A prisão de Robertsonville – Vol. 2 – Os Túnicas Azuis – Willy Lambil e Raould Cauvin

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Capturados pelo inimigo na tenebrosa (e bastante famosa, mas não pelos melhores motivos) prisão de Robertsonville, o Sargento Chesterfield e o Cabo Blutch moem a paciência de qualquer um com as constantes e mirabolantes tentativas para escapar.

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Neste segundo volume assistimos à continuação do relacionamento disfuncional (mas comicamente funcional) entre o Sargento e o Cabo, o primeiro honrado e sempre pronto a partir em batalha, o segundo, cínico e sempre queixoso, esquivando-se à mínima oportunidade.

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A dupla funciona, conferindo às pequenas aventuras os detalhes cómicos de que necessita para conseguir contar e retratar alguns episódios e detalhes históricos da Guerra da Recessão, num ambiente leve e divertido que nos mantém na expectativa para o próximo detalhe rocambolesco.

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Em Portugal a série Os Túnicas Azuis foi recentemente republicada através da parceria da Asa com o jornal Público.

Eventos: MotelX – 10 anos de Terror

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No próximo dia 21, pelas 17h30, terá lugar, na Cinemateca de Lisboa, a apresentação do livro MotelX, 10 anos de Terror. A apresentação é seguida pela projecção do filme Society de Brian Yuzna, gratuita para os que tenham adquirido o livro (podem ver indicação na página oficial). A apresentação caberá a João Antunes, Pedro Souto & João Monteiro.

Para mais detalhes sobre o evento podem consultar a página.

Estação das Brumas – Vol.4 – Sandman – Neil Gaiman, Kelley Jones, Mike Dringenberg, Malcolm Jones III, Matt Wagner, Dick Giordano, George Pratt, P. Craig Russell

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O quarto volume contém os episódios mais cómicos (pela vertente irónica) que li, até ao momento na série. Iniciando-se com um desastroso encontro familiar, Sonho deambula até ao Inferno para procurar uma antiga amada que terá injustamente condenado, por mau feitio. O que Sonho não espera é que, ao invés de encontrar o Diabo furioso, encontra-o farto de corresponder às necessidades de governar o reino para castigar a maldade e abandona os seus domínios, deixando a Sonho a chave e o destino do Inferno.

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Mas se o Diabo está farto, outras entidades, provenientes das mais diversas mitologias, estão interessadas em governar o Inferno e dirigem-se, para tal, aos domínios de Sonho para o convencer de que serão os mais adequados sucessores ao governo do local. Sonho recebe-os revelando-se um anfitrião exemplar e confere, a cada excursão, uma audiência onde poderão expressar as suas condições e objectivos.

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Com o esvaziar do Inferno os mortos regressam, causando o caos na Terra numa sucessão de episódios cómicos perspectivados, numa primeira abordagem, por uma criança numa escola. De repente os que encontra estão mais ocupados a cuidar dos falecidos ou a obedecer à falecida mãezinha, e a criança depara-se com uma realidade estranha e desprovida de sentido.

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Depois do cativeiro e da recuperação apresentadas nos dois primeiros volumes, bem como das várias histórias apresentadas no terceiro, é neste que Sonho se torna numa personagem mais real, Eterno, mas com defeitos, capaz de admitir culpa, capaz de agir para expiar as suas próprias acções, mas com pouca paciência para enfrentar as várias exigências e expectativas com as quais é confrontado.

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Para além do evidente crescimento e consolidação da história, este volume destaca-se por apresentar uma brutal introdução de Harlan Ellison, o autor responsável por alguns dos melhores contos de fantasia e ficção científica de sempre que destaca a força que a mediocridade, acutilada pela inveja, pode ter:

Perfeição. Excelência. Uma amante muito apaixonada. Mas, depois de termos saboreado os lábios da excelência , uma vez que nos entregámos à perfeição, quão monótonas e penosas e cheias de anomia são as horas restantes, presos nas correntes regulares do meramente vulgar, do simplesmente aceitável, do que está só razoável e nem um pouco melhor do que isso. É triste, mas a maioria das vidas seguem esse padrão. (..) A excelência, quando vista pelos que não têm talento e são vulgares, produz prazer e espanto; mas, nos que possuem um mínimo de talento, causa ódio e inveja capazes de ferver.

A excelência é o seu próprio mestre, não obedece a ninguém, não se dobra a nenhum regime. Existe pura e inteira, como o disco de prata da Lua. Intocável, inatingível, extraordinária. Mas frustra-nos, porque nos lembra quanta mediocridade temos de aturar só para conseguirmos chegar ao fim da semana.

A série Sandman foi publicada pela parceria Levoir / Público.

Resumo de Leituras – Fevereiro de 2017 (4)

37 – Os Cavaleiros do Céu – Vol.1 – Os Túnicas Azuis – Willy Lambil e Raoul Cauvin – O primeiro volume revelou uma história leve que, apesar de decorrer durante a Guerra da Secessão, usa a dinâmica entre duas personagens bem diferentes mas inseparáveis para aligeirar o tema e dar constantes toques cómicos. Uma leitura leve e divertida;

38 – Malus – Christopher Webster – Entre ensaios farmacêuticos que têm impactos inesperados assistimos a uma mescla de surrealidade e de viagens subconscientes, a confrontos intensos e fantásticos;

39 – Waltz with Basir – Ari Folman e David Polonsky – Banda desenhada poderosa que discorre paralelamente sobre a memória peculiar de um soldado e a sua peculiar experiência da Guerra. Forte pela temática onde os civis são arrastados para o cerne do horror da guerra, interessante pela perspectiva pouco usual, diferente pela forma como resolve explorar um tema sensível, Waltz with Basir é uma leitura marcante;

40 – Remington – Listopad – Aconselhado durante uma das sessões de Recordar os Esquecidos, reúne vários textos curtos do escritor que cruzam referências a personalidades com referências históricas, tudo numa forma quase banal e corriqueira, que passam, aos olhos de quem lê, quase como episódios normais – mas na verdade, poucos o são.

Destino Adiado – Tomos I e II – Gribat

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Publicado na Colecção Grandes Autores de Banda Desenhada este volume duplo de Destino adiado de Gribat conta a história de um rapaz que deserta da guerra, mas, por sorte, é dado como morto – o comboio onde era suposto viajar sofre um aparatoso acidente e os papéis de identidade estavam com um corpo irreconhecível.

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Escondido na vila onde sempre viveu, na casa do seu antigo professor, levado à força pela milícia e tendo, como única companhia a tia que sabe da sua sobrevivência, Julien assiste ao quotidiano da vila num local privilegiado. De uma janela bem posicionada vê, no cemitério, o seu próprio funeral, de outra, vê a sua amada servir numa esplanada e os avanços que outro rapaz tenta fazer sobre ela.

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Apesar de isolado tudo decorre numa pacífica rotina até ao dia em que decide espreitar mais de perto a amada, ruído de ciúmes por ver um carro parado em sua casa. Após uma grande chuvada acorda no celeiro, surpreendendo a jovem que o julgava morto. A partir daqui o dia-a-dia torna-se num lento sonho, entre as visitas da tia, os encontros com a namorada e uma pacífica colaboração com a resistência.

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Escondido mas bem disposto, Julien diverte-se a acompanhar a vida na vila, sem fazer propriamente parte dela. O facto de o julgarem morto permitiu-se fugir à guerra sem represálias mas tem de permanecer no esconderijo a maior parte do dia. As suas curtas saídas raramente são percebidas – e quando o são o mais provável é pensarem tratar-se de uma alucinação de um bêbado.

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Apesar da guerra e dos raros aparecimentos militares, a vila vive num clima relativo de paz, escondendo uma série de actividades ilícitas através das quais se espera resistir e enfrentar a ocupação – nem sempre com grande sucesso.

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Em Destino Adiado a vida é suspensa. Julien aproveita para passar bons momentos com a namorada e com a tia, numa existência sem grandes objectivos ou actividades, um espectador quase inerte e passivo que assiste aos acontecimentos sem se envolver. Uma história que se prende com a inevitabilidade do destino, Destino Adiado é um relato bem disposto de uma época conturbada onde as populações sobreviviam, receosas mas desenrascadas.

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Waltz with Bashir – Ari Folman e David Polonsky

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Ao contrário do que nos diz o nosso cérebro, a memória é algo volátil, em transformação constante, capaz de nos enganar e de nos iludir, capaz de se esconder no nosso inconsciente e de retornar nos momentos menos prováveis. Por vezes este esconder é um mecanismo de defesa, uma forma de nos protegermos a nós próprios, uma forma de mantermos a integridade emocional e de resistir à mudança inevitável que o aceitar dessas memórias traria.

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Um dia um homem resolve contar o pesadelo que o assola, eternamente perseguido pelos cães que matou. Não sabe que o contar do episódio nocturno repetitivo levará, a quem ouve, a ter um flashback da guerra que viveu e da qual nada recordava, iniciando-se uma busca pelos motivos do esquecimento e dos traumáticos acontecimentos ocorridos.

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Entre os vários relatos que busca reconstroem-se ocorrências de um horror quase indescritível, percepções de uma guerra que decorre em cidades e envolve fatalidades civis, pelos olhos de rapazes quase adolescentes que pouco ou nada sabem da vida e muito menos das ordens que receberão.

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Por vezes quase silencioso em relação aos episódios que apresenta, Waltz with Bashir apresenta a realidade pesada e vergonhosa da Guerra no Líbano em 1982, com os massacres que ocorreram durante a guerra. O que o torna peculiar é a perspectiva do soldado que se dissociou das suas próprias memórias, e a perspectiva com que são contados os relatos, pessoal e centrada nos soldados, meros rapazes, peões sem poder de decisão num conflito em que participam mas não controlam.

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Na sua maioria, as imagens destacam a figura do soldado mas nem sempre o integram totalmente no que o rodeia, à semelhança da dissociação que ocorre na sua mente. As cenas de guerra e carnificina confrontam-se com as da cidade por vezes aparentemente pacífica e com as tentativas de vida pessoal destes soldados nas poucas folgas que têm.

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Poderoso pelos cenários que apresenta, vergonhoso como qualquer guerra, Waltz with Bashir contém imagens e perspectiva que não deixam o leitor indiferente, mostrando como a carnificina pode marcar de forma bastante diferente a mente e a realidade de cada um.

Eventos: Sustos às sextas 2017 – 3ª Edição

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A segunda sessão da edição de 2017 já tem data marcada para esta sexta-feira! Eis o programa:
21:00 Recepção dos convidados
21:30 Fado com JORGE MENDES
21:45 Palestra “Folk Horror”, por ANTÓNIO MONTEIRO
22:30 Pausa para café
22:45 Dramatização do conto “Harry”, de Rosemary Timperley
23:15 Sustos às Sextas e CRISTINA ALVES recomendam…

Matiné – Magno Costa e Marcelo Costa

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Em três curtas histórias de acção Matiné relembra os filmes de acção  onde a violência extrema é altamente justificada, componente prática resultante da realidade em que se apresenta, quase normal e dessensibilizada no contexto em que se integra.

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O ambiente é negro e pesado, mas nem por isso totalmente desprovido de esperança e amor, uma pequena ilha positiva, por vezes esmagada num extenso mar de confronto físico onde se excede a maldade e a indiferença. Como resultado ocorrem episódios pontuais de justiça que, não compensando a totalidade do mal causado, expiam parte da carga negativa.

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Como os filmes antigos, Matiné apresenta-se a preto e branco, num belíssimo trabalho visual que espelha bem o ambiente e expressa a dureza dos episódios, com um ou outro toque fantásticos, colocando em relevo o papel da morte, bastante principal nas histórias que aqui se reúnem.

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As três histórias criam um ciclo quase perfeito onde não há lugar para a justiça dos polícias e dos tribunais mas onde, alguns homens, pelas suas próprias mãos se dedicam a balancear o mundo onde se encontram. O único defeito de Matiné é a sua extensão, demasiado curta e que gostaria de ver mais extensamente explorada.

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Matiné foi publicado pela Polvo.

Casa de Bonecas – Sandman – Neil Gaiman, Mike Dringenberg, Malcolm Jones III, P. Chris Bachalo, Michael Zulli, Steve Parkhouse

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No segundo volume de Sandman, o eterno responsável pelos sonhos continua a demanda para restabelecer o equilíbrio que o cativeiro causou no seu reino e nos sonhos dos homens.

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O volume começa, no entanto, com uma história bem diferente, a história de um grande amor que Sonho terá vivido com uma mortal, não uma mortal qualquer, uma rainha que se sacrificou a bem do seu povo e do reino terreno que controlava – um sacrifício que pagará bem caro.

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Se, por um lado, os seres que abandonaram o reino provocam distúrbios na nossa realidade e precisam de ser capturados, Sonho tem ainda que se preocupar com o controlar de um poderoso vórtice, um fenómeno que envolve uma jovem rapariga que se torna, assim, num chamariz para os mesmos seres pouco amistosos que deambulam pela Terra.

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O atingir de um novo equilíbrio irá requerer confrontos e sacrifícios, ainda que nem sempre da forma perspectivada por Sonho. Lentamente recupera o domínio sobre os seus subalternos e refaz o reino que se irá desenvolver sob novos padrões. Os vários episódios tornam-se, por vezes, violentos e acabam por ter consequências para todos os envolvidos, transformando a percepção que têm da realidade e do que os envolve.

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Paralelamente a esta narrativa, carregada de monstros e detalhes surreais entrelaçados com aparente normalidade, as restantes histórias criam uma mitologia circundante e conferem, a este universo, uma trama mais densa. Seguem-se as referências externas (onde se encaixam personagens de outras histórias e mitologias) e internas (entre os vários volumes voltados a ver referências às mesmas personagens e acontecimentos) que criam um intenso sentimento de familiaridade onde facilmente se encaixam os elementos estranhos.

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Apresentando diferentes estilos, por vezes desconexos entre o que representam e a descrição, Sandman atinge o estatuto de obra-prima sobretudo pelas ligações que constrói, pelo lento surgir de todo um Universo que poderia estar interligado ao nosso sem que nos apercebêssemos, pela criação de uma possibilidade que quase vislumbramos pelo canto do olho.

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A série Sandman foi publicada pela parceria Levoir / Público.

Eventos: Lançamento – Lovesenda de António de Macedo

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Há já algum tempo que António de Macedo refere um livro que teria escrito mas que ainda não tinha editora. Eis a grande novidade fantástica do ano no cenário nacional – o livro já tem editora, a Editorial Divergência! Cruzando as várias influências culturais durante a época Medieval no território da Península Ibérica, Lovesenda é uma história mágica carregada de simbolismo, numa linguagem elegante que nos faz escorregar facilmente de página a página. Curiosos? O lançamento é já dia 18 de Fevereiro!

Os Túnicas Azuis – Os Cavaleiros do Céu – Willy Lambil e Raoul Cauvin

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A série Os Túnicas Azuis terá sido publicada originalmente pela Edinter e está a ser lançada pela Asa em parceria com o Público, esperando-se o lançamento de quinze volumes. Este primeiro volume apresenta-nos a dupla composta pelo Sargento Chesterfield e pelo cabo Blutch, uma dupla caricata e com tendência para o desastre que consegue escapar ilesa nos mais mirabolantes episódios.

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Tendo como cenário a Guerra da Secessão, Os Cavaleiros do Céu começa por nos indicar que a unidade de cavalaria em que se enquadra a dupla foi quase totalmente dizimada. Sem unidade, são ambos indicados para experimentar o novo balão de ar, a próxima arma de vigilância contra o inimigo. A primeira experiência como cobaias corre melhor do que seria de esperar, e acabam por passar este volume em aventuras de guerra passadas no balão, em episódios de piadas fáceis mas funcionais que distraem o leitor.

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Sempre em posição segura, por oposição à nossa dupla, as chefias hierarquicamente superiores, é que acabam por sofrer sucessivos acidentes que os colocam fora do campo de batalha, culpando o sargento e o cabo que lá se vêem atirados para nova missão impossível.

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Possuindo temperamentos diferentes completam-se e conseguem constituir a dupla cómica. O sargento é um homem mais sério e responsável que contrasta com o espírito irreverente, mirabolante, refilão e irresponsável do cabo. A união de ambos leva-os a ser indicados para missões estranhas e perigosas, nas quais escapam sempre por um triz em cenários cómicos e inventivos.

A série Os Túnicas Azuis está a ser publicada através da parceria Asa / Público.

A doença, o sofrimento e a morte entram num bar – Ricardo Araújo Pereira

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Ainda que não seja o primeiro livro de Ricardo Araújo Pereira, é o primeiro que li do humorista. Apesar de sentir curiosidade pelo que escreve o humorista que costuma ter umas tiradas inteligentes, foi sobretudo o título que me captou o interesse. O que encontrei foi um pequeno livro de dissertações que fala sobre o conceito de comédia e as ferramenta que podem ser usadas, tecendo paralelismo entre obras e referências culturas e cruzando, por vezes, ditados e expressões para associar estas noções ao senso comum.

Sendo uma abordagem inteligente e que conseguirá captar a maioria dos leitores, nem sempre funcionou comigo. O chamado senso comum está carregado de ideias erróneas que facilmente podem ser usadas para suportar, de forma falaciosa, qualquer ideia ou teoria.

Talvez as pessoas que fazem do humor uma segunda natureza sejam mais frágeis do que as outras, tenham mais dificuldade em lidar com a aspereza do mundo. Por isso, inventamos um estratagema que lhes permite assistir à vida a partir de um refúgio, observar as suas próprias desgraçadas como se elas acontecessem a uma representação de si mesmas, enquanto permanecem num plano de realidade diferente, a uma distância cuidadosa das coisas – demasiado duras para serem experimentadas directamente, sem um filtro que se interponha entre elas e o coração.

Ainda assim, o livro possui pensamentos interessantes, alguns deles frontalmente retirados (e referenciados) de outros autores, interligando-os com obras e exemplos específicos em que determinado tipo de humor é usado. Seja como forma de protecção ou de superioridade, como alienação ou como tentativa de definir familiaridade, o humor pode ser repetição inesperada, silêncio, atitude, ou situação. O humor pode não ser propositado, pode ser simplesmente uma opinião que, expressa e lida (ouvida) por determinada pessoa em determinado contexto, apresentar relevância ou perspectiva diferente.

Um dia, alguém censurou Aristipo de Cirene por repelir o próprio filho. Disseram que o tratava como se não tivesse sido ele a gerá-lo. O filósofo respondeu que também gerava expectoração e, sendo ela inútil, a repelia igualmente para o mais longe possível. (…) (Ogden Nash) escreveu um poema sobre as pessoas que, pelo simples facto de terem gerado uma criaturinha, passam a considerar-se admiráveis. Se isso é verdade, argumenta Nash com rima e graça, uma simples mosca é vários milhões de vezes mais admirável.

Entre referências bibliográficas e exemplos por si cómicos, Ricardo Araújo Pereira demonstra as várias técnicas usadas para o humor em pequenos textos que espelham cultura e bom humor inteligente. O resultado é um livro engraçado, mas demasiado curto, uma reunião de diferentes textos sobre o assunto que se complementam e apresentam uma boa introdução sobre o tema do humor.

A doença, o sofrimento e a morte entram num bar foi publicado pela Tinta da China.

Resumo de Leituras – Fevereiro de 2017 (3)

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33 – A Feira dos Imortais – Enki Bilal – Aproveitando a mitologia egípcia, apresenta alienígeneas à sua semelhança, com características paralelas, que interagem com os seres humanos numa sociedade futurística e distópica, uma sociedade que necessita urgentemente de uma revolução;

34 – O sono do monstro – Enki Bilal – Tal como A feira dos imortais, esta história foi surpreendente para quem só conhecia os álbums mais recentes, tanto do ponto de vista gráfico, como do ponto de vista de enredo, apresentando várias personagens mais complexas que se envolvem numa trama política a escala mundial;

35 / 36 – Destino adiado – Tomos I e II – Gibrat – Um jovem deserta e tem a sorte dos seus papéis serem encontrados juntos de um cadáver irreconhecível. Dado como morto pelo exército esconde-se na sua vila e ocupa uma casa central que lhe permite acompanhar o dia-a-dia dos que conhece sem se revelar. Apaixonante, romântico, mas mostrando a inevitabilidade do destino, este tomo duplo revelou uma história muito tocante e envolvente.

A Ermida – Rui Lacas

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Este pequeno livro consegue surpreender positivamente de duas formas – por um lado pela história, por outro pelo aspecto gráfico. Tenho a destacar que, ao longo dos anos, tenho criado alguma aversão pela aspecto institucional da Igreja (não é uma questão de crença ou de quem acredita, mas por algumas atitudes hipócritas da instituição e dos seus representantes). Isto tudo para explicar que, apesar desta minha reacção, é impossível não sentir algum carinho e empatia pelo padre, a personagem principal desta pequena história.

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O quotidiano é pacífico e humilde até ao dia em que uns homens de aspecto soturno entregam ao padre uma fortuna em jóias para ele guardar. Receoso, o padre entra em pânico quando estas desaparecem, temendo a presença de um ladrão contra o qual se prepara para se defender.

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Felizmente a ditadura portuguesa está nos últimos dias e com o término do regime vem uma agradável surpresa que o padre aproveita da melhor forma possível, mantendo o tom carinhoso e empático do episódio.

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Esta pequena história, de poucas falas, inspira um enorme simpatia graças à força das expressões e dos modos que as personagens apresentam. Ainda que o tipo de coloração, a uma cor, não seja dos que costumo preferir, o aspecto final resulta muito bem para dar o aspecto e o ambiente pretendidos.

A Ermida de Rui Lacas foi publicado pela Polvo.

Orchidea – Cosey

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Se inicialmente o estilo e o tipo de história não parecia de todo o meu género, tenho a dizer que fui bem surpreendida com o desenvolvimento das personagens que aparentavam ser bastante lineares e cliché. O decurso dos acontecimentos torna-se pouco expectável e aquilo que me pareciam, inicialmente, interacções superficiais são na verdade o resultado de anos de convivência e de familiaridade.

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Três irmãos reúnem-se para visitar, no lar, o pai no seu aniversário. Durante a viagem de carro em que aproveitam para por em dia as piadas comuns e as picardias usuais entre irmãos, chegam finalmente ao destino para perceber que o pai fugiu do lar. Percebendo que mais provavelmente terá partido em aventura do que raptado, e conhecendo bem o cérebro científico do velhote, procuram-no no único local para o qual têm uma pista, um terreno isolado, algo distante da cidade.

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O que encontram é inesperado. O pai está acompanhado por uma mulher mais jovem e temperamental, grávida e quase em fim de tempo. Os dois têm uma curiosa relação que choca a filha mas que é enfrentada com agradabilidade pelos filhos. No terreno o pai montou um velho observatório, interligando-o com um bar. Não esperam muitos clientes, nem será esse o objectivo, antes uma existência pacífica e algo isolada, mas sobretudo divertida.

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Neste seguimento a história torna-se romântica. Não o romance entre dois apaixonados, mas o romantismo de deixar a segurança e de partir em aventura, recomeçar a vida uma vez mais pondo em risco toda a segurança emocional que seria típica da velhice.

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Estranhamente, a este romantismo reúne-se um surpreendente código de honra, num final elegante que consegue surpreender pela positiva, apesar de se afastar do nível de aventura e loucura que inicialmente é percepcionado. O romantismo das possibilidades infinitas enfrenta a realidade e sobrevive parcialmente com o surgir de novas possibilidades.

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Orchidea foi publicado pela Witloof.

Azul – Michel Pastoureau

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Um livro sobre a cor é algo curioso. Ainda para mais porque, neste caso, é sobre a cor, mas sobretudo sobre as diferenças culturais e científicas que levaram à diferente adopção do azul no vestuário e, mais tarde, na arte. Infelizmente a perspectiva é sobretudo ocidental, centrando-se bastante no Império Romano e, mais tarde, na época Medieval.

A cor não é uma coisa em si mesma, e ainda menos um fenómeno relacionado exclusivamente com a visão. Ela é apreendida juntamente com outros parâmetros sensoriais e, por isso, tonalidades e matizes não constituem aspectos essenciais.

Se o azul começou por ser, durante o Império Romano, associada aos povos bárbaros e, por isso, pouco usada ou comentada pelos romanos, durante a Idade Média começa como uma cor sem associação simbólica, por comparação com o vermelho, o preto ou o branco, cores que, associadas a personagens, conferiam automaticamente uma série de características e papéis estereotipados.

Só mais tarde, já adiantada a Idade Média (séculos XI, por exemplo) a cor começaria a ser usada e associada a brasões e bandeiras, ganhando lentamente adesão. O problema da cor continua, no entanto, a ser a dificuldade em arranjar tintas que consigam tingir com sucesso os tecidos. Não apenas nos tecidos. As tintas que existem e que são usadas artisticamente ou são demasiado caras ou instáveis, e por isso pouco usadas.

Cor que é considerada, durante muito tempo, neutra, pode ser usada por qualquer estrato social e económico em conjugação com as que lhes estão destinadas, ganhando maior adesão, vários séculos depois, com a ganga. É tipicamente a cor neutra de quem se quer manter na norma, a cor que não suscita especial relevância psicológica e, talvez por isso, aquela que é escolhida por uma grande maioria como a cor preferida.

Pela temática peculiar, Azul é daqueles livros que me pareceu interessante mas que peguei com receio por achar que se poderia tornar maçudo. Apesar de algumas pequenas repetições o autor disserta intercalando factos e factores, discorrendo com facilidade e vontade o que resulta num texto de leitura fácil e agradável.

Azul foi publicado pela Orfeu Negro.

Memórias D’Além Espaço – Enki Bilal

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Neste Memórias D’Além Espaço reúnem-se várias histórias de Enki Bilal que decorrem sobretudo no exterior da terra e envolvem outras espécies inteligentes, espécies com códigos diferentes dos nossos que cuja interacção deriva numa estranha e catastrófica confusão diplomática.

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Mas aqui não se ironizam apenas os contactos com outras culturas, mas também a interacção com robots e inteligências artificiais ou homens que se cruzaram com robots de forma simultaneamente louca e romântica. Os seres humanos continuam a tentar usar os outros seres que encontram e que fabricam, relativando as suas necessidades e pensamentos, e julgando que podem facilmente manipular com uma atitude condescendente e prepotente.

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Aqui encontramos espécies alienígenas que destacam as suas próprias cabeças, mantendo-se conscientes e vivos, espécies que se dedicam à paz e à harmonia apesar das capacidades que fariam deles excelentes soldados, plantas que criam ilusões fenomenais e amores impossíveis entre robots e humanóides.

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Divertido e irónico, possui algumas histórias engraçadas, destacando-se pelo aspecto gráfico de algumas componentes, carregadas de aspectos futuristas mas, ainda assim, tão humanos.

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