Novidade: Sintra – Tiago Cruz e Inês Garcia (segunda edição)

Eis nova edição de Sintra! Neste caso não se trata simplesmente de uma segunda edição do mesmo livro, mas uma edição com novos extras e nova capa. Para quem não leu o primeiro recomendo vivamente, tratando-se de uma história de horror que decorre em Sintra, construída utilizando vários elementos do local!

Deixo-vos com a ligação para o comentário completo ao livro, bem como entrevista aos autores e a informação disponiblizada pela editora para este volume:

 

Em Sintra nem tudo é o que parece. Quando um jovem casal de namorados decide acampar na serra de Sintra envolve-se num estranho acidente, acabando por descobrir que não estão sozinhos. Quem habita a misteriosa serra?

A esposa minúscula – Andrew Kaufman

Livro pequeno, retrata as consequências de um assalto num banco – mas ao contrário do que é esperado, não é dinheiro que é roubado! Antes objectos pessoais de cada um dos que se encontra no banco, ou mais precisamente, os objectos que mais importância tenham para cada um.

Ainda que este seja um assalto estranho, o pior ainda está para acontecer. É que a cada um dos presentes no assalto, começam a ocorrer fenómenos estranhos. Maridos que desaparecem ou se transformam em gelo, pessoas que voam ou… pessoas que diminuem.

Foi o que aconteceu a uma das personagens principais. Se o casamento já estava a passar por uma fase difícil, a constatação de uma progressiva diminuição de tamanho da esposa irá simplesmente aumentar a tensão entre os dois. Dia após dia, às vezes, hora após hora, mede-se a esposa para confirmar o fenómeno que decorre ao longo de vários dias – até ser mais pequena que o filho bebé.

A Esposa Minúscula é um pequeno livro que pretende explorar os relacionamentos, dando-lhes âncoras sob a forma de objectos de elevado valor sentimental. Sem estes objectos cada pessoa terá de procurar restabelecer a ligação perdida, algo que não será fácil nem perceptível por todos.

A premissa consegue captar o leitor, mas sente-se que a concretização da ideia deixa alguns pontos por esclarecer e aprofundar, sobretudo quando apresenta pequenos episódios centrados noutras personagens. Trata-se de uma história em que a componente fantástica tem um objectivo simbólico, resultando num livro engraçado (com um título atraente) de leitura aprazível, mas não memorável.

Mar de Aral – José Carlos Fernandes e Roberto Gomes

Eis um dos grandes lançamentos nacionais deste ano! Mar de Aral foi lançado no Festival de BD de Beja e resulta de um esforço conjunto da G Floy com a Comic Heart. Trata-se de um livro de José Carlos Fernandes nunca antes publicado que reúne várias histórias em parceria com Roberto Gomes produzidas há 15 anos. Este livro foi lançado, em simultâneo, em Polaco, Francês, Basco, Espanhol e Português.

A primeira história deste conjunto, que é a que dá título ao volume, aproveita o rápido processo de desertificação do Mar de Aral (que já foi o quarto maior lago do mundo mas que se encontra agora com menos de 10% do tamanho original). Com a diminuição do volume de água, o lago remanescente apresenta um correspondente aumento de salinidade, tornando-se inabitável para as espécies que antes albergava.

Partindo deste facto, José Carlos Fernandes tece uma história fantástica em que os peixes do Mar de Aral tiveram de se adaptar rapidamente a novas condições e procurar novos habitats. Trata-se de uma história imaginativa com os toques típicos de José Carlos Fernandes e com um visual que reflecte bem o ambiente inóspito da região.

Em Um boi sobre o telhado um homem é surpreendido pela presença de um boi no seu telhado, uma ocorrência singular perante a qual apenas o dono da casa parece incomodado.

A terceira história, Roupas de defunto, volta aos detalhes fantásticos, com a indignação dos mortos que não recebem flores frescas com a devida frequência, nem são enterrados com os seus melhores fatos e, por isso, têm de suportar uma eternidade com roupas bafientas ou apertadas.

Por sua vez, em A Inauguração do Panamá uma senhora espera eternamente um convite para o evento, achando que o homem com quem partilhou a cama decerto não se esquecerá dela. O livro termina com A arte esquecida de nadar rio acima mostrando uma escola para salmões em que se ensina a enfrentar as adversidades do rio até ao local da desova.

Alternando diferentes tons narrativos e estilos gráficos, cada história deste volume apresenta uma realidade distinta – algumas distantes e sonhadoras, outras saudosistas, outras, ainda, contendo as reviravoltas com o humor típico do autor. Trata-se de um volume que pode agradar a diferentes públicos por tal cruzamento de diferentes elementos.

Resumo de Leituras – Junho de 2019 (2)

41 – A Esposa Minúscula – Andrew Kaufman – livro minúsculo onde um evento traumatizante (o assalto num banco) se desenvolve de forma pouco usual. O ladrão não pretende levar dinheiro, mas objectos pessoais. O roubo destes objectos tem consequências impensáveis e fantásticas;

42 – Batman: Cavaleiro Branco – Fabuloso retrato de Batman e Joker que coloca Joker como um homem equilibrado e razoável, e Batman como o durão envelhecido que quase se torna vilão pelas suas atitudes;

43 – Bug – Vol.1 – Enki Bilal – Fabuloso trabalho de Enki Bilal. Futurista e apocalíptico, retrata um mundo em que uma influência desconhecida apagou todas as memórias digitais. Não há discos rígidos nem bases de dados, não há internet, nem mecanismos que se baseiem em informação para funcionar. O motivo estará a rondar a terra!

44 – Mar de Aral – José Carlos Fernandes e Roberto Gomes – A primeira vez que ouvi falar deste livro foi na entrevista com Bruno Caetano – entretanto, eis publicado! Mar de Aral é um conjunto de pequenas histórias de detalhes fantásticos bem ao estilo de José Carlos Fernandes! Uma grande leitura!

Novidade: H-Alt N.º8

A H-Alt anuncia o lançamento do oitavo volume com uma selecção de 17 histórias de vários autores e vários géneros. Para mais informações sobre este projecto podem consultar a página oficial.

A imagem da capa é da autoria do consagrado concept-artist e autor de BD espanhol Marcos Mateu-Mestre, estando o seu trabalho em destaque nesta edição. Aparece também uma breve entrevista exclusiva com ele. Na secção Descobrir falamos um pouco sobre a editora Imaginauta.

 

 

 

 

Resumo de Leituras – Junho de 2019

37 – Black Hammer – Vol.2 – O segundo volume continua a história do grupo de super heróis encurralado e semi enlouquecido, mostrando o resultado das tensões acumuladas que se soltam com a chegada de uma jovem, a filha de um dos falecidos super que serve como elemento catalisador para a narrativa;

38 – O Homem Vazio Volume sombrio de terror, O Homem Vazio é uma narrativa competente de horror que nos trás uma espécie de fenómeno sobrenatural memético, em que as pessoas vão sendo contaminadas por uma vontade de se entregarem a fins pouco lógicos;

39 – Winepunk – Vários autores – Apenas agora o inclui na listagem, apesar de o ter lido há alguns meses. A ideia é original, a concretização é fantástica. O volume destaca-se sobretudo pela forma como utiliza factos históricos para criar uma realidade alternativa de grande teor português. Um dos grandes lançamentos do ano.

40 – Laura and the Shadow King – Bruno Martins Soares – É o primeiro livro que leio do Bruno Martins Soares em inglês. A história é movimentada e emotiva, retratando um apocalipse da humanidade no seguimento de uma doença que aproxima os humanos de zombies. Ou pelo menos de seres irracionais, violentos e pouco inteligentes. Mas ao contrário de livros que decorrem em apocalipses zombies, a narrativa tem, neste caso, espaço para explorar relacionamentos e interacções humanas e dá grande foco à empatia.

Novidade: Ditirambos

Ditirambos é outra das novidades prevista para o Festival de Beja, tratando-se de uma antologia:

Um ditirambo é um canto coral exortativo que nos chega da antiguidade clássica grega. Nele, uma multitude de vozes se une, em homenagem ritualística ao deus Dionísio. Seguramente com menos libações, mas com o mesmo fervor, nasce aqui uma nova antologia de banda desenhada portuguesa. O primeiro número explora o conceito de “Êxtase”, e conta com as contribuições de Ricardo Baptista, Nuno Filipe Cancelinha, Diogo Carvalho, Raquel Costa, Francisco Ferreira e Sofia Neto. As distintas técnicas e vozes narrativas obedecem, para além do leitmotiv, a um único requisito: 4 páginas.
 

 

Novidade: As Forças Estranhas – Leopoldo Lugones

Este mês a Cavalo de Ferro publicou outro volume de Ficção Especulativa (para além do livro de Bradbury) – um clássico de fantasia:

Livro que inaugura um novo género na literatura sul-americana: o conto fantástico, As Forças Estranhas, pela primeira vez disponível em Portugal na sua tradução completa, é considerado uma das obras mais inovadoras e influentes do século XX, tendo merecido a admiração de escritores como Jorge Luis Borges, que o incluiu na sua famosa Biblioteca de Babel.

Dividindo-o em doze relatos e uma «Cosmogonia» em dez lições, Lugones recria nesta ambientes mitológicos, bíblicos e populares, em que o perigo das invenções da ciência, a irracionalidade da fantasia e o misticismo religioso convivem lado a lado, propondo uma nova indagação dos limites da realidade e das forças que regem silenciosamente o Universo e a nossa vida.

Novidade: Tangerina – Rita Alfaiate

A Escorpião Azul anuncia um segundo lançamento para o Festival de Banda desenhada de Beja, desta vez um livro de Rita Alfaiate que tem grande ligação a No Caderno da Tangerina:

Este é o capítulo que faltava no livro “No Caderno da Tangerina”. O mistério que envolvia a personagem principal, a Tangerina, é revelado neste livro, cujo título tem o seu nome, em homenagem a todos os incompreendidos, sejam eles adultos ou crianças.

Resumo de Leituras – Maio de 2019 (1)

33 – The Big Sheep – André Mateus e Rahil Mohsin – Com um reconhecível estilo Noir, apresenta uma história com um humor peculiar e bem enquadrado que se acompanha por um desenho a propósito apesar do seu aspecto crú. Uma leitura curta e agradável;

34 – Batman: Noel – Lee Bermejo – Visualmente brutal, reconta a história de Dickens colocando Batman como o herói que já perdeu as medidas à muito tempo e que não olha a meios para conseguir prender o vilão. Batman usa pequenos ladrões que não têm outro modo de subsistência para tentar apanhar o Joker e nem o Super Homem o conseguirá chamar à razão;

35 – Dylan Dog – Até que a morte vos separe – Mauro Marcheselli, Tiziano Scalvi, Bruno Brindisi – O segundo volume de Dylan Dog pela G Floy apresenta duas histórias em torno dos romances de Dylan. Na primeira acompanhamos uma história fantástica que recorda os atentados do I.R.A. mostrando os vários lados das ocorrências enquanto na segunda se descontrói uma vila numa reviravolta esperada mas coesa;

36 – Black Hammer – Vol.1 – Jeff Lemire, Dean Ormston e Dave Stewart – O primeiro volume publicado desta série traz-nos uma história surpreendente – não pela premissa de explorar as fraquezas humanas dos super-heróis, mas pela forma como o faz, mostrando personagens desengonçadas, emocionalmente frágeis, mentalmente confusas e inseguras. Jeff Lemire ganha, definitivamente, um eterno lugar nas minhas estantes para todos os seus livros.

Novidade: A Morte é um acto solitário – Ray Bradbury

Já está nas livrarias um dos mais recentes lançamentos da Cavalo de Ferro. Trata-se de um livro de Ray Bradbury que se afasta do género da ficção científica, mas que toca tangencialmente na ficção especulativa:

Um clássico da literatura norte-americana, e uma obra fundamental de Ray Bradbury.

Numa decadente e fantasmagórica Venice, Califórnia, outrora exuberante estância balnear pujante de vida e movimento, ponto de encontro de estrelas de cinema, turistas e veraneantes, e agora envolta em sombras e nevoeiro, ocorrem misteriosas mortes e desaparecimentos. No cais, local onde se situava a antiga feira popular, em vias de desmantelamento, o corpo de um homem é encontrado debaixo de água, encarcerado no interior de uma jaula de leão submersa. Um jovem escritor, testemunha involuntária deste e de outros acontecimentos insólitos, junta-se ao relutante detetive Elmo Crumley na tentativa de resolver o caso.

Enquanto as mortes se sucedem, e as pistas para identificar o assassino parecem apenas depender da inspiração e intuição do primeiro, desfila uma galeria extravagante de personagens, composta por ex-divas do cinema mudo, uma cantora de ópera retirada dos palcos ou um barbeiro com um passado duvidoso, todas elas pertencentes a um mundo e a um tempo cujo lugar já não existe

 

 

 

Novidade: Tempestade de Guerra – Victoria Aveyard

Com a proximidade da Feira do Livro, a Saída de Emergência anuncia novo lançamento fantástico:

Mare Barrow aprendeu rapidamente que para vencer é preciso pagar um preço muito alto. Depois da traição de Cal, que praticamente a destruiu, Mare está determinada a proteger o seu coração e a continuar a lutar com os rebeldes para assegurar a liberdade de Vermelhos e sangue novos. A jovem fará de tudo para derrubar o governo

de Norta – começando pela coroa de Maven. Mas para a guerra que se avizinha é necessário ter aliados poderosos. Conseguirá Mare lutar ao lado dos que a magoaram para assegurar a vitória? Ou será a rapariga-relâmpago silenciada para sempre?

Na primeira parte da conclusão desta extraordinária série, Mare terá de abraçar o seu destino e convocar todo o seu poder. Quem sobreviverá aos testes que se aproximam?

 

Novidade: Renascidos – Mark Millar e Greg Capullo

A G Floy anuncia o lançamento de um dos meus livros favoritos de Mark Millar – Renascidos (ou Reborn no original). Em Renascidos a morte é apenas a forma como se passa para uma, de muitas outras realidades, que nos esperam, num misterioso caminho de passagem que não se sabe onde termina. A realidade em que acorda a personagem, Bonnie, tem uma polaridade bem demarcada entre o bom e o mau – mas o principal objectivo de Bonnie será encontrar o marido nesta nova realidade. Visualmente trata-se de uma banda desenhada brutal que recomendo vivamente (interesados em ler mais, podem consultar a minha crítica original):

Quando morrerem não vão para o Céu… vêm para aqui..

Para onde vamos quando morremos? Bonnie Black é uma mulher velha e doente, que adormece todas as noites no seu quarto de hospital angustiada com a possibilidade de morrer sem saber o que a espera no além. Mas, depois de morrer, vai acordar num mundo de ficção científica como nunca tinha imaginado – um mundo mágico assolado por uma guerra eterna. O pai dela – e o cão que teve em criança – estão lá, e juntos, terão de partir numa viagem tremenda em busca do seu marido, assassinado há mais de uma década.

 

O Homem Vazio – Cullen Bunn, Vanessa R. Del Rey e Michael Garland

O Homem Vazio é um dos livros mais recentes de Cullen Bunn publicados pela G Floy no mercado português (sendo o mais recente Deadpool mata os clássicos) que segue uma linha narrativa próxima de Harrow County, uma série de horror em lançamento pela mesma editora. Mas se Harrow County consegue ser uma série de horror forte mas ligeiramente suavisada por apresentar uma protagonista jovem, em O Homem Vazio a narrativa é a concretização de um longo e duro pesadelo.

Na realidade apresentada em O Homem Vazio, várias pessoas cedem a novas vozes que se fazem ouvir e as levam a fazer as coisas mais inacreditáveis e horrorosas como se fossem lógicas. Algumas vêem monstros. Outras julgam ouvir Deus. As visões e as suas consequências alastram-se sem aviso nem padrão perceptível levando a que surjam vários cultos religiosos e, claro, uma força policial especial para lidar com estes casos.

Mas nem tudo é apenas psicológico. Pela perspectiva dos dois polícias que seguimos percebemos que o fenómeno tem cariz sobrenatural ou paranormal. Não são só as vítimas que dizem ver monstros, também assistimos a batalhas surreais com pesadelos materalizados.

A aura de horror é densa em O Homem Vazio. O autor consegue transmitir uma grande expectativa quanto ao próximo episódio, podendo existir uma manifestação em qualquer momento e afectando qualquer pessoa. Mas ainda que os desenhos façam jus ao género, o que é torna esta história um forte exemplar de horror são as possibilidades expressas – a ilusão que contamina as pessoas e as levam a actos inanarráveis, a vontade que estas expressam em concretizar estas ideias ou a dissolução de fortes laços afectivos em segundos.

História de volume único, O Homem Vazio é das histórias de horror de banda desenhada mais negras que li nos últimos tempos. O desenho é soturno, de poucas cores (excepto o vermelho contrastando com os fundos escuros) e a narrativa intercala diferentes perspectivas que dão, ao leitor, uma visão mais abrangente, mas, também, mais assustadora.

Outros livros do autor

Resumo de leituras: Maio de 2019 (1)

33 – The Big Ship – A Farm Noir – André Mateus e Rahil Mohsin – Uma pequena história que se enquadra no género noir e que apresenta como detective uma tartaruga inteligente e lenta. O pequeno livro explora os clichés do género de forma engraçada, conseguindo fechar com um humor peculiar e de leitura satisfatória;

34 – Batman: Noel – Lee Bermejo – A história aproveita o Conto de Natal de Dickens para apresentar o Batman obcecado pelo Joker – de tal forma que usa os que o rodeiam de qualquer forma para prender o vilão. A história é mais interessante do ponto de vista visual do que narrativa, com páginas deslumbrantes;

35 – Dylan Dog – Até que a morte nos separe –  Marcheselli, Sclavi e Brindisi – Uma história bastante diferente de Dylan Dog que tem como tema os atentados do IRA, colocando Dylan Dog como um jovem polícia, apaixonado por uma irlandesa que tem um papel bastante menos inocente do que parece;

36 – Black hammer vol.1 – Vários – Uma extraordinária história de super-heróis com narrativa de Jeff Lemire, em que os heróis são apresentados como pessoas quase comuns, com dúvidas, fragilidades e incertezas, demasiado centradas nos seus próprios dramas para verem o que os rodeia.

Novidade: Miss Marple – Um Cadáver na Biblioteca

Aproveitando a proximidade do Festival de Beja, a Arte de Autor anuncia novo lançamento!

O cadáver estrangulado de uma mulher desconhecida é descoberto ao princípio da manhã sobre o tapete da biblioteca da residência do coronel Arthur Bantry e da sua esposa Dorothy. Esta apela de imediato ao bom senso da sua amiga Jane Marple para desemaranhar uma meada ainda mais complicada do que parecia à primeira vista.

 Agatha Christie (1890-1976) conhece o sucesso desde o seu primeiro romance de mistério, O Misterioso Caso de Styles. Foi designada como a «duquesa da morte» e escreveu sessenta e seis romances, e uma centena de novelas que foram traduzidas numa centena de línguas e venderam até hoje mais de dois milhões de exemplares em todo o mundo.

Black Hammer – Vol. 1 e 2 – Jeff Lemire, Dean Ormston, Dave Stewart

Quando soube da premissa explorada por esta série pensei que poderia ser apenas mais uma história a conferir um lado humano aos super-heróis. Mas sendo Jeff Lemire avancei com a leitura. E ainda bem. É verdade que outras histórias de banda desenhada já exploraram a humanidade dos super heróis com poderes. Recordo facilmente as novas histórias da Marvel ou O Legado de Júpiter.

Se algumas histórias da Marvel apresentam heróis jovens que tentam encontrar o balanço entre a sua cultura e as novas responsabilidades, mostrando inconsistências típicas da idade, dúvidas existenciais e dificuldade em controlar os poderes, já em O Legado de Júpiter os super hérois são famosos como as estrelas pop, levando a que os mais novos apresentem os vícios dos famosos e os mais velhos se julguem perfeitos, intocáveis e superiores. O resultado, em O Legado de Júpiter, é catastrófico para a humanidade e resultada em complicadas relações familiares entre os heróis.

Mas apesar de toda esta panóplia de narrativas que se centram no lado humano dos heróis com super poderes, nenhuma consegue ser tão estranha, tão envolvente e, em simultâneo, tão disfuncional e caoticamente tão sentimental quanto Black Hammer. Sentimos o desespero, o amor, a rejeição, a demência, a força – tudo em doses brutais e arrebatoras, que acompanham as personagens imperfeitas de Lemire – imperfeitas como qualquer humano, com falhas e valências, com inseguranças, medos e sentimentos. É que Jeff Lemire não retrata os super-heróis quando estes estão no topo da sua forma. Mas velhos, cansados, derrotados e fartos de uma reclusão forçada que lhes retira todas as possibilidades de uma existência satisfatória.

O nosso grupo de super-heróis encontra-se numa vila interior dos Estados Unidos da América, mas na sua própria quinta onde tentam passar uma noção de normalidade. Mas a família começa a despertar algumas desconfianças na vizinhança, sobretudo pelas atitudes da criança que bebe, fuma e pragueja como um adulto. É que apesar do corpo de criança, esta heroína é uma senhora de sessenta anos que se transforma numa menina para desempenhar as tarefas heróicas e que agora se vê presa neste corpo, sem poder usufruir da reforma que tanto anticipava nem das poucas vantagens da idade.

Entre o robot que cuida das tarefas de casa, o alienígena homosexual que tenta estabelecer novos laços e o herói cosmonauta que viaja constantemente entre realidades, tempos e espaços (e por isso não está preso, mas demente), o grupo é disfuncional, catastrófico e depressivo. A menina não consegue ser vista como o adulto que é, causando-lhe eterna frustração e Abe com mais idade procura um novo amor na ex-mulher do xerife ciumento.

Cada membro daquele estranho grupo tem problemas pessoas nos quais se foca excessivamente, perdendo as pistas de que algo naquele local não é coerente. Será a vinda da filha de um dos heróis falecidos que perturbará o equilíbrio insano e dará início a uma sucessão de rupturas – mas onde terminarão é algo que ainda não é revelado.

Jeff Lemire tornou-se rapidamente um dos meus autores favoritos pela forma como desenvolve personagens. São personagens imperfeitas e muito humanas, que facilmente geram empatia fazendo com que os cenários mais banais possam ser explorados e se mantenha o interesse do autor (como com outros livros do autor). Não é o caso. Por detrás destas estranhas relações entre super heróis encontra-se uma trama maior, um mistério pronto a ser desvendado, que serve de ligação de toda a trama.

Os dois primeiros volumes de Black Hammer foram publicados pela Levoir em parceria com o jornal Público.

The Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction

Se bem repararam, o Rascunhos tem estado mais silencioso nestas últimas semanas. Tal redução de publicações deve-se ao surgir de um novo projecto que estou a coordenar conjuntamente com o Carlos Silva – o The Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction.

Ainda que apenas tenha sido lançado no passado Sábado, dia 11, é um projecto que fervilha desde que a sua necessidade se tornou evidente na Eurocon de Barcelona, há alguns anitos. É que, após apresentarmos vários livros, autores e iniciativas portuguesas, não tinhamos nenhum portal que pudesse dar continuidade ao interesse que se gerava pelo que é feito em Portugal.

É neste seguimento que surge, então, o portal – um esforço conjunto de mais de 20 pessoas que inclui associações e vários bloggers para divulgar tudo o que ocorre a nível nacional em várias vertentes – literatura, jogos de tabuleiro, banda desenhada, videojogos, rgp, cinema, música, teatro. E em língua inglesa para podermos dar maior visibilidade internacional!

O arranque de dia 11 trouxe artigos sobre videojogos, jogos de tabuleiro, livros (claro) e banda desenhada – mas já estão programados artigos sobre cinema, teatro, eventos e muito mais. Estamos abertos a contribuições, sugestões, ideias e muito mais – basta contactarem-nos pelo formulário que se encontra na página.

Winepunk – Nunca Mais – João Barreiros

A história de João Barreiros é, como não podia deixar de ser, apocalíptica. Tecendo uma trama intensa, carregada de elementos tecnológicos e futuristas, a história de João Barreiros é das que mais desenvolve esta possibilidade de uma realidade alternativa. Apresentam-se tramas políticas e interesses pessoais, mostram-se os novos reis do Norte que carregam esperanças e expectativas para o seu novo Reino. Mas mais do que isto, apresenta-se uma nação capaz de fazer inveja a poderosos países como os Estados Unidos da América.

A origem desta inveja está numa nova droga, proveniente de uma casa especial de uva que permite, a quem a toma, sonhar com um dos múltiplos futuros possíveis. Os sonhadores, explorados pela Monarquia do Norte , permanecem em armazéns, fechados, em armazéns, enquanto as suas consciências captam detalhes tecnológicos que permitem que a Monarquia do Norte se afirme apesar do diminuto tamanho e das dificuldades financeiras e estratégicas.

As possibilidades provenientes desta droga são de tal forma reconhecidas que não faltam espiões e tramas para conseguir roubar uns ramos desta videira – e é assim que se inicia o volume, com um homem que resolve enfrentar os enxames de abelhas especiais, bem como os morcegos explosivos que pouco hão-de deixar para que possa ser reconhecido. Este é apenas um dos vários episódios catastróficos que demonstram a usual capacidade de João Barreiros em destruir personagens e cenários de forma firme, rápida e com o máximo de prejuízo.

Entre futuros deprimentos e monstros de pensamento básico mas letal encontramos humanos decadentes e egoístas que irão desencadear uma série de eventos bombásticos. João Barreiros não poupa nada nem ninguém!

Cáustico, imaginativo e carregado de um humor negro que é muito característico ao autor, esta longa história apresenta uma trama densa e satisfatória que rapidamente se torna na melhor do antologia, tanto pelos vários elementos que cruza, como pelo desenvolvimento de personagens caricatas e pela descrição de episódios cortantes.

A antologia Winepunk foi publicada pela Editorial Divergência.