Monstress vol.2 – Marjorie Liu e Sana Takeda

O primeiro volume tinha-nos apresentado um mundo onde vinga uma espécie de racismo para com os seres que cruzam características humanas com as de outros animais. Está, assim, em curso, um extermínio que tem, por base, (como não podia deixar de ser) o medo.

É neste contexto que Maika (uma rapariga com características de lobo que alberga um antigo Deus no seu corpo) procura uma ilha onde a mãe terá estado e que será decisiva para descobrir um pouco mais sobre os seus poderes e a sua história familiar.

Mas não será uma viagem fácil. A ilha está assombrada por uma mitologia poderosa que leva a tripulação do barco onde viaja ao nervosismo e à revolta. Alguns elementos entram em confronto directo e Maika terá de proteger os dois elementos que viajam com ela – uma pequena menina-raposa e um gato falante que pertencerá à espécie responsável por manter o arquivo histórico.

Quando finalmente avistam a ilha, Maika terá novas provas para superar – aplicar astúcia com o poderoso barqueiro que guarda a ilha, encontrar quem pretende numa cidade de ilusão, e saber distinguir entre as verdades e as falsidades que lhe contam. No meio de todos estes elementos há-de descobrir um pouco mais sobre a mãe e sobre as suas origens.

Não se deixem enganar pelo aspecto fofo das personagens. O ambiente é pesado, carregado pelas perdas familiares e a dureza da sobrevivência a custo de mortes, um fardo que Maika carrega tentando afastar-se de tudo e todos. O poder que a transforma é também o poder que a consome, algo que terá de aprender a dominar se quiser sobreviver.

Contendo elementos ficcionais diversos, com uma forte mitologia, suportada pelos relatos históricos dos gatos que enquadram a sociedade actual, Monstress é uma série visualmente avassaladora na forma como sobrepõe o monstruoso (presente sobre a forma de monstros e planos maquiavélicos) à inocência das personagens (que se assemelham a crianças, valentes e leais).

Este segundo volume acaba por ser mais focado na acção presente de Maika, alargando-se para o seu passado apenas para pequenos detalhes necessários à história. São, também, menos as páginas dedicadas à história daquela sociedade. Depois do primeiro volume, este dedica-se mais à acção, ainda que se permita algum espaço à introspecção.

A série é da Image e, em Portugal, está a ser publicada pela Saída de Emergência, estando já programado o lançamento do segundo volume pela editora portuguesa.

Novidade: Jessica Jones Alias Vol.4

Está nas bancas o quarto volume que completa a história que mais influenciou a série de TV da Netflix. Neste volume conta-se a origem secreta desta personagem peculiar que usa as suas características especiais para resolver casos complexos envolvendo outras personagens, também peculiares:

Jessica Jones é uma detective privada implacável, e o submundo negro do Universo Marvel é o seu território, como vimos em três volumes de casos complexos, muitos dos quais envolveram super-heróis. Mas nem sempre foi assim.

Em tempos, Jessica foi ela também uma super-heroína, e aqui, pela primeira vez, descobriremos os seus segredos – como ganhou os seus poderes, como se tornou numa heroína, e o momento terrível e negro da história do Universo Marvel que mudou a sua vida para sempre. Com muitos convidados especiais, desde o Homem-Aranha e Jean Grey, aos Vingadores e ao temível Killgrave.

O último volume da primeira série de Jessica Jones, ALIAS, é geralmente considerado o melhor da saga, e revela finalmente as origens dos super-poderes da nossa heroína, juntando todas os fios narrativos dos volumes anteriores numa só saga, um verdadeiro “romance gráfico” em vez de uma série de comics, em que confluem inúmeros géneros: super-heróis, crime e policial, romance… Na primeira parte do volume (números #22-23) Michael Gaydos consegue um verdadeiro triunfo, ao apresentar-nos um flashback e ao transportar-nos para o passado de Jessica com um desenho completamente diferente do normal, que evoca o estilo Marvel antigo (assinalado por uma simples menção de “after DITKO!”), contando as origens dos poderes de Jessica e a sua vida no mesmo liceu em que foi colega de Peter Parker. Depois desta introdução, entramos no cerne da história, o Homem-Púrpura, e o que ele fez a Jessica… Mas deixemos que o leitor descubra tudo sozinho, neste volume cujas histórias foram nomeadas para dois Prémios Eisner em 2004, Melhor Série em Continuação e Melhor Arco de História.

 

A desobediência civil / Defesa de John Brown – Henry David Thoreau.

Eis um texto curioso considerando a época em que foi escrito. Um texto subversivo em que o autor instiga à rebeldia e ao não cumprimento de algumas obrigações como cidadão. Esta seria uma forma de mostrar quebra em relação ao Estado, não o reconhecendo como instituição suprema – não só porque algumas leis não são justas, mas porque parece agir de uma forma mecânica que não dá espaço à evolução legal.

Não será possível que o indivíduo tenha razão e que o governo esteja errado? Aplicam-se leis pelo simples facto de terem sido feitas? Ou porque um certo número de pessoas as declararem boas, quando não o são de facto?

Questiona-se, sobretudo, o sistema legal e a sua cegueira – lá porque alguém redigiu uma lei, não quer dizer que esta seja justa e deva ser aplicada. Questiona-se, acima de tudo, o sistema de escravos, base de sustentação de um sistema económico que, na prática, é a verdadeira razão para se manterem, sob clausura, seres humanos.

Este texto, bem como o que se segue, no mesmo livro, Defesa de John Brown, terá tido raízes, não só na ideia de que as leis servem, por vezes, propósitos menos nobres e parcelas menos pobres da sociedade, mas também na prisão de John Brown, um homem que, tendo passado a vida longe das armas, não hesita em pegar numa para defender a fuga de escravos.

Chamado de loucos por muitos, menos nobres e rectos, John Brown, com os seus filhos e outros homens que alistou na sua causa, defendem, contra o estado, os ex-escravos, homens que fugiram dos seus donos e que procuram a liberdade.

Louco, não porque os princípios que expressa não sejam reconhecidamente correctos pela maioria, mas louco por ousar desafiar a autoridade ao invés de permanecer no conforto do lar, concordando silenciosamente com o texto escrito por alguém que defende o fim da escravatura.

Os homens, habitualmente, vivem segundo uma fórmula, e sentem-se satisfeitos desde que a ordem legal seja respeitada; neste caso, porém, voltaram aos preconceitos originais, dando-se assim um ligeiro reavivar da antiga religião.

De louco passa a julgado e condenado, morto pelo estado na aplicação do sistema legal existente, ainda que o seu discurso atordoe a mente de muitos que com ele concordaram.

Este pequeno livro foi publicado pela Antígona.

Novidade: Marvel especial vol.2 – O velho Logan

O segundo volume da série mensal Marvel Especial já se encontra nas bancas! Cada um dos volumes é dedicado a uma personagem, sendo que este segundo se centra em Logan. Deixo-vos a sinopse, detalhe do conteúdo e algumas páginas:

Bem-vindo às terras desoladas: um domínio do Mundo de Batalha onde os heróis foram dizimados e os vilões dominam a seu bel-prazer. No meio deste caos, um homem pode fazer a diferença. Um guerreiro resiliente que já foi o maior de todos os mutantes. Um homem conhecido por O Velho Logan. Nunca, como agora, a ajuda do homem anteriormente conhecido como Wolverine, foi tão necessária. Ainda assim, até o melhor que havia no que ele fez poderá ser superado pelos perigos que se escondem nos territórios mais próximos. Agora, Logan tem de lutar contra os horrores libertados pela raça mutante, os pecados das máquinas genocidas e as hordas desenfreadas de mortos-vivos. Conforme Logan atravessa o Mundo de Batalha e descobre todos os seus segredos, novos perigos vão surgindo pelo caminho, incluindo a força policial trovejante deste mundo inóspito. Velhos são os trapos e a missão de Logan está longe de estar acabada!

Conteúdo

Old Man Logan (2015) #1-5 – Argumento: Brian Michael Bendis; Arte: Andrea Sorrentino ; Cores: Marcelo Maiolo; Fontes: VC’s Cory Petit ; Artes de Capa: Andrea Sorrentino e Marcelo Maiolo

 

 

A História de um Rato Mau – Bryan Talbot

A História de um Rato Mau centra-se numa rapariga, sem abrigo, que fugiu de casa e tem, consigo, um rato como animal de estimação. Entre as reacções de repulsa que a sua presença resulta nalgumas pessoas, lá vai reunindo alguns trocos para comprar alimentos para si e para o rato.

Uma noite é confrontada por um homem, de aparência rica, que tenta aproveitar-se da sua situação indefesa. Felizmente um grupo de rapazes, também eles em condição semelhante à dela, afugenta-o e acabam por oferecer-lhe um lugar na casa que ocupam. Depois de muito pensar, aceita.

Vítima de abusos sexuais, culpando-se a si própria por esta atenção não desejada, ainda que, como criança, queira o carinho do pai. Esta dualidade de sentimentos fá-la sentir como alguém mau a quem coisas más devem acontecer. Revoltada consigo mesma, emocionalmente afastada de todos os que a rodeiam, a jovem acaba a viver na rua.

Consigo transporta o fascínio pelas histórias de Beatrix Potter, principalmente a história que apresenta um rato muito, muito mau, que a leva a seguir os passos da autora e a descobrir um ponto de refúgio onde poderá reflectir sobre os momentos que a marcaram negativamente.

A história de um rato mau explora o resultado psicológico de abusos sexuais a crianças, demonstrando a reacção típica a estes abusos quando os mesmos não são percepcionados nem tratados devidamente. Tema sensível explorado de forma cuidada, apresenta a confrontação e a libertação de um trauma poderoso.

A história de um rato mau foi publicado pela Levoir em parceria com o jornal Público.

Novidade: Coleção Graphic Novels Marvel – Vol. 53 e 54

Deixo-vos informação detalhada dos volumes 53 e 54 da colecção Graphic Novels Marvel, que tem reunido algumas das melhores ou mais significativas histórias da Marvel.

Sobre o volume 53

 

“Quem é Marcus Johnson e por que motivo é caçado por alguns dos mais letais supervilões do planeta? Com a S.H.I.E.L.D., o Treinador, o Capitão América e até mesmo Deadpool no seu encalço, o ex-Ranger dos Estados Unidos vê-se no meio de uma conspiração que só agora começaa ser revelada — com consequências imprevisíveis. Preparem-se para conhecer um dos mais bem guardados segredos do Universo Marvel!”

À medida que os eventos de A Essência do Medo se aproximavam da sua conclusão, a Marvel provocou os seus leitores com quatro enigmáticos epílogos, que levariam a outras tantas histórias envolvendo alguns dos seus principais heróis, os arcos de história que remodelariam o Universo Marvel durante o ano seguinte. Destas vinhetas finais, a mais intrigante envolvia um estranho homem numa cadeira de rodas a ser informado do assassinato de uma, aparentemente inocente, senhora de meia-idade. A única explicação providenciada para tal ato foi o facto de ser a mãe de um Ranger do exército chamado Marcus Johnson, cujo nome nada significava para os leitores, mas que estaria prestes a tornar-se no homem mais procurado do planeta… O motivo de tudo isso tornou-se óbvio no decorrer da história de Marcas de Guerra. Delineada por Matt Fraction, Cullen Bunn e Chris Yost, com argumento de Yost e arte de Scot Eaton, a história vai expôr um dos maiores segredos de todos, a história do Sargento Marcus Johnson, um homem com um segredo capaz de abalar as fundações do Universo Marvel!

Sobre o volume 54

“A milhões de anos-luz da Terra, e forçados a combater pelo derradeiro prémio, os maiores heróis e vilões da Marvel continuam a sua épica Guerra Secreta. À medida que a batalha prossegue, um novo perigo surge quando o Dr. Destino tenta roubar para si o imenso poder do Beyonder. Os heróis sabem que terão de impedi-lo a qualquer custo ou o universo inteiro ficará submetido aos desígnios de Destino!”

Desde o início do planeamento de Guerras Secretas que Jim Shooter, o seu argumentista, declarou que iria criar uma história que iria trazer consequências reais às personagens e ao universo da Marvel. Estas consequências conferiram um significado mais profundo ao evento, garantindo um lugar na história da Marvel. Embora alguns dos seus resultados mais imediatos tenham caído no esquecimento, outros, tais como o fato simbiótico do Homem-Aranha, em breve adquiririam estatuto lendário nos anais da Marvel. Mas a maior mudança que trouxe foi a que acabou por afetar toda a indústria de comics. As Guerras Secretas assinalariam toda uma nova era de gigantescos eventos intraeditoriais. Estes megaeventos, tais como a Guerra Civil, Dinastia de M ou Cerco, tornaram-se quase uma tradição anual. Fervorosamente aguardados pelos fãs, estes livros constam normalmente entre os mais vendidos do ano, cuidadosamente elaborados por argumentistas e artistas de topo da Marvel.

Várias vezes imitado, e raramente igualado, Guerras Secretas é o evento contra o qual todos os outros que estão por vir serão comparados. Um momento importante não só na história da Marvel, como também na história de toda a indústria dos comics, e que será recordado com apreço durante as gerações vindouras.

Por isso, acabem de ler esta saga, e regressem ao Mundo de Batalha para descobrir quem irá reclamar a vitória nas Guerras Secretas…

 

Fables Vol.13 – The Great Fables Crossover

A presença demoníaca que se libertou com a queda do Império continua a exercer o seu efeito sobre as figuras dos contos de fadas e sobre os comuns mortais. Se nas cidades comuns se verifica um aumento do crime e do medo de todas as sombras, já algumas personagens de contos de fadas percebem que o seu lado negro está descontrolado, pronto a partir para a violência.

Enquanto Bigby (o lobo mau / lobisomem) e o Monstro (de a Bela e o Monstro) se batem quase mortalmente por não se conseguirem controlar, Jack envia uma mensagem – o Literal responsável pela criação de todos eles está ainda mais louco e pretende acabar com a existência de todos os seus Mundos e respectivas fábulas!

Enquanto Branca de Neve e Bigby partem para investigar os Literais, a quinta sofre uma revolução. Os animais estão crentes no possível regresso de Blue que irá conduzir o repovoamento dos reinos das fábulas. Uma crença demasiado excessiva que leva a um fanatismo extremo, fanatismo aproveitado por Jack que se faz passar por Blue para pregar mais umas quantas partidas.

Os literais serão as entidades responsáveis pela escrita dos vários géneros literários e os criadores de vários mundos. Para cada género encontramos um literal que se expressa de acordo com o género a que corresponde. O literal responsável pelo reino das fábulas acordou de um torpor e encontrou as fábulas com percursos diversos, bastante diferentes do que pretendia – o Lobo Mau casado com a Branca de Neve? Que desvio tão grande!

Percebendo o risco que correm, Branca de Neve e Bigby procuram o Literal responsável, sofrendo directamente algumas consequências transformadores – o Literal é capaz de, com o escrever de uma caneta, mudar o aspecto de Bigby. Mas, por alguma razão que não compreende, não consegue matá-lo logo num acidente.

Divertido e utilizando uma ideia engraçada, este volume mostra como a crença em Blue cresce e se torna problemática, enquanto as restantes fábulas enveredam por batalhas que, sendo necessárias, atrasam o enfrentar da figura maléfica que destruiu a cidade e os impede de prosseguir na reconquista dos reinos fantásticos.

Visualmente interessante (ainda que menos do que o próximo, o 14 volume – sim, sem querer troquei a leitura de ambos, sem grande prejuízo) The Great Fables Crossover mostra como se tornam independentes e passam a ser responsáveis pelo seu próprio destino.

As serpentes de água – Tony Sandoval

Já tinha sentido alguma curiosidade pelos livros do autor, sobretudo depois de ter visto, o ano passado, uma longa fila à procura de um autógrafo no Amadora BD. Foi com o lançamento de Ecos invisíveis, um livro também da Kingpinbooks com autoria partilhada com Grazia La Padula, que senti maior curiosidade e peguei neste volume a solo.

O que encontrei foi uma história negra e misteriosa onde uma jovem rapariga encontra, nas suas deambulações fora a cidade, uma amiga estranha e especial. Estranha por contar histórias carregadas de elementos sobrenaturais, fruto, decerto, da sua imaginação. Mas será apenas imaginação?

Juntas, divertem-se, enveredando pelas mais simples aventuras. Até ao dia em que algo estranho acontece, algo que roça o sonho mas que será o evento que faz Mila questionar a existência física da amiga ,Agnês. Tendo deixado a bicicleta em casa da amiga, o irmão trá-la, revelando-lhe o quão sortuda é por ser capaz de ver Agnês.

A partir daqui as aventures atingem níveis míticos e surreais com estranhos elementos fantásticos que conferem, a esta história, um ambiente próprio. O facto de serem duas meninas não torna a aventura menos perigosa e mirabolante, levando-as a uma prova de afirmação e superação.

As serpentes de água foi publicado pela Kingpin books.

Uma Aldeia Branca – Tomeu Pinya

Numa ilha quase perdida, de ritmo pausado, numa aldeia branca, existe um pequeno bar onde se revelam várias histórias de vida, algumas fantásticas, outras ficcionais, que vão servindo como paga para mais uma noite no quarto disponibilizado por Rafa, o dono do bar.

Consoante o espírito de cada história é-lhe colado um estilo diferente, uma representação que faz justiça a outros autores e que se lhe adequa. É fácil identificar o estilo de Toppi numa história mais exótica, uma belíssima imitação, mas noutras será mais difícil, até por desconhecimento dos autores que pretende representar.

Não se tratam, no entanto, de trechos isolados – entre as histórias contadas seguimos as mesmas personagens que cruzam caminhos e evoluem, algumas usando a ilha como refúgio temporário, outras como pausa sem fim.

Uma aldeia branca é um conjunto de histórias envolvente e bem disposto com a qual se simpatiza facilmente. Sem grandes enredos ou complicações é um excelente conjunto, tanto pela adopção de diferentes estilos, como pela aura da história.

 

Uma aldeia branca foi publicado pela Levoir em parceria com o jornal Público na colecção Novela Gráfica.

Valerian Vol.10 – Tempos Incertos / Nas Imediações do Grande Nada – Christin, Mézières

Depois de algumas aventuras deambulando pela Galáxia, Valerian e Laureline resolvem pôr mãos à obra e procurar a Terra da sua realidade – talvez no Grande nada? Apanhando as entidades que controlam economicamente a Terra (e que representam Deus, Jesus e o Espírito Santo, sem que faltem as acções de Sat) arranjam pistas adicionais para procurar a Terra do seu tempo.

Nas imediações do Grande Nada, numa prisão onde existem presos anónimos e escondidos, Laureline e Valerian instalam uma pequena nave comerciante a fim de obter informações sobre o que os rodeia.

Enquanto Laureline faz a diferença na vida de um grupo de ex-empregadas de uma fábrica, Valerian consegue que sejam novamente multados. Existe algo a esconder e os guardas da prisão não gostam de novos olhos no planeta.

Este é, sem dúvida, um volume que pretende colocar os nossos heróis no local necessário para o grande final. Sem grandes pressas, apresenta a forma como obtém informação sobre o Grande Nada e uma forma de investigarem sem darem muito nas vistas.

Demonstrando, mais uma vez, o espírito aventureiro e decidido de Valerian, bem como o espírito bondoso de Laureline que faz a diferença nos locais por onde passa, sem deixar de lado a inteligência que a caracteriza, é um volume com algumas reviravoltas e com episódios de transição para um objectivo que só a seguir será cumprido.

A série Valerian foi publicada em Portugal pela Asa.

Resumo de leituras – Novembro de 2017 (5)

225 – O imperativo Thanos – Excessivo em acção e demasiado denso em imagens de coloração pesada, é dos volumes da colecção um dos que achei menos interessante. Enquanto Thanos regressa lutando contra tudo e contra todos com o objectivo de encontra a morte, um vilão poderoso entra nesta realidade. Tendo descoberto como enganar a morte eternamente, pretende expandir com a sua horda demoníaca;

226 – Neutron Star – Larry Niven – Uma série de contos de ficção científica que se centram num aventureiro. Quase sempre solitário e de nome heróico, a personagem principal assiste a grandes eventos quando aceita, a troco de somas avultadas, ser pioneiro de uma nova nave. A partir daí o conhecimento que advém desta viagem impulsiona algumas espécies a tomarem decisões de largo prazo para a sua sobrevivência;

227 – A filha do professor – Uma história engraçada e mirabolante em que as múmias egípcias possuem capacidade para se movimentar e falar. Uma delas estará apaixonado pela filha de um historiador, sendo que a interacção de ambos leva a acontecimentos catastróficos;

228 – O infante – Daniela Viçoso – Uma história centrada num infante português, um menino mimado e protegido, a quem nunca são pedidas responsabilidades e que nunca é confrontado pela realidade. Vive, assim, aventureiro, sendo que são os que o rodeiam que sofrem as consequências dos perigos a que se submete;

229 – Deadpool – O Mercenário desbocado – Duggan e Hawthorne – Centrado neste invulgar herói da Marvel, não é uma história genial, mas é uma história divertida carregada de imprevistos e confrontos mirabolantes. Deadpool é uma personagem controversa, de moralidade flexível e com evidentes falhas de memória;

230 – Monstress – Vol.2 – Marjorie Liu e Sana Takeda – Mantendo o peculiar aspecto gráfico desta banda desenhada, o segundo volume aprofunda o mistério em torno da personagem principal, apresentando uma alteração de dinâmica entre a rapariga e o Deus que a ela se fundiu, consumindo-a.

O que se vê da última fila – Neil Gaiman

De Neil Gaiman conheço mais os livros de fantasia do que a banda desenhada, tendo lido Sandman e Miracleman mais recentemente. Algo que sempre me surpreendeu é a capacidade que o autor tem para provocar a empatia com os leitores mesmo quando nos apresenta personagens com as quais nos pareceria difícil se as analisássemos friamente. Não só provoca empatia como aquela necessidade de virar a próxima página.

Apesar de conter vários textos, todos não ficcionais, esta sensação de texto a escorrer permanece. Neil Gaiman pode ser um escritor, mas lê o suficiente para carregar os textos com referências conhecidas de obras várias, demonstrando que é, nas áreas de conhecimento mais díspares que podem surgir ideias para uma nova história.

Era suposto que na manhã seguinte eu fizesse uma intervenção formal (em evento académico) acerca do tema dos mitos e dos contos de fadas. E quando chegou a altura, deitei fora os meus apontamentos e, em vez de lhes dar um sermão, contei-lhes uma história.

Era uma nova versão da história da Branca de Neve, contada do ponto de vista da rainha malvada. Levantava questões como: “Que tipo de príncipe se depara com o cadáver de uma rapariga num caixão de vidro e declara estar apaixonado e que irá levar o corpo de volta ao castelo” e, por falar nisso, “Que tipo de rapariga tem a pele branca como a neve, cabelo negro como o carvão, lábios vermelhos de sangue e permanece deitada, como se estivesse morta durante muito tempo?” Ao ouvirmos a história, apercebemo-nos de que a rainha malvada não era malvada: ela simplesmente não foi longe demais”.

O livro começa por apresentar as coisas em que Neil Gaiman acredita, e é fácil concordar com vários destes textos: a importância das bibliotecas para as comunidades como forma de escapar ao quotidiano menos positivo, a importância dos mitos que são menorizados pelos académicos como histórias lineares para crianças ou a liberdade de expressão.

Ao apresentar um conto de fadas tradicional com algumas questões extra Neil Gaiman demonstra que estas histórias tem nuances não perceptíveis pelos leitores comuns. Nem pelos académicos. Já na componente da liberdade de expressão apresenta uma história em torno de Outrageous Tales, onde se apresentam várias histórias bíblicas do velho testamento, passagens que já são, no seu original, bastante violentas.

Neil Gaiman segue falando sobre alguns dos autores mais reconhecidos nos géneros do fantástico (não pode faltar, claro, Terry Pratchett) ou sobre livros, como Fahrenheit 451, passando, também, pelos prémios Nebula. Mais tarde, irá falar, também, de música e de outros autores, alguns controversos, como Kipling ou Lovecraft.

Comentam erros. Cometam erros crassos, cometam erros maravilhosos,  cometam erros gloriosos. É melhor cometer cem erros do que ficar a olhar para uma página em branco com receio de fazer alguma coisa mal, com receio de fazer seja o que for

Este é um conselho que vamos ver em vários discursos de Neil Gaiman. O que ele nos diz é que, não sabendo escrever, iniciou-se com o jornalismo e com ele treina uma escrita limpa de floreados e artefactos. Paralelamente vai escrevendo ficção. E com o escrever ganhou o treino que pretendia.

De vez em quando mete-se em projectos que sabe não ter as bases teóricas, mas com este desconhecimento fez, por vezes, a novidade. Na prática, o que o autor aconselha é a realização de todos os projectos que se conseguir, treinar e produzir, no estilo próprio de cada um, não ter medo de errar, uma e outra vez.

O que se vê da última fila é um livro de agradável leitura onde o autor expressa ideias sobre a produção de ficção e sobre a vida, demonstrando o fascínio por outros artistas, sejam desenhadores ou escritores. Ainda que ache que alguns dos livros do autor não obtiveram o efeito desejado em mim como leitora, as ideias expressas por Neil Gaiman são coesas e facilmente transforma episódios que viveu em relatos vivos para serem apreciados pelo leitor.

O que se vê da última fila foi publicado em Portugal pela Elsinore.

Novidade: Os Vingadores 9

Chega às bancas amanhã o nono volume de Os Vingadores. Deixo-vos sinopse, detalhe de conteúdo e algumas páginas:

Um dos maiores do Universo Marvel vai atingir neste volume o seu apogeu. Além de todas as incidências do julgamento (altamente mediático) do Gavião Arqueiro, com destaque para a presença de Matt Murdock – o próprio Demolidor – como advogado de acusação, a comunidade de super-heróis terá de lidar com mais uma visão aterradora de Ulysses, o inumano capaz de prever o futuro: nada mais, nada menos que o assassinato do Capitão América (Steve Rogers) às mãos do novo Homem-Aranha (Miles Morales). Face a esta terrífica premonição, a Capitã Marvel tenta colocar o jovem Miles sob custódia, mas o Homem de Ferro está lá para impedir a detenção. Já não existe espaço para o diálogo. Os maiores heróis da terra vão viver e morrer com base numa única decisão: proteger ou mudar o futuro?

Conteúdo

THE ACCUSED (2016) #1 – Por Mark Guggenheim, Ramon Bachs, Garry Brown e Ruth Redmond;
Civil War II (2016) #6-8 – Por Brian Michael Bendis, David Marquez e Justin Ponsor.

A Balada do Mar Salgado – Hugo Pratt

Este é, dos álbuns que já li de Corto Maltese, aquele que melhor apresenta o mítico espírito aventureiro que me descreveram. Aqui Corto Maltese é uma espécie de pirata. Mas não um pirata qualquer, um pirata honrado mas que não conseguiu conter uma revolta dos seus marinheiros que lhe ficaram com o barco.

E assim que acaba a bordo do barco de Rasputine, outro capitão pirata a mando do famoso Monge, onde encontra dois jovens que foram recolhidos como náufragos. Sendo os dois jovens de famílias abastadas, Rasputine espera recolher um bom resgate, principalmente pela rapariga. O rapaz pode tornar-se mais problemático e Rasputine estaria pronto a eliminá-lo, não fosse a intervenção de Corto Maltese.

Ainda que compactue com a pirataria de Rasputine, Corto Maltese consegue intervir para impedir que a violência escale, acompanhando os jovens, sem os deixar fugir, mas também evitando que sejam mal tratados. Em contrapartida, quando são todos capturados por tribos locais será Corto Maltese que será salvo.

Ainda assim, o relacionamento entre os jovens e Corto Maltese é agridoce. Os jovens nem sempre percebem o papel de Corto, ou o seu tom irónico que denota uma vida de experiência. Principalmente o jovem rapaz que tenta aproveitar todas as situações para se afirmar, tomando atitudes idiotas e impulsivas.

Paisagens exóticas e comportamentos misteriosos – este volume decorre num local pouco conhecido onde ainda habitam vários tribos de rituais próprios, algumas com fama canibal, local que Umberto Eco se encarrega de apresentar, numa esplêndida introdução. Trata-se de um local privilegiado para ainda ser pirata e para que se efectuem algumas manobras bélicas pelas potências em guerra.

A Balada do Mar Salgado apresenta uma história carregada de enigmas, alguns que não se chegam a explorar, fazem parte do contexto, e outros que são necessários para o desenrolar inevitável dos acontecimentos. Corto Maltese continua misterioso, expressando-se apenas quando é mesmo necessário, mas mostrando, nas suas intervenções, uma boa capacidade de observação e entendimento, elementos que se vão revelar necessários para se desenvencilhar das situações difíceis em que se coloca.

A Balada do Mar Salgado foi publicado em Portugal pela Arte de Autor.

Novos projectos literários em curso

Amanhãs que cantam

Este é o novo projecto da Imaginauta, em parceria com a Épica, que já nos trouxe obras como Comandante Serralves, uma obra de ficção científica portuguesa que ultrapassou todas as expectativas e nos presenteou com um conjunto coeso de histórias que decorre numa realidade alternativa interessante – o que tem de peculiar este conjunto? Está carregado de referências bem portuguesas!

Amanhãs que cantam, o novo projecto pretende agregar histórias que decorram numa realidade alternativa em que Portugal ficou sob um regime comunista desde 1968, ano em que Salazar caiu da cadeira. Neste projecto os contos não têm de ser concordantes e podem expressar a sua própria versão deste regime, podendo constituir histórias utópicas ou distópicas.

Interessados? Podem consultar o regulamento na página oficial da Imaginauta.

Concurso nacional de contos de ficção especulativa

Este concurso resulta numa parceria entre o Sc-fi LX, a Imaginauta e a Editorial Divergência e pretende premiar contos de ficção especulativa, ou seja, fantasia, ficção científica ou terror. O concurso tem, associado, um prémio e um acordo de exploração comercial. Para mais detalhes podem consultar a página da Imaginauta sobre o prémio.

 

Antologia de Space Opera “Na imensidão do Universo”

Trata-se de um projecto da Editorial Divergência, uma das poucas editoras portuguesas que tem vindo a apostar na publicação de ficção especulativa de autores nacionais, com obras como Lovesenda de António de Macedo ou Anjos de Carlos Silva, para além das inúmeras antologias.

Para mais detalhes podem consultar a página oficial com o regulamento e informação sobre o que é pretendido.

Antologia de Fantasia Rural “O resto é paisagem!”

Esta antologia resulta de uma parceria com Luís Filipe Silva, conhecido autor de ficção científica português que já organizou outros projectos e que tem representado Portugal nalguns eventos internacionais de ficção especulativa, como a Eurocon.

Para mais detalhes podem consultar a página oficial com o regulamento e informação sobre o que é pretendido.

Base de dados de ficção especulativa Portuguesa

Este projecto distingue-se dos anteriores por não se referir à organização de uma antologia ou por envolver a escrita de contos. Ou melhor. Já envolveu a escrita. Pretende-se criar uma antologia que seja representativa da produção nacional dentro da Ficção Científica, do Fantástico e do Horror.

Para tal criou-se uma base de dados de acesso livre com os contos portugueses já publicados, e criou-se um fórum para facilitar o debate sobre que contos devem ser escolhidos para tal antologia.

Deixo-vos as ligações para cada uma das componentes

Homem-aranha Vol.5 – Entre a terra e o céu – Molina, Bianchi, Broccardo, Bermudez

Entre a ciência e o misticismo, este volume centra-se num homem que regressou à vida na noite em que foi enterrado. Afastando-se qualquer hipótese de ter sido enterrado vivo (tinha sido autopsiado) o homem-aranha investiga o caso.

Ainda mais estranho do que ter regressado à vida é o facto deste homem efectuar alguns milagres por onde passa e o de não agir como anteriormente. Algo mais parece estar por detrás do regresso do seu corpo à vida e o Homem-aranha segue as pistas até à cidade de Remédios em Cuba.

Entre lutas com os Santeiros e outros elementos sobrenaturais pouco corpóreos, o Homem-Aranha é obrigado a enfrentar os seus próprios fantasmas, mais propriamente o fantasma do seu tio que o guia por esta aventura com uma série de frases obscuras e misteriosas.

Apesar de cruzar elementos religiosos de outras culturas, retirando-lhe um pouco da aura negativa de superstição e engodo, este volume de Homem-Aranha é engraçado mas prefiro as restantes aventuras apresentadas até aqui. Os Santeiros são um grupo complexo, de opinião mutável que justificam algumas cenas de batalha pouco objectiva.

Mas se em termos de história não fiquei tão bem impressionada, já do ponto de vista visual este número possui páginas espectaculares, em que a densidade da coloração consegue ser balanceada por uma disposição mais cuidada sem sobrecarregar a vista do leitor.

Homem-aranha encontra-se em publicação pela Goody.

Resumo de leituras – Novembro de 2017 (4)

219- Ecos invisíveis – Tony Sandoval e Grazia La Padula – Com desenhos particularmente emotivos onde se realçam as expressões, Ecos invisíveis é uma pequena história envolvente que segue um homem que perdeu a esposa. Este episódio trágico provoca o despertar de uma capacidade que o leva a isolar-se;

220- A Asa Quebrada  – Antonio Altarriba e Kim – Depois de fazer uma banda desenhada em torno do pai, Altarriba percebeu que tinha sido injusto com a mãe, a mulher que viveu toda a vida com um braço aleijado sem que ninguém tenha dado por isso, nem o marido ou o próprio filho;

221 – Homem-aranha Vol.5 – Este volume apresenta uma aventura onde os Santeiros têm um papel preponderante. Quando um homem regressa à vida depois de enterrado muitos parecem crer num milagre mas o homem parece comportar-se de maneira diferente e provavelmente o seu regresso terá origens obscuras;

222 – As serpentes de água – Tony Sandoval – Uma menina aventureira encontra a parceira de brincadeiras perfeita – muito imaginativa e algo lunática, andar com ela é uma diversão. Mas quando se apercebe que nem o irmão a vê, só a ouve, apercebe-se que a nova companheira de brincadeiras não é mesmo uma menina normal;

223 – Alice num mundo real – Isabel Franc e Susanna Martin – A autora enfrenta o cancro da mama a apresenta os vários passos e situações por que passou de uma forma leve com pitadas de humor;

224 – Homem-aranha Vol.6 – Este volume marca o início da Guerra Civil com o homem de ferro a puxar Miles Morales para o seu lado.

Os três estigmas de Palmer Eldritch – Philip K. Dick

A humanidade colonizou outros planetas mas, ao invés de vermos realizada a ideia de grandiosidade e de concretização de um grande feito, vê-se um arrasador sentimento de depressão e nostalgia que abala os colonos. Deixando as hortas por cultivar e tudo o que os rodeia num enorme estado de negligência, estes colonos passam todo o tempo possível a ingerir uma droga, Can-D (soa como candy, em português, doce) que lhes fornece uma experiência bastante vivida na Terra, num corpo imaginário  – uma experiência que pode ser melhorada pela aquisição de miniaturas de objectos terrestres.

Barney Mayerson é um dos mais poderosos precognitivos, um homem caracterizado por uma grande dose de arrogância, ainda marcado (sem que o admita) pela separação com a ex-mulher. Conhecemos-lo num dia particular, acordando de uma grande ressaca depois de ter dormido com a sua nova colega de trabalho, uma pessoa com potencial para se tornar tão boa ou melhor do que ele.

O trabalho de ambos (Barney Mayerson e nova colega) envolve escolher em que objectos (como peças de arte, por exemplo) se deve investir na miniaturização, prevendo o seu sucesso futuro entre os colonos. Mas não só. Prevê-se a morte de milionário Palmer Eldritch às mãos de Leo Bulero, o dono das empresas que fabrica Can-D e as respectivas miniaturas. Mas nem o próprio sabe, à data da previsão, o motivo que o poderá levar a tal acto.

Os três estigmas de Palmer Eldritch parece uma paródia às histórias de ficção científica de conquista no espaço, esperançadas e românticas, aspirando a grandes feitos e grandes aventuras. Se por um lado temos personagens que parecem estereótipos, como a boazona com elevadas capacidades que opta por seduzir e manipular para obter o que pretende, ou o homem inseguro que tem elevadas aspirações que ele próprio boicota inconscientemente; por outro temos uma sucessão de situações grandiosas que revelam uma espécie degenerada em colapso.

A experiência extra-corporal fornecida pela Can-D é tão forte que leva, até os inicialmente mais incrédulos, a praticar uma estranha religião centrada na droga e nas respectivas miniaturas – miniaturas que conferem o efeito de novidade e aumentam a experiência onde todos os homens são Ken e todas as mulheres são Barbie, numa parceria perfeita que os colonos encarnam, em simultâneo, como experiência social. Engraçado constatar que esta não é a única história em que Dick transforma a nostalgia por um mundo conhecido em obsessão por reproduzir essa realidade recorrendo a bonecas e brincadeiras que simulam a vida perdida como uma lembrança de perfeita diversão).

Esta obsessão, concretizada por ocasionalmente por escassas horas, está agora em risco de ser transformada em algo mais. Palmer Eldritch regressa ao sistema solar como um novo ser, carregando consigo uma versão melhorada da droga que permitirá uma experiência melhorada no espaço e no tempo. Até que ponto se trata apenas de uma simulação, ou até que ponto é que esta simulação é controlada pela própria pessoa são as grandes questões que envolvem esta droga – será uma nova forma de se viver eternamente? E afinal, o que é viver eternamente? É manter uma memória corrompida no mundo real ou capaz de viver uma simulação sem fim?

Palmer Eldritch é, em suma, um monstro. Aparentemente humano, omnipresente, capaz de apresentar em todos os espaços e tempos e em nenhum, existindo e corrompendo, talvez como parasita, talvez como ser que já transcendeu a loucura. Ou será Palmer Eldritch apenas um reflexo exagerado daquilo que já existia, não tendo, por si, verdadeira importância?

Mas Os três estigmas de Palmer Eldritch não retrata apenas um conjunto de colonos deprimidos e entregues às drogas por nostalgia e depressão. Entre psicólogos portáteis que são, na prática, inteligências artificiais dentro de malas e outras tecnologias interessantes, encontramos a capacidade de induzir a evolução física e intelectual – um processo caro que nem sempre induz o efeito desejado e pode embrutecer o indivíduo tratado.

Não esperem que a “evolução induzida” produza o indivíduo perfeito tal como foi publicitado por uma série de facções raciais e racistas. A evolução é, claro, no sentido da melhor adaptação e produz algo que visualmente poderia ser bastante desagradável, não fosse ser socialmente reconhecido como sendo um processo restrito aos mais ricos e bem relacionados. Afinal, a beleza é algo relativo e se o aspecto expressa um determinado estatuto … bem, não é isso mesmo que se pretende?

Em suma. O que é Os três estigmas de Palmer Eldritch? Um livro bastante estranho, a roçar vários tipos de psicoses e doenças mentais, que demonstra um futuro negro de forma irónica e inteligente, uma paródia de simulações que se entrelaçam até deixar de se perceber onde começa a realidade e termina a falsidade.

Depois de publicado na Europa-América e na Editorial Presença, a edição que se encontra disponível actualmente no mercado português é a da Relógio d’Água.

Novidade: Homem-aranha 8

Já andas nas bancas, desde dia 10, o oitavo número de Homem-Aranha! O número promete seguir os dois heróis (Peter Parker e Miles Morales) durante o conflito que separa as várias entidades com poderes sobre humanos! Eis sinopse, conteúdo mais detalhado e algumas páginas:

Peter Parker tem levado uma vida dupla. Por um lado assume o papel de presidente da sua empresa multinacional do sector da alta tecnologia; por outro está constantemente em ação vestindo a pele (ou será o fato?) do espetacular Homem-Aranha. Peter tem andado tão ocupado que nem sequer tem tido tempo para a sua família (e amigos), situação que pretende reverter com uma grande festa em Nova Iorque. Tudo estava a correr bem até ao momento em que o marido da sua tia May, Jay Jameson, sofre um colapso repentino. Num enredo cheio de surpresas e grandes reviravoltas, “Nunca Digas Nunca” marca o pontapé de saída nos eventos que vão anteceder uma das maiores sagas da história recente do famoso aracnídeo, ou seja, “A Conspiração dos Clones” (saga que será apresentada na íntegra na Série II do Homem-Aranha).

Se Peter Parker está prestes a entrar num imbróglio que fará regressar à ribalta alguns dos seus maiores inimigos, em Guerra Civil II, o jovem Miles Morales tenta perceber o seu papel no conflito, algo que o fará questionar a sua própria essência e onde não vão faltar inimigos que vão tentar aproveitar-se da situação.

Conteúdo

Nunca Digas Nunca
Argumento: Dan Slott
Arte: Giuseppe Camuncoli e R.B. Silva
Cores: Marte Garcia e Jason Keith

Guerra Civil II
Argumento: Brian Michael Bendis
Arte: Nico Leon e Sara Pichelli
Cores: Marte Garcia e Rachelle Rosenberg