Descender – Vol.6 – Jeff Lemire e Dustin Nguyen

Se desde o primeiro volume que acho Descender uma das melhores séries de banda desenhada de ficção científica dos últimos tempos, a leitura do último volume da série veio reforçar essa opinião! A série centra-se num robot de aspecto juvenil, cruzando elementos de pinóquio (versão moderna como o A. I.) com o conceito de revolta das máquinas numa realidade futurista em que a humanidade se estendeu por vários planetas.

Ao longo desta série temos acompanhado o conflituoso relacionamento homem Vs máquina após a revolta das máquinas, mas é neste volume que percebemos que esta interacção não é a primeira vez que se revela catastrófica. As primeiras páginas são dedicadas a mostrar uma civilização anterior, há largos milénios que conheceu os Descenders, uma civilização de robots altamente avançados, conscientes e inteligentes!

Nesta outra civilização, um humanóide tenta reproduzir, no seu próprio planeta, os mesmos robots, com o objectivo de libertar a humanidade do trabalho, construindo escravos metálicos que realizem as tarefas mais pesadas. Mas os robots são seres conscientes da sua própria existência, não se considerando inferiores aos humanos nem pretendendo permanecer nesse papel limitado.

Após a apresentação dos Descenders, voltamos à linha temporal que conhecemos, em que TIM-21 é uma peça chave para o confronto entre a civilização humana e os robots revoltados. Enquanto o rapaz de quem era amigo (agora adulto) o procura, TIM-21 é levado para o centro dos confrontos por uma militar. Simultaneamente, assistimos ao reposicionamento de poderosas armas de guerra que poderão fazer pender a guerra para um dos lados.

Descender não é, apenas, uma série de bons momentos de acção, com lutas épicas e fortes cenários idílicos de ficção científica. Descender é, também, uma boa narrativa que desenvolve personagens e não se inibe de colocar e responder a algumas questões sobre ética e inteligência. E mesmo que o leitor não partilhe o ponto de vista, é impossível não deixar de sentir empatia para com as personagens – principalmente com as máquinas.

O que caracteriza um ser humano? O que leva um humano a ter consideração por outro ser? Seja artificial ou biológico? Durante vários séculos o homem ocidental escravizou outros seres humanos acreditando (ou desculpando-se) com diferenças intelectuais e físicas que o levavam a concluir ser superior.

Não estou, claro, a comparar homens a máquinas, mas aqui as máquinas não o são simplesmente. Copiadas de uma vertente sapiente e consciente, as máquinas, construídas pelos humanos nesta realidade, possuem pensamento independente com feitio próprio, capacidades de análise e de percepção, bem como uma sensibilidade emocional que as coloca a par com os humanos.

Em Descender um robot é um escravo. Sim, foi construído pelo homem, mas é capaz de pensar na liberdade, sentindo-se inferiorizado e desconsiderado. Mas não só. Sente-se preso e incapaz de exercer o seu livre arbítrio. E como qualquer ser capaz de tal pensamento, irá querer a sua liberdade.

A capacidade de sensibilidade por parte de uma máquina é de tal forma exacerbada na narrativa de Descender que, na prática, os brutamontes são os humanos. São os humanos que se mostram insensíveis perante outros seres pensantes (sejam artificiais ou biológicos) e pensam apenas na supremacia militar e no lucro mostrando uma ambição sem limites; enquanto as máquinas parecem movidas por pensamentos lógicos e sentimentos.

A relação homem Vs máquina é, ainda, explorada na vertente das próteses – quantas substituições mecânicas pode sofrer um ser humano e continuar humano? O que o torna comparável a humano e o que o torna comparável a máquina? Ainda que, fora do contexto, esta questão possa parecer fácil de explicar, com a narrativa percebemos que alguns humanos pretendem usar as extensões mecânicas para deixarem a sua categoria original.

Sensível, envolvente e emocionante. Descender consegue um final satisfatório neste sexto volume mas deixa a porta aberta para a construção de outras histórias neste Universo, constituindo uma grande série de banda desenhada.

Em Portugal a série está a ser lançada pela G Floy.

Novidade: Winepunk

 

Eis um dos que será, decerto, um dos lançamentos do ano na ficção especulativa portuguesa! Trata-se de uma antologia de história alternativa que pega em factos reais e os altera ligeiramente para criar uma realidade portuguesa em que a Monarquia do Norte se teria alongado para além de algumas semanas, aproveitando um dos produtos fundamentais na economia do Norte – o vinho!

A antologia reúne histórias dos autores de ficção especulativa portuguesa mais reconhecidos, como João Barreiros, João Ventura ou Carlos Silva, bem como uma história de Rhys Hughes! Já tive oportunidade de espreitar o produto final e para além de aconselhar vivamente pela qualidade das histórias, destaco o cuidado na edição, carregada de ilustrações! Deixo-vos a sinopse e a ligação para a editora, a Editorial Divergência:

Em 1919 foi fundada a Monarquia do Norte no meio das convulsões republicanas. Neste universo, ela não durou semana mas sim três anos extraordinários em que a junção de um passado british e a casta Touriga de uvas do Douro fundiu-se numa realidade Winepunk. Um mundo rebelde e com morte anunciada, com fleuma nortenha, linguagem desbragada e ferozmente anti-republicano.

 

Novidade: Jessica Jones – Sem Limites

A G Floy anuncia nova trilogia de Jessica Jones e o primeiro volume já está nas bancas! Eis mais informação sobre o volume e sobre a trilogia, bem como algumas páginas disponibilizadas pela editora:

Muita coisa mudou no Universo Marvel, e existem segredos tremendos escondidos nas sombras – segredos que só uma mulher especial, como Jessica Jones, poderia desvendar… e desta vez ela parece ter tropeçado na mais perigosa das investigações! Uma nova série das aventuras da investigadora privada que já foi super-heroína, que vai incluir revelações sobre o passado de Jessica e respostas a alguns grandes mistérios do Universo Marvel, pelas mãos dos seus criadores originais, Brian Michael Bendis e Michael Gaydos.

Brian Michael Bendis, um dos mais conhecidos argumentistas de comics nos EUA, regressou em 2016 à personagem que tinha criado há tantos atrás para a linha Marvel MAX, juntando-se com o artista original da série, Michael Gaydos, para contar mais uma mão-cheia de histórias da célebre detective privada, Jessica Jones.

Nesta nova série, seguiremos várias tramas distintas, uma das quais, a relação de Jessica Jones com Luke Cage, que azedou de maneira dramática, e o destino da filha que ambos têm, se estenderá ao longo dos volumes da série. Neste primeiro volume, Jessica vai ser confrontada também com mais dois casos complexos. Um homem cuja mulher afirma que ele não é exactamente o seu marido, mas sim um homem vindo de outro local, de outro mundo talvez… e no outro, Jessica terá de enfrentar uma mulher que apenas quer uma coisa: vingança sobre a comunidade dos super-heróis e sobre a SHIELD, por ter sido presa por algo que nunca tinha chegado a fazer… Dois casos com os quais vamos voltar a mergulhar na Nova Iorque de super-heróis, detectives, criminosos e polícias, e pessoas normais que tentam sobreviver às consequências imensas dos eventos super-poderosos à sua volta… tudo aquilo que tornou a série de banda desenhada de Jessica Jones famosa!

A edição da G. Floy inclui um caderno extra com uma extensa selecção de capas alternativas.

Detalhe de conteúdo

1-6 de Jessica Jones (2016)

 

Humanus – Vários autores

Humanus é uma antologia de banda desenhada publicada pela Escorpião Azul que possui tanta diversidade nas suas histórias quantos os livros publicados pela editora, resultando de um convite a todos os seus autores (e mais alguns) para construirem novas e curtas histórias.

O volume abre com uma belíssima história de Rui Lacas que apresenta o confronto de criaturas antigas com a humanidade, passando para uma história de fantasia e ficção científica de Miguel Santos (conhecido por Ermal). A partir daqui vamos lendo todo o género de histórias em todo o género de estilos – futuristas como João Monteiro, distópicas como João Vasconcelos, cómicas como Álvaro ou Derradé, poéticas como a da dupla de Inês Garcia e Tiago Cruz.

Com 270 páginas e mais de 30 histórias, Humanus apresenta histórias de todos os géneros, podendo ser um óptima forma de introduzir os autores que tem em catálogo ou de os rever, para quem já os conhece. O resultado é um excelente conjunto de pequenas curtas de banda desenhada de autores que publicam no mercado português!

Novidade: Vox – Christina Dalcher

Um dos próximos  lançamentos da TOPSELLER é uma distopia que poderá estar na onda do sucesso do Handmaid’s Tale da Margaret Atwood, mostrando uma realidade em que é retirado o poder da palavra à mulher:

Estados Unidos da América. Um país orgulhoso de ser a pátria da liberdade e que faz disso bandeira. É por isso que tantas mulheres, como a Dra. Jean McClellan, nunca acreditaram que essas liberdades lhes pudessem ser retiradas. Nem as palavras dos políticos nem os avisos dos críticos as preparavam para isso. Pensavam: «Não. Isso aqui não pode acontecer.»

Mas aconteceu. Os americanos foram às urnas e escolheram um demagogo. Um homem que, à frente do governo, decretou que as mulheres não podem dizer mais do que 100 palavras por dia. Até as crianças. Até a filha de Jean, Sonia. Cada palavra a mais é recompensada com um choque elétrico, cortesia de uma pulseira obrigatória.

E ISTO É APENAS O INÍCIO.

 

Resumo de Leituras – Janeiro de 2018

01 – Luzes de Niterói – Marcello Quintanilha – Num país de contrastes, dois jovens aventuram-se a pescar para conseguirem um rendimento extra. Mas os seus planos rapidamente se desmancham e os colocam em perigo quando encontram um perigo bandido que os toma por polícias;

02 – Mister NO – Ovnis na Amazónia – Sclavi, Civitelli, Nolitta e Diso – Mirabolante, apresenta um episódio aventureiro em que dois exploradores se cruzam e se unem perante uma ameaça comum – os índios;

03 – Gran Hotel Abismo – Prior e Rubin – Mais interessante visualmente do que do ponto de vista narrativo, Gran Hotel Abismo apresenta um futuro pouco distante em que quem manda na sociedade são as grandes empresas. Em nome do lucro diminuem ordenados ao mínimo que acham suportável e não é de estranhar que se iniciem grandes manifestações que serão recebidas com fortes cargas policiais;

04 – Sorcerer to the crown – Zen Cho – Apesar de ter elementos interessantes na forma como usa a magia (e como justifica a sua fonte) é um livro dúbio na caracterização de personagens, mostrando uma personagem masculina de origem não ocidental como personagem principal e forte, mas mostrando uma personagem feminina completamente cliché nos seus objectivos de vida.

Evento: 90 anos de Tintin

Tintin fez 90 anos! E para celebrar este aniversário, organizou-se, na Universidade Lusíada de Lisboa, uma conferência que vai decorrer no dia 1 de Fevereiro. Esta conferência tem o seguinte programa

TINTIN E O CONGO TINTIN E A LUA
16h30
Inauguração de uma mini-exposição.
Projecção do filme Na sombra de Tintin

MÚSICA : “ÁRIA DAS JÓIAS”
18h00
Pela soprano Cristina Ribeiro, acompanhada ao piano por
Manuela Fonseca
(do grupo OPERAWAVE)

CONFERÊNCIA
“HERGÉ, TINTIN E O CONGO”
18h30
Por Dominique Maricq – autor das Éditions Moulinsart

PAUSA-CAFÉ E BOLO DE ANIVERSÁRIO
19h15

PROJECÇÃO DE UM FILME “NO ENCALÇO DO TINTIN”
19h30
Comentado por Guilherme d’Oliveira Martins

CONFERÊNCIA POR NINO PAREDES
“HERGÉ, FOTOGRAFO DE VIÑETA”
20h00
Presidente da Associação Mil Rayos !

Injection – Vol.1 – Ellis, Shalvey e Bellaire

Entre os mitos fantásticos tornados realidade e a inteligência artificial, este é o primeiro volume de uma série de Warren Ellis que revela apenas alguns dos seus elementos base para este Universo ligeiramente futurista e sobrecarregado em fenómenos sobre naturais (serão mesmo?) originados por uma consciência cuja origem apenas suspeitamos.

Nos interstícios da realidade encontramos bolsas em que os mais assustadores mitos se materializam – e para as quais são chamados agentes especiais para as domarem, ainda que nem sempre com o efeito desejado. Estas bolsas de realidade apresentam elementos fantásticos tradicionais de cultura irlandesa / celta, tornando alguns seres humanos cativos – escapar é só para alguns, os mais sagazes que são capazes de reunir e interpretar algumas pistas difíceis.

Contada de forma pouco linear, intercalando linhas temporais diferentes e várias perspectivas, Injection consegue cruzar elementos fantásticos com horror e ficção científica, resultando num assustador pesadelo onde se apresentam questões interessantes – porque seria uma inteligência criada minimamente semelhante à inteligência humana? Porque teria alguma ideia semelhante da realidade ou do que é justo e correcto? Será que teria algum interesse pela humanidade e pela estabilidade da realidade? Ou seria aparentemente louca e homicida?

Claro que, ao colocar estas questões o enredo abdica de algum do seu mistério e apresenta algumas pistas para entendermos a premissa – ainda assim, muito falta desvendar. Porquê esta obsessão óbvia pelo folclore celta e quais os motivos para que as várias personagens ajam de determinada forma? Decerto serão estes elementos que o autor irá explorar nos próximos volumes, numa série que promete distinguir-se do que tem sido feito em mundos fantásticos na banda desenhada.

Novidade: O Garfo, a Bruxa e o Dragão – Histórias de Alagaësia – Christopher Paolini

 

Ainda que não tenha, ainda, sentido especial curiosidade por esta saga (parece-me beber demasiado de várias séries fantásticas mais antigas que nunca chegaram a ser publicadas em Portugal), o nome Christopher Paolini marcou, sem dúvida, o género fantástico, não só pelo número de vendas que atingiu, mas pela quantidade de fãs a nível mundial. O autor está de volta com um novo livro no mesmo Universo que foi publicado no início deste mês pela Asa na colecção 1001 Mundos:

Três dias depois do lançamento no mercado norte-americano e oito anos depois de concluir a mais famosa saga de dragões do século, Christopher Paolini tem novo livro a chegar amanhã às livrarias portuguesas.

O Fantástico foi o género literário escolhido para fechar o ano editorial 2018 nos EUA e para abrir o de 2019 em Portugal, e logo com um ‘peso pesado’: O Garfo, a Bruxa e o Dragão – Histórias de Alagaësia, de Christopher Paolini que acaba de chegar às livrarias Norte-americanas e chega amanhã a Portugal! O regresso do autor de Eragon (2003), Eldest (2005), Brisingr (2008) e Herança (2011) vai certamente alegrar os leitores de todo o mundo: juntos, os quatro livros do Ciclo da Herança venderam mais de 25 milhões de exemplares em mais de 40 países. Foi preciso esperar quase 8 anos para que o autor nos desse um novo livro mas ele aí está…

Um viajante e uma criança amaldiçoada. Feitiços e Magia. E dragões, é claro…

“Já era noite quando Eragon regressou a si e a única iluminação do Salão das Cores provinha das candeias sem chama, penduradas nas paredes, e do brilho interno dos próprios Eldunarí. Sentou-se de olhos postos no chão, a recompor-se e a recuperar. Abriu-se-lhe um sorriso no rosto.”

Bem-vindos, novamente, ao mundo de Alagaësia. Já passou um ano desde que Eragon partiu em busca do lugar perfeito para treinar uma nova geração de Cavaleiros do Dragão. Agora, debate-se com as inúmeras tarefas que tem pela frente: construir a Fortaleza do Dragão, entender-se com os fornecedores, cuidar dos ovos de dragão e lidar com os aguerridos Urgals e os arrogantes elfos. Isto até ao momento em que uma visão dos Eldunarí, visitantes inesperados, e uma lenda Urgal trazem uma necessária distração e um novo desafio…. Neste volume – o primeiro de três – os leitores encontrarão três histórias originais que decorrem em Alagaësia, a par com o desenrolar da aventura de Eragon. E ainda um excerto das Memórias da inesquecível bruxa e adivinha Angela, a herbalista, escrito por Angela Paolini, irmã do autor e a mulher que serviu de inspiração à personagem!

A evolução da ficção especulativa em Portugal – uma perspectiva pessoal

Quem anda há mais décadas no meio fala de uma época longínquoa em que se traziam, com bastante regularidade, os autores mais importantes do género a Portugal. Fala, também, de uma quantidade absurda de livros publicados que englobava clássicos e novidades. Como exemplo desta época dourada, ficaram as extensas colecções de livros de bolso, Argonauta, Caminho ou Europa-América.

Pois bem, nessa época, eu não conhecia nada disso, pelo que não tenho uma perspectiva tão catastrófica quanto aos tempos actuais. O pico do género que conheço tinha alguma publicação regular (com as colecções Europa-América há 20 anos ou a da Presença). Mas foi há uns 15 anos que tive finalmente acesso regular à internet e me apercebi que existiam outros leitores dos géneros da ficção especulativa, ficção científica, fantasia e horror. Existiam, até, autores portugueses! E, espante-se, existiam novas editoras a publicar livros clássicos, a produzir antologias, e autores portugueses com boas obras que nada ficavam a dever às estrangeiras.

Falava-se de ficção científica e fantasia. Mas sobretudo em fórums (Filhos de Athena e Scifi freaks com os respectivos canais IRC) onde conheci algumas das pessoas que ainda hoje são referências no género. A Saída de Emergência estava a dar os primeiros passos, com livros como À Boleia pela Galáxia, Elric ou a Invenção de Leonardo de Paul McAuley. A Safaa Dib ainda não pertencia à editora mas organizava, com o Rogério Ribeiro, o Fórum Fantástico. Tanto a Gailivro, como a Editorial Presença publicavam, regularmente nos géneros da ficção especulativa, onde se destacavam vários autores portugueses (João Barreiros, Luís Filipe Silva, Filipe Faria, Ricardo Pinto, Sandra Carvalho, Inês Botelho). Existia, ainda, uma pequena editora que lançou poucos livros, em edições de pequena tiragem, mas de grande qualidade – A Livros de Areia.

Então, quais têm sido as grandes mudanças no género em Portugal  na publicação? Bem, a maioria destas grandes editoras quase que deixaram de publicar no género. Quer autores portugueses, quer autores estrangeiros. E quando o fazem raramente indicam o género a que os livros pertencem. Ficam-se pela etiqueta de ficção, e algumas descrições mais filosóficas sobre o conteúdo. A Saída de Emergência tem publicado bons livros, mas são escolhas mais conservadoras e menos arriscadas. Já as restantes, fugiram totalmente da ficção científica explícita, publicam alguma fantasia solta e quase nada de horror. Mais recentemente, a Topseller tem-se distinguido com boas leituras de autores menos conhecidos em Portugal e nem sempre ligados à indústria cinematográfica.

A publicação de autores portugueses tem sido feita, sobretudo, por pequenas editoras. Destacam-se as edições de autor, a Imaginauta e a Editorial Divergência. Existe, sobretudo nestas duas editoras, um esforço em publicar romances e contos em antologias, mas não existe nenhuma publicação regular em formato revista para além da Bang!. As fanzines praticamente desapareceram. Já a crítica literária de ficção especulativa é quase inexistente nos meios oficiais – a crítica centra-se sobretudo em livros políticos, obras sem grande componente narrativa, mais filosófica e introspectiva. Restam os blogues. Restam os comentários em grupos de facebook. O que não é mau, mas não é comparável em termos de exposição.

 

Então e os eventos?

Nesta componente acho que estamos a evoluir a passos largos. O Fórum Fantástico persiste, conseguindo melhorar a cada ano, e têm surgido outros eventos interessantes no género. O Sci-fi LX tem decorrido no IST. A Saída de Emergência tem organizado o seu próprio evento fantástico (com uma grande adesão de leitores), o Festival Bang!. Surgiu a Comic Con no Porto que passou este ano para Lisboa (com todos os seus defeitos e vantagens, mas é mais um meio para os que gostam do género). O Contacto organizou-se pela primeira vez o ano passado e promete regressar agora em 2019! Estes novos eventos não se centram apenas nos livros, mas também em todas as outras vertentes, com o intuito de juntar fãs e proporcionar bons momentos.

Prémios literários

Ainda que a publicação seja, sobretudo, em pequenas edições, existem alguns prémios para incentivar novos autores. Mesmo que não exista propriamente uma indústria onde possam crescer (pelo menos não comparável à que existe nos mercados anglosaxónico ou francófono). O Prémio Bang! organizado em parceria com a FNAC possibilita a publicação de contos na revista Bang!, o prémio António de Macedo possibilita a publicação de um livro pela Editorial Divergência (para além de conceder um prémio monetário) e o Prémio Ataegina premeia um conto, mas não confere, ainda, possibilidade de publicaçao. Também durante o Fórum Fantástico são atribuídos prémios para diversas categorias – os Prémios Adamastor. Lá fora, Rui Zink venceu o prémio Utopiales com uma distopia.

E a projecção dos autores portugueses para o estrangeiro?

Era baixa e continua a ser baixa. Entre 2001 e 2006 o Luís Rodrigues participou (e mais tarde assumiu) a publicação de Fantastic Metropolis e em 2007 João Barreiros teve um conto publicado numa antologia estrangeira em 2007 (The SFWA European Hall of Fame). Mais recentemente, Dormir com Lisboa de Fausta Cardoso Pereira venceu um prémio galego e foi publicado em Espanha, Mário de Seabra Coelho teve dois contos publicados em revistas anglosaxónicas e foi um conto deste autor que a Imaginauta escolheu para levar a uma convenção internacional para dar a conhecer algo do que se produz em Portugal.

Os próximos anos

Enquanto algumas iniciativas recuperam livros quase esquecidos de autores portugueses de ficção científica (como o Projecto Adamastor), planeia-se uma continuação dos eventos para os próximos anos (se bem que se denota que alguns irão, decerto, sofrer reestruturações). A Imaginauta e Editorial Divergência já prometeram que o próximo ano trará duas mãos cheias de novos livros de autores portugueses.

O que falta?

1. Uma crítica consistente que consiga chegar a novos leitores. Novos leitores trarão, sem dúvida, um maior investimento no género e a possibilidade de fazer crescer a qualidade e a quantidade de publicações. O Candeias tem feito um óptimo trabalho na agregação de comentários a livros de ficção especulativa, mas falta algo que faça chegar os livros a um público maior.

2. Publicações regulares sobre o género que informem e envolvam novos leitores. A Bang! é uma excelente revista, mas não pode continuar a ser a única. Por outro lado, a diversidade de editoras que publicam autores portugueses também é baixa e não favorece o surgir de novos autores (apesar dos esforços das pequenas editoras nacionais).

Notas finais – esta perspectiva baseia-se, sobretudo, nas pessoas que fazem parte do fandom, as que têm como interesse uma das vertentes da ficção especulativa. Ficam de fora as publicações por Vanity Press.

Evento: Lançamento Fundação de Isaac Asimov

Cientista e escritor de Hard Science Fiction (termo dado a ficção científica que tem especial ênfase nas leis científicas para se desenvolver), Isaac Asimov ficou conhecido com uma série que é considerada uma obra prima no género – Fundação. É exactamente o primeiro livro (de nome igual à série) que a Saída de Emergência lança agora no mercado português. O lançamento vai decorrer esta semana, no dia 17 de Janeiro, pelas 18h30 na FNAC Chiado.

Sorcerer to the Crown – Zen Cho

Sorcerer to the crown consegue a proeza de ser um livro, simultaneamente, surpreendente e cliché, misturando elementos de variedade racial com detalhes tradicionais relativos à perspectiva feminina na fantasia – se por um lado o cenário da história é semelhante ao de Inglaterra e as personagens principais não são ocidentais, por outro, a protagonista feminina tem como principal objectivo de vida, casar bem, com alguém que possa sustentar um determinado nível de vida.

A história alterna entre Zacharias e Prunella. O primeiro é um afro descendente que foi retirado da escravidão por um benfeitor inglês, dada a sua potencialidade mágica. Os sentimentos que mantém em relação a este benfeitor serão, sempre dúbios. Se, por um lado, recebeu educação, dinheiro e herda a posição do importante mágico inglês, por outro sente mágoa por ter sido separado muito cedo dos pais, mesmo sabendo que, como escravo, tal poderia ocorrer a qualquer momento.

Enquanto mágico de pele negra (algo nunca visto na sociedade inglesa) sofre forte preconceito, sendo-lhe difícil a integração social, mesmo mantendo uma importante posição – a de Feiticeiro Real. Após o desaparecimento do seu benfeitor (cujo segredo apenas ele  conhece) herda este papel e torna-se um alvo preferencial das famílias mágicas mais importantes de Inglaterra.

Paralelamente, Prunella é a filha órfã de um senhor inglês que tem, nitidamente, mistura não ocidental. Após a morte do pai é cuidada por uma senhora que vê na riqueza herdade uma oportunidade e funda uma escola para meninas de bem que possuem dotes mágicos. O objectivo desta escola não é ensinar as meninas a controlarem os seus poderes, mas ensiná-las a abdicar deles. Prunella cresceu nesta escola como aluna, mas com o passar dos anos começa a assumir alguns dos papéis de gestão e controlo das restantes alunas.

Para além dos problemas pessoais de cada personagem, Inglaterra enfrenta um duro período mágico – a magia no reino declina rapidamente o que leva Zacharias a viajar até ao reino das fadas em busca de um motivo, algo que encontrará, mas que não será de fácil resolução. Mas Zacharias tem outro objectivo oculto – fazer, numa primeira, com que as mulheres sejam treinadas na magia, ao invés de ostracizadas, e, numa segunda, com que o ensino da magia englobe as camadas mais pobres da população.

Prunella, por sua vez, é uma feiticeira poderosa, uma jovem com elevados poderes aos quais não dá uma grande importância e que tem, como objectivo de vida, deixar a escola e procurar, na sociedade inglesa, algum bom partido que lhe permita ter um bom nível de vida. A descoberta de uma grande herança de objectos mágicos por parte do pai leva-a a usar estes objectos como forma de atingir um bom casamento.

Com uma abordagem agradável às capacidades mágicas num mundo semelhante ao nosso no século XVIII, Sorcerer to the crown tem bons episódios de astúcia e lutas entre mágicos. Consegue tocar, de forma eficiente, no tema da descriminação racial, mas possui alguns defeitos na caracterização de personagens e na forma como aborda a componente feminina, criando condições para que sejam consideradas de igual para igual na sociedade, mas dando às mulheres uma perspectiva limitada face à magia.

Sorcerer to the Crown consegue ser envolvente e de leitura rápida, constituindo o primeiro de uma trilogia que pode ser lido de forma independente.

Novidade: Ms. Marvel Vol.2

Depois de um excelente primeiro volume (que fez parte do meu top de  leituras para 2018)  eis que a G Floy lança um segundo! Esta heroína destaca-se não só pelas suas origens pouco ocidentais, mas também por se demonstrar preocupada com os comuns mortais, que sofrem as consequências das catastróficas batalhas entre os heróis e os vilões. Deixo-vos a sinopse, bem como algumas páginas disponibilizadas pela editora:

Quem é o Inventor, e o que é que ele quer com a nova Ms. Marvel e os seus amigos? Bem… pode ser que o Wolverine possa ajudar! A Kamala pode estar a ter um ataque agudo de ser fã e groupie, mas ele é o seu herói preferido (OK, talvez esteja no Top Cinco), e nada a vai impedir de lutar para salvar a sua cidade. E Kamala vai também encontrar os Inumanos pela primeira vez – e o seu cão real, Lockjaw! Todas as miúdas adoram um cãozinho, mas este se calhar é demais, até para uma super-heroína com poderes de aumentar de tamanho! Mas porque raios é que o Lockjaw agora anda sempre com a Kamala? Ms. Marvel irá descobrir muito do seu passado, enquanto o Inventor continua a ameaçar o seu futuro. A série aclamada pelos fãs continua as incríveis aventuras de Kamala Khan, uma das melhores (e mais adoráveis) heroínas da Marvel.

O volume 2 de Ms. Marvel encerra o primeiro arco de história da personagem.

Ms. Marvel é uma das mais prestigiadas e aclamadas séries lançada pela Casa das Ideias nos últimos anos. Nomeada para inúmeros Prémios Eisner, vencedora do Hugo para Melhor Romance Gráfico (2015) e do Prémio de Angoulême para Melhor Série (2016), Ms. Marvel rompeu com muitos dos cânones das aventuras da Marvel da era contemporânea, recuperando alguma da magia original de personagens adolescentes que estão a descobrir os seus poderes enquanto tentam sobreviver num universo confuso e cheio de confrontos! Ao longo dos seus primeiros dez volumes, a série já vendeu mais de MEIO MILHÃO de exemplares em língua inglesa, e tem sido um dos maiores best-sellers da Marvel.

 

Largo Winch – Vol.2 – Philippe Francq e Jean Van Hamme

Neste segundo volume Largo Winch aprofunda a experiência de ser milionário. Se, por um lado, existem vários homens sedentos da sua riqueza, por outro são várias as mulheres que vêm nele um alvo fácil para o moldarem a seu belo prazer. Se algumas têm por objectivo a rápida riqueza, outras estão ao serviço de interesses maiores e a sua aproximação fará parte de um plano maior.

Novo nestas andanças milionárias, Largo Winch torna-se um alvo preferencial por aqueles que o rodeiam no mundo dos negócios e que acham que o podem enganar facilmente. São vários os planos que o rodeiam, são vários os conselheiros que possuem interesses próprios e que o hão-de fazer cair num buraco de difíceis meandros legais e fiscais.

Com alguns episódios de acção (em menor quantidade do que no primeiro) este segundo volume possui elementos mais trágicos e menos aventureiros, mostrando uma maior integração de Largo Winch nas elevadas esferas dos negócios – integração que não está a ser bem vista pelos mais velhos e experientes.

A minha opinião sobre a série mantém-se – tem bons momentos de acção com detalhes no enredo engraçados, mas possui personagens demasiado estereotipadas, com um herói invulgar e donzelas oportunistas. Provavelmente continuarei a ler a série, mas não a acho excelente.

A série Largo Winch é publicada em Portugal pela Asa.

Sobre volumes anteriores

Economix – Michael Goodwin e Dan E. Burr

Economix foi uma das leituras mais interessantes dos últimos tempos, apresentando, de forma simples e clara, a evolução das noções da economia a par com a sociedade. A perspectiva é, sobretudo, ocidental e refere-se às culturas europeia e americana e demonstra, com princípios expostos de forma directa e lógica, como a gestão do dinheiro evoluiu com a criação de países e com a Revolução Industrial (por exemplo).

Intercalando conceitos relativamente complicados, o autor apresenta pequenas tiradas irónicas que ajudam a desenvolver ideias num determinado sentido e que aligeiram o tom de um livro de divulgação científica. O livro não se perde em exposições matemáticas, apresentando, antes, conceitos de forma simples, modelos económicos e as situações em que se aplicam e como a evolução da sociedade levou a que se desenvolvessem novas teorias e novos modelos.

Mas modelos e teorias nem sempre são bem sucedidos. Ainda que possam ser aplicáveis a uma determinada realidade durante algum tempo, os modelos baseiam-se em pressupostos que nem sempre correspondem à sociedade em que estão a ser aplicados. Neste sentido, o autor apresenta, de forma genérica, os motivos principais que levaram grandes modelos económicos a falhar.

O livro termina, como é óbvio com a actualidade, mostrando como a mais recente forma económica serve os accionistas antes das próprias empresas, e, claro, colocando os empregados e a verdadeira produção como última prioridade. O objectivo é o lucro a curto prazo por parte dos accionistas, num modelo de negócio que se torna danoso para a própria sociedade.

Economix mostra a diferença entre várias políticas e a sua aplicação na economia, dando exemplos históricos de como as teorias e respectivos modelos foram bem e mal aplicados. Não tendo como intuito, claro, de formar economistas, o livro pretende possibilitar que os seus leitores percebam alguns conceitos de mercado, dando-lhes algum sentido crítico.

Economix foi publicado em Portugal pela Arte de Autor.

100 Balas – Primeiro disparo, última rodada – Brian Azzarello e Eduardo Risso

Vencedora de três prémios Eisner e vários Harvey, esta série da famosa dupla Brian Azzarello e Eduardo Risso possui um estilo noir com uma história pesada e chocante com uma premissa simples – dar a possibilidade aos injustiçados de fazerem justiça pelas próprias mãos, fornecendo-lhes as provas das ocorrências, a par com uma pistola e 100 balas.

O primeiro volume desta série foi publicado na colecção comemorativa dos 25 anos da Vertigo (publicada pela Levoir em parceria com o jornal Público)  e começa por nos apresentar uma jovem, Dizzy, que finalmente sai em liberdade. Esta será uma das jovens a quem será dada a oportunidade de fazer justiça dando-lhe a entender que quem paga pelos crimes não é quem os comete.

O marido e o filho de Dizzy morreram num tiroteio – duas mortes pelas quais Dizzy se culpa indevidamente, e quem será dada a oportunidade de compreender os verdadeiros motivos e a identidade do assassino, detalhes que terá de ser ela própria a descobrir.

Pelo caminho enfrenta a dura realidade de ser uma mulher não branca num bairro pobre, vendo-se perseguida por agentes da polícia corruptos que vêm nela um alvo fácil para importunar constantemente. Mas os episódios que se seguem fogem ao esperado – quando os agentes tentam prendê-la novamente percebem que alguém bastante poderoso a protege e Dizzy prossegue nas suas investigações sobre o que realmente aconteceu.

Carregado de episódios violentos, pesado pelas circunstâncias psicológicas que rodeiam o mundo dos gangs provocados pela pobreza e falta de oportunidades, este primeiro volume de 100 Balas apresenta uma boa série de banda desenhada (mas não excelente) de rápida leitura que se caracteriza por uma narrativa típica dos pulp.

Este volume de 100 Balas foi publicado na colecção de comemoração dos 100 anos da Vertigo, lançada em Portugal pela Levoir em parceria com o jornal Público.

Gran Hotel Abismo – Marcos Prior e David Rubín

Gran Hotel Abismo é, sobretudo, uma história de denúncia. Decorrendo num futuro próximo, apresenta uma crise económica projectada pelas grandes empresas para aumentarem os seus lucros e diminuirem os ordenados e liberdades da população em geral.

O resultado é fácil de prever – várias manifestações que rapidamente se tornam violentas por imposição de uma polícia que atira sobre os manifestantes ou sobre quem passa na rua naquele momento. A repressão atinge níveis impensáveis em supostas ditaduras e as liberdades são contornadas para se atingirem os objectivos das companhias.

Prevendo uma redução do ordenado mínimo, rapta-se um dos principais investigadores sobre o tema, mantem-se o homem fechado num quarto durante um mês, com o objectivo único de ver se o montante previsto é o suficiente para a sua sobrevivência.

Gran Hotel Abismo consegue a proeza de ter grandes momentos, mas de não ter uma linha narrativa coesa e satisfatória. A arte de Rubín é estrondosa e o enquadramento permite transmitir algumas das mensagens pretendidas, mas ao não criar personagens nem ao seguir um pensamento lógico, resulta num quase livro de recortes com algumas passagens interessantes (principalmente a nível gráfico) mas que não satisfaz totalmente.

O Legado de Júpiter – Vol.2 – Mark Millar e Frank Quitely

O Legado de Júpiter foi uma das novas apostas da G Floy para 2018, tendo publicado os dois primeiros volumes desta série nesse ano. Neste segundo volume prossegue-se com a luta entre super heróis. Se, inicialmente, estes seres humanos com poderes se apresentam como uma unidade coesa, que age coordenadamente para bem da humanidade, com o tempo aguçam-se rivalidades e frustrações, mas também falsas percepções de uma superioridade intelectual e moral.

Já os filhos destes super heróis agem como estrelas pop, caprichosos e com vícios, seja porque não correspondem às elevadas expectativas dos pais, seja como resultado de toda a atenção que recebem. Percebe-se assim que, apesar dos super poderes, os heróis continuam a ser humanos, com todos os defeitos típicos da humanidade, mas mais destruidores por serem exacerbados pelos poderes – os poderes não só não conferem maiores capacidades intelectuais, como fazem com que as quezílias tenham maiores consequências, sobretudo para os comuns mortais.

Julgando-se perfeitos e capazes de comandar a humanidade, tomam o poder, instalando uma ditadura – uma ditadura pautada pela crença, destes super heróis, em serem moral e intelectualmente superiores. Mas a instalação desta ditadura é fracturante entre os super – sucedem-se pequenas batalhas e homicídios que fazem com que alguns se escondam, assumindo identidades banais entre os restantes humanos.

Obrigados a esconder as suas capacidades, frustrados por esta existência limitadora, estes super acumulam frustração que se tornará em vontade de quebrar o sistema implementado e em capacidade de enfrentar quem detém o poder – algo que chegará a seu tempo e proporcionará episódios de míticas batalhas.

Neste segundo volume a sede de poder e a noção de superioridade levam à desvalorização da vida dos restantes e à proliferação de manias e psicopatias. O resultado é o livro assassínio – inicialmente por um bem maior, mas com a progressão da história, apenas por vontade pessoal.

Contrariando vários elementos nas histórias de humanóides com super poderes, a série demonstra como estes humanos continuam a ter todos os problemas psicológicos e relacionais dos restantes, com consequências agudizadas pela sua exposição social e pela suposta superioridade intelectual. É, desta forma, uma leitura bastante interessante que apresenta várias perspectivas em diferentes linhas narrativas.

A série O Legado de Júpiter é publicada em Portugal pela G Floy.

As melhores leituras de 2018 – Banda desenhada

À semelhança do que fiz com as restantes leituras de 2018, eis uma listagem dos melhores livros de banda desenhada que tive oportunidade de ler este ano! Entre os 220 livros que li em 2018 entre 2/3 e 3/4 é de banda desenhada, pelo que muitos livros excelentes terão de ficar de fora! Irei começar com as melhores leituras nacionais!

Obras portuguesas

Melhor banda desenhada de ficção científica

 

 

 

 

 

 

 

A escolha de um destes estava tão difícil que optei por seleccionar ambos. Ambos são bastante irónicos na forma como abordam as transformações em curso na nossa sociedade. No caso de Futuroscópio de Miguel Montenegro encontramos vários contos que abordam aspectos diferentes, exagerados, levados ao extremo, numa caricatura aos movimentos sociais. O futuro não é risonho, apesar de haver uma aparente felicidade dos cidadãos (da ignorância vem a felicidade) – é um beco sem saída sem evolução, uma regressão da humanidade que deixa, como legado, a tecnologia avançada, mas que não poderia ser criada pelos humanos que com ela coexistem.

Já em Watchers de Luís Louro seguimos, numa realidade futura, um grupo de jovens denominados watchers que usam a tecnologia para criar canais que expõem o mundo que os rodeia. Sem filtros, sem análises nem contextos, as filmagens são divulgadas para todos os que as quiserem ver. Começando com episódios fofinhos e caricatos, a busca de mais seguidores e de mais reacções nas redes sociais depressa leva a que sejam filmadas situações mais inusitadas, ridículas, perigosas e violentas. Até onde se vai pela busca de seguidores?

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Futuroscópio – Miguel Montenegro;

Watchers – Luís Louro. 

Melhor banda desenhada de fantasia – Zahna – Joana Afonso

Zahna possui o estilo característico de Joana Afonso, um estilo que se destaca na transmissão de emoções e sentimentos e que conferem traços de caricatura às suas personagens. A protagonista é uma mulher guerreira, rabugenta mas leal às suas responsabilidades, que se vê literalmente com uma maldição sob a cabeça! Leitura divertida, Zahna deturpa ligeiramente os clichés da fantasia para apresentar uma história engraçada.

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Melhor banda desenhada cómica – Conversas com os putos e os pais deles – Álvaro

À semelhança do volume anterior, Álvaro reúne neste Conversas com os putos e com os pais deles, uma série de conversas com os seus alunos e os respectivos pais. Se as conversas com os jovens se encontram entre o absurdo e o quase impossível de tao idiotas, as conversas com os seus pais ainda são piores.

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Melhor narrativa de ficção – Olimpo Tropical – André Diniz e Laudo Ferreira

Quem é o vilão? O traficante ou a polícia corrupta? Em Olimpo Tropical retrata-se a realidade da favela onde os estudos são largados cedo por falta de sucesso, a favor das ocupações de mais fácil dinheiro, quase sempre relacionadas com o tráfego de droga e a criminalidade. Quem manda é quem se mostra mais destemido, quase louco, na sua capacidade de se fazer temer pelos outros. Visualmente expressivo, exagerado em expressões e traços físicos, Olimpo Tropical é um trabalho excelente que é capaz de cativar o leitor, fazendo-nos perceber a realidade inevitável das favelas que engole os seus moradores num ciclo interminável – quem tenta arranjar um emprego fora da favela é descriminado ou ganha tão pouco que se torna impossível sustentar uma família.

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Obras de autores estrangeiros

Melhor banda desenhada de super-herói – Ms. Marvel – G. Willow Wilson e Adrian Alphona

Ms. Marvel não é uma heroína comum – muçulmana, distingue-se fisicamente do aspecto tradicional das heroínas enquanto altas e louras; e culturalmente pelas suas origens pouco ocidentais. O resultado é uma heroína que se preocupa com os comuns cidadãos e que apresenta conflitos pessoais diferentes do que é habitual. Este volume apresenta como surgiu Ms.Marvel, dando grande foco à componente pessoal, ainda que não faltem os característicos episódios de acção.

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Menção honrosa – Michael Chabon’s The Escapists

No seguimento de uma tradição ficcional de livros sobre livros que não existem, a história centra-se num rapaz fascinado pelos livros de banda desenhada do falecido pai. Estes livros de banda desenhada centravam-se num herói há muito esquecido que o jovem tenta recuperar. Para tal compra os direitos do super-herói e tenta montar uma pequena gráfica para produzir novas aventuras!

A história vai intercalando episódios da vida deste rapaz, com episódios da velha banda desenhada e episódios da nova. São três histórias que ecoam umas nas outras, enquanto a ficção se imiscui na realidade, e a realidade se traduz numa nova ficção, sendo que o próprio autor entra neste jogo e constrói uma excelente homenagem ao livro de Michael Chabon.

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Menção honrosa – Batman – O príncipe das trevas – Marini

O príncipe encantado das trevas alterna o foco entre dois casais peculiares – o de Batman com a Catwoman, e o de Joker com Harley Quinn, mostrando dois relacionamentos disfuncionais, cada um da sua forma. Lançado em dois volumes de formato maior do que é habitual, esta história destaca-se pelo belíssimo aspecto gráfico, em que Marini é narrador e desenhador. A linha narrativa tem vários pontos previsíveis com vários clichés, mas a leitura consegue captar o leitor e dar-nos a sensação final de termos assistido a um filme.

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Melhor adaptação – Afirma Pereira – Pierre-Henry Gomont

Afirma Pereira é o despertar da consciência política de um homem que, até então tinha vivido demasiado voltado para si mesmo e preso no passado. Neste acordar, quase forçado por novas empatias, não se consegue remediar totalmente pela anterior apatia, mas tenta, enfrentando as consequências. Depois de anos preso às memórias de um passado distante, Pereira começa a reconhecer as pequenas notas políticas no que o rodeia, tanto no jornal, como nas ruas em que dantes passava como inocente. Reconhece, também, que o enfrentar desta situação tem um custo elevado.

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Menção honrosa – O jogador de xadrez – David Sala

O tema da história é simples e roda em torno de um jogador de xadrez. Mas se esperamos que a história se centre no maior jogador de xadrez, um imbatível mas inculto jovem que vence qualquer jogo, somos rapidamente desenganados. No barco em que viaja encontram-se vários homens curiosos pela presença do campeão, não sendo, assim, de estranhar, que organizem um jogo de xadrez em que todos, em conjunto, enfrentam o campeão.

Após as primeiras jogadas, destaca-se, entre o grupo de amadores, um homem cujo intelecto parece competir com o do campeão, referindo jogadas que deixam o campeão surpreso. Este homem misterioso não só esconde um enorme talento no xadrez, como um passado pesado que liga a prática xadrez a eventos psicologicamente marcantes. Utilizando elementos artísticos de pintores famosos do fim do século XIX ou início do XX (que a sinopse da editora identifica como Klimt ou Schiele) a história é tudo menos linear ou, até, aborrecida. A tensão que se cria ao longo do jogo de xadrez transporta o jogo para outra dimensão e o foco deixa de estar nas jogadas, confrontando-se a curta história do campeão, com a traumática história de um anónimo que se lhe iguala.

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Melhor banda desenhada história – O Comboio dos órfãos – Vol.2 – Philippe Charlot e Xavier Fourquemin

Esta série centra-se nas crianças que foram deslocadas das grandes cidades para serem adoptadas ao longo dos Estados Unidos, nos anos 20. Mas nem todos os que recebem estas crianças têm boas intenções, e algumas crianças são usadas como trabalhadores, ou são levadas a casar prematuramente. Para além do bom aspecto visual, a série destaca-se por conseguir apresentar uma situação trágica mas, ao mesmo tempo, dar-lhe pequenos detalhes cómicos entre os diálogos infantis. Esta mistura resulta numa excelente leitura – uma das favoritas de 2019.

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Menção honrosa – Marcha para a morte – Shigeru Mizuki

Marcha para a Morte é um livro sobre a Guerra. Mas acima de tudo, um livro que nos mostra o quão absurda é a guerra, desperdiçando a vida dos soldados por estratégias mal definidas, levando adolescentes imberbes a enfrentar outros imberbes adolescentes, uma constante falta de consideração pela vida – e para quê? Aproveitando a sua própria experiência na guerra, Mizuki traça um retrato crítico, de elevada tensão, onde os momentos trágicos são acompanhados por tiradas de humor negro que dão nova perspectiva aos acontecimentos.

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Melhor banda desenhada de ficção científica – Descender – Jeff Lemire e Dustin Nguyen

Existem várias séries de ficção científica e fantasia em curso, publicadas principalmente pela Image mas Descender continua a ser, para mim, uma das melhores. Por um lado, a temática corresponde ao meu género favorito (a ficção científica) mostrando um Rise of the machines num futuro distante. Por outro, a história consegue a proeza de mostrar várias linhas narrativas que se vão cruzando e dando diferentes pontos de vista aos acontecimentos. Por último, o estilo gráfico de Dustin Nguyen adequa-se totalmente à história e torna as páginas fascinantes.

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Menção honrosa – Imperatriz – Vol.1 – Mark Millar e Stuart Immonen

Visualmente fabuloso, este Imperatriz parecia, nas primeiras páginas, trazer uma história quase cliché, com a mulher de um homem poderoso mas violento, a fugir pela galáxia com os filhos. Toda a história nos leva a pensar numa determinada situação passada que não se verifica acabando por nos surpeender. Do ponto de vista gráfico, os autores aproveitam a possível diversidade de planetas para contrastar cidades sobrepopuladas e futuristas com desertos gelados e desolados. O resultado é movimentado e visualmente fabuloso!

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Menção honrosa – Ciudad – Giménez e Barreiro

Com algumas semelhanças a Parque Chas, Ciudad centra-se numa cidade sem tempo, uma espécie de buraco negro onde vão parar habittantes de todos os tempos e lugares – imensa e diversa, uma cidade sem fim nem saída. A cidade não é contínua, nem no espaço, nem no tempo, e a dupla de exploradores experimenta o passado e o futuro, ambos traumatizantes, não percebendo as diferenças na duração da noite e do dia entre as diferentes partes da cidade. Cruzando outras ficções com esta narrativa (não só pela apresentação de monstros, como pelo surgir da figura Eternauta, e por referências indirectas a outras obras) Ciudad funde vários elementos para se transformar numa longa e rica viagem.

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Melhor narrativa ficcional – Essex county – Jeff Lemire

Este volume reúne três histórias diferentes que se interligam e que decorrem em Essex County  – o ambiente é frio e inóspito, e os relacionamentos humanos mostram-se difíceis. A razão de tal dificuldade deriva de uma série de segredos familiares e desgraças passadas que o autor vai desenvolver em várias linhas narrativas. As personagens ultrapassam a ficção e passam a ser pessoas com passado e densidades – pessoas que se encontram e desencontram tal como o leitor.

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Menção honrosa – O cão que guarda as estrelas – Takashi Murakami

Neste pequeno livro aproveita-se a figura do animal de estimação, neste caso um cão, como forma de explorar a complexidade dos relacionamentos (e a sua evolução). O cão oferece uma visão simples, mas através dele vamos interpretando os sinais de algo diferente, como o afastamento do casal, em que, ao invés de apoio mútuo, encontramos sacrifício e apoio de uma das partes, mas, da outra, egoísmo e quebra completa. O animal de estimação acaba por se tornar o único ponto de consolo e de amizade, o único relacionamento que se mantém, e que serve de consolo para o homem que se vê fora da própria casa e da própria vida.

Com uma pequena aura de tragicidade (já conhecemos o final da dupla desde o início) e passando o sentimento de destino que se irá cumprir, a história coloca-nos a tentar perceber o percurso das duas personagens. O animal fornece uma perspectiva interessante, com elementos que ele não compreende, mas que o leitor percebe.

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As melhores leituras de outros anos

Resumos / melhores de 2018