Eventos: Oficinas de escrita com Fausta Cardoso Pereira

A editora Fábrica Braço de Prata começar, em 2018, a publicar os seus livros e este workshop tem como objectivo a publicação de uma antologia com os contos dos participantes. A formadora é Fausta Cardoso Pereira, a autora de Dormir com Lisboa, o livro vencedor do prémio Antón Risco, apresentado no Fórum Fantástico.

Para os interessados no workshop, eis mais informação na página oficial da editora.

Sintra – Tiago Cruz e Inês Garcia

Quem já passou por Sintra à noite, naquelas estradas interiores, percebe que é um local que inspira respeito. A névoa ergue-se naqueles bosques sem luz nem presença de civilização, um ambiente húmido e escuro que faz surgir os medos mais primitivos. É neste ambiente, onde a orientação se perde e o vapor da respiração se une facilmente à neblina, que decorre Sintra, uma história de horror.

Aproveitando o ambiente carregado de sombras e de barulhos pouco reconhecíveis, Sintra segue um casal que teve a infeliz ideia de acampar neste local. Não chegam a acampar. O acidente de carro que sofrem separa-os e coloca-os a uma boa distância do local inicial de uma forma pouco lógica que serve para fazer crescer os receios iniciais.

Daniel encontra uma jovem que o ajuda e o leva a casa. Na casa, onde apenas vivem mulheres, pede ajuda, mas a cada pedido surge um impedimento diferente, numa estratégia de engodo e distracção.

Já Alice deambula, estranhando o seu afastamento do local do acidente, e procurando Daniel. Atordoada, encontra um velhote que lhe conta uma estranha história de separação familiar.

Sendo Sintra um cenário de terror plausível, esta história aproveita o ambiente para apresentar uma história com elementos de terror tradicionais: a separação espaço-temporal que se afasta da realidade que conhecemos, as belas donzelas que tentam afastar o cavalheiro honrado da sua amada, a transformação em monstros horrendos, autênticos demónios.

Sintra conta uma história de terror! E a componente exclamativa deriva da parte de contar. Sintra não se perde em deambulações filosóficas e apresenta um conto competente, com alguns clichés do género (o problema dos clichés é que funcionam) que consegue criar tensão e escalar o horror para além dos detalhes iniciais.

Sintra foi publicado pela Escorpião Azul.

Resumo de leituras – Dezembro de 2017 (3)

254 – The surrogate’s owner’s manual Uma banda desenhada futurista com um ambiente sombrio que recorda clássicos de ficção científica como Blade Runner, apresenta um futuro onde podemos usar corpos artificiais que podem mascarar todas as características raciais ou de género. Neste enquadramento questiona a humanidade não pela apresentação de entidades artificiais mas pela apresentação de entidades humanas que se tornam artificiais.

255- Mónica: Força – Desta vez a personagem visada com uma história fora do enquadramento usual é Mônica, uma menina forte que enfrenta os seus problemas, mas que, desta vez, se depara com problemas demasiado adultos para os conseguir resolver;

256 – East of West Vol.4 – Hickman, Dragotta e Martin – As várias fracções continuam em luta. Neste volume não há desenlaces, mas há fichas informativas das várias fracções (que já deveriam ter sido apresentadas) e há colocação estratégica de alguns elementos;

257 – Os diários de Adão e Eva – Mark Twain – Neste pequeno livro Adão e Eva expressam as suas impressões. Adão, mais conciso e calado, estranha a capacidade de falar de Eva e ainda mais o bicho estranho com que ela aparece, um bicho dependente e sem pêlos;

258 – A instalação do medo – Rui Zink – O livro venceu o prémio Utopiales ultrapassando outros livros de ficção especulativa como Luna de Ian McDonald, Railsea de China Miéville ou My real children de Jo Walton. Trata-se de uma distopia quase episódica (em que, a partir do episódio se constrói a realidade);

259 – A Guerra é para os velhos – John Scalzi – Os seres humanos já colonizaram outros planetas, mas as colónias possuem não está ao dispor da Terra. Os novos colonos provêm sobretudo de países pobres ou são velhos que são integrados no serviço militar. Porque querem idosos a servir no exército? Ninguém sabe mas especula-se que as pessoas podem ser rejuvenescidas…

Flight – volume 1

Flight é o nome de uma antologia de banda desenhada que pretende ter histórias diversas de autores pouco conhecidos. Contendo 23 histórias possui uma qualidade global acima da média, muitas das quais centradas no tema voar, ainda que não seja suposto ser uma antologia temática. As histórias diferem em forma e conteúdo, mas quase todas conseguem apresentar uma narrativa coesa, sem grandes deambulações experimentais.

A primeira história apresenta dois amigos que constroem o seu próprio avião, fazendo planos para uma longa viagem de inauguração. Ainda que um deles se mostre confiante, o outro hesita, optando por adquirir para-quedas.

Depois desta história inicial, engraçada e bem contada, somos transportados para um mundo mágico onde as baleias voam e jovens entregam encomendas transportados por tubarões amestrados (que também são capazes de voar). É uma história juvenil que não deixa grande marca apesar de ser competente.

Entre raparigas que crescem asas e mulheres que relembram os tempos de infância libertando papagaios, temos uma história de regresso à terra natal de um jovem e um episódio de acção passado num zepelim. A próxima história que se destaca é a de Khang Lee onde uma menina é levada por um robot que tenta reproduzir no seu mundo a realidade da menina – mas, depois de tentar distrai-la com amigos mecânicos e festas, a menina continua a sentir a falta dos pais.

Após uma história de crianças expostas à guerra que sonham com lugares mais aprazíveis, segue-se a deturpação de um conto com The Maiden and the River Spirit que tem uma reviravolta engraçada, ainda que não totalmente original. Esquilos voadores que são ainda demasiado jovens para ficarem livre de perigos e circos onde as motas voam livremente – o tema voar continua a impregnar a maioria dos contos.

As restantes histórias têm mais interesse visual do que narrativo, com algumas deambulações gráficas que não pretendem contar uma sequência de acontecimentos mas aproveitar o tema para explorar.

Esta é, no mínimo, uma antologia de banda desenhada competente. Todas transmitem alguma narrativa, ainda que nalgumas se perceba que esse não é o foco (são poucas), e todas são visualmente agradáveis (no mínimo), bastantes com detalhes caricatos que transmitem simpatia ao leitor.

Eventos: Lançamento de Comer e Beber, novo livro de Filipe Melo e Juan Cavia

A mais recente banda desenhada de Filipe Melo e Juan Cavia estará nas bancas a partir de dia 07 de Dezembro vai ser lançada em dois eventos distintos: Comic Con Portugal 2017 no dia 16 pelas 14h00 e FNAC Chiado no dia 18 (Lisboa) pelas 18h30.

Os diários de Adão & Eva – Mark Twain

Nesta edição cuidada encontram-se os diários do primeiro homem e da primeira mulher – dois diários com duas versões do relacionamento de ambos que se complementam e no meio das quais estará a verdadeira versão.

Do diário de Adão

Segunda-feira

Esta nova criatura de cabelos compridos é um grande empecilho. Anda sempre à minha volta e segue-me por todo o lado. Não me agrada nada; não estou habituado a ter companhia. Preferia que ficasse com os outros animais.

Do diário de Eva

Segunda-feira

Ele fala muito pouco. Talvez seja por ser pouco inteligente e saiba disso, e procure escondê-lo. É uma pena ele pensar assim, porque a inteligência não vale nada; é no coração que está o valor.

A pouca comunicação de Adão (ou a pausada comunicação, quando ocorre) é percepcionada por Eva como sendo um sinal de indecisão ou pouca inteligência, que, por carinho, faz de conta não perceber, tentando preencher estes espaços falando sem parar.

A parte mais cómica ocorre quando Eva aparece com uma cria de um animal que Adão não reconhece. Incapaz de andar ou de falar, sem pêlo, chora frequentemente e “acorda” os instintos protectores de Eva.

Os diários de Adão e Eva são uma pequena, mas agradável leitura, onde o autor explora os estereotipos de género, materializados no primeiro homem e na primeira mulher, que estabelecem um relacionamento estranho mas duradoiro, carregado de incompreensão mútua, mas resultando em habituação e amor.

Os diários de Adão & Eva foram publicados pela Cavalo de Ferro.

Mônica – Bianca Pinheiro

Mônica é a rapariga forte que casca nos rapazes sempre que se metem com ela. Sem medos. Metem-se, levam. Mas aqui é, também, a criança que vê o casamento dos pais desmoronar, com as discussões a escalarem facilmente por causa dos motivos mais idiotas.

A criança, habituada a lidar com os problemas com que se depara, entristece face a algo que vai para além da sua capacidade de resolução e acaba por se dedicar a tratar do que pode, passando (ainda que não seja o seu propósito) a ser o exemplo para os adultos.

Explorando mais uma situação do que as particularidades da personagem, não achei que este Mônica fosse tão interessante quanto outros volumes desta colecção que constrói pequenas histórias em torno das personagens de Maurício de Sousa fora do enquadramento que lhes é usual.

Outros livros da mesma colecção

 

Resumo de leituras – Dezembro de 2017 (2)

249 – Reborn – Book One – Mark Millar, Greg Capullo, Jonathan Glapion e Fco Plascencia – Depois da morte existe uma nova vida, mas nada que se equipare ao previsto por nenhuma religião, facto capaz de destruir psicologicamente algumas pessoas. Nesta outra vida quem foi bom prossegue em cenários idílicos em comunhão com a Natureza, numa civilização pouco desenvolvida tecnologicamente. Quem foi mau assume uma aparência mais maléfica e vive em zonas de aspecto infernoso;

250 – Sintra – Tiago Cruz e Inês Garcia – Uma banda desenhada que aproveita uma lenda local para tecer uma história de horror onde diferentes planos de existência se cruzam;

251 – Planetary – Book One – Warren Ellis e John Cassady – O primeiro volume começa com a nova contratação para o grupo, Elijah Snow, um homem com poderes relacionados com o frio. O grupo anda pelo mundo a coleccionar segredos sobre vários eventos, principalmente aqueles relacionados com poderes ou interligação de dimensões;

252 – Relatório Minoritário e outros contos – Philip K. Dick – Um estrondoso conjunto de contos onde se explora a fiabilidade da realidade que nos rodeia, e a inteligência artificial que, pela sua programação, está destinada a ciclos intermináveis que aumentam de consequências a cada iteração;

253 – Os Vingadores – Vol.7 e Vol.8 – Continua a batalha entre super-heróis que têm posições opostas quanto à capacidade de previsão de uma catástrofe. Um futuro criminoso que seja preso antes de concretizar um crime é inocente ou culpado? Engraçado que na leitura anterior encontrei premissa semelhante (Relatório Minoritário).

A instalação do medo – Rui Zink

Quando caracterizo, como negativo, o facto de uma história ser episódica e pouco mais apresentar (algo que tenho feito principalmente em contos) esqueço-me que, quando bem contado, um episódio pode expressar todo o mundo onde decorre. Neste caso A instalação do medo decorre numa realidade distópica de características autoritárias onde as condições se degradaram fruto de uma economia impossível, economia essa de princípios com elevado paralelismo à nossa. O resultado é um retrato cínico e perspicaz que aproveita a estranheza do ambiente para espelhar uma realidade com demasiados elementos possíveis.

O episódio relatado em A instalação do medo começa com uma senhora a abrir a porta a uma equipa de instalação. Mas antes, esconde a criança na casa de banho. Percebemos que é prioritário que ninguém encontre a criança e a menção da necessidade dos elementos da equipa usarem a casa de banho aguça os sentidos da mãe protectora. Felizmente, o elemento aflito aproveita uma ida à carrinha para se aliviar, e após a instalação técnica começam as demonstrações, representadas por ambos os elementos:

Convenhamos, quantas serpentes subindo sanita acima podem existir numa mesma cidade? as estatísticas podem ser um bom aliado do medo, mas demasiadas vezes funcionam como inibidor. Provavelmente, como se costuma dizer, “só acontecerá aos outros”. Durante alguns dias, sim, podemos ter receio em sentar-nos na sanita, e espreitemos debaixo da cama a ver se não tem intrusos, mas depois começamos inevitalmente a relaxar e…

Em conjunto a dupla explora os mais diversos medos, sejam provenientes de violência animal ou humana, passando pelos cenários de desastre económico:

Quando ficam nervosos, os mercados partem coisas.
Aí , quando virmos que toca a nós, minha senhora…
Será cada um por si. (…)
Temos de vender as reservas de ouro.
Vender os anéis.
Vender os dedos, se necessário.

Se não pelos mercados, pelas acções oscilantes:

O Sousa tem razão, minha senhora. O segredo está na linguagem.
Na linguagem complicada.
Palavras inglesas, ásperas e aguçadas.
Como chaves inglesas
Enigmas inglesas.
O código é a chave.

Exposição a exposição, a senhora mostra-se temerosa, mas o verdadeiro medo, de que a dupla de instaladores não se apercebe, está na possível descoberta da criança, há demasiado tempo escondida na casa de banho. As situações ensaiadas são diversas, extrapolações de possibilidades que aproveitam epidemias tenebrosas, a desconfiança para com etnias diferentes ou a armadilha de um assassino em série – o desastre ocasional confronta-se com a maldade intencional numa sucessão de cenários diversos.

Vencedor do prémio Utopiales de 2017, ultrapassando outros  nomeados como Luna de Ian McDonald, Railsea de China Miéville ou My real children de Jo Walton, A instalação do medo é uma história curta e distópica de final inteligente e cortante que pouco ou nada foi divulgada aquando do lançamento em Portugal e sobre a qual não me recordo de ter lido críticas anteriores ao prémio. A edição portuguesa é pela Teodolito.

Novidade: Outcast vol.3 – Kirkman e Azaceta

O terceiro volume da série Outcast estará nas bancas durante a próxima semana! Da mesma autoria que The Walking Dead, Outcast é uma série mais pausada onde a causa dos monstros permanece por revelar! Deixo-vos a sinopse bem como algumas páginas deste terceiro volume. A série Outcast está a ser lançada pela G Floy.

Toda a vida, Kyle Barnes foi perseguido por influências demoníacas, e, para sobreviver e defender aqueles que ama, precisa de respostas. Kyle terá de realizar o mais arriscado e perigoso exorcismo que jamais tentou, envolvendo a sua irmã e a sua filha, no momento em que começa a entender o mistério e os segredos das forças demoníacas que o rodeiam… segredos que podem mudar o destino do mundo. Infelizmente, aquilo que ele vai descobrir poderá significar o fim do mundo tal como o conhecemos..

Robert Kirkman é um dos mais influentes criadores de comics actual, e um dos cinco partners da Image – o único que não é um dos fundadores. Kirkman é mundialmente famoso pela série The Walking Dead, que foi adaptada à TV pela Fox e se transformou num dos maiores êxitos mundiais. Tem-se dedicado à Image nestes últimos anos, e ao trabalho de produção televisiva das suas séries. É considerado como um dos grandes responsáveis daquilo que foi chamado a “Revolução Image”, o incrível período de criatividade pelo qual a editora tem passado e que a transformou numa das maiores editoras de BD do mundo, a terceira maior do mercado americano. Paul Azaceta, o desenhador de Outcast, é um artista cujo estilo simples, directo e arrojado, já ilustrou séries como Demolidor, Punisher Noir, Homem-Aranha e outras. Outcast é o seu trabalho mais mediático e aclamado, onde o seu estilo, geralmente visto nas páginas de comics de acção muito dinâmicos, é posto ao serviço de uma narrativa pausada e inquietante.

 

Daytripper – Fábio Moon e Gabriel Bá

How to talk to girls at parties é, para mim, das piores coisinhas que o Neil Gaiman já escreveu. Visualmente agradável, parece retratar as mulheres como alienígenas incompreensíveis e temperamentais. Tendo como desenhadores a dupla Fábio Moon e Gabril Bá, fez-me adiar a leitura de Daytripper mesmo sabendo que a narrativa pouco deveria ter a ver. O que encontrei? Uma das melhores leituras de banda desenhada dos últimos tempos.

A personagem principal é um escritor. Ou um aspirador a escritor que olha para os grandes êxitos do pai. Por agora escreve obituários num jornal, deixando os meses passar enquanto procura um percurso de vida. No dia em que o pai é homenageado entra num bar para assentar as ideias e é envolvido num assalto, morrendo sem concretizar os seus planos de vida.

Ou não. A história vai avançando, simulando os vários finais possíveis e os respectivos obituários, demonstrando as várias fases da vida de Brás de Oliva Domingos. De etapa em etapa, enquanto estudante em viajem com um grande amigo que o há-de acompanhar na maior parte da sua vida, com a primeira esposa, ou o apaixonar à primeira vista que o leva a conhecer a que será a mãe dos filhos, percebemos que a vida é uma série de possíveis encontros com a morte.

Brás de Oliva Domingos desempenha o seu papel de forma relevante, escrevendo obituários concisos que são bem recebidos pelos familiares, principalmente numa altura de grande tragédia em que dezenas de pessoas falecem no aeroporto. Felizmente este não será o seu único momento de destaque e consegue ser o escritor de sucesso que tanto deseja.

A vida é composta por uma série de acasos em que se falha, sucessivamente, o encontro com a morte, seja por distracção, por acidente ou de forma forçada. Em Daytripper a dupla explora a dualidade da vida e da morte, mostrando um percurso que facilmente poderia ter sido interrompido.

Não esperem grande sentido nos vários finais possíveis – coincidências, acasos, escassos momentos no local errado. O final pode coincidir com o momento em que se descobre o que se pretende da vida, ou quando se está totalmente perdido nos acontecimentos importantes, ou, ainda, nas alturas mais aborrecidas.

Sem mostrar um padrão ou um motivo de importância extrema que faça sentido como uma peça num puzzle, Daytripper explora a vida como uma sucessão de pequenas fugas a eventos terminais, demonstrando que muitos nunca chegam a aperceber-se de uma pequena percentagem das verdadeiras possibilidades com que se depararam.

Daytripper foi publicado na colecção Novela Gráfica que foi publicada pela Levoir em parceria com o jornal Público.

Planetary – Warren Ellis e John Cassaday

Altamente recomendada por João Barreiros, este volume de banda desenhada centra-se numa estranha e fria personagem com poderes associados ao gelo, Elijah Snow. A história começa com a sua contratação por um grupo de investigadores de mistérios, um grupo de pessoas curiosas e aborrecidas que são pagas para usar os seus poderes e coleccionarem informação sobre a história secreta do mundo – principalmente aquela que envolve eventos sobrenaturais e pessoas com poderes.

Este grupo designa-se por Planetary e é financiado pelo quarto homem, um personalidade obscura e desconhecida, do qual só se sabe ser suficientemente rico para sustentar um projecto destes. Para além de Snow existem outros agentes, mas o grupo que o acompanha é constituído por mais dois, Jakita Wagner (uma lutadora quase invencível) e Drummer (que consegue invadir quase todos os sistemas informáticos).

Ao longo dos vários episódios em que Snow vai agindo com perspicácia e maturidade (apesar do seu ar mal disposto e anti social) percebemos que tem problemas de memória. Nascido, como tantas outras personagens especiais, no virar do século, Snow sabe mais do que ele próprio compreende nas situações mais banais.

Ainda que as personagens possuam super poderes não esperem vê-los em grandes intervenções e batalhas. Aliás, as intervenções desta equipa são bastante subtis, mais dedicados a observar do que a agir, compilando a informação de que necessitam de forma competente. Alguns dos fenómenos que acompanham não são justificados, faltando um enquadramento ao leitor, tal como falta a Snow, devido à falha de memória.

A dinâmica entre personagens segue um rumo estranho, com Jakita e Drummer a mostrarem grande familiaridade e companheirismo, e Snow a mostrar-se sempre distante, crítico e bem… frio – um membro mais útil pelas suas capacidades de observação do que pelos seus poderes.

Carregado de mistérios, Planetary mostra uma sucessão de episódios nem sempre dispostos cronologicamente que fornecem pistas para um puzzle maior que se vai construindo ao longo do livro. Existem forças maiores na Terra e o grupo Planetary poderá ter de escolher deixar o papel principal de observador.

Este primeiro volume fecha alguns mistérios e abre portas a algumas mudanças no Planetary, apresentando um grupo poderoso que poderão ter de enfrentar mais tarde. Ficam por explicar algumas coincidências entre os vários episódios que poderão ser relevantes e que espero que sejam exploradas no próximo volume.

 

Novidade: Saga Vol.7 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples

O sétimo volume da série de banda desenhada Saga já chegou às bancas! Esta série cruza elementos de ficção científica e fantasia mostrando um Universo onde dois mundos perpetuam, por longos séculos, uma guerra interminável – um dos mundos baseia-se na tecnologia, outro na magia.

Em Saga o impensável acontece – estabelece-se um casal que cruza dois elementos de cada um dos mundos e uma criança nasce com características de ambas as raças. Perseguidos por toda a galáxia e separados por circunstâncias adversas, o casal tenta proteger a criança omitindo a sua origem!

Esta série épica já ganhou doze prémios Eisner, um prémio Hugo e dezassete prémios Harveys. Deixo-vos a sinopse e algumas páginas deste sétimo volume:

SAGA narra a luta de uma jovem família para encontrar o seu lugar num universo vasto e hostil, e já foi descrito como um encontro entre a Guerra dos Tronos e a Guerra das Estrelas ou Romeu e Julieta no espaço. O volume sete lança-nos em mais um capítulo da sua saga cósmica,“ A Guerra por Phang”, um dos eventos mais épicos de SAGA. Hazel está finalmente reunida com a sua família e viaja com ela para um cometa mergulhado na guerra que Coroa e Terravista travam desde sempre. Serão forjadas novas amizades e outras serão perdidas para sempre, neste volume cheio de acção sobre famílias, batalhas e refugiados.

Fantasia e ficção científica – e sexo, traição, morte, amor verdadeiro e fundamentalismo religioso – juntam-se como nunca antes neste épico subversivo e provocante do escritor Brian K. Vaughan e da artista Fiona Staples.

 

 

The Surrogates – Owner’s Manual – Robert Venditti, Brett Weldele, Chris Staros e Jim Titus

Num futuro próximo os seres humanos poderão andar na rua com corpos artificiais comprados. Estes avatares transmitem, aos humanos que através deles se projectam, as mesmas sensações sem os prejuízos para a saúde da utilização do próprio corpo, sejam estes prejuízos a transmissão de doenças ou os riscos de cancro provenientes do tabaco.

Uma das utilizações mais práticas será pelos agentes de segurança que assim evitam colocar-se verdadeiramente em situações perigosas. Estes corpos podem manter a vitalidade e a força de uma pessoa de vinte anos, ainda que o seu utilizador seja um barrigudo de sessenta, sedentário, mas que na sua mente carrega os largos anos de experiência na profissão.

Claro que a utilização destes corpos não se restringe ao que é lícito e laboral. Algumas pessoas usam-nos por questões profissionais, mas outros para esconderem o seu verdadeiro aspecto (fruto de inseguranças e ansiedades), para não serem reconhecidos ou para ostentar um aspecto mais atraentes num encontro romântico.

Este volume apresenta duas histórias, sendo que a que ocorre temporalmente antes é apresentada depois. Na primeira história começam a aparecer corpos estragados propositadamente utilizando electricidade. Sabe-se apenas que quem os estraga está contra a intensa utilização dos corpos falsos em detrimento de sair de casa com os corpos imperfeitos mas verdadeiros.

O principal suspeito? Um líder religioso que terá, na sua agenda, o extermínio destes corpos e terá sido, no passado, responsável por revoltas violentas. Ainda que os discursos coincidam, as peças parecem não corresponder totalmente.

A segunda história centra-se, exactamente, nos eventos que deram origem às revoltas violentas lideradas pelo líder religioso, começando com um assassinato de um homem pobre, um sem abrigo, que não tem dinheiro para um corpo falso. O assassinato ocorreu às mãos de três adolescentes que usavam os corpos falsos dos pais.

Para além das questões associadas à identidade questionável de quem controla o corpo, este assassinato destaca as questões éticas da utilização de corpos falsos (e adultos) por menores de idade. Pondo de lado o novo produto destinado aos mais jovens, a empresa que cria corpos falsos resolve estas questões na origem, mostrando-se uma empresa responsável que coloca os interesses da comunidade acima dos lucros.

Intercalando cada capítulo com um bloco informativo sobre a realidade onde decorrem as duas histórias (por vezes notícias de jornal ou artigos científicos, outras mostrando os folhetos informativos que são distribuídos para publicitar os corpos falsos) The Surrogates apresenta um futuro cinzento. Não me parece que seja cinzento e soturno por alguma catástrofe, mas como reflexo do afastamento da realidade, resultado directo do uso dos corpos.

Mas, claro, nem tudo é negativo. Os artigos disponibilizados mostram as componentes associadas à segurança nas profissões perigosas (polícias, exército, construção civil, etc) bem como ao desaparecimento de descriminação. O corpo que cada um apresenta pode ser de um género e de características físicas diferentes, louro ou moreno conforme desejado, e desta forma concorre-se a qualquer emprego sem que os empregadores saibam as verdadeiras características físicas das pessoas.

Se por um lado os corpos proporcionam a vivência de uma pessoa saudável e jovem, provocam, também, um sentimento de desligar da realidade, uma vivência inconsequente onde as pessoas assumem outras personalidades, vivendo farsas e afastando-se do contacto pessoal e directo com outras, realizando experiências que não ousariam em primeira mão.

Ainda que a postura de um terrorista e de um líder religioso instigador de revoltas sejam demasiado drásticas, a verdade é que nem todas as transformações fornecidas pela tecnologia se revelam positivas. De ambiente que recorda clássicos de ficção científica como Blade Runner, ou policiais noir, questiona a humanidade não pela apresentação de entidades artificiais mas pela apresentação de entidades humanas que se tornam artificiais.

Novidade: O livro do pó – Philip Pullman

 

A trilogia fantástica Mundos Paralelos de Philip Pullman é das melhorias trilogias do género mais voltada para um público jovem, envolvente e sem condescendências. Nessa trilogia é explorado um mundo semelhante ao nosso onde a Igreja tem um papel importante e controla a evolução tecnológica. Mas este não é o único mundo a que os jovens heróis têm acesso, encontrando mundos com seres diferentes e lógica própria. Este volume volta ao mesmo mundo numa nova aventura e será publicado pela Editorial Presença em Janeiro!

 

A guerra é para velhos – John Scalzi

Publicado há alguns anos na colecção 1001 (e podendo ser encontrado pelo preço de 3,15€, ou ainda menos quando aplicada alguma promoção) é um livro de ficção científica num futuro tecnologicamente bastante avançado em que os humanos já conquistaram vários outros planetas. Mas no planeta Terra estes avanços tecnológicos são quase desconhecidos, detidos pela Agência Colonial. Para a exploração e colonização do espaço apenas são recrutados os seres humanos dos países mais pobres. Ah. E velhotes para integrarem as forças militares e poderem assentar noutro planeta depois de servirem alguns anos.

 

Porquê velhos? Ninguém na Terra sabe. Mas John Perry e a esposa vêm neste recrutamento a oportunidade de uma nova vida – decerto que ninguém precisa de velhos para lutar e com a tecnologia das colónias é possível que sejam rejuvenescidos e terão uma nova vida a dois. Os planos futuros vão por água abaixo quando a esposa colapsa na cozinha pouco tempo antes de poder enveredar pela nova carreira. Com menos um laço a prendê-lo à Terra John Perry decide prosseguir e deixar todos os bens terrenos.

O que encontra são outros velhos como ele. Dezenas. Centenas. Rapidamente se forma um grupo com algumas empatias e teorias sobre o que lhes irá acontecer. Desde que deixaram a Terra deparam-se com exibições fabulosas de tecnologia e esperam poder voltar a ser jovens – a realidade supera as expectativas. As suas consciências serão transferidas para novos corpos, geneticamente melhorados, que são muito mais musculados e perfeitos do que os originais alguma vez foram.

E o que fazem centenas de velhotes, agora jovens, atraentes e fortes, sabendo que os novos corpos são estéreis? Enrolam-se em qualquer lado com a primeira pessoa com que se deparam. Este período em que experimentam os novos corpos estende-se durante a curta viagem, no final da qual lhes explicam que existem várias guerras em curso e que terão de efectuar um duro treino militar. John destaca-se pela sua capacidade inventiva que deve à profissão anterior em campanhas publicitárias.

O grupo é separado mas mantém-se em contacto através dos AmigosDaMente – computadores portáteis que possuem ligação directa ao cérebro e aos quais é possível dar ordens sem recorrer a palavras. Cada pessoa dá um nome específico ao seu AmigoDaMente e os nomes não poderiam ser mais ofensivos, fruto do desconforto inicial que cada um sente pela invasão desta entidade no seu cérebro. Serão, no entanto, estes computadores que permitirão elevar a capacidade de guerra dos seres humanos para poderem enfrentar outras espécies.

Entre espécies que guerreiam por questões religiosas e ritual e espécies que procuram grandes vantagens tecnológicas, os seres humanos tentam conquistar o seu espaço com dificuldade. A taxa de mortalidade destas tropas é elevada e rapidamente o pequeno grupo de amigos diminui, fruto de pequenos acidentes ou confrontos bélicos. Surpreendentemente (e como não podia deixar de ser) a personagem principal mostra grande aptidão para soluções rápidas e funcionais que salvam dezenas de vida, destacando-se em quase todas as missões.

A Guerra é para velhos não é a melhor leitura de ficção científica dos últimos tempos (relembro que (re)li, entre outras coisas, alguns livros de Philip K. Dick, vários contos de revistas de topo ou Normal de Warren Ellis) mas é uma história com pontos tecnológicos originais, espécies alienígenas peculiares e a uma perspectiva solta que permite uma leitura relaxada e interessante.

Seguir o link para a restante obra do autor da imagem

Nota: Não aconselho a leitura deste livro em locais em que a faixa etária média ronda os 70 anos. Como um hospital. Ou um centro de fisioterapia. Falando por experiência própria, os olhares que o(a) leitor(a) obtém não são simpáticos.

Resumo de leituras – Dezembro de 2017 (1)

243 – O homem de papel – Milo Manara – Uma pequena história com bastantes elementos cómicos centrada num homem que se vê desviado do caminho da sua amada por conta de várias escaramuças que decorrem na região contra os índios. Não desconfia ele que se verá mais envolvido pelas circunstâncias do que alguma vez pensou;

244 – Daytripper – Fábio Moon e Gabriel Bá – Uma história de vida e de morte que mostra o quão frágil é uma vida e várias possibilidades de morte. A personagem principal pretende ser escritor mas enquanto não consegue escreve obituários no jornal. Uma banda desenhada excelente!

245 – Corto Maltese – EquatóriaJuan Díaz Canales e Rubén Dellejero – Ainda que tenha lido poucos livros de Corto Maltese pelos autores iniciais, achei que o Corto Maltese aqui apresentado se revela menos misterioso e e mais expressivo. No entanto, contém o seu espírito aventureiro e provocador, não se afastando de uma quezília na qual acha que tem razão;

246 – Distância de segurança – Samantha Schweblin – Uma pequena história que mistura visões e pesadelos com elementos sobrenaturais. Uma mulher, que está às portas da morte no hospital, envereda, com uma criança que está ao seu lado no hospital, uma viagem de ressurreição e morte;

247 – A vida de Che – Oesterheld e Alberto Breccia – Uma edição que terá sido proibida no país de origem e que contém um resumo da vida deste líder político que pretendia a transformação da sociedade humana;

248 – A entediante vida de Morte Crens – Gustavo Borges – Um pequeno e divertido conjunto de histórias em que a Morte é a personagem principal. Os desenhos são caricatos e expressivos, mostrando ironia perante a condição da própria personagem e o seu trabalho.

Corto Maltese – Equatória – Juan Diáz Canales e Rubén Pellejero

Não que tenha lido muitos livros  de Corto Maltese, mas em comparação aos que li noto algumas diferenças na personagem. Corto Maltese parecia-me mais silencioso e provocador, abrindo a boca em raras ocasiões, para apresentar pequenas frases enigmáticas, expor raciocínios quando deles precisava, ou para lançar comentários que indignassem os seus adversários.

Aproveitando o espírito explorador de Corto Maltese esta aventura coloca-o em busca de um tesouro, O Espelho do Preste João, um objecto relacionado com a figura enigmática que terá originado expedições a um inexistente reino cristão carregado de riquezas e criaturas fantásticas.

De país em país, arrastado por pedidos de ajuda em que acompanha uma mulher em busca do pai desaparecido, cruza-se ainda com outras mulheres que ajudará nos seus objectivos – uma antiga escrava, mulher de posição frágil, e uma jornalista que, em oposição, se mostra senhora do seu nariz e autónoma.

Entre tantas missões o destino leva Corto Maltese a concretizar alguns dos seus objectivos, mas não da forma que esperava – enquanto isso Malta mantém-se distante e indisponível, uma terra à qual não voltará tão facilmente apesar dos seus desejos.

Carregando o espírito de aventureiro curioso de Corto Maltese, Equatória é uma história que cruza coerentemente vários objectivos e entrega um périplo curioso que explora tangencialmente a componente política dos vários países onde passa – os interesses religiosos cruzam-se com os históricos e sente-se o clima tenso que vai dar origem a maiores conflitos alguns anos mais tarde.

Equatória foi publicado pela Arte de Autor.