Eventos: Apresentação Apocryphus

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Apocryphus, antologia de banda desenhada que conta com um primeiro volume sob o tema Fantasia, será apresentada no dia 22, em Lisboa. Para os interessados em saber um pouco mais sobre o primeiro volume convido à leitura do comentário sobre a mesma, com fotos do conteúdo. Para os interessados a assistir ao evento, deixo-vos a página oficial do evento.

Othon, O trisavô – A Casta dos Megabarões – Jodorowsky e Gimenez

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Série clássica de ficção científica onde o esplendor da tecnologia se cruza com a humanidade, interligando-se em seres poderosos de base animal, mas levados ao expoente por adições mecânicas, Metabarões apresenta a imensidade das estrelas em Impérios intergalácticos, poderosos e implacáveis. Ao contrário dos sonhadores, o mundo altamente tecnológico aqui representado não é um paraíso idílico, mas um mundo frio e impiedoso onde a honra vale mais do que a vida.

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Através de duas entidades artificiais que conversam sobre o seu herói e senhor, semi-humano de capacidades quase infinitas, é-nos dada a conhecer a história do trisavô do Metabarão. Neste volume explica-se a riqueza da família, bem como a sequência de eventos que terá fundado a famosa casta, e os rituais dolorosos que caracterizam a passagem para a idade adulta.

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De geração em geração os guerreiros da família vão sendo treinados para suportar, sem expressão, os extremos da dor. Inteligentes e inexoráveis, colocando a honra e a promessa acima da vida, os antepassados de Metabarão vencem contra todas as probabilidades, ultrapassando em estratégia e força os que os rodeiam.

Só com uma ascendência destas se explica o guerreiro que veremos surgir, fruto de um contexto brutal, impiedoso e supremo, ao qual se adiciona uma avançada carga tecnológica, resultado de uma imensurável fortuna.

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Entre paisagens de planetas onde vingam outras civilizações e o espaço povoado por gigantescas naves, as páginas estão carregadas de sonhos tecnológicos, puros e frios como o metal, imagens que reflectem uma ordem quase idílica, mas sem espaço para sentimentos. Seguem-se guerras e batalhas onde o espírito honrado confronta, para além dos heróis naturais, a vigarice da esperteza, nem sempre sem danos, mas sabendo integrar as mazelas numa estratégia insubmissa.

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Othon, O trisavô – A Casta dos Metabarões foi publicado em Portugal pela Meribérica / Liber.

I Hate Fairyland – Vol.2 – Skottie Young

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Menos coeso que o primeiro volume, o segundo continua a cruzada de Gertrude no reino mágico encantado, mas agora como Rainha. Se ela pensava que este papel lhe poderia trazer algumas alegrias (sob a forma de chacinas, guerrilhas e outras coisas que tais) não contava que a nova posição fosse desempenhada a partir do trono real, a assinar papelada sem fim.

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Depois de conseguir cortas todas as alianças milenares, iniciar mil e uma guerras, promover lutas de morte para prazer do povo e revolucionar, de forma violenta, todo o mundo fantástico, o reinado de Gertrude é auditado e finalizado, estando a criança (apenas em aparência) liberta para prosseguir a demanda de um caminho de regresso a casa.

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Como mera habitante do reino fantástico, Gertrude recorre a uma lista de caminhos para o mundo real, que mandou compilar enquanto rainha. Cada uma das possibilidades é uma demanda carregada de tarefas. Se, antes, as suas viagens já não eram fáceis pela fama (justa) de chacinar os que cruzam o seu caminho, depois de ser uma rainha implacável os obstáculos aumentam. Mas nada que não consiga dominar violentamente.

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Usando e abusando das cores alegres e das caricaturas de expressões marcadas que contrastam a aparente fofura das personagens com acções mais tortuosas e maldosas, o segundo volume de Fairyland apresenta belíssimas páginas duplas em que explora todo o esplendor do reino mágico e as suas possibilidades.

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Ainda que, em termos de narrativa, este segundo volume não acrescente muito à história, repetindo a fórmula com a criação de uma série de missões movimentadas, aproveita para explorar mais recantos do mundo mágico e mostrando que, até os seres fofinhos que o habitam têm uma vida bastante menos idílica do que é imaginado, numa sucessão de desastres causados ou aumentados pela presença de Gertrude.

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Divertido pela subversão das típicas histórias fantásticas e pela loucura da personagem principal, uma criança limitada que décadas depois permanece sem conseguir concretizar as missões que lhe permitiram voltar a casa, I Hate Fairyland proporciona uma leitura descontraída e agradável.

Comentário ao primeiro volume.

 

Resumo de Leituras – Janeiro de 2017 (3)

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09 – 12 – Sandman – Volume 1 a 4 – Neil Gaiman, Sam Kieth, Mike Drigenberg, Malcolm Jones III, P. Chris Bachalo, Michael Zulli e Steve Parkhouse – Sim, li os quatro primeiros volumes de seguida! Visualmente estranho, nem sempre agradável ou excelente do ponto de vista gráfico, Sandman consegue reflectir o que Neil Gaiman tem de melhor em termos narrativos, aquele toque de imaginação e estranheza onde se sente a inevitabilidade do destino e em que a maldade tem um papel marcado. A vida é estranheza, é morte, é sonho, é melancolia. E assim são as histórias de Neil Gaiman, com a dose certa de tristeza apresentando o negativo sem a dose de terror que lhe poderia estar associado. Em Sandman cruzam-se mitologias, culturas e sonhos numa série de reinos fantásticos e sobrenaturais, maiores que a vida e a morte.

Cemitério dos sonhos – Miguel Peres, Marília Feldhues, Cinthia Fujii, Rodrigo Martins e Rômulo de Oliveira

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Com argumento de Miguel Peres e arte de quatro artistas diferentes, Cemitério dos Sonhos começa com um pensativo prefácio de André Oliveira sobre as diferentes experiências de vida e a sua real importância, para nos introduzir à vida de Dre, um rapaz que perdeu o pai muito cedo e que vive numa rotina cinzenta como avaliador de máquinas de lavar a roupa.

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A rotina a que já está habituado é um modo seguro de sobreviver mas, também, a causa da sua apatia perante a vida, algo que ainda não se apercebeu, amarrado como está por memórias e sonhos com partes submersas no subconsciente. Até ao dia em que, através de uma estranha entidade, explora a sua própria mente, e o cemitério dos sonhos.

A exploração do interior, com lutas fictícias em que enfrenta memórias e desenterra inibições, fá-lo analisar alguns factos e rever acontecimentos por uma nova perspectiva, principalmente os que estão associados à morte do pai. É assim que Dre consegue dar nova forma às amarras que o prendem na apatia, lembrar-se de quem é e trazer à vida os seus sonhos.

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Muitas obras que exploram temas mais interiores, com componentes conceptuais e pouco palpáveis, perdem-se em objectivos demasiado metafóricos. Não é o caso de Cemitério de Sonhos que consegue manter uma linha condutora e coesão, ligando as barreiras interiores a acontecimentos da vida Dre, o que lhe confere um sentido de conclusão e concretização no final.

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De visuais diferentes que se complementam, Cemitério dos Sonhos é uma história introspectiva onde se explora a necessidade de reflectir sobre uma existência cinzenta, analisar as barreiras acumuladas ao longo dos anos e recuperar sonhos e objectivos de vida.

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Cemitério dos Sonhos foi publicado pela Bicho Carpinteiro.

Hag-seed – Margaret Atwood

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Em Hag-Seed Margaret Atwood afasta-se dos mundos distópicos e das preocupações ecológicas para nos trazer a história de um pai desgostoso com a morte da filha, ainda criança. Viúvo, dedica-se à direcção artística de peças teatro, papel que termina por conta de um suposto amigo que, estando na administração, o afasta impiedosamente.

Não desejando enfrentar colegas ou imprensa, afasta-se para uma zona mais rural, reclusão que o leva a criar uma segunda identidade, através da qual responde a um anúncio para ser professor de teatro numa prisão. Utilizando peças de Shakespeare que desconstrói para melhor semelhança com aquilo que os seus novos actores conhecem, as suas aulas tornam-se de sucesso no sistema prisional.

Alguns anos mais tarde, é agendada a visita de dois ministros, dois déspotas que pensam nas aulas de teatro como um luxo que tem de acabar no sistema. Aproveitando que um dos ministros é o amigo que o atraiçoou, Félix tece um plano para se vingar e manter as aulas, encenando Tempest, a peça com a qual sempre pensou honrar a memória da filha, que ainda é uma presença constante.

Para além da reinvenção e renascimento do próprio Felix, Hag-Seed torna-se interessante pelas análises que realiza às peças, colocando questões comportamentais e desfazendo as noções típicas de monstros para nos apresentar o simbolismo de algumas figuras presentes nas peças. Uma das discussões mais interessantes refere-se aos tipos de prisões que existem, aquelas que nos são impostas, as que são provocadas pelo acaso e aquelas que nos impomos a nós próprios, seja por desgosto, seja por preconceito.

A par com esta exploração simbólica de alguns componentes das peças, assistimos ao sentimento de perda de um pai, que projecta o crescimento da filha como se esta permanecesse a seu lado – mas será apenas uma projecção? Esta dúvida vai crescendo ao longo da história e vai se envolver com o intuito da peça The Tempest.

Estes detalhes em que o real se cruza com a imaginação conferem uma maior intensidade a uma história que é, à primeira vista simples por se centrar numa única personagem, mas Felix é um homem tempestuoso que se refugia para fermentar as suas frustrações de forma obsessiva e, até doentia, e acaba por se reinventar. A história em si é quase linear e banal, mas é esta personagem, complexa, que confere alguma densidade, sendo simultaneamente, o elemento mais interessante e mais aborrecido – interessante pelas oscilações e forma de pensar, aborrecido pela linearidade dos seus propósitos.

Cruzando ficção e realidade que se projectam e influenciam mutuamente, Hag-Seed é uma leitura aconselhável, sem atingir o patamar da excelência.

Outros livros da autora

Destaque: Velvet – Vol. 2 – Brubaker, Epting e Breitweiser

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Vidas Secretas de Homens Mortos é o segundo volume de Velvet, uma série que começou com Antes do Crepúsculo e que tem como personagem principal uma agente secreta que ultrapassa, em muito, o papel típico dado à mulher neste tipo de narrativas. É que Velvet até pode ter assumido o papel de secretária quando se reformou das missões no terreno, mas, após algumas reviravoltas, vê-se lançada na clandestinidade e em fuga de toda a força secreta, provando que, apesar da idade, ainda consegue usar alguns bons truques que julgava nunca mais precisar.

A série Velvet é publicada em Portugal pela G Floy. Deixo-vos a sinopse deste segundo volume, bem como algumas páginas:

A mais temível e ousada das espias regressa, na segunda parte da sua saga. Tudo aquilo que Velvet Templeton pensava saber sobre a pior noite da sua vida era afinal mentira… agora, ela está de regresso a Londres, e vai ser ela a levar a vingança aos seus inimigos e confrontar aqueles que foram seus colegas na agência. E vai descobrir a verdade, ou morrer a tentar!

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Resumo de Leituras – Janeiro de 2017 (2)

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5 – Zombie – Marco Mendes – A subjugação a uma suposta autoridade é algo que é fácil para alguns, acreditando estar assim a enquadrar-se socialmente, tendo para isso que deixar de pensar por si próprios. Colidindo um modo subversivo a esta forma de agir, com os problemas pessoais da personagem, Zombie levanta algumas questões interessantes;

6 – Ultimate Homem-Aranha: Poder e responsabilidade – Brian Michael Bendis e Mark Bagley – Este volume apresenta a história inicial do Homem-Aranha, com algumas actualizações e um visual mais moderno, um reescrever da história do super-herói ainda como adolescente geek numa escola pública;

7 – Revista H-Alt 03 – Vários autores – O zine de banda desenhada continua a apresentar, neste terceiro volume, boas histórias com bons visuais, tendo algumas das histórias publicadas resultado de uma parceria com várias antologias de BD. O conjunto tem para além de ficção científica e fantasia, algumas histórias de horror;

8 – Hag-seed – Margaret Atwood – Quando Felix, um director artístico perde a sua posição no teatro, depois da catastrófica morte da filha criança, recolhe-se para tecer um plano de retorno, de renascimento, uma espécie de vingança artística que se torna uma obsessão e o único motivo para sobreviver e se manter. Com alguns detalhes possivelmente fantástico, explora algumas peças de Shakespeare de forma conceptual.

Bouncer – Volume 1 – Boucq e Jodorowsky

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Feios, porcos e maus. Nas zonas selvagens, fora das maiores cidades, a realidade americana estava longe da versão idílica e romanceada de cidades poerentas onde todos conseguem estar limpos e impecáveis, e onde a maioria dos vizinhos são amistosos e correctos. Em terra sem lei ou onde esta é imposta por uma pessoa com interesses próprios que a poucos presta contas, a cada um cabe defender-se e zelar pelos seus próprios interesses. Nesta terra implacável quem sobrevive é o mais forte, o mais rápido, o mais cruel e destemido.

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Após a Guerra da Secessão, um batalhão continua a sua própria luta, pilhando as quintas por onde passam e matando os soldados que ousam desertar. Reconhecendo os excessos cometidos e a possibilidade de serem castigados ou perseguidos, o batalhão acaba por se dispersar, com promessas de Ralton, o implacável chefe, de se voltarem a reunir um dia.

Anos mais tarde, a promessa cumpre-se e Ralton reúne o bando, encontrando um deles, Blake, casado com uma Índia. Com ele encontra uns revólveres especiais que estarão associados ao tesouro que procura, um famoso diamante. O encontro resulta na chacina de Blake e da esposa, carnificina a que se assiste, escondido, o jovem filho.

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O jovem foge ileso, mas de intenções obscurecidas pelo desespero e pela necessidade de justiça e, sobretudo, vingança. Na cidade procura um amigo do pai, afinal seu tio que, apesar de ter perdido um braço, é capaz de manter a ordem numa das mais movimentadas tabernas da cidade. É através deste familiar que descobre algumas das histórias dos irmãos, como se transformaram nos homens que são, bem como a origem das fabulosas pistolas de Blake.

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Retratando o interior da América como um local implacável aproveita para explorar as fabulosas paisagens, extensas e calmas, em contraste com o movimento visceral das cidades, mais sombrio, onde os homens impõem os seus modos selvagens. O vilão possui as características comuns de maldade cruzada com inteligência, mas demasiada ganância, e o nosso herói Bouncer, sendo um homem com defeitos, dado o enquadramento, é o homem que age correctamente sempre que é preciso, com domínio sobre as decisões que toma mas sem complacência.

A série Bouncer foi publicada em Portugal pela Asa até ao volume 7.

Eventos: Sessões de Culto – As Escolhas de Filipe Melo – The Fearless Vampire Killers

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A quarta sessão de culto com as escolhas de Filipe Melo já tem data marcada para dia 18 de Janeiro, pelas 21h30, no Nimas. Deixo-vos a informação disponibilizada sobre o evento, bem como a ligação para a página oficial:

Um sábio professor e o seu limitado aprendiz são aprisionados por vampiros num castelo misterioso da Transilvânia quando tentam salvar uma dama em apuros.

Realizado por Roman Polanski em 1967, este clássico das comédias de terror é uma paródia vampiresca, e apesar de não ter sido um grande sucesso de bilheteira quando estreou, “The Fearless Vampire Killers” tornou-se ao longo dos anos um objecto de culto, além de transformar a actriz Sharon Tate numa estrela.

 

Crónicas da Comic Con

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Crónicas da Comic Con é uma antologia de banda desenhada organizada por Bruno Caetano e lançada para a Comic Con de 2016, reunindo histórias de seis artistas diferentes que têm como cenário o evento anual onde se reúnem fãs da cultura pop.

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Em Comic Asylum, de Miguel Montenegro, explora-se a ligação afectiva de um jovem à banda desenhada por conta do recém falecido pai que gostava bastante de ler. Deambulando perto do recinto na véspera da abertura, descobre que é nessa noite que decorrem os eventos mais mirabolantes, para um conjunto mais restrito de pessoas.

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Dia da caça (com história de Pedro Moura e Marta Teives) é uma das histórias mais divertidas, retratando um vilão de uma realidade alternativa que atravessa um portal para o nosso mundo a fim de o conquistar. Mascarado tal como os restantes visitantes da Comic Con, não tem exactamente a recepção com que contava…

Lucas e Lia, de Patrícia Furtado, continua com o clima cómico, apresentando uma repórter destacada para o evento que, sabendo pouco ou nada dos assuntos visados, trata todos de forme condescendente e comete calinadas umas atrás das outras.

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Em Um para todos, Tudo para um decorre uma comic con bastante alternativa, com personagens bastante diferentes das usuais. Apesar das elevadas expectativas algumas são atingidas, mas de forma bastante diferente da esperada, deixando um sentimento dúbio de concretização.

Em Cria da Caça, de Carlos Pedro, apresenta-se uma história movimentada e misteriosa, com um visual peculiar, dentro do estilo que já se pode testemunhar em Salomão.

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Cada história é acompanhada com indicação, pelos próprios autores, de como surgiram as ideias e de como as trabalharam, bem como de esboços e apresentação sucinta do currículo de cada um. Ainda que tenha achado que algumas páginas precisariam de mais espaço para conseguirem ser aproveitadas plenamente, é de destacar o bom aspecto visual.

Em Crónicas da Comic Con encontramos pequenas histórias, na sua maioria com tendências cómicas, em que se destaca o ambiente peculiar do evento, em narrativas que, apesar da curta extensão, se apresentam coesas.

Crónicas da Comic Con foi publicado pela Zero a Oito.

Destaque: 4,3,2,1 – Paul Auster

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De uma forma muito simplificada, a mecânica quântica permite, do ponto de vista teórico que se formule a possibilidade de existirem várias realidades paralelas, que diferem entre si por pequenos eventos que podem ter originado grandes diferenças no desenvolvimento de cada um dos mundos. Esta premissa tem servido de base para diversos livros de ficção científica e fantástico, apresentando ora mundos em que as regras científicas divergem, ora mundos em que eventos importantes da história não ocorreram causando alterações visíveis nas sociedades.

Paul Auster parece ter adoptado com o seu livro mais recente, 4,3,2,1, uma ideia mais centrada numa única personagem que vive quatro possibilidades. O livro é lançado este mês também em Portugal, pelas Edições Asa:

O que nos motiva verdadeiramente? O que nos leva a optar por um caminho em detrimento de outro? De que futuros abdicamos pelo simples facto de termos apenas uma vida para viver? No dia 3 de março de 1947, na maternidade do hospital Beth Israel em Newark, New Jersey, nasce Archibald Isaac Ferguson, filho único de Rose e Stanley Ferguson. Uma só criança a quem são dados quatro caminhos ficcionais diferentes, quatro direções possíveis. Uma pessoa que se desdobra em quatro, para assim viver quatro vidas paralelas e absolutamente diferentes, mercê das circunstâncias, do acaso, e das escolhas. Os contrastes entre os quatro Fergusons são evidentes. As distintas relações com a família e as amizades, o amor romântico e as paixões intelectuais percorrem a tumultuosa paisagem da América, entretecendo-se com momentos cruciais da História do século xx. Em comum, o fascínio por uma mulher: a magnífica Amy Schneiderman. Todavia, cada uma das relações entre os quatro Fergusons e Amy é única. E nós, leitores, somos as testemunhas de cada momento de prazer, cada momento de dor, cada lento avançar rumo ao inevitável culminar das suas – de todas – as vidas. “4,3,2,1” é o primeiro romance que Paul Auster escreve em sete anos, e sem dúvida uma das suas obras mais complexas. Uma criação de um autor no auge do seu talento, um testemunho de paixão pelo realismo, pela História e a própria vida. Um tour de force absolutamente inesquecível.

Utopias – Michael Lowy

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De nacionalidade brasileira e origem judaica, Michael Lowy é um sociologista e filósofo que se tem dedicado ao estudo das obras de vários livros sobre sociologia como os de Karl Marx ou Che Guevara.

Estas obras pretendiam o estabelecimento de uma nova ordem social e é neste contexto que Michael Lowy apresenta curtos textos sobre estas obras, enquadrando-as no contexto social e económico em que foram escritas, apontando diferenças e divergências entre autores ou simples comparações.

O tecido vivo e necrosado de toda a sociedade torna-se «amorfo, desarticulado e pobre em estrutura», ao mesmo tempo que os indivíduos são entregues àquilo que Buber denomina, numa imagem surpreendente, a «solidão massificada». Noutros termos: «a era do capitalismo avançado rompeu a estrutura da sociedade», porque «o capital não se interessa pelo encontro entre os indivíduos e o Estado moderno facilita-lhe a tarefa, despossuindo progressivamente vida dos grupos da sua autonomia».

Sobre Martin Buber

Acrescentando uma perspectiva histórica, amadurecida, tanto pelos anos que já decorreram entretanto, como pelas várias alterações políticas que foram decorrendo por todo o mundo, este pequeno livro reúne 8 dissertações diferentes, separadas em três títulos: O judaísmo libertário de cultura alemã, O romantismo das ciências sociais da Grão-Bretanha e o Marxismo Latino-Americano.

Sob o primeiro encontramos desde logo uma separação das ideias expressas da religião judaica e uma justificação para o título de uma compilação de dissertações sobre a sociedade e a sua relação com a política de trabalho e a política:

Foi o sociólogo Karl Mannheim quem fez a formação clássica – e ainda hoje a mais pertinente – da distinção entre ideologia e utopia como duas formas fundamentais do imaginário social. Podem-se considerar como ideológicos os sistemas de representação que se orientam para a estabilidade e a reprodução da ordem estabelecida, em oposição às representações, aspirações ou imagens de desejo.

Começando assim, o autor passa a justificar que, ainda que os autores sejam judeus, afastam-se das ideias medievais e do passado, como forma de aproximação das luzes, da ciência e do progresso, em que o interesse pelo «messianismo utópico (…) está na era messiânica do futuro e não na figura do Messias.». As tradições servem como fonte de inspiração mas não como perspectiva a aplicar de forma directa, no futuro.

(…) sugere que o ângulo de visão romãntico só desaparecerá juntamente com o seu antagonista, a sociedade capitalista.

Sobre um texto de Marx

Contendo uma visão romantizada do período anterior à Industrialização, vários livros sugerem um retornar um afastar das máquinas, desumanizantes, e um retomar a uma ordem social mais próxima da anterior, engrandecendo o trabalho manual em detrimento da automatização.

Na terceira componente, O Marxismo Latino-Americano, exploram-se ideias de formar uma ordem social semelhante à que existia nalgumas culturas ameríndias, como forma de contornar o capitalismo e implementar um comunismo mais ordeiro e equilibrado. Mas não só.

Em Che Guevara ultrapassa-se a visão obtusa do comunismo russo e coloca-se a hipótese de evoluir e transformar o conceito para uma melhor aplicabilidade, ainda que nem todos os aspectos desta tenham sido analisados e solucionados.

Por último, em Marxismo e Religião: ópio do povo, apresenta-se  uma dissertação interessante sobre a cegueira implementada com a religião, uma forma de manter as populações adormecidas e pacíficas:

Heine já a usava – de uma maneira positiva (embora irónica): «Bem-vinda seja uma religião que derrama no amargo cálice da sofredora espécie humana algumas doces, soníferas, gostas de ópio espiritual, algumas gostas de amor, esperança e crença».  Moses Hess, no seu ensaio publicado na Suiça em 1843, toma uma postura mais crítica (mas ainda ambígua): «A religião pode tornar suportável a infeliz consciência de servidão, de igual forma o ópio é de boa ajuda em angustiosas doenças».

Sobre a utilização do conceito A religião é o ópio do povo no marxismo.

Denso em referências, citações e teorias sociais, o que expresso aqui é apenas um apanhado muito genérico de algumas das ideias que aqui vemos exploradas e analisadas, algumas notoriamente de forma mais entusiasmada (como na última componente). Será sem dúvida um livro para retornar após a leitura de algumas das obras citadas que abre portas a algumas ideias interessantes sobre a sociedade e as múltiplas possibilidades de organização.

Utopias foi publicado pela Ler Devagar & Unipop.

Eventos: Exposição Originais Mosi (Altemente)

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A partir de hoje, e até dia 20 de Janeiro decorre, na Leituria, uma exposição de pranchas e ilustrações originais da Mosi, incluindo pranchas de Altemente. A exposição será inaugurada hoje às 17h00. Para os interessados, deixo-vos a página oficial do evento.

Drifter – Vol.1 – Ivan Brandon e Nic Klein

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Drifter tem um visual brutal. Entre grandes planos de paisagem alienígena, túneis subterrâneos com enormes espécies escavadoras, fundos oceânicos com naves intergalácticas afundadas e desertos com sol avassalador, página após página, vão surgindo imagens graficamente espantosas.

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E tanto destaque para o aspecto gráfico porque… do ponto de vista narrativo não se chega a grande conclusão – ou estamos perante uma série extraordinária ou a um buraco sem fundo, mas ainda não será, neste primeiro volume, que percebemos.

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Detalhando. A história começa por nos apresentar um homem que acorda às margens de um lago. Rodeado por espécimes alienígenas que toma por hostis tenta defender-se mas a arma que possui não dispara como esperado. No último momento, uma mulher aparece e salva-o. Dois dias depois, acorda numa enfermaria.

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Oriundo de uma nave despenhada no lago, o homem tenta recuperar alguns objectos da nave, e perceber como é que, estando apenas adormecido há dois dias, decorreu um ano desde que se despenhou. Ao sair do lago encontra humanóides hostis e apenas sobrevive porque a mesma mulher o salva. Durante a escaramuça surge nova criatura alienígena, desta vez tão poderosa que todos preferem fugir a enfrentá-la.

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Sem continuidade temporal entre os episódios que se sucedem, a cada novo conjunto de acções o enigma aumenta. O lapso de dois anos não é justificado, mas vamos assistindo a episódios que não enquadramos na acção presente, algumas passadas, outras futuras, mas que, ainda, não respondem, nem nos permitem, por enquanto, compreender todos os acontecimentos.

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Por todos estes motivos, mais que não seja pelo aspecto visual, será uma série que irei continuar, pelo menos por mais um volume.

Resumo de Leituras – Janeiro de 2017 (1)

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1,2, 3 – Bouncer, volumes 1, 2 e 3 – Boucq e Jodorowsky – Num mundo implacável, sem lei, quem sobrevive é o mais forte e mais rápido, o mais cruel e destemido. Após a Guerra da Secessão um batalhão de soldados continua a lutar, pilhando as vilas à sua passagem e matando os que ousam desertar a causa perdida. Com intuitos bem menos nobres que a luta por por um ideal, e visando não serem julgados pelas suas acções, o batalhão lá acaba por se dispersar, com intenção de se voltarem a reunir um dia. Anos mais tarde, sob o comando de Ralton, encontram um deles casado com uma índia e chacinam ambos, sem saberem que o filho foge e procura vingá-los com a ajuda de Bouncer;

4 – O Labirinto dos Espíritos – Carlos Ruiz Záfon – Com uma personagem principal bastante peculiar que dá um tom bastante característico a este volume, O Labirinto dos Espíritos fecha todos os acontecimentos e ligações entre personagens, resolvendo alguns dos mistérios e segredos da família Sempere, ao mesmo tempo que desenvolve um enredo próprio carregado de perseguições, lutas e agentes secretos. Uma excelente leitura que peca apenas por algumas passagens demasiado descritivas no início que, apesar de criarem ambiente, por vezes se alongam demais.

Mil Anos de Esquecimento – Afonso Cruz

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Mil Anos de Esquecimento é o mais recente volume de Enciclopédia da Estória Universal, o sexto se contarmos com o primeiro lançado pela Quetzal.  Mantendo o formato já conhecido, de várias entradas alfabeticamente ordenadas, sendo que algumas são pequenas notas, frases curtas com enorme significado e outras são contos completos, este volume é um dos melhores do conjunto por conter uma extraordinária história que ocupa quase metade do volume.

E apesar de ter achado esta história extraordinária, não consigo classificar este volume, no seu todo, como muito bom. Por um lado, sofre do mesmo problema que outros anteriores, desbalanceado na distribuição de conteúdos curtos e longos. Por outro, possui alguns conteúdos que já li, integralmente, noutros livros do autor. Ainda, falta-lhe o intenso intercruzar de entradas que tornava o primeiro, lançado pela Quetzal, tão coeso e excelente.

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A história que dá nome ao livro apresenta um homem, um pintor, que terá estado nas melhores companhias e privado com nobres e pintores influentes. Viajando em terras mais orientais encontra dois montes e, em cada um deles, uma cidade. Quando se aproxima de uma delas é preso e maltratado, tal como os seus dois servos.

A recepção do pintor é, afinal, um engano, provocado pelas longas disputas entre as duas cidades, cada uma seguidora de uma corrente filosófica diferente, e tão fanáticos nas suas certezas que da discordância nasceu uma guerra mortal, que, das ocasionais escaramuças já passou a expedições para capturar e matar os habitantes da cidade vizinha.

Interessante pela forma como explora a idiotice das guerras, principalmente quando causadas por discordâncias ideológicas, a história principal deste volume poderia constituir, por si, um livro autónomo, o que beneficiaria a história, e o restante conjunto da enciclopédia.

Quando tenho muitos livros para ler, tenho escolha. Quanto menos tiver, mais a minha liberdade está confinada. Ela depende dos livros que não são lidos. Se temos apenas um caminho, não temos liberdade, teremos impreterivelmente de o seguir. Para ela existir, temos de ter possibilidades, muitas, porque só daí pode resultar uma escolha lúcida.

Para além da história, as restantes páginas são preenchidas com frases mais curtas ou pequenas histórias, com relação entre algumas das entradas, de onde se destaca a história do homem que julgou ter sido salvo do mar por um bando de loucos, quando estes lhe explicam o seu objectivo de atingir a Índia na direcção do que é claramente o fim do Mundo, ou a história de uma mulher que espera pela carta do seu amor, dia após dias, sem perceber porque tais cartas nunca chegam (apesar de nós, leitores, sabermos que tais cartas são escritas).

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De leitura muito aconselhável, este volume vem redimir a sensação de vazio transmitida no último volume, apresentando boas histórias numa combinação que, não sendo muito equilibrada, contém excelentes ideias.

Opinião sobre os restantes volumes da Enciclopédia da Estória Universal

Eventos: Sustos às sextas 2017

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Finalmente está divulgado o programa da terceira temporada de Sustos às sextas que começa num dia muito propício, a próxima sexta feira 13 em Janeiro. Entre música, cinema, entrevista, espectáculos este ano cada sessão é marcada por um espaço de sugestões literárias que começa com João Barreiros. De destacar, também, o painel de Ficção científica e horror para dia 19 de Maio. Marquem na agenda!

 

 

Un Océan D’Amour – Lupano e Panaccione

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Un Océn D’amour não tem palavras. Não precisa. A expressividade do desenho diz tudo o que há para dizer e apresenta uma maior profundidade do que qualquer diálogo poderia, com cenas caricatas e melancólicas, mas sobretudo amorosas.

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A história apresenta-nos um casal maduro na sua rotina diária. A esposa prepara o pequeno-almoço e a merenda para levar, enquanto o marido embarca de madrugada num pequeno barco pescador. À merenda usual é que o marido já não acha muita graça, sardinhas em lata que vai acumulando no barco, sem prever que, um dia, estas irão ser bem aproveitadas.

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Num dia banal o pequeno barco de pesca fica preso nas redes de um grande navio pesqueiro e é arrastado para alto mar, onde encontra tempestades, petroleiros, piratas e outras aventuras – sempre acompanhado por uma fiel gaivota com a qual estabelece um relacionamento caricato.

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Por sua vez, a esposa aguarda no cais, preocupada e desdobra-se em tentativas para perceber o que aconteceu ao marido quando o companheiro de pesca chega a terra e explica a situação que ocorreu com o navio. O oceano é imenso e a única forma que a esposa encontra para tentar saber para onde terá sido arrastado o pequeno barco é consultando uma vidente que lhe dá pistas para a América Latina.

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Parte assim, num cruzeiro, em busca do marido e acaba por viver as suas próprias aventuras, confrontando os seus hábitos com os das pessoas que encontra e acabando por conhecer algumas figuras importantes.

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Aventuras e desventuras à parte, o que interessa é regressar a casa e retornar ao quotidiano que ambos tão bem conhecem, lado a lado, sem o reboliço dos imprevistos e da separação.

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Para além das aventuras que o papel vive separadamente, a história vai tendo algumas notas sobre a poluição dos mares provocada pelo homem, sempre com um retorno prejudicial para o próprio homem, como o petroleiro que acaba por se incendiar por causa do rasto que deixa pelo mar.

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Expressivo usando o exagero nas feições e nos gestos, amoroso pelo esforço de ambos em se voltarem a encontrar, divertido pela combinação de reacções e situações Un Océan D’Amour é uma história ternurenta que transborda afecto e envolve o leitor numa aventura pitoresca.

Eventos: Comunidade de Leitores Culturgest – Entre dois Mundos

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A comunidade de leitores da Culturgest inclui, na sua programação, a literatura de horror, incidindo, durante o mês de Janeiro, no excelente Santuário de Andrew Michael Hurley, publicado recentemente em Portugal pela Bertrand. O evento carece de pré-inscrição que podem fazer conforme indicado na página oficial. Abaixo o texto que acompanha o anúncio bem como a programação para os próximos meses:

O estranho, o fantástico, o bizarro poderão estar afastados do nosso quotidiano, neste mundo pragmático e realista em que (quase) todos vivemos. Considerado como uma categoria bem definida, principalmente no Cinema, o Terror, embora muito popular, está normalmente contido dentro das fronteiras de um género específico que, em Literatura, remete para o que foi cunhado de “gótico”. Mas os nossos sentidos não desdenham de um bom calafrio, de um susto inesperado que façam emergir a nossa atávica ligação ao “folclore” (folk-lore). Embora os fantasmas e outras aparições funestas tenham sido maioritariamente relegadas para os jogos de computador e para as séries televisivas, a história da Literatura, principalmente a partir do Romantismo, continua a explorar um certo tipo de imaginário, aquilo a que Sigmund Freud chamou de “unheimlich“, ou seja, o que não é familiar, o que se encontra “entre dois mundos”, entre a luz e a sombra, entre o racional e o irracional, entre o que é explicável e o que é inexplicável. Neste ciclo de leituras, tentaremos perceber em que espaço nos movimentamos quando deparamos com situações tão estranhas como o fanatismo religioso no recente romance de Hurley, as perturbações da infância e adolescência em James, a estranheza de “ser diferente” na sulista O’Connor, os truques mágicos e satíricos de Sena, a hilariante e elegante paródia fantasmagórica de Wilde ou o exemplo do “gótico” sofisticado de Brontë. Um ciclo que não é uma viagem no comboio fantasma mas que promete brumas, catacumbas, ranger de portas, correntes de ar maléficas, aparições, donzelas em perigo e um ou outro arrepio de desconforto.

Helena Vasconcelos

Programação

12 de janeiro – Santuário, Andrew Michael Hurley, ed. Bertrand

26 de janeiro – O Aperto do Parafuso (ou O Calafrio, ed. Europa-América),
Henry James, ed. Sistema Solar

9 de fevereiro – O Físico Prodigioso, Jorge de Sena, Guimarães editora

23 de fevereiro – O Céu é dos Violentos, Flannery O’Connor, ed. Relógio D’Água

9 de março – O Fantasma de Canterville, Oscar Wilde, Porto Editora

23 de março – Jane Eyre, Charlotte Brontë, ed. Relógio D’Água