Resumo de Leituras – Dezembro de 2018 (1)

 

204 – Princípio de Karenina – Afonso Cruz – Com menos elementos fantásticos do que é usual em Afonso Cruz, Princípio de Karenina é, também, o seu livro mais linear, contendo uma história contada pela primeira pessoa, um homem que conta a sua vida à filha, sob a forma de carta, mostrando como alguém pode viver toda a vida com medo do exterior;

205 – O Comboio dos Órfãos – Tomo 2Philippe Charlot e Xavier Fourquemin – Cada volume contém duas histórias. Neste segundo tomo detalha-se a vida de Lisa e Joey, mostrando como os interesses de quem adoptou as crianças nem sempre eram os melhores. Ambos fogem das suas novas famílias adoptivas em busca do irmão perdido de Joey;

206 – Injection Vol.1Ellis, Shalvey e Bellaire – A existir uma inteligência artificial, porque pensaria como nós? Na realidade descrita em Injection o mundo das lendas cruza-se com o real criando zonas de circulação impossível. Enquanto alguns tentam terminar com estes pesadelos vivos, outros tentam afastar-se das obrigações que os esperam;

207 – Os segredos de Loulé – João Miguel Lameiras e João Ramalho-Santos – Num futuro distante a humanidade regressa ao planeta Terra para pesquisar sobre o seu passado. Ao regressar encontra um arquivista que se mantém vivo após séculos, graças a elevada tecnologia, e que conta a história de Loulé ao longo dos séculos.

O Comboio dos Órfãos – Ciclo II – Philippe Charlot e Xavier Fourquemin

Há dois anos tive a oportunidade de comentar o primeiro tomo de O Comboio dos Órfãos, que adorei. Trata-se de uma série francobelga lançada pela Arcádia que retrata a vida das crianças abandonadas nas grandes cidades americanas nos anos 20. Estas crianças eram levadas para o interior do território americano onde lhes arranjavam famílias de acolhimento. Mas se algumas famílias tratam estas crianças como membros das suas famílias, noutras são uma espécie de escravos, habitantes de segunda categoria sem condições nem possibilidades de educação.

No primeiro volume (que, tal como este, reúne duas histórias) conhecemos a história de dois rapazes cujo destino foi trocado, sendo que um deles, com esta troca, perde a irmã. Os irmãos, ainda que não sejam órfãos, são abandonados pelo pai que não tem condições para os educar. Apesar da situação trágica em que se encontram as crianças, os episódios são envoltos em pequenos detalhes cómicos e apresentam pequenos diálogos quase inocentes que refletem a visão infantil, menos prática, mas mais pura dos acontecimentos. A dura realidade percebe-a o leitor que sabe algo do destino que os espera.

Neste volume conhecemos, mais detalhadamente, a história de Lisa e de Joey – Lisa, uma rapariga de quinze anos, que percebe muito bem a distribuição dos rapazes e que ajuda a cuidar deles. Não espera é ela, também, ser adoptada, mas não com o intuito de fazer dela uma filha, antes uma noiva – o “dono” de uma cidade mineira quer casar e celebra o futuro casamento na taberna local. Por sua vez, Joey foi adoptado por uma família mexicana que o trata bem, mas vê-se arrancado dessa família pelo desejo de um bêbado em ter alguém que trabalhe para ele – o motivo para que os interesses do bêbado possam ser sobrepostos aos da família mexicana? Ser branco.

Ambos se encontram na taberna onde se celebra o noivado e decidem fugir para Nova Iorque em busca do irmão de Joey. Mas como podem viajar sem dinheiro? Ajudados por alguns que pouco têm, ludibriando a entrada em comboios e pedindo esmolas, conseguem encontrar o homem que distribuiu as crianças e que deveria saber qual o destino que deu a cada um. Na realidade a investigação vai-se tornar mais difícil e carregada de imprevistos.

Oscilando entre as perspectivas de várias personagens e as duas linhas temporais (aquela em que decorre a distribuição de crianças, e uma mais actual em que as crianças se transformaram em idosos), O Comboio dos órfãos é uma série carregada de sentimentos contraditórios. Por um lado, as personagens são retratadas com pequenos exageros, tornando-as caricatas e de fácil empatia, por outro, a situação em que se encontram é psicologicamente pesada. A combinação das duas componentes torna a história sublime e não é por acaso que, após a leitura do primeiro volume em português, adquiri a restante série em francês, voltando agora ao português com este segundo volume duplo (os volumes da edição francesa possuem apenas uma história cada um).

A série é publicada em Portugal pela Arcádia.

Outros volumes da série

Rascunhos na Voz Online – Inês Garcia e Tiago Cruz

 

Os autores de Sintra, Inês Garcia e Tiago Cruz, falaram dos seus projectos na banda desenhada, bem como das suas principais influências e à forma como trabalham a imaginação para produzirem histórias de horror fantástico. Sintra foi publicado pela Escorpião Azul. Deixo-vos a ligação para o programa.

Revival – Tim Seeley e Mike Norton – Vol.2

Revival centra-se numa zona dos Estados Unidos da América em que a morte desapareceu. Ou melhor, as pessoas continuam a sofrer acidentes graves, mas os seus corpos recuperam em escassos segundos e a vida continua. Alertadas para tal fenómeno, as autoridades americanas colocam a região em quarentena – trata-se de um segredo que pode colocar o mundo em pânico.

Para as pessoas da região a vida quase que continua como anteriormente. Quase. É chocante ver alguém surgir ileso do seu funeral, é uma fonte de medo ver alguém sofrer um acidente e retomar a vida como se nada fosse. E o medo provoca violência. Sucedem-se casos macabros, de exportação ilícita de partes dos corpos dos que revivem (para serem consumidos) e de agressões violentas. A humanos e a animais.

Ao longo deste volume revelam-se mais alguns detalhes sobre o fenómeno, e sobre umas figuras fantasmagóricas que seguem os que reviveram – figuras que tentam capturar novos corpos, que conseguem gemer algumas palavras, mas que fogem a confrontos com os humanos.

Enquanto o mistério se adensa, uma das mais conhecidas policias da região é levada pelo FBI a uma grande cidade, a fim de perseguir alguém que terá conseguido sair da zona de quarentena – alguém que enloqueceu com as recentes circunstâncias e que se deixa comer por aqueles que procuram a eternidade.

Este volume termina com um fabuloso cross over com a série Tony Chu, em que o conhecido investigador com capacidades associadas à comida é levado à região para uma investigação peculiar sobre pedaços de cadáveres humanos. Trata-se de um episódio mais cómico em que reconhecemos as características destas personagens.

Outros volumes da série

 

Almanaque – Curtas de BD – André Oliveira e Vários Artistas

Almanaque, a mais recente aposta da Bicho Carpinteiro, reúne várias histórias criadas por André Oliveira na qualidade de narrador, e por vários desenhadores. Algumas destas histórias foram criadas para a Cais, publicação para a qual André Oliveira produziu regularmente durante algum tempo, e outras são inéditas.

Tendo sido criadas em alturas diferentes com objectivos distintos, as histórias oscilam em temas e tons criando uma amostra bastante diversa das possibilidades narrativas compostas por André Oliveira. O volume abre com a arte de André Diniz, e passa à de Rui Lacas (ambas facilmente reconhecíveis em estilo), seguindo-se uma reformulação moderna de Volta ao Mundo em 80 dias (com desenhos de Phermad).

Entre as histórias encontramos narrativas de ficção científica (com uma invasão alienígena que critica a paixão dos humanos pelos desportos, ou com um primeiro contacto embaraçoso), narrativas cómicas (onde se retratam as impossibilidades de execução de várias tarefas por um T-Rex ou um dentes de sabre, por exemplo) e de fantasia (com velhos e novos deuses).

Não faltam os temas mais mundanos, como a diversidade da vizinhança, a fanfarronice ou a velhice. Existe espaço para a morte e para a saudade, para a confidência e para a família. Explora-se a cidade e o campo. O passado e o futuro. Cruzam-se conceitos e ideias, ironiza-se em tiradas imaginativas, recolhe-se o pensamento em perspectivas mais íntimas.

Tudo isto, em pouco mais de 60 páginas, muito bem aproveitadas, em que André Oliveira explora vários tons e temas, acompanhado por diversos artistas que ajudam a conferir, a cada história, uma aura muito própria. Tal como estados de espírito, estas histórias oscilam e fazem oscilar humores, aconselhando-se, por isso, que a sua leitura se faça aos solavancos. Uma história de cada vez.

Entrevista com André Oliveira

Outras obras do autor

O Feminino no Fantástico

Antologia de contos de ficção científica e fantástico onde o corpo da mulher tem papel fundamental

Desde o passado Fórum Bang! (no qual participei, com a Inês Botelho, numa palestra sobre a mulher na ficção especulativa) que ando com vontade de espelhar alguns pensamentos na forma escrita. Sim, a representação da mulher tem-se alterado nos últimos anos. Porquê? Será a moda do politicamente correcto? Bem, mais do que uma moda, a minha percepção é que resulta da pressão do próprio público, farto do mesmo.

 

 

 

 

 

 

 

Porque digo isto? Bem, dou-vos como exemplo bastante óbvio as nomeações para os prémios Hugo. Para quem não está a par, aqui há uns anos surgiu um grupo de escritores de ficção científica revoltado com o afastamento dos protagonistas ou escritores tradicionais, brancos hetero. Estavam a ser nomeados, e premiados, sucessivamente, autores diferentes deste padrão original.

 

 

 

 

 

 

 

Este grupo de autores, designado como Sad Puppies, não só fizeram campanha pela ficção científica de homens para homens (ocidentais e hetero, claro) como tentaram concentrar votos em obras específicas. O resultado? Conseguiram algumas nomeações mas não o prémio, existindo algumas categorias em que o resultado foi até “sem premiado”. Pelo meio ainda houve uma nomeação curiosa a Chuck Tingle, um autor de pornografia homossexual de ficção científica, que aproveitou para parodiar o destaque, numa obra curiosa.

 

 

 

 

 

 

 

Bem, julgo que a resposta do público a este movimento demonstra que a verdadeira pressão sobre a indústria literária não é tanto pelo politicamente correcto, mas pela vontade, do público, em ver diversidade nas personagens, e ler obras que representem pessoas e não os típicos estereotipos de heróis, há muito ultrapassados. Personagens que se parecem com pessoas, densas, variáveis e, sobretudo, representativas da realidade que nos rodeia. Representativas da diversidade.

 

 

 

 

 

 

 

Não estou a falar, portanto, só de uma representação diferente do feminino, mas, também, uma diferente representação do masculino. Trata-se de criar histórias mais equilibradas em termos de papéis – nem as personagens femininas têm de ser ridiculamente fortes e destemidas para poderem ser protagonistas, abdicando de sentimentos para poderem ser tomadas a serio; nem as personagens masculinas têm de ser a personificação da certeza e da autoridade, podendo ser apenas pessoas com as suas dúvidas, incertezas e sentimentos.

 

 

 

 

 

 

 

Claro, que na componente feminina, outras questões de levantam. O uso do corpo como elemento para apimentar uma história (neste detalhe já existem exemplos que usam o corpo feminino e masculino) ou o consentimento no uso desse corpo. Não é, totalmente de estranhar que as histórias tradicionais, como as da Disney, os contos de fadas (sobretudo as mais recentes versões Disney), de princesas indefesas e passivas, tenham de ser revistos. Habituámo-nos a aceitar, sem questionar, os papéis que são concedidos às mulheres.

 

 

 

 

 

 

 

Detalhando. Se pensarmos bem, que tipo de homem encontra uma mulher, morta ou inconsciente, no meio de uma floresta e a beija? Que papel tem a mulher na escolha do seu parceiro , se se pressupõe que o príncipe que a salva a possui – sem se conhecerem previamente, a princesa passa de cativeiro a cativeiro. Numa gaiola dourada, claro. Mas nem por isso menos questionável. Que tipo de mensagem passa uma história onde um príncipe não reconhece a mulher pela qual se apaixonou e a procura pela medida de um sapato?

 

 

 

 

 

 

 

Sim, estas histórias reflectem a época em que foram construídas. Mas pouca ou nada se tem feito para as adaptar à realidade que nos rodeia. Quantas características ditas femininas não resultarão das expectativas que nos rodeiam? E o mesmo se pode dizer dos rapazes que não podem expressar sensibilidade ou sentimentos sem serem gozados. As personagens têm de evoluir – e não só as femininas. Deixo-vos com esta provocação. E, espero, algo para pensar. E debater.

Novidade: Imortal Punho de Ferro Vol.3

A G Floy anuncia o lançamento do terceiro volume de O Imortal Punho de Ferro, finalizando a fase escrita por Fraction e Brubaker. Este volume possui extras como a primeira história de Punho de Ferro (por Roy Thomas, Len Wein, Gil Kane e Larry Hama) bem como a história da origem da personagem (para quem viu a segunda temporada da série na Netflix, vão perceber onde é que surgiram todos estes conceitos!)

O último volume desta fase de O Punho de Ferro (que desvenda o segredo da Oitava Cidade Celeste) está previsto para 2019.

Houve sessenta e seis homens e mulheres que atingiram o estatuto de Punho de Ferro ao longo das eras – sessenta e seis homens e mulheres de grande coragem e habilidade, com enorme capacidade de sacrifício, que se interpuseram entre a humanidade e as forças tremendas do Mal. Neste volume, encontrarão quatro contos retirados do grande Livro do Punho de Ferro, as histórias de quatro de entre eles – Wu Ao-Shi, a Rainha Pirata da Baía de Pinghai; Bei Bang-Wen, o feroz Punho de Ferro do ano 1860; Orson Randall, o Punho de Ferro da Era Dourada dos Pulps; e Danny Rand, o Punho de Ferro de hoje. Encontrarão também a conclusão da saga iniciada nos volumes anteriores, e, como bónus… A Origem de Danny Rand, o comic que lançou a personagem, pelas mãos de Roy Thomas, Len Wein, Gil Kane e Larry Hama!

Dois dos maiores argumentistas da actualidade, Matt Fraction (Hawkeye, Criminosos do Sexo) e Ed Brubaker (Capitão América: Soldado do Inverno, Fatale, Velvet, The Fade Out) juntam forças com uma mão-cheia de artistas, entre os quais David Aja, Leandro Fernandez, Nick Dragotta, Travel Foreman, entre outros, para nos contar as histórias de Punhos de Ferro dos tempos passados, uma saga de artes marciais como nenhuma outra, que se estende ao longo de mil anos!

Este volume encerra a fase escrita por estes dois nomes maiores dos comics, Ed Brubaker e Matt Fraction, que mudaram a mitologia do Punho de Ferro de maneira definitiva e convincente, criando todo o universo das Cidades Celestiais e dos Punhos de Ferro do passado. Inclui algumas histórias soltas dos Punhos de Ferro que antecederam Danny Rand, e como bónus reedita a origem da personagem, pela equipa original de Roy Thomas, Len Wein, Gil Kane e Larry Hama. E, embora a saga fique quase, quase completa… teremos um quarto volume de Imortal Punho de Ferro em 2019, que resolverá o mistério da Oitava Cidade!

Conteúdo:

Immortal Iron Fist #7 e #15-16
Immortal Iron Fist: Orson Randall and the Green Mist of Death
Immortal Iron Fist: The Origin of Danny Rand.

 

Rascunhos na Voz Online – Sugestões

Esta semana recomendo livros, banda desenhada, eventos e jogos de tabuleiro! De realçar, claro, a presença de Mike Carey em Portugal no Mensageiros das Estrelas, evento que está a decorrer na Faculdade de Letras na Universidade de Lisboa (evento gratuito). Desejo que estas recomendações vos tragam bons momentos de lazer!

Resumo de leituras – Novembro de 2018 (3)

200 – Tudo isto existe – João Ventura – Colectânea de histórias de João Ventura que espelha a diversidade de projectos em que se envolve, contendo histórias de fantasia e de ficção científica, jogos de palavras e de ideias que ecoam elementos quotidianos;

201 – Almanaque – Curtas de BD – André Oliveira e vários desenhadores – Conjunto de histórias em que André Oliveira é o narrador e os desenhadores são diversos, cada um com um estilo que se adequa bem a cada história. Como sempre, um bom trabalho de André Oliveira que aqui demonstra histórias tão diversas quanto os estados de espírito;

202 – Marcha para a Morte – Shigeru Mizuki – Estamos habituados a ver a segunda guerra mundial pela perspectiva ocidental. Neste caso acompanhamos a perspectiva japonesa de acordo com o próprio autor, que, parcialmente, narra a sua própria experiência. Demonstrando os elementos idiotas da chefia e como esta se encontrava desorganizada e agarrada a valores que estrategicamente não funcionam, Marcha para a Morte consegue a proeza de intercalar a morte com elementos cómicos e absurdos;

203 – Revival – Volume 2 – O segundo volume adensa o mistério em torno da cidade em que ninguém morre, demonstrando haver outros elementos sobrenaturais em causa. O volume termina com uma pequena história que cruza este Universo com o de Tony Chu, aproveitando os poderes deste investigador para resolver um importante caso na cidade.

Ficção especulativa – Novidades

Depois de muito aconselhar Dormir com Lisboa de Fausta Cardoso Pereira, é a vez de Rui Zink  em O Gosto dos Outros. O Gosto dos outros que decorreu na Gulbenkian e deu espaço a que várias personalidades discutissem as suas listas de gostos para inspiração, provocação e discussão.

Estão abertas as submissões para Antologia Queer, uma antologia com pessoas queer em diversos papéis mas que sejam mais do que ícones, pessoas que ultrapassem estereotipos e que possam ser apenas pessoas. Quer dizer, personagens. Interessados? A Antologia Queer está a ser organizada pela Imaginauta.

Mensageiros das Estrelas está de volta! Trata-se de um evento académico que decorre na Facultade de Letras da Universidade de Lisboa e que se dedica à ficção especulativa, trazendo alguns autores conhecidos de ficção científica ou fantástico (como Geoff Ryman). Este ano o autor convidado é Mike Carey que dará uma palestra no dia 30. Para mais informação sobre o evento podem consultar a página respectiva.

Tudo isto existe – João Ventura

João Ventura tem sido um dos prolíferos autores da ficção especulativa portuguesa (ficção científica e fantasia) produzindo com regularidade histórias para várias antologias portuguesas e, até, brasileiras. Entre o realismo mágico com toques de absurdo, ficção científica (incluindo o steampunk) e a fantasia “a sério” João Ventura é um autor consistente na qualidade que entrega e que publicou, agora, esta colectânea de histórias pela Editorial Divergência.

Dada a diversidade de histórias pela qual é conhecido, não é de estranhar, que esta colectânea a espelhe, contendo quatro diferentes secções: Curtas, Tudo isto existe, Fábulas académicas e Hiper-curtas. Esta separação pouco tem a ver com os vários géneros e mais com uma tentativa de agrupar, em formatos uma linha que os una.

Pequena peça de teatro apresentada no Fórum Fantástico baseada num conto de João Ventura que se encontra nesta colectânea

Na sinopse vemos a comparação a alguns autores como Borges, Calvino ou Córtazar, autores conhecidos pelos jogos de palavras e de ideias. A razão da comparação é justificada logo no primeiro conto, Crónica breve das 64 casas, uma história curta que aproveita o tabuleiro de xadrez para tecer uma pequena mas irónica subversão política.

Entre as vírgulas de Saramago e a vergonha perdida que não se encontra nos perdidos e achados, encontramos A tertúlia dos que não viajam, onde vários dos membros se reúnem para falar das viagens que nunca quererão fazer falando das cidades que nunca hão-de visitar. Com pequenos toques em Turing, pedras falantes e fados, vão-se desenrolando mais histórias curtas.

Apresentação do livro por João Ventura e dos editores Pedro Cipriano e Rogério Ribeiro. A apresentação decorreu no Fórum Fantástico 2018

As referências que deixei acima são apenas uma pequena parte dos contos carregados de imaginação de João Ventura, contos que podem pegar em elementos triviais do quotidiano e os apresentam sob nova luz, jogando com palavras e conceitos, dando vida ao inimaginável. São, sobretudo, histórias curtas de composição elegante que usam o mínimo de palavras, numa optimização refrescante que levam o leitor a estar atento a cada passagem.

Várias destas histórias curtas encontram-se também na página do autor Das Palavras o Espaço. A coletânea Tudo Isto Existe foi publicada pela Editorial Divergência.

Andromeda – A House on the Horizon – Zé Burnay

Desconhecia este projecto até o ter visto à venda no Amadora BD. Peguei-lhe por curiosidade, mas comprei-o pela qualidade do desenho – a preto e branco, mas usando texturas para dar toda a “cor” necessária. Já em casa, o que encontrei foi uma parte de um Universo maior, com traços apocalípticos e elementos míticos, um mundo sobre o qual pretendo ler um pouco mais (e pela campanha do Indiegogo do autor, poderei).

Um homem deambula num mundo onde se denotam os restos de uma civilização perdida (com monumentos e outros elementos em visível corrupção) e se encontram, constantemente, monstros com componentes humanos – como aves de cabeça humana. Monstros predadores com uma aparente humanidade que vão sendo repudiados pelo homem e pela força das suas armas.

A deambulação do herói termina numa casa aparentemente acolhedora. Uma casa onde restabelece forças, e onde encontra outros que o acolhem,  mas que esconde um forte segredo e de onde terá de fugir para ganhar nova perspectiva.

Andromeda tem força, sobretudo, na compomente visual – não só pela qualidade do desenho, mas pela projecção de página, que consegue transmitir, sem palavras, introspecção e acção. A componente narrativa é menos simples do que parece numa primeira passagem, sem palavras, mostrando alguém que deambula naquele mundo corrompido e capaz de corromper.

Andromeda é uma edição de autor de Zé Burnay, que pretende, agora, publicar outras histórias deste mundo num formato de melhor qualidade, estando, para isso, em curso uma campanha de financiamento na Indiegogo.

Resumo de Leituras – Novembro de 2018 (2)

 

196 – Andromeda – A house on the horizon – Zé Burnay – Cativa pelo visual, de desenhos a preto e branco cujo detalhe das texturas confere toda a cor necessária e apresenta uma história com traços apocalípticos e elementos míticos;

197 – Histórias de livros perdidos – Giorgio Van Straten – Livro curto, é composto por pequenos capítulos em torno de livros desaparecidos e respectivos autores. Os motivos pelos quais mais ninguém poderá ler estes livros são diversos – queimados pelos seus autores, roubados ou desaparecidos com a morte do autor; os casos são diversos! Uma óptima leitura que sabe a pouco!

198 – Watchers – Luís Louro – O livro tem duas versões sendo que a minha é a vermelha. Trata-se de uma sátira aos tempos actuais, com a construção de ídolos, o seguir de personalidades de objectivos desconhecidos na internet, e o imediatismo nas notícias que deixam de ter carácter informativo e passam a forneceder momentos de choque e emoção a quem as lê / vê. De realçar os múltiplos detalhes no texto e no desenho que hei-de detalhar em entrada própria;

199 – O Resto é paisagem – Antologia organizada por Luís Filipe Silva que reúne várias histórias de teor fantástico que aproveitam a paisagem rural como palco. Nas histórias encontramos toques de lendas locais e superstições, elementos sobrenaturais e naturais! Trata-se de um conjunto de histórias diverso que tem como objectivo entreter o leitor.

Novidade: O Elmo do Horror – Victor Pelevin

Victor Pelevin é um conhecido autor russo de ficção científica e fantástico, com vários livros publicados no mercado anglosaxónico, livros que têm ganho alguma notoriedade como S.N.U.F.F ou Empire V. Este O Elmo do Horror faz parte de uma colecção de histórias míticas adaptadas, na qual a Margaret Atwood também participou com The Penelopiad. Por sua vez, The Penelopiad foi publicado há alguns anos pela Editorial Teorema e mais recentemente também pela Elsinore com o título A Odisseia de Penépole.

Sobre este, que já tenho mas ainda não li, deixo-vos a sinopse:

«Construirei um labirinto onde possa perder-me, juntamente com todos aqueles que tentem encontrar-me – quem disse isto e a que se referia?»

Ariadne, Teseu e um grupo de sete jovens, o mesmo número que, segundo o antigo mito grego, deveria todos os anos ser sacrificado ao Minotauro, estão prisioneiros num estranho labirinto no interior da Internet, confinados a um chatroom, procurando a todo o custo sair deste labirinto virtual e regressar ao mundo real. Aos poucos, à medida que o diálogo avança, torna-se evidente que uma força oculta, um misterioso monstro e o seu temido Elmo do Horror, manipula o conteúdo das mensagens, controlando o destino de todos.

Ligando a antiga Grécia a Freud e aos horrores do subconsciente, e as narrativas tradicionais ao modo como comunicamos no século XXI, Pelevin reinventa o passado e interpreta o futuro da literatura num empolgante jogo de sombras e reflexos.

 

Novidade: PatoAventuras Vol.3

O terceiro volume desta série chegou ontem às bancas! A série é publicada em Portugal pela Goody, num formato maior do que o tradicional para as histórias Disney:

Detalhe de conteúdo

  • Bem-vindo à ilha dos Metralhas
  • A Borboleta Gigante da Patolância
  • Não Há Nada Como Uma Cidade Fantasma
  • A Pedra da Verdade!
  • Um Monstro na Administração
  • O Sono (Sonâmbulo) da Morte

 

 

 

WE3 – Grant Morrison e Frank Quitely

WE3 foi das obras de banda desenhada cuja leitura mais me satisfez nos últimos dias.  Não por ser uma obra introspectiva, mas por estar a precisar de uma leitura carregada de acção, rápida e divertida, mas onde o absurdo ganha forma e nos leva à famosa suspensão da realidade.

A premissa de WE3 é simples, mas carregada de prejuízo – animais foram transformados e adaptados para se tornarem armas perigosas, de grossas armaduras e portadores de grandes e poderosas armas. Estes animais estarão ao controlo do laboratório que os gerou mas quando um político decide terminar o programa (e exterminar os exemplares) alguém solta os animais.

Sucede-se, então, uma perseguição por longos territórios, uma perseguição carregada de máximo prejuízo onde se sucedem os episódios de chacinas perpetuadas pelos animais quando os tentam parar. Os animais procuram, na verdade, uma casa, alguém que cuide deles mas, naquele estado transfordo torna-se difícil encontrar um local onde possam ser aceites.

A descarga de adrenalina que se encontra em WE3 é fortalecida pelo forte desenho e quantidade de perspectivas, trabalhadas intensamente pelos autores. De realçar, também, o detalhe mecanizado dos animais, as estruturas robóticas às quais se ligam e que quase os transformam em monstros – mas quem será o monstro? O animal transformado e capaz de falar, ou os humanos que dele se servem para os seus fins bélicos?

Transformados à medida das necessidades dos humanos, os animais deixam de estar adaptados à natureza – não que deixem de ser capazes de caçar e de se alimentar, mas porque se destacam e diferenciam desta de forma gritante. As suas diferenças transformam-nos em monstros e nem os humanos que os criaram como ferramentas os querem depois de usados.

Movimentado e carregado de violência, mas também possibilitando alguns pensamentos sobre a forma como os humanos usam os animais, WE3 permite uma leitura sem grandes neurónios, mas geradora de grande satisfação para quem gosta de uma boa sucessão de episódios fortes.

WE3 foi publicado na colecção de 25 Anos da Vertigo lançada pela Levoir em parceria com o jornal Público.

Resumo de leituras – Novembro de 2018 (1)

192 – Roughneck – Jeff Lemire – Uma história que decorre numa terra fria e dura, onde os meios de sobrevivência são poucos! O hóquei é uma boa forma de escapar, mas para isso é necessário saber gerir uma carreira no hóquei. Neste caso, o ex-jogador volta ao ciclo de violência do qual tentou fugir, tal como a irmã que foge agora do marido abusador. Uma boa história com o estilo particular de Jeff Lemire;

193 – Essex County – Jeff Lemire – Essex County, escrito antes de Roughneck, apresenta a mesma dura realidade, mas aqui saltanto entre várias gerações de famílias  e mostrando a forma como se entrelaçam os destinos. Excelente;

194 – Livro Sagrado – Santo – Uma sucessão de histórias engraçados que tocam nas criaturas tradicionais portuguesas e em histórias religiosas. Apesar de ter gostado da leitura considero que existem detalhes que carecem de melhor edição;

195 – WE3 – Grant Morrison e Frank Quitey – Uma loucura de adrenalina violenta, em que três animais, transformados em armas, fogem do controlo humano e procuram uma casa.

Livro Sagrado – Santo

Visualmente catita, este Livro Sagrado apresenta várias histórias curtas que misturam história e contos tradicionais, com elementos de ficção especulativa, ora de ficção especulativa ora de fantástico.

Encontramos assim a dama pé de cabra numa história actualizada que se alonga por várias décadas e que influencia fortemente a história de Portugal, marcando a sua génese e provocando vários episódios decisivos.

Para além desta história encontramos várias outras que usam figuras mitológicas que misturam elementos portugueses e estrangeiros, não faltando os gambozinos e os lobisomens que correm fado todas as noites.

O sagrado mistura-se com a fantasia, numa série de histórias imaginativas e cómicas que oscilam entre o profano e o absurdo, resultando numa leitura agradável e divertida que peca nalguns elementos visuais: tipo de letra de difícil leitura, páginas demasiado pequenas para o detalhe apresentado e cores demasiado carregadas nalgumas histórias.

Ainda assim é um trabalho aconselhável que cumpre o papel de divertir o leitor e de deixar algumas fortes imagens de diversão, principalmente aquelas em que profana temas religiosas, com toques irónicos.

Eventos: Jantar dos Devoradores de Livros

Decorre na próxima quinta feira, dia 15 de Novembro, mais um jantar de Os Devoradores de Livros que terá como convidado Luís Louro, o autor de banda desenhada que recentemente publicou Watchers, um livro publicado em duas edições, cada uma com o seu final.  Os Devoradores de Livros costumam iniciar-se com uma conversa com o convidado na Livraria Tigre de Papel, prosseguindo-se então para jantar.

Podem consultar mais detalhes sobre o evento na página oficial.

 

 

 

Rascunhos na Voz Online – Miguel Jorge

O convidado desta semana foi Miguel Jorge!

Miguel Jorge, ilustrador que trabalha para várias revistas e jornais, como Correio da manhã ou o Expresso, é, também, autor de banda desenhada. Mais recentemente lançou o projecto Apocryphus, um projecto que envolve vários autores de banda desenhada e que conta já com três volumes, de temas distintos! Miguel Jorge esteve à conversa connosco falando dos desafios enquanto autor de banda desenhada e enquanto editor da Apocryphus.

Ligação para o programa na Mixcloud.

Listagem de programas Rascunhos.