Resumo de leituras: Maio de 2019 (1)

33 – The Big Ship – A Farm Noir – André Mateus e Rahil Mohsin – Uma pequena história que se enquadra no género noir e que apresenta como detective uma tartaruga inteligente e lenta. O pequeno livro explora os clichés do género de forma engraçada, conseguindo fechar com um humor peculiar e de leitura satisfatória;

34 – Batman: Noel – Lee Bermejo – A história aproveita o Conto de Natal de Dickens para apresentar o Batman obcecado pelo Joker – de tal forma que usa os que o rodeiam de qualquer forma para prender o vilão. A história é mais interessante do ponto de vista visual do que narrativa, com páginas deslumbrantes;

35 – Dylan Dog – Até que a morte nos separe –  Marcheselli, Sclavi e Brindisi – Uma história bastante diferente de Dylan Dog que tem como tema os atentados do IRA, colocando Dylan Dog como um jovem polícia, apaixonado por uma irlandesa que tem um papel bastante menos inocente do que parece;

36 – Black hammer vol.1 – Vários – Uma extraordinária história de super-heróis com narrativa de Jeff Lemire, em que os heróis são apresentados como pessoas quase comuns, com dúvidas, fragilidades e incertezas, demasiado centradas nos seus próprios dramas para verem o que os rodeia.

Novidade: Miss Marple – Um Cadáver na Biblioteca

Aproveitando a proximidade do Festival de Beja, a Arte de Autor anuncia novo lançamento!

O cadáver estrangulado de uma mulher desconhecida é descoberto ao princípio da manhã sobre o tapete da biblioteca da residência do coronel Arthur Bantry e da sua esposa Dorothy. Esta apela de imediato ao bom senso da sua amiga Jane Marple para desemaranhar uma meada ainda mais complicada do que parecia à primeira vista.

 Agatha Christie (1890-1976) conhece o sucesso desde o seu primeiro romance de mistério, O Misterioso Caso de Styles. Foi designada como a «duquesa da morte» e escreveu sessenta e seis romances, e uma centena de novelas que foram traduzidas numa centena de línguas e venderam até hoje mais de dois milhões de exemplares em todo o mundo.

Black Hammer – Vol. 1 e 2 – Jeff Lemire, Dean Ormston, Dave Stewart

Quando soube da premissa explorada por esta série pensei que poderia ser apenas mais uma história a conferir um lado humano aos super-heróis. Mas sendo Jeff Lemire avancei com a leitura. E ainda bem. É verdade que outras histórias de banda desenhada já exploraram a humanidade dos super heróis com poderes. Recordo facilmente as novas histórias da Marvel ou O Legado de Júpiter.

Se algumas histórias da Marvel apresentam heróis jovens que tentam encontrar o balanço entre a sua cultura e as novas responsabilidades, mostrando inconsistências típicas da idade, dúvidas existenciais e dificuldade em controlar os poderes, já em O Legado de Júpiter os super hérois são famosos como as estrelas pop, levando a que os mais novos apresentem os vícios dos famosos e os mais velhos se julguem perfeitos, intocáveis e superiores. O resultado, em O Legado de Júpiter, é catastrófico para a humanidade e resultada em complicadas relações familiares entre os heróis.

Mas apesar de toda esta panóplia de narrativas que se centram no lado humano dos heróis com super poderes, nenhuma consegue ser tão estranha, tão envolvente e, em simultâneo, tão disfuncional e caoticamente tão sentimental quanto Black Hammer. Sentimos o desespero, o amor, a rejeição, a demência, a força – tudo em doses brutais e arrebatoras, que acompanham as personagens imperfeitas de Lemire – imperfeitas como qualquer humano, com falhas e valências, com inseguranças, medos e sentimentos. É que Jeff Lemire não retrata os super-heróis quando estes estão no topo da sua forma. Mas velhos, cansados, derrotados e fartos de uma reclusão forçada que lhes retira todas as possibilidades de uma existência satisfatória.

O nosso grupo de super-heróis encontra-se numa vila interior dos Estados Unidos da América, mas na sua própria quinta onde tentam passar uma noção de normalidade. Mas a família começa a despertar algumas desconfianças na vizinhança, sobretudo pelas atitudes da criança que bebe, fuma e pragueja como um adulto. É que apesar do corpo de criança, esta heroína é uma senhora de sessenta anos que se transforma numa menina para desempenhar as tarefas heróicas e que agora se vê presa neste corpo, sem poder usufruir da reforma que tanto anticipava nem das poucas vantagens da idade.

Entre o robot que cuida das tarefas de casa, o alienígena homosexual que tenta estabelecer novos laços e o herói cosmonauta que viaja constantemente entre realidades, tempos e espaços (e por isso não está preso, mas demente), o grupo é disfuncional, catastrófico e depressivo. A menina não consegue ser vista como o adulto que é, causando-lhe eterna frustração e Abe com mais idade procura um novo amor na ex-mulher do xerife ciumento.

Cada membro daquele estranho grupo tem problemas pessoas nos quais se foca excessivamente, perdendo as pistas de que algo naquele local não é coerente. Será a vinda da filha de um dos heróis falecidos que perturbará o equilíbrio insano e dará início a uma sucessão de rupturas – mas onde terminarão é algo que ainda não é revelado.

Jeff Lemire tornou-se rapidamente um dos meus autores favoritos pela forma como desenvolve personagens. São personagens imperfeitas e muito humanas, que facilmente geram empatia fazendo com que os cenários mais banais possam ser explorados e se mantenha o interesse do autor (como com outros livros do autor). Não é o caso. Por detrás destas estranhas relações entre super heróis encontra-se uma trama maior, um mistério pronto a ser desvendado, que serve de ligação de toda a trama.

Os dois primeiros volumes de Black Hammer foram publicados pela Levoir em parceria com o jornal Público.

Novidade – Lazarus – Rucka, Lark, Arcas – Vol.1

O primeiro volume de Lazarus encontra-se nas livrarias! A série é lançada em Portugal pela Devir e o primeiro volume terá o preço apelativo de 9,99€ (não costumo falar de preços, mas, se não me engano, os valores praticados pela editora costumam ser um pouco superiores). Eis a sinopse e algumas páginas disponibilizadas pela editora:

Num mundo dominado pela tecnologia, o poder reside nas mãos de um pequeno número de famílias, governam aqueles que possuem vantagem científica, todos os outros são desperdício.
Forever e a espada e o escudo da família Carlyle, a sua Lazarus.
Esta é a sua história!

 

Novidade: Batman – Cavaleiro Branco – Sean Murphy

A Levoir continua a publicar em força! Depois da colecção comemorativa dos 80 anos do Batman, anuncia agora este Batman Cavaleiro Branco num volume carregado de extras (galeria de capas alternativas por Sean Murphy, design das personagens,  esboços perlimiares e biografia do autor).

Batman: Cavaleiro Branco faz parte do novo selo Black Label da DC e começou a ser publicado nos EUA em 2017, tendo sido aclamado pelo público e pela crítica especializada.

Após uma perseguição pela cidade, Batman está obcecado em capturar o Joker, e é provocado ao ponto de lhe bater e continuar batendo até o Príncipe Palhaço das Trevas perder a consciência e parar de respirar. Tudo isto acontece na presença de Robin, Batgirl, toda a polícia e com câmaras filmando. Completamente fora de si, Batman ainda lhe despeja um remédio desconhecido pela garganta abaixo.

Será que Batman passou dos limites?

Ao recuperar, Joker deixa de existir, a sua loucura simplesmente desapareceu, agora ele é Jack Napier. A imprensa está delirante, há tanta coisa a acontecer na cidade de Gotham.

Jack Napier, agora completamente são, é o novo justiceiro da cidade e leva à tona todos os problemas de Gotham City, incluindo ter como cúmplice o vigilante, favorecimento dos mais ricos, desrespeito com os mais pobres, corrupção, diz também ter sido usado por outros como bode expiatório, como por exemplo, na criação do Asilo Arkham.

Sean Murphy apresenta-nos uma cidade virada do avesso com uma grande quantidade de heróis e vilões. Quem é quem nesta história? Batman e Joker, qual o herói e qual o vilão?

Descubra-o na leitura desta história arrebatadora.

The Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction

Se bem repararam, o Rascunhos tem estado mais silencioso nestas últimas semanas. Tal redução de publicações deve-se ao surgir de um novo projecto que estou a coordenar conjuntamente com o Carlos Silva – o The Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction.

Ainda que apenas tenha sido lançado no passado Sábado, dia 11, é um projecto que fervilha desde que a sua necessidade se tornou evidente na Eurocon de Barcelona, há alguns anitos. É que, após apresentarmos vários livros, autores e iniciativas portuguesas, não tinhamos nenhum portal que pudesse dar continuidade ao interesse que se gerava pelo que é feito em Portugal.

É neste seguimento que surge, então, o portal – um esforço conjunto de mais de 20 pessoas que inclui associações e vários bloggers para divulgar tudo o que ocorre a nível nacional em várias vertentes – literatura, jogos de tabuleiro, banda desenhada, videojogos, rgp, cinema, música, teatro. E em língua inglesa para podermos dar maior visibilidade internacional!

O arranque de dia 11 trouxe artigos sobre videojogos, jogos de tabuleiro, livros (claro) e banda desenhada – mas já estão programados artigos sobre cinema, teatro, eventos e muito mais. Estamos abertos a contribuições, sugestões, ideias e muito mais – basta contactarem-nos pelo formulário que se encontra na página.

Winepunk – Nunca Mais – João Barreiros

A história de João Barreiros é, como não podia deixar de ser, apocalíptica. Tecendo uma trama intensa, carregada de elementos tecnológicos e futuristas, a história de João Barreiros é das que mais desenvolve esta possibilidade de uma realidade alternativa. Apresentam-se tramas políticas e interesses pessoais, mostram-se os novos reis do Norte que carregam esperanças e expectativas para o seu novo Reino. Mas mais do que isto, apresenta-se uma nação capaz de fazer inveja a poderosos países como os Estados Unidos da América.

A origem desta inveja está numa nova droga, proveniente de uma casa especial de uva que permite, a quem a toma, sonhar com um dos múltiplos futuros possíveis. Os sonhadores, explorados pela Monarquia do Norte , permanecem em armazéns, fechados, em armazéns, enquanto as suas consciências captam detalhes tecnológicos que permitem que a Monarquia do Norte se afirme apesar do diminuto tamanho e das dificuldades financeiras e estratégicas.

As possibilidades provenientes desta droga são de tal forma reconhecidas que não faltam espiões e tramas para conseguir roubar uns ramos desta videira – e é assim que se inicia o volume, com um homem que resolve enfrentar os enxames de abelhas especiais, bem como os morcegos explosivos que pouco hão-de deixar para que possa ser reconhecido. Este é apenas um dos vários episódios catastróficos que demonstram a usual capacidade de João Barreiros em destruir personagens e cenários de forma firme, rápida e com o máximo de prejuízo.

Entre futuros deprimentos e monstros de pensamento básico mas letal encontramos humanos decadentes e egoístas que irão desencadear uma série de eventos bombásticos. João Barreiros não poupa nada nem ninguém!

Cáustico, imaginativo e carregado de um humor negro que é muito característico ao autor, esta longa história apresenta uma trama densa e satisfatória que rapidamente se torna na melhor do antologia, tanto pelos vários elementos que cruza, como pelo desenvolvimento de personagens caricatas e pela descrição de episódios cortantes.

A antologia Winepunk foi publicada pela Editorial Divergência.

Novidade: Deadpool Mata os Clássicos – Cullen Bunn e Matteo Lolli

A G Floy anuncia um novo lançamento do Universo Marvel, trazendo, novamente, Deadpool! Neste caso, um Deadpool que promete ser particularmente devastador:

Depois de ter morto o Universo Marvel, o Mercenário Desbocado decide ir atrás dos maiores clássicos da literatura!

E o que é que as grandes personagens da história literária podem fazer para deter Deadpool? Que hipótese terão o Capitão Ahab e Moby Dick, os Três Mosqueteiros ou D. Quixote, Tom Sawyer e Sherlock Holmes, contra um mercenário mutante feroz e chateado como sei lá o quê? Para quê ler os livros deles, se podem vê-los morrer nas páginas desta banda desenhada? A literatura acaba aqui, nas páginas deste Deadpool louco!

O escritor Cullen Bunn regressa ao universo tresloucado de Deadpool, desta vez acompanhado do artista Matteo Lolli, para mais uma tentativa homicida de eliminar de uma vez por todas os grandes heróis da ficção literária!

Deadpool Mata os Clássicos é a sequela de Deadpool Mata o Universo Marvel, um dos maiores sucessos da Marvel (com mais de meio-milhão de exemplares vendidos) e uma divertida exploração do universo meta-ficcional que se tornou a especialidade do mutante mercenário, o mestre de romper a “quarta parede”! Depois de se dar conta que é uma personagem ficcional, e depois de tentar exterminar todos os heróis e vilões de todos os universos da Marvel, Deadpool percebe que se trata de um empreendimento sem fim, porque existem sempre novas histórias para contar e a inspiração vai criar novos universos de super-heróis… por isso, é preciso eliminar essa inspiração dos autores da Marvel, e exterminar todas as personagens da literatura que possam servir de inspiração para sempre!

Aviso: Não é para putos sensíveis!

 

 

 

Novidade: Terra de Lobos – Tünde Farrand

A TOPSELLER anuncia novo lançamento distópico para o mercado português:

Londres, 2050. A crise socioeconómica terminou e as políticas de incentivo ao consumismo não param de surgir.

Ser proprietário de terrenos fora da cidade é privilégio de uma elite, sendo que a restante população apenas obtém o seu Direito de Residência se o dinheiro que gastar for suficiente para alcançar um dos patamares do estatuto de Consumidor.

O envelhecimento foi abolido graças a uma nova e radical abordagem, que substitui a reforma por uma feliz eutanásia num Dignitorium, embora os mais desfavorecidos sejam deixados à sua sorte, longe da vista daqueles que efetivamente contribuem para a sociedade.

Alice é uma Consumidora Média. Depois do desaparecimento de Philip, arrisca-se a perder a casa e o seu estatuto social, começando a pôr em causa a sociedade em que foi criada e que o próprio marido ajudou a construir. Na demanda pelo paradeiro de Philip, ela acaba por descobrir algumas verdades horrendas acerca do que aconteceu à sua família no passado e da crueldade que se esconde por detrás da nova hierarquia social.

Terra de Lobos é uma poderosa visão distópica, no espírito de Black Mirror, que agradará a fãs de História de uma Serva e Nunca me Deixes.

 

 

 

 

Botanists – Projecto português no Kickstarter

Depois de On Mars de Lacerda (que está quase, quase a terminar) é a vez de outro projecto, com envolvimento português chegar ao Kickstarter – Botanists. Trata-se de um jogo abstracto ilustrado por Pedro Codeço e publicado pela Agie Games, uma pequena editora que já lançou dois jogos de cartas e se aventura agora neste novo formato com uma aposta de visual muito agradável.

À semelhança de outros jogos abstractos, Botanists possui mecanismos de construção e reconhecimento de padrões, complementados por colocação de peças, construção de colecções e diferentes poderes atribuídos aos jogadores. A participação no Kickstarter garante, aos que aderirem, uma cópia por custo inferior, bem como uma mini-expansão com 15 cartas únicas com regras diferentes do jogo base.

Curiosos? Espreitem o Kickstarter de Botanists.

Batman 80 Anos – Vol. 5 – Noel Um conto de Natal – Lee Bermejo

O quinto volume da colecção comemorativa dos 80 anos do Batman, lançada em Portugal pela Levoir em parceria com o jornal Público, traz-nos um livro algo diferente do usual mas que reconta Conto de Natal de Charles Dickens. De visual bastante forte, este livro apresenta Batman como um herói demasiado concentrado na sua luta contra os vilões, fisica e psicologicamente doente.

A história é contada como se fosse um conto de Natal, mostrando como um homem pobre se deixa emaranhar na clandestinidade ao tentar construir um lar melhor para partilhar com o filho. Por seu lado, Batman está tão obcecado em apanhar Joker que não se importa com os meus que usa para tal, não hesitando em usar pequenos criminosos para atingir este objectivo.

Doente, delirante, Batman recebe a visita de um Super homem ponderado como se fosse o espírito do Natal que lhe tenta mostrar o outro lado da vida destes pequenos criminosos – criminosos com poucos meios para sobreviver que tentam fazer pequenos trabalhos paralelos e que acabam entre poderosos vilões e heróis impiedosos como este Batman.

Ainda que em termos narrativos a história não seja excelente (longe disso, tratando-se do primeiro trabalho de Lee Bermejo como argumentista) este volume destaca-se pela qualidade visual, fornecendo uma visão estranha da cidade negra em época natalícia, rodeada de neve e luzes natalícias, mas, ainda assim, não dando tréguas aos seus habitantes – nem nesta época.

A colecção comemorativa dos 80 anos do Batman é publicada em Portugal pela Levoir em parceria com o jornal Público.

The Big Sheep – A Farm Noir – André Mateus e Rahil Mohsin

Este pequeno livro, que adquiri via Convergência (plataforma onde podemos adquirir várias publicações independentes de banda desenhada e literatura) apresenta uma pequena história noir que consegue captar o espírito das histórias do género e envolver o leitor no seu enredo.

O detective, aqui, é uma tartaruga, calma e introspectiva, e carregando consigo todos os clichés do género noir, contando o caso enquanto se recorda de episódios passados! Não falta, claro, a femme fatale, a mulher perfeita que escapou ao detective e que volta agora arrebatadora como nunca, mas casada e procurando ajuda para encontrar a filha que julga raptada.

Mas o nosso detective tartaruga não é o único no encalço da jovem, concorrendo com um detective mais novo e impulsivo, um cão que tem mais sucesso por representar a novidade entre os detectives.

Apesar de ser uma história pequena (16 páginas) é uma leitura agradável e recomendável, em que se destaca a componente narrativa com as pitadas de humor apropriadas ao género noir. O desenho expressa bem o tom narrativo apesar de o achar demasiado crú.

Novidade: Tex – Os predadores do Castelo – Claudio Nizzi e Bruno Brindisi

A Polvo anuncia o lançamento de mais um volume de Tex, com a presença do autor Bruno Brindisi, na 6ª Mostra do Clube Tex Portugal que decorre hoje (dia 27 de Abril) em Anadia. A apresentação decorrerá pelas 16h00 no Auditório do Museu do Vinho Bairrada com a participação de Rui Brito e Mário Marques (para além da do autor).  O livro deverá chegar às livrarias a meio de Maio.

Deixo-vos a sinopse, a introdução de Pedro Cleto e algumas páginas:

Não é propriamente uma mensagem de amor e paz, aquela que é transmitida pelos homens às ordens do Pregador. Disfarçados de soldados, cometem assaltos sangrentos, sem mostrar qualquer indício de piedade pelos infelizes que se cruzam no seu caminho. Mas tais actos não se irão prolongar por muito tempo, pois o comandante do Fort Defiance encarregou Tex e Carson de partirem na peugada do bando. O início do fim, para o grupo do Pregador, chegou com o inesperado sequestro do filho de Tex!

Introdução:

Publicado inicialmente em Junho de 2002, em Itália, Os Predadores do Deserto” é um álbum diferente de Tex.”São todos diferentes”, dirão alguns, mas este destaca-se pela sua construção narrativa.

Escrito por Claudio Nizzi, segue de perto e de forma assumida a estrutura narrativa de A Balada do Mar Salgado”, a mítica aventura de 1967 que assinala a estreia de Corto Maltese, o alter-ego de Hugo Pratt, numa obra que é claramente uma homenagem a este autor.

Nizzi aproveitou para dividir o protagonismo deste relato pelos quatro pards habituais, sozinhos e/ou em grupo reduzido, enquanto Brindisi recriou com bastante credibilidade as vastidões do deserto e, com bastante distinção, ultrapassou aquele que é recorrentemente um dos maiores obstáculos para quem se inicia em Tex: o desenho dos cavalos.

Desta forma os autores oferecem aos leitores um western consistente, na linha das grandes produções cinematográficas e das míticas séries de Banda Desenhada que fizeram deste um género de eleição.

 

 

 

 

Tony Chu – Vol. 10 – Galo de Cabidela – John Layman e Rob Guillory

Demende, absurda, divertida e nojenta – estes são os melhores adjectivos que podemos usar para caracterizar esta série que tem, como personagem principal, Tony Chu. Para quem não tem seguido a série destaco que, na realidade aqui retratada as pessoas podem ter vários poderes associados à comida. No caso de Tony, consegue visualizar momentos da vida do que come, seja uma couve, uma vaca ou uma gota de sangue. Esta capacidade peculiar torna-se sobretudo interessante quando sabemos que Tony é um detective da FDA, o equivalente à ASAE. Ainda, na realidade retratada, o consumo da carne de frango foi proibido por conta de uma epidemia da gripe das aves.

Como detective da FDA Tony investiga todos os casos relacionados com comida, seja o consumo de carne de frango ou de carnes proibidas (como a de mamute congelado), seja o consumo de pistas que possam ser relevantes para o caso – levando a uma série de episódios nojentos mas divertidos, em que Tony é “forçado” às ingestões mais horríveis.

Depois de enfrentar vários inimigos com outras capacidades associadas à comida e de perder a irmã nesta batalha, Tony resolve, finalmente, reconciliar-se com os seus amigos e familiares, para poder encarar os seus medos e o mais terrível vilão! E é neste volume que assistimos à reviravolta que irá abrir caminho para os episódios finais da série.

Paralelamente, Poyo, o Galo de Combate que é agente especial da FDA aparece morto – e enquanto inferniza o quotidiano dos demónios, transformando o Inferno num verdadeiro suplício para estas criaturas, a sua carne apodrece num caixote do lixo!

Com os desenhos característicos de Guillory e o humor que é característico dos autores (e que podemos ver, também, em Farmhand que Guillory lança a solo), Tony Chu é uma série que tem de ser consumida com um estômago forte apesar do estilo cómico que torna mais ligeiro o tom nojento mas que confere, ao leitor, uma grande dose de diversão mirabolante.

A série Tony Chu é publicada em Portugal pela G Floy.

Batman 80 anos – Vol.4 – Gothtópia – John Layman e Jason Fabox

Neste quarto volume da série comemorativa dos 80 anos do Batman é-nos apresentada uma Gotham pouco usual! Ao invés de soturna, esta cidade apresenta-se como feliz e agradável! Os seus habitantes são felizes e tudo parece maravilhoso – ou quase tudo. Vários cidadãos aparentemente normais suicidam-se sem razão aparente e a versão feliz de Batman começa a desconfiar de que algo estará errado!

E descobre! Mas quando a cidade inteira é controlada por um vilão que quer, desta forma, semear um medo mais subconsciente, nem o Batman conseguirá escapar e rapidamente se vê isolado num hospital psiquiátrico. Felizmente, nem todos são susceptíveis às drogas espalhadas na cidade e Hera, uma vilã que tenta encantar Batman, fornece ao herói os meios para conseguir a fuga e o antídoto.

O que acontece quando uma cidade inteira é forçada a fingir uma utopia? Principalmente uma cidade tão negra e geradora de violência? Qual seria utopia possível em Gotham? É com base nesta premissa que se desenvolve o enredo, começando por nos mostrar um Batman capaz de manter um relacionamento feliz com Asa Felina.

A cidade é aparentemente feliz, mas entre as utopias impostas e as alucinações de uma felicidade, o medo continua a proliferar, assumindo uma forma muito mais perigosa. Para quem conhece Gotham esta máscara de normalidade é demasiado suspeita e até Batman parece converter-se – ainda que seja apenas como forma de camuflar as suas verdadeiras intenções e reunir armas que lhe permitam combater o vilão. Estamos habituados a que Gotham seja retratada como sombria e perigosa pelo que o retrato aqui apresentado no início nos é, também, suspeito.

Este volume possui, para além da história que dá origem ao título, uma outra em que o Batman enfrenta o homem morcego. Trata-se de uma curiosa mistura que confronta os morcegos, mostrando um cientista que enlouqueceu com a sua própria invenção! A história possui alguns detalhes cliché (na forma como apresenta o cientista) mas é visualmente muito forte.

A colecção comemorativa dos 80 anos do Batman está a ser publicada em Portugal pela Levoir em parceria com o jornal Público.

Assim foi: Ida ao Ludoclube

 

Ontem resolvemos experimentar o Ludoclube – um novo espaço onde se pode jogar e experimentar uma imensidão de jogos! E, realmente, as expectativas não desiludiram! Chegados ao espaço, o que se destaca é, sem dúvida, a quantidade de jogos disponíveis, de todos os géneros e feitios, muitos clássicos e indisponíveis para aquisição, muitos modernos e praticamente todos os do top 100 do Boardgamegeek.

Para além dos jogos, o espaço dispões dos usuais apoios logísticos que permitem a permanência durante muito tempo – para além dos jogos encontramos as necessárias mesas, bem como café, comida e casas de banho. E foi assim que ficámos em torno dos jogos, durante a tarde e uma boa parte da noite.

Exposição

Os jogos encontram-se dispostos em três secções:  à entrada encontramos uma estante branca que corresponde à ludoteca de exposição e que é composta por jogos de duração máxima de 60 minutos que podem ser mexidos para a escolha e para os quais existem explicadores no Sábado à tarde; no centro encontramos a ludoteca reservada que é onde se encontram a maioria dos jogos e que devem ser escolhidos antes de se pegar (não é permitido abrir e analisar cada caixa); em torno do centro encontramos o equivalente ao ponto de recolha do Jogo na mesa, onde se estão os jogos disponíveis para venda, em estantes mais claras.

Ludoteca reservada

Ludoteca reservada

Jogo na mesa

Jogo na mesa

Bem, então e o que jogámos? Após explorarmos o espaço, começámos com um abstracto interessante para dois jogadores, o Yinsh que recorda um pouco o Reversi na forma como se revertem as peças das áreas que vamos conquistando. A conquista faz-se através de anéis que se movem livremente em todas as direcções enquanto deixam peças da nossa cor no local que deixam e voltam as peças sobre as quais se movem.

A seguir pegámos no vencedor do Spiel des Jahres de 2018 para a categoria de conhecedores – o The Quacks of Quedlinburg. Trata-se de um deck building (neste caso num saco) com push your luck em que temos, como o nome dos mecanismos indica, de ir construindo um conjunto de possibilidades com peças de várias cores no nosso saco e de as ir retirando, uma a uma, até querermos parar ou até ultrapassarmos uma determinada quantidade de dano (sofrendo, neste caso, penalizações).

Ainda que o jogo se encontre em alemão, as regras em inglês que se encontravam no interior, permitiram jogar sem precalços e o jogo tem uma boa simbologia nas cartas e tabuleiros. O veredicto final é que se trata de um jogo engraçado e movimentado, com fortes mecanismos de recupeação, ainda que tenha de o jogar novamente para perceber se existem várias estratégias possíveis. Será, sem dúvida, uma aquisição futura se o apanhar a um preço acessível.

Seguiu-se um clássico que tem muito mais estratégia e complexidade do que parece à primeira vista – o Qwirkle. O jogo encontra-se praticamente indisponível mas é uma boa aquisição para quem deseja algo que possa reunir jogadores novatos e experientes. As jogadas são rápidas e simples (basta colocar uma peça, ainda que possam ser colocadas mais) mas com o prosseguir do jogo, o padrão torna-se mais complicado e a colocação pode permitir grandes pontuações ou abrir jogo para o adversário.

Robo Rally é um jogo bastante diferente dos anteriores, tratando-se de um jogo de programação de jogadas que se adequa ao número e experiência dos jogadores, pois traz vários tabuleiros com diferentes modificações e tamanhos.  Para além das cartas que podemos ir combinando para concretizar os objectivos, o tabuleiro possui modificações à localização e sentido do robot que, por vezes, estragam as nossas melhores previsões!

Para fechar a noite, retornámos aos abstractos, agora com Onitama. Trata-se de um jogo de mecânica bastante simples em que cada jogador tem cinco bonecos que pode movimentar conforme as cartas que temos – mas quando jogamos um movimento a carta que corresponde ao movimento passa para o adversário! Apesar da simplicidade o jogo possui alguns elementos de luxo que podem fazer valer a pena o preço.

Ainda que, desta vez, não tenhamos optado por jogos mais longos, o espaço possui imensos destes jogos! Para quem deseja experimentar jogos antes de os adquirir o Ludoclube pode ser uma excelente opção, tanto pela diversidade de jogos disponíveis, como pelas condições do espaço!

A cidade que não existia – Pierre Christin, Enki Bilal

Eis um livro curioso que transforma uma realidade dura e cinzenta noutra futurista e cómoda mas ainda mais desconfortável. A história começa por nos apresentar uma cidade típica em que uma única unidade fabril fornece o motor económico da região. Quase todos os homens trabalham na mesma fábrica, em míseras condições, enquanto que as mulheres trabalham na indústria fabril, costurando sob as ordens de uma dura patroa.

Dadas as dificuldades económicas, nesta dura realidade os trabalhadores revoltaram-se e perpetuam greve atrás de greve, tendo a intenção de ser donos dos seus próprios destinos e terem uma parcela dos lucros do negócio para o qual trabalham. Já o dono da fábrica, que faz, paralelamente carreira na política, enriqueceu à custa do suor dos seus trabalhadores e não pretende terminar este ciclo de exploração – mas a vida termina por ele, fazendo com que faleça, idoso e sovina.

A reviravolta inesperada na cidade acontece com a herdeira, uma jovem com problemas físicos, que resolve tomar as rédeas da situação. Se os administradores da fábrica esperavam uma jovem fraca e idiota, rapidamente percebem que a jovem tem um temperamento tão forte quanto o do velhote, e intenções bastante diferentes, dando poder aos trabalhadores e iniciando os planos para a construção de uma cidade futurista e utópica – mas também aborrecida e desoladora.

A história, de tom inicial cinzento, lentamente transforma a cidade numa utopia materializada – mas e se aquilo que desejamos realmente se concretizasse? Quão aborrecida seria a vida sem objectivos? Na prática é isso que ocorre para alguns, agora sem objectivos de melhoria de vida numa cidade que, simultaneamente, é um sonho e uma prisão. À semelhança da história os desenhos de Bilal são, inicialmente mais comedidos e cinzentos, podendo dar asas à imaginação apenas na última parte deste volume.

 

 

Novidade: Batman 80 anos – Vol. 9 – O Cavaleiro das trevas volta a atacar 2

Esta semana é lançado o nono volume da colecção comemorativa dos 80 anos do Batman, publicada pela Levoir em parceria com o jornal Público:

Neste segundo volume, Batman: O Cavaleiro das Trevas Volta a Atacar 2, que sai em banca a 18 de Abril, conclui-se o regresso do Batman crepuscular de Frank Miller.

A complexa intriga  que  envolve  a  maioria dos membros da Liga da Justiça cruza- se com a dura realidade do ataque às  Torres  Gémeas  em  11  de  Setembro de  2001. Um acontecimento real,  que Frank Miller acompanhou do seu estúdio em Nova Iorque e que acabou por influenciar  decisivamente  a  evolução desta  história,  que  começou  como uma  homenagem  aos  heróis e vilões do universo DC, para se tornar, tal  como  aconteceu  com  O  Regresso do Cavaleiro das Trevas, um reflexo da época em que a história foi feita.

Editado pela DC Comics em 1986, Batman: O Cavaleiro das Trevas foi uma das primeiras histórias de banda desenhada a receber destaque na grande imprensa do mundo inteiro. Juntamente com Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons, (já editado pela Levoir). Até hoje a sua influência faz-se sentir na indústria da BD do mundo inteiro. O Cavaleiro das Trevas inspirou autores a ousarem mais nas suas obras, enquanto levou muitos a cultivar uma estética violenta que quase se tornou padrão dos super-heróis no final dos anos oitenta e começo dos noventa.

Um dos contributos de Frank Miller neste livro para o universo DC foi a criação de Lana, a filha superpoderosa do Super-Homem e da Mulher-Maravilha. Resultado da união entre os dois mais poderosos heróis da DC, relação essa que se tornará canónica durante a fase dos Novos 52, a personagem de Lana irá ser uma das protagonistas de DKIII.: The Master Race, a continuação, ainda inédita em Portugal, deste O Cavaleiro das Trevas Volta a Atacar, que assinalou o regresso de Frank Miller após alguns anos de afastamento, motivado por doença. Obra tão controversa como incontornável, O Cavaleiro das Trevas Volta a Atacar confirma a vontade de arriscar, por parte de um autor que nunca descansou à sombra dos louros conquistados — e obras como Ronin, 300, O Regresso do Cavaleiro das Trevas, Batman: Ano Um, Sin City e Demoli-dor: Renascido já seriam mais do que suficientes para lhe assegurar um lugar no panteão dos melhores autores de comics de todos tempos — e que procurou explorar novos caminhos, mesmo que esses  não sejam necessariamente aqueles que a maioria dos seus leitores esperava que ele seguisse.

 

Novidade: Colecção Spirou

A Asa lança, em parceria com o jornal Público, uma colecção de Spirou! Para quem não conhece trata-se de uma série clássica de banda desenhada de aventuras em que Spirou e Fantásio percorrem mundo enquanto combatem malfeitores, fazem reportagens e descobertas.

Para as crianças esta coleção apresenta aventuras fantásticas. Para os adultos, humor inteligente. Para todos, um clássico sempre jovem – e para muitos, um dos vértices da “Sagrada Trindade” da BD franco-belga clássica, a par de Tintin e Astérix. Junte-se numa viagem pelo mundo à boleia das aventuras de Spirou, do seu amigo inseparável Fan tásio e do esquilo Spip.

Esta coleção, que resulta da parceria ASA/Público é composta por 11 volumes, alguns duplos e outros com várias histórias, e integra todas as aventuras de Spirou e Fantásio da autoria de Franquin, proporcionando assim uma compilação inédita em português.

Eis os volumes que compõem esta colecção:

  1. O Feiticeiro de Champignac / Spirou e os Herdeiros
  2. Os Ladrões do Marsupilami / O Chifre do Rinoceronte
  3. O Ditador e o Cogumelo / A Máscara Misteriosa
  4. O Refúgio da Moreia / Os Piratas do Silêncio
  5. O Gorila e Outras Aventuras
  6. O Dinossauro Congelado e Outras Aventuras
  7. Z de Zorglub / A Sombra do Z
  8. QRN sobre Bretzelburgo / Sarilhos em Champignac
  9. A Herança e Outras Aventuras (*)
  10. Os Chapéus Pretos e Outras Aventuras
  11. Os Elefantes Sagrados e Outras Aventuras(*)

(*) segundo a editora estes volumes incluem histórias inéditas em Portugal

 

Resumo de leituras: Abril de 2019 (2)

 

29 – O outro lado de Z – Nuno Duarte e Mosi – Nuno Duarte volta à banda desenhada com traço de uma nova autora nacional, Mosi, numa história fantástica onde a monotomia do real é quebrada, e as personagens (trabalhadores de call center) que levam vidas cinzentas, são empurradas para melhores existências ;

30 – Isola – Vol.1 – Brenden Fletcher, Karl Kerschl, Masassyk – Visualmente interessante, este primeiro volume denota alguns elementos narrativos que precisavam de ter sido melhor polidos. Existe, desde a primeira página, um sentido de urgência que, sem elementos suficientes, torna difícil ao leitor sentir-se cativado pela história. Percebemos apenas que a rainha foi transformada num tigre e que uma soldado tenta protegê-la e encontrar quem reverta a transformação;

31 – A cidade que não existia – Pierre Christin, Enki Bilal – A história começa como um usual confronto de classes numa cidade à beira do colapso. O homem rico que comandava a cidade morre no meio de uma série de greves laborais – os trabalhadores, contagiados pelo espírito político, pretendem ganhar mão no seu próprio destino e uma percela na fábrica em que trabalham, compreendendo que não existem, ali, outras formas de subsistirem;

32 – Filhos do Rato – Luís Zhang e Fábio Veras – A par com a guerra os soldados descrevem outros cenários nojentos e horríveis, talvez como forma de se afastarem dos horrores que vivem diariamente numa guerra particularmente violenta do ponto de vista psicológico. As facções políticas oscilam, bem como os lados das batalhas e o resultado é brutal.