A arte de caçar destinos – Alberto S. Santos

A arte de caçar reúne alguns contos sobrenaturais em cenário português da autoria de Alberto S. Santos. Com temática e exposição diferente, de tom díspar entre histórias, trata-se de um conjunto por vezes confuso e pouco coeso ainda que possua alguns bons contos, de estrutura mais clássica, aos quais não falta uma mensagem moral.

O livro começa com Correr o Fado, o pior conto do conjunto, para mim, tanto pela escrita demasiado floreada para o contexto rural que apresenta, como pela percepção que expõe sobre as mulheres. Talvez esta percepção seja justificada pela época em que se situa, sendo um dos poucos contos que se mostra, quase todo, em primeira pessoa, mas as pequenas notas que possui tornam a leitura incómoda.

Já aprendi que faz parte do espírito das mulheres esconderem as suas verdadeiras intenções atrás de atos, por vezes, violentos. Mas um homem não pode levar a peito tais reacções, antes encará-las como um dos passos para se alcançar o limbo das delícias que só elas nos sabem dar.(…)

Brígida interessava-me mesmo para fins mais sérios, aqueles que acontecem quando nos lembramos vezes de mais de uma mulher. E não apenas porque, como homens que somos, temos certas e determinadas necessidades que só os másculos varões sabem explicar e as mulheres nunca entendem.

O conto roda em torno de uma aldeia em que os habitantes estão assustados por acharem que há quem corra o fado todas as noites. Já O Génio do Candil é um conto sem estas observações, de estrutura mais clássica em que um jovem, órfão de pai e mãe, deixado à porta da igreja, vê os dias calmos terminarem quando o seu protector, o padre, falece e o sucessor, instigado por sentimentos pouco nobres, o expulsa. Albergado por um homem pobre, descobre um dia um candil com um papel em árabe, papel que o fará viajar e conhecer a mulher que ama. De propósito moral mas bem construído, gostei desta pequena história que cria empatia para com a personagem principal.

Em O Dono do Mastro um homem vê-se caído em desgraça por não respeitar as tradições, tentando, numa primeira volta, culpar outros pelo seu infortúnio. Por sua vez, Maria Carriça centra-se numa jovem, também órfã de pai e mãe que tenta a sorte com o dote dado por selecção e sorteio em honra do Santo local. Uma história corrente na época de quem, sem nada, se agarrava às poucas esperanças para construir uma vida mais decente.

Em A Sombra da Deusa uma caçada termina em desgraça, fruto de uma antiga maldição, gerada pelo conspurcar das deusas locais, cujo poder parecer permanecer após longos séculos. Já em A Filha da Viúva uma jovem cai em desgraça por se apaixonar por um jovem abastado. Filha de uma viúva que todos julgam bruxa, é tomada, também por bruxa perante a Inquisição.

Finalmente, Onde o rio acaba é uma história diferente destas, decorrendo num tempo mais actual e apresentando destinos adiados que finalmente se concretizando contra todas as probabilidades, com vidas passadas a influenciar a actual existência.

Com bases históricas que justificam grande parte dos contos, A arte de caçar destinos contém alguns contos engraçados que se focam na mitologia local, com um alto teor sobrenatural. Em vários se apresentam as raízes pagãs de muitas tradições cristãs, sejam cerimónias ou procissões, mostrando que os hábitos locais permanecem os mesmos durante séculos, transformados à luz de novas crenças.

Novidade: Homens sem mulheres – Haruki Murakami

Desde Kafka on the Shore que tenho seguido a obra de Haruki Murakami. Não tenho gostado de tudo na mesma medida, sendo o Hard-Boiled Wonderland and the end of the world um dos meus títulos favoritos deste autor.

Fantasia ou realismo mágico, cruza elementos fantásticos com a realidade, resultando num relato que nos faz oscilar e não saber o que é suposto ser real ou não. Esta incapacidade de definir faz parte da experiência de leitura e torna algumas das suas obras muito especiais.

Este livro será um livro de contos do autor que se centra em homens assolados pela solidão e é lançado este mês pela Casa das Letras:

O que têm em comum os Beatles, Hemingway, François Truffaut, Woody Allen, Tchékhov, um rapaz chamado Gregor Samsa, um médico doente de amor e o dono de um bar de jazz? Haruki Murakami, pois claro. São sete os contos que dão forma ao mais recente livro: Homens sem Mulheres. Sete homens desencantados e a contas com a solidão. Sete histórias de solidão, mágoa e luto que desafiam os lugares- -comuns sobre o amor. Sete maneiras de traduzir a mesma melancolia, enquanto lá fora «a chuva continua a cair, provocando no mundo inteiro um interminável calafrio». Mas não se deixem enganar: este livro está repleto de mulheres: desejadas, sonhadas, traídas, ouvidas, invocadas, incompreendidas, sobrevalorizadas, eternamente amadas e perdidas para sempre. Um dia, o leitor corre o risco de se transformar num homem sem mulheres. Depois não digam que não avisámos.

Killer of Demons – Yost e Wegener

Um anjo que sussurra no ouvido, instigando a matar as pessoas que rodeiam quem o ouve, dizendo que se tratam de demónios. Parece a história de mais um assassino em série, um louco violento internado no hospício – só que neste caso até é verdade e cabe a Dave assumir a matança dos demónios que encontra.

O problema começa logo no local de trabalho – Dave trabalha numa grande empresa envolvida em produzir publicidade para a venda de tabaco e os colegas pouco escrupulosos que o rodeiam têm todos um par de chifres na cabeça, indicando tratarem-se de demónios. Ao invés de se preocuparem em trabalhar, as ideias discorrem em bares de striptease, e dá-se maior valor ao relacionamento pouco moral com os chefes do que à qualidade do trabalho.

Instigado pelo anjo, Dave perpetua pequenas chacinas, um pequeno café aqui, uma empregada de bar acolá, pequenos massacres que alertam as autoridades mas que demoram pouco tempo e que consegue esconder facilmente, até da esposa, uma polícia que investiga as mortes, e do irmão que é agente do FBI e que navega nos jogos de computador online para caçar pedófilos.

Assediado pelo diabo, provocado por agentes humanos do inferno que pretendem eliminá-lo, Dave julga-se, até, maluco e interna-se num hospício. Estadia de pouca dura, já que ao vislumbrar, também naquela instituição, demónios de todo o mundo, Dave escala a violência.

Divertido, com uma pitada de tom crítico em relação às empresas de moral duvidosa, Killer of demons é uma leitura movimentada que não se leva a sério. O aspecto gráfico não é muito cuidado, mas relaxado e de acordo com o tom da narrativa. Em suma, uma leitura engraçada que distrai mas que não roça o excelente.

Novidade: Homem Aranha Vol. 5

Lembram-se de ter votado nesta capa? Pois bem, podem encontrar o volume 5 desde ontem nas bancas! Deixo-vos a sinopse, detalhe do conteúdo bem como algumas páginas do interior do livro!

Quando um morto-vivo surge a deambular pelas ruas de Nova Iorque, o Homem-Aranha tem de fazer alguma coisa a esse respeito. Mas desta vez o aranhiço terá de sair da sua zona de conforto numa história do além que vai desafiar a sua própria fé. Na sua busca incessante para deslindar um caso verdadeiramente paranormal, o espetacular Homem-Aranha dá de caras com os famosos Santeiros! Este fabuloso grupo de vigilantes – criado por Joe Quesada em 2005 – regressa desta forma ao ativo e promete surpreender os leitores com os seus poderes baseados na mitologia e religião dos Orixás. Uma minissérie completa onde Peter Parker será forçado a enfrentar questões de vida ou morte… e tudo que está para além disso!

Conteúdo

Amazing Spider-Man (2015) #1.1-1.6 – Por Jose Molina, Simone Bianchi, Andrea Broccardo, Raymund Bermudez, Israel Silva, Java Tartaglia, Andres Mossa, Marte Garcia, David Curiel, Matt Yackey.

 

 

Resumo de leituras – Setembro de 2017 (4)

141 – Acadie – Dave Hutchinson – Livro curto que se lê de uma vez, apresenta uma colónia criada por cientistas que fugiram da Terra, perseguidos pelas suas inovações genéticas. Uma colónia peculiar em quem são eleitos para cargos políticos (como presidente) os cidadãos que demonstrarem não quererem este tipo de ocupações;

142 – Os livros da Magia – Neil Gaiman – Uma história fabulosa de Neil Gaiman que demonstra as suas capacidades como contador de histórias ao apresentar um rapaz pouco interessante e ao tecer todo um mundo em seu torno, usando mitologias e referências do mundo real para conceder maior força e credibilidade à história;

143 – Um mundo de pernas para o ar – Elan Mastai Romance interessante em torno de uma teoria de viagens no tempo bastante assertiva – de que as viagens no tempo possuem dificuldades acrescidas pelo movimento constante da Terra em torno do Sol e do sistema no Universo, pelo que a localização à qual estaríamos a voltar atrás não seria exactamente aquela em que estaríamos. Em termos de história possui vários trechos desnecessários, mas com elementos interessantes;

144 – K. O. em Telavive – Asaf Hanuka Neste volume o autor expressa o seu quotidiano familiar, com altos e baixos no casamento, com momentos desesperantes do ponto de vista financeiro e psicológico. Interessante pelas diferenças culturais e porque, apesar destes, serem reconhecíveis os problemas e inseguranças que apoquentam a maioria dos seres humanos.

1602 – Witch hunter Angela – Bennett, Gillen e Hans

O mundo deste volume começou com 1602, um livro de Neil Gaiman que apresenta uma realidade alternativa onde os super-heróis apareceram durante os Descobrimentos, em auge pleno da Inquisição. Julgados como aberrações, demonstrações do poder do diabo ou resultado de bruxarias, os heróis surgem em meio pouco propício e facilmente acabam na fogueira.

Depois de 1602 de Neil Gaiman seguiram-se outras aventuras no mesmo Universo por outros autores, Fantastic Four ou Spider Man, aventuras mais standard num enquadramento diferente. Em Witch hunter Angela o ambiente difere de todos os volumes anteriores, com um ambiente mais negro e denso que contrasta a religiosidade com a magia, conferindo à caçadora de bruxas um aspecto angelical apesar da sua missão.

Entre peças de teatro e apresentações da corte que revelam monstros entre humanos, Angela avança, implacável e impiedosa, percebendo que alguns dos novos monstros não nasceram assim, mas escolheram o seu próprio destino e são, por isso, menos propensos à sua piedade ou simpatia.

Mas até a caçadora tem pontos fracos e será através destes que será testada e corrompida, manipulada apesar da força que demonstra. O poder da magia encontra-se em todo o lado, alimentado pelas preces de quem pouco tem e algo precisa.

Com coloração densa, escura e brilhante, a maioria das páginas contém uma composição arrojada que nem sempre está de acordo com a história que se apresenta, de narrativa mais classicamente fantástica apesar dos toques de super-herói, em que personagens conhecidas como Fury ou os Guardiões da Galáxia.

Ainda que, visualmente, não me tenha agradado (salvo algumas páginas) a história é interessante por cruzar personagens históricas com o Universo Marvel, e por retirar a perspectiva simplista de bom / mau usada nalguns outros volumes. Angela chacina os que já não são humanos sem dó, a serviço de algo em que acredita.

Outros volumes do Universo 1602

Aceitando submissões: Antologia de Fantasia Rural

A Editorial Divergência, que tem publicado várias antologias de autores nacionais, bem como romances de ficção científica ou fantasia, está a planear o lançamento de uma Antologia de Fantasia Rural com o título O Resto é Paisagem. Este projecto resulta de uma colaboração com Luís Filipe Silva.

Sobre a antologia e respectivas regras de participação podem consultar a página oficial da editora.

A Biblioteca à noite – Alberto Manguel

Livros sobre livros. E que tal livros sobre bibliotecas? Partindo da sua própria biblioteca que está albergada num local com uma fascinante história própria, Alberto Manguel discorre sobre várias bibliotecas, seja do ponto de vista de conteúdo, organização ou democratização.

Claro que não é possível falar de bibliotecas sem falar das desaparecidas e míticas, como a de Alexandria. Mas como esta, existem outras, reunidas em determinados locais para simplesmente serem extintas, de repente, por algum conservador de ideias que vê, nos livros, uma afronta e um perigo.

Utilizadas para manipulação política (o autor descreve casos em que a disponibilização ou maior destaque foi dado a determinadas publicações), como estrutura diferenciadora de classes (numa altura em que o acesso a livros poderia aprofundar diferenças culturais) ou como monumento de prestígio (que homens ricos deixavam não porque valorizassem a cultura, mas porque desejavam ter o seu nome realçado) as bibliotecas, com os respectivos livros, têm marcado culturas e gerações.

Organizadas de determinadas formas (alguns métodos convertem-se em autênticas dores de cabeça), mantendo, por vezes, a nomenclatura dos donos originais, as bibliotecas privadas reflectem os seus donos, pela diversidade e composição das obras, e representam fisicamente associações de ideias:

Os nossos livros decorrem de outros livros, que os mudam ou enriquecem, que lhes atribuem uma cronologia diferente da dos dicionários literários.

A Biblioteca à noite, publicado em Portugal pela Tinta da China é uma leitura fascinante para quem gosta de livros e bibliotecas – carregado de curiosidades e sem se conter em fazer observações políticas e históricas sobre o acesso à cultura. Cruzando diferenças culturais e históricas com a actualidade ocidental, realça o mistério da biblioteca à noite, obscura, carregando todas as possibilidades e todos os livros, os lidos e os não lidos.

Histórias do Bairro – Gabi Beltrán e Bartolomé Seguí

Crescer num bairro onde não há lugar para a inocência não só determina uma infância diferente, como, quase sempre, aprisiona o futuro. Quando são inexistentes as perspectivas de sucesso e quando todos os adultos que se conhece possuem actividade incerta ou ilegal bem como existências afundadas em vícios, solidão e raiva, não se pensa em investir numa profissão honesta ou em sair do loop de corrupção.

Em Histórias do Bairro conhecemos a infância de um dos autores que cresceu num bairro problemático, carregado de prostitutas e pessoas de actividade incerta, deambulando livremente com outros miúdos e aproveitando para fazer pequenos biscates – ir ao tasco comprar o vinho ao velhote que vive fechado em casa ou ir às docas indicar aos marinheiros onde conseguem arranjar uma companhia para a noite.

Estas primeiras actividades, ainda que relativamente honestas, expõem a mente a duras realidades e fecham a porta à sensibilidade – os sentimentos são um luxo e é mostrando dureza que sobrevivem na rua entre outros miúdos, dando suporte a actividades ilegais como assaltos ou contrabando.

De episódio em episódio, o autor apresenta os relacionamentos fugazes com adultos de referência, a fraqueza escondida da avó, os destinos catastróficos dos outros rapazes. Paralelamente percebemos que a paixão por desenhos e livros o mantém, acabando por ser o que o salva de um destino quase certo de crime e vício.

Histórias do Bairro possui um visual caricato, retratando apenas o necessário e captando a dura realidade à qual dificilmente se escapa. Mesmo neste contexto consegue ter um tom ligeiramente descontraído encarando as cenas quase como normais (uma normalidade relativa causada pelo hábito) deixando ao leitor, com o devido texto de apresentação (mais maduro e recente), a interpretação de cada componente.

Histórias do Bairro foi publicado em Portugal pela Levoir em parceria com o jornal Público.

Novidade: O Diário de Anne Frank – adaptação banda desenhada

O Diário de Anne Frank foi adaptado para o formato da banda desenhada! A adaptação foi realizada por Ari Folman e David Polonsky e será lançada em Portugal no dia 21 pela Porto Editora. Esta nova edição foi patenteada pela Fundação Anne Frank e pretende ilustrar os 743 dias que Anne Frank viveu escondida, com mais 7 pessoas, num anexo em Amesterdão.

Deixo-vos a sinopse, bem como algumas páginas disponibilizadas pela editora, Porto Editora:

No verão de 1942, com a ocupação nazi da Holanda, Anne Frank e a família são forçados a esconder-se. Durante dois longos anos, vivem com um grupo de outros judeus num pequeno anexo secreto em Amesterdão, temendo diariamente ser descobertos. Anne tinha treze anos quando entrou para o anexo e levou com ela um diário que manteve no decorrer de todo este período, anotando os seus pensamentos mais íntimos, os seus receios e esperanças, e dando conta do dia a dia da vida em reclusão. Em 1947, após o fim da Segunda Guerra Mundial — a que Anne não sobreviveria —, o seu pai publicou este diário, um documento inspirador que é ainda hoje um dos livros mais acarinhados em todo o mundo e uma obra marcante na história do século XX.

Lançada mundialmente em celebração do 70º aniversário de O Diário de Anne Frank, esta é a sua primeira adaptação para banda desenhada, realizada com a autorização da família e tendo por base os textos originais do diário.

A súbita aparição de Hope Arden – Claire North

Claire North é o nome pelo qual Catherine Webb assina alguns dos seus livros, sendo As primeira quinze vidas de Harry August o mais conhecido por ter vencido o prémio John Campbell Memorial Award e por ter sido nomeado para o BSFA e o Arthur C. Clarke. Já este, A Súbita aparição de Hope Arden, foi nomeado para o World Fantasy Award.

A premissa é interessante – uma jovem é sempre esquecida após poucos segundos de se ter falado com ela. A uma certa idade os pais esquecem-se que têm aquela filha, os amigos já não se recordam de terem brincado com ela, os inimigos esquecem-se do murro que acabou de lhes dar.

Questionada sobre o que faz naquela casa, Hope deixa o lar quando se apercebe do denso efeito que tem sobre todos e, com pesar, parte. A capacidade de ser rapidamente esquecida impede-a de ser contratada ou, até de efectuar pequenos biscates. Resta-lhe enveredar pelo mundo do crime e safar-se como ladra.

Apesar das particulares características de Hope, não são estas o ponto forte do livro, mas a existência de um aplicativo móvel denominado Perfection que induz os seus utilizadores a uma existência perfeita – o corte de cabelo perfeito, as companhias perfeitas, as roupas perfeitas. Cada vez que se segue uma dica ganham-se pontos e com o acumular dos pontos ganham-se novas vantagens.

Claro que este aplicativo é de uso limitado para os mais pobres, sendo os ricos que usufruem na totalidade das vantagens, apresentando uma aparência e uma mentalidade cada vez mais estandardizada. O programa não só indica o que comer e o que vestir, como o que pensar. Sob indicações expressas sobre como agir e tratamentos específicos, o aplicativo anula quaisquer diferenças de personalidade para criar mais um ser humano perfeito… perfeito para as campanhas de marketing.

Hope apercebe-se do potencial deste aplicativo quando uma pessoa que conhece (mas que, por sua vez, não a reconhece a cada novo encontro) e que estima, se suicida. Inteligente e bonita, não nutre suficiente amor-próprio nem para resistir ao assédio, nem para seguir as indicações e acaba por colapsar.

Em A Súbita Aparição de Hope Arden a acção é centrada numa única personagem, uma rapariga com características peculiares que, por essa razão, tem uma vida movimentada, quase sem passar duas noites seguidas no mesmo local. Esta vivência transforma-a na pessoa perfeita para se esgueirar como uma espia treinada naquela que é a maior operação de manipulação de todos os tempos.

Ainda mais interessante do que é Hope Arden é a crítica à sociedade actual do imediatismo, da construção de personalidades aparentemente perfeitas e bem sucedidas. Criticam-se os aplicativos que nos vigiam e controlam e nos fazem deixar de pensar, fazendo-nos crer que é para o nosso bem, mas tornando-nos mais um elemento a consumir na direcção pretendida. A perfeição é apenas aparente, uma capa vazia de conteúdo que tem apenas objectivos comerciais.

A súbita aparição de Hope Arden foi publicado em Portugal pela Saída de Emergência.

Evento: Apresentação Os Monstros que nos Habitam

Os Monstros que nos Habitam é uma antologia de contos sobrenaturais lançada pela Editorial Divergência. O lançamento ocorreu há uns meses na fabulosa Biblioteca de São Lázaro em Lisboa, com presença de alguns dos autores que assinaram os exemplares.

A antologia será apresenta na Biblioteca de Arruda-dos-vinhos, no dia 23 de Setembro, enquadrando-se esta apresentação na comemoração do 28º aniversário da Biblioteca Municipal Irene Lisboa. Podem consultar mais detalhes sobre o evento na página oficial da editora.

As melhores histórias de Donald & Patinhas

Ainda há dias alguém comentou, a propósito de outro livro de aventuras Disney, que estes livros lhe recordavam a infância. Para mim, tal sentimento é desperto especialmente por este grande volume carregado de boas histórias de construção mais clássicas, menos mirabolantes e desenhos mais detalhados e perfeitos.

Depois de uma fascinante árvore genealógica onde se expõem os relacionamentos familiares dos vários patos, começa uma das histórias mais longas do conjunto, Tio Patinhas e o tesouro sob o vidro, em que o Tio Patinhas convida os sobrinhos para procurarem os destroços de um barco. O que não sabe é que a zona que se propõe a explorar é dominada por dois rufiões que tentam, a todo o custo, impedir a progressão da expedição.

Em Donald em Acontece no Arranha-céus patinhas, Donald tenta demonstrar que perdeu o medo das alturas, peripécia que se inicia com sucesso, mas que prossegue com uma série de tropelias. Engraçada e curta, esta história rapidamente dá lugar a Tio Patinhas e os Guardiões da Biblioteca Perdida, onde se procura o destino dos livros que residiam na antiga Biblioteca de Alexandria. De país em país, seguindo a história das conquistas de várias civilizações, é uma das melhores histórias da Disney que li recentemente.

Tio Patinhas e o Solvente Universal centra-se na invenção de um produto capaz de dissolver tudo excepto diamante. Esta aventura leva o Tio Patinhas e respectivos sobrinhos ao centro da Terra, e vai dar bases para as seguintes, Tio Patinhas e o Cavaleiro Negro e Tio Patinhas e o Cavaleiro Negro volta a atacar, onde um milionário tem como hobbie o roubo de coisas impossíveis, fazendo da caixa forte o seu alvo.

Entre estas histórias temos a exploração da temática da redução de pessoas (Tio Patinhas e o incrível forreta miniturizado) que dá espaço aos irmãos Metralha para tentarem um novo golpe. Já em Tio Patinhas e o Tesouro dos Dez Avatares toca-se na temática da exploração da mão de obra barata em países de terceiro mundo, aproveitando os detalhes de outras culturas e respectivas mitologias.

Para além da qualidade gráfica acima da média, este volume reúne boas histórias que introduzem conceitos interessantes, tanto do ponto de vista histórico e cultural como científico, a mentes jovens. Reconhecemos referências a outras obras de ficção numa estrutura clássica, algo circular e coesa, fazendo com que a leitura possa ser apropriada também para adultos que gostem deste tipo de banda desenhada.

Este volume foi publicado pela Goody, a mesma editora que publica as revistas da Disney nas bancas nacionais.

Novidade: Crónica do Rei Pasmado – Gonzalo Torrente Ballester

 

Nunca tive oportunidade de ler Crónica de um Rei Pasmado mas foram tantas as indicações positivas de uma amiga que já andei, há tempos, a tentar comprá-lo. Eis, finalmente, uma nova edição, com preço bem em conta por estar enquadrado nesta colecção. Deixo-vos a sinopse da editora:

Tal como acontecera já em Espanha, a Crónica do Rei Pasmado foi um grande êxito em Portugal. Nada mais natural. É que este «scherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado», como o próprio autor lhe chama, é um livro particularmente saboroso, hábil e irónico, narrado com a mestria e a sabedoria de um escritor como Ballester. A partir do pasmo extasiado do rei ao ver pela primeira vez uma mulher nua, e ao querer ver nua também a rainha, toda uma intriga se tece na corte, metendo nobres, inquisidores, uma afamada meretriz, um jesuíta português, a superiora do convento; toda uma tela de uma obra que bem justifica o qualificativo de pitoresca, num divertimento de primeira água.“ Numa sociedade como a de hoje, onde o erotismo tantas vezes deixou de ter um papel relevante porque a conquista é demasiado fácil, é importante reler estas páginas, onde o humor e a sátira nos encantam

Acadie – Dave Hutchinson

 

Envolvente e imaginativo, Acadie traz-nos um mundo colonizado por engenheiros genéticos que criaram um sistema política peculiar. Fugidos da justiça da Terra por terem ideias demasiado radicais para a evolução dos seres humanos, fundaram uma colónia num planeta sem grandes recursos minerais e por isso pouco provável de ser explorado pelos terrestres.

Para além dos engenheiros genéticos a colónia é composta por algumas pessoas que se encontravam na nave roubada a quem foi dada a possibilidade de se juntarem, bem como uma nova geração de seres humanos geneticamente modificados, de inteligência extrema, mas vidas mais curtas.

“They were just hardwired to see all the angles of a situation, all at once, in nitpicking detail. Some of the early generations had been shy, borderline Asperger-ish, but most of the more recent ones were fully socialized and you could have a normal conversation with them, even though you knew that, in their heads, they were simultaneously analyzing all the possible outcomes. It could be a bit spooky, if you let it get to you.”

A personagem principal é o presidente – a pessoa que menos se interessou pela política e que, por isso, acabou eleito. O gabinete que lhe é atribuído é o menos bem localizado, e o trabalho é chato mas simples. Pelo menos até ao dia em que aparece uma sonda terrestre que, quase de certeza, lhes denunciou a posição.

Com uma reviravolta final que não é totalmente original, Acadie consegue apresentar uma perspectiva interessante num contexto peculiar – uma colónia fundada por geeks
que se conseguem alterar morfologicamente, e que criam uma nova geração de seres humanos muito inteligentes, capazes de grandes revoluções tecnológicas.

I sighed and shook my head. This was what happened when a bunch of Tolkien geeks fot the power of life and death over an entire solar system, and I was almost exactly the wrong generation to appreciate it.

The line of figures moving along the white path resolved themselves into about a dozen elves dressed in silver armour and carrying bows and swords.

Sem ser uma leitura excelente, é uma história que escorre facilmente e que cruza engenharia genética com inteligência artificial, em que não faltam alguns detalhes geek para compor o conjunto.

Novidade: Normal de Warren Ellis

Do conhecido autor de banda desenhada com obras como Transmetropolitan ou Trees (para indicar apenas as poucas que li mas que sei serem excelentes) será publicado o livro Normal pela Topseller, outro dos grandes lançamentos para os próximos dias, a par com Os Pássaros no Fim do Mundo. Deixo-vos a sinopse:

O que será que se esconde por trás de uma fachada de normalidade?

Há dois tipos de profissionais que se ocupam do futuro: os estrategistas de tendências, que procuram organizar as cidades para sobreviver ao inevitável colapso da sociedade, e os previsores de estratégias, mais preocupados em preparar cada um dos seus clientes. Os primeiros são pagos por caridades e ONG, os segundos por empresas de segurança e corporações. Estas são profissões de desgaste rápido, impossíveis de manter durante muito tempo.

A depressão instala-se e, se o «olhar de abismo» se instala, há apenas um lugar para onde ir.

O Cabo Normal.

Quando Adam Dearden, estrategista de tendências, chega ao Cabo Normal, está preparado para relaxar e aceitar o tratamento. Pouco depois, no entanto, um dos outros pacientes desaparece, deixando para trás apenas uma pilha de insetos. Uma investigação arranca, e a vigilância torna-se total. À medida que o mistério se vai desvendando, Adam começará a pôr em causa a forma como vemos o futuro… e também o passado e o agora.

Comix N.º200

Este é último volume desta colecção. Em troca a Goody lança três novas, dedicadas cada uma a uma personagem diferentes da Disney, Tio Patinhas, Mickey e Donald. Este último volume inicia-se com uma história de viagens no tempo em que o vilão, submetido a hipnose, percebe que o Mickey frustrou os seus planos de controlar o mundo.

A partir daqui, por forma a salvar a Minie, o Mickey tem de viajar ao passado, percebendo que a sua viagem já estava pré-determinada e seria necessária para compor o passado. Uma história engraçada que nos faz rever o estilo antigo de Mickey.

Depois de A Queda do Morcego onde se mostra uma aventura menos bem sucedida de Morcego Verde, Donald enfrenta em lobisomem em A Ameaça de Loup Garou e o Tio Patinhas vê o seu bom nome em perigo por conta de um plano da Maga Patalógica.

Populada, sobretudo, por histórias leves e engraçadas, este volume reúne várias personagens Disney num conjunto diverso que toca levemente nas temáticas da ficção científica e da fantasia.

Eventos: Festival Bang!

Aproxima-se a primeira edição do Festival Bang!, um festival alusivo à colecção com o mesmo nome, ambas organizadas pela Saída de Emergência, uma das poucas editoras portuguesas com uma extensa colecção de ficção científica e fantástico em catálogo.

Este festival promete, entre palestras, demonstrações de cosplay e momentos musicais, exposições (sobre Edgar Allan Poe) e a presença da autora Anne Bishop, conhecida pelas séries fantásticas Trilogia das Jóias Negras, Mundo Efémera ou Trilogia dos Pilares do Mundo (apenas para citar alguns dos imensos livros publicados em Portugal pela Saída de Emergência). 

O evento decorre no Pavilhão Carlos Lopes no dia 28 de Outubro e os bilhetes podem ser adquiridos no Ticketline, sendo possível descontar o valor do bilhete em livros. Mais informação sobre os bilhetes na página oficial.

One-Punch Man – Vol. 1 – One e Yusuke Murata

Ainda que não esteja habituada a ler este género, adorei o ambiente e o estilo do que li neste volume. A história centra-se num herói deprimido, sendo uma das principais causas da depressão a facilidade com que acaba com os monstros que enfrenta, bastando um murro.

Com um detalhe delicioso, os desenhos sucedem-se estrondosos, centrados num herói pouco típico o que confere uma ironia ligeiramente cómica que parece fazer pouco das grandes batalhas que normalmente se apresentam em livros de super-heróis. Aqui as batalhas são bastante resumidas e anti-climáticas, sendo a batalha propriamente dita mais rápida do que tudo o que antecede o murro.

Sem grande surpresa da parte que corresponde ao enfrentar do monstro, a novidade está num rapaz com várias peças mecânicas que pretende tornar-se discípulo deste herói peculiar. Rejeitando os vários títulos honrosos que lhe são dirigidos este herói prossegue, demonstrando apatia, quase total indiferença para com o que lhe vai acontecendo.

A série One-Punch Man está a ser publicada pela Devir.