Fanzine Legendary Horror Stories

A Legendary Books é uma livraria de banda desenhada que tem por missão criar hábitos de cultura entre os mais novos e divulgar o trabalho de autores portugueses. A Livraria publicou recentemente, no MotelX um zine dedicado ao horror que conta com conhecidos autores do meio como André Oliveira e Pedro Cruz, Aragundes Bicho e Anouk Aukine, Nuno Duarte e Rita Alfaiate, Tiago Cruz e Inês Garcia.

A sessão de lançamento contou com a participação de grande maioria dos autores e moderação de Bruno Caetano, que foi realizando perguntas e falando sobre cada uma das histórias. Abaixo cruzo alguma informação que foi fornecida durante o lançamento, com o meu comentário a cada uma das histórias.

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A dupla de André Oliveira e Pedro Cruz já é conhecida de outros trabalhos. André Oliveira ter-se-à inspirado em John Carpenter e a necessidade de desenhar a preto e branco levou Pedro Cruz a adoptar um estilo visual bastante diferente do que conhecemos. O resultado é um conto forte, irónico e de final arrasador.

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O conto seguinte, Fails from the creep provém de Aragundes Bicho e Anouk Aukine, uma dupla que desconhecia. Transformando o Tales from the Crypt, o conto apresenta uma colecção de monstros que se afastam bastante do auge de terror de cada uma das espécies, numa narrativa que tem uns toques políticos.

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Por sua vez, Nuno Duarte e Rita Alfaiate constróem uma história com influências de terror japonês. Trata-se de uma história mais introspectiva, que levou a autora a um estilo gráfico mais carregado de sombras e jogo de luzes que segue uma perspectiva pouco usual, mostrando a partir de um ponto de visão muito baixo – tal como a personagem principal.

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Tiago Cruz afasta-se do estilo narrativo de Sintra, com uma narrativa poética à semelhança do nos apresentou na antologia Humanus. Esta abordagem permitiu que Inês Garcia explorasse diferente cenários para acompanhar cada uma das frases do verso. O volume termina com um poema de Tiago Cruz que acompanha a capa de Jorge Coelho.

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Após a apresentação do volume, alguns dos autores apresentaram os projectos que esperam publicar em breve. Nuno Duarte está a escrever uma história com Fábio Veras, Milagreiro será publicado em inglês pela Kingpin books, será publicado um segundo Gentleman que será desenhado por Fábio Veras, Volta 2 também já estará programado e Mindex estará planeado para o Amadora BD.

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Lançamento: Monstros Fabulosos de Alberto Manguel

A editora Tinta-da-china publicou recentemente um novo livro de Alberto Manguel, desta vez, um livro sobre os monstros na literatura. Cada capítulo é dedicado a um monstro, uns mais óbvios do que outros, constituindo, novamente, um fascinante livro sobre livros.

Mas desta vez o autor estará em Portugal para o lançamento deste livro, num evento que decorrerá na próxima sexta-feira, dia 25 de Outubro, pelas 17h30, no Auditório do Museu da Farmácia. A apresentação ficará a cargo de Pedro Mexia de Pedro Araújo Pereira.

 

 

Evento: O Fascínio das Histórias

No próximo dia 26, irá decorrer, na Gulbenkian, um evento que se centra na ficção especulativa. A programação inclui clássicos de ficção científica, e convidados como Alberto Manguel, Filipe Melo ou Rui Zink, e vai apresentando sessões sobre as várias formas em que estas histórias podem aparecer, desde filmes a livros, sem esquecer a banda desenhada, os videoclips e os videojogos.

Neste dia serão ocupados vários espaços, cada um com uma programação distinta. Aconselho-vos a consultar a página oficial do evento, mas abaixo deixo-vos um rápido resumo. Ainda que me alegra bastante ver desenvolvidas iniciativas como esta, onde há espaço para livros e filmes de ficção científica, o único elemento que me desagrada é o pouco envolvimento de autores do género, existindo vários, entre os convidados que se encontram naquele pseudo intelectualismo que pouco acrescenta a estes géneros da ficção especulativa

Grande auditório – filmes como Fahrenheit 451, Blade Runner,  Blade Runner 2049, o último episódio de Game of Thrones ou o documentário que levou à concretização do evento, O Fascínio das História. De destacar a presença de Rogério Ribeiro, o organizador do Fórum Fantástico, aquando da exibição de Game of Thrones;

Auditório 2 – várias palestras destacando-se Once Upon a Place de Alberto Manguel;

Auditório 3 – dedicada a palestras sobre as histórias do cinema;

Sala 1 – com três palestras diversas, uma sobre o Dicionário dos Lugares Imaginários, outra sobre o tempo e uma terceira sobre distopias / distopias;

Sala 2 – focada na literatura, com palestras, e intervenção de autores como Rui Zink ou Afonso Cruz;

Sala de ensaio do coro – dedicada a biografias;

Sala de ensaio principal – onde se fala de videojogos, séries de televisão e videoclips.

Evento: Noite dos medos

Organiza-se, anualmente, desde 2017, em Melgaço, uma Noite dos Medos! Este evento, que tem como foco o terror, é organizado pelo Município de Melgaço em colaboração com a Associação Empresarial Minho Fronteiriço e tem como objectivos proporcionar animaçao e criar condições para a divulgação de crenças e contos, relacionados com a temática do “oculto”.

O evento incia-se com Welcome Drink dos Medos na Casa da Cultura, espaço que estará tematicamente decorado. Segue-se um cortejo que convida a uma visita ao cemitério dos medos, onde decorrerá o Enterro dos Medos, o Esconjuro das Bruxas e a Queimada Galega. O evento fecha com um espectáculo de fogo e festa.

Para mais informações podem consultar a página oficial do evento.

Novidade: Eu, Louco – Antonio Altarriba e Keko

Será lançado, durante o Amadora BD, novo volume de Altarriba publicado em português. Desta vez o lançamento decorre através da Ala dos Livros, que trará os autores Altarriba e Keko ao Amadora BD, entre os dias 25 e 27 de Outubro. Enquanto não chega o evento, deixo-vos a sinopse, bem como algumas páginas disponibilizadas pela editora.

Ángel Molinos, formado em Psicologia e dramaturgo fracassado, trabalha para a Otrament, um observatório de transtornos mentais que é uma sucursal da Pfizin, uma conhecida farmacêutica internacional que utiliza cobaias humanas para o desenvolvimento de novas drogas. O trabalho de Ángel consiste em criar novos perfis psicológicos passíveis de “catalogar” e que incrementem o consumo de fármacos produzidos pela Pfizin.

Ángel tem pesadelos horríveis. Mas quando desaparece um dos seus colegas que se mostra aparentemente disposto a denunciar as práticas da Otrament, Ángel vê-se envolvido numa trama de conspirações, paranóia e terror que o arrastará para a loucura.

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Nova editora no mercado: A Seita

Apresento-vos A Seita, uma nova editora de Banda Desenhada em Portugal que reúne alguns dos nomes mais conhecidos neste meio editorial – alguns já são editores, outros estreiam-se agora. A Seita, o nome dado à cooperativa destes elementos tem como missão trazer o que de melhor a nona arte tem para oferecer (abaixo a apresentação da editora). 

No curto espaço de tempo entre o anúncio da editora (na altura do MoteLX) e o Amadora BD, já publicaram dois livros, um volume de Dylan Dog (Trevas Profundas) e um Dampyr (O Suicídio de Aleister Crowley); e anunciaram outros dois, A Assembleia das Mulheres de Zé Nuno Fraga e Andrómeda de Zé Burnay.

Queremos apresentar um novo projecto, A Seita, a vossa nova editora de
Banda Desenhada em Portugal, nascida da intenção e devoção de um grupo
de amantes da BD, alguns nomes já conhecidos, outros que se estreiam
profissionalmente.

Nascemos como uma cooperativa, cuja missão é trazer o que de melhor a
nona arte tem para oferecer. Prometemos caçar catálogos do mundo
inteiro, sem limites ou preconceitos, e encontrar o que irá enriquecer
as estantes por esse país fora.

Fazem parte desta “Seita” olhos novos no mundo da edição, mas também
alguns que já andam nestas andanças há algum tempo. A Comic Heart
abrilhanta-nos com a sua presença, tal como a sempre inovadora Bicho
Carpinteiro e a maravilhosa colecção Aleph, ex-selo da G. Floy, que
também nos lega muita da sua experiência, como nossa editora “quase
irmã”.

Não queremos estar circunscritos a fronteiras ou linguagens, e
tentaremos trazer BD de toda a inspiração, desde Franco-Belga, a
Comics, Mangá, Fumetti. E, claro, sempre com a sublinhada intenção de
acalentar e incentivar o que é produzido em Portugal por autores
portugueses.

Além desta missão, temos também um sonho. Queremos que a BD seja lida
por todas as idades, por todos os géneros, por todos os perfis, porque
a BD é, acima de tudo, uma arte onde se contam histórias. Como o
Cinema, como a Prosa, como a Poesia.

Iremos começar a corrida em passo acelerado. Enviamos com este email a
nota de lançamento do nosso primeiro título, no selo Aleph, um novo
Dylan Dog, “Trevas Profundas”, escrito pelo cineasta Dario Argento,
Este livro já se encontra em bancas há alguns dias e chegará em breve
a livrarias várias, Fnac, etc…

Para além disso…

A Seita irá congregar algumas das iniciativas editoriais da
G.Floy/Comic Heart que envolvem autores portugueses, e já anunciámos o
próximo álbum, “A Assembleia das Mulheres”, de Zé Nuno Fraga, que
adapta a comédia grega antiga de Aristófanes, e que terá uma exposição
(e lançamento) na Amadora BD. E outro álbum português ainda por
anunciar…

Também com lançamento agendado para a Amadora está o segundo volume da
Aleph, “Dampyr: O Suicídio de Aleister Crowley”, uma divertida
aventura passada no nosso país com a participação especial de Fernando
Pessoa! O desenhador do livro estará presente no festival, e terá uma
exposição do seu trabalho lá patente.

E, claro, ainda teremos muitas novidades, sendo que lançaremos em
inícios de 2020 um projecto de grande vulto da BD Franco-Belga, que
anunciaremos brevemente.

 

Resumo de Leituras – Outubro de 2019 (2)

85 – Sentinel – Luís Louro – Luís Louro continua no mesmo tom de Watchers, mostrando uma personagem que se fartou da figura dos observadores que perturbam o quotidiano e parte para uma vingança louca e desmedida. O tom visual continua fabuloso, numa história de uma Lisboa futurista, paralela à nossa que é usada como crítica social num enredo mirabolante;

86 – Legendary Horror Stories – Vários autores – A primeira publicação de uma das lojas de banda desenhada de referência em Lisboa traz-nos histórias dos mais conhecidos autores nacionais. O resultado é agradável, com curtas com bons detalhes narrativos e desenhos fabulosos;

87 – Sweet Tooth – Book Three – Jeff Lemire – A história termina neste terceiro livro, trazendo-nos simultaneamente, o culminar de uma civilização e o nascimento de uma nova, mais equilibrada com a natureza;

88 – Rat Queens – Vol.2 – Kurtis J. Wiebe, Roc Upchurch, Stjepan Šejić – Se tinha achado o primeiro volume leve e agradável, uma leitura engraçada que não chega ao extraordinário mas que pode servir para limpar a mente, neste segundo volume, a história pareceu-me ter perdido o foco e entra por uma resolução narrativa pouco lógica. Sim, estamos a falar de um mundo fantástico, mas a sucessão de acontecimentos deveria reger-se por uma linha lógica.

Os Rascunhos no Devir News Portugal

O mais recente episódio de Devir News Portugal foi gravado durante a Comic Con Lisboa! Este episódio segue a já habitual estrutura, com a escolha de um jogo clássico publicado pela Devir e muito espaço para novidades – quer a nível das próximas publicações pela editora, quer a nível do projecto Rascunhos!

As Sombras de Lázaro – Pedro Lucas Martins

O vencedor do prémio de António de Macedo (prémio organizado pela Editorial Divergência) do ano passado é um novo autor, Pedro Lucas Martins. O livro com que venceu o prémio, As sombras de Lázaro, é um livro de terror, de tom pausado, que recorda algumas obras mais clássicas pela forma como se desenvolve, sem pressas.

A história decorre na fronteira ténue entre a loucura e o sobrenatural, fornecendo detalhes suficientes de ambas as vertentes para nos deixar na dúvida ao longo de todo o romance, sobre a origem dos elementos que provocam a narrativa. Elementos estes que são desenvolvidos na medida certa – o suficiente para tornar a leitura inquietante, mas sem a exaustão que poderia deixar a narrativa insípida.

A narrativa decorre num espaço quase isolado. Lázaro encontra-se em casa, após dois anos de internamento psiquiátrico, para o Natal. Fisicamente exausto e debilitado, permanece na cama, receoso do retorno dos episódios que o levaram ao hospital, e atento aos novos quadros que se encontram naquele quarto que terão imagens pouco relaxantes.

Paralelamente, o filho, pequeno, pensa em estabelecer uma nova ligação com o pai, figura que, até aqui, tem sido distante, e a mulher oscila entre o alívio pelo retorno de Lázaro e a antecipação da perda de autonomia com o retorno da figura dominante. Por sua vez, a governante cumpre o seu papel, mantendo-se distante do patrão que conhece desde pequeno mas pelo qual nunca sentiu grande empatia.

A acção oscila entre o tempo presente, com Lázaro numa cama, e episódios passados que explicam as interacções entre as diferentes personagens. Lázaro teve um relacionamento difícil com os pais (sobretudo com a rigidez paterna) e cedo deixou a casa dos progenitores, regressando apenas após a morte de ambos, com a esposa.  Para além disso, Lázaro recordará um episódio quase enterrado de algo que o terá marcado psicologicamente.

Esta combinação de características torna As Sombras de Lázaro numa surpresa muito positiva. Surpresa porque se tratando da primeira obra do autor não esperava uma obra de narratva pouco linear, de acção tão balanceada e que, ao tocar num género que facilmente pode resvalar, tivesse um tom tão clássico.

As tendências da Ficção Científica Mundial – Fórum Fantástico

Mal tive tempo para anunciar o Fórum Fantástico, mas passo aqui rapidamente para indicar que amanhã, sexta feira, começa a mais antiga convenção portuguesa de ficção especulativa ainda em execução anual!

E é, também, amanhã, que estarei à conversa num painel com os dois convidados internacionais do evento, Ian Watson e Cristina Macía, acompanhada pelo editor Pedro Cipriano! Esta conversa irá ocorrer no dia 11, sexta-feira, às 19:30, no auditório, com moderação de Rogério Ribeiro.

 

Get Jiro – Todos querem apanhar o Jiro – Anthony Bourdain, Joel Rose e Langdon Foss

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Em Todos querem apanhar o Jiro somos levados a uma realidade alternativa, em Los Angeles, em que dois chefs de cozinha se degladiam pelos melhores produtos e os melhores restaurantes. Actuando como chefs da máfia, recusam clientes e exercem a sua supremacia alimentar, utilizando ingredientes raros (de espécies em vias de extinção que actualmente ainda não o estão).

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Jiro monta o seu novo restaurante em Los Angeles, alienado de toda esta competição. Mas não por muito tempo. Assim que se sabe da sua existência, num restaurante de sushi, os dois chefs não pouparão esforços para o tentar cativar como aliado, prometendo-lhe o melhor fornecimento de ingredientes. Cada vez mais assediado por ambas as partes, Jiro acaba por ceder e utilizar a sua posição para colocar os dois grupos rivais em guerra aberta, causando o caos na cidade.

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Get Jiro apresenta uma realidade alternativa com toque de absurdo que leva a competição entre chefs de cozinha a um novo patamar. Afrontar um chefe é perigoso e logo nas primeiras páginas assistimos à decapitação de um cliente que pediu um rolo califórnia num restaurante de sushi. Neste futuro próximo novas espécies entraram em extinção e os habitantes da cidade de Los Angeles vivem tão obcecados por comida que os chefs de cozinha têm grande poder.

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Esta combinação resulta numa narrativa com traços de absurdo, divertida e leve. Jiro é uma personagem dura, de princípios culinários e que tenta usar as suas capacidades para se manter fora das lutas entre as duas máfias da cidade. É, no mínimo, uma história original que usa o contexto de comida de forma bastante diferente de outras histórias que se centram na relação com a comida.

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Este volume foi publicado pela Levoir em parceria com o jornal Público.

A Febre de Urbicanda – Schuiten e Peeters

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A Febre de Urbicanda é um dos trabalhos de Schuiten e Peeters no Universo de As Cidades Obscuras, série que integra outros volumes como A teoria do Grão de Areia. Neste caso a narrativa centra-se em Urbicanda, uma cidade de arquitectura imponente, desenhada na perfeição por Eugen Robick.

Urbicanda parece a cidade perfeita. Os prédios alinham-se numa proporção balanceada e imponente. Os cidadãos que vemos estão bem vestidos e confortáveis. As ruas são ordeiras, limpas e luxuosas. Mas para terminar o alinhamento perfeito, falta a construção de uma ponte – uma ponte que ligará os dois lados da cidade e que é, por esse motivo recusada.

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Do outro lado da ponte encontram-se os outros. Os trabalhadores que vivem na cidade onde a desordem faz parte. Os pobres que devem ser afastados das belas construções e cuja entrada deve ser controlada e fiscalizada. É neste contexto que a ponte é recusada, por ser um elemento de contacto que poderá facilitar a passagem dos indesejados.

É com esta recusa que nos apercebemos estar perante uma falsa utopia, um estado totalitário que, à semelhança da sua arquitectura imponente, impõe uma separação das classes e uma autoridade rígida. Algo que será quebrado  de forma inesperada, caótica e irregular.

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Eugen Robick recebe, no seu escritório, um cubo – uma estrutura surreal cujo material não consegue identificar. Não lhe dando grande importância, Robick deixa-a no seu escritório. Quando regressa da reunião em que lhe foi recusada a ponte (o elemento em falta na cidade que projectou) percebe que a estrutura se multiplicou, crescendo em tamanho e quantidade dos cubos.

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Este será o elemento que quebra o quotidiano. Crescendo de forma incontrolável e inquebrável, o cubo sobrepõem-se às estruturas perfeitas desenhadas pelo homem. É uma aberração que, num primeiro momento se torna incomodativo, mas num segundo se transforma numa ponte bizarra entre as duas margens permitindo, pela primeira vez, o contacto não regulado entre os habitantes de ambas as partes.

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O cubo, indiferente às alterações que provoca, é o elemento que move a narrativa ao introduzir uma falha no ambiente perfeito. É o elemento de imperfeição na cidade, a doença citadina que rompe a ditadura e a torna impossível, que possibilita que duas partes da mesma sociedade se toquem, nem que seja momentaneamente.

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A Febre de Urbicanda é um álbum que se destaca pelo seu aspecto visual. A arquitectura que apresenta, simultaneamente futurista com traços de outros tempos, é sonhadora, imponente e perfeita. Em termos narrativos é subtil. Existe um regime opressivo, mas tal é percebido de forma suave, mostrando autoridade sem momentos violentos ou excessivos.

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Este volume foi publicado pela Levoir em parceria com o jornal Público na colecção Novela Gráfica. Não é um lançamento inédito no mercado português, mas o volume encontrava-se esgotado antes desta edição.

Uber – Vol.1 – Kieron Gullen e Caanan White

Conhecido por obras como Phonogram ou The Wicked + The Divine, Kieron Gullen tece, em Uber, uma história de tom bastante diferente que, em comum com as mais citadas contém apenas, um certo tom de misticismo. O cenário é a Segunda Guerra Mundial, mas numa realidade diferente em que a guerra que terá tomado, no final, um rumo bastante diferente.

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Após horríveis experiências humanas, as forças alemãs foram capazes de produzir super soldados através da utilização de uma estranha substância. Com uma força e uma resistência desmesuradas, estes soldados possuem ainda elevadas capacidades psíquicas. A sua existência é o suficiente para parecer virar a guerra. Felizmente, os Aliados conseguiram roubar estes segredos militares e estarão agora a tentar construir os seus próprios super soldados, pensando fazer frente ao avanço nazi na Europa.

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O tom é negro. As primeiras páginas levam-nos a visualizar bombardeamentos e tiroteios, com pedaços de corpos voando em todas as direcções. Os corpos humanos dissolvem-nos, aparecem caveiras e outros pedaços pouco perceptíveis do que já foi uma pessoa.

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Confesso que as primeiras páginas foram cansativas de tanta carnificina. Não por alguma sensibilidade a tanto sangue e restos humanos, mas porque não parecia haver muito mais. Felizmente, a história arranca após estes primeiros episódios, mostrando-nos os elementos que permitiram mudar o curso da guerra.

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Em termos narrativos ganha mais interesse após estes cenários iniciais, ainda que tenha chegado ao final do volume sem perceber se é uma história que se pretende levar a sério (apesar das deambulações místicas) ou que se pretende mais leve. Apesar dos episódios mais pesados, o volume termina com um episódio no limite que parece afastar a história de um tom mais sério.

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Neste seguimento será uma série que provavelmente me levará a adquirir o segundo volume por conseguir combinar uma boa componente de acção com uma explicação de premissa que gostaria de perceber melhor.

Resumo de Leituras – Outubro de 2019 (1)

 

81 – Como uma luva de veludo forjada em ferro – Daniel Clowes – Uma história psicadélica carregada de elementos absurdos onde não faltam cães mutantes, teorias da conspiração ou fascínios sexuais;

82 – Sweet tooth – Book 2 – Jeff Lemire – A humanidade colapse sob a força de uma epidemia. Simultaneamente, as novas crianças apresentam características de animais que as levam a ser caçadas e perseguidas. Um destes novos rapazes sobreviveu isolado com o pai na floresta, mas quando também o progenitor sucumbe, vê-se capturado e tratado como uma cobaia para experiências. Agora encontra-se liberto mas procura, com os seus companheiros, as suas origens;

83 – Get Jiro – Todos querem apanhar o Jiro – Anthony Bourdain, Joel Rose e Langdon Foss –  Um novo chefe de cozinha chega a Los Angeles – Jiro. Profissional de sushi e destemido, Jiro vê-se no meio de uma guerra entre dois chefes de cozinha que actuam como grupos mafiosos. Enquanto os clientes fazem fila por um lugar num restaurante, os chefes degladiam-se pelos melhores produtos e pelos melhores associados;

84 – Get Jiro – Sangue e Sushi – Anthony Bourdain, Joel Rose e Alé Garza – Prequela ao volume Todos querem apanhar o Jiro, este volume mostra as origens de Jiro – mais especificamente como ganhou as tatuagens em todo o corpo e como se tornou num chef.

Prometeu e a Caixa de Pandora – Luc Ferry

Em Prometeu e a Caixa de Pandora explora-se o mito grego da criação do ser humano e como os presentes que Prometeu deu à humanidade o levam a um castigo infinito de tortura diária. Como forma de tentar balancear a humanidade, Zeus cria uma caixa com todos os males do mundo e uma linda, mas curiosa humana, Pandora.

Para quem costumava ler os contos da mitologia grega ou romana, este livro apresenta-se como uma agradável adaptação da história, ligando as duas histórias mitológicas. Visualmente agradável, tem, como principal defeito, a pouca caracterização de personagens, fazendo-nos percepcionar a história de uma perspectiva ausente da narrativa.

Após a luta entre os novos deuses e os Titãs, Zeus distribui os vários domínios e usufrui do resultado da guerra. Mas a vida de Rei dos Deuses é aborrecida e Zeus acaba por pedir a Prometeu (um dos titãs que permaneceu em paz) para criar seres vivos mortais que habitem os vários domínios.

Prometeu assim faz, com a ajuda do irmão, um titã de mentalidade mais simples mas de grande capacidade manual. Animal a animal, o irmão cria todos os animais, enquadrando-os no seu clima e no seu papel de caçador ou herbívoro, distribuindo todas as armas possíveis, como garras ou dentes afiados, entre estes animais.

Em simultâneo, Prometeu cria uma única espécie, especial – o homem. Mas ao ver que não lhe restam elementos com os quais se possa defender, e querendo que os homens ultrapassem o papel de brinquedos, resolve oferecer-lhes o fogo bem como outras artes.

Zeus apercebe-se que uma das novas criaturas tem capacidades para além das que desejava nos habitantes da Terra. E vendo no homem uma ameaça decide castigar Prometeu e fazer com que diversos males atinjam os homens, desde a Guerra à Doença.

Este volume apresenta uma adaptação quase directa do mito, sem grande caracterização de personagens ou desenvolvimento de enredo, para além do narrador de acontecimentos. Contém alguns elementos introdutórios mas que não me parecem suficientes para captar o ambiente das mitologias gregas, ou as personalidades das figuras divinas.

É, no entanto, uma edição agradável, em capa dura, com várias páginas de conteúdo adicional, desde versões alternativas do mito grego, a informação sobre os deuses ou curiosidades sobre alguns objectos.

Este volume foi publicado em Portugal pela Gradiva.

Gorazde – Joe Sacco

Joe Sacco é um jornalista de guerra conhecido pelas suas adaptações à banda desenhada das relações entre palestinianos e israelistas ou na guerra da Bósnia. Em Gorazde mostra como se deslocou à cidade com o mesmo nome após a criação da via azul que permitiu a entrada de alguns bens essenciais na cidade.

O que encontra é uma comunidade parada no tempo, isolada por causa da guerra, que regrediu em termos civilizacionais. Sem electricidade. Sem água. Sem educação. Sem objectivos de um futuro. Os civis, por sua vez, encontram-se traumatizados, tanto pelas mortes causadas pela guerra, como pela traição dos que antes julgavam seus vizinhos e amigos.

O livro vai apresentando as conversas ou entrevistas que o autor vai tendo com os habitantes que restam em Gorazde. Não só. Também o seu quotidiano enquanto convive com estas pessoas e as vê recuperar, lentamente a normalidade. Retrato a retrato percebemos que ainda que Gorazde tenha grupos populacionais muito diferentes, antes da guerra, estes grupos pareciam viver em paz e harmonia. Existiam amigos entre religiões e origens diferentes. Mas o clima de suspeita permanente, o medo do outro que difere de nós, levou a que a guerra tivesse fortes consequências locais e se perpetuassem os actos mais vis entre aqueles que antes eram companheiros de quotidiano.

O que mudou? A política. Mais especificamente uma política de nacionalismo que incitou ao extremismo. Por um lado um grupo fortalece-se, por outro, outros grupos populacionais começam a sentir-se estranhos no local que sempre conheceram. Começam a perceber-se divisões no comércio local, sendo que alguns locais só são frequentados por uma parcela da população.

Gorazde acaba cercada. Sem infraestruturas básicas. E com fome. É possível recuperar a comida que cai da ajuda humanitária, mas para tal é necessário andar quilómetros entre a neve e muitos falecem na tentativa. Paralelamente, as ruas não são seguras – é muito possível levar-se um tiro a atravessar a estrada. Só com a intervenção de outras nações será possível recuperar a cidade do colapso.

Esta é a perspectiva dos acontecimentos. Joe Sacco cita estes acontecimentso, mas dá a Gorazde a perspectiva de cada pessoa. As duras viagens pela neve onde tantos morrem. A corrida a meio da noite sob saraivadas de tiros. Ver familiares e amigos a sucumbir. Encontrar corpos torturados. Fugir sem saber se se sobrevive. Ser levado para uma ponte onde se decapitam, todas as noites, dezenas de civis, só pela diversão.

Todos estes episódios fortes contrastam com a Gorazde que Joe Sacco encontra. A guerra parou. Mas os habitantes continuam sem grandes perspectivas de futuro. Alguns não irão recuperar dos traumas. A juventude perdeu anos de escolaridade. Não existem trabalhos nem comércio. Existe um género de sobrevivência dormente, uma inquietação camuflada pelo retorno de alguma normalidade que faz com que estas pessoas, tão cedo, não voltem a confiar nos que os rodeiam.

Gorazde é um retrato pesado. Não podia deixar do ser. Se uma guerra das trincheiras é visceral pela forma como envia dezenas de homens para as suas mortes, uma guerra numa cidade consegue ser ainda mais horrível por atingir civis e quebrar todo o quotidiano de um grupo de pessoas isoladas, amedrontadas e com poucos recursos – é mais do que guerra. É terrorismo.

Gorazde foi publicado pela Levoir em parceria com o jornal Público.

Resumo de Leituras – Setembro de 2019 (4)

77 – Saga – Vol.8 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples – Neste oitavo volume a família desloca-se a mais um planeta para resolver uma gravidez. Pelo caminho encontram novas especíes que os confrontam (como o povo esterco) e colocam-se várias questões de género e sexualidade, enquadradas na narrativa;

78 – Touch – Claire North – Neste romance da autora existem entidades que conseguem passar a sua consciência através do toque e ocupar novos corpos, vivendo as suas vidas. Uma premissa engraçada que toma um curso mais movimentado porque estas entidades estarão a ser caçadas por uma sociedade para militar;

79 – Rat Queens – Vol.1 – Kurtis J. Wiebe e Roc. Upchurch’s – Divertido e movimentado, este volume não é excelente, mas apresenta um grupo de mercenárias capazes de se fazer valer nas situações mais imprevistas. Existem vários comentários cómicos e divertidos, bem como outras reviravoltas que dão um tom ligeiro à narrativa;

80 – Dias sombrios – Juan Escandell e Luís Ferrer Ferrer – O território espanhol serviu de palco para algumas batalhas durante a Guerra Mundial que causaram alguns distúrbios no território espanhol. Alternando entre duas épocas diferentes, conta uma única história que terá decorrido em Ibiza.

Novidade: Conversas com os Putos e com os Professores Deles – Álvaro Santos

Álvaro continua a retratar os episódios cómicos com os seus explicandos, num novo livro que se entitula Conversas com os putos e com os professores deles. Para terem uma ideia do que vos espera, podem consultar o que escrevi sobre os volumes anteriores editados pelo autor: Conversas com os putos e Conversas com os putos e os pais deles.

Deixo-vos a sinopse e algumas páginas disponibilizadas pelo autor:

Ser professor em Portugal é mais ou menos como ser árbitro de futebol.

Um tipo anda por ali a tentar controlar vinte e tal pirralhos injustiçados enquanto é mimado por todos os lados com uma variedade de insultos que se vão ramificando pela sua árvore genealógica acima, sem ter o direito de poder passar-se da cabeça, bater em alguém ou sequer responder ao mesmo nível.

Quer-se dizer… pode responder ao mesmo nível.  E até bater em alguém. Pode…

Só que depois é brindado com um processo disciplinar assinado por alguma indignada sumidade da Educação que provavelmente passa os Domingos, rodeada de gente pouco escolarizada ou bem instalado no camarote de algum criminoso, num estádio a insultar árbitros.

Neste terceiro livro da série Conversas com os Putos temos acesso a algumas coisas que o stôres dizem fora das aulas. Há de tudo. Desde burros ignorantes com as palas bem fechadas para se protegerem daquilo que não compreendem, a profissionais competentes já meio avariados da psique. Não é à primeira vista que se distinguem uns dos outros.

O resultado do seu trabalho só é perceptível anos mais tarde. Está bem à vista na programação televisiva, nos resultados das eleições e no número de licenciados que emigram.

Viver na lua através de Efemérides – Ficção científica e Ciência

Recentemente foi inaugurado o Museu da Lua, em Oeiras. Aproveitando a instalação artísticas de Luke Jerram, a Embaixada Britânica e o Município de Oeiras organizaram um evento em que se falou sobretudo de ciência. Mas a meio do programa também se falou de ficção científica, através de um conto de João Barreiros em que descreve como seria um dia na Lua.

O conto chama-se Efemérides e pode ser encontrado no livro Se acordar antes de morrer. É um conto irónico, como não podia deixar de ser a um conto de João Barreiros, mas é, também, um conto carregado de referências científicas que apresenta, de forma ligeira e bem disposta, as dificuldades de viver fora do planeta Terra. É, no meu entendimento, um conto que pode ser um bom exemplo de como a ficção científica pode ser usada para passar conhecimento científico. E, porque não usar, também, as incorreções científicas, demostrando-as?

All organ systems are affected by exposure to extra-terrestrial environments. Alterations to cardiovascular physiology with reduced gravity manifest acutely and chronically []. Reduced-gravity environments cause the cardiovascular system to undergo adaptive functional and structural changes. Microgravity induces a reduction in hydrostatic pressure, causing a cephalic redistribution of blood and body fluids. This headward shift is responsible for the ‘puffy-face & bird-leg’ appearance of astronauts in space. The cardiovascular system adapts to microgravity by reducing blood volume by approximately 20%, which is in part responsible for the orthostatic intolerance commonly found post-spaceflight. A reduction in heart size was also observed in microgravity.

A comparison between the 2010 and 2005 basic life support guidelines during simulated hypogravity and microgravity, Russomano, et al., Extrem Physiol Med. 2013; 2: 11.

Tendo em vista a exploração espacial, vários trabalhos científicos têm sido desenvolvidos com o objectivo de perceber quais seriam as consequências, no corpo humano, de viver em ambientes de baixa gravidade. A maior parte fala de diminuição do coração e da densidade óssea, bem como do aumento da pressão ocular.

Despite the extensive use of exercise countermeasures, astronauts still return from 6 months ISS missions showing space deconditioning effects. Examples of these effects include decreased calf muscle volume and power, loss of bone mineral density and reduction of peak oxygen uptake

Human Biomechanical and Cardiopulmonary Responses to Partial Gravity – A Systematic Review, Richter, et al., Front Physiol. 2017; 8: 583.

Especula-se (ainda que não tenha encontrado nenhum artigo científico concreto) que crescer noutro planeta de baixa gravidade leve a uma maior altura (parece uma conclusão lógica que, sob o efeito constrangedor de uma menor gravidade, as estruturas biológicas se estendem-se mais). Mas decerto levará a uma menor calcificação dos ossos, deixando-os quebradiços. Se tais alterações já são significativas passados meros meses, imaginem para quem crescesse num local com menor gravidade. Como a Lua. Ou Marte.

Frágil como é, um triste arranjo de palitos com uma cabeça de alfinete eriçada no topo, a gravidade dava-lhe cabo do coração em poucas horas. Sem falar no risco de fracturas múltiplas à mais pequena escorregadela. Se Russell voltasse à Terra, ele que é o produto da primeira geração de lunares, um espirro matava-o. Um grão de pólen fá-lo-ia morrer de choque anafilático.

Efemérides,João Barreiros

São estes pressupostos que se aliam à imaginação e ganham forma em Efemérides. Num único parágrafo deparamo-nos com as consequências de uma vida em baixa gravidade. Consequências essas suportadas pela literatura científica que encontrei sobre o assunto (estejam à vontade para despejar outras referências). Mas o conto não se centra só nas alterações fisiológicas ao corpo humano. Centra-se, também, nas consequências a tal quotidiano.

We found direct and definitive evidence for surface-exposed water ice in the lunar polar regions. The abundance and distribution of ice on the Moon are distinct from those on other airless bodies in the inner solar system such as Mercury and Ceres, which may be associated with the unique formation and evolution process of our Moon. These ice deposits might be utilized as an in situ resource in future exploration of the Moon.

Direct evidence of surface exposed water ice in the lunar polar regions, Shuai Li, et al., PNAS September 4, 2018 115 (36) 8907-8912; first published August 20, 2018.

Existindo água na Lua que possa ser usada para sustentar a vida humana, decerto teria de ser racionada.

Tem de durar séculos. As gerações seguintes também têm dierito à sua conta de esponjas húmidas. Por isso não há brincadeiras neste balneário. Ninguém atira respingos de água à cabeça uns dos outros. Fazer semelhante disparate é crime. Dá direito a sanções, a pontos negros, a dívidas à colectividade a ser descontadas assim que qualquer um deles entrar na fase produtiva das suas vidas.

Efemérides, João Barreiros.

E dada a escassez, decerto que qualquer resto orgânico seria reutilizado. Mesmo com os riscos que pudessem daí advir (a utilização de fezes humanas na agrícultura é uma prática perigosa por poder facilitar a propagação de doenças):

Depois de lavados e limpos com uma serradura estéril, cada um tem ainda o dever de selar o respectivo saco onde guardaram a matéria fecal, colocá-lo na carrinha que o levará aos jardins hidropónicos e assegurar assim que um dia, num futuro próximo, aquilo que hoje despejaram voltará em triunfo aos respectivos estômagos, transformado em celulose e proteína vegetal.

Efemérides, João Barreiros

Carregada de afirmações caricatas como só a ficção pode ser, este conto de João Barreiros é um, entre tantos outros, que pode ser usado para discutir as possibilidades científicas aligeirando cada um dos elementos que constituem a premissa – E se o homem vivesse na Lua?

Como uma luva de Veludo forjada em Ferro – Daniel Clowes

Se David Lynch fizesse banda desenhada (para além do The Angriest Dog in the World) imagino que tivesse parecenças com este Como uma luva de veludo forjada em ferro. Os saltos narrativos, os focos em elementos absurdos e arrepiantes (mas simultaneamente alienados), a sexualidade presente mas pouco erótica, a realidade vista como uma má trip onde nem sequer falta uma banda sonora.

Como uma luva de veludo forjada em ferro começa com uma ida ao cinema em que a visualização de um filme fetichista (com o mesmo título da banda desenhada) leva a personagem a procurar a protagonista principal, a ex-esposa, Barbara Allen. Se tal início não fosse suficientemente estranho, até a busca sobre a ficha oficial do filme é surreal com elementos místicos colocados num local estranho e inverosímel.

A partir daqui a personagem é levada por uma sucessão de acontecimentos absurdos e grotescos, cruzando caminho com uma seita de propósitos obscuros. Não será o único. Na vila, onde procura a origem do filme, cruza-se com pessoas obsecadas por essa seita, procurando significados escondidos e pistas em tudo o que as rodeia. Estes não são os únicos elementos surreais. Encontramos cães sem orifícios, hippies que rodeiam um profeta, uma seita (mais uma) misândrica, deformações, desmembramentos, estranhos adereços médicos – tudo aceite quase de uma forma natural pelas personagens.

Como uma luva de veludo forjada em ferro estranha-se. Não é para ser lido esperando uma narrativa linear. Ou sequer como uma história terra a terra, lógica e facilmente preceptível. O título é uma referência ao filme Faster, Pussycat! Kill! Kill! conhecido pela sua violência, representação provocadora dos géneros e… um diálogo que visa envergonhar Raymond Chandler (ou assim o dizem as referências que apanho sobre o filme). Uma combinação estranha, no mínimo.

Mas há mais referências como “What’s the frequency, Kenneth”, uma frase expressa a Dan Rather numa agressão que, mais tarde,  se tornaria uma música. E existirão outras que não apanhei para pesquisar. Mas tão interessante quanto as influências denotadas pela história, é a influência da história noutros meios, tendo influenciado a criação de uma banda sonora.

Este volume foi publicado pela Levoir em parceria com o jornal Público.