Resumo de Leituras – Dezembro de 2018 (2)

208 – Economix – Michael Goodwin e Dan E. Burr – Sem se perder em detalhes mais técnicos, Economix apresenta uma série de conceitos de Economia bem como a sua evolução ao longo dos séculos. Apresenta, também, no final, uma visão interessante das crises económicas, e a forma como uma série de instituições tem agido para <aumentar as grandes riquezas, deixando os restantes cada vez mais pobres;

209 – O.P.A / Business Rules – Philippe Francq e Jean Van Hamme – O segundo volume de Largo Winch apresenta o jovem milionário sob outra luz, mostrando que, até ele, pode ser enganado. A riqueza e posição influente fazem de Largo um alvo preferencial, tanto por mulheres em busca de um casamento proveitoso, tanto por outros que pretendem usá-lo para sair de difíceis situações financeiras;

210 – Humanus – Antologia da Escorpião Azul em que os seus autores publicados constroem pequenas histórias. O conjunto está muito satisfatório e existem boas histórias quer na perspectiva visual, quer na perspectiva narrativa;

211 – Maria e Salazar – Robin Walter – A história centra-se numa emprega da família – uma empregada que terá saído de Portugal durante o Estado Novo por forma a encontrar melhores condições de vida. Para se compreender a história da empregada há que explicar o contexto e, como tal, o autor apresenta alguns pontos chave da política de Salazar.

Rascunhos na Voz Online – Mike Carey

Mike Carey esteve em Portugal por ocasião do evento Mensageiro das Estrelas. A organização disponibilizou condições para que se realizasse a entrevista e aproveitámos a oportunidade para falar com este autor de banda desenhada e ficção científica que tem produzido, também, guiões para filmes.

Mike Carey é conhecido, no mundo da banda desenhada por séries como The Unwritten e Lucifer, tendo, também, adaptado Neverwhere de Neil Gaiman. Já trabalhou para a Marvel e para a DC e tem vários projectos em lançamento. Para além da banda desenhada, Mike Carey é o autor de A Rapariga que sabia demais, história de ficção científica que escreveu em conjunto com o script para cinema que conseguiu concretizar.

Para além de ficção científica e de banda desenhada, Mike Carey publicou, ainda, uma série de fantasia em conjunto com a esposa e a filha (também escritoras) que se tornou bastante conhecida no meio.

Deixo-vos com a ligação para a entrevista com o autor.

Jogos ao Sábado – Pega Bicho

Pega bicho é uma das mais recentes apostas da MEBO para os mais jovens, constituindo um jogo que pode integrar jogadores de todas as idades! Colorido e divertido, em Pega Bicho temos de capturar insectos com uma língua de camaleão (uma língua semelhante aos antigos pega-monstros)!

Mas não podemos apanhar qualquer insecto! O objectivo é conseguir, com a nossa língua de camaleão, capturar o insecto designado pelos dois dados, um que indica a cor do insecto e outro que indica o tipo de insecto. E atenção! Nada de apanhar uma vespa! Estes pequenos insectos penalizam quem os captura!


Após rodar os dados, os jogadores têm de se apressar para localizar o insecto pretendido e capturá-lo antes dos restantes jogadores. Quem conseguir ganha uma moeda e o vencedor é o primeiro a conseguir reunir cinco moedas. Se a dois jogadores já é um jogo engraçado, a quatro ou mais passa a ser uma divertida confusão em que todos tentam, ao mesmo tempo, atirar sob um insecto, entrelaçando as línguas!

Apesar da idade indicada (+ 6 anos) consegue-se jogar facilmente com crianças de menor idade sem qualquer adaptação e rapidamente se tornou um dos favoritos para jogar em família. Ainda que seja um jogo de reconhecimento e destreza consegue ser jogado de forma equilibrada por diferentes pessoas e proporciona grandes momentos de diversão (cuidado com os insectos que podem voar em todas as direções na tentativa de se tentar ser o mais rápido – no final do jogo existiam insectos de cartão do outro lado da sala).

Aconselho vivamente Pega Bicho como um jogo óptimo para integrar os jogadores mais novos nos jogos de tabuleiro, pela sua facilidade de compreensão, diversão e rapidez!

Resumo de Leituras – Dezembro de 2018 (1)

 

204 – Princípio de Karenina – Afonso Cruz – Com menos elementos fantásticos do que é usual em Afonso Cruz, Princípio de Karenina é, também, o seu livro mais linear, contendo uma história contada pela primeira pessoa, um homem que conta a sua vida à filha, sob a forma de carta, mostrando como alguém pode viver toda a vida com medo do exterior;

205 – O Comboio dos Órfãos – Tomo 2Philippe Charlot e Xavier Fourquemin – Cada volume contém duas histórias. Neste segundo tomo detalha-se a vida de Lisa e Joey, mostrando como os interesses de quem adoptou as crianças nem sempre eram os melhores. Ambos fogem das suas novas famílias adoptivas em busca do irmão perdido de Joey;

206 – Injection Vol.1Ellis, Shalvey e Bellaire – A existir uma inteligência artificial, porque pensaria como nós? Na realidade descrita em Injection o mundo das lendas cruza-se com o real criando zonas de circulação impossível. Enquanto alguns tentam terminar com estes pesadelos vivos, outros tentam afastar-se das obrigações que os esperam;

207 – Os segredos de Loulé – João Miguel Lameiras e João Ramalho-Santos – Num futuro distante a humanidade regressa ao planeta Terra para pesquisar sobre o seu passado. Ao regressar encontra um arquivista que se mantém vivo após séculos, graças a elevada tecnologia, e que conta a história de Loulé ao longo dos séculos.

O Comboio dos Órfãos – Ciclo II – Philippe Charlot e Xavier Fourquemin

Há dois anos tive a oportunidade de comentar o primeiro tomo de O Comboio dos Órfãos, que adorei. Trata-se de uma série francobelga lançada pela Arcádia que retrata a vida das crianças abandonadas nas grandes cidades americanas nos anos 20. Estas crianças eram levadas para o interior do território americano onde lhes arranjavam famílias de acolhimento. Mas se algumas famílias tratam estas crianças como membros das suas famílias, noutras são uma espécie de escravos, habitantes de segunda categoria sem condições nem possibilidades de educação.

No primeiro volume (que, tal como este, reúne duas histórias) conhecemos a história de dois rapazes cujo destino foi trocado, sendo que um deles, com esta troca, perde a irmã. Os irmãos, ainda que não sejam órfãos, são abandonados pelo pai que não tem condições para os educar. Apesar da situação trágica em que se encontram as crianças, os episódios são envoltos em pequenos detalhes cómicos e apresentam pequenos diálogos quase inocentes que refletem a visão infantil, menos prática, mas mais pura dos acontecimentos. A dura realidade percebe-a o leitor que sabe algo do destino que os espera.

Neste volume conhecemos, mais detalhadamente, a história de Lisa e de Joey – Lisa, uma rapariga de quinze anos, que percebe muito bem a distribuição dos rapazes e que ajuda a cuidar deles. Não espera é ela, também, ser adoptada, mas não com o intuito de fazer dela uma filha, antes uma noiva – o “dono” de uma cidade mineira quer casar e celebra o futuro casamento na taberna local. Por sua vez, Joey foi adoptado por uma família mexicana que o trata bem, mas vê-se arrancado dessa família pelo desejo de um bêbado em ter alguém que trabalhe para ele – o motivo para que os interesses do bêbado possam ser sobrepostos aos da família mexicana? Ser branco.

Ambos se encontram na taberna onde se celebra o noivado e decidem fugir para Nova Iorque em busca do irmão de Joey. Mas como podem viajar sem dinheiro? Ajudados por alguns que pouco têm, ludibriando a entrada em comboios e pedindo esmolas, conseguem encontrar o homem que distribuiu as crianças e que deveria saber qual o destino que deu a cada um. Na realidade a investigação vai-se tornar mais difícil e carregada de imprevistos.

Oscilando entre as perspectivas de várias personagens e as duas linhas temporais (aquela em que decorre a distribuição de crianças, e uma mais actual em que as crianças se transformaram em idosos), O Comboio dos órfãos é uma série carregada de sentimentos contraditórios. Por um lado, as personagens são retratadas com pequenos exageros, tornando-as caricatas e de fácil empatia, por outro, a situação em que se encontram é psicologicamente pesada. A combinação das duas componentes torna a história sublime e não é por acaso que, após a leitura do primeiro volume em português, adquiri a restante série em francês, voltando agora ao português com este segundo volume duplo (os volumes da edição francesa possuem apenas uma história cada um).

A série é publicada em Portugal pela Arcádia.

Outros volumes da série

Jogos ao Sábado – Tiny Epic Galaxies – Scott Almes

Confesso que dados num jogo de tabuleiro são, normalmente, motivo para me afastar dele – não gosto quando os jogos determinam, de forma absoluta, o avanço de uma personagem ou o prosseguir de um jogo. Mas estou a falar, claro, se dados com valores absolutos, em que o 6 determina um avanço muito superior do que um 1, deixando-se à sorte o que acontece. Talvez por isso, demorei algum tempo a experimentar o Tiny Epic Galaxies, sendo que o que me convenceu foram as várias críticas positivas ao jogo. Neste caso os dados fornecem possibilidades – acções que podem ser efectuadas (como no Castles of Burgundy ou o Rajas of the Ganges); e são uma componente que tem de ser bem gerida, mantendo em aberto várias possibilidades para conseguirmos prosseguir.

Em Tiny Epic Galaxies o objectivo é fazer pontos. Pelo menos mais do que o(s) nosso(s) adversário(s). Como pontuar? Evoluindo o nosso Império, conquistando planetas e concretizando um objectivo secreto. Consoante as acções disponibilizadas pelos dados ganhamos energia ou cultura, lançamos naves, avançamos na conquista de um planeta ou usamos e evoluímos as capacidades do nosso Império. A evolução do Império desbloqueia novas naves e dados permitindo mais acções.

A cada turno lançamos vários dados, sendo que a ordem pela qual os usamos permite combinar e optimizar recursos e, consequentemente, concretizar pontos. Mas um dos elementos mais interessantes é podermos copiar as acções que calham nos turnos dos outros. O podermos realizar a mesma acção enquanto decorre o turno dos outros jogadores obriga a que os jogadores se mantenham atentos durante todas as jogadas e diminui os momentos de pausa.

A cada jogo somos obrigados a pequenas adaptações estratégicas, usando os objectivos privados e os diferentes planetas que conquistamos. Por outro lado, o jogo é equilibrado a 2 ou a 4 jogadores, aumentando o número de planetas disponíveis, sendo que a 4 tem de haver uma melhor gestão das acções que queremos copiar.

Optimizado para caber numa pequena caixa, Tiny Epic Galaxies consegue a proeza de ser um jogo interessante, de rápida preparação (a simbologia é simples e perceptível)  onde se integram facilmente novos jogadores. Pelo seu tamanho tornou-se um dos favoritos para levar em viagem e levou-nos a explorar os restantes Tiny Epic!

(nota final – o jogo tem, também, um modo a solo que não testei)

Watchers – Luís Louro

Na realidade futura apresentada em Watchers um grupo de jovens (Watchers) usa a tecnologia para criar canais que expõem o mundo que os rodeia. Sem filtros, sem análises nem contextos, as filmagens são divulgadas para todos os que as quiserem ver. Começando com episódios fofinhos e caricatos, a busca de mais seguidores e de mais reacções nas redes sociais depressa leva a que sejam filmadas situações mais inusitadas, ridículas, perigosas e violentas.

Sentinel é um dos mais conhecidos Watcher – um jovem anónimo, sem rosto, que consegue captar os episódios mais curiosos e mais populares. Mas a que custo? Sentinel não se remete apenas ao papel de observador e a vontade de aumentar a sua populariedade leva-o a provocar situações de conflito com as quais alimenta o seu canal.

De interferir a provocar, Sentinel passa a tentar exercer justiça pelas próprias mãos, mostrando-se como uma espécie de justiceiro, omnipotente, que tudo vê e tudo pode fazer. Mas não por muito tempo. As suas intervenções já provocaram o envolvimento da polícia, e pouco falta para ser descoberto.

Watchers, de Luís Louro, permite muitas leituras. Primeiro, o mundo futurista que retrata é tão deprimente quanto o nosso, carregado de jovens sem futuro ou sem destino, que não sabem o que fazer da sua vida e como ultrapassar as contrariedades com que se deparam. Por outro, trata-se de uma crítica à sociedade actual, que se centra, excessivamente, nas redes sociais, e para as quais se projecta uma realidade e para a qual se criam expectativas.

 

Em busca de comentários, aceitação e atenção, há quem perca a noção do que é certo e errado, e exponha a privacidade – a sua e a dos outros. Por outro lado, a possibilidade de ter um feedback imediato leva ao à divulgação, sem filtros nem contexto, de notícias e interacções, por uma única perspectiva, viciada. As notícias passam de informação imparcial a pedaços de novelas quotidianas, cedendo-se aos desejos mais primitivos de sexo e sangue.

Sentinel produz, na prática, um misto de reality show e programa noticioso, elevando o seu canal a milhares de visualizações. Mas a que custo? Até que ponto o que retrata é real ou provocado? Da mesma forma, se pode transpor esta crítica para o que vemos nas redes sociais – divulgações de perspectivas viciadas, notícias que misturam a verdade com o ficcional, desinformando ao invés de informar. Watchers leva esta escala esta componente, levando-a ao extremo, num enredo bem composto, contínuo,  lógico e coerente.

Watchers foi publicado em Portugal pela Editora Asa e possui duas versões, uma com título a branco e outra com título a vermelho, duas versões que apresentam finais diferentes. A edição que li e comentei é a vermelha. De realçar, também, que a par com as notícias de Sentinel são apresentados alguns comentários dos seguidores, sendo que alguns dos seguidores ficcionais possuem nomes associados a personalidades reais da banda desenhada.

Rascunhos na Voz Online – Inês Garcia e Tiago Cruz

 

Os autores de Sintra, Inês Garcia e Tiago Cruz, falaram dos seus projectos na banda desenhada, bem como das suas principais influências e à forma como trabalham a imaginação para produzirem histórias de horror fantástico. Sintra foi publicado pela Escorpião Azul. Deixo-vos a ligação para o programa.

Revival – Tim Seeley e Mike Norton – Vol.2

Revival centra-se numa zona dos Estados Unidos da América em que a morte desapareceu. Ou melhor, as pessoas continuam a sofrer acidentes graves, mas os seus corpos recuperam em escassos segundos e a vida continua. Alertadas para tal fenómeno, as autoridades americanas colocam a região em quarentena – trata-se de um segredo que pode colocar o mundo em pânico.

Para as pessoas da região a vida quase que continua como anteriormente. Quase. É chocante ver alguém surgir ileso do seu funeral, é uma fonte de medo ver alguém sofrer um acidente e retomar a vida como se nada fosse. E o medo provoca violência. Sucedem-se casos macabros, de exportação ilícita de partes dos corpos dos que revivem (para serem consumidos) e de agressões violentas. A humanos e a animais.

Ao longo deste volume revelam-se mais alguns detalhes sobre o fenómeno, e sobre umas figuras fantasmagóricas que seguem os que reviveram – figuras que tentam capturar novos corpos, que conseguem gemer algumas palavras, mas que fogem a confrontos com os humanos.

Enquanto o mistério se adensa, uma das mais conhecidas policias da região é levada pelo FBI a uma grande cidade, a fim de perseguir alguém que terá conseguido sair da zona de quarentena – alguém que enloqueceu com as recentes circunstâncias e que se deixa comer por aqueles que procuram a eternidade.

Este volume termina com um fabuloso cross over com a série Tony Chu, em que o conhecido investigador com capacidades associadas à comida é levado à região para uma investigação peculiar sobre pedaços de cadáveres humanos. Trata-se de um episódio mais cómico em que reconhecemos as características destas personagens.

Outros volumes da série

 

Princípio de Karenina – Afonso Cruz

Princípio de Karenina é bastante diferente dos restantes livros de Afonso Cruz que li.  E li bastantes. É o menos fantástico (ou com elementos fantásticos). É o menos deambulatório, deixando de oscilar entre personagens, curiosidades e tempos diferentes, para contar a história de uma única personagem, numa sucessão temporal sem saltos.

A personagem em si, é peculiar – e é pela voz da própria que começamos por acompanhar a sua infância, ver como faz amigos e inimigos e como se relaciona. Mas, ainda que tenha um pé lesionado, não e isto que mais o distingue. Antes a forma como o pai se relaciona com o exterior e a forma como o contamina.

O meu pai, sei disso hoje, resumia-se a uma palavra: medo. Toda a aversão ao estrangeiro, ao inusitado, à novidade, ao que está além, era apenas um pânico visceral do mundo, que ele disfarçava transformando esse medo trágico em ética conservadora, em solidez moral. Parecia seguro e inabalável, mas é assim que o medo se veste para sair à rua, para ir à missa, para comentar o tempo e as doeças das vides e o trabalho do lagar.

O exterior é, assim, imoral. Não só o estrangeiro, mas o que se encontra para além da vila. O que está fora de casa. Tudo o que é novo, estranho, diferente. Tudo o que está para além da casa familiar. É indigno. Pouco sério. Contaminante. Assim se prenuncia o pai. Assim cresce o filho, isolando-se, quebrando esse sentimento por raras vezes, com aquela curiosidade típica do crescimento que é quebrada por completo.

– Nunca saia do seu país, menino, nunca saia de casa mais do que o estritamente necessário, que é perigoso – Voltou a fechar os olhos e a levar o polegar e o indicador às pálpebras. – É muito perigoso – sublinhou, com os olhos fechados. – Se precisar de alguma coisa de fora, mande vir pelos correios. Sente-se à lareira, que não há nada melhor, nem mais importante.

Este discurso e postura há-de marcar o crescimento do homem que narra a história. Mas há-de ser, precisamente do estrangeiro, que vem a novidade e aquilo que quebra este cinzento, aquilo que irá dar outros sentimentos, menos cinzentos à sua existência. Até lá, o homem conta como se formou, como fez um grande amigo e dele se afastou, incapazes, os dois, de ultrapassar as diferenças que vão surgindo ao longo da vida. Incapazes de se entender (ou de o tentar) – um deles fixo numa paixão, ou outro cego a este sentimento.

Princípio de Karenina é, assim, um livro mais ligado à narrativa de uma história, um livro que fala do surgir do isolamento e da passividade em procurar a felicidade. Mas, também, do medo do que é diferente, do receio em conhecer e no refúgio do que é caseiro – elementos que levam ao arrastar de decisões e ao definhar das pessoas (e, neste caso, das personagens).

De leitura fluída, agradável, Princípio de Karenina fixa-se no seu fio condutor (tal como a personagem se fixa ao conhecido) para tecer uma história de arrependimento e obsessão, uma história de quebra temporária que demonstra que o que vale a pena são os fugazes momentos de fuga ao conhecido.

Outros livros do autor

 

Almanaque – Curtas de BD – André Oliveira e Vários Artistas

Almanaque, a mais recente aposta da Bicho Carpinteiro, reúne várias histórias criadas por André Oliveira na qualidade de narrador, e por vários desenhadores. Algumas destas histórias foram criadas para a Cais, publicação para a qual André Oliveira produziu regularmente durante algum tempo, e outras são inéditas.

Tendo sido criadas em alturas diferentes com objectivos distintos, as histórias oscilam em temas e tons criando uma amostra bastante diversa das possibilidades narrativas compostas por André Oliveira. O volume abre com a arte de André Diniz, e passa à de Rui Lacas (ambas facilmente reconhecíveis em estilo), seguindo-se uma reformulação moderna de Volta ao Mundo em 80 dias (com desenhos de Phermad).

Entre as histórias encontramos narrativas de ficção científica (com uma invasão alienígena que critica a paixão dos humanos pelos desportos, ou com um primeiro contacto embaraçoso), narrativas cómicas (onde se retratam as impossibilidades de execução de várias tarefas por um T-Rex ou um dentes de sabre, por exemplo) e de fantasia (com velhos e novos deuses).

Não faltam os temas mais mundanos, como a diversidade da vizinhança, a fanfarronice ou a velhice. Existe espaço para a morte e para a saudade, para a confidência e para a família. Explora-se a cidade e o campo. O passado e o futuro. Cruzam-se conceitos e ideias, ironiza-se em tiradas imaginativas, recolhe-se o pensamento em perspectivas mais íntimas.

Tudo isto, em pouco mais de 60 páginas, muito bem aproveitadas, em que André Oliveira explora vários tons e temas, acompanhado por diversos artistas que ajudam a conferir, a cada história, uma aura muito própria. Tal como estados de espírito, estas histórias oscilam e fazem oscilar humores, aconselhando-se, por isso, que a sua leitura se faça aos solavancos. Uma história de cada vez.

Entrevista com André Oliveira

Outras obras do autor

O Feminino no Fantástico

Antologia de contos de ficção científica e fantástico onde o corpo da mulher tem papel fundamental

Desde o passado Fórum Bang! (no qual participei, com a Inês Botelho, numa palestra sobre a mulher na ficção especulativa) que ando com vontade de espelhar alguns pensamentos na forma escrita. Sim, a representação da mulher tem-se alterado nos últimos anos. Porquê? Será a moda do politicamente correcto? Bem, mais do que uma moda, a minha percepção é que resulta da pressão do próprio público, farto do mesmo.

 

 

 

 

 

 

 

Porque digo isto? Bem, dou-vos como exemplo bastante óbvio as nomeações para os prémios Hugo. Para quem não está a par, aqui há uns anos surgiu um grupo de escritores de ficção científica revoltado com o afastamento dos protagonistas ou escritores tradicionais, brancos hetero. Estavam a ser nomeados, e premiados, sucessivamente, autores diferentes deste padrão original.

 

 

 

 

 

 

 

Este grupo de autores, designado como Sad Puppies, não só fizeram campanha pela ficção científica de homens para homens (ocidentais e hetero, claro) como tentaram concentrar votos em obras específicas. O resultado? Conseguiram algumas nomeações mas não o prémio, existindo algumas categorias em que o resultado foi até “sem premiado”. Pelo meio ainda houve uma nomeação curiosa a Chuck Tingle, um autor de pornografia homossexual de ficção científica, que aproveitou para parodiar o destaque, numa obra curiosa.

 

 

 

 

 

 

 

Bem, julgo que a resposta do público a este movimento demonstra que a verdadeira pressão sobre a indústria literária não é tanto pelo politicamente correcto, mas pela vontade, do público, em ver diversidade nas personagens, e ler obras que representem pessoas e não os típicos estereotipos de heróis, há muito ultrapassados. Personagens que se parecem com pessoas, densas, variáveis e, sobretudo, representativas da realidade que nos rodeia. Representativas da diversidade.

 

 

 

 

 

 

 

Não estou a falar, portanto, só de uma representação diferente do feminino, mas, também, uma diferente representação do masculino. Trata-se de criar histórias mais equilibradas em termos de papéis – nem as personagens femininas têm de ser ridiculamente fortes e destemidas para poderem ser protagonistas, abdicando de sentimentos para poderem ser tomadas a serio; nem as personagens masculinas têm de ser a personificação da certeza e da autoridade, podendo ser apenas pessoas com as suas dúvidas, incertezas e sentimentos.

 

 

 

 

 

 

 

Claro, que na componente feminina, outras questões de levantam. O uso do corpo como elemento para apimentar uma história (neste detalhe já existem exemplos que usam o corpo feminino e masculino) ou o consentimento no uso desse corpo. Não é, totalmente de estranhar que as histórias tradicionais, como as da Disney, os contos de fadas (sobretudo as mais recentes versões Disney), de princesas indefesas e passivas, tenham de ser revistos. Habituámo-nos a aceitar, sem questionar, os papéis que são concedidos às mulheres.

 

 

 

 

 

 

 

Detalhando. Se pensarmos bem, que tipo de homem encontra uma mulher, morta ou inconsciente, no meio de uma floresta e a beija? Que papel tem a mulher na escolha do seu parceiro , se se pressupõe que o príncipe que a salva a possui – sem se conhecerem previamente, a princesa passa de cativeiro a cativeiro. Numa gaiola dourada, claro. Mas nem por isso menos questionável. Que tipo de mensagem passa uma história onde um príncipe não reconhece a mulher pela qual se apaixonou e a procura pela medida de um sapato?

 

 

 

 

 

 

 

Sim, estas histórias reflectem a época em que foram construídas. Mas pouca ou nada se tem feito para as adaptar à realidade que nos rodeia. Quantas características ditas femininas não resultarão das expectativas que nos rodeiam? E o mesmo se pode dizer dos rapazes que não podem expressar sensibilidade ou sentimentos sem serem gozados. As personagens têm de evoluir – e não só as femininas. Deixo-vos com esta provocação. E, espero, algo para pensar. E debater.

Novidade: Imortal Punho de Ferro Vol.3

A G Floy anuncia o lançamento do terceiro volume de O Imortal Punho de Ferro, finalizando a fase escrita por Fraction e Brubaker. Este volume possui extras como a primeira história de Punho de Ferro (por Roy Thomas, Len Wein, Gil Kane e Larry Hama) bem como a história da origem da personagem (para quem viu a segunda temporada da série na Netflix, vão perceber onde é que surgiram todos estes conceitos!)

O último volume desta fase de O Punho de Ferro (que desvenda o segredo da Oitava Cidade Celeste) está previsto para 2019.

Houve sessenta e seis homens e mulheres que atingiram o estatuto de Punho de Ferro ao longo das eras – sessenta e seis homens e mulheres de grande coragem e habilidade, com enorme capacidade de sacrifício, que se interpuseram entre a humanidade e as forças tremendas do Mal. Neste volume, encontrarão quatro contos retirados do grande Livro do Punho de Ferro, as histórias de quatro de entre eles – Wu Ao-Shi, a Rainha Pirata da Baía de Pinghai; Bei Bang-Wen, o feroz Punho de Ferro do ano 1860; Orson Randall, o Punho de Ferro da Era Dourada dos Pulps; e Danny Rand, o Punho de Ferro de hoje. Encontrarão também a conclusão da saga iniciada nos volumes anteriores, e, como bónus… A Origem de Danny Rand, o comic que lançou a personagem, pelas mãos de Roy Thomas, Len Wein, Gil Kane e Larry Hama!

Dois dos maiores argumentistas da actualidade, Matt Fraction (Hawkeye, Criminosos do Sexo) e Ed Brubaker (Capitão América: Soldado do Inverno, Fatale, Velvet, The Fade Out) juntam forças com uma mão-cheia de artistas, entre os quais David Aja, Leandro Fernandez, Nick Dragotta, Travel Foreman, entre outros, para nos contar as histórias de Punhos de Ferro dos tempos passados, uma saga de artes marciais como nenhuma outra, que se estende ao longo de mil anos!

Este volume encerra a fase escrita por estes dois nomes maiores dos comics, Ed Brubaker e Matt Fraction, que mudaram a mitologia do Punho de Ferro de maneira definitiva e convincente, criando todo o universo das Cidades Celestiais e dos Punhos de Ferro do passado. Inclui algumas histórias soltas dos Punhos de Ferro que antecederam Danny Rand, e como bónus reedita a origem da personagem, pela equipa original de Roy Thomas, Len Wein, Gil Kane e Larry Hama. E, embora a saga fique quase, quase completa… teremos um quarto volume de Imortal Punho de Ferro em 2019, que resolverá o mistério da Oitava Cidade!

Conteúdo:

Immortal Iron Fist #7 e #15-16
Immortal Iron Fist: Orson Randall and the Green Mist of Death
Immortal Iron Fist: The Origin of Danny Rand.

 

Rascunhos na Voz Online – Sugestões

Esta semana recomendo livros, banda desenhada, eventos e jogos de tabuleiro! De realçar, claro, a presença de Mike Carey em Portugal no Mensageiros das Estrelas, evento que está a decorrer na Faculdade de Letras na Universidade de Lisboa (evento gratuito). Desejo que estas recomendações vos tragam bons momentos de lazer!

Marcha para a Morte – Shigeru Mizuki

Marcha para a Morte é  bastante diferente de outro livro do autor, Nonnonba – mas ambos possuem elementos verídicos e biográficos. Se, em Nonnonba, o autor se remete à infância numa zona rural japonesa onde as criaturas sobrenaturais fazem parte do quotidiano, conferindo uma aura de fantástico a tudo o que rodeia as personagens, em Marcha para a Morte acompanhamos uma companhia de infantaria na Segunda Guerra Mundial, uma companhia da qual o autor fez parte.

Misturando elementos históricos com ficcionais (a parte final da história afasta-se dos verdadeiros acontecimentos) Marcha para a Morte consegue o feito de intercalar mortes com episódios cómicos pelo seu absurdo – os soldados são tratados como carne para canhão, elementos sem grande valor, e as decisões militares reflectem esta perspectiva.

Na prática é esta falta de consideração pela vida do outro que acaba por fazer com que más decisões militares sejam tomadas, levando os soldados para a carnificina sem que existam sérias razões estratégicas e colocando a vontade de morrer com honra de um graduado como elemento principal de decisão.

Apesar do ambiente claustrifóbico (a história passa-se numa ilha quase paradisíaca, mas o tipo de terreno proporciona algumas surpresas desagradáveis, seja sob a forma de tiros perdidos, seja sob a forma de predadores naturais) e das circunstâncias pesadas que levam os soldados a este local, o autor consegue intercalar as sucessivas desgraças com elementos caricatos que aligeiram o ambiente – seja o episódio de uma companhia inteira visitar uma carrinha de prostitutas antes de partirem, seja a forma que alguns soldados arranjam para terem o seu fornecimento pessoal de mantimentos.

Aqui os soldados são as principais personagens, o seu quotidiano desgraçado entre as responsabilidades que lhes cabem (como lavar a roupa interior dos oficiais) e a morte à espreita. Há quem morra engolido por um crocodilo ou a pescar um peixe, há quem desapareça em circunstâncias nublosas – e tudo isto antes de enfrentarem qualquer inimigo humano.

Os mal tratos são comuns. Entre murros e chapadas dos oficiais a comida escasseia e os soldados sentem-se duplamente perdidos – perdidos porque não desejam combater nem compreendem o que os coloca naquele local, perdidos porque sentem-se alvo de escárnio e desconsideração, perdidos porque as ordens mudam constantemente e eles, enquanto jovens, não possuem perspectiva alguma sobre os próximos momentos.

Marcha para a Morte é um livro sobre a Guerra. Mas acima de tudo, um livro que nos mostra o quão absurda é a guerra, desperdiçando a vida dos soldados por estratégias mal definidas, levando adolescentes imberbes a enfrentar outros imberbes adolescentes, uma constante falta de consideração pela vida – e para quê?

Marcha para a Morte foi publicado em Portugal pela Devir.

Outros livros do autor

Resumo de leituras – Novembro de 2018 (3)

200 – Tudo isto existe – João Ventura – Colectânea de histórias de João Ventura que espelha a diversidade de projectos em que se envolve, contendo histórias de fantasia e de ficção científica, jogos de palavras e de ideias que ecoam elementos quotidianos;

201 – Almanaque – Curtas de BD – André Oliveira e vários desenhadores – Conjunto de histórias em que André Oliveira é o narrador e os desenhadores são diversos, cada um com um estilo que se adequa bem a cada história. Como sempre, um bom trabalho de André Oliveira que aqui demonstra histórias tão diversas quanto os estados de espírito;

202 – Marcha para a Morte – Shigeru Mizuki – Estamos habituados a ver a segunda guerra mundial pela perspectiva ocidental. Neste caso acompanhamos a perspectiva japonesa de acordo com o próprio autor, que, parcialmente, narra a sua própria experiência. Demonstrando os elementos idiotas da chefia e como esta se encontrava desorganizada e agarrada a valores que estrategicamente não funcionam, Marcha para a Morte consegue a proeza de intercalar a morte com elementos cómicos e absurdos;

203 – Revival – Volume 2 – O segundo volume adensa o mistério em torno da cidade em que ninguém morre, demonstrando haver outros elementos sobrenaturais em causa. O volume termina com uma pequena história que cruza este Universo com o de Tony Chu, aproveitando os poderes deste investigador para resolver um importante caso na cidade.

Ficção especulativa – Novidades

Depois de muito aconselhar Dormir com Lisboa de Fausta Cardoso Pereira, é a vez de Rui Zink  em O Gosto dos Outros. O Gosto dos outros que decorreu na Gulbenkian e deu espaço a que várias personalidades discutissem as suas listas de gostos para inspiração, provocação e discussão.

Estão abertas as submissões para Antologia Queer, uma antologia com pessoas queer em diversos papéis mas que sejam mais do que ícones, pessoas que ultrapassem estereotipos e que possam ser apenas pessoas. Quer dizer, personagens. Interessados? A Antologia Queer está a ser organizada pela Imaginauta.

Mensageiros das Estrelas está de volta! Trata-se de um evento académico que decorre na Facultade de Letras da Universidade de Lisboa e que se dedica à ficção especulativa, trazendo alguns autores conhecidos de ficção científica ou fantástico (como Geoff Ryman). Este ano o autor convidado é Mike Carey que dará uma palestra no dia 30. Para mais informação sobre o evento podem consultar a página respectiva.

Tudo isto existe – João Ventura

João Ventura tem sido um dos prolíferos autores da ficção especulativa portuguesa (ficção científica e fantasia) produzindo com regularidade histórias para várias antologias portuguesas e, até, brasileiras. Entre o realismo mágico com toques de absurdo, ficção científica (incluindo o steampunk) e a fantasia “a sério” João Ventura é um autor consistente na qualidade que entrega e que publicou, agora, esta colectânea de histórias pela Editorial Divergência.

Dada a diversidade de histórias pela qual é conhecido, não é de estranhar, que esta colectânea a espelhe, contendo quatro diferentes secções: Curtas, Tudo isto existe, Fábulas académicas e Hiper-curtas. Esta separação pouco tem a ver com os vários géneros e mais com uma tentativa de agrupar, em formatos uma linha que os una.

Pequena peça de teatro apresentada no Fórum Fantástico baseada num conto de João Ventura que se encontra nesta colectânea

Na sinopse vemos a comparação a alguns autores como Borges, Calvino ou Córtazar, autores conhecidos pelos jogos de palavras e de ideias. A razão da comparação é justificada logo no primeiro conto, Crónica breve das 64 casas, uma história curta que aproveita o tabuleiro de xadrez para tecer uma pequena mas irónica subversão política.

Entre as vírgulas de Saramago e a vergonha perdida que não se encontra nos perdidos e achados, encontramos A tertúlia dos que não viajam, onde vários dos membros se reúnem para falar das viagens que nunca quererão fazer falando das cidades que nunca hão-de visitar. Com pequenos toques em Turing, pedras falantes e fados, vão-se desenrolando mais histórias curtas.

Apresentação do livro por João Ventura e dos editores Pedro Cipriano e Rogério Ribeiro. A apresentação decorreu no Fórum Fantástico 2018

As referências que deixei acima são apenas uma pequena parte dos contos carregados de imaginação de João Ventura, contos que podem pegar em elementos triviais do quotidiano e os apresentam sob nova luz, jogando com palavras e conceitos, dando vida ao inimaginável. São, sobretudo, histórias curtas de composição elegante que usam o mínimo de palavras, numa optimização refrescante que levam o leitor a estar atento a cada passagem.

Várias destas histórias curtas encontram-se também na página do autor Das Palavras o Espaço. A coletânea Tudo Isto Existe foi publicada pela Editorial Divergência.

Andromeda – A House on the Horizon – Zé Burnay

Desconhecia este projecto até o ter visto à venda no Amadora BD. Peguei-lhe por curiosidade, mas comprei-o pela qualidade do desenho – a preto e branco, mas usando texturas para dar toda a “cor” necessária. Já em casa, o que encontrei foi uma parte de um Universo maior, com traços apocalípticos e elementos míticos, um mundo sobre o qual pretendo ler um pouco mais (e pela campanha do Indiegogo do autor, poderei).

Um homem deambula num mundo onde se denotam os restos de uma civilização perdida (com monumentos e outros elementos em visível corrupção) e se encontram, constantemente, monstros com componentes humanos – como aves de cabeça humana. Monstros predadores com uma aparente humanidade que vão sendo repudiados pelo homem e pela força das suas armas.

A deambulação do herói termina numa casa aparentemente acolhedora. Uma casa onde restabelece forças, e onde encontra outros que o acolhem,  mas que esconde um forte segredo e de onde terá de fugir para ganhar nova perspectiva.

Andromeda tem força, sobretudo, na compomente visual – não só pela qualidade do desenho, mas pela projecção de página, que consegue transmitir, sem palavras, introspecção e acção. A componente narrativa é menos simples do que parece numa primeira passagem, sem palavras, mostrando alguém que deambula naquele mundo corrompido e capaz de corromper.

Andromeda é uma edição de autor de Zé Burnay, que pretende, agora, publicar outras histórias deste mundo num formato de melhor qualidade, estando, para isso, em curso uma campanha de financiamento na Indiegogo.

Essex County – Jeff Lemire

Não é fácil falar de Essex County. Estamos a falar de uma obra final de quase 500 páginas, que alterna entre gerações de famílias e apresenta os relacionamentos sob várias perspectivas, em diferentes épocas. O cenário é desolador. Uma localidade rural de vivência dura e fria à qual as famílias se submetem ao longo de gerações. Já o resultado é esmagador – envolvente, cativante mas, também, incómodo. O tipo de incómodo que faz parte de uma grande obra.

O que causa incómodo em Essex County? Os relacionamentos difíceis entre familiares por desentendimentos ou acidentes, a incapacidade de ultrapassar os maus momentos e refazer relações – a cada nova componente sente-se um afastamento que não se compreende até à apresentação de episódios adicionais. Existem segredos profundos, segredos que marcam mas nem sempre podem ser revelados.

Este volume, que compila a trilogia Essex County (Tales from the farm, Ghost Stories e The Country Nurse), começa com a história de um rapaz que vai viver com o tio, com o qual tem uma relação distante, após falecer a mãe. Nem o tio está habituado a crianças, nem o rapaz está susceptível a uma nova autoridade, refugiando-se nas histórias de super heróis e vestindo uma capa para tecer as suas fantasias. Na loja de banda desenhada estabelece um estranho relacionamento com o funcionário, um ex-jogador de hóquei que ficou mentalmente incapaz após um acidente.

Alternando entre os momentos finais da mãe, a realidade cinzenta, e as grandes aventuras imaginadas pelo rapaz, esta primeira história está carregada de elementos sobre o relacionamento de todas as personagens – uns subtis, outros mais visíveis, mas que em conjunto nos fazem compreender a sua dinâmica.

A segunda história centra-se em dois irmãos que jogam hóquei, sendo que um deles consegue uma carreira profissional em melhores clubes. O outro irmão, o que ficou para trás e que teve de enveredar por outras carreiras, recorda, agora idoso, o companheirismo inicial, quando ainda jogavam no mesmo clube, e o conhecer a namorada do irmão – evento que irá marcar o relacionamento entre ambos numa sucessão de eventos inevitáveis mas que decepcionam o leitor pelo carácter dos acontecimentos.

Na terceira parte acompanhamos a vida da enfermeira que vai fornecendo mais detalhes sobre a vida de todas as personagens anteriores, sabendo o segredo de família do rapaz que vive do tio, e cuidando do irmão, agora velhote. Simultaneamente, conhecemos a história da avó da enfermeira, uma história bastante trágica e que marcou o passado daquela localidade.

Existem, claro, temas recorrentes, como o hóquei, uma prática desportiva comum que é, também, forma de fugir de um quotidiano e caminho de glória e dinheiro. Ou o quão desoladoras e frias são as regiões onde decorre a história fazendo com que seja igualmente duro o dia a dia.

Já as famílias possuem segredos, alguns que causam quebras nem sempre ultrapassáveis, pontos de ruptura que afastam irmãos e pais. Estes segredos são conhecidos por poucos e apenas a sua revelação consegue justificar a forma como os relacionamentos decorrem.

As desgraças são motor narrativo: acidentes de carro e de desporto, lesões mentais e físicas, mortes prematuras por cancro ou incêndios, traições físicas ou morais. E não são tão constantes quanto nos podem parecer, mas porque acontecendo uma desgraça na vida do indíviduo, o marca, passando a ser foco constante do pensamento do próprio ou daqueles que o rodeiam, e provocando fortes alterações comportamentais.

São todos estes elementos, os segredos familiares, as desgraças passadas, os difíceis relacionamentos que dão dimensão à vida das personagens retratadas em Essex County. As personagens ultrapassam a ficção e passam a ser pessoas com passado e densidade, pessoas que, tal como nós, se encontram e desencontram.