O Espectacular Homem Aranha: O regresso às origens – J. Michael Straczynski e John Romita JR

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A colecção da Salvat, A Colecção Oficial de Graphic Novels Marvel, abre com uma história do Homem-Aranha perfeita para quem, como eu, conhece pouco do mundo Marvel para além dos filmes e de algumas leituras espalhadas.

Começando com um bom contexto sobre os episódios anteriores que marcam este homem-aranha fechado sobre si mesmo, desconfiado e emocionalmente abatido, esta história introduz uma nova linha narrativa, que consegue ser lida de forma independente, e que nos consegue introduzir a uma nova série do herói.

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Visualmente deslumbrante, num tom moderno quase futurista, cruzando vários estilos conforme o tom da história e as referências que vão sendo introduzidas, tem como ponto fraco as expressões faciais, um ponto facilmente esquecível quando a maioria das páginas se centra num herói mascarado e num vilão apático, indiferente, sobre-humano.

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Deprimido por acontecimentos anteriores que o afastaram de Mary Jane, o Homem-Aranha é surpreendido pela existência de outro ser com poderes semelhantes aos seus, até superiores, que levanta boas questões sobre a verdadeira origem das suas capacidades, pondo em causa a casualidade da situação que o transformou.

Na vida real, Parker decide assumir um lugar de professor na sua antiga escola, um local onde recorda os difíceis momentos da adolescência por ser diferente dos demais. Percebendo que a escola se tornou um local ainda mais abrasivo para os jovens mais inteligentes, Parker pretende fazer a diferença.

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O que Parker não prevê é o aparecimento de um novo vilão que tem como objectivo principal absorvê-lo. Este vilão difere do habitual. Movido pela necessidade de se manter vivo, não é motivado nem pela raiva nem pelo intuito de destruição, não pretende vingar-se de nada nem de ninguém. Apenas quer absorver a essência do homem-aranha e, emocionalmente dessensibilizado, não olha a meios para o atrair para armadilhas sucessivas.

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Este volume desenvolve a história do homem-aranha em três níveis distintos. Em primeiro plano temos a luta com o vilão, dura, quase impossível de vencer, um obstáculo pouco usual na forma como se apresenta. A um nível mais profundo e que instiga à continuação, põe em causa o papel do acaso na geração do homem-aranha levando-o a questionar-se a si próprio. Por último, introduz, a nível pessoal, uma missão estabilizadora e, simultaneamente, uma reviravolta que me fará pegar em breve na continuação.

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O Espectacular Homem-Aranha – Regresso às origens constitui o primeiro volume de A Colecção Oficial de Graphic Novels Marvel da Salvat.

A célebre rã saltadora do condado de Calaveras / Rikki-tikki-tavi

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Tanto Mark Twain como Rudyard Kipling, dois dos mais célebres autores de língua inglesa do final do século XIX, início do século XX, atingiram boa notoriedade com estes contos centrados em animais. Ainda que ambos tenham sido bem recebidos, sobre o conto de Rudyard Kipling foram feitas algumas interpretações demasiado exageradas na vertente colonialista.

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A célebre rã saltadora do condado de Calaveras apresenta-nos um apostador compulsivo que não consegue deparar-se com possibilidade nenhuma em que não aposte. Ao vislumbrar um possível companheiro para uma aposta, apresenta-lhe a sua rã, que decerto será capaz de ultrapassar qualquer outra, e logo inventa uma possível competição entre rãs.

Neste seguimento, deixa para trás a sua própria rã, enquanto procura outra para o companheiro da aposta. Quando retorna e testam as rãs, a sua revela-se quase incapaz de saltar.

Adaptado para ópera, e constituindo um episódio no filme As Aventuras de Mark Twain, a história ridiculariza o espírito do jogo do apostador, demonstrando que, toda a sua disponibilidade (ainda que interesseira) o deixa vulnerável a ser alvo de trapaças por parte de terceiros. Não que ele seja totalmente inocente – até porque os animais que cria, de aspecto quase vulgar, são capazes de feitos surpreendentes.

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Já o conto Rikki-tikki-tavi de Rudyard Kipling centra-se na bravura e reconhecimento de um mangusto que, recolhido e tratado por uma família, os recompensa protegendo contra as cobras de espírito vingativo. O conto é apresentado sob o ponto de vista do mangusto, um animal corajoso e simples, que conhece bem o seu lugar entre a família, reconhecendo-lhe autoridade.

Começando como um animal recolhido mas suspeito pela sua qualidade de desconhecido selvagem, o mangusto ganha o seu lugar junto da família ao demonstrar-se de confiança e protector, lutando sucessivamente com as ameaças que se apresentam.

História movimentada, empática e simples, de premissa linear e estrutura clássica, Rikki-tikki-tavi encanta exactamente por nos apresentar uma personagem humilde e corajosa que, reconhecendo o seu papel, o executa com desenvoltura, sem mostrar dúvidas ou incertezas.

Este livro amarelo da nova colecção da editora Guerra e Paz centra-se nos animais enquanto elementos causais de duas boas histórias, mas de construção bastante diferente. De realçar a composição gráfica que constitui um elemento de grande destaque na edição da colecção livros amarelos.

Os livros da Comic Con – e outras coisas

Depois de ter tentado, durante a semana inteira, preparar esta pequena compilação, eis algum tempo para tal. O objectivo? Destacar alguns dos livros que serão lançados durante o evento!

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O livro de ficção científica da autoria de João Barreiros e Luís Filipe Silva vai ter, finalmente, nova edição. O livro será lançado na Comic Con, no dia 10 de Dezembro pelas 14h30. Esta nova edição foi revista e actualizada, possuindo novos trechos de texto. Este foi o evento que quase, quase me convenceu a ir à Comic Con, mas infelizmente já era muito em cima da hora para me conseguir organizar.

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Anunciado no Fórum Fantástico de 2016, Apocryphus é uma antologia de Banda Desenhada com periodicidade anual. O primeiro volume tem como tema a Fantasia e reúne o trabalho de Nuno Amaral Jorge, Inocência Dias, Mariana Flores, Rui Gamito, Miguel Jorge, Miguel Montenegro, Pedro Potier e João Raz. A capa é de Carlos Amaral com design de Pedro Daniel.

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Estes são os mais recentes lançamentos da G Floy para apresentação na Comic Con: Loki de Roberto Rodi e Esad Ribic, Outcast (vol.1) de Kirkman e Azaceta, e Velvet (vol.2) de Ed. Brubaker e Steve Epting. De realçar que Esad Ribic estará presente para assinar os livros.

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Os Vampiros acabou de ser o álbum vencedor do Galardão Anual Comic Con BD. Os autores, Filipe Melo e Juan Cavia irão participar todos os dias em sessões de autógrafos. Ainda não leram? Como não? Um pouco fora dentro da temática dos livros, aproveito para realçar o Painel Gremlis com Zach Galligan. Recordo que ontem (quarta-feira) decorreu uma sessão de cinema do file, com a presença de Galligan, à conversa com Filipe Melo e foi um serão excelente, repleto de histórias divertidas. O actor mostrou um bom humor exemplar e Filipe Melo soube puxar por ele para nos proporcionar um grande momento!

Resumo de Leituras – Dezembro de 2016 (2)

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237 – Smokopolitan 7 – Vários autores Esta revista de ficção especulativa polaca foi distribuída gratuitamente durante a Eurocon em Barcelona, como forma de dar a conhecer o que se faz no país. Com contos de tamanho variável, apresenta história de fantasia e de ficção científica muito boas, sobre as quais falarei mais detalhadamente em entrada própria no blogue. Enquanto isso, caso estejam interessados, na página oficial da revista esta edição encontra-se disponível;

238 – Nem todas as baleias voam – Afonso Cruz – O mais recente lançamento de Afonso Cruz volta a personagens que o autor já explorou noutras histórias para se centrar numa família desfeita pelo abandono da figura feminina. Sozinhos, pai e filho demoram a encontrar um novo equilíbrio, durante o qual o rapaz vai conhecendo figuras peculiares e conversando com a sua própria morte. Uma história carregada de sentimentos que transborda imaginação, tocando no tema infindável dos livros perdidos;

239 – Policial Chindogu – Marte e Pepedelrey – Futurista, mirabolante e movimentado, mas deprimente e decadente como só a sobreposição de várias crises de identidade consegue ser. Quando se podem usar máscaras para mudar o aspecto e colocar implantes a torto e a direito para nos transformarmos em tudo, como se sente a pessoa quando é obrigada a confrontar-se consigo própria?

240 – A noite que fora de Natal | Carta do Pai Natal | Os Mortos – Um belíssimo conjunto de histórias natalícias que reúne o subversivo Jorge de Sena, ao sentimental Mark Twain e ao duro James Joyce. Um dos livros amarelos da Guerra e Paz, mas que se tingiu de vermelho para a época.

Erzsébet – Nunsky

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Criada na Transilvânia, Erzsébet cresceu numa época de intensas guerras contra os Turcos, e ficou conhecida, durante a adolesência, pelos episódios de rancor incontrolável. Mais tarde, casada com o conde Ferenc Nádasky (Ferkó), envolvido nas batalhas contra os Turcos, vai assumir o controlo das tarefas domésticas e ficará conhecida pela tortura a que submete os servos, aproveitando qualquer falha para aplicar castigos especialmente horrendos. Obcecada pela beleza, a condessa ficará, também a fama de se banhar no sangue de jovens raparigas, de forma a perpetuar o seu aspecto jovem.

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Partindo da fama sanguinária de Erzsébet, a história explora a loucura por detrás dos rituais de beleza, mostrando como uma praticante de magia se terá aproveitado do medo da idade expressado pela condessa para implementar os banhos de sangue de donzela que a tornariam imune à passagem dos anos.

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Sempre em cenários sombrios, que expressam bem o estado de espírito e a frieza do ambiente, a história vai apresentando a evolução da decadência psicológica. Com o avançar das páginas os rituais tornam-se cada vez mais desesperados e tortuosos, envoltos numa espécie de magia fantástica, impregnada de poderes maléficos e corrosivos.

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Erzsébet foi publicado pela Chili com Carne e trata-se de uma edição bilingue, com a tradução, para inglês, de todas as vinhetas, em notas de rodapé na página respectiva.

Assim foi: Recordar os Esquecidos – Setembro e Outubro de 2016

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A sessão de Setembro coincidiu com o Fórum Fantástico, razão pela qual não pude assistir ao evento. Deixo-vos, no entanto, a lista dos livros recordados durante esta tarde, publicada pelo moderador, João Morales na página oficial do evento:

Escolhas de Maria João Cantinho

Samarcanda; Amin Malouf
Obra ao Negro; Marguerite Yourcenar
Impunidade; Helder Gomes Cacela
As Aventuras de João sem Medo; José Gomes Ferreira
A Morte de Vergílio (2 Vols); Hermann Broch

Escolhas de António Manuel Venda

O Último Espectáculo; Manuel do Nascimento
As Naus, António Lobo Antunes
O Expresso de Berlim, António de Andrade Albuquerque
Quem Inventou Marrocos, Fernando Venâncio
O Último Acto em Lisboa, Robert Wilson

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A sessão de Outubro contou com a presença de Paulo Moura e Carla Maia de Almeida.

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A primeira referência coube a Carla Maia de Almeida que referiu Pobby e Dingan de Ben Rice, uma leitura que, sendo considerada juvenil por se centrar em personagens mais jovens, não é condescendente. O livro apresenta-nos uma família que terá ido para a Austrália em busca de riqueza fácil, na região das minas de Opalas. Enquanto o pai procura a concretização de um sonho pouco provável, a menina é acompanhada por dois amigos imaginários, Pobby e Dingan, amigos que terão os seus próprios defeitos físicos e psicológicos, características que os poderão tornar mais reais do que o sonho inalcançável dos adultos.

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Paulo Moura teve como critério de selecção a pertinência de se ler os livros que apresenta nesta época. Seguindo este raciocínio, o primeiro escolhido foi Os Homens Esquecidos de Deus. Sobre a vivência no Egipto, este livro apaixona pela atitude perante a literatura, em que os homens, vivendo numa ditadura, inventam a sua própria liberdade pela forma quase livre como se reúnem e pensam. De destacar que os grupos são sempre de homens pois as únicas mulheres com que existe contacto são prostitutas, sem autonomia suficiente para se constituírem como personagens.

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Carla Maia de Almeida recorda um livro pouco falado de Arturo Pérez-Reverte, Territorio Comanche, uma reportagem literária ou novela, escrita durante a guerra da Bósnia.

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Paulo Moura traz-nos, de seguida, A Idade da Razão de Sartre, um livro onde um jovem intelectual francês explora o dilema de comprometer a sua liberdade, questionando-se se deverá combater na guerra civil.

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Carla Maia de Almeida segue-se com Pardinhas de António Mota. Herdando o nome de uma terríola que ficaria no Norte e publicado em 1986, Pardinhas retorna a um Portugal que já não existe, com o totoloto e as mãe de bata na rua. Apresenta um retrato da vida rural num Portugal salazarista, pois é o avô que vai contando alguns episódios da sua vida.

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Paulo Moura recorda um volume peculiar, O Ano Mil de Georges Duby, um livro de História que vem finalmente dar importância à vida e costumes das personagens comuns, bem como os aspectos mais quotidianos como a cozinha e o amor. É de destacar que a História até então se fazia apenas dos relatos das guerras (por parte dos vencedores, claro) e da vida dos Reis.

O ano 1000 foi sempre pensado como o ano em que terminaria o Mundo, razão pela qual se acreditava ter sido um ano de intensas doações à Igreja e aos pobres por parte dos nobres. Este livro vem, também, mostrar que esta prática terá sido bastante menos disseminada do que se acreditava.

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De Ana Saldanha, Para Maiores de Dezasseis, recordado por Carla Maia de Almeida, apresenta-nos um contexto urbano, contemporâneo e pega em assuntos difíceis como a sexualidade e os relacionamentos entre adultos e adolescentes. O livro não possui um estilo muito linear, com vários saltos no tempo.

Infelizmente aqui tive de abandonar a sessão por risco de me atrasar para o Documentário sobre o cineasta António de Macedo. Mas eis as restantes escolhas por Paulo Moura:

  • México Insurrecto; John Reed
  • Dias Comuns/ Imitação dos Dias, José Gomes Ferreira

Johannes Cabal The Necromancer – Jonathan L. Howard

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Conheci este autor há uns meses na amostra gratuita da revista Lightspeed Magazine e a combinação de diversão com acção num contexto macabro de steampunk foi tão engraçada que me convenceu a pegar finalmente no livro. Apesar de pertencer a uma série que tem como centro o Necromante, é  um livro que pode ser lido isoladamente, tal como o conto a que podem aceder gratuitamente.

A aventura começa com Cabal a entrar no Inferno para ter uma conversa com o Diabo, propondo-se a concretizar uma missão com o intuito de reaver a sua alma, necessária para umas experiências que está a realizar. Antes de se encontrar com o Diabo somos bombardeados com uma visão cómica do Inferno, onde uma das figuras é um mestre na burocracia:

Sartre said that Hell was other people. It transpires one of the other people was Thrubshaw. He had lived a life of bureaucratic exactide as a clerck out in a dusty bank in a dusty town in the dusty Old West. He crossed all the t’s and dotted all the i’s. Then he made double entries of his double entries, filed the crossed t’s, cross-referenced the dotted i’s in tabulated form against the dotted j’s barred any zeroes for reasons of disambiguation, and shaded in the relative frequencies on a pie chart he was maintaining.

Então e qual a missão a que o Necromante se compromete? A conseguir enganar 100 pessoas a entregar a sua alma ao Diabo. Para tal conta com um Circo mágico carregado de figuras sobrenaturais, de natureza assustadora, e com a ajuda do que resta do irmão, falecido há muito tempo.

Passeando por vilas e terriolas perdidas o Necromante vai conseguindo captar, a um bom ritmo, as almas de que precisa, mas como seria de esperar, acontecem alguns imprevistos. Até porque o Diabo não é um adversário justo, mas Cabal vai ter de lidar com os seus vassalos na sua maneira muito particular, pouco diplomata e pouco subtil:

Billy Butler realised he had a visitor by the knock at his door. Actually, it was more by the way the door was knocked down, torn out and lobbed into the next county that was the clue.

Apesar das situações em que a personagem vai sendo colocada serem cómicas, é sobretudo a forma como o autor as apresenta, no meio de trocadilhos, que torna o conjunto bem disposto.

Have you ever seen an army of the dead? They’re far more expensive than a living one and far less use. A shambles: they march ten miles and their legs fall off . Napoleon would have aproved – that really is an army that marches on its stomach. Until if falls out

Infelizmente, nem tudo são rosas. O autor alonga-se demasiado nalgumas partes menos interessantes e menos rocambolescas, o que fez com que parasse a leitura algumas vezes, dando lugar a outros livros pelo meio. Mesmo assim, recomenda-se, pelo humor macabro e mal disposto do Necromante, sempre demasiado sério que contrasta com o tom do próprio autor. Uma história bem disposta em cenário Steampunk, em que a magia é q.b., a par com os detalhes sobrenaturais.

Resumo de Leituras – Dezembro de 2016 (1)

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233 – Quimeras naturais – Manuel José Jara – Um curioso e pequeno volume onde os animais se tornam personagens de episódios pouco prováveis, mas mantendo, na sua maioria, algumas das características que normalmente são atribuídas às suas espécies. Um conjunto que apresenta tons diferentes ao longo da histórias num resultado interessante;

234 – Democracia – Alecos Papadatos, Abraham Kawa e Annie di Donna – Tendo como palco a Grécia Antiga e como tema o aparecimento da Democracia, aproveita uma personagem fictícia que teria presenciado os momentos chave revelando os podres por detrás do poder político e religioso da época, e a forma como os poderosos se aproveitavam dos auspícios para manobrar mais facilmente as populações e os acontecimentos;

235 – The Umbrella Academy Vol.2 – Gerard Way e Gabriel Bá – Os relacionamentos apresentam-se aqui ainda mais disfuncionais do que o primeiro volume. Algo que, numa família normal poderia ter facilmente estanque, mas que, num agregado de adultos com super poderes pode ter consequências desastrosas ao longo da continuidade espaço-tempo;

236 – Wolverine: Ilha da Morte – Frank Cho – Divertido volume carregado de grandes batalhas onde não faltam dinossauros, gorilas gigantes, deuses alienígenas ou super-heróis que guardam rancores antigos, num cenário selvagem e primitivo que esconde perigos ainda maiores.

Umbrella Academy – Vol.2 – Dallas – Gerard Way e Gabriel Bá

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Umbrella Academy é uma daquelas séries carregadas de detalhes dementes que reúne um conjunto peculiar de personagens, cada uma com taras e manias mais estranhas do que a outra. Se, no primeiro volume nos é dada a conhecer a origem de uma série de seres sobre-humanos com grandes poderes que acabam por lutar com um seu semelhante, neste segundo volume mantêm-se a combinação demente mas num tom mais depressivo e pessimista.

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Perseguido por vários agentes especiais do tempo, Número cinco é o perpetuador de uma série de massacres minuciosamente elaborados. Procurado pelos próprios irmãos, teme apenas dois agentes psicopatas sem escrúpulos, com um gosto especial por doces e torturas. De preferência em simultâneo.

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A família que já se tinha mostrado disfuncional no primeiro volume, separa-se ainda mais com a morte de Pogo, e cada membro se afunda ainda mais nos seus vícios e depressões pessoais, factor que torna a história deste volume mais negra e menos equilibrada.

Enquanto que, no primeiro, existiam alguns episódios mais relaxados e divertidos que quebravam este cenário decadente, a sua quase inexistência neste segundo torna a demência ainda mais pesada e deprimente.

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Mantendo o bom impacto visual e figuras que denotam algumas características exageradas, qual caricaturas, este segundo volume continua a apresentar episódios carregados de acção e elementos pouco usuais, entre a originalidade e a loucura, que são, sem dúvida o ponto forte desta série.

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Apesar de apresentar uma história menos equilibrada neste segundo volume, o cruzamento dos elementos de ficção científica e fantástico, com viagens instantâneas no espaço e no tempo e personagens muito peculiares, resultam numa sucessão psicologicamente pouco saudável mas prazerosa e estimulante de episódios pouco previsíveis. Para quem gosta simplesmente de perder a cabeça, eis uma história muito indicada. Em Portugal Umbrella Academy foi publicada pela Editora Devir.

Um artigo de FC do início da década…

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Há uns anitos saiu este pequeno artigo sobre a Ficção Científica Portuguesa onde apareço por conta do blogue Rascunhos. Lembro-me bem de me ter sentido irritada pela associação a um estereotipo de que o fã do género devia ser “um homem, uma espécie de ‘cromo’ viciado em tecnologias, tímido, aéreo  e eremita”. Excepção, ou não, 6, quase 7, anos depois cá continuo, a divulgar tudo o que me interessa, principalmente livros de ficção especulativa, ainda que não me consiga dedicar nunca apenas a estes géneros de ficção. Deixo-vos o artigo que, passando o curto desabafo, possui componentes bastante mais interessantes:

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Dicionário do Diabo – Ambrose Bierce

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Estou a ler este livro há semanas. Não porque seja aborrecido, muito pelo contrário,  mas porque esta dicionário subversivo de Ambrose Bierce se apresenta mesmo como um dicionário, com várias entradas, onde se apresenta, para cada palavra, um significado cínico, realista e crítico.

Aborígenes, n. Pessoas com pouca importância que são encontradas a obstuir o solo de um território recém-descoberto. Deixam rapidamente de obstuir, passando a fertilizar.

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Editor – uma pessoa que combina as funções judiciais de Minos, Radamante e Aecus, mas que é aplacável como um óbolo; um censor severo e virtuoso, mas tão caridoso que tolera as virtudes que encontra nos outros e os defeitos que encontra em si próprio.

Este dicionário começou como uma publicação ocasional num jornal, tendo sido estas entradas compiladas posteriormente num único volume, em 1911. As definições possuem referências históricas, sociais e políticas, e são, na sua maioria, simultaneamente críticas e cómicas, por vezes numa sinceridade desarmante.

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Quixotesco, adj – absurdamente cavalheiresco, como Dom Quixote. Uma compreensão mais profunda da beleza e da excelência deste incomparável adjectivo é tristemente negada àquele que tem o azar de saber que o nome do cavalheiro se pronuncia Quirróté.

Para além dos conceitos, esta belíssima edição da Tinta da china está carregada de ilustrações de Ralph Steadman que fez, também, um bom trabalho a desconstruir as definições de Ambrose Bierce, cruzando, até, por vezes, a descrição de dois ou mais numa única imagem.

Democracia – Alecos Papadatos, Abraham Kawa Annie di Donna

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Este Democracia foi lançado este ano durante a Amadora BD numa sessão que contou com dois dos autores, Alecos Papadatos e Abraham Kawa, bem como de Francisco Louçã, Pedro Moura e Pedro Vieira. Nesta sessão falou-se não só das ideias por detrás da história presente em Democracia, bem como do processo criativo e colaborativo dos vários autores.

Foi uma excelente sessão de lançamento, não só por apresentar o livro, mas pelo enquadramento crítico com a transposição da história para a actualidade, colocando-se questões bastante críticas tanto do ponto de vista literária como político.

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Colorido e movimentado, Democracia apresenta a cidade grega de Atenas como palco para uma rotação de poder corrupta que sustenta uma força mercenária como forma de manter a superioridade militar. Mas enquanto a memória da maioria é curta e manobrável em discursos de retórica, outros não se deixam enganar e vislumbram o que de errado está a ocorrer naquela cidade.

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Leandro, filho de um mercador, está mais interessado em desenhar e pintar do que seguir os passos do pai,  mas claro que, enquanto jovem, não tem grande poder de decisão para o seu futuro. Com o objectivo de o iniciar nas vertentes de maior responsabilidade do negócio, o pai envia-o numa pequena viagem a negócios – um momento marcante na vida do jovem, não só pela bela rapariga que conhece, Hero, que está prometida ao templo de Delfos, como pelo atribulado retorno em que assiste à morte do pai numa ardilosa chacina de civis.

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Procurando uma forma de se vingar, Leandro viaja para Delfos para ver o oráculo mas cedo percebe que os Deuses só falam para os mais ricos, seleccionados pelos sacerdotes do templo, e que as profecias que dali saem são politicamente suspeitas. As suas ideias vão sendo fortalecidas pelos episódios a que assiste e pelos encontros clandestinos com Hero.

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Ainda que não esqueça os acontecimentos que marcaram o início da idade adulta, Leandro vai perdendo o foco na vingança violenta e é orientado por sonhos que lhe indicam que deverá usar as suas próprias capacidades artísticas para moldar mentalidades em pequenos episódios representativos que molda nas suas peças. Retornando a Atenas o seu novo negócio levam-no a uma falsa época de glória, em que se rodeia de interesseiros e se afasta dos verdadeiros amigos.

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Utilizando uma personagem fictícia bem colocada, num lugar banal que lhe confere uma perspectiva interessante mais próxima do leitor, Democracia baseia-se em vários relatos históricos da época para apresentar uma única versão onde, à semelhança de Leandro, se vai perdendo a visão inocente do poder religioso e político.

Ainda que teoricamente estes estivessem separados, o poder religioso cedia a interesses externos conforme a sua própria conveniência, como forma de controlar populações e de obter, para si mesmo, novas riquezas e influências.

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Por sua vez, o poder político está carregado de corrupção e falácias criminosas que têm como único objectivo a manutenção do seu papel superior, ludibriando o povo e influenciando os seus votos através da ganância e de um jogo de poder sem fim.

Qualquer semelhança com os sistemas actuais não é pura coincidência e em Democracia usa-se uma época distante e um cenário desconhecido para expor uma caricatura da sociedade e, simultaneamente, expor um desfecho esperançado que nos pode levar a várias questões, mas que, na prática, se podem resumir a “Quantas verdadeiras democracias conhecemos?”.

Democracia foi lançado em Portugal pela Bertrand Editora.

 

Eventos: Para ler 100 pretextos

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Palco de múltiplos eventos, inclusivé lançamentos e grupos de leitura, a Leituria continua a surpreender pelas iniciativas em que se envolve, sendo a mais recente Leituria100pretextos, que arrancou dia 02 de Dezembro e se prolonga até dia 15. Pois bem, nesta livraria acabaram-se as desculpas para não ler.

Livros caros, pouco disponíveis, oferta pouco variada? Esqueçam – a Leituria disponibiliza 100 livros para todos os gostos a custo 0. Entre os livros disponibilizados inicialmente encontramos banda desenhada, divulgação científica, livros não ficcionais, livros ficcionais ou juvenis.

Querem saber mais? Na página oficial encontram os detalhes associados a esta oferta, bem como a lista de livros disponibilizados.

 

Eventos: Alejandro Jodorowsky em Portugal

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Que o mais recente filme de Alejandro Jodorowsky, Poesia sin fin, ia estrear em Portugal durante a Mostra de Cinema da América Latina já se sabia. O que é novidade é que o realizador vai estar na sessão para a apresentação do filme em Lisboa, no dia 08 de Dezembro. Para mais detalhes sobre a Mostra de Cinema da América Latina podem consultar a página oficial do evento, onde têm o programa completo.

A Gratidão dos Reis – Marion Zimmer Bradley

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Há muitos anos (15? 20? ) quando li a famosa série fantástica da Marion Zimmer Bradley, As Brumas de Avalon, voltei a acordar para as sagas arturianas, seguindo-se as séries de Bernard Cornwell, Rosalind Miles e Stephen Lawhead. Na ausência de lançamentos de ficção científica, vieram as sagas arturianas e, nesse seguimento, as séries histórias como Primeiro Homem de Roma de Colleen McCullough.

Mas, afinal, o que tinha a saga de Marion Zimmer Bradley para me trazer para o lado das séries fantásticas naquela época? Para além da componente sexual óbvia (a adolescência traz destas coisas) o facto de ter fortes personagens femininas foi, decerto, um factor importante para lhe pegar. Aliás, ainda que não tenha encontrado esta componente noutras sagas arturianas, continuei a torcer pela Morgana (ou Morgan ou Morgaine ou… ), fascinada pela dualidade com que a mesma figura feminina era considerada ora uma bruxa ciumenta e maléfica, ora um ser qual fada, inteligente e mal compreendido. Independentemente da versão, não era, nunca, uma personagem de papel, submissa, sem vontade própria.

Sim, passados estes anos todos, eu sei que a autora está envolvida em vários escândalos horrendos que lançam uma visão totalmente diferente sobre a serie fantástica. Na época, a internet não era uma realidade a que tivesse acesso e, ao menos, livrou-me de associações estranhas à serie. Nem estou de acordo com uma visão que opõe de forma tão absoluta os géneros mas, na época, e comparando com as restantes leituras que tinha feito até então, foi refrescante.

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Bem, voltando ao que interessa. Poucos anos depois de ter lido As Brumas de Avalon, foi lançado este pequeno livro que apresentava um preço demasiado elevado para o tempo de diversão que iria proporcionar. Foi só recentemente, num alfarrabista, por tuta e meia que me decidi a adquiri-lo. O que encontrei foi uma história fantástica de cenário medieval onde as personagens principais são mulheres poderosas e os poucos homens que aparecem são idiotas cegos que se acreditam dominantes por serem incapazes de ver as mulheres por outras coisas que não objectos.

A descrição de mulher poderosa aplica-se logo à personagem principal, um poderoso feiticeiro que afinal é feiticeira, que esconde o género por conta de uma maldição. Chamado ao castelo para servir o rei, depara-se com uma atmosfera impregnada de magia maléfica cuja fonte não consegue identificar. Para descobrir o que está a acontecer conta com o apoio de uma antiga amiga, uma fabricante de velas que usa a magia de criaturas de fogo para realizar o seu trabalho.

Com dragões disfarçados de mulheres, mulheres encantadas contra a sua própria vontade, maldições dispersas que nem saias (acho que todas as personagens femininas tinham algum encantamento) este pequeno livro conta uma história bem disposta onde as mulheres são inteligentes, poderosas e ardilosas. Eis uma leitura engraçada que possui algumas características diferentes se considerarmos que se trata de uma fantasia em cenário medieval.

Saga – Vol.5 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples

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Que Saga é uma série delirante, divertida e pouco previsível na sua sucessão de episódios incríveis já não é novidade. E ainda assim, este quinto volume consegue cruzar os eventos de várias linhas narrativas com consequências inesperadas para todos os envolvidos.

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Sendo Hazel um poderoso símbolo da união de dois povos em guerra há centenas de anos, a família é perseguida por toda a galáxia por uma série de assassinos contratados, príncipes psicopatas e outras personagens menos caracterizáveis mas nem por isso menos assustadores.

Dengo, um homem destruído pela morte do filho, resolve, depois de matar a esposa do Príncipe Robot IV e de levar o bebé, raptar também, Hazel. A reboque vem a mãe, Alana, e a avó. O rapto terá como objectivo fortalecer os rebeldes, uma força de resistência que se revela de pouca moral na forma como pretende atingir os seus objectivos de qualquer forma.

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Por sua vez, Marko fica em terra, desesperado e acaba por se unir ao Príncipe Robot IV na busca das respectivas famílias. Com eles levam Yuma, uma ex-colega de Alana nas séries românticas que a terá levado a consumir uma droga famosa. A influência de Yuma continua a fazer-se sentir e não é de estranhas que se sucedam mais episódios relacionados com a droga.

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Depois de quatro volumes que nos habituaram a uma grande proximidade do núcleo familiar (mais que não seja, geograficamente), este quinto volume levanta várias questões sobre o possível rumo de cada um dos grupos que anda perdido pela galáxia: perseguidos, perseguidores ou simplesmente perdidos em falsas demandas.

Entre caças a dragões gigantes e batalhas com naves espaciais, este quinto volume apresenta uma sucessão de episódios que terminam com máximo prejuízo, numa série de chacinas inesperadas mesmo quando as intenções são boas. Assim se transforma a vida de todas as personagens envolvidas, de forma desastrosa, inesperada e surpreendente. Resta-nos esperar que o próximo volume venha rapidamente!

A série Saga é publicada em Portugal pela G Floy.