The Handmaiden / A Criada

Eis um tremendo embuste.

A Criada é, acima de tudo, um tremendo engano, uma história carregada de percepções imediatas que envolve, não só as próprias personagens, como o público, e assim nos leva a todos por uma narrativa aparentemente simples com um pequeno toque final inesperado. Só que o final não é assim tão final e somos levados por novas perspectivas que nos mostram que existem muito mais por detrás da subversão explícita de uns e da inocência apagada de outros.

A história começa por nos ludibriar com magníficos cenários de contraste ocidental / oriental onde co-existem as duas arquitecturas, ambas meras representações simbólicas, aspirações frustradas de quem se quer mostrar o que não é. A par com o fascínio visual são-nos apresentadas as personagens banais e quase estereotipadas de uma história de caça fortunas: uma jovem que detém uma extensa fortuna permanece refém do tio, viúvo, que aguarda o momento propício para se casar e deter a riqueza. Não podendo, por enquanto, unir-se à jovem, educa-a duramente num mundo de medo e perversão, usando-a para leitura de histórias eróticas ou pornográficas a ricos senhores aos quais pretende vender os antigos manuscritos lidos – encenações onde quem pretende enganar se revela presa fácil de enganos.

Tomando conhecimento da existência desta donzela, rica e isolada, um jovem trapaceiro vê na situação uma presa fácil e monta o que espera ser um golpe fácil – seduzir a jovem a fugir e a casar-se com ele. Para tal recorre a parceiros de outros truques, levando uma ladra profissional, seduzida pela possibilidade de riqueza, a assumir o lugar de aia, com o intuito de aspirar a suspiros à sua proximidade.

Parece simples? Pois parece. Mas a meio percebemos que os principais ludibriados fomos nós. Seduzidos pela usual fatalidade do destino, pelo jogo de percepções fáceis e fascinados pela envolvência que provoca vermos os outros a serem enganados, somos nós que caímos no jogo e assumimos uma perspectiva demasiado linear.  Até porque se a história fosse apenas esta perspectiva teria sido bastante agradável.

Quando se apresentam novas camadas de compreensão à já percepcionada exploração pervertida de impulsos, com momentos intensos de logro e corrupção, o filme torna-se avassalador – o que é realmente importante apaga tudo o resto e mostra-nos como somos presas fáceis da percepção imediata.

Resumo de Leituras – Março de 2017 (2)

57 – O Submarino David – Os Túnicas Azuis – Willy Lambil e Raoul Cauvin – Se num volume anterior assistimos à utilização, na Guerra da Secessão, dos primeiros navios couraçados, neste volume acompanhamos a utilização do CSS David, já considerado um submarino;

58 – Agnar, o Bisavô – A Casta dos Metabarões – Jodorowsky e Gimenez – Este foi lido na biblioteca enquanto aguardava a sessão de lançamento de Lovesenda da autoria de António de Macedo. Este volume continua a apresentar a história dos antepassados do Metabarão demonstrando que se trata de uma linhagem forte que apenas poderia resultar na produção de um super guerreiro;

59 – My work is not yet done – Thomas Ligotti – O conhecido autor de terror apresenta um trio de histórias de terror corporativo onde se apresentam as intensas e corrosivas relações entre chefes de departamento. Nalguns episódios o ar é tão pesado que se apresenta como nevoeiro, impossibilitando o normal andar dos empregados. Claro que sendo Thomas Ligotti não se trata, apenas de terror de ambiente – esperem algumas partes mais gore  brutais com elementos sobrenaturais;

60 – Histórias de outro Mundo – Vários autores  – Antologia de histórias de banda desenhada de ficção científica, possui bons momentos e boas histórias, algumas com pitada de humor e ironia.

Resumo de Leituras – Março de 2017 (1)

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53 – O ouro do Quebeque – Túnicas Azuis – Vol. 10 – Ambos os lados da Guerra enviam um par de soldados disfarçados ao Canada com o intuito de capturarem o ouro acumulado por um garimpeiro. Não esperam é que o guia que arranjam seja pior que eles a orientarem-se nas florestas…;

54 – Louco: Fuga – Rogério Coelho – Visualmente esplendoroso, centra-se no Louco, uma personagem da Turma da Mónica que é conhecido pelos episódios mirabolantes. Aqui mostra algumas das suas aventuras entre mundos, fugindo ao cinzento, e aspirando à liberdade das ideias;

55 – Deadpool – A Guerra de Wade Wilson – Duane Swierczynski e Jason Pearson – Neste volume da colecção da Salvat reúnem-se duas histórias sobre a origem desta personagem contadas pelo próprio, e alteradas para sua própria conveniência consoante a situação. Na primeira faz parte de um plano demente como soldado a soldo, e com a segunda pretende angariar alguém que adapte a sua história para um bom filme;

56 – Through the woods – Emily Carroll – De ambiente negro, este livro reúne várias histórias de horror curtas que terminam, quase todas de forma péssima para as personagens, ou, no mínimo, traumática.

Monstress – Marjorie Liu e Sana Takeda

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Publicada pela Image, Monstress revelou um fabuloso mas negro mundo fantástico onde os seres humanos repartem o mundo com Arcanics, seres mágicos na sua maioria antropormóficos ainda que possam misturar características de outros seres ou elementos irreconhecíveis. Bem, repartir o mundo não será a palavra correcta. Os humanos encontram-se em guerra com os Arcanics e consomem-nos para obterem mais magia.

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A história começa com a captura de uns quantos Arcanics, entre os quais se encontra Maika, uma jovem Arcanic que tem poderes pouco usuais associados a uma marca corporal. Em missão de descoberta e vingança, Maika irá libertar-se e libertar os restantes prisioneiros, numa enorme chacina em que enfrenta o passado e revela um assustador monstro interior – um monstro faminto que a protege mas que toma conta da sua consciência e provoca horrores indescritíveis.

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De forte influência oriental, Monstress mistura várias mitologias e dá à figura felina um papel importante nesta realidade fantástica – um papel que vai ganhando importância com a progressão da narrativa, mostrando que são os detentores do conhecimento antigo, da história e de grandes segredos que poderão explicar o actual relacionamento entre os Arcanics e os seres humanos.

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Os Arcanics, vistos pelos humanos como animais úteis, monstros que são chacinados e usados em experiências macabras, são criaturas inteligentes e sensíveis com os quais é mais fácil mostrar empatia. Os humanos mostram-se, ora como marionetas obedientes, ora como seres manipuladores, sádicos em busca de maior poder.

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A história é sombria e explora, indirectamente várias temáticas. Por um lado, Monstress recorre a várias personagens femininas para quebrar os estereótipos e a comum atribuição de papéis.  Vilãs ou heroínas, as várias mulheres que aqui encontramos são personagens complexas, com passados que desconhecemos mas que vamos descobrindo, pessoas de objectivos vários que se confrontam em mais do que um plano.

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Para além da óbvia dissociação entre o género e a capacidade de realizar acções violentas, Monstress apresenta questões associadas à descriminação levando-nos a questionar não só o que define um ser humano mas a legitimidade de torturar, matar e usar indiscriminadamente seres sensíveis e, até inteligentes.

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Monstress é, em suma, uma banda desenhada de difícil definição. Contendo elementos que recordam a melancolia sombria de alguns animes com a impossibilidade de fugir de um destino mesmo que o mesmo se preveja catastrófico, é uma história de auto-descoberta encapuçada de demanda pela vingança.

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Histórias do outro mundo – vários autores

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Este Histórias do Outro Mundo publicado pela Escorpião Azul reúne várias histórias de ficção científica de premissas e visuais variados, algumas histórias irónicas, outras traumáticas ou pesadas, mas todas numa boa combinação de elementos narrativos e artísticos.

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Histórias de horror perpetuadas por familiares, bases espaciais atacadas em surtos de guerra ou enormes catástrofes apocalípticas – algumas investem em sucessivas reviravoltas narrativas, outras em fortes cenários e episódios de acção. Escolham o que preferem numa história de ficção científica e decerto encontrarão neste conjunto.

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Histórias do Outro Mundo foi publicado pela Escorpião Azul.

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Um jogo de ti – Sandman Vol. 5 – Neil Gaiman, Swan McManus, Colleen Doran, Bryan Talbot, George Pratt, Stan Woch e Dick Giordano

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Depois de um volume esplendoroso quer na forma como explora a personagem do Eterno Sono, quer na forma como nos mostra vários deuses, de várias mitologias, em competição pelo Inferno, este volume traz-nos uma história bem mais sombria e arrepiante.

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Quando Barbie, uma rapariga do interior que agora vive na grande cidade, revela que é incapaz de sonhar, tal não parece de grande importância. Quando os elementos dos seus antigos sonhos e brincadeiras infantis se parecem materializar no mundo real, provocando surtos de surrealidade nos que a circundam, percebemos que algo de mundo errado está a ocorrer.

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Uma noite algo de muito errado ocorre. Barbie é puxada para o mundo dos sonhos de criança, numa noite de pesadelo comum a todos os moradores do prédio. Por coincidência (ou não), no mesmo prédio reside um homem vazio que alberga cucos no seu interior, bem como uma bruxa antiga que, ao ser incomodada, inicia uma série de perigosos rituais em vingança.

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Chamada à terra das suas brincadeiras infantis pelos brinquedos materializados em pequenas personagens, Barbie tem uma árdua e longa missão para vencer a governante dos domínios, o Cuco, a personagem que toma conta do ninho alheio, captando recursos e a dedicação dos que a rodeiam.

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Este volume mostra que a fronteira entre o sonho, a imaginação e a realidade é ténue. Neste caso a terra de sonho, formada pela imaginação, transforma-se num longo pesadelo, que engole personagens e tem efeitos bastante nefastos na realidade. O pesadelo não vem só da realidade paralela, mas da conversão das personagens boas em adoradoras do Cuco, fascinadas pelo seu carisma.

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Negro e carregado de consequências pela mútua invasão entre os mundos, o quinto volume volta a demonstrar que atingir novamente o equilíbrio tem um pesado preço, mais para os envolvidos parcialmente do que para os que se encontram no centro dos acontecimentos.

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A colecção Sandman foi publicada em Portugal pela Levoir em parceria com o jornal Público.

O Incrível Hulk – Planeta Hulk parte 1 – Greg Pak, Carlo Pagulayan e Aaron Lopresti

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Se querem força bruta e grandes cenários de batalha mirabolantes, chamem Hulk. Pouco racional e raivoso, Hulk investe contra tudo e contra todos, descarregando grandes quantidades de energia por quem se encontra à sua frente. O facto de ser quase incapaz de se encontrar leva a que os outros super heróis se reúnam e o enviem para um planeta alienígena sem saberem que o estão a enviar para um planeta carregado de batalhas.

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O planeta em que Hulk agora se encontra é dominado por um Imperador, um ditador déspota, maléfico e impiedoso que, à mínima contrariedade ou simplesmente capricho, condena os seus súbditos aos calabouços para ingressarem em batalhas sucessivas onde lutam uns contras os outros, para além de enfrentarem enormes monstros locais.

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Possuidor de uma força sobrenatural, mesmo para este planeta, o cenário não poderia ser melhor para a raiva de Hulk. Não se aliando a ninguém, enfrenta estes monstros de forma desprendida mas vitoriosa em cenas de suster a respiração pela espectacularidade visual.

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Este primeiro volume apresenta não só as sucessivas batalhas, mas a consequente libertação do povo, impulsionados pela destruição de Hulk que acaba por soltar alguns dos outros “gladiadores”. É assim que vamos conhecendo o restante planeta e as povoações, também elas movidas pela raiva, mas também pela vingança, iniciando-se uma série de batalhas que corresponderão à concretização de uma antiga profecia.

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Intercalando diferentes espécimes inteligentes com esplendorosas capacidades para a guerra e para o confronto corpo a corpo, Hulk – Planeta Hulk possui uma premissa bastante simples, quase linear que atinge o seu objectivo de forma bastante simples. A sucessão dos episódios de acção garante uma dinâmica elevada e uma boa variedade visual.

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Este volume é quinto de A Colecção Oficial de Graphic Novels Marvel publicada pela Salvat.

Edição Extra – Geral et Derradé

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Depois de ter adorado A Demanda do G, carregado de elementos mirabolantes que colocam qualquer leitor num estado de boa disposição, foi com grande vontade que peguei neste Edição Extra, que contem histórias das mesmas personagens que já tinham sido publicadas nos mais diversos formatos desde 98.

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Claro que, compilando diferentes história de diferentes origens não é de esperar a estrutura coesa e contínua de A Demanda de G, mas uma série de episódios com o mesmo tipo de humor e elementos divertidos, numa compilação que vale muito a pena.

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Nos primeiros episódios acompanhamos as desventuras de uma mosca intercaladas com os Psicopathos, patos que reúnem uma série de patologias psicológicas. Não faltam, claro, os episódios com a célebre The Badsummerboys Band e até o Pai Natal e Fernando Pessoa aparecem entre as pequenas aventuras.

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O tipo de humor vai variando, com as personagens e as situações, fazendo com que o conjunto seja uma descoberta constante de cenas inusitadas, mirabolantes ou simplesmente idiotas (idiotamente cómicas, claro).

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O conjunto de histórias foi publicado sobre o título Edição Extra pela Escorpião Azul.

Hoje aconteceu-me uma coisa brutal – El Torres e Julián López

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Hoje aconteceu-me uma coisa brutal foi publicado aquando da Comic Con Portugal de 2016, com a vinda dos autores El Torres e Julián López ao evento. Apesar de ter ficado curiosa só recentemente adquiri o livro e descobri uma história de super-herói com poderes um pouco mais introspectiva do que é habitual e um excelente visual.

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Para além das fortes dor de cabeça, Daniel começa, um dia, a ouvir uma voz feminina – uma voz que só ele é capaz de ouvir. A voz instiga-o a intervir no episódio de violência doméstica que decorre no apartamento ao lado e é assim que descobre uma força sobrenatural aliada a uma elevada capacidade de regeneração.

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A este sucedem-se vários episódios em que se decide a intervir, aproveitando os novos poderes para parar e enfrentar criminosos. Como seria de esperar, existem outros como ele, que, desde logo percebe, terem planos próprios ainda que não encarnem o papel de vilão maléfico.

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Apesar destes elementos com super-poderes diferentes juntarem, por vezes esforços para atingirem objectivos comuns, Daniel percebe, num mau momento, que raramente poderá contar com a imediata ajuda e apoio dos restantes. Qual exactamente o papel de cada um e as suas intenções desconhecemos.

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Com elementos comuns a tantas outras histórias semelhantes (o acolhimento alegre e desprendido dos amigos quando descobrem as capacidades de Daniel, a existência de outros, a utilização imediata dos poderes para o bem) e de não conseguir concretizar, na totalidade deste volume, o potencial possível, Hoje aconteceu-me uma coisa brutal tem, também, um desenvolvimento cliché, quase genérico, com a desilusão nos outros elementos com super-poderes e o afastamento necessário de quem se gosta para não os por em perigo.

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No final existem alguns episódios que fogem um pouco à linha narrativa habitual, não se revelando todos os segredos deste mundo e mostrando que o herói central pode escolher o seu próprio percurso afastando-se do que é imediatamente esperado dele.

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Apesar dos elementos conhecidos que são desenvolvidos ao longo da história, a leitura de Hoje aconteceu-me uma coisa brutal vale bastante pelo visual, de fortes contrastes onde se explora, como cenário, a cidade de Barcelona.

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Hoje aconteceu-me uma coisa brutal foi publicado pela Comic Con Portugal.

Drifter – Vol.2 – Ivan Brandon e Nic Klein

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O segundo volume de Drifter continua a linha do primeiro – visual brutal e história misteriosa onde vamos encontrando pistas do que originou as aparentes quebras na linearidade temporal percepcionada, tanto pelas personagens como pelo leitor.

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Passo a explicar. A história começa com um homem a ser salvo de estranhos alienígenas. A percepção que tem é de que a nave onde viajava acabou de se despenhar. Para os que o salvaram, a nave despenhou-se há muito, criando uma pequena confusão na mente deste homem que se refugia na violência como forma de apagar o forte sentimento de impotência.

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Paralelamente vamos assistindo a vários episódios, envolvendo outras personagens,  episódios que visualizamos com pouco contexto, como se, também nós, tivéssemos acabado de chegar e desconhecêssemos este mundo e esta sociedade. Percebemos que os alienígenas funcionam em comunidade entre eles, com uma perspectiva muito própria sobre o que é justiça e regras de convivência, constituindo personagens arrepiantes, pela incapacidade que sentimos em as compreender.

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Misterioso, deixando pequenas pistas ao longo da narrativa saltitante, Drifter é uma leitura desafiante que nos leva a construir um puzzle entre elementos estranhos e pouco lineares, onde os relacionamentos não são óbvios e os acontecimentos não ocorrem de forma sequencial.

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Os azuis a preto e branco – Os túnicas azuis vol.4 – Willy Lambil e Raoul Cauvin

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No quarto volume de Os Túnicas Azuis voltamos à Guerra da Secessão com a conhecida e cómica dupla. Este volume aproveita para explorar a personagem histórica Mathew B. Brady, um fotógrafo que, durante a guerra, e a mando de Lincoln, captava imagens de guerra.

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Depois de um primeiro encontro, pouco auspicioso (pelo menos para Chesterfield), a dupla é obrigada a acompanhar o fotógrafo que se arrisca a exercer a sua actividade nos piores locais da batalha.

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Não é com surpresa que Brady se lesiona, cabendo a Blutch tentar substitui-lo e registar os episódios bélicos. Aproveitando esta nova actividade para fugir da cavalaria (até que enfim!) torna-se um fotógrafo famoso.

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Este volume aproveita assim a dupla cómica para nos apresentar o trabalho de Brady ao longo da Guerra, através do qual aproximou a realidade das batalhas das populações ao publicar as fotos nos jornais.

A colecção Os Túnicas Azuis foi publicada pela Asa em parceria com o Público.

Resumo de Leituras – Fevereiro de 2017 (7)

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49 – Terra de Sonhos – Jiro Taniguchi – Este volume reúne duas histórias bastante distintas, uma primeira, mais longa em que assistimos aos últimos dias de um cão, um animal doméstico muito bem tratado que aguenta o sofrimento da velhice por longos dias, a que se segue a adopção de uma gata prenha que vem preencher o espaço deixado. A segunda é uma história sobre a exploração e o ultrapassar de barreiras físicas e mentais;

50 – Black Face – Túnicas azuis Vol. 9Willy Lambil e Raoul Cauvin – A série continua a explorar a guerra da Secessão aproveitando, neste caso, para explorar o tema da escravatura, um pretexto para fazer uma guerra de ambição e de busca por lucros, que pouco tem a ver com o trabalho escravo;

51 – Histórias de Vigaristas e canalhasOrganizada por George R. R. Martin e Gardner Dozois, a antologia reúne várias histórias fantásticas protagonizadas por vilões em diversos cenários e premissas mirabolantes e imaginativas;

52 – Drifter – Vol.2 – Ivan Brandon e Nick Klein – Tal como no primeiro, a história não é linear e directa. Vamos observando o desenrolar de acontecimentos como meros espectadores, com pouco enquadramento ou compreensão e temos de ir construindo a história, com pistas espalhadas ao longo das várias narrativas.

Through the Woods – Emily Carroll

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Negro e sangrento – Through the woods apresenta uma série de histórias carregadas de monstros, alguns dos quais bem humanos, onde nem as crianças nem as jovens donzelas estão a salvo.

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Jovens donzelas que casam com senhores poderosos e descobrem os restos mortais de jovens esposas no castelo, restos que as irão assombrar para sempre, monstros semelhantes a humanos que iludem crianças a acompanhá-los, pessoas que servem de máscara a pequenos seres, capuchinhas que escapam ao lobo… mas por quantas noites?

Oh, but you must travel through these woods again & again and you must be lucky to avoid the wolf every time. But the wolf… the wolf only needs enought luck to find you once.

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Por mais simples que seja a narrativa, quase linear por vezes e expectável, todos os contos presentes em Through the woods estão impregnados de uma negridão quase total, onde, mesmo fisicamente intactos, ninguém escapa incólume.

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Algumas histórias são adaptações de contos conhecidos enquanto outras aproveitam medos comuns perpetuando a noção de que o Mundo é um lugar de perigos constantes que não se suspendem.

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Visualmente apresenta páginas de fortes contraste, onde o negro das histórias é sobreposto por balões de cores berrantes, elementos que nem sempre me agradaram e que conseguem, por vezes, quebrar o ambiente.

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Com alguns elementos interessantes do ponto de vista narrativo (alguma subversão, muita falta de esperança e resignação perante o destino que se apresenta) Through the woods contém um conjunto de histórias negro que mereciam maior desenvolvimento.

Destaque: Novas edições

Não são só os novos livros que devem ser destacados, mas também aqueles que se recuperam no mercado para não caírem em esquecimento. Eis alguns que serão lançados novamente nos próximos tempos:

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Um dos grandes livros de Italo Calvino, As Cidades Invisíveis, terá nova edição na colecção RTP, em capa dura e preço acessível. Este clássico da literatura fantástica apresenta várias cidades ficcionais descritas por Marco Polo ao Imperador Kublai Khan. Nomeado para o prémio Nebula, o livro já serviu de inspiração para uma Opera. Eis a sinopse:

A este imperador melancólico, que percebeu que o seu poder ilimitado conta pouco num mundo que caminha em direção à ruína, um viajante visionário fala de cidades impossíveis, por exemplo, uma cidade microscópica que se expande, se expande até que termina formada por muitas cidades concêntricas em expansão, uma cidade teia de aranha suspensa sobre um abismo, ou uma cidade bidimensional como Moriana. […] Creio que o livro não evoca apenas uma ideia atemporal de cidade, mas que desenvolve, ora implícita ora explicitamente, uma discussão sobre a cidade moderna. […] Penso ter escrito algo como um último poema de amor às cidades, quando é cada vez mais difícil vivê-las como cidades.» Italo Calvino «Ao projetar a sua própria voz nos relatos de cidades que pontuam o diálogo entre Marco Polo e Kublai Kan, Calvino reencontra essa capacidade dos antigos construtores de fábulas, e sabe transmitir o prazer que aquele que conta tem de suscitar no ouvinte, que é o próprio leitor.» Nuno Júdice Prefaciado por Nuno Júdice.

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Adaptado para cinema, O Prestígio é a história fantástica da rivalidade tempestuosa entre dois mágicos:

Uma história de segredos obsessivos e curiosidades insaciáveis. Londres, 1878. Dois jovens mágicos cruzam caminhos enquanto actuam em luxuosas salas de espectáculo vitorianas. E cedo nasce um feudo cruel que irá assombrar as suas vidas, levadas ao extremo pelo mistério de uma espantosa ilusão que ambos fazem em palco. A rivalidade instiga-os a atingir o pico das respectivas carreiras, mas com consequências terríveis. Na busca de um truque que conduza à ruína do rival, escolhem o caminho da ciência mais negra. O sangue será derramado, mas não será suficiente. No fim, o legado dos mágicos irá passar para as futuras gerações e serão os descendentes a ter de desvendar a teia de loucura que envolve estranhos actos de magia…

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Publicado há algum tempo no mercado português, retorna pela G Floy:

Há dois lados para cada história, e agora chegou a altura de ouvir o lado de Loki: o filho preterido de Odin vai contar a história toda do seu ponto de vista, a sua sede insaciável de poder, os seus sentimentos ambíguos para com Sif, a sua antipatia para com Balder, e o seu imenso ressentimento contra o seu irmão mais velho, Thor. Com a excepcional arte de Esad Ribic, um dos maiores artistas da Marvel, e argumento do romancista Robert Rodi, esta história auto-contida vai mostrar-nos Asgard como nunca a tínhamos visto! Loki tornou-se finalmente soberano de Asgard, e Odin foi colocado a ferros, tal como todos aqueles que batalharam em seu nome. No entanto, Loki vê-se cercado de antigos aliados e interesses vários, todos em busca de recompensa pela ajuda prestada na sua ascensão. E Hela, deusa do Reino dos Mortos, empurra-o para completar o seu triunfo com a execução de Thor. Loki terá de ponderar se a sua existência fará algum sentido sem o seu meio-irmão…

Sobre Loki deixo-vos, também, algumas páginas disponibilizadas pela editora:

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Louco Fuga – Rogério Coelho

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Visualmente espectacular, Louco Fuga é um livro peculiar onde um personagem foge ao cinzento do quotidiano e cria a sua própria liberdade entre realidades e visões, distribuindo um pouco de magia na vida dos que encontra e construindo histórias de aventuras heróicas.

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Personagem criada na Turma da Mónica, é uma personagem que vive no seu próprio mundo fantástico, em que objectos ganham vida, se transformam e falam. Tal como nas aventuras da Turma da Mónica chama Cebolinha de Cenourinha e as restantes crianças fascinam-se pelas histórias mirabolantes que conta, histórias que parece estar a ler de um livro com páginas em branco.

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Perseguido por vilões silenciosos de semblante fechado (não estivessem de armaduras que ocultam as feições) que pretendem suspender as histórias imaginadas, carregadas de possibilidades infinitas, Louco procura o papel heróico. Dirige-se assim à fortaleza sombria, de árvores retorcidas e tenta libertar o pássaro para que as suas histórias voltem a ser ouvidas.

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Do ponto de vista visual, Louco Fuga é diverso. Entre páginas mais sombrias mas deliciosas encontramos outras carregadas de cor e imaginação, que acompanham a narrativa saltitante e surpreendente que se desenrola. Saltita a história, saltita o cenário com uma variabilidade agradável e fascinante.

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Não esperem uma história dura e palpável. Carregada de saltos lógicos que transparecem a loucura da personagem principal, é sobretudo uma história imaginativa, muito menos cliché do que inicialmente poderíamos esperar que dá uma perspectiva engraçada da Turma da Mónica.

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O livro pode ser encontrado nas papelarias pela Panini Comics.

Deadpool – A Guerra de Wade Wilson – Duane Swierczynski e Jason Pearson

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Entre a loucura e a trapaça pouco ou nada se pode acreditar no que Deadpool diz. Este volume reúne duas histórias em que Deadpool tem oportunidade para revelar como surgiu a sua identidade, como se destruiu a sua aparência, como se tornou mercenário. Herói consciente da sua presença numa banda desenhada, consciência que o torna ainda mais louco para os que o rodeiam, Deadpool é um misto de angústia e loucura inteligente.

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Deadpool é, na prática, um palhaço perigoso. Capturado no seguimento de uma missão que originou uma carnificina colossal, é chamado a testemunhar no senado americano. De máscara em máscara conta uma versão da sua história que poucos conseguem corroborar, nem que seja parcialmente. O homem que foi, Wade Wilson, poderá não ter existido, ou pelo menos não da forma como descreve.

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Desfigurado, Deadpool esconde-se por detrás da máscara e por detrás de uma grande dose de sarcasmo sob a forma de piadas constantes que oscilam entre a auto-comiseração e a perda da razão ou de percepção. Entre o que conta e o que sucedeu existe uma grande diferença, e no final ficamos sem perceber se a versão final é minimamente credível. Provavelmente não é.

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Para além da história que dá título, o volume apresenta uma outra história sobre a origem de Deadpool (X-Men Origins: Deadpool). Também aqui Deadpool conta a sua história, procurando, entre os argumentistas de Hollywood quem possa fazer uma boa adaptação.

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Tratando-se de Deadpool, a abordagem é violenta. De argumentista em argumentista, quase todos tentam, sem o ouvir, apresentar uma versão alternativa da sua própria vida, dando-lhe outra profissão ou outra origem. As entrevistas sucedem-se, deixando um rasto de sangue e destruição, até ao momento em que encontra, finalmente, alguém que começa por ouvir a versão de Deadpool.

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Rindo-se de si próprio, perante os que o rodeiam e perante o próprio leitor, consciente de que existe um leitor, Deadpool é uma personagem do qual nada se pode esperar. Pouco linear, escondido sob várias camadas de versões mais ou menos romanceadas dele próprio, ou demasiado brutais, percebemos que o verdadeiro Deadpool, que existe em raros momentos de sanidade, se encontra entre todas estas versões que utiliza a seu belo prazer, consoante a audiência e o objectivo.

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Este volume constitui o 36º de A Colecção Oficial de Graphic Novels Marvel da Salvat.

Terra de Sonhos – Jiro Taniguchi

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Apesar de ter adorado  de O diário do meu pai, a temática levou-me a adiar a leitura deste Terra de Sonhos não sabendo que o que encontraria é bastante diferente. Foi a morte recente do autor que me levou ao livro e o que encontrei foi uma história fascinante sobre animais domésticos.

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O livro começa com Ter um cão, a história de um casal que vê desvanecer o companheiro de quinze anos. Cada vez mais fraco, arranjam esquemas para o conseguirem levar a passear, o momento alto do dia. Mas as pernas estão cada vez mais fracas, o apetite cada vez menor, e, recordando os bons momentos que passaram, o casal faz de tudo para aliviar a resistência que o cão revela durante as últimas semanas.

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Estes últimos momentos fazem-nos jurar nunca mais voltar a ter um animal de estimação, mas uma gata persa que não encontra lar resigna-os a aceitar novamente uma terceira companhia. A gata persa afinal está grávida e ao invés de uma gata acabam por ficar com 3 gatos em casa, a companhia perfeita para a sobrinha que vem passar o Verão com eles.

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A sobrinha, órfã de pai, refugia-se na casa dos tios com receio das mudanças que existirão em casa. A mãe pretende-se casar novamente e a jovem olha com desconfiança para o futuro padrasto. Entre a companhia dos gatos e a paixão do basebol que partilha com o tio, aprecia os momentos de fuga e de paz, que lhe permitirão enfrentar o que está para vir.

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A esta combinação de história que segue o quotidiano do casal e dos seus animais de estimação, segue-se uma história de exploração e aventura, de viagem, conquista e paixão. Um homem vai deixar o escalar das montanhas por uma promessa à esposa grávida e aproveita a última viagem sem saber que será quase a sua desgraça. Quando regressa cumpre o prometido, mas permanece irrequieto, optando por gastar as energias com outras actividades físicas que o poderão levar a esquecer as montanhas.

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A primeira história pode ter o que se pode considerar uma narrativa comum, mas nem por isso menos especial. Os animais que partilham o espaço connosco acabam por fazer parte do nosso quotidiano e por nos influenciar de formas que não imaginamos. De extrema sensibilidade, a primeira história é uma narrativa sentida que revela um enorme amor pelos animais de estimação.

Na segunda assistimos à tentativa de conquista e reconquista, ao desafio constante do que é selvagem e com o qual os homens se identificam, na possibilidade de explorar e ultrapassar barreiras.

Terra de Sonhos foi publicado pela Levoir na colecção Novelas Gráficas, lançada em parceria com o Público.

Outros livros do autor

Resumo de Leituras – Fevereiro de 2017 (6)

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45 – 47 – Os Túnicas Azuis – Vol. 5, 6 e 7 – Willy Lambil e Raoul Cauvin – A série continua a apresentar uma fórmula que funciona facilmente, centrando-se no relacionamento caricato entre as duas personagens principais para nos levar por cenários e factos históricos em torno da Guerra da Secessão. Neste três volumes acompanhamos a dupla ao México, cuja fronteira ultrapassam para fugir ao inimigo. Do outro lado encontram grupos de bandidos e populações submissas a estes, bem como uma estranha religiosidade. Noutro livro os soldados lesionados são encaminhados para uma vila que suporta o outro lado e ao invés de um acolhimento que lhes permita restabelecer a vila torna-se o cenário de uma pequena batalha. Finalmente, em Bronco Benny a dupla é enviada em missão para obter novos cavalos – uma missão mirabolante, carregada de imprevistos;

48 – Um jogo de ti – Sandman Vol. 5 – Neil Gaiman – Shawn McManus, Colleen Doran, Bryan Talbot, George Pratt, Stan Woch e Dick Giordano –  A terra dos sonhos não é tão estanque quanto poderíamos imaginar e por vezes escorre para a nossa realidade. Aqui acompanhamos Barbie e uma amiga da cidade. Barbie já não sonha, mas os seus antigos sonhos infantis vêm ter com ela numa sucessão de pesadelos reais.

Os Azuis da Marinha – Vol.3 Os Túnicas Azuis – Willy Lambil e Raoul Cauvin

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Que a dupla constituída pelo cabo Blutch e pelo sargento Chesterfield é insuportável, já tínhamos percebido nas histórias anteriores. Que fossem tão insuportáveis que acabassem sucessivamente transferidos de unidade em unidade é que não esperávamos.

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Na marinha os dois têm o privilégio de assistir e de se envolverem nas primeiras batalhas contra o USS Monitor, o primeiro navio couraçado, um género de submarino que destroçava qualquer navio inimigo. Terror dos mares, irá defrontar o CSS Virgina numa batalha que se tornará épica.

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Aproveitando a picardia existente entre as várias unidades (cavalaria, infantaria, artilharia e marinha) bem como o relacionamento dos dois personagens, a história move-se de componente em componente da batalha, concedendo uma perspectiva cómica em tornos dos factos históricos que apresenta.

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Leve e divertido, este terceiro volume volta a cumprir a função de, numa pequena história, relaxar e entreter, apesar do contexto que aqui é muito aliviado pela forma como se apresenta.

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A série Túnicas Azuis está a ser publicada pela parceria da Asa com o jornal Público.

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