Vingadores – Primordial – Marvel Graphic Novels vol.34

Asgard foi transportada para a Terra no seguimento de uma catástrofe. Simultaneamente, Capitão América, Homem de Ferro e Thor são dispersos pelos nove reinos – nove reinos conturbados e carregados de inimigos de Thor que ao soar do seu nome não hesitam em atacar.

Tratando-se dos novo reinos o tipo de criaturas que encontram é diverso – desde dragões que aguardam uma vingança contra Thor, a elfos divididos, e a ogres furiosos ou rainhas demoníacas.

Cada um dos super-heróis tenta enfrentar (com pouco sucesso na primeira volta) os inimigos que encontra – excepto o Homem de Ferro que se encontra preso numa versão ultrapassada do seu fato, a versão mais antiga e, por isso, com menos capacidades. Ao ser transportado para os nove reinos perdeu toda a energia e Stark não pára de falar mal do fato antigo.

A presença nos nove reinos justifica o encontro com uma série de monstros diferentes que irão possibilitar diferentes batalhas, visualmente esplendorosas. Com grandes perspectivas sobre cenas de batalha e paisagens estranhas, este volume é mais forte visualmente do que em termos de narrativa (ainda que algumas imagens não sejam muito perfeitas, e algumas cores não funcionem tão bem, causando uma excessiva concentração cromática).

O Homem de Ferro permanece igual a si mesmo, neste caso, refilando constantemente consigo mesmo por ter sido apanhado em tal situação com aquele fato. Por sua vez, Thor oscila entre chorar a morte do irmão, Loki, e enfrentar as consequências das suas acções, mostrando-se mais fraco nestes novo reinos do que seria supor, enquanto o Capitão América tem tempo para se envolver rapidamente com uma Elfo com capacidades psíquicas.

Entre batalhas e desencontros, os três heróis lá conseguem por as diferenças de parte, e formar uma aliança para combater um mal comum, com o intuito de repor os nove reinos à normalidade.

Este é o volume número 34 da colecção de Graphic Novels da Marvel.

Resumo de leituras – Outubro de 2017 (7)

177 – Os vingadores – Vol.3 – Ataque a Pleasant Hill – Contra todas as ordens e todos os acordos encontra-se em vigor um plano para manter os vilões com super-poderes presos – uma limpeza de memória que os coloca numa vila perfeita e onde levam uma vida quase perfeita. Não fosse terem alguns restos da sua anterior personalidade que faz com que alguns se libertem e iniciem um plano de revolta;

178 – Stevenson, le pirate intériour – Follet / Rodolphe – Um livro que espelha a vida do autor mostrando que, desde criança, sucumbia a frequentes febres e doenças, o que o levava a imaginar aventuras de piratas. Enquanto adulto dedica-se à escrita e torna-se um autor bem sucedido;

179 – Tio Patinhas vol. 1 – O primeiro volume possui histórias engraçadas, algumas das quais pouco centradas no Patinhas;

180 – Rowans Run – Mike Carey, Mike Perkins e Andy Troy – Uma jovem decide ter umas férias diferentes, trocando o seu minúsculo apartamento por uma casa inglesa, carregada de história. Entre sombras e aparições a jovem apercebe-se que a casa tem muito mais história do que seria de supor e começa a investigar o que ocorre;

181 – Harrow county Vol.2 – Cullen Bunn e Tyler Crook – O segundo volume volta ao ambiente rural onde os monstros são possíveis, acrescentando uma irmã gémea que terá crescido na cidade. Estas mudanças terão impacto na forma como são geridos os monstros e contra todas as probabilidades, estes mostram-se mais correctos que alguns humanos;

182 – Hanuram, o Dourado – Ricardo Venâncio – Visualmente interessante, centra-se num homem que ousou comparar-se aos deuses. Claro que a vingança por tal ousadia não se faz esperar e, episódio atrás de episódio, luta contra monstros improváveis.

Guia prático para cuidar de Demónios – Christopher Moore

Christopher Moore é conhecido pelas várias paródias que tem escrito – enredos carregados de elementos entre o inusitado e o idiota, onde as personagens são colocadas em situações impossíveis ou, no mínimo, absurdas. Neste livro anda um demónio à solta. Um demónio esfomeado que só é visível pelas suas vítimas quando está prestes a engoli-las. Ou pelo homem quase centenário que o deveria controlar, Travis.

Procurando alguém, por todo o país, Travis viaja de cidade em cidade. Pelo caminho vai encontrando sem-abrigo e viciados, gente propícia a ser comida sem deixar grande rasto. Mas quando o carro avaria é obrigado a uma estadia mais longa em Pine Cove, onde conhece uma recém divorciada com quem marca um encontro. O primeiro em décadas. Mal sabe que esta distracção será o primeiro passo para perder o controlo total sobre o demónio.

Numa pequena cidade, habituada a secar os bolsos dos turistas, não se espera que um viajante consiga inverter o jogo. Em paralelo, o traficante local desaparece sem deixar rasto, o que enfurece quer a polícia, quer os bandos locais que irão perseguir o homem recém-divorciado que vive no seu atrelado. Os cães ladram mais do que é habitual e uma sucessão de pequenos episódios estranhos deixa todos de mal humor – uma combinação propícia à sucessão de peripécias que vamos assistir.

Menos bem conseguido do que outros livros do autor, possui uma série de tiradas sarcásticas que põem em causa a vida estagnada das cidades. A presença do demónio é o elemento catalisador que irá perturbar a ordem que se tem como garantida e a adição de um génio (da lâmpada) com uma agenda própria não vem ajudar à paz. Engraçado, leve e de leitura rápida, explora, como noutros livros, a possibilidade da estupidez e da ganância humanas, duas características que, quando cruzadas, podem ser usadas para fornecer os mais mirabolantes episódios.

Guia Prática para cuidar de demónios foi publicado pela 1001 Mundos e encontra-se (pasmem-se) a 3,15€.

Outros livros do autor

Novidade: Y: O Último Homem

 

 

 

 

 

 

 

 

Conhecido por séries como Saga ou Ex machina, Brian K. Vaughan produziu, também, Y: O Último Homem, uma série de premissa pós-apocalíptica que nos apresenta um mundo em que todos os machos mamíferos morreram subitamente. Bem, nem todos. E aqui reside o mistério. Um rapaz e o respectivo macaco de estimação sobreviveram mas é quase impossível revelar este facto sem iniciar uma série de reacções controversas que oscilam entre a esperança e a violência.

Os dois primeiros volumes desta série, que recebeu três prémios Eisner e foi nomeada para muitos mais, serão publicados pela Levoir, em parceria com o jornal Público, nos dias 19 e 26 de Outubro. Deixo-vos a sinopse da editora:

Quando em 2002 todas as criaturas com cromossoma Y morreram instantaneamente – sem qualquer explicação – a Terra mudou para sempre. A sociedade encontra-se à beira do colapso com o desaparecimento de mais de metade da população. As mulheres dominam o mundo, mesmo sabendo que não há salvação para a raça humana.

O que elas não sabem é que por qualquer razão misteriosa, Yorick Brown e o seu macaco são os únicos machos que ainda caminham sobre a Terra. De um dia para o outro este jovem torna-se a pessoa mais importante do planeta e ao mesmo tempo a chave para decifrar todo este mistério.

A namorada de Yorick vive no outro hemisfério, na Austrália, e nada o impedirá de ir ter com ela. Na sua viagem, homem e macaco descobrirão em conjunto quão valiosos se tornaram: um como prémio, o outro como alvo. Se conseguirem continuar vivos, eles vão descobrir o que matou todos os homens – e salvar o planeta.

 

Corto Maltese – A Juventude – Hugo Pratt

Nesta história Corto Maltese é quase apenas um nome, uma referência a alguém movimentado e aventureiro, repetida por um amigo. Aliás, a maioria da história centra-se na guerra entre a Rússia e o Japão, no ano de 1905, colocando Rasputine e Jack London em contacto, e utilizando a referência a Corto Maltese como sendo alguém que poderia ajudar Rasputine a escapar-se.

As primeiras páginas são de introdução com belíssimas fotografias que captam o ambiente do local onde decorre a história e nos apresentam os locais por onde Jack London poderia ter passado, e de que forma poderia ter conhecido Rasputine.

O clima é de tensão e mesmo com o cessar fogo algumas balas continuam a ser disparadas indevidamente. É no meio desta confusão que Rasputine vê uma possibilidade de escapar, envergando um uniforme indevido e tentando assim fugir para outro local.

Mostrando o seu carácter oscilante e maldoso, Rasputine contrasta com Jack London, uma figura que aqui se mostra corajosa se bem que desconhecedora dos costumes japoneses, incorrendo, assim, em graves ofensas. O caminho destes dois homens cruza-se, nesta história, tendo como saída a figura de Corto Maltese.

Cruzando factos com ficção para realçar o espírito explorador de Corto Maltese, aqui ainda jovem, este A Juventude é uma história curta que não responde totalmente à expectativa de uma história do herói – e compreende-se. Esta história terá sido um trabalho encomendado sendo aqui Corto Maltese mais acessório do que central.

A Juventude foi publicado pela Asa.

Resumo de leituras – Outubro de 2017 (6)

173 – The Overneath – Peter Beagle – Livro de contos de um mestre! Com algumas histórias excelentes e outras menos envolventes, não há que negar a capacidade de escrita do autor. Mesmo quando os contos são menos interessantes revelam-se bem construídos e coesos;

174 – Histórias de um rapaz mau – Thomas Bailey Aldrich – A infância e a adolescência do autor enquanto rapaz endiabrado e dado para as partidas e aventuras sem medir as consequências;

175 / 176 – Os trilhos do acaso – parte 1 e 2 – Paco Roca – Incidindo sobre os refugiados da Guerra Civil Espanhola, Os trilhos do acaso é um relato muito humano em torno de um refugiado que se tornou soldado e que acabou entre os franceses a guerrear contra Hitler. Actualmente é um velhote, um herói anónimo do qual ninguém sabe a história.

Fables vol.14 – Witches – Billingham, Buckingham, Leialoha, lapham, Fern, Pepoy, Hamilton

Eis uma série à qual volto de tempos a tempos e sou sempre surpreendida, tanto pela qualidade gráfica, como pela extensão do Universo retratado. Após a derrota do Império que, qual ditadura, dominou os vários Reinos das Fábulas, poderia pensar-se que as personagens dos contos encantados, exiladas no nosso Mundo estariam salvas dos maiores perigos. Mas com a queda do Império as personagens demoníacas que estavam presas também deixaram de ser guardadas e novos perigos acordam.

A sala dos tesouros encantados continua à deriva, entre realidades e sem ligação a nenhum dos Mundos. Por essa razão resta ao macaco alado e ao espelho mágico juntarem-se para, com alguma manha, conseguirem repor a ordem e controlar os vários males que se libertaram.

Por forma a dar contexto a estas criaturas enclausuradas a história inicia-se com a criação de uma ordem mágica, composta por poderosos magos que abdicam da sua vida em prole de um bem maior, que se dedica a lutar e a encaixotar as criaturas – como o equivalente ao Homem do Saco, uma personagem inquietante que instiga o medo do escuro e cria verdadeiros monstros por debaixo das camas.

Com detalhes fantásticos na composição das páginas, imagens de detalhe e coloração que cativam o olhar, o quarto volume de Fábulas continua a série fortalecendo os desafios iniciados no volume anterior e mostrando que ainda não é desta que as personagens dos contos de fadas podem descansar e fundar alegremente novos reinos.

Ainda assim há quem esteja a tentar, juntando no mesmo domínio ogres e outros animais mágicos, numa tentativa de implementar um reino pacífico e harmonioso. Claro que está na natureza dos ogres serem violentos e comerem o que lhes aparece à frente, principalmente no seguimento de um festejo.

Este volume, bastante negro, volta a confrontar as fábulas com duras realidades, mostrando que até a magia tem um preço e que nem tudo são facilidades e finais felizes.

 

Miracleman – A Idade de Ouro – Gaiman e Buckingham

No primeiro volume construído por Alan Moore a personagem sofre várias evoluções começando como um herói quase linear na sua perfeição típica das perfeitas famílias americanas para se tornar num herói distante, com várias camadas de complexidade (não, a duplicação do conceito de perfeito não foi acidental). A personagem não evolui sozinha – tanto o traço como a narrativa que o envolve vão, também, ganhando novas interpretações e perspectivas.

Gaiman pega na história de Alan Moore apresentando-nos a sociedade humana que é construída após a grande batalha no final do volume anterior. Se Miracleman era uma figura distante no final da história de Moore, aqui é uma sombra omnipresente e poderosa que raramente é vislumbrada. Gaiman prefere contar a história dos que vivem no mundo utópico governado por Miracleman e outros sapientes superiores.

O volume começa por nos apresentar a longa subida por uma escadaria infindável por quatro pessoas que pretendem pedir algo a Miracleman. Não é uma subida a que todos saiam incólumes do ponto de vista físico ou psicológico. Entre várias ouras histórias conhecemos um amante humano de Miraclewoman que, conhecendo-a, já não consegue suportar a imperfeição física das outras mulheres.

Se os adultos vivem entre a nostalgia da perda e da transformação social, já as crianças estão num admirável mundo novo, percebendo que as situações improváveis aumentaram de probabilidade e que facilmente novos poderes podem surgir. Com a nova sociedade vieram as vantagens tecnológicas dos alienígenas que parecem transformar o presente e o futuro.

Mas nem todos são enquadráveis na nova sociedade. Assim conhecemos uma cidade onde ficaram os espiões, incapazes de sair do ciclo vicioso de pistas e frases indirectas e por isso incapazes de aceitar a simplicidade e frontalidade do novo mundo. É uma cidade estranha onde qualquer acção ou palavra pode ter duplo sentido e onde qualquer reacção tem de ter em conta todas as possibilidades.

A sociedade pode estar a caminho da perfeição, mas os humanos ainda são humanos e com a transição recente expressam ainda receios e medos, elementos que não são totalmente expurgados pelos diversos rituais e festas mundiais criados para o efeito.

Ainda que o tom do primeiro volume, construído por Moore, seja diverso, parece-me mais coeso em termos de direcção (mesmo percebendo que alguns percursos são abandonados e novos são introduzidos a meio da história).  Gaiman torna Miracleman numa personagem quase inexistente mas cuja sombra se faz sentir em cada mini história.

Gaiman abandona a personagem perfeita. Talvez porque Gaiman é excelente a apresentar histórias de personagens com falhas, personagens que duvidam de si mesmas e que, com as suas imperfeições se tornam mais cativantes para o leitor. Com estas explora a sociedade demonstrando, ao invés de apresentar em narrativa directa, a sua evolução.

Cada personagem é acompanhada por um estilo diferente, num intercalar que relembra, por vezes, em forma e exploração, Sandman. Talvez por ser uma leitura recente foi-me impossível não ver algum paralelismo na forma como pretende falar das suas grandes personagens mostrando o que ocorre em seu redor, ao invés de nos apresentar episódios em que estas sejam protagonistas.

Ao efectuar estas permanentes comparações, com Moore ou com Sandman, parece que estou a diminuir o Miracleman de Gaiman. Nem por isso. Miracleman de Gaiman é um volume intenso e inteligentemente tecido mas que não pode ser lido como uma continuação de Miracleman de Moore ainda que aproveita os seus fundamentos. Gaiman sabe contar histórias e aproveita este Universo para contar várias ao seu próprio estilo.

Miracleman – A idade de Ouro foi publicado em Portugal pela G Floy.

Resumo de leituras – Outubro de 2017 (5)

169 – Crossroads – João Ramalho Santos, João Miguel Lameiras e José Carlos Fernandes – uma sucessão de histórias envolvendo carros, reunidas das mais diversas formas, seja a transcrição de emissões de rádio, sejam notícias de jornais;

170 – Magia de Papel – Charlie N. Holmberg – Uma ideia engraçada mas mal aproveitada numa personagem principal fraca e pouco credível. A narrativa, demasiado linear centra-se em menos de meia dúzia de personagens fazendo com que a história pareça não ter suporte;

171 – The Marvellous (but Authentic) Adventures of Captain Corcoran – Alfred Assollant – um volume de aventuras coloniais que contrasta franceses contra ingleses, conferindo aos ingleses todas as características negativas (corrupção e cobardia) e aos franceses todas as positivas. Pelo meio temos os indígenas, corajosos mas simples que são envolvidos por esta sede de conquista. Simples na forma como apresenta as personagens, consegue ter algumas tiradas preconceituosas que, mesmo sendo fruto da época em que foi escrito, tornam a leitura menos agradável;

172 – O Árabe do futuro – Vol.1 – Riad Sattouf -De mãe francesa e pai árabe, Riad conta, pela sua própria perspectiva, os anos de criança que passou entre o ocidente e o oriente. A perspectiva de criança pode ser simples mas os episódios que captou não o são, deixando antever diferenças culturais e constrangimentos familiares.

Rowans Run – Mike Carey, Mike Perkins e Andy Troy

Rowans Run foi encomendado no seguimento do convite feito ao Mike Carey pelo Fórum Fantástico para vir a Portugal. História de volume único, mostrava-se ser um bom candidato para ter alguma coisa do autor em formato de banda desenhada sem ficar presa a uma longa série. Sem ser excelente, apresenta uma história coesa e uma premissa não totalmente nova, sendo que o twist final se adivinha antes de ocorrer, ainda que seja bem explorado.

A história inicia-se com uma jovem americana, Katie, que procura ter umas férias diferentes. Para tal propõe-se a trocar de casa com outra jovem inglesa, numa típica zona rural. O acordo parece satisfazer a ambas as partes e Katie está ansiosa por partir para um país da Europa onde poderá explorar a história do velho continente.

Fascinada pela casa, o primeiro dia de Katie decorre com altos e baixos. A rápida saída que a leva a um bar atrai um pervertido mas, em compensação, é acompanhada por um jovem polícia com quem se envolve. Já a noite na casa, também parece afectá-la, com vislumbre de algumas sombras pouco prováveis.

Entre fantasmas e histórias conturbadas da casa, percebe que a família que habitava naquela casa era comummente atacada. A jovem inglesa, em criança, tinha sido alvo de um ataque violento que deixou a irmã em coma e o casal acabou por morrer num estranho acidente. Contra as indicações deixadas explora o quarto principal, achando que os ataques são direccionados e que não será o alvo principal.

A narrativa possui alguns elementos que pretendem fazer-nos distrair do enredo principal, talvez como forma de arranjar várias explicações para os acontecimentos. No entanto, as pistas que deixa fizeram-me perceber a razão cedo demais. Com alguns elementos sobrenaturais interessantes, é uma história que contrasta monstros reais com criaturas pouco palpáveis, mostrando que o horror nem sempre se encontra no desconhecido.

Novidade: Astérix e a Transitálica

Sai, este mês, um novo álbum de Astérix pela dupla Jean-Yves Ferri e Didier Conrad em que se explora a restante península itálica, demonstrando que nem todos os habitantes são romanos, e que nem todos estão de acordo com o domínio de Roma.

Este volume será lançado, em simultâneo, em 20 línguas, sendo que a edição portuguesa estará a cargo da Asa, como já é habitual. Deixo-vos a capa e a sinopse.

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Para afirmar o prestígio de Roma e a unidade dos povos da península itálica,
Júlio César aprova a organização de uma corrida aberta a todos os povos do
Mundo Conhecido, a fim de mostrar de forma esplendorosa a excelência das
vias romanas.

Aos organizadores do evento, César impõe uma condição sine qua non: a
equipa romana tem IMPERATIVAMENTE de cortar a meta em primeiro lugar
(ao que parece, naquela época o desporto, a política e o espetáculo já estavam
intimamente ligados…)! Com o que César não contava era com a inscrição na
corrida dos nossos dois campeões gauleses, que ameaçam deitar por terra os
seus sonhos de grandeza…

 

 

O Árabe do Futuro – Vol. 1 – Riad Sattouf

Contado pela perspectiva do autor enquanto criança (supostamente, pelo menos) mostra um menino de cabelos alourados que causa fascínio nos países do médio oriente. Filho de um sírio com uma francesa, muda frequentemente de país, conhecendo os familiares de ambos os lados e apresentando os contrastes de comportamento, postura e afecto.

A primeira viagem leva-os à Líbia onde o pai aceitou um cargo como professor assistente, uma posição em que é pago em dólares. Encontram um país de traços comunistas, sem aquisição de propriedade onde a mãe não consegue manter o cargo na rádio.

Após uma curta estadia em França, a família desloca-se para a Síria, perto da vila onde o pai terá nascido. Aqui a situação familiar é complexa. O tio, obtuso e ganancioso, terá vendido as terras do pai por achar que este já não iria necessitar delas e, em troca, deixa-os usar uma das casas. Tal troca torna-se razão para os primos implicarem com o autor enquanto criança, mostrando ressentimento para com o alojamento.

O pai é um homem contraditório, de contrastes culturais e de crença, que vai adaptando às necessidades. Algo déspota em relação à sua família, mostra-se estranhamente infantil para com a mãe e submisso em relação ao irmão mais velho. No início mostra-se um revolucionário que acha que a sociedade árabe deve mudar mas, com o tempo, revela-se menos anarquista.

Diferente dos restantes membros da família pelas suas características ocidentais, Riad é ostracizado pelo primos, estranha a cultura e a forma diferente de se falar o árabe na Síria, não chegando a ir à escola, apesar das tentativas do pai – tentativas que a mãe enfrenta duramente quando se apercebe da maldade, normal naquele meio, para com um cão.

Caricato no tom, especial pela perspectiva de criança, O Árabe do Futuro mostra o contraste de culturas que é absorvido pela criança,realçando as discrepâncias lógicas que parecem existir no pai consoante as circunstâncias em que se encontra. Revelando uma capacidade precoce para o desenho, a criança vai-se adaptando ao que a rodeia.

Os três volumes de O Árabe do Futuro foram lançados em Portugal pela Teorema.

Novidade: Homem-Aranha Vol. 6

O sexto volume de Homem Aranha encontra-se nas bancas a partir de hoje! Eis informação sobre o conteúdo desse volume, bem como algumas páginas:

A comunidade de super-heróis conseguiu impedir uma invasão alienígena graças ao poder de precognição de um novo e misterioso Inumano chamado Ulysses. Todos concordam que ter esta capacidade de prever o futuro é algo extremamente poderoso e que acarreta uma tremenda responsabilidade. Mas será que é seguro confiar neste inumano e nas suas visões do futuro? Qual será a melhor forma de utilizar esta habilidade? São estas e outras questões que estão na base de uma tensão crescente entre os vários super-heróis, onde se inclui naturalmente o espetacular Homem-Aranha (Peter Parker)… e o jovem Miles Morales. É impossível escondê-lo: a comunidade de super-heróis da Marvel está prestes a viver um dos acontecimentos mais importantes da sua história.

Conteúdo

Guerra Civil II (Peter Parker)
Argumento: Christos Gage
Arte: Travel Foreman
Cores: Rain Beredo

Guerra Civil II (Miles Morales)
Argumento: Brian Michael Bendis
Arte: Nico Leon
Cores: Marte Gracia

 

Strange fruit – J.G. Jones e Mark Waid

Strange fruit é o título de uma das canções mais arrepiantes de sempre. Arrepiante porque na aparente estranheza do título escondem-se horrorosos episódios da história americana. A letra foi escrita por um professor judeu como protesto contra o racismo americano, que na época, dava origem inúmeros linchamentos, referindo-se “frutas estranhas” aos corpos de homens afro-americanos que ficavam pendurados nas árvores. O poema foi adaptado para música com a voz de Billie Holiday.

Southern trees bear strange fruit
Blood on the leaves and blood at the root
Black bodies swinging in the southern breeze
Strange fruit hanging from the poplar trees
Pastoral scene of the gallant south
The bulging eyes and the twisted mouth
Scent of magnolias, sweet and fresh
Then the sudden smell of burning flesh
Here is fruit for the crows to pluck
For the rain to gather, for the wind to suck
For the sun to rot, for the trees to drop
Here is a strange and bitter crop

Canção emblemática no género, dá título a esta banda desenhada onde se apresenta a mesma época e se demonstra a atitude territorial para com a população de origem africana. O ano escolhido é 1927, ano em que ocorreu uma gigantesca inundação em Mississippi, conhecida como a maior de que há registo. Esta catástrofe desalojou duas centenas de milhar de afro-americanos, que tiveram de permanecer durante muito tempo em campos provisórios. Estas condições precárias foram um forte factor na migração para o Norte do país onde poderiam ter outro tipo de empregos.

É sem dúvida uma época conturbada, carregada de tensões, que pede por um herói, alguém que possa aliviar o clima e impor respeito pela população afro-americana – os poucos heróis reais não são suficientes para impedir os linchamentos, as prisões injustas e os maus tratos recorrentes. Com o aproximar de uma catástrofe aumenta a raiva para com os afro-americanos que servem para expiar ansiedades.

Assim, do nada, num episódio crítico, surge um homem de pele escura, um colosso mudo mas inteligente, aparentemente apático e resistente às balas que salva um afro-americano de um enforcamento certo. A sua presença é tida como ameaçadora e é perseguido mas sem grande efeito, ou não se revelasse invencível, não agindo a não ser quando se torna necessário salvar alguém.

Realçando o clima de tensão e anulado os episódios mais violentos, Strange Fruit demonstra como algumas catástrofes poderiam ser minimizadas com recurso a estudos, destacando o pouco (ou nenhum) acesso que as populações afro-americanas tinham a livros, mesmo nas bibliotecas. Ainda que esta população estive liberta da oficial condição de escravo, estava presa pela falta de cultura e de oportunidades de trabalho, forçados a trabalhos pouco remunerados, vistos com ressentimento, e que causam episódios de raiva e vingança sempre que não seguem as instruções de algum homem branco. Em suma, um bode expiatório perfeito para frustrações.

Apesar de não ter gostado totalmente da forma como é usado o herói que se materializa, a história apresenta uma perspectiva próxima das tensões existentes retratando uma estação crítica, o que exacerbou reacções. Do ponto de vista gráfico é interessante e expressivo, realçando emoções e interacções.

Harrow County Vol.2 – Cullen Bunn e Tyler Crook

O primeiro volume de Harrow County apresentou uma história de terror que aproveitou elementos clássicos e mais primordiais do terror, mostrando um ambiente rural e bruxas mais clássicas, bruxas que fazem pequenos favores à população local mas que nunca deixam de ser vistas com receio.

Assim se explica que a bruxa local acaba por ser linchada, mas quando está para morrer deixa um legado – da árvore onde a suspendem nasce uma criança que é criada como humana. É na adolescência que esta criança descobre ser algo mais, com poderes para controlar monstros que a seguem – alguns com menos malícia do que seria de supor.

Depois de controlar os seus poderes e de se desmarcar da presença malévola da bruxa que lhe deu origem, a rapariga descobre, neste segundo volume que tem uma irmã gémea. Esta irmã terá crescido na cidade, com menos amor e carinho, demonstrando-se mais sofisticada, mas também mas perigosa.

Enquanto se habitua à nova presença, simultaneamente familiar e estranha, apercebe-se que algo muda à sua volta e na forma como se relaciona com os monstros – alguém está a criar uma revolta e a reunir poderes contrários aos seus.

O segundo volume mantém o tom negro do primeiro, num ambiente semelhante. Por esse motivo os elementos que voltamos a encontrar não têm o mesmo impacto e a rapariga parece cada vez mais humana, eticamente preocupada com a correcta utilização das suas capacidades. Ainda que as primeiras cenas transpareçam esta evolução ética, o confronto com uma entidade que se preocupa apenas com o poder aumenta esta percepção.

Tal como o primeiro, este segundo possui uma história estanque que consegue ser lida isoladamente. A série está a ser publicada em Portugal pela G Floy.

Resumo de leituras – Outubro de 2017 (4)

165 – O lar da Senhora Peregrine para crianças peculiares – Ransom Riggs – Uma história mais voltada para um público juvenil com características engraçadas, falhando apenas nas coincidências narrativas que, não só simplificam a história, como fazem perder alguma credibilidade. Tirando este detalhe não é uma história condescendente e apresenta elementos fantásticos interessantes;

166 – Tempos Amargos- Étienne Schréder Antes de se tornar um conhecido autor de banda desenhada, Schréder foi um sem abrigo, entre a Bélgica e a França, bêbado e companheiro de diversos outros homens que, como ele, deambulavam com o único objectivo de conseguir mais um copo de vinho;

167 – Memórias do eterno presidente – Benoit Peeters Uma história pós-apocalíptica e distópica que mostra uma sociedade que paga o crime moral de, anteriormente, terem ascendido à categoria de deuses e ousarem manipular a Natureza. Um rapaz encontra um livro e é este encontro que abre um novo futuro;

168 – Fables Vol.14 Witches – Vários – Quando as fábulas pensavam que poderiam retornar aos seus Mundos após a queda do Império, eis que surgem novas ameaças, monstros fantásticos que se libertam e ameaçam as personagens dos contos de fadas.

Stevenson, le pirate intérieur – Follet / Rodolphe

Robert Louis Stevenson está entre os autores mais influentes da literatura ocidental, com obras tão diversas quanto Ilha do Tesouro ou Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Tendo, o que era raro, sido reconhecido em vida, atingiu bastante sucesso com as suas obras que ora relatam aventuras imensas ou episódios sombrios.

Stevenson era um homem eternamente doente. Desde criança que se encontrava recorrentemente de cama, usando a imensa imaginação para criar piratas e outras personagens que o acompanhariam. Aliás, a cada recaída refere-se à doença como os seus piratas interiores, uma forma de mostrar a incansável batalha que o seu corpo trava.

Bom aluno noutras áreas, mas sempre aéreo por conta da sua imensa imaginação, acaba por convencer a família a investir numa carreira de escritor – carreira que cedo atinge reconhecimento, com boa venda de exemplares e pedidos frequentes para apresentar mais histórias, principalmente nos jornais.

O destino faria Stevenson cruzar-se com Fanny, uma mulher peculiar, habituada à vida dura numa cidade mineira que, para além do ar arrapazado (ou prático), era capaz de disparar uma pistola e de enrolar os seus próprios cigarros. Seria este encontro que levou Stevenson a embarcar para a América, atrás de Fanny, na altura uma mulher casada, com um homem sempre ausente que frequentava os casinos e bordéis da zona.

Esta união irá dar nova força e inspiração a Stevenson nas suas criações e irá levar o casal ao Hawai por se acreditar ter um clima mais propício à doença do escritor. Entre os nativos encontra um novo lugar, como narrador, contando histórias aos grupos que se juntam, intercalando esta actividade com a escrita.

Visualmente interessante pelo aspecto clássico que a pintura dá aos desenhos, este volume apresenta uma perspectiva interessante do escritor que integra doença e imaginação para construir algumas das mais conhecidas histórias ocidentais.

Resumo de leituras – Outubro de 2017 (3)

161 – A Dança das Andorinhas – Zeina Abirached – Numa cidade dividida por um muro e por uma guerra, sair à rua para visitar um vizinho é uma pequena aventura mortal. Os sobreviventes que resistem na cidade agrupam-se em pequenos serões quase familiares enquanto os bombardeamentos e as más notícias continuam a chegar;

162 – Lágrimas na chuva – Rosa Montero – Livro de ficção científica que me passou despercebido aquando do lançamento, revelou uma extraordinária história futurista com humanos replicados de curta duração, alienígenas (alguns refugiados, outros nem tanto) e colónias fora da terra com legislação própria. Um cenário excelente para explorar preconceitos, racismo e manobras de manipulação de opinião pública;

163 – Clockwerx – Vários Graficamente excelente, possui algumas lacunas narrativas. A história é algo linear, mas o volume compensa pelos magníficos robots de aspecto retro no ambiente soturno de uma Londres há muito extinta;

164 – Cage – Azzarello, Corben e Villarrubia – A dureza das ruas nada é para o nosso herói ainda mais duro. Resistente às balas é mais susceptível aos murros e mostra numa história curta como se podem fazer más escolhas nos bairros mais pobres.