Rio – Louise Garcia e Corentin Rouge

Recentemente publicada pela parceria entre a Asa e o Jornal Público, Rio é uma série franco belga recente (a edição original é de 2016) que nos leva às favelas do Rio de Janeiro, locais sem futuro que vivem entre a corrupção policial e a violência dos gangues. A série mostra como os círculos de violência se perpetuam naqueles que foram marcados pelas favelas, e nem novas oportunidades conseguem ser uma saída deste mundo.

A história

Rio começa por nos apresentar duas crianças que se dirigem a casa – mas o que os espera não é o usual aconchego caseiro. A mãe é morta à frente do filho mais velho por um policial, que leva a irmã, fugindo dos policiais. Nas ruas, o duo mendiga, pedindo moedas e comida sem grande sucesso. A solução passará por se juntarem a um grupo de outras crianças que planeia pequenos golpes para sobreviver.

Depois de alguns golpes bem sucedidos, o grupo torna-se relevante o suficiente para se tornar o alvo de um grupo de polícias a soldo. Vários são mortos durante a noite, mas o duo de irmãos sobrevive – o mais velho terá de ficar no hospital por alguns meses, enquanto a mais nova é acolhida num orfanato e conhece novos potenciais pais. Ambos são adoptados, mas apesar de toda a riqueza americana que os envolve, as suas vidas serão determinadas pelas favelas.

Comentário

Rio apresenta-nos a dura existência nos bairros pobres. A polícia, corrupta, não serve para proteger os cidadãos, mas sim para os manipular, usar e matar. Alguns encontram-se associados a altos poderes militares, estes, também corruptos e associados a criminosos. As crianças, orfãs, que vivem nas ruas são vistas como um inconveniente a ser eliminado a qualquer custo e não como crianças.

Por outro lado, quem protege as favelas são os seus moradores, incluindo os traficantes. A maioria destes fornece bens de primeira necessidade e garante a sobrevivência da população. Alguns tornam-se políticos e usam o seu poder para manipular novas forças, mas não deixam de tomar conta dos seus, apesar de todos os jogos de influência.

Esta visão é fornecida na banda desenhada a partir dos dois jovens. Assistimos às mortes injustas que a polícia provoca, bem como à sua corrupção, agindo a mando de quem paga mais. No extremo oposto, os traficantes protegem parte da população das favelas, mas também lutam entre si por poder – e estas lutas de poder resultam em baixas em todos os lados da barricada.

A realidade retratada em Rio é mais complexa, claro. Existem vários gradientes de cinzentos, várias facções, e vários bandidos, mas poucos heróis. Uma das vertentes que realço em Rio é o facto de não existirem personagens absolutas – são gradientes, com virtudes e defeitos, com objectivos próprios e vontades. Neste sentido, a caracterização de personagens é um dos pontos fortes de Rio, para além da forma complexa como os acontecimentos se desenrolam – complexa porque não têm um fecho óbvio e directo, existindo sempre alguns detalhes que lhe conferem novas camadas de entendimento.

Conclusão

Rio é uma leitura pesada. Não por se centrar em crianças, mas por mostrar as poucas oportunidades que têm aqueles que nascem nas favelas. Ultrapassando o enquadramento social, é uma história que, apesar de se centrar em poucas personagens consegue ter alguma complexidade narrativa, sobretudo por não retratar as personagens como absolutamente boas ou absolutamente más. É uma boa leitura que se dedica a um tema diferente do habitual.

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