Resumo de leituras – Agosto de 2019 (1)

61 – Osso – Rui Zink – Tal como a Instalação do Medo, este livro do autor decorre num espaço fechado, baseando-se na totalidade na conversa entre duas pessoas, neste caso, um homem preso por tentativa de terrorismo e o seu interrogador. A conversa desenvolve-se, por vezes de forma circular resultando numa maior comunicação entre os dois do que o interrogador pretende. O final tem traços fantásticos, apesar de toda a restante narrativa não ter elementos fora do comum;

62 –O Rasto de García Lorca – Carlos Hernández e El Torres – Enquanto outras narrativas tentam reconstituir o autor através da biografia, esta narrativa centra-se no vazio que o artista deixou nos amigos e na sua terra de origem. Trata-se de uma narrativa em que o artista é, sobretudo, uma figura ausente e se caracteriza exactamente por essa ausência;

63 – Fantasmas da Mente – Paul Tremblay – Uma narrativa curiosa de horror que conta, pela perspectiva de uma menina, os transtornos psicológicos da irmã que se julga possessa. A própria narrativa não tenta impor uma interpretação sobrenatural, deixando  no ar pistas para todas as dúvidas possíveis;

64 – Punk Rock Jesus – Sean Murphy – Este volume da colecção comemorativa dos 25 anos da Vertigo apresenta o retorno de Jesus pelas mãos da ciência. Numa espécie de reality show é explorado este retorno, com a apresentação de uma jovem inseminada com aquilo que se julga ser o clone de Jesus. O responsável pelo programa determina a educação do menino e controla todos os que directa, ou indirectamente, participam – com consequências catastróficas.

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Duke – Vol.1 – A Lama e o Sangue – Hermann & Yves H.

No Faroeste impera a lei da bala. E a febre do ouro. Este primeiro volume de Duke leva-nos a uma cidade mineira onde a personagem que dá nome à série é ajudante de xerife. Trata-se de um homem sério que tem um pequeno romance com uma mulher de um bordel local – uma mulher para quem a presença na cidade mineira já ultrapassou os limites aceitáveis e que pensa em melhores locais para viver.

Nesta cidade mineira, a história apresenta-nos um homem pobre, um mineiro que regressa a casa após o trabalho. Mas o seu descanso irá durar pouco, interrompido por vários pistoleiros que obedecem às ordens do dono da mina. Quando encontram, em casa deste mineiro, algumas pepitas de ouro escondidas, castigam-no matando a família.

Esta será a ocorrência que irá justificar os restantes acontecimentos da série. A morte destes inocentes irá provocar a revolta de um grupo de mineiros que se vira, finalmente, contra os pistoleiros e tenta a fuga. Sem sucesso. Após presenciar a morte cobarde dos mais fracos Duke irá tentar fazer justiça, mesmo contra as ordens do homem mais rico da cidade e sem a ajuda do Xerife.

Visualmente agradável, este primeiro volume de Duke mantém um bom ritmo através de vários episódios de acção que decorrem em cenários detalhados (algo que tem sido abandonado por alguns artistas como forma de expressar, no desenho, a velocidade da acção). Mas não esperem pessoas de aspecto agradável. O Faroeste não era um lugar idílico para se viver, e as personagens apresentam o desgaste real de tal vivência.

Tanto devido ao tema da série (Faroeste seguindo uma personagem justiceira), tanto pelo estilo (francobelga com publicação pela mesma editora), é impossível não comparar Duke a Bouncer. Mas Duke parece-me, por este primeiro volume, menos violento, um pouco mais pausado (apesar de estar carregado de acção) e mais contido no choque ao leitor. Duke apresenta uma personagem principal que parece, neste volume, mais humana que Bouncer, pelo menos na forma como lida com as restantes personagens. Bouncer centra-se numa personagem que parece incapaz de sair do mesmo ciclo de violência. Já Duke parece seguir em frente, para novos percursos.

Duke é uma série publicada em Portugal pela Arte de Autor.

Mataram a Cotovia – Harper Lee e Fred Fordham

Começo por referir que ainda não tinha lido o romance original. Apesar de estar na minha biblioteca por ler há algum tempo. Já me tinha sido referido como sendo um bom retrato das cidades interiores americanas das décadas de 30/ 40. O que não esperava era o contraste. A história é contada pela perspectiva de crianças e da forma como se apercebem das diferenças sociais na sua pequena cidade. Existe, claramente, uma hierarquia que é determinada não só pela quantidade de gerações em que essa família vive na cidade, mas pela riqueza e pela cor da pele.

A história começa como a apresentação das férias juvenis. Com o Verão vem o tempo desocupado e a dupla de irmãos, Jem e Scout, inclui, nas suas brincadeiras, o vizinho que parece ter uma imaginação sem fim  – tanto para criar ficções nas quais se divertem, como para criar episódios ficcionais na sua própria vida. Não é de estranhar que o trio se volte para a casa mais singular da cidade – uma casa que dizem estar assombrada, mas que afinal é habitada por alguém que nunca de lá sai. Como desconhecido, a figura que vive nesta casa passa a ser temida. Ultrapassar o portão é mostrar coragem e é claro que, nestas idades, os jovens se desafiam para ultrapassar os limites da propriedade.

As aulas recomeçam. Com elas ausenta-se o rapaz vizinho, mas apresenta-se uma nova professora. Quando, à hora de almoço, um dos rapazes aparece desprovido de almoço, Scout, a irmã mais nova, apressa-se a explicar que tal não é estranho, dada a proveniência familiar do jovem. Razão para Scout levar umas quantas reguadas. Assim começa, na escola, a caracterização das familias que habitam naquela localidade, em que cada uma tem um papel definido: as boas famílias, os agricultores pobres, aqueles que vivem à margem da lei (através de subsídios e em condições miseráveis), e os pretos (que não têm direito a ir à escola).

Esta caracterização vai sendo aprofundada de forma indirecta ao longo da história, mas atinge o auge quando o pai de Scout e Jem, advogado, defende um jovem de uma acusação de violação. Scout e Jem começam a ser gozados pelos colegas – o jovem que o pai está a defender é preto. Respondem, claro, agressivamente, sem perceberem, na prática, o que estão a defender, ou do que está a ser acusado o pai. Os ânimos exaltam-se e até homens bons se unem para tentar fazer ver ao advogado o erro de prosseguir com a defesa – irritados pela confrontação da palavra de um preto contra a palavra de um branco. As designações de raça existem e têm como objectivo impôr, ao leitor, a visão da época.

Utilizando o ponto de vista das crianças, a história consegue ser percepcionada sem a força de todas as barreiras sociais que realmente aqui estão em jogo. As crianças já entendem estas barreiras mas não lhes dão maior importância do que à justiça. O pai, advogado, é uma personagem correcta que não deixa de defender o que é correcto – nem quando a irmã faz questão de aparecer para tentar impor normas mais femininas à menina.

Vencedor de um Pulitzer, trata-se de um romance mais complexo do que parece. Complexo por toda a dimensão social que transporta. O caso de tribunal acaba por quebrar a inocência destas crianças que se deparam com a injustiça baseada na cor da pele, as inevitáveis diferenças económicas e com as diferentes expectativas para o crescimento de um rapaz e de uma rapariga. Tratam-se de elementos que quebram a visão da sociedade e do crescimento – a das personagens e a do leitor.

Mataram a Cotovia foi publicado em Portugal pela Relógio D’Água, tratando-se de uma edição pouco habitual para esta editora. Em termos de edição nota-se que a lombada não tem o tamanho apropriado para o número de folhas (um dos cadernos está colado fora desta).

Novidade: Cadafalso – Alcimar Frazão

Tal como Entre Cegos e Invisíveis de André Diniz, este livro foi lançado durante o Festival de Beja, mas só agora  chega à distribuição comercial. Eis a sinopse, bem como uma página de exemplo fornecida pela editora:

Nascimento, universo religioso, juventude, mundo do trabalho e morte são os temas presentes no corpo desta obra, e para abordá-los Alcimar Frazão transporta-se no tempo e no espaço, bebendo referências das artes visuais, da literatura e da filosofia existencialista. Nessa viagem, ora se movimenta por uma Florença do século 16, numa busca violenta pela imagem da perfeição; ora destila cinismo sobre a guerra civil e a sua má sorte na Barcelona de 1937; ora perde o compasso da percepção do tempo na urbanidade de São Paulo, no início dos anos 2000. Uma Porto Alegre contemporânea é o cenário do último conto, o único em que o personagem ao qual Frazão empresta a sua forma cede o protagonismo a outro: um homem de meia idade com uma visão muito particular sobre sua própria grandeza diante da fragilidade humana. Em Cadafalso, os personagens tentam a todo o custo sobreviver.

 

Resumo de leituras – Julho de 2019 (4)

57 e 58 – All-Start Superman Vol. 1 e 2 – Uma abordagem curiosa ao super homem, colocando-o como mortal no seguimento de um plano do vilão. Surgem réplicas e versões futuras, enquanto o herói se confronta com a sua própria mortalidade.

59 – A Febre de Urbicanda – Schuiten e Peeters – O volume tem nova publicação em Portugal, com uma história adicional no final. As Cidades Obscuras (nome da série de histórias que decorrem neste Universo) possui vários detalhes fantásticos, numa realidade caracterizada pelo retro-futurismo, onde se construiu uma parte da cidade com grandes e harmoniosos projectos. Enquanto outra parte, semi isolada, permanece num caos contido … até quando… !

60 – Mataram a cotovia – Harper Lee – Não tendo lido a obra original, trata-se de uma adaptação competente que consegue transmitir a história e a problemática social numa pequena localidade interior em que cada família tem o seu lugar social. Existe uma hierarquia clara entre cada uma das famílias.

Novidade: Entre Cegos e Invisíveis – André Diniz

As duas novidades que se indicam da Polvo não são propriamente novidades no sentido em que foram lançadas durante o Festival de Beja. Ainda assim, estão indicadas como tal por terem chegado, durante o mês de Julho, à distribuição comercial. Este novo livro de André Diniz (cujo comentário mais completo podem ler aqui) apresenta-nos uma família de pai ausente que se ressente de tal ausência e fala, no regresso do velório, dos seus traumas e recordações.

Deixo-vos com a sinopse fornecida pela editora, bem como uma página de exemplo da obra:

Brasil, 1971. Enquanto percorrem a longa estrada de regresso a casa após o enterro do Coronel Gilberto Couto, o pai que nunca os reconheceu oficialmente, Jonas e Leona tentam observar o fenómeno da super-lua, anunciado pela rádio. Com eles seguem a mulher de Jonas e um misterioso estrangeiro, a quem deram boleia e do qual não se entende uma palavra. No decorrer desta viagem, a verdade sobre cada um vai sendo aos poucos revelada e vem-se a constatar que, afinal, as coisas não são exactamente aquilo que aparentam ser…

 

Frango com Ameixas – Marjane Satrapi

Em Frango com Ameixas a narrativa centra-se no tio-avô da autora, Nasser Ali Khan, um conhecido músico  que apenas é capaz de tocar no seu tar. Quando, no seguimento de um desentendimento familiar, este se parte, procura, em vão, substituir o tar. Sem sucesso. resta-lhe, tento perdido toda a vontade de viver, aguardar a própria morte.

Apesar da sombra de morte que paira em toda a narrativa, a história tem um tom algo leve, conseguindo aligeirar a componente trágica com elementos caricatos. Os relacionamentos familiares estão desalinhados e Nasser não se identifica com nenhuma das suas crianças – tempestuosas, pouco concentradas, aliadas da sua angústica com a quebra do tar.

Página a página acompanhamos o autor na sua tentativa de substituir o instrumento, viajando e encontrando brevemente uma antiga paixão. Uma paixão que terá estado no centro da sua capacidade criativa. Nasser encontra-se frustrado e deprimido e não consegue estabelecer uma empatia suficientemente forte com nenhum dos seus familiares.

Os desenhos a preto e branco destacam sobretudo as personagens, mantendo o contexto no mínimo. Os fundos escuros são, por vezes, cortados com contornos de personagens anónimas, dando o efeito desejado sem grande detalhe. Não é um tipo de desenho que goste bastante, ainda que seja competente a passar ideias e emoções (através do foco nos rostos e respectivas expressões).

Frango com Ameixas foi lançado pela Levoir em parceria com o jornal Público.

Novidade: Wolverine Vol.2 – Jason Aaron,Yanick Paquette

Já anda nas bancas o segundo volume de Wolverine com o título Demente. Eis mais informação sobre este volume, disponibilizada pela editora:

Desde a sua juventude que Wolverine tem sido tudo menos normal, enquanto viaja pelo mundo e se apaixona, ou se envolve em conflitos e perde o seu amor, no meio da mais antiga das profissões: assassino implacável. Mas, mesmo depois de um século desta vida brutal, conseguiu reflectir sobre as suas memórias, e finalmente, entender verdadeiramente quem ele é… e aquilo que ele é.

Mas agora perdeu tudo isso, memórias e compreensão, e está preso numa cela acolchoada, num asilo para loucos como nenhum outro. Sem memória de quem é, ou de como ali chegou, Wolverine está a mercê do misterioso Dr. Rottwell e dos seus guardas sádicos. E, enquanto Wolverine luta para descobrir quem ele realmente é, e como foi parar a um sanatório cheio de assassinos psicopatas, torna-se claro que os objectivos do Dr. Rottwell são tudo menos altruístas. Conseguirá Wolverine voltar aos seus sentidos antes de sucumbir a uma das terríveis curas do doutor?

Se o primeiro volume de Arma X era como um filme de acção intenso, o segundo volume é um filme de terror ainda mais intenso!

All-Star Superman – Vol. 1 e 2 – Grant Morrison e Frank Quitely

O que seria a humanidade sem o super-homem? Enquanto super-herói, o super-homem luta contra monstros e salva, sucessivamente a humanidade de grandes finais apocalípticos. Mas enquanto figura perfeita de capacidades ilimitadas (segundo a perspectiva humana) o super-homem é, também, o símbolo da perfeição inatingível, um ideal de força, poder e rectidão que nenhum poderá alcançar. Será esta a razão para a eterna frustração de Lex Luthor, transformada em vilania contra a figura que deixa na sombra qualquer ser humano.

Desta vez Lex Luthor tece um plano diferente. Um plano que levará o super-homem até ao sol, a fonte de energia das suas células. Mas, se, aparentemente o plano de Luthor tinha falhado, rapidamente percebemos que o verdadeiro objectivo era sobrecarregar as células do super-homem. Com esta sobrecarga vieram novos poderes, mas, também, a apoptose celular – o super-homem está a morrer. Lentamente.

A perspectiva de mortalidade leva o Super-homem a revelar a sua dupla personalidade a Lois Lane. Desconfiada e desconhecendo a real razão para a revelação, Lane lá se deixa levar por uma comemoração de aniversário onde irá adquirir, por 24h, os poderes do Super-homem. O dia é, como não podia deixar de ser, uma sucessão de reviravoltas, entre lutas com monstros e egos masculinos que se defrontam por uma bela dama com poderes.

Estes dois volumes estão repletos de episodios de acção. Mas também de episódios mais introspectivos. O super-homem confronta-se com a mortalidade pouco distante e tece um plano para a existência de novos seres como ele – existência futura que é comprovada pelas conversas com super-homens dos séculos seguintes. Mas não só. Cruza-se, também, com outras versões dele próprio, sejam provocadas por kriptonite negra, sejam criadas por Bizarro.

E é neste planeta Bizarro que vemos o Super-homem confrontado com uma criação à sua imagem, um bizarro capaz de pensar como nenhum  outro ser criado por aquele planeta vivo. Capaz de pensar, de criar e de aspirar ao convívio com outros mais inteligentes do que aqueles que o rodeiam. Finalmente, depois de uma sucessão de estranhos diálogos (em que tudo o que é dito pelos bizarros tem um sentido contrário e se criam outros seres bizarros semelhantes a super-heróis, mas incapazes de agir eficazmente), o Super-homem volta a salvar o dia. Apenas para enfrentar um Lex Luthor de poderes aumentados, criados à imagem de Super-homem.

Aliás, este parece ser outro elemento constante na história. O Super-homem que se fragiliza e que aguarda o seu momento final, é constantemente imitado. Seja voluntariamente (concedendo os seus poderes a Lane), ora involuntariamente com a chegada de outros outrora habitantes do seu planeta de origem, com a criação de um bizarro super-homem, ou com o ganhar de poderes por Lex Luthor.

Esta constante imitação leva-nos a pensar – afinal, o que faz do Super-homem, o Super-homem? O que o caracteriza enquanto herói? Curiosamente, não são só os poderes. Mas o ter sido criado por humanos, concedendo-lhe uma preocupação pela humanidade e pelo planeta Terra que não poderia existir em outros elementos da sua espécie, ou uma humildade que transporta para a figura humana do Clarke para ter a calma e o controlo necessários. Já os poderes e o sentido de imortalidade, são o que concedem, à personagem, o distanciamento. São os elementos que o levam a isolar-se, a conter para si os segredos da sua identidade. Seja porque é perigoso saber a sua identidade, seja porque existem diferenças biológicas que impedem determinados desenvolvimentos.

Talvez por causa da mortalidade que paira nestes dois volumes, o Super-homem é levado a confrontar o passado e o futuro. O passado sob a forma de uma visita temporal à sua juventude onde revê o pai falecido e fala consigo próprio. E o futuro ao dialogar com os futuros super que existirão nos séculos seguintes. Trata-se de uma abordagem curiosa que apenas poderia ser enfrentada com calma pelo Super-homem e que parece ter como objectivo colmatar uma ansiedade de enfrentar o seu fim.

Esta dupla de volumes vai tocando em todos estes temas sem deixar cair a acção que caracteriza normalmente o género dos super-heróis. Apesar da mortalidade pairar sobre toda a história, existem momentos mais relaxados e divertidos (como a rivalidade por uma Lane com poderes ou a entrevista de Clarke a Luthor) e momentos dedicados apenas a grandes batalhas com monstros estranhos de motivações básicas.

Digam lá que esta imagem não recorda um barquinho de Hades?

All-Star Superman foi publicado em dois volumes pela Levoir em parceria com o jornal Público e trata-se de uma história que pode ser facilmente lida por quem pouco conhece do Universo em causa.

Novidade: Solar Sailors #2 – Daniel da Silva Lopes e Francisco Ferreira

A editora Gorila Sentado anuncia novo número de Solar Sailors. Este número será lançado no dia 27 de Julho, na Legendary Books (Alvalade Lisboa), pelas 19:30h. Eis a sinopse, bem como algumas páginas disponibilizadas pela editora:

Sê discreto ao explorar a terra do Homem e conseguirás ouvir a verdade. Um Sailor, alguns Reavers, um pai e um filho dão o primeiro passo. Estão abertas as hostilidades e a cortina começa lentamente a subir.

 

Workshop: Histórias em Vinhetas – Banda Desenhada

Para os interessados a formação é gratuita, havendo apenas o dever de inscrição. Esta formação vem no seguimento de uma oportunidade de financiamento promovida pelo Factor C, com o apoio da Câmara Municipal de Cascais, Junta de Freguesia de Alcabideche e Junta de Freguesia de Sáo Domingos de Rana, com o objectivo de estimular o desenvolvimento de competências transversais, tais como o espírito de iniciativa e a capacidade de resolver problemas, através da implementação de projectos com impato nas suas comunidades.

O workshop destina-se a jovens com mais de 14 anos e encontra-se a cargo de Duarte Maria com a Coordenação de Beatriz Branco, e será realizado na Escola Básica e Secundária Ibn Mucana, em Alcabideche. As inscrições acabam hoje.

Príncipe Valente – Vol.1 – 1937 – Hal Foster

Príncipe Valente é uma das mais recentes apostas da Planeta De Agostini na banda desenhada, prevendo-se o lançamento até ao último de 2018. Cada livro inclui o material publicado num ano, desde 13 de Fevereiro de 1937. Confesso que, normalmente, material tão antigo não me desperta grande interesse, mas existiam vários comentários muito positivos à série.

O que encontrei foi um volume voltado para um público mais juvenil. Talvez por isso, a história é muito movimentada e o texto que acompanha cada imagem possui o mínimo indispensável, conferindo-lhe uma passada mais leve do que esperava pela antiguidade da história. No início de cada página encontramos um pequeno texto de resumo que nos introduz à acção dos próximos blocos e que facilita a paragem em qualquer momento da história.

Com um grande foco na acção, a maioria dos desenhos possui pouca profundidade, mostrando, em primeiro plano as personagens. Em vários dos desenhos não existem qualquer imagem de fundo. Os momentos mais pausados são poucos e servem apenas como forma de arrancar a próxima aventura do Príncipe Valente.

De origens reais, o príncipe viria a nascer no exílio e cedo fica orfão de mãe, que não aguentou o clima húmido da nova localização. Aspirando a tornar-se cavaleiro, o Príncipe Valente é inventivo e destemido, enfrentando várias bestas sem medo, mas com engenho. O mesmo engenho que lhe permite engendrar uma forma de arranjar um cavalo sem ter de pagar por ele, e o mesmo engenho que lhe permite agir de forma eficaz nas várias lutas que vai travando.

Como se não bastassem estas características, o Príncipe Valente é, ainda, um rapaz justo, sem ser propriamente bondoso. Atacado nos pântanos por algo que achava ser um monstro, o Príncipe Valente poupa a vida de um homem deformado – uma vida que acaba por lhe valer os favores de uma bruxa que prevê o seu futuro.

De cores mais simples e tradicionais e com elementos mais realistas (à excepção dos monstros) Príncipe Valente é uma série de acção que se lê bastante bem, mesmo passados mais de 80 anos do seu lançamento – tal é garantindo pela estrutura e forma como vai apresentando a acção, página a página.

Novidade: O Rasto de Lorca – El Torres e Carlos Hernandez

Eis o volume desta semana da colecção Novela Gráfica:

O Rasto de Lorca, novela gráfica que a Levoir e o Público editam a 25 de Julho, dá a conhecer a vida do poeta granadino Federico García Lorca, um dos poetas mais importantes do século XX, não só da literatura espanhola, mas também da poesia mundial.

Porque este é um trabalho de autores, um intenso trabalho resultado de muitas leituras,  investigação e  entrevistas,  Carlos Hernández, desenhador e El Torres, o premiado argumentista de O Fantasma de Gaudí,(editado pela Levoir e o Público em 2018) juntaram-se para reconstruir a figura de García Lorca através de 12 histórias, em que nem sempre o poeta está presente, ainda que seja sempre a referência protagonista… Uma família que foge de Granada logo a seguir ao assassinato do poeta, uma conversa entre veteranos num bar ou Dalí sendo entrevistado sobre a importância do escritor. Em algumas ocasiões aparece retratado e noutras no papel de protagonista: doente num hotel de Havana ou ensaiando uma peça de teatro numa pequena povoação.

Em O Rasto de Lorca, descobriremos a inapagável marca que Federico García Lorca deixou em todos os que o conheceram, quer seja na sua Granada natal, quer por Madrid, Havana ou Nova Iorque cidades que visitou.

É uma obra bonita, com um desenvolvimento emocionante e interessante, que não deixará o leitor indiferente. A aproximação emotiva e reflexiva, dá diferentes pontos de vista sobre a sua figura e a sua importância, com uma evidente marca de amargura.

 

 

 

Resumo de Leituras – Julho de 2019 (3)

53 – O invisível, a sombra e o seu reflexo – Antónjo Bizarro – Neste pequeno livro de autoria nacional o autor desenvolve várias histórias de crime centrando-se no assassino e nas suas obsessões. Algumas histórias possuem detalhes ligeiramente fantásticos mas a maioria apresenta narrativas sem qualquer elemento pouco natural;

54 – Príncipe Valente – 1937 – Hal Foster – Eis uma série que, curiosamente, envelheceu bem. Talvez por ser voltada para um público mais jovem possui um bom ritmo e uma narrativa simples, que lhe permitem ser lida na actualidade sem quebras. Reconhece-se, claro, o estilo e a cor típicos da altura;

55 – Frango com Ameixas – Marjane Satrapi – Uma narrativa curiosa em que a autora explora um antepassado que, quebrado o seu instrumento musical de eleição, decide morrer. Mas poderá haver mais do que esta quebra de vontade e a autora mistura factos com outros elementos para tecer uma outra história;

56 – A metamorfose e outras fermosas morfoses – Rui Zink – Uma série de pequenos contos que exploram as fronteiras entre o ficcional e o não ficcional, entre o quotidiano e a demência.

Novidade: A Febre de Urbicanda – Schuiten e Peeters

O terceiro volume da Colecção Novela Gráfica é um livro de Cidades Obscuras, uma das fabulosas criações de Schuiten e Peeters:

Esta quinta-feira, dia 18 de Julho, em banca o terceiro volume da colecção Novela Gráfica “A Febre de Urbicanda” de Schuiten e Peeters, um dos títulos mais emblemáticos da série Cidades Obscuras, premiado em Angoulême em 1985, esgotado em Portugal há mais de 20 anos e que agora regressa  numa edição definitiva que, para além de um dossier final sobre a lenda da Estrutura, inclui também a história A Última Visão de Eugen Robick, feita em 1997 para o número final da revista (A Suivre), onde a série nasceu.

François Schuiten é um dos nomes mais importantes da BD mundial, com um percurso ímpar, justamente galardoado em 2002 com o Grande Prémio da Cidade de Angoulême pelo conjunto da sua obra. Escritor, ensaísta, professor universitário, cineasta e um dos maiores especialistas mundiais na obra de Hergé, Benoît Peeters é também argumentista. Juntos, Schuiten e Peeeters, criaram ao longo de mais trinta anos a série As Cidades Obscuras, uma designação inventada por Jean Paul Mougin, director da (A Suivre). Um universo que é constituído por uma série de cidades fantásticas, verdadeiros protagonistas de histórias fascinantes que têm como pano de fundo as relações entre a arquitectura, as emoções e o poder.

Eugen Robick, o urbitecto responsável pelo plano de urbanização que pretende restituir a simetria à cidade de Urbicanda, é confrontado com a descoberta de um misterioso cubo, feito de uma matéria desconhecida, cujo crescimento geométrico vem perturbar e transformar profundamente a imagem da própria cidade e a vida dos seus habitantes. O que irá acontecer à utopia urbana de Robick, agora que a cidade está desestabilizada pelo cubo, e o próprio arquitecto transtornado pela irrupção do amor na sua vida tão regrada?

 

O Tesouro do Cisne Negro – Guillermo Corral e Paco Roca

No fundo do mar escondem-se tesouros. Montanhas de moedas de ouro e prata. Mas mais do que isso, a história de civilizações e detalhes de eventos importantes que podem ser recuperados com os barcos afundados por tempestades ou confrontos militares. E ainda mais do que isso, os restos mortais de seres humanos que têm a sua própria história de vida, um propósito que se esconde com eles no fundo mar.

Quando a empresa Ithaca Deep Sea diz ter descoberto um tesouro com o respectivo barco, cabe aos organismos oficiais espanhóis descobrirem se se trata de um navio espanhol e qual deles. Esta é a única forma de poderem reclamar os tesouros nacionais. Não só pela riqueza propriamente dita, mas sobretudo porque esta empresa actua como verdadeiros piratas, destruindo rapidamente o que não for metal precioso.

Esta descoberta resulta numa intensa batalha legal, com direito a chantagens políticas, ameaças e alguma espionagem. A empresa Ithaca Deep Sea estará associada a alguns organismos muito poderosos que tentam dissuadir o grupo de prosseguirem com a reclamação do tesouro. O resultado é uma história com algumas reviravoltas e mais acção do que seria de esperar da premissa.

Com o desenho característico de Paco Roca, mas com o enredo de Guillermo Corral (baseado na sua própria experiência com uma situação semelhante) é um volume de agradável leitura que se afasta do tom íntimo que costumam ter as histórias de Paco Roca. Apesar de conseguir ter alguns episódios mais pessoais da personagem principal, a história centra-se sobretudo nos eventos presenciados pela personagem, enquanto membro do grupo que tenta reclamar o tesouro descoberto do fundo do mar.

Novidade: Até que a morte nos separe – Mauro Marcheselli, Tiziano Sclavi e Bruno Brindisi

O segundo volume de Dylan Dog tem andado desaparecido das bancas, mas deverá retornar à distribuição, com a presença, nas próximas semanas, na FNAC e na Wook. Este segundo volume traz-nos uma história pouco típica do herói:

Criado por Tiziano Sclavi, DYLAN DOG é o célebre investigador do paranormal, o detective dos pesadelos, uma das mais conhecidas personagens de BD de sempre, cujas aventuras ao mesmo tempo aterradoras, inquietantes e melancólicas, têm encantado leitores – e leitoras – em todo o mundo.

Antes de ser o detective do pesadelo, Dylan Dog era apenas um agente da Scotland Yard que vai descobrir o amor com Lillie Connoly, uma jovem activista irlandesa. Uma história de amor trágica, considerada como uma das melhores histórias de sempre de Dylan Dog, que marcará de forma indelével o nosso herói.

Oriundo de uma família de artistas, Bruno Brindisi entra na Sergio Bonelli Editore em 1990, com apenas vinte cinco anos, desenhando alguns episódios de Nick Raider, até entrar na equipa de Dylan Dog, série onde se vai estrear com a aventura Il Male, escrita por Tiziano Sclavi. Bruno Brindisi é hoje um dos mais representativos desenhadores de Dylan Dog, tendo realizado alguns dos mais importantes episódios da série. Se há adjectivo que caracteriza o seu Dylan Dog, seria naturalmente a beleza, complementada com alguma dose de ironia, tudo servido por uma linha clara, capaz de transmitir as paixões, os amores e desamores do herói.

Mauro Marcheselli é uma das mais influentes personalidades nos fumetti italianos. Nascido em 1953, torna-se redactor da Sergio Bonelli Editore em 1986, e começa a escrever para Dylan Dog a partir de 1992, assinando algumas das melhores histórias do detective do pesadelo, entre as quais poderíamos mencionar Johnny Freak (já publicada em Portugal pela Levoir) e este Até que a Morte vos Separe. Foi editor da série até 2009, passando a ocupar o posto de Director Editorial de toda a SBE entre 2010 e 2015. Dylan Dog absorveu na totalidade trinta anos da vida de Marcheselli, podendo ser hoje considerado, depois de Tiziano Sclavi, como o mais importante autor da série.

Ao contrário dos super-heróis, que têm uma origem bem definida, a origem de Dylan Dog tem sido contada aos poucos, em edições especiais, como é o caso do #121, que coincide precisamente com o décimo aniversário da série. Foi aí que saiu esta aventura, que explora o passado de Dylan enquanto agente da Scotland Yard, antes de se estabelecer como investigador privado. Uma história baseada em factos concretos e bem reais, relacionados com a luta armada pela independência da Irlanda do Norte, luta pela que causou dor e sofrimento dos dois lados da barricada, e que Dylan acompanha enquanto polícia de giro da Scotland Yard, Um jovem polícia, que vê um colega morrer ao seu lado, despedaçado por uma bomba do IRA e que, ainda assim, acaba por se envolver com uma activista do IRA, a bela Lillie Connolly, o primeiro grande amor de Dylan, que marcou também os leitores.

Novidades: O Velho que Lê – Fabio Celoni, Tiziano Sclavi e Angelo Stano

O Velho que Lê marcou o regresso de Dylan Dog ao mercado português (depois das publicações pela Levoir em parceria com o jornal Público).  Este volume será o primeiro de uma nova colecção da G Floy e que já conta com outra história desta personagem da banda desenhada italiana:

Criado por Tiziano Sclavi, DYLAN DOG é o célebre investigador do paranormal, o detective dos pesadelos, uma das mais conhecidas personagens de BD de sempre, cujas aventuras ao mesmo tempo aterradoras, inquietantes e melancólicas, têm encantado leitores – e leitoras – em todo o mundo.

Dylan Dog investiga o desaparecimento de Ozra, um velho obcecado por livros, e irá mergulhar num mundo fantástico, povoado de personagens literárias, pesadelos e horrores bem reais. Para além desta história maior escrita e desenhada por Fabio Celoni, este volume inclui ainda A Pequena Biblioteca de Babel, um divertimento ao estilo “de Borges” sobre o misterioso destino de uma aldeia na Cornualha, que em pouco mais de uma dezena de páginas mostra um exemplo espantoso do universo surreal de Dylan Dog.

Fabio Celoni é um dos grandes criadores de fumetti, a banda desenhada italiana, e um dos maiores mestres do preto e branco, um exemplo da qualidade superior que a produção da Sergio Bonelli, a célebre casa editorial de Tex e Dylan Dog, entre tantas outras séries, consegue atingir mês após mês, nas suas revistas de c. 100 pgs a p/b. Diplomado pela famosa Scuola del Fumetto di Milano, vai tornar-se aos 19 anos no mais jovem desenhador a ser publicado na revista Topolino (Mickey), da Disney Itália. Desde então construiu uma notável carreira como artista de BD. É um dos poucos autores que simultaneamente escreve e desenha as suas histórias na Bonelli, e com este O Velho que Lê, venceu o prestigiado Galeone d’Oro di Cravenroad7 em 2009, o prémio que distingue a melhor história de Dylan Dog publicada em cada ano.

O estilo de Celoni é único, perfeitamente identificável, vibrante e potente. O Velho que Lê é disso perfeito exemplo, no seu tom onírico ou na mistura de diferentes realidades, fruto de uma sensibilidade criativa como poucas, numa história que é também uma grande homenagem a histórias clássicas da BD clássica, como por exemplo Mort Cinder, de Oesterheld e Breccia.

Como suplemento, os fãs poderão encontrar uma maravilhosa – se bem que perturbadora e genuinamente assustadora – história escrita por Tiziano Sclavi – criador da série – A Pequena Biblioteca de Babel, com arte de Angelo Stano. O autor aqui homenageado é, claro, Jorge Luís Borges, e este pequeno conto macabro e cheio de humor negro é um bom exemplo dos muitos aspectos que as histórias de Dylan Dog podem revestir.

Se Dylan Dog é um herói fascinante, Tiziano Sclavi, o seu criador, não o é menos. Personagem torturada, afectada por depressões e bloqueios criativos que o levaram mesmo a tentar o suicídio, Sclavi é uma figura envolta numa aura de mistério. Mistério para o qual muito contribuiu o facto de quase não aparecer em público, raramente dar entrevistas, e muito menos se deixar fotografar. Numa dessas raras entrevistas, ficou célebre a resposta que deu quando lhe perguntaram se se identificava com Dylan Dog: “Nem com Dylan, nem com Groucho” disse, “eu sou os monstros”.

 

Novidade: Frango com Ameixas – Marjane Satrapi

Está nas bancas o segundo volume da colecção Novela Gráfica! Trata-se de Frango com Ameixas, um livro da autora de Persépolis. Deixo-vos com a sinopse e algumas páginas disponibilizadas pela editora:

Marjane Satrapi nasceu no Irão, filha de uma família de uma camada ocidentalizada da sociedade iraniana. Os pais politicamente activos, eram contrários à monarquia do Xá, pela crescente repressão das liberdades civis e as consequências da política iraniana na vida dos cidadãos. Quando o Irão passou a ser governado pelos fundamentalistas muçulmanos, os pais sentindo-se ameaçados partiram para o exílio na Áustria, Marjane voltou mais tarde para o Irão para estudar belas-artes, teve uma educação que combinou a tradição da cultura persa com valores ocidentais e de esquerda.

Frango com Ameixas, embora tendo uma carga política, é uma história de amor de um homem pelo tar, o seu instrumento musical, que o celebrizara como um dos maiores músicos do país e que numa discussão com a sua mulher esta o quebra.

Nasser Ali Khan, tio-avô de Marjane, vivia em Teerão, 1958, inicia a busca por um novo instrumento, mas nenhum tem o som tão perfeito como o que ele herdara na juventude, durante a sua formação. A angústia, o desespero e a perda de esperança levam a que este homem desista de viver e morra de tristeza.

Frango com Ameixas, já foi adaptado ao cinema e conta com a portuguesa Maria de Medeiros no elenco.

Uma história para reflectir sobre o que acontece quando o ser humano se condena a viver no passado e não segue em frente.

“É importante poder morrer de amor, crer que estes tipos de coisas possam acontecer. Isso não existe no mundo de hoje, no qual há menos poesia, menos amor pela arte e pela beleza. Pode ser que necessitemos de mais imaginação e menos de realidade”, assegura a autora.