Valerian Vol.10 – Tempos Incertos / Nas Imediações do Grande Nada – Christin, Mézières

Depois de algumas aventuras deambulando pela Galáxia, Valerian e Laureline resolvem pôr mãos à obra e procurar a Terra da sua realidade – talvez no Grande nada? Apanhando as entidades que controlam economicamente a Terra (e que representam Deus, Jesus e o Espírito Santo, sem que faltem as acções de Sat) arranjam pistas adicionais para procurar a Terra do seu tempo.

Nas imediações do Grande Nada, numa prisão onde existem presos anónimos e escondidos, Laureline e Valerian instalam uma pequena nave comerciante a fim de obter informações sobre o que os rodeia.

Enquanto Laureline faz a diferença na vida de um grupo de ex-empregadas de uma fábrica, Valerian consegue que sejam novamente multados. Existe algo a esconder e os guardas da prisão não gostam de novos olhos no planeta.

Este é, sem dúvida, um volume que pretende colocar os nossos heróis no local necessário para o grande final. Sem grandes pressas, apresenta a forma como obtém informação sobre o Grande Nada e uma forma de investigarem sem darem muito nas vistas.

Demonstrando, mais uma vez, o espírito aventureiro e decidido de Valerian, bem como o espírito bondoso de Laureline que faz a diferença nos locais por onde passa, sem deixar de lado a inteligência que a caracteriza, é um volume com algumas reviravoltas e com episódios de transição para um objectivo que só a seguir será cumprido.

A série Valerian foi publicada em Portugal pela Asa.

Resumo de leituras – Novembro de 2017 (5)

225 – O imperativo Thanos – Excessivo em acção e demasiado denso em imagens de coloração pesada, é dos volumes da colecção um dos que achei menos interessante. Enquanto Thanos regressa lutando contra tudo e contra todos com o objectivo de encontra a morte, um vilão poderoso entra nesta realidade. Tendo descoberto como enganar a morte eternamente, pretende expandir com a sua horda demoníaca;

226 – Neutron Star – Larry Niven – Uma série de contos de ficção científica que se centram num aventureiro. Quase sempre solitário e de nome heróico, a personagem principal assiste a grandes eventos quando aceita, a troco de somas avultadas, ser pioneiro de uma nova nave. A partir daí o conhecimento que advém desta viagem impulsiona algumas espécies a tomarem decisões de largo prazo para a sua sobrevivência;

227 – A filha do professor – Uma história engraçada e mirabolante em que as múmias egípcias possuem capacidade para se movimentar e falar. Uma delas estará apaixonado pela filha de um historiador, sendo que a interacção de ambos leva a acontecimentos catastróficos;

228 – O infante – Daniela Viçoso – Uma história centrada num infante português, um menino mimado e protegido, a quem nunca são pedidas responsabilidades e que nunca é confrontado pela realidade. Vive, assim, aventureiro, sendo que são os que o rodeiam que sofrem as consequências dos perigos a que se submete;

229 – Deadpool – O Mercenário desbocado – Duggan e Hawthorne – Centrado neste invulgar herói da Marvel, não é uma história genial, mas é uma história divertida carregada de imprevistos e confrontos mirabolantes. Deadpool é uma personagem controversa, de moralidade flexível e com evidentes falhas de memória;

230 – Monstress – Vol.2 – Marjorie Liu e Sana Takeda – Mantendo o peculiar aspecto gráfico desta banda desenhada, o segundo volume aprofunda o mistério em torno da personagem principal, apresentando uma alteração de dinâmica entre a rapariga e o Deus que a ela se fundiu, consumindo-a.

O que se vê da última fila – Neil Gaiman

De Neil Gaiman conheço mais os livros de fantasia do que a banda desenhada, tendo lido Sandman e Miracleman mais recentemente. Algo que sempre me surpreendeu é a capacidade que o autor tem para provocar a empatia com os leitores mesmo quando nos apresenta personagens com as quais nos pareceria difícil se as analisássemos friamente. Não só provoca empatia como aquela necessidade de virar a próxima página.

Apesar de conter vários textos, todos não ficcionais, esta sensação de texto a escorrer permanece. Neil Gaiman pode ser um escritor, mas lê o suficiente para carregar os textos com referências conhecidas de obras várias, demonstrando que é, nas áreas de conhecimento mais díspares que podem surgir ideias para uma nova história.

Era suposto que na manhã seguinte eu fizesse uma intervenção formal (em evento académico) acerca do tema dos mitos e dos contos de fadas. E quando chegou a altura, deitei fora os meus apontamentos e, em vez de lhes dar um sermão, contei-lhes uma história.

Era uma nova versão da história da Branca de Neve, contada do ponto de vista da rainha malvada. Levantava questões como: “Que tipo de príncipe se depara com o cadáver de uma rapariga num caixão de vidro e declara estar apaixonado e que irá levar o corpo de volta ao castelo” e, por falar nisso, “Que tipo de rapariga tem a pele branca como a neve, cabelo negro como o carvão, lábios vermelhos de sangue e permanece deitada, como se estivesse morta durante muito tempo?” Ao ouvirmos a história, apercebemo-nos de que a rainha malvada não era malvada: ela simplesmente não foi longe demais”.

O livro começa por apresentar as coisas em que Neil Gaiman acredita, e é fácil concordar com vários destes textos: a importância das bibliotecas para as comunidades como forma de escapar ao quotidiano menos positivo, a importância dos mitos que são menorizados pelos académicos como histórias lineares para crianças ou a liberdade de expressão.

Ao apresentar um conto de fadas tradicional com algumas questões extra Neil Gaiman demonstra que estas histórias tem nuances não perceptíveis pelos leitores comuns. Nem pelos académicos. Já na componente da liberdade de expressão apresenta uma história em torno de Outrageous Tales, onde se apresentam várias histórias bíblicas do velho testamento, passagens que já são, no seu original, bastante violentas.

Neil Gaiman segue falando sobre alguns dos autores mais reconhecidos nos géneros do fantástico (não pode faltar, claro, Terry Pratchett) ou sobre livros, como Fahrenheit 451, passando, também, pelos prémios Nebula. Mais tarde, irá falar, também, de música e de outros autores, alguns controversos, como Kipling ou Lovecraft.

Comentam erros. Cometam erros crassos, cometam erros maravilhosos,  cometam erros gloriosos. É melhor cometer cem erros do que ficar a olhar para uma página em branco com receio de fazer alguma coisa mal, com receio de fazer seja o que for

Este é um conselho que vamos ver em vários discursos de Neil Gaiman. O que ele nos diz é que, não sabendo escrever, iniciou-se com o jornalismo e com ele treina uma escrita limpa de floreados e artefactos. Paralelamente vai escrevendo ficção. E com o escrever ganhou o treino que pretendia.

De vez em quando mete-se em projectos que sabe não ter as bases teóricas, mas com este desconhecimento fez, por vezes, a novidade. Na prática, o que o autor aconselha é a realização de todos os projectos que se conseguir, treinar e produzir, no estilo próprio de cada um, não ter medo de errar, uma e outra vez.

O que se vê da última fila é um livro de agradável leitura onde o autor expressa ideias sobre a produção de ficção e sobre a vida, demonstrando o fascínio por outros artistas, sejam desenhadores ou escritores. Ainda que ache que alguns dos livros do autor não obtiveram o efeito desejado em mim como leitora, as ideias expressas por Neil Gaiman são coesas e facilmente transforma episódios que viveu em relatos vivos para serem apreciados pelo leitor.

O que se vê da última fila foi publicado em Portugal pela Elsinore.

Novidade: Os Vingadores 9

Chega às bancas amanhã o nono volume de Os Vingadores. Deixo-vos sinopse, detalhe de conteúdo e algumas páginas:

Um dos maiores do Universo Marvel vai atingir neste volume o seu apogeu. Além de todas as incidências do julgamento (altamente mediático) do Gavião Arqueiro, com destaque para a presença de Matt Murdock – o próprio Demolidor – como advogado de acusação, a comunidade de super-heróis terá de lidar com mais uma visão aterradora de Ulysses, o inumano capaz de prever o futuro: nada mais, nada menos que o assassinato do Capitão América (Steve Rogers) às mãos do novo Homem-Aranha (Miles Morales). Face a esta terrífica premonição, a Capitã Marvel tenta colocar o jovem Miles sob custódia, mas o Homem de Ferro está lá para impedir a detenção. Já não existe espaço para o diálogo. Os maiores heróis da terra vão viver e morrer com base numa única decisão: proteger ou mudar o futuro?

Conteúdo

THE ACCUSED (2016) #1 – Por Mark Guggenheim, Ramon Bachs, Garry Brown e Ruth Redmond;
Civil War II (2016) #6-8 – Por Brian Michael Bendis, David Marquez e Justin Ponsor.

A Balada do Mar Salgado – Hugo Pratt

Este é, dos álbuns que já li de Corto Maltese, aquele que melhor apresenta o mítico espírito aventureiro que me descreveram. Aqui Corto Maltese é uma espécie de pirata. Mas não um pirata qualquer, um pirata honrado mas que não conseguiu conter uma revolta dos seus marinheiros que lhe ficaram com o barco.

E assim que acaba a bordo do barco de Rasputine, outro capitão pirata a mando do famoso Monge, onde encontra dois jovens que foram recolhidos como náufragos. Sendo os dois jovens de famílias abastadas, Rasputine espera recolher um bom resgate, principalmente pela rapariga. O rapaz pode tornar-se mais problemático e Rasputine estaria pronto a eliminá-lo, não fosse a intervenção de Corto Maltese.

Ainda que compactue com a pirataria de Rasputine, Corto Maltese consegue intervir para impedir que a violência escale, acompanhando os jovens, sem os deixar fugir, mas também evitando que sejam mal tratados. Em contrapartida, quando são todos capturados por tribos locais será Corto Maltese que será salvo.

Ainda assim, o relacionamento entre os jovens e Corto Maltese é agridoce. Os jovens nem sempre percebem o papel de Corto, ou o seu tom irónico que denota uma vida de experiência. Principalmente o jovem rapaz que tenta aproveitar todas as situações para se afirmar, tomando atitudes idiotas e impulsivas.

Paisagens exóticas e comportamentos misteriosos – este volume decorre num local pouco conhecido onde ainda habitam vários tribos de rituais próprios, algumas com fama canibal, local que Umberto Eco se encarrega de apresentar, numa esplêndida introdução. Trata-se de um local privilegiado para ainda ser pirata e para que se efectuem algumas manobras bélicas pelas potências em guerra.

A Balada do Mar Salgado apresenta uma história carregada de enigmas, alguns que não se chegam a explorar, fazem parte do contexto, e outros que são necessários para o desenrolar inevitável dos acontecimentos. Corto Maltese continua misterioso, expressando-se apenas quando é mesmo necessário, mas mostrando, nas suas intervenções, uma boa capacidade de observação e entendimento, elementos que se vão revelar necessários para se desenvencilhar das situações difíceis em que se coloca.

A Balada do Mar Salgado foi publicado em Portugal pela Arte de Autor.

Novos projectos literários em curso

Amanhãs que cantam

Este é o novo projecto da Imaginauta, em parceria com a Épica, que já nos trouxe obras como Comandante Serralves, uma obra de ficção científica portuguesa que ultrapassou todas as expectativas e nos presenteou com um conjunto coeso de histórias que decorre numa realidade alternativa interessante – o que tem de peculiar este conjunto? Está carregado de referências bem portuguesas!

Amanhãs que cantam, o novo projecto pretende agregar histórias que decorram numa realidade alternativa em que Portugal ficou sob um regime comunista desde 1968, ano em que Salazar caiu da cadeira. Neste projecto os contos não têm de ser concordantes e podem expressar a sua própria versão deste regime, podendo constituir histórias utópicas ou distópicas.

Interessados? Podem consultar o regulamento na página oficial da Imaginauta.

Concurso nacional de contos de ficção especulativa

Este concurso resulta numa parceria entre o Sc-fi LX, a Imaginauta e a Editorial Divergência e pretende premiar contos de ficção especulativa, ou seja, fantasia, ficção científica ou terror. O concurso tem, associado, um prémio e um acordo de exploração comercial. Para mais detalhes podem consultar a página da Imaginauta sobre o prémio.

 

Antologia de Space Opera “Na imensidão do Universo”

Trata-se de um projecto da Editorial Divergência, uma das poucas editoras portuguesas que tem vindo a apostar na publicação de ficção especulativa de autores nacionais, com obras como Lovesenda de António de Macedo ou Anjos de Carlos Silva, para além das inúmeras antologias.

Para mais detalhes podem consultar a página oficial com o regulamento e informação sobre o que é pretendido.

Antologia de Fantasia Rural “O resto é paisagem!”

Esta antologia resulta de uma parceria com Luís Filipe Silva, conhecido autor de ficção científica português que já organizou outros projectos e que tem representado Portugal nalguns eventos internacionais de ficção especulativa, como a Eurocon.

Para mais detalhes podem consultar a página oficial com o regulamento e informação sobre o que é pretendido.

Base de dados de ficção especulativa Portuguesa

Este projecto distingue-se dos anteriores por não se referir à organização de uma antologia ou por envolver a escrita de contos. Ou melhor. Já envolveu a escrita. Pretende-se criar uma antologia que seja representativa da produção nacional dentro da Ficção Científica, do Fantástico e do Horror.

Para tal criou-se uma base de dados de acesso livre com os contos portugueses já publicados, e criou-se um fórum para facilitar o debate sobre que contos devem ser escolhidos para tal antologia.

Deixo-vos as ligações para cada uma das componentes

Homem-aranha Vol.5 – Entre a terra e o céu – Molina, Bianchi, Broccardo, Bermudez

Entre a ciência e o misticismo, este volume centra-se num homem que regressou à vida na noite em que foi enterrado. Afastando-se qualquer hipótese de ter sido enterrado vivo (tinha sido autopsiado) o homem-aranha investiga o caso.

Ainda mais estranho do que ter regressado à vida é o facto deste homem efectuar alguns milagres por onde passa e o de não agir como anteriormente. Algo mais parece estar por detrás do regresso do seu corpo à vida e o Homem-aranha segue as pistas até à cidade de Remédios em Cuba.

Entre lutas com os Santeiros e outros elementos sobrenaturais pouco corpóreos, o Homem-Aranha é obrigado a enfrentar os seus próprios fantasmas, mais propriamente o fantasma do seu tio que o guia por esta aventura com uma série de frases obscuras e misteriosas.

Apesar de cruzar elementos religiosos de outras culturas, retirando-lhe um pouco da aura negativa de superstição e engodo, este volume de Homem-Aranha é engraçado mas prefiro as restantes aventuras apresentadas até aqui. Os Santeiros são um grupo complexo, de opinião mutável que justificam algumas cenas de batalha pouco objectiva.

Mas se em termos de história não fiquei tão bem impressionada, já do ponto de vista visual este número possui páginas espectaculares, em que a densidade da coloração consegue ser balanceada por uma disposição mais cuidada sem sobrecarregar a vista do leitor.

Homem-aranha encontra-se em publicação pela Goody.

Resumo de leituras – Novembro de 2017 (4)

219- Ecos invisíveis – Tony Sandoval e Grazia La Padula – Com desenhos particularmente emotivos onde se realçam as expressões, Ecos invisíveis é uma pequena história envolvente que segue um homem que perdeu a esposa. Este episódio trágico provoca o despertar de uma capacidade que o leva a isolar-se;

220- A Asa Quebrada  – Antonio Altarriba e Kim – Depois de fazer uma banda desenhada em torno do pai, Altarriba percebeu que tinha sido injusto com a mãe, a mulher que viveu toda a vida com um braço aleijado sem que ninguém tenha dado por isso, nem o marido ou o próprio filho;

221 – Homem-aranha Vol.5 – Este volume apresenta uma aventura onde os Santeiros têm um papel preponderante. Quando um homem regressa à vida depois de enterrado muitos parecem crer num milagre mas o homem parece comportar-se de maneira diferente e provavelmente o seu regresso terá origens obscuras;

222 – As serpentes de água – Tony Sandoval – Uma menina aventureira encontra a parceira de brincadeiras perfeita – muito imaginativa e algo lunática, andar com ela é uma diversão. Mas quando se apercebe que nem o irmão a vê, só a ouve, apercebe-se que a nova companheira de brincadeiras não é mesmo uma menina normal;

223 – Alice num mundo real – Isabel Franc e Susanna Martin – A autora enfrenta o cancro da mama a apresenta os vários passos e situações por que passou de uma forma leve com pitadas de humor;

224 – Homem-aranha Vol.6 – Este volume marca o início da Guerra Civil com o homem de ferro a puxar Miles Morales para o seu lado.

Os três estigmas de Palmer Eldritch – Philip K. Dick

A humanidade colonizou outros planetas mas, ao invés de vermos realizada a ideia de grandiosidade e de concretização de um grande feito, vê-se um arrasador sentimento de depressão e nostalgia que abala os colonos. Deixando as hortas por cultivar e tudo o que os rodeia num enorme estado de negligência, estes colonos passam todo o tempo possível a ingerir uma droga, Can-D (soa como candy, em português, doce) que lhes fornece uma experiência bastante vivida na Terra, num corpo imaginário  – uma experiência que pode ser melhorada pela aquisição de miniaturas de objectos terrestres.

Barney Mayerson é um dos mais poderosos precognitivos, um homem caracterizado por uma grande dose de arrogância, ainda marcado (sem que o admita) pela separação com a ex-mulher. Conhecemos-lo num dia particular, acordando de uma grande ressaca depois de ter dormido com a sua nova colega de trabalho, uma pessoa com potencial para se tornar tão boa ou melhor do que ele.

O trabalho de ambos (Barney Mayerson e nova colega) envolve escolher em que objectos (como peças de arte, por exemplo) se deve investir na miniaturização, prevendo o seu sucesso futuro entre os colonos. Mas não só. Prevê-se a morte de milionário Palmer Eldritch às mãos de Leo Bulero, o dono das empresas que fabrica Can-D e as respectivas miniaturas. Mas nem o próprio sabe, à data da previsão, o motivo que o poderá levar a tal acto.

Os três estigmas de Palmer Eldritch parece uma paródia às histórias de ficção científica de conquista no espaço, esperançadas e românticas, aspirando a grandes feitos e grandes aventuras. Se por um lado temos personagens que parecem estereótipos, como a boazona com elevadas capacidades que opta por seduzir e manipular para obter o que pretende, ou o homem inseguro que tem elevadas aspirações que ele próprio boicota inconscientemente; por outro temos uma sucessão de situações grandiosas que revelam uma espécie degenerada em colapso.

A experiência extra-corporal fornecida pela Can-D é tão forte que leva, até os inicialmente mais incrédulos, a praticar uma estranha religião centrada na droga e nas respectivas miniaturas – miniaturas que conferem o efeito de novidade e aumentam a experiência onde todos os homens são Ken e todas as mulheres são Barbie, numa parceria perfeita que os colonos encarnam, em simultâneo, como experiência social. Engraçado constatar que esta não é a única história em que Dick transforma a nostalgia por um mundo conhecido em obsessão por reproduzir essa realidade recorrendo a bonecas e brincadeiras que simulam a vida perdida como uma lembrança de perfeita diversão).

Esta obsessão, concretizada por ocasionalmente por escassas horas, está agora em risco de ser transformada em algo mais. Palmer Eldritch regressa ao sistema solar como um novo ser, carregando consigo uma versão melhorada da droga que permitirá uma experiência melhorada no espaço e no tempo. Até que ponto se trata apenas de uma simulação, ou até que ponto é que esta simulação é controlada pela própria pessoa são as grandes questões que envolvem esta droga – será uma nova forma de se viver eternamente? E afinal, o que é viver eternamente? É manter uma memória corrompida no mundo real ou capaz de viver uma simulação sem fim?

Palmer Eldritch é, em suma, um monstro. Aparentemente humano, omnipresente, capaz de apresentar em todos os espaços e tempos e em nenhum, existindo e corrompendo, talvez como parasita, talvez como ser que já transcendeu a loucura. Ou será Palmer Eldritch apenas um reflexo exagerado daquilo que já existia, não tendo, por si, verdadeira importância?

Mas Os três estigmas de Palmer Eldritch não retrata apenas um conjunto de colonos deprimidos e entregues às drogas por nostalgia e depressão. Entre psicólogos portáteis que são, na prática, inteligências artificiais dentro de malas e outras tecnologias interessantes, encontramos a capacidade de induzir a evolução física e intelectual – um processo caro que nem sempre induz o efeito desejado e pode embrutecer o indivíduo tratado.

Não esperem que a “evolução induzida” produza o indivíduo perfeito tal como foi publicitado por uma série de facções raciais e racistas. A evolução é, claro, no sentido da melhor adaptação e produz algo que visualmente poderia ser bastante desagradável, não fosse ser socialmente reconhecido como sendo um processo restrito aos mais ricos e bem relacionados. Afinal, a beleza é algo relativo e se o aspecto expressa um determinado estatuto … bem, não é isso mesmo que se pretende?

Em suma. O que é Os três estigmas de Palmer Eldritch? Um livro bastante estranho, a roçar vários tipos de psicoses e doenças mentais, que demonstra um futuro negro de forma irónica e inteligente, uma paródia de simulações que se entrelaçam até deixar de se perceber onde começa a realidade e termina a falsidade.

Depois de publicado na Europa-América e na Editorial Presença, a edição que se encontra disponível actualmente no mercado português é a da Relógio d’Água.

Novidade: Homem-aranha 8

Já andas nas bancas, desde dia 10, o oitavo número de Homem-Aranha! O número promete seguir os dois heróis (Peter Parker e Miles Morales) durante o conflito que separa as várias entidades com poderes sobre humanos! Eis sinopse, conteúdo mais detalhado e algumas páginas:

Peter Parker tem levado uma vida dupla. Por um lado assume o papel de presidente da sua empresa multinacional do sector da alta tecnologia; por outro está constantemente em ação vestindo a pele (ou será o fato?) do espetacular Homem-Aranha. Peter tem andado tão ocupado que nem sequer tem tido tempo para a sua família (e amigos), situação que pretende reverter com uma grande festa em Nova Iorque. Tudo estava a correr bem até ao momento em que o marido da sua tia May, Jay Jameson, sofre um colapso repentino. Num enredo cheio de surpresas e grandes reviravoltas, “Nunca Digas Nunca” marca o pontapé de saída nos eventos que vão anteceder uma das maiores sagas da história recente do famoso aracnídeo, ou seja, “A Conspiração dos Clones” (saga que será apresentada na íntegra na Série II do Homem-Aranha).

Se Peter Parker está prestes a entrar num imbróglio que fará regressar à ribalta alguns dos seus maiores inimigos, em Guerra Civil II, o jovem Miles Morales tenta perceber o seu papel no conflito, algo que o fará questionar a sua própria essência e onde não vão faltar inimigos que vão tentar aproveitar-se da situação.

Conteúdo

Nunca Digas Nunca
Argumento: Dan Slott
Arte: Giuseppe Camuncoli e R.B. Silva
Cores: Marte Garcia e Jason Keith

Guerra Civil II
Argumento: Brian Michael Bendis
Arte: Nico Leon e Sara Pichelli
Cores: Marte Garcia e Rachelle Rosenberg

Sandman Vol.7 – Vidas Breves – Neil Gaiman, Jill Thompson e Vince Locke

Neste sétimo volume de Sandman, Neil Gaiman volta-se a centrar no Mestre dos Sonhos, explorando, mais propriamente, as intrincadas e difíceis relações familiares. A história começa com Delírio, a mais nova dos Eternos que procura o irmão, Destruição.

Ao perceber que, sozinha, pouco consegue concretizar, Delírio procura a ajuda de vários irmãos, chegando a Morfeu com poucas esperanças. Mas Morfeu, que recupera de mais uma recente desilusão amorosa, aproveita a demanda para se distrair e acede a ajudar a irmã na busca.

A busca por Destruição começa, com base numa lista construída por Delírio onde constam os amigos do irmão (ou aqueles que costumavam conhecê-lo). Tratam-se de entidades quase imortais, elementos que passam por seres humanos mas que vivem na Terra há largos milhares de anos.

Pista a pista, os elementos que outrora conheceram Destruição vão perecendo de formas diversas, resultado do infortúnio ou dos seus próprios poderes. Morfeu desiste assim de procurar o irmão, deixando Delírio desesperada – mas a chave para este mistério reside na própria família.

De páginas visualmente delirantes, entre a sonho e a loucura, este volume de Sandman explora algumas personagens secundárias mas centra-se mais nos Eternos. A sua longevidade faz com que os relacionamentos entre eles se tornem difíceis, existindo sempre a memória de algum momento menos positivo.

Não sendo um dos volumes mais interessantes até agora, este sétimo parece estabelecer as bases para algo mais, um volume que deixa vislumbrar, novamente, as várias facetas dos Eternos.

Sandman foi publicado em Portugal pela Levoir em parceria com o jornal Público.

Novidade: O Diabo, o Relojoeiro e a Máquina dos Sacrifícios – Michael Marshall Smith

A Topseller parece ter investido nos géneros da ficção especulativa com mais um lançamento, desta vez mais voltado para a fantasia:

Imagine, caro leitor, a oficina de um relojoeiro.
Imagine ainda que esta história se passa num mundo banal e que o relojoeiro é, também ele, um homem normal? com um talento extraordinário.
Até ao dia em que alguém entra na oficina com o mais invulgar dos pedidos: uma máquina para converter a maldade do mundo em energia.
Quem (pergunta-se o leitor) quererá esta bizarra extravagância? Ora, ninguém mais do que o próprio Diabo? Que, como se sabe, tem formas muito persuasivas de obter o que deseja.
Passaram-se séculos, e o Diabo e a sua máquina estão a ter problemas. É então que, acidentalmente (embora se suspeite de uma certa influência maligna), a pequena e ingénua Hannah Green é arrastada para uma tenebrosa aventura maquinada pelo Diabo.
Preste bem atenção, estimado leitor, pois aqui começará também a sua história, num mundo onde as aparências enganam e as coincidências não existem.

 

 

Asa Quebrada – Antonio Altarriba e Kim

Em A arte de Voar Altarriba apresentou a história do pai fazendo da mãe, Petra, uma figura quase inexistente, uma sombra perdida na religiosidade extrema. Sem estar envolvida na política, a mãe é efectivamente uma figura que se refugia na religião, uma atitude bastante mais compreensível se conhecermos a sua história.

Quando nasceu o pai tentou matá-la. Assim começa a história de Petra, cuja mãe faleceu ao dar à luz. Salva por outros familiares, retém uma mazela para toda a vida – um braço partido que, após a cura, nunca ganha mobilidade. Um defeito que nem filho, nem marido se aperceberam durante toda a sua vida.

Petra vive os primeiros anos sem apoio paterno, criada pela irmã. Felizmente, sendo a cara da mãe, o pai acaba por reconhecê-la e aceitar que viva na família. Desde cedo aprende a realizar as tarefas domésticas, ocultando a pouca mobilidade do braço, mas não é uma existência fácil – o pai é um homem de sonhos esmagados, tão rígido que os filhos acabam por sair de casa à primeira oportunidade.

Ironicamente, Petra acaba por ficar sozinha em casa com o pai, entretanto inválido. Só após a sua morte acaba por ir para a cidade, onde arranja emprego e onde acaba por conhecer o futuro marido.

Vida carregada de altos e baixos que aceita fazendo o melhor que consegue das circunstâncias, Petra distancia-se fisicamente do marido por medo de uma nova gravidez de risco, e psicologicamente quando este se ausenta para estar com outras mulheres.

Se a vida do pai de Altarriba esteve carregada de peripécias bélicas, a de Petra revela-se não menos sofrida, mas menos compreendida e conhecida por aqueles que a rodeiam.

A Asa Quebrada foi publicado pela Levoir em parceria com o jornal Público na colecção Novela Gráfica.

Resumo de leituras – Novembro de 2017 (3)

213 / 214 / 215- Valerian – Vol. 10, 11 e 12 – Christin, Mézières – Chega assim ao fim a série de ficção científica que nos transporta pelo tempo e pelo espaço, numa série de aventuras mirabolantes e divertidas, carregadas de detalhes imaginativos. Não faltam as espécies alienígenas com as suas particularidades nem as armas que são animais vivos prontos a serem comandados por um dono. Sem um vilão concreto na maioria das aventuras, vai ganhando complexidade e aproveitando os elementos que criou em aventuras anteriores para enriquecer as seguintes;

216 – A história de um rato mau – Bryan Talbot -Uma história de abuso sexual dentro do espaço familiar que resulta na fuga de uma jovem. Sem abrigo, vive alguns maus momentos até encontrar, finalmente, um local onde se encontra segura;

217 – Sandman Vol.7 – Vidas Breves – Um volume mais centrado em Orfeu, mais concretamente nas suas tumultuosas relações familiares. Os Eternos acumulam tensões e simpatias mas não são totalmente imutáveis;

218 – Astérix e a Transitálica – Jean-Yves Ferri e Didier Conrad – A nova aventura de Astérix e Obélix leva-os a percorrer a Península Itálica percebendo-se que nem todos os habitantes desta zona são romanos. A corrida está carregada de contratempos e nem todos são obra do acaso. Divertida, carregada de nuances e trocadilhos, não ultrapassa a diversão que obtive no volume anterior.

Neutron Star – Larry Niven

Eis um inesperadamente bom conjunto de histórias. Não conhecia o mundo em que decorre, nem o autor, mas mesmo sem conhecer o enquadramento dado por outras histórias consegue ler-se sem necessidade de introduções – até porque a realidade expressa aqui é simples.

Num futuro distante a humanidade já colonizou vários mundos e conheceu outras espécies alienígenas, destacando-se os “Puppeteers” (uma raça de mercadores manipuladores que têm valor para tudo). Este volume apresenta várias aventuras que se centram sobretudo em Beowulf Shaeffer, um aventureiro sortudo que se arrisca a missões perigosas e sobrevive.

Não se tratam de missões perigosas no sentido bélico. Beowulf aceita ir até ao centro da Galáxia numa nova nave capaz de percorrer, em poucos dias, a distância necessária, ou visitar um estranho planeta que viaja a alta velocidade e onde apenas existem animais numa das suas metades.

Tratam-se de aventuras onde se denota o espírito solitário do herói curioso que é capaz de, quando pressionado, ultrapassar a sua preguiça mental, e arranjar soluções interessantes para os problemas diplomáticos e económicos que atravessa. Só assim é capaz de sobreviver à missão que o coloca perto de uma Estrela de Neutrões ou à viagem solitária que quase o leva ao centro da Galáxia.

A interacção com outras espécies alienígenas também não é fácil. Com códigos de conduta distintos ou diferentes forças diplomáticas, o resultado das missões a que se disponibiliza revela-se muitas vezes inesperado.

Bem disposto, carregado de situações inusitadas e com espécies alienígenas que fornecem elementos interessantes, Neutron Star fornece uma leitura engraçada e espirituosa que me levará à procura dos restantes livros que decorrem no mesmo Universo ficcional.

Novidade: Kazuo Ishiguro

A Gradiva aproveita a atribuição do prémio Nobel a um dos seus autores, Kazuo Ishiguro, para voltar a lançar algumas das suas obras já esgotadas, e anunciar o lançamento de dois dos seus títulos ainda não publicados em Portugal.

Ainda que não goste homogeneamente de todas as obras do autor, gostei bastante de Nunca me Deixes, um livro em que existem clones humanos cujo propósito é fornecer peças extra compatíveis aos originais, apesar do seu lento desenvolvimento e decisões de percurso que podem parecer menos lógicas, mas O Gigante Enterrado, que usa metaforicamente a mitologia arturiana para contar a envolvente aventura de um casal de velhotes de memória nublada, foi de tal forma marcante que se tornou um dos livros favoritos do ano.

Comentários a obras do autor

Homem-Aranha Vol.4 – A ascensão do Escorpião / Miles Morales

O quarto volume começa com uma mirabolante viagem que leva o Homem Aranha e Fury a vários satélites que se encontram em torno da Terra. Só no espaço, nestes satélites é que o Homem Aranha consegue, com rapidez, a informação de que necessita sobre o Escorpião. Infelizmente, tal faz com que o Escorpião destrua alguns destes satélites, acção que terá grande impacto nas comunicações terrestres.

O retorno do Homem-aranha é turbulento e deixa-o vulnerável a um ataque por parte de Escorpião, um encontro quase fatal não fosse a intervenção dos Gémeos, outra entidade associada ao horóscopo que tem objectivos a cumprir, mais importantes do que a eliminação do herói.

Trata-se de uma aventura carregada de acção que permite, com a ida ao espaço, o enquadramento numa série de espaços visualmente espectaculares. Não faltam as batalhas com os vilões nem as pequenas piadas à homem-aranha ou os salvamentos de último minuto.

Depois de uma pequena aventura no dia dos namorados (parece que nem nesse dia os vilões descansam e deixam Homem-Aranha ir, descansado, a um encontro) segue-se a continuação da história de Miles Morales, o novo Homem-aranha, um rapaz ainda novo que não consegue explicar, à família, a súbita descida das notas na escola.

O quotidiano escolar de Miles é agitado por um novo super-herói na escola – um super-herói que o seu melhor amigo idolatra de tal maneira que expõe o segredo da identidade de Homem-aranha. Mas antes de poder conversar decentemente com o amigo Miles é necessário na sua função de Homem-aranha mas tal chamada revela-se um engodo para o apanhar.

O fato deste Homem-aranha é bastante mais apelativo do que o do original e Miles revela ter poderes e capacidades tecnológicas bastante diferentes. Apesar de possuir o título de Homem-Aranha este, mais jovem, apresenta história e personalidade própria, bastante diferentes.

Se sempre achei que o Homem-aranha original caia demasiado em episódios de autocomiseração e depressão. Este parece bem mais decidido, carregando a responsabilidade que advém dos poderes sem um episódio sombrio para enegrecer a vertente de herói.

Homem-Aranha está a ser publicado em Portugal pela Goody e pode ser encontrada nas bancas.

Resumo de leituras – Novembro de 2017 (2)

207 – Valerian Vol.9 – Christin, Mézières -Sem o mundo que lhes deu origem, Valerian e Laureline vão-se envolvendo nos conflitos a que assistem, vivendo pequenas e movimentadas aventuras. É nestas que irão conhecer alguns dos elementos que lhes permitirão fazer uma revolução em volumes mais avançados da história;

208 / 209 – Homem-aranha vol.3 / 4 – Slott, Camuncoli, Buffagni, Bendis e Pichieli – Enquanto o homem-aranha original explora novas geografias mas luta contra vilões já muito conhecidos, Miles Morales, o novo homem-aranha debate-se com as suas responsabilidades quotidianas, enquanto jovem estudante, e tenta justificar, à família, a quebra nas notas;

210 – Apocryphus – Vol.2 – vários autores – Graficamente melhor do que o primeiro volume (se tal era possível), este segundo denota, também, uma melhoria a nível narrativo, explorando a temática Crime;

211 – Vingadores secretos – Vol.35 Coleção oficial de Graphic Novels Marvel – Visualmente este volume é esplendoroso. Explora um conjunto de super-heróis que age de forma mais subtil, realizando pequenas missões secretas com o objectivo de salvar o mundo;

212 – Thor o último Viking – Vol. 33 Coleção oficial de Graphic Novels Marvel – Volume com trechos mais antigos que explicam o surgir de Thor, bem como os anos que passou entre os mortais sem reconhecer os seus poderes. Como mortal procura uma identidade banal que lhe possibilite sobreviver, mas o aparecimento de monstros que procuram eliminá-lo dificulta a sua existência em anonimato.

O Imperativo Thanos – Marvel Graphic Novels Vol. 37

Não sei se pela alternância com outras histórias mais calmas, achei este volume excessivo. Excessivo na acção, não tendo momentos de paragem e transmitindo uma constante urgência, excessivo na densidade cromática e de quadrados, fazendo com que ocorra demasiado em pouco espaço, e apresentando diferentes características visuais na mesma página. Há, também, a destacar que, visualmente, este volume tem, também, planos brutais nalgumas páginas que dão espaço para todo o detalhe que elas possuem.

Thanos volta mas a sua obsessão não se concretiza. Thanos quer morrer a todo o custo e as suas acções são determinadas pela possibilidade de tal desejo ocorrer. Em simultâneo Cancroverso liberta-se neste Universo e com ele uma série de monstros imortais, provenientes de uma realidade em excesso por se ter dado cabo da Morte.

Perante esta ameaça, diversos grupos se unem, provenientes dos mais diversos planetas e de todos os cantos do Universo. A ameaça é enorme e os episódios de luta frustrada sucedem-se, levando os heróis a enveredar por engodos, armadilhas e subterfúgios. Existe, na prática, não uma luta contra a morte, mas a favor da morte, demonstrando que tem um papel fulcral no Universo na renovação e manutenção do equilíbrio.

Entre o rápido questionamento filosófico a ameaça desdobra-se e impõe-se, levando ao cansaço dos heróis que nem sempre tomam as opções mais correctas, agindo contra o comum acordo estabelecido.

Ainda que possua elementos interessantes, este é um dos volumes que achei menos interessantes da colecção, sobretudo pela sobrecarga de acção. Este é o volume 37 da Colecção Oficial de Graphic Novels Marvel.