumir como Batman, sendo apenas Bruce Wayne; por outro, um outro homem tenta vestir o fato do super-herói e precisa de ser algo mais do que uma ferramenta do governo, explorando a figura anterior para perceber como conseguir ser um verdadeiro Batman.

Apresentando um vilão peculiar, este segundo volume da série dos 80 anos Batman consegue ser menos pesado do que o primeiro, constituindo um volume de transicção, mais pausado e introspectivo, apesar dos grandes momentos de acção. Batman é uma figura complexa que aqui se fragmenta, levando a um momento de redefinição e de suspensão da personagem.

A série comemorativa dos 80 anos do Batman é publicada pela Levoir em parceria com o jornal Público.

 

Resumo de Leituras – Março de 2019 (2)

21 – The Collected Toppi – Vol.1 – Este volume reúne uma série de histórias curtas do autor que utilizam elementos mitológicos para apresentar belíssimas imagens que se destacam, como é usual neste autor, pelo uso de diversos padrões para construir texturas e ambientes. Visualmente fascinante.

22 – Southern Bastards – Vol.4 – Tê-los no sítio – Jason Aaron e Jason Latour – A história prossegue mostrando como, naquela pequena cidade, as coisas estão a dar para o torto. A violência escala enquanto se faz tudo por tudo para conseguir manter a equipa local de futebol num bom lugar – algo quase impossível agora que falta uma peça fundamental.  Paralelamente, a filha de Tubb chega à cidade, pronta para vingar o pai;

23 – Indeh – Ethan Hawke e Greg Ruth –  Indeh conta a história dos Apache pela perspectiva dos índios, mostrando como, ao invés de bárbaros frios e carniceiros, foram sucessivamente traídos pelo homem branco;

24 – Batman 80 Anos – Vol.2 – Peso Pesado – Scott Snyder e Greg Capullo – Neste volume exploram-se os elementos que levaram ao desenvolvimento de Batman enquanto herói, mostrando o homem que Bruce poderia ter sido, e comooutro homem se pode transformar em Batman. É um volume de exploração psicológica da personagem

East of West – Vol.6 – Hickman e Dragotta

Depois de um quinto volume que posiciona algumas personagens para um desenlace futuro, este sexto resolve fechar algumas tensões e algumas histórias, eliminando personagens e facções numa antecipação da destruição massiva que está por vir.  Com vários episódios de brutais batalhas, mas também com vários momentos mais pausados, este volume retoma o fôlego da série e prepara o final.

Entre as várias personagens que seguimos há quem se queira assumir como profeta num papel de liderança suprema sob diversas entidades poderosas. Tal aspirante a profeta não compreende que apesar das provas (que acha de carácter absoluto) estas entidades são autónomas e desafiadoras para que tal possa acontecer com sucesso de forma pacífica e complacente. Não é, assim, de estranhar, que este momento de elevada tensão seja resolvido violentamente, com a morte de meros mortais e de entidades mais poderosas.

Paralelamente, O Cavaleiro do Apocalipse, Morte, continua à procura do filho, contratando, para isso, o dono de um café que possui agentes por todo o mundo. O negócio não corre como esperado devido a quezílias mais antigas e O Cavaleiro continua a busca com um olho a mais, enquanto vários mercenários procuram o rapaz com outras intenções.

Visualmente, esta série continua a ser excelente, cruzando elementos grosseiros de fantástico de horror com elementos futuristas de ficção científica. A tecnologia desenvolvida convive com monstros inimagináveis numa história carregada de episódios violentos, traições políticas e amores perdidos e o resultado é arrebatador.

The Collected Toppi – The Enchanted World – Volume 1

Desde o lançamento de Sharaz De na colecção Novela Gráfica que Toppi se tornou um dos artistas mais procurados cá em casa! Depois esse volume comprei obras de Toppi em francês e, até, em italiano – mas não consegui resistir a este volume em inglês que reúne várias histórias curtas do autor.

O tom narrativo é o que já conhecemos de Sharaz De, apresentando pequenos mitos ou lendas transformadas, com pequenos twists maldosos onde as figuras mágicas raramente são complacentes ou bondosas, utilizando as suas habilidades com originalidade.

São várias as mitologias que dão origem aos vários contos, mostrando, ora, o cruzar de tempos mais modernos com as figuras tradicionais fantásticas, ora o contacto entre diferentes civilizações. Independentemente da mitologia que origina a história, as figuras fantásticas possuem uma lógica própria e raramente bondosa para com os seres humanos.

Mas o que fascina neste volume é mesmo o aspecto gráfico. Toppi tece paisagens e pessoas torneando diferentes padrões que conferem uma textura e dimensão peculiar às imagens. O resultado mesmeriza o leitor, fazendo com que cada página seja saboreada e não apenas lida.

Novidade: Batman 80 anos – Gothtópia

O quarto volume da série Batman, comemorativa dos 80 anos da personagem, é lançado nas bancas hoje. A colecção é publicada pela Levoir em parceria com o jornal Público:

Gotham é a cidade ideal, a mais segura e feliz do mundo, em que os heróis são celebrados por todo o lado, ali todos são o que querem ser e os sonhos tornam-se realidade. Um lugar quase utópico, onde tudo é perfeito e o índice de criminalidade é praticamente nulo. Batman e os seus luminosos companheiros justiceiros quase que erradicaram toda a ameaça criminal da cidade.

Nesta Gotham luminosa e utópica, os heróis e os vilões que conhecemos surgem em versões ligeiramente diferentes, o que possibilitou ao desenhador Jason Fabok exercitar a sua criatividade, na criação da versão luminosa da bat-família e da sua galeria de vilões, com destaque para a Hera Venenosa e o Espantalho, que estão no centro das histórias e cuja densidade psicológica é bem explorada pelo escritor.

Tudo parece fantástico, mas algo falha. Algo não encaixa, e isso não passa despercebido ao maior detective do mundo, para quem encontrar pistas sobre isso é só questão de tempo.

Batman é um vigilante universalmente adorado, vestido com o seu brilhante fato de Cavaleiro da Luz, e a sua companheira – e amante – não é outra senão Selina Kyle, a Catwoman, que aqui veste um uniforme novo que é um compromisso entre o  traje  de Robin e o da própria Catwoman, e dá pelo nome de Asa Felina. Quem terá criado esta versão alternativa do mundo do Cavaleiro das Trevas? E com que propósito?

 

 

Farmhand – Vol.1 – Rob Guillory

O nome de Rob Guilloy é conhecido como sendo o desenhador de Tony Chu, uma das séries mais nojentamente divertidas de sempre que é, também, um dos grandes êxitos da Image e da G Floy em Portugal. Foi com esta referência que peguei em Farmhand,  reconhecendo o estilo visual do desenhador, mas curiosa quanto o que poderia fazer a solo. O resultado, surpreendeu positivamente.

Em Farmhand um mau agricultor, Jedidiah Jenkins, descobriu um caminho para o sucesso através de um plano que lhe terá sido entregue por uma entidade divina – um plano através do qual seria possível tornar as células indiferenciadas e crescer partes de corpos humanos que poderiam ser usados em transplantes.

O que é peculiar é que estes pedaços de corpos humanos crescem em árvores e arbustos, dando, a todo o ambiente de cultivo uma imagem de filme de horror. Mas ligeiramente cómico. E trágico. E carregado de boas personagens – personagens mal humoradas que quebram estereotipos (como quase todas as boas personagens) e que transformam toda a premissa numa história interessante e envolvente.

A história começa quando o filho de Jedidiah retorna à casa do pai, decidido a remendar o relacionamento que se quebrou há alguns anos. Leva consigo a esposa e os filhos, uma dupla curiosa e pouco tradicional, com a rapariga durona e um rapaz mais preocupado com leituras e afins.

Nesta mistela de ficção científica e fantástico a história destaca-se por apresentar personagens reais e únicas, personagens que conseguem mostrar diferentes reacções de forma convincente, sem necessidade de mostrar grande enquadramento ou passado. Existem, claro, frases e referências a outros tempos que nos levam a perceber melhor o que ocorre, mas sem grande excesso de informação.

Para poder apreciar a narrativa é necessário esquecer os detalhes de biologia celular e deixarmo-nos envolver pelos detalhes absurdos e engraçados da premissa – algo que vale a pena até porque, ao contrário de outras séries que pegam em detalhes científicos, Farmhand não pressiona demasiado o leitor nesse sentido.

O resultado consegue ser divertido e absurdo, reconhecendo-se o tom de imaginação cómica (com narizes a crescer em árvores que nem maçãs) que caracteriza Tony Chu. As personagens são diversas e credíveis, contrastando com a premissa nos limites do absurdo que, pelo menos neste volume, se sustenta.

Novidade e Evento de lançamento: Dylan Dog – O Velho que Lê – Celoni, Sclavi e Stano

A G Floy anuncia nova colecção de banda desenhada com Dylan Dog! Dylan Dog é um detective sobrenatural cujas aventuras são publicadas em Itálida em publicações periódicas que se encontram em qualquer quiosque. Esta banda desenhada já deu origem a algumas adaptações cinematográficas, tendo sido recentemente publicados dois volumes pela Levoir nas colecções que lança em parceria com o jornal Público.

Depois do lançamento, que decorreu com presença do autor Fabio Celoni no Coimbra BD, sucede-se um segundo evento, agora em Lisboa, na Kingpin Books (Avenida Almirante Reis, 82-A), que irá ocorrer na próxima terça-feira, dia 12 de Março

Eis mais informação sobre este volume:

Criado por Tiziano Sclavi, DYLAN DOG é o célebre investigador do paranormal, o detective dos pesadelos, uma das mais conhecidas personagens de BD de sempre, cujas aventuras ao mesmo tempo aterradoras, inquietantes e melancólicas, têm encantado leitores – e leitoras – em todo o mundo.

Detective privado especializado no sobrenatural e no paranormal, ex-agente da Scotland Yard e alcoólico recuperado, Dylan Dog é uma das mais fascinantes personagens da banda desenhada europeia e, juntamente com Tex, um dos maiores símbolos da qualidade das produções da editora italiana Bonelli. É também, de certa maneira, um anti-herói, cuja personalidade melancólica e reflexiva, cuja ocasional insegurança aliada à sua inteligência penetrante, souberam granjear a admiração e fidelidade de milhões de leitores – e leitoras, ou não fosse Dylan uma das personagens mais populares junto do público feminino – levando inclusive o grande Umberto Eco a declarar “Sou capaz de ler a Bíblia, Homero e Dylan Dog durante dias e dias sem me aborrecer” (Umberto Eco que apareceria na série sob a forma do prof. Humbert Coe).

Dylan Dog surge pela primeira vez em 1986, na história L’Alba dei Morti Viventi (O Amanhecer dos Mortos Vivos), uma história de zombies onde o terror se misturava com o humor, e cedo se tornou uma personagem de culto, capaz de conquistar tanto as leitoras, com a sua aura romântica, como os intelectuais como Umberto Eco, até aos apreciadores dos filmes de terror, que não ficavam indiferentes ao lado por vezes gore da série. E a época de ouro do cinema de terror italiano, representado por nomes como Dário Argento, Mário e Lamberto Bava e Michele Soavi, é uma das grandes referências de Tiziano Sclavi, o criador da série. Confirmando as ligações de Dylan Dog e do seu criador com o cinema, o herói emprestou o nome ao Dylan Dog Horror Fest, um festival de cinema de terror, que teve quatro edições, entre 1987 e 1993, onde os desenhadores de Dylan Dog partilhavam o protagonismo com grandes nomes do cinema de terror, como Dario Argento, que recentemente escreveu uma aventura do Investigador do Pesadelo.

Foi precisamente nos anos 90 que Dylan Dog passou de série de culto para verdadeiro fenómeno de massas, aspecto a que não será estranha a grande qualidade dos seus principais desenhadores, como Angelo Stano, Fabio Celoni, Bruno Brindisi e Corrado Roi. O sucesso de Dylan Dog foi tal, que chegou mesmo a ultrapassar Tex como título mais vendido da casa Bonelli, com vendas superiores a meio milhão de exemplares da revista mensal, aos quais se acrescentavam outro meio milhão com as edições especiais e reedições, ao mesmo tempo que a personagem era adaptada a outros meios de comunicação, desde o cinema e jogos de computador, ao teatro radiofónico.

Em Portugal, e depois de um período em que chegava apenas em edições brasileiras distribuídas em bancas do nosso país, Dylan Dog estreou-se em 2017 na colecção Novela Gráfica da Levoir, com Mater Morbi, uma história de enorme impacto e sucesso em Itália, para no ano seguinte protagonizar o terceiro e décimo volumes da colecção que a Levoir dedicou aos fumetti da Bonelli. Finalmente, em 2019 Dylan Dog chega ao catálogo da G.Floy, abrindo a nova Colecção Aleph, dedicada a explorar outras latitudes do universo da BD. Uma estreia que se fará em dois tempos: primeiro, no Coimbra BD, com a apresentação dos dois volumes iniciais da colecção, O Velho que Lê, de Fabio Celoni, este com a presença do autor, e Até que a Morte Vos Separe, história desenhada por Bruno Brindisi. E em segundo lugar, em finais de Abril, com a apresentação na 6ª Mostra do Clube Tex Portugal, que contará com a presença de Bruno Brindisi, desenhador do segundo volume. Serão álbuns num formato próximo do original, com cerca de 17×22 cms, capa dura, e 120 páginas a preto e branco, que recolherão uma história principal, e quando o espaço o permita, histórias mais curtas que complementarão os volumes.

Resumo de Leituras – Março de 2019 (1)

17 – Arkwright – Alan M. Steele Eis uma Space Opera original em soluções tecnológicas para levar a humanidade a colonizar outros planetas! Interessante na forma como arranca, centrando-se num escritor de ficção científica, e na forma como resolve alguns dos possíveis problemas das longas viagens espaciais, falha na forma como mostra o surgir de cada geração;

18 – East of West Vol.6 – Hickman, Dragotta e Martin – A série prossegue resolvendo alguns conflitos cuja tensão já se acumulava há algum tempo. É um volume carregado de violência, mas com alguma violência satisfatória, no sentido em que acaba com algumas personagens de índole duvidosa. Graficamente excelente e com detalhes narrativos arrepiantes e deliciosos;

19 – Batman 80 anos Vol.1 – Jogo FinalScott Snyder e Greg Capullo – De visual sólido, obscuro e sombrio, este volume de Batman é uma boa história de ficção científica que apresenta o Joker como uma figura mítica, central e geradora de conflito e, consequentemente, de narrativa. Existiria Batman sem Joker? Os opostos geram-se e desenvolvem-se, levando à busca de maior perfeição do outro, numa tentativa interminável de superação. De realçar a obsessão, neste volume, com a velhice e a regeneração;

20 – Farmhand – Vol.1 – Rob Guillory – Depois de Tony Chu, Rob Guillory arranca com este projecto a solo onde é autor e desenhador. A série possui uma premissa engraçada que recorda o humor de Tony Chu, centrando-se numa quinta onde partes de seres humanos crescem em árvores, permitindo que se façam transplantes rapidamente – transplantes com excelentes resultados! Tão excelentes que decerto trarão algum aspecto negativo!