O Incrível Hulk – Gritos Silenciosos – Peter David e Dale Keown

Neste volume a mente de Banner ganha nova complexidade – para além de Hulk alberga uma nova personalidade, um monstro semelhante ao Hulk mas cinzento e inteligente. Com o Hulk verde de parte, as outras duas personalidades alternam a consciência entre o dia e a noite.

Esta utilização parece coordenada até participarem numa missão que ameaça libertar, novamente, o Hulk verde que está em evidente rota de colisão com os restantes ocupantes daquela mente. O conflito adensa-se quando Banner encontra Betty num convento de freiras, como forma de encontrar alguma serenidade.

O reencontro dos dois, Banner e Betty, não ajudou a estabelecer um ponto de equilíbrio, o Hulk verde ataca o cinzento, na mente partilhada, e é Banner que vai sofrer as consequências.

Esta não foi das histórias de que mais gostei de Hulk. De visual mais difícil de interiorizar, junta uma nova entidade à mente já dividida conferindo-lhe uma complexidade desnecessária. O resultado é uma sucessão de episódios que, ao longo deste volume, não parecem ter um verdadeiro fio condutor. O final em aberto não ajuda a compor o conjunto e no final ficaram-me algumas cenas interessantes sem que a totalidade do volume me tenha agradado.

Este é o volume n,º 25 da colecção de Graphic Novels da Marvel, distribuída em Portugal, primeiro pela Salvat, e mais recentemente em conjunto com a Revista Sábado e o Jornal Record. Podem consultar mais informações sobre a colecção na página oficial.

One week in the library – W. Maxwell Prince, John Amor e Kathryn Layno

A premissa deste livro não poderia ser melhor – a história de um homem isolado numa biblioteca, sem saída, e que vai conversando com as várias personagens que lhe aparecem, vive algumas histórias ou lê outras, num entrelaçar onde reconhecemos títulos muito conhecidos.

Sem ser graficamente excepcional, mas ainda assim apresentável, One week in the Library cruza a banda desenhada com outros meios recorrendo a texto corrido, gráficos e poesia para intercalar as várias histórias, e alterna entre diferentes estilos narrativos ao longo das sete histórias (uma para cada dia da semana).

As histórias são quase todas negras, ou pelo menos perturbadoras. O livro abre com a história de um homem, avassalado pelas probabilidades da vida e da morte e prossegue com a presença de Pinóquio na biblioteca, onde se dá por outro nome. Traumatizado pelos eventos recentes, conta a história em que se revelou um cobarde. Entre dragões, fantasmas e ursos, o bibliotecário ultrapassa algumas dimensões até ao final, aberto, mas adequado para a eterna busca de mais histórias.

Designado como um trabalho experimental é uma leitura fascinante para quem gosta de livros sobre livros, ou de livros onde várias outras histórias ganham vida – as vias pelas quais isto acontece são múltiplas e o autor parece explorar todas as vias em que tal possa acontecer, com bastante sucesso.

Anjos – Carlos Silva

Na sequência de um enorme terramoto em Lisboa a tecnologia que permitia conhecer e prever comportamentos de todos os cidadãos é soterrada e esquecida. Ou quase. Um grupo de vigilantes, os Anjos, que mantêm as funções de mensageiros, transportando mensagens físicas como forma de garantir a privacidade, protege a tecnologia e utiliza-a pontualmente.

Existe, no entanto, quem tenha outros planos para a tecnologia e há quem pretenda acertar contas com os Anjos por conta de um episódio quase esquecido que originou uma quimera tecnológica, um homem reconstruído com peças metalicas que alberga apenas ódio por quem revirou a sua existência.

Sessão de lançamento durante o Scifi-lx

A história começa com a morte sangrenta de um Anjo, às mãos de um homicida desconhecido. Na autópsia pouco se descobre mas até as poucas provas que se descobrem são eliminadas por um bug informático. O uniforme do cadáver alerta um investigador da velha guarda que já teceu várias teorias da conspiração envolvendo os Anjos.

Assim estão lançadas as sementes da história, com a investigação policial cada vez mais próxima da verdade mas sobrecarregada em falsas pistas, com os Anjos tentando proteger uma tecnologia avassaladora de entidades sedentas de poder e um assassino focado na destruição.

Anjos apresenta várias linhas narrativas, dando relevância a múltiplas personagens e respectivos interesses que se cruzam e chocam originando, diversos episódios de acção onde não faltam feridos, mortos e revelações bombásticas. Romance de ficção científica, apresenta os perigos da tecnologia quando controlados pelas pessoas erradas, criando uma entidade que se dedica a proteger, anonimamente, o país.

Vencedor do prémio Divergência, Anjos é, infelizmente, dos poucos romances de ficção científica nacionais, mas nem por isso é um lançamento pouco relevante, constituindo uma das raras histórias no género que não provêm de um dos autores habituais. Caso estejam interessados em ler algo do autor também têm um conto no número mais recente da revista Bang! (gratuita).

Destaque: Os Melhores contos de Edgar Allan Poe

E dizem vocês, mais uma edição de Edgar Allan Poe? Mas é que esta é especial, com cada uma das 28 histórias ilustrada por um artista nacional diferente. Trata-se de uma edição de luxo em capa dura! Deixo-vos a sinopse:

As histórias que deixou para trás mostram como o seu génio literário não
se detinha perante nada. Abriu novos caminhos de ficção e tornou-se
assim pai de histórias de detetives, pioneiro na ficção científica, um
mestre do suspense e horror.

Reconhecido como uma das vozes mais influentes e inspiradoras do século XIX, a presente edição especial convida-o a apreciar 28 dos melhores contos do autor ilustrados por artistas nacionais, dando a conhecer o legado de Edgar Allan Poe a novas gerações.

Resumo de leituras – Agosto de 2017 (4)

117 – The Uploaded – Ferrett Steinmetz – Após a morte vem a eterna vida virtual. Com tanto poder de voto quanto os que ainda estão vivos, estas consciências virtuais já não se recordam do que é ter necessidades físicas e conseguem fazer passar leis e regras económicas com o objectivo de por os vivos a sustentar os pesados servidores (com as suas simulações e jogos). Num género de distopia futurista com tom de YA (Young Adult), The Uploaded explora uma premissa engraçada debruçando-se demasiado em episódios pouco importantes;

118 – O entrelaçamento electroquântico de que são feitas as lendas – Rui Bastos – Eis a história de como surgiram os míticos poderes de Serralves, o herói dos rebeldes, num Universo futuro em que um Império Intergaláctico ameaça dissipar as diferenças culturais;

119 – Drifter Vol.3 – Ivan Brandon e Nic Klein – A série continua a apresentar um aspecto gráfico esplendoroso, revelando alguns dos mistérios que se foram acumulando, enquanto alterna com episódios de elevada acção – a tensão entre humanos e alienígenas atinge o pico originando cenas  de elevada violência;

120 – Descender Vol.4 – Jeff Lemire e Dustin Nguyen – a pintura a aguarelas pode causar estranheza nas primeiras páginas, mas dá uma vivacidade única a uma série que cruza inteligência artificial com humanidade, um género de Rise of the machines com A.I., a história de máquinas inteligentes e capazes de emoção, que se vêem abandonadas e negligenciadas. Excelente.

Bidu – Caminhos – Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho

Pela Panini Comics têm sido lançados várias bandas desenhadas que ressuscitam personagens de histórias mais tradicionais, de formato mais corriqueiro, conferindo-lhes histórias próprias e graficamente mais cuidadas. É o caso de Chico Bento – Pavor Espaciar ou Louco Fuga.

De narrativa menos complexa, Bidu – Caminhos conta o percurso de Bidu antes de conhecer o seu melhor amigo, mostrando a vulnerabilidade do animal que não tem quem o acolha, exposto a intempéries, canis ou outros cães, mais ferozes.

Visualmente delicioso e bastante expressivo, não é um livro excelente do ponto de vista narrativo, mas é um livro bastante aconselhável para quem se delicia com o aspecto gráfico, destacando-se a forma como os animais comunicam entre eles, partilhando ideias com base em pequenos bonecos.

Descender – Vol.4 – Jeff Lemire e Dustin Nguyen

As primeiras páginas deste quarto volume marcam um regresso em grande com a apresentação de três linhas narrativas em simultâneo, três linhas que atingem picos de tensão e de resolução em simultâneo, dando continuidade a todas as vertentes da história em paralelo e abrindo com força uma das componentes mais movimentadas e surpreendentes da história – uma multiplicidade que não seria possível em nenhum outro meio narrativo.

No primeiro volume referi que esta série parecia o cruzamento de Battlestar Galactica com A.I.. Por um lado temos um Rise of the Machines em que as máquinas, cada vez mais inteligentes e conscientes se revoltam contra quem as trata mal, por outro temos um pequeno robot, Tim, amigável e familiar que é tratado com bondade e que vê os seres humanos com outros olhos.

Aquando da revolta das máquinas, Tim é posto a hibernar e só acorda muitos anos depois sem saber o que aconteceu entretanto. Tendo como único pensamento voltar a encontrar o seu irmão humano, o rapaz com quem partilhava o dia-a-dia, vê-se perseguido por várias fracções, ora pelo seu potencial militar enquanto máquina com uma programação especial, ora pelo seu potencial monetário, para ser vendido às peças por salteadores.

Depois de capturado por militares que, por sua vez, são capturados pelas máquinas revoltadas, Tim descobre que não é o único do seu modelo, um robot capaz de empatia e de mostrar os sentimentos que capta em torno deles. Mas rapidamente descobre que nem todos são como ele quando o seu duplo o tenta matar. A luta termina com uma reviravolta, com Tim a matar o seu duplo e a ficar traumatizado, enquanto consegue escapar com os seus captores humanos.

Enquanto explora um enredo futurista, Descender apresenta várias questões sobre a humanidade das máquinas, levantando a fronteira entre humanos que se transformam em máquinas por substituição de partes humanos em partes mecânicas, e as máquinas que aparentam ter mais consciência que humanos. Máquinas capazes de se defender e de matar, mas, também, capazes de mostrar remorsos e sentimentos próprios de humanos.

Graficamente esplendoroso, Descender apresenta diversos planos fabulosos, com construções esteticamente transcendentes que dão novo folgo à história – uma história com nuances e reviravoltas onde as personagens se mostram pouco lineares e, tal como pessoas normais, mostram divergências entre aquilo que dizem querer e aquilo que inconscientemente pretendem.

Esta fantástica série da Image vai começar a ser publicada em Portugal pela G Floy a partir do próximo Outono!

O entrelaçamento electroquântico de que são feitas as lendas – Rui Bastos

Quem não conhece o Comandante Serralves? Provavelmente demasiados leitores. Comandante Serralves é um projecto lançado pela Imaginauta, um Universo de ficção científica em que vários autores portugueses lançaram contos, reunidos numa antologia denominada de Comandante Serralves. O tom das histórias varia consoante o estilo de cada autor, resultando num conjunto bastante agradável de histórias – uma antologia que é decerto um marco da ficção científica em Portugal nos últimos anos.

Decorrendo no mesmo Universo, este conto traz-nos o surgir da lenda, o homem cuja consciência é transferida de corpo em corpo após a sua morte, custando a consciência de um rebelde por cada morte física do Comandante Serralves. Personagem lendária neste Universo é aqui mostrado como humano, com os seus receios e limitações, que serão ultrapassadas com a ajuda de rebeldes que não são assim tão cooperantes.

Um conto bem tecido com toques cómicos onde não falta o cientista louco que aspira ao impossível. O conto encontra-se disponível no Smashwords.

The Uploaded – Ferrett Steinmetz

Direccionado para um público mais jovem (pelo menos Young Adult) The Uploaded tem uma premissa engraçada que cruza a possibilidade de fazer backup às nossas mentes para uma vivência virtual pós-morte física com elementos de distopia resultando numa história engraçada, mas que se alonga demasiado em determinados episódios sem grande relevância para a globalidade da história.

No mundo aqui descrito os seres humanos descobriram a possibilidade de guardar memórias e personalidade num servidor para assim viverem virtualmente após a morte do corpo. O que pode ser uma perspectiva agradável para os vivos sofre uma reviravolta quando é concedido aos virtuais (os mortos) poder de voto.

Rapidamente os mortos ganham grande influência e peso político mas, esquecidos do que é ter um corpo, os constrangimentos do mundo dos vivos não os afectam. Decorridos alguns anos os vivos são transformados numa espécie de escravos que, para poderem ter direito a esta vivência virtual, devem passar os dias a servir os mortos (ou em profissões que melhorem os servidores). O prémio é a vivência idílica, virtual, carregada de jogos viciantes. O castigo, a morte eterna.

Valorizados pelas possibilidades corporais (físicas) de trabalho, os vivos são desencorajados de perseguir profissões criativas ou inteligentes, até porque dificilmente poderão competir com as décadas de experiência dos mortos.

Quando um rapaz fica orfão e a sua irmã gravemente doente no hospital, começa a aperceber-se que os mortos já não são bem quem eram em vida, mudando drasticamente de prioridades, e que todos os esforços em conseguir uma vivência minimamente confortável à irmã passam por décadas de escravidão. De espírito rebelde e carismático, irá influenciar de forma decisiva a onda de descontentamento que leva a uma pequena guerra.

Resumo de leituras – Agosto de 2017 (3)

113 – Central Station – Lavie Tidhar – Futurista, apresentando o próximo passo da evolução humana em que se nasce já com ligações que permitem a transmissão de dados, consegue mesmo assim ter uma visão algo reticente, com pontos positivos mas sem grande euforia, num cenário decadente em que os humanos continuam a ter as suas dúvidas existenciais, os seus cruzamentos e falhas de comunicação. Uma história simultaneamente futurista e humana;

114 – Bidu: Caminhos – Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho – Nesta pequena história conhecemos o percurso de Bidu antes de conhecer o seu melhor amigo, um cão que anda na rua e que passa todos os dissabores de ser um animal desprotegido;

115 – Chico Bento – Pavor Espaciar – Gustavo Duarte – Aproveitando esta personagem caricata a história coloca Chico Bento num típico rapto alienígena numa aventura mirabolante e divertida;

116 – Valerian Vol.1 – Sonhoso Maus / A Cidade das águas movediças – Christin Mézières – Com origem futurista, as personagens viajam no tempo para épocas passadas onde perseguem um vilão que terá o intuito de abalar a continuidade temporal. De linguagem cuidada e mais complexa do que é usual é uma banda desenhada de leitura lenta, de visual extraordinário e interessante.

Sandman Fábulas e Reflexões – Vol.6 – Gaiman et al

Este sexto volume reúne várias histórias pequenas que se centram nos sonhos, mas nem sempre no seu mestre. Depois de uma excelente sinopse de Gene Wolfe (um escritor de renome na ficção especulativa) que, mesmo assim, fica aquém da de Harlan Ellison, surge-nos uma pequena história sobre o medo de cair, o medo de tentar concretizar os nossos sonhos e, nessa tentativa falharmos redondamente. Uma abordagem graficamente estranha que apresenta o ultrapassar desse medo comum.

A história seguinte centra-se em Joshua Norton, auto-proclamado imperador dos EUA no século XIX. Apesar de não ter poder político, a sua influência estendia-se aos que o rodeavam, e a moeda que foi impressa em seu nome era honrada nos estabelecimentos que frequentava. A história, de raízes verdadeiras, é aqui apresentada como tendo tido influência do Sonho. Graficamente mais interessante, é uma história caricata que escorrega para o reino dos sonhos.

Numa pequena aventura assistimos à perseguição de uma cabeça que Johanne Constantine carrega. Entre a imposição do racionalismo que começa a crescer na época e o misticismo que ainda se faz sentir, fora da convenção da religiosidade, a história apresenta a fraqueza, perante a justiça dos de baixo estatuto social, enquanto nos apresenta uma personagem feminina dúbia.

O próximo conto, A caçada traz-nos uma lenda que se entrelaça com a realidade num cenário de floresta. Um jovem deste povo encontra uma velha vendedora de falsidades e fascina-se com a possibilidade de vir a ter uma bela donzela. Depois de uma pequena demanda descobre que nem sempre o que idealizamos é realmente o que queremos.

Entre imperadores romanos que usam o sonho para manipular o futuro e rapazes perdidos no deserto que entram no reino dos sonhos descobrimos A Canção de Orfeu onde assistimos ao casamento rodeado em desgraça, a apresentação de um mito que ajuda a perceber o surgir de algumas figuras sobrenaturais.

Alternando visuais e tons nas diversas histórias, este volume apresenta sobretudo lendas, fábulas e mitos transformados constituindo um conjunto, na sua maioria, pouco centrado em Sonho ou Orfeu, criando um mistério cada vez maior em torno desta personagem sobrenatural.

A série Sandman foi publicada em Portugal pela Levoir.

Velvet Vol.3 – Brubaker,

O terceiro volume de Velvet fecha a aventura que faz esta perigosa espia regressar ao activo, deixando o lugar pacífico de secretária e revelar-se mais competente do que os agentes convencidos que diariamente a tentam seduzir. Ao tentar descobrir a trama por detrás da morte de um colega (dado como traidor) desenterra antigos fantasmas, e desenrola esquemas que não contava desvendar.

Sombrio, demonstra um pouco a solidão de Velvet que não pode confiar verdadeiramente em ninguém e que descobre que a sua vida pessoal foi destruída por um capricho da agência em que os agentes são colocados rotineiramente uns contra os outros.

Manipuladora, por vezes manipulada, Velvet é uma agente competente que não recebia prosseguir a investigação pondo em risco a própria vida. Sucedem-se cenas tensas de acção e confronto psicológico em que Velvet demonstra alguns sinais de cansaço mas ainda assim dá a volta à situação – não sem algumas mazelas.

O enredo é engenhos e, apesar dos episódios de acção, apresenta-se uma história mais introspectiva do que seria de esperar, talvez devido ao carácter analítico da personagem que tece constantemente planos e novas teorias.

A história termina neste terceiro volume com um fim composto mas algo esperado, senão, até, cliché, em que a aparentemente simples morte de um agente se revela uma trama bem maior.

A série Velvet foi publicado em Portugal pela G Floy.

Chico Bento – Pavor Espaciar – Gustavo Duarte

Criado por Maurício de Sousa, Chico Bento nasceu como personagem em Agosto de 1982 nas tirinhas das personagens Hiroshi e Zezinho (Hiro e Zé da Roça) correspondendo a um menino da roça ou caipira, de roupas simples, quase rotas e descalço. Aproveitando as personagens deste mundo este volume apresenta uma história caricata que pretende expor as personagens às histórias de alienígenas que se contam como verdadeiras na região interior de São Paulo.

Cruzando a personagem com os clichés de histórias de rapto por alienígena, com experimentação em humanos e animais em confusas realidades a história tem um tom bem disposto e tosco das personagens, dois miúdos que, ao se verem sozinhos em casa acabam numa aventura indescritível em que nenhum adulto vai acreditar.

Ainda que os cenários possuam pouca profundidade e detalhe, apresentando apenas o necessário, os episódios rocambolescos vividos pelos dois meninos conseguem transmitir a piada neles contida e deixar o leitor com uma sensação de uma leitura agradável e divertida.

Resumo de leituras – Agosto de 2017 (2)

109 – City of Blades – Robert Jackson Bennett O segundo livro desta fantásticas trilogia retorna ao mesmo mundo que, durante muitos séculos, este dividido entre duas civilizações, uma baseada nos avanços tecnológicos e outro nos milagres das entidades divinas. As divindades morreram na guerra deixando quem suportavam submissos a outra civilização. No entanto, alguns milagres parecem continuar a ocorrer – será que as divindades retornaram?

110 – Os Vingadores vol.1 – Os sete magníficos / Futuro Perdido – Vários autores – Quando se pensa já não existirem mais equipas de super-heróis surgem duas com os que restam com super poderes, duas bastante diferentes, com segredos e divergências que terão de aprender a ultrapassar. Visualmente bastante bom, este volume é um dos com que a Goody entra no mercado da Marvel;

111 – Velvet Vol.3 – Brubaker e Epting – O terceiro volume fecha uma aventura com esta espia, uma personagem inteligente e sagaz, mas falível que demonstra ter princípios. Deixando o lugar pacífico de secretária investiga a morte suspeita de um colega, descobrindo uma trama maior do que alguma vez poderia ter imaginado;

112 – Sandman Vol.6 – Fórmulas e reflexões O sexto volume apresenta várias histórias, mostrando como surge a entidade sobrenatural e deambulações de várias personagens histórias no mundo dos sonhos.

Valerian – Sonhos Maus / A Cidade das águas movediças – Christin e Mézières

Esta é a obra que se diz, mais ou menos sorrateiramente, ter influenciado a série Star Wars. Existem algumas semelhanças em cenários e situações, mas pessoalmente acho a linha narrativa bastante distinta. Valerian, a personagem principal é um agente que viaja no tempo para salvar o mundo do domínio de um vilão.

Num futuro distante a maioria dos cidadãos vive num estado de sonho constante, uma espécie de paraíso simulado. Neste futuro foram descobertas viagens instantâneas no tempo e no espaço, o que permite o teletransporte para qualquer ponto desejado, ou o descobrir de qualquer século. Valerian é um dos agentes responsáveis por agir em caso de disrupção temporal.

A primeira história leva-nos para a Idade Média, onde um vilão do futuro se fez transportar para, com os segredos de um poderoso mago, aprender a controlar os que os rodeiam. É aqui que Valerian conhece Laureline, a jovem que o irá acompanhar também como agente nas restantes aventuras.

Já a segunda história leva-nos para os anos 80 o que, tendo em consideração que foi escrita em 68, significa que, na época, perspectivava-se o futuro. E este não podia ser mais negro. O nível das águas subiu consideravelmente e a cidade de Nova Iorque encontra-se quase submersa, cada vez mais afundada pelos sucessivos tsunamis. Grupos armados pilham os edifícios e Valerian tem de se esquivar várias vezes para conseguir localizar o verdadeiro vilão do tempo.

De imagens bem detalhadas acompanhadas por longos textos, Valerian é um livro de banda desenhada de aventuras para se saborear. O texto ultrapassa o discurso directo e explicativo, com frases de estrutura mais complexa e elegantemente tecida do que é usual. Conseguindo, até, gozar com alguns estereótipos em relação às mulheres (a personagem feminina não é a “normal” burra que apenas existe pelas curvas) Valerian revela-se uma banda desenhada inteligente mesmo na primeira aventura que é mais simples em estrutura.

A série Valerian está a ser publicada em Portugal pela Asa em parceria com o jornal Público.

Central Station – Lavie Tidhar

A Tel Aviv do futuro é uma cidade sem grande controlo ou regras, onde os seres que por lá andam subsistem com um código próprio, entre a pobreza e os fantasmas de várias guerras. Nem todos são humanos. Alguns são robots ou humanos roboficados que perderam grande parte das suas memórias, outros são inteligências totalmente artificiais sem corpo. Mesmo os humanos possuem capacidade intrínseca de se ligarem aos aparelhos eléctricos que os circundam porque todos vêm com ligações de nascença.

Bem. Nem todos. Um homem não possui essa capacidade e vive diariamente com a barreira da comunicação – é que estas ligações servem, inclusive, para que os humanos comuniquem entre si. Quando se apaixona por uma espécie de Vampiro moderno, uma mulher cujo sistema se encontra infectado por um vírus que suga os dados dos humanos que a circundam, vê-se incapaz de satisfazer essa necessidade que atormenta a mulher como se fosse uma drogada.

Simultaneamente, o primo, médico, retorna a Tel Aviv e encontra a amante com uma rotina muito diferente da de anos anteriores – cuidando de um rapaz prodígio capaz de manipular o tempo e o fluxo de dados que o rodeia. Como ele existem outros, espalhados, pequenos deuses em desenvolvimento, constituindo, talvez, o próximo passo evolutivo dos humanos.

Com pequenos toque de ironia sobre a extensão da tecnologia (que produz elevadores conversadores a que os tripulantes querem escapar, mas não o podem fazer até chegarem ao seu destino) Central Station apresenta seres humanos que se fundiram à tecnologia mas que, ainda assim, continuam humanos – com paixões e receios, com desentendimentos e com o ultrapassar de determinadas barreiras éticas por curiosidade, mas, também, com personagens altruístas.

Ligeiramente caótico e sombrio em atmosfera, Central Station é sobretudo uma história humana num futuro distante em que a tecnologia é extensa mas não apresenta um glamour fascinante, antes uma evolução de possibilidades que nos parecem tão estranhas a nós quanto às personagens que mostram observação e ponderação.

Com diversos prémios e nomeações, Lavie Tidhar há muitos anos que deixou de ser um autor em início de carreira, passando a ser um nome reconhecido no meio sobretudo pelo impulso da ficção especulativa judaica (com a edição de antologias como HebrewPunk, Jews Vs. Zombies, Jews Vs. Aliens). Em Central Station este legado é mais óbvio e mostra uma história totalmente diferente das que já tinha tido oportunidade de ler.

Outras obras do autor

Southern Bastards – Vol.2 – Jason Aaron e Jason Latour

Se o segundo volume explorava a difícil relação com um pai que era um homem correcto, mas demasiado exigente e castigador, neste caso explora-se a relação com o pai do treinador de futebol americano da vila, um dos homens que controla a criminalidade local.

A dureza que o treinador desenvolveu não foi acaso. Filho de um criminoso menor e burro nas decisões que toma, não tem muitas hipóteses de vencer na vida. A sua única hipótese é o Futebol Americano. Apesar do pouco jeito, com a ajuda de um homem invisual consegue destacar-se. Mas nem isso lhe serve. As suas origens prejudicam-no.

É aqui que o rapaz se torna homem, acabando por ingressar no Futebol Americano de forma diferente da sonhada e dando a volta à difícil situação em que se encontra, mas afundando-se ainda mais no mundo do crime.

Filho indesejado, negligenciado e prejudicado pelas suas origens, o Treinador há-de conseguir usar a sua ligação paterna para impor respeito e lugar na dura sociedade que o rodeia numa história em que os actos de violência são espaçados mas ganham grande sentido, não pela quantidade, mas pelas circunstâncias em que ocorrem.

A serie Southern Bastards está a ser publicada em Portugal pela G Floy.

Outros volumes da série

Os Vingadores – Waid, Kubert, Asrar, Duggan e Stegman

Os Vingadores (Os sete magníficos I, Futuro Perdido I) é o primeiro de 10 volumes de Os Vingadores que a Goody vai lançar até início de Dezembro e foi lançado no dia 04 de Agosto.Paralelamente, a Goody também vai lançar, no Universo Marvel uma série de 10 volumes Homem-Aranha, com o primeiro volume, Aprender a escalar, já lançado no dia 28 de Julho.

O volume começa por se centrar no encontro de dois heróis juvenis enquanto combatem um vilão. Paralelamente as empresas Stark foram quase à falência (na sequência da ausência do Homem-de-ferro da Terra durante seis meses) e os super-heróis têm de encontrar novas formas para cooperarem sem magnífica sede Stark.

O vilão neste caso é um alienígena que pretende, claro, dominar a Terra e fazer nome entre os da sua espécie. Ele não terá sido primeiro e não só conta com a ajuda de um humano como com a existência de um artefacto poderoso que o poderá ajudar. Reunindo-se vários super-heróis para enfrentar este vilão, acabam por perceber que poderão ter uma equipa com elementos diferentes do que pensaram inicialmente.

Lançando sementes para várias continuações, tanto pela existência de seres humanos poderosos prontos a ajudar inimigos da Terra, como pela existência de alienígenas conquistadores, como pelo surgir de segredos com graves consequências, este volume promete histórias divertidas com alguma leveza. O final é abrupto mas definitivo.

Terminada esta aventura voltamos aos Vingadores, mas com uma segunda equipa numa história que tem Deadpool como catalizador. Seria impensável que uma personagem como esta pudesse integrar um grupo e cooperar. Mas é o que vai acabar por acontecer sob o comando de um velhote Capitão América.

Estes volumes lançados pela Goody têm capa mole em papel lustrado, sendo que também as páginas são lustradas (mais finas, mas sem deixar transparecer o que se encontra na página oposta). Os volumes de cada série são distribuídos quinzenalmente.

O Homem que Passeia – Jiro Taniguchi

Do autor de Terra de Sonhos  e O Diário do meu pai (publicados por cá na colecção Novela Gráfica pela Levoir) chega-nos o diário de um homem que deambula, por vezes acompanhado pelo cão, por vezes sozinho. Não enveredando sempre pelo mesmo caminho vai conhecendo a cidade onde vive bem como os locais que a circundam e vivendo pelas aventuras mundanas que quebram o quotidiano.

Desenhando uma realidade algo diferente da nossa, em O homem que passeia sentimos um ambiente mais calmo e misterioso apesar da necessidade de quebrar a rotina. Saindo numa estação diferente só porque sim, ou explorando ruas desconhecidas, a rotina vai acabar por ser quebrada em episódios mais íntimos.

Visualmente diverso e detalhado, alternando episódios de diferentes estilos, em O Homem que Passeia não são necessárias muitas falas para que se transmita ambiente, sendo que algumas das reacções nos parecem estranhas, justificadas pelo enquadramento oriental.

O Homem que passeia já não é a primeira edição portuguesa do livro, mas é a mais recente e disponível no mercado tendo sido publicada pela Devir. O livro foi apresentado no dia 24 de Junho na Festa do Japão que decorreu no Parque das nações. Para além da apresentação decorreu uma exposição sobre obra do autor.

Outros livros do autor

Capitão América Branco – Jeph Loeb e Tim Sale

Puro, quase ingénuo e forte, o Capitão América aqui apresentado é um herói correcto que prefere optar por restringir e prender o inimigo do que enveredar por chacinas sem sentido, mesmo no contexto de uma Segunda Guerra Mundial. Aqui tem um companheiro, um sidekick bastante jovem, quase uma criança que, estando no cenário de Guerra o convence a acompanhá-lo nas missões.

Visualmente interessante, este volume apresenta-nos a nostalgia e o remorso do Capitão América perante a sua incapacidade em salvar o rapaz que pôs em risco ao aceitá-lo como companhia. Atravessando o mar (onde é salvo pelo rapaz) a missão decorre em França onde enfrentam um dos vilões que se encontra a cargo de Hitler, o Caveira Vermelha.

A par com os agentes franceses que persistem à invasão, Capitão América apresenta-se pouco sagaz, antes uma personagem de intenções puras e acções correctas, características que, numa Guerra, raramente dão os frutos devidos. Com o rapaz estabelece uma parceria, uma amizade profunda que sente trair pelas circunstâncias que se apresentam bastante diferentes do que a história nos faz supor.

Capitão América Branco foi publicado em Portugal pela G Floy.