Resumo de Leituras: Maio de 2017 (2)

65 – O Incrível Hulk – Part 1 – Greg Pak, Carlo Pagulayan e Aaron Lopresti – O primeiro volume desta aventura coloca o herói num planeta carregado de estranhas espécies alienígenas que farão parte dos mais espectaculares cenários de batalha. A narrativa, apesar de possuir pontos cliché, consegue surpreender nalguns pontos com a progressão no segundo volume;

66 – Monstress – Vol.1 – Marjorie Liu e Sana Takeda – Fascinante, fabuloso, negro e imenso. Assim é o mundo de Monstress, de forte influência oriental onde os gatos possuem um papel preponderante;

67 – Herland – Charlotte Perkins Gilman – Um grupo de exploradores procura uma sociedade composta apenas por mulheres esperando encontrar a mais primitiva das combinações. O que encontra é a irmandade perfeita, evoluída mental e tecnologicamente com uma progressão estável – um choque para estes homens habituados a ver as mulheres como potes, belos, indefesos e utilizáveis;

68 – Apenas um peregrino – Garth Ennis e Carlos Ezquerra – Uma história violenta num mundo pós-apocalítptico carregado de salteadores e monstros, onde um homem, justiceiro, religioso mas obscuro, se coloca como bom samaritano, apesar da sua postura violenta e assustadora.

Destaque: Os Despojados – Ursula K. Le Guin

Ursula K. Le Guin será uma das autoras, senão a, mais influentes da ficção científica, tendo escrito vários clássicos dentro deste género e no fantástico (com a série Terramar). Duas das suas obras mais conhecidas encontram-se no ciclo Hannish, uma série de volumes independentes em que humanos existem em vários planetas distintos, demonstrando padrões evolutivos e estruturas políticas bastante distintas que permitem, à autora, explorar diversos conceitos. Uma destas obras é Os Despojados que terá uma segunda edição em português pela Saída de Emergência, voltando às prateleiras das livrarias em início de Junho:

Em Anarres, um planeta conhecido pelas extensas áreas desérticas e habitado por uma comunidade proletária, vive Shevek, um físico brilhante que acaba de fazer uma descoberta científica que vai revolucionar a civilização interplanetária. No entanto, Shevek cedo se apercebe do ódio e desconfiança que isolam o seu povo do resto do universo, em especial, do planeta gémeo, Urras.

Em Urras, um planeta de recursos abundantes, impera um sistema capitalista que atrai Shevek, decidido a encontrar mais liberdade e tolerância. Mas a sua inocência começa a desaparecer perante a realidade amarga de estar a ser usado como peão num jogo político letal.

Que esperança e idealismo restam a Shevek, aprisionado entre dois mundos incapazes de ultrapassar as diferenças? E ao desafiar ambos os regimes políticos, conseguirá ele abrir caminho para os ventos da mudança?

Resumo de Leituras – Maio de 2017

(já foram lidos há mais tempo, mas só agora tive tempo de actualizar esta rubrica)

61 – Edição Extra – Geral & Derradé – Este volume compila histórias mais antigas de Geral & Derradé, entre as quais algumas que foram publicadas em formato solto em jornais e outras publicações do género. Volume menos coeso que A Demanda do G, apresenta o mesmo espírito cómico, leve e divertido revelando-se, por isso, uma leitura muito agradável;

62 – Coisas de adornar paredes – José Aguiar – Uma história pausada sobre a procura de boas premissas quando a mais óbvia se encontra no quotidiano;

63 – Lovesenda – António de Macedo – Conhecido primeiro como cineasta que chegou a ter um filme seleccionado para o festival de Cannes, tem-se dedicado, nos últimos anos à escrita. Entre ficção científica, histórias mais esotéricas e textos que acompanham o desenvolvimento da fantasia, António de Macedo também produz Fantasia! De realçar que este será, sem dúvida, uma das grandes publicações em Portugal nos últimos anos! Apresentando a Ibéria numa época em que os cavaleiros cristãos co-existiam com a presença moura, Lovesenda contém uma história mítica, mística e extraordinária, contada através de uma escrita pausada e bem tecida;

64 – Hoje acontece-me uma coisa brutal – El Torres e Julián López – Partindo com a premissa usual de herói que surge quase do nada com poderes sobrenaturais que usa para o caminho da justiça, apresenta alguns detalhes narrativos poucos usuais e explora a cidade de Barcelona em páginas de excelente visual.

Destaque: Beirão – Rafael Sales

 

Pela Escorpião Azul, a editora que lançou Quest for Tula ou Histórias do Outro Mundo, chega-nos agora Beirão! Deixo-vos a sinopse, algumas páginas e… o trailler !

Há anos atrás o povo dizia que o mundo ia acabar em 2000. Não acabou, mas algo aconteceu…

Houve mudanças. A vila de Castendo, no interior de Portugal tornou-se mais agitada no que toca ao crime. É nessas alturas que surge um vigilante. Alguém decidido a travar os criminosos que pensam conseguir escapar à justiça. Na pequena vila de Castendo, a esse herói é dado o nome de… Beirão!

 

O Incrível Hulk – Planeta Hulk Parte 1 e 2 – Greg Pak, Carlo Pagulayan e Aaron Lopresti

Melancólico, perseguido pela tragédia inevitável, Hulk é dos heróis que mais se presta a grandes episódios de acção pela demonstração de força bruta onde a reflexão tem  pouco lugar e se cede aos mais básicos instintos de violência. Hulk é uma personagem revoltada que precisa de descarregar a raiva explosiva nos momentos que se apresentam propícios.

Porque as suas intervenções se demonstram demasiado destrutivas, os restantes heróis resolvem exilá-lo para um planeta distante onde pensam que poderá libertar toda esta energia demolidora. Desconhecendo o destino para o qual se desloca, Hulk vê-se num planeta onde reina uma ditadura militar, apertada e injusta onde facilmente se acaba como gladiador numa arena, para regozijo do Imperador.

Hulk não é a única personagem poderosa e, de confronto em confronto, sucedem-se as grandes, detalhadas e maravilhosas batalhas que estimulam visualmente o leitor, criando páginas belíssimas e esmagadoras – um planeta alienígena proporciona todas as mais dementes possibilidades e entre monstros gigantescos e horrendos encontramos guerreiros que cruzam as mais animalescas características.

Mas, para além desta espectacularidade visual, Planeta Hulk não é só qualidade de imagem, apresentando uma narrativa com pontos previsíveis no início, mas que consegue enveredar por percursos menos óbvios com o avançar da narrativa.

Ambos os volumes foram publicados em A Colecção Oficial de Graphic Novels, como os números 5 e 9.

História do Espelho – Sabine Melchior-Bonnet

Objecto que reflecte a luz de tal maneira que preserva a maioria das características físicas da luz original, o espelho apresenta-se como um reflexo da história da humanidade, evoluindo com a progressão tecnológica e cultural ao longo de vários séculos. Se, nas civilizações mais antigas, se olhava para a própria imagem através de superfícies distorcidas que davam uma pálida ideia da realidade, na Idade Média os espelhos venezianos tornaram-se sobejamente cobiçados, possuídos apenas por quem detinha fundos suficientes.

Em História do Espelho explora-se esta evolução do objecto sobre várias perspectivas. Objecto de luxo adquirido por nobres e burgueses ricos, levou a pequenas guerras entre os que pretendiam manter o processo de produção em Veneza e os que pretendiam exportar o método para outros países como França. Estas pequenas guerras envolveram espionagem, traições e envenenamentos por porem em causa negócios de volume avultado.

Apesar de ser um livro de não ficção, consegue-se afastar da deposição fria de factos para apresentar uma narrativa intercalada com episódios mirabolantes, pequenas curiosidades que fazem a sucessão de factos ganhar densidade e interesse. Depois de explorados os elementos económicos e sociais, parte-se para a componente mental e espiritual, colocando o espelho ora como elemento necessário para o auto-conhecimento, ora como elemento de disrupção narcisista e, até, cúmplice do Diabo, objecto usado, não para reflectir, mas para distorcer, portal de entrada a Satanás, nem que seja por abrir, na mente de quem se admira a si próprio longamente, uma porta de entrada para o mal.

Babel-17 – Samuel R. Delany

Babel-17 … Ou como a linguagem simultaneamente representa e impõe uma determinada forma de pensar – também poderia ser um bom título para o livro, não fosse demasiado longo. A aprendizagem de uma nova língua é uma boa forma de expandir o cérebro a novos conceitos, transpondo alguns elementos culturais que ajudam a captar diferentes perspectivas e a categorizar a realidade com uma lógica distinta.

É este conceito que Babel-17 explora numa história movimentada de personagens pouco lineares onde se procura a origem de uma nova linguagem que surge associada a vários ataques terroristas. Perceber o que é comunicado é o desafio que uma conhecida linguista fora da estrutura militar abraça, Rydra Wong, fascinada pela complexidade e estrutura própria da linguagem. A par com uma enorme capacidade para apreender idiomas, Rydra parece ter alguma capacidade para ler pensamentos – ou será pura capacidade para percepcionar expressões?

Rydra Wong, a mulher que percebeu que as comunicações não se tratavam de meras cifras mas sim de uma linguagem é, em si, uma personagem com uma história pessoal digna de um livro, tanto pelas suas capacidades mentais que demonstra, como pela desenvoltura nas aventuras mirabolantes e surreais em que se envolve constantemente. Capaz de inspirar fidelidade em quem a segue, reúne uma tripulação peculiar mas competente que acaba por a proteger de influências negativas e inesperadas.

Babel-17 explora vários elementos clássicos da ficção científica como viagens espaciais, relacionamentos pouco convencionais ou a possibilidade de acordar os mortos e levá-los a desempenhar as mesmas funções que tiveram em vida. Mas nenhum destes elementos se compara à apresentação da linguagem como modo de percepcionar o mundo e de impor uma determinada lógica, constituindo, até, um modo de subverter mentes e abrir caminho a novas capacidades.

Babel-17 foi vencedor do prémio Nebula de 1966 conjuntamente com Flowers for Algernon. Engraçado perceber como ambos, apesar de conterem vários elementos de ficção científica tradicional se centram sobretudo no desenvolvimento cerebral.

Destaque: Uma magia mais escura – V. E. Schwab

Os lançamentos de fantasia este mês parecem ter proliferado! Desta vez pela Minotauro, um livro de fantasia que auspicia alguma diversão:

Kell é um dos últimos viajantes, magos com a capacidade rara e muito desejada de viajar entre universos paralelos, ligados através de uma cidade mágica. Existe a Londres Cinzenta, suja e aborrecida, desprovida de qualquer magia e regida por um rei louco: George III. Existe a Londres Vermelha, onde a vida e a magia são veneradas e onde Kell cresceu com Rhy Maresh, o herdeiro irreverente de um império próspero. Existe a Londres Branca, um lugar onde as pessoas lutam para controlar a magia e a magia contra-ataca, consumindo a cidade até aos ossos. Outrora, existiu a Londres Negra. Mas já ninguém fala dela. Kell é oficialmente o viajante da Londres Vermelha, embaixador do império Maresh, guardião da correspondência mensal entre as realezas de cada Londres. Não oficialmente, é um contrabandista, servindo as pessoas dispostas a pagar pelo mais pequeno vislumbre de um mundo que nunca verão. É um passatempo difícil, cujas consequências perigosas Kell sofrerá em primeira mão. Fugitivo na Londres Cinzenta, conhece Delilah Bard, uma fora da lei com aspirações grandiosas. Primeiro, rouba-o, depois, salva-o de um inimigo mortífero e, por fim, obriga-o a levá-la para outro mundo à procura de uma verdadeira aventura. Mas uma magia perigosa cresce e a traição está em todas as esquinas. Para salvar todos os mundos, têm, antes de mais, de sobreviver.

Evento: Lançamento – Os Monstros que nos habitam

A mais recente antologia da Editorial Divergência vai ser lançada durante o próximo fim de semana, em dois eventos, um a decorrer em Lisboa na maravilhosa Biblioteca de São Lázaro e outro a decorrer no Centro Cultural de Vila Nova da Barquinha (Santarém). Sobre o evento podem consultar a página oficial e sobre a antologia deixo-vos a sinopse:

NO AR PAIRA ALGO MALIGNO…

Os mortos erguem-se das campas, os espíritos rondam a calçada, os demónios caçam almas para torturar e os cientistas tentam encontrar a fórmula para ressuscitar os mortos.

* * *
OS MONSTROS QUE NOS HABITAM é a mais recente antologia da Editorial Divergência, focada no paranormal. Nela estão incluídos seis contos de seis autores portugueses: Alexandra Torres, Ângelo Teodoro, Carina Rosa, Nuno Ferreira, Soraia Matos e Patrícia Morais.

Destaque: As Crónicas de Âmbar – Livro 1: Nove Príncipes de Âmbar – Zelazny

Sim, já saiu no início do mês, mas não podia deixar passar este lançamento em Portugal sem o referir! Com uma pitada de demência e de instintos assassinos, As Crónicas de Âmbar apresentam-nos um conjunto de irmãos que, constantemente, tecem planos para se matarem uns aos outros – e não é apenas o desejo de poder que os motiva. Li esta série há uns anitos e foi daquelas que marcou o meu gosto por fantasia a sério,  sem condescendências, príncipes encantados e felicidades idiotas. O primeiro volume da série foi publicado pela Saída de Emergência:

Âmbar é o único mundo verdadeiramente real. Todos os outros mundos, incluindo a Terra, não passam de sombras que de certa forma o imitam. Exilado na Terra desde há séculos, o príncipe Corwin acorda na cama de um hospital, sem memórias da sua existência passada. Gradualmente, descobre a verdade e é forçado a regressar ao mundo paralelo de Âmbar onde descobre que o rei Oberon, seu pai, é dado como desaparecido. Para ganhar o seu direito à sucessão do trono, Corwin terá de enfrentar realidades impossíveis forjadas por assassinos demoníacos, horrores inomináveis e os exércitos e fúria dos seus irmãos, os príncipes de Âmbar.

 

The Forever War – Joe Haldeman

Primeiro número da mítica colecção de SF Masterworks da Gollancz, The Forever War é um exemplo típico (ou O exemplo) de ficção científica bélica, envolvendo alienígenas, como forma de, num contexto abstracto, criticar a espécie humana e a motivação das guerras que desenvolve.

Se a história começa por nos apresentar uma espécie hostil que terá sido responsável pelo desaparecimento de algumas naves terrestres, cedo apanhamos alguns detalhes que nos fazem questionar a verdadeira origem da guerra e a forma como esta está a ser conduzida. Se a guerra pode ser vista, do ponto de vista económico, como uma força impulsionadora de algumas indústrias (e avanços tecnológicos) verdade é que, pode, também, ser usada como forma de exercer pressão nas sociedades, para apertar os cordões à bolsa ou implementar limitações na liberdade. Aliás, é com o conceito de inimigo comum, vigilante e poderoso que se justificam algumas das mais famosas distopias como 1984 ou Kallocaína.

Aqui, de forma bastante circunstancial, vamos assistir a algo semelhante. Neste caso, aproveitando, não só a guerra mas, também o crescimento absurdo da população humana, todos os bens são racionados, e a maioria das pessoas não possui um emprego. Os restantes conseguem algum dinheiro através da substituição ilegal dos verdadeiros trabalhadores por % bastante menores – na prática os detentores do emprego podem nunca chegar a trabalhar e ainda ganham o suficiente para se manterem.

Mas divago. Esta percepção crítica da sociedade em que alguns se mantém à margem em quintas onde podem viver em paz e produzem os mantimentos para os restantes, que permanecem em cidades decadentes carregadas de violência, é apenas uma pequena parte da história mas que terá um efeito determinante em fazer regressar à guerra, soldados que já estavam fartos de morte e destruição.

One thing we didn’t have to worry about in this war was enemy agents. With a good coat of paint, a Tauran might be able to disguise himself as an ambulatory mushroom. Bound to raise suspicions.

Infelizmente, neste caso, o inimigo existe. Ou é materializado sob a forma de alienígenas, os Tauran. As batalhas decorrem em condições extremas e várias expedições são enviadas para os destruir. Seguimos Mandella, um soldado que consegue sobreviver às duras condições de treino onde padece a maior parte dos colegas, e que faz parte da primeira missão em que se consegue capturar um Tauran. De missão em missão percebe que está cada vez mais isolado e que, apesar de pouco ter envelhecido, a vida passa na Terra. Depois de uma missão catastrófica em que resta ele e uma companheira, tentam regressar às suas respectivas famílias, descobrindo que a sociedade está caótica e que já não têm lugar entre os civis. Qualquer semelhança com a realidade dos soldados que retornam da guerra não é uma coincidência.

Depois de alguns episódios violentos e disruptivos ambos resolvem regressar às missões. Demasiado distantes do inimigo, as viagens provocam discrepâncias temporais na vida dos soldados. Mandella vê-se, assim, no ano de 2458, isolado da sua parceira de guerra e, entretanto, companheira, como um homem adulto incapaz de se adaptar às novidades sociais. É que a homossexualidade passou a ser imposta como forma de controlar a natalidade (que apenas existe por meios artificiais) e Mandella é, na prática, o ser humano com comportamento sexual desviante, visto como uma raridade estranha.

A par com a natalidade artificial existe a selecção e uniformização genética, eliminando diferenças raciais e doenças – ainda que esta selecção possa não ser assim tão vantajosa como poderá parecer à primeira vista. Se ambas podem ser defendidas positivamente como tendo em vista a eliminação do racismo e de efeitos genéticos nefastos (pontos expressos durante a narrativa), a verdade é que, do ponto de vista biológico, a eliminação da variedade, a par com a gestação exterior, pode vir a ter duras consequências futuras pela dependência da tecnologia (algo, também, indiciado levemente ao longo da história).

Back in the twentieh century, they had established to everybody’s satisfaction that “I was just following orders” was an inadequate excuse for inhuman conduct… but what can you do when the orders come from deep down in that puppet master of the unconscious?

(…) I was disgusted with the human race, disgusted with the army and horrified at the prospect of living with myself for another century or so… Well, there was always brainwipe.

Numa sociedade tecnologicamente avançada, como convencer soldados inteligentes a lutar? A ideia de um inimigo não é suficiente. Mesmo tratando-se de seres alienígenas, são humanóides e podem causar empatia. Nada melhor do que uma campanha para distinguir o outro, com recurso a mensagens subliminares onde se relata a violência que terá perpetuado, como forma de incitar respostas selvagens. Mesmo que o cérebro consciente do soldado perceba que estes relatos são impossíveis e irracionais, o que lhe provoca dissonância emocional.

Estes temas não são endereçados directamente. Joe Haldeman usa a vida de Mandella, implementando vários elementos paralelos com os que lutaram no Vietnam, para fazer uma crítica intemporal às motivações políticas e económicas por detrás das guerras, bem como ao condicionamento dos soldados, o valor das suas vidas e o retorno a uma vida civil. Tudo isto enquanto nos apresenta uma narrativa com elementos de tecnologia avançada e se questiona sobre a sua utilização. E é por todas estas razões que este é, sem dúvida, um grande clássico do género.

Mais ficção de Joe Haldeman

Eventos: Sessões de culto com presença do realizador

A sessão mensal de Abril é marcada por duas novidades. Primeiro, para além da sessão do Nimas, irá haver uma segunda no Monumental do mesmo realizador. E porquê? Porque o realizador Michele Soavi virá às sessões para apresentação e responder a questões! E os filmes são Dellamorte Dellamore no Nimas e Arriverderci Amore Ciao.

The Handmaiden / A Criada

Eis um tremendo embuste.

A Criada é, acima de tudo, um tremendo engano, uma história carregada de percepções imediatas que envolve, não só as próprias personagens, como o público, e assim nos leva a todos por uma narrativa aparentemente simples com um pequeno toque final inesperado. Só que o final não é assim tão final e somos levados por novas perspectivas que nos mostram que existem muito mais por detrás da subversão explícita de uns e da inocência apagada de outros.

A história começa por nos ludibriar com magníficos cenários de contraste ocidental / oriental onde co-existem as duas arquitecturas, ambas meras representações simbólicas, aspirações frustradas de quem se quer mostrar o que não é. A par com o fascínio visual são-nos apresentadas as personagens banais e quase estereotipadas de uma história de caça fortunas: uma jovem que detém uma extensa fortuna permanece refém do tio, viúvo, que aguarda o momento propício para se casar e deter a riqueza. Não podendo, por enquanto, unir-se à jovem, educa-a duramente num mundo de medo e perversão, usando-a para leitura de histórias eróticas ou pornográficas a ricos senhores aos quais pretende vender os antigos manuscritos lidos – encenações onde quem pretende enganar se revela presa fácil de enganos.

Tomando conhecimento da existência desta donzela, rica e isolada, um jovem trapaceiro vê na situação uma presa fácil e monta o que espera ser um golpe fácil – seduzir a jovem a fugir e a casar-se com ele. Para tal recorre a parceiros de outros truques, levando uma ladra profissional, seduzida pela possibilidade de riqueza, a assumir o lugar de aia, com o intuito de aspirar a suspiros à sua proximidade.

Parece simples? Pois parece. Mas a meio percebemos que os principais ludibriados fomos nós. Seduzidos pela usual fatalidade do destino, pelo jogo de percepções fáceis e fascinados pela envolvência que provoca vermos os outros a serem enganados, somos nós que caímos no jogo e assumimos uma perspectiva demasiado linear.  Até porque se a história fosse apenas esta perspectiva teria sido bastante agradável.

Quando se apresentam novas camadas de compreensão à já percepcionada exploração pervertida de impulsos, com momentos intensos de logro e corrupção, o filme torna-se avassalador – o que é realmente importante apaga tudo o resto e mostra-nos como somos presas fáceis da percepção imediata.

Destaque: História natural da estupidez – Paul Tabori

Já se encontra à venda mais eis um livro que me parece interessante pela premissa e pela respectiva sinopse!

Um dos grandes clássicos do ensaio do século XX, divertido e profundo. «A Estupidez é a mais mortífera arma ao alcance do ser humano; a epidemia mais devastadora; o luxo mais dispendioso.» A «História Natural da Estupidez» é uma excelente reflexão acerca dessa característica infindável e inefável da raça humana que é a estupidez. O livro está repleto exemplos históricos que marcaram a evolução da estupidez desde a Antiguidade até aos tempos de hoje. A burocracia, o servilismo, a dúvida e a rigidez das leis são alguns dos temas incluídos nos capítulos do livro. Uma deliciosa panorâmica com um fundo histórico-filosófico riquíssimo e ao mesmo tempo uma reflexão para a vida! Uma versão desta obra foi publicada em Portugal pela Portugália nos anos 60 sob o título «A Ciência Natural da Estupidez» e vendeu mais de 12 tiragens. Esse volume, contudo, tinha cerca de 2/3 do original tendo sido censurado. Esta é a primeira edição integral em língua portuguesa.