Viver na lua através de Efemérides – Ficção científica e Ciência

Recentemente foi inaugurado o Museu da Lua, em Oeiras. Aproveitando a instalação artísticas de Luke Jerram, a Embaixada Britânica e o Município de Oeiras organizaram um evento em que se falou sobretudo de ciência. Mas a meio do programa também se falou de ficção científica, através de um conto de João Barreiros em que descreve como seria um dia na Lua.

O conto chama-se Efemérides e pode ser encontrado no livro Se acordar antes de morrer. É um conto irónico, como não podia deixar de ser a um conto de João Barreiros, mas é, também, um conto carregado de referências científicas que apresenta, de forma ligeira e bem disposta, as dificuldades de viver fora do planeta Terra. É, no meu entendimento, um conto que pode ser um bom exemplo de como a ficção científica pode ser usada para passar conhecimento científico. E, porque não usar, também, as incorreções científicas, demostrando-as?

All organ systems are affected by exposure to extra-terrestrial environments. Alterations to cardiovascular physiology with reduced gravity manifest acutely and chronically []. Reduced-gravity environments cause the cardiovascular system to undergo adaptive functional and structural changes. Microgravity induces a reduction in hydrostatic pressure, causing a cephalic redistribution of blood and body fluids. This headward shift is responsible for the ‘puffy-face & bird-leg’ appearance of astronauts in space. The cardiovascular system adapts to microgravity by reducing blood volume by approximately 20%, which is in part responsible for the orthostatic intolerance commonly found post-spaceflight. A reduction in heart size was also observed in microgravity.

A comparison between the 2010 and 2005 basic life support guidelines during simulated hypogravity and microgravity, Russomano, et al., Extrem Physiol Med. 2013; 2: 11.

Tendo em vista a exploração espacial, vários trabalhos científicos têm sido desenvolvidos com o objectivo de perceber quais seriam as consequências, no corpo humano, de viver em ambientes de baixa gravidade. A maior parte fala de diminuição do coração e da densidade óssea, bem como do aumento da pressão ocular.

Despite the extensive use of exercise countermeasures, astronauts still return from 6 months ISS missions showing space deconditioning effects. Examples of these effects include decreased calf muscle volume and power, loss of bone mineral density and reduction of peak oxygen uptake

Human Biomechanical and Cardiopulmonary Responses to Partial Gravity – A Systematic Review, Richter, et al., Front Physiol. 2017; 8: 583.

Especula-se (ainda que não tenha encontrado nenhum artigo científico concreto) que crescer noutro planeta de baixa gravidade leve a uma maior altura (parece uma conclusão lógica que, sob o efeito constrangedor de uma menor gravidade, as estruturas biológicas se estendem-se mais). Mas decerto levará a uma menor calcificação dos ossos, deixando-os quebradiços. Se tais alterações já são significativas passados meros meses, imaginem para quem crescesse num local com menor gravidade. Como a Lua. Ou Marte.

Frágil como é, um triste arranjo de palitos com uma cabeça de alfinete eriçada no topo, a gravidade dava-lhe cabo do coração em poucas horas. Sem falar no risco de fracturas múltiplas à mais pequena escorregadela. Se Russell voltasse à Terra, ele que é o produto da primeira geração de lunares, um espirro matava-o. Um grão de pólen fá-lo-ia morrer de choque anafilático.

Efemérides,João Barreiros

São estes pressupostos que se aliam à imaginação e ganham forma em Efemérides. Num único parágrafo deparamo-nos com as consequências de uma vida em baixa gravidade. Consequências essas suportadas pela literatura científica que encontrei sobre o assunto (estejam à vontade para despejar outras referências). Mas o conto não se centra só nas alterações fisiológicas ao corpo humano. Centra-se, também, nas consequências a tal quotidiano.

We found direct and definitive evidence for surface-exposed water ice in the lunar polar regions. The abundance and distribution of ice on the Moon are distinct from those on other airless bodies in the inner solar system such as Mercury and Ceres, which may be associated with the unique formation and evolution process of our Moon. These ice deposits might be utilized as an in situ resource in future exploration of the Moon.

Direct evidence of surface exposed water ice in the lunar polar regions, Shuai Li, et al., PNAS September 4, 2018 115 (36) 8907-8912; first published August 20, 2018.

Existindo água na Lua que possa ser usada para sustentar a vida humana, decerto teria de ser racionada.

Tem de durar séculos. As gerações seguintes também têm dierito à sua conta de esponjas húmidas. Por isso não há brincadeiras neste balneário. Ninguém atira respingos de água à cabeça uns dos outros. Fazer semelhante disparate é crime. Dá direito a sanções, a pontos negros, a dívidas à colectividade a ser descontadas assim que qualquer um deles entrar na fase produtiva das suas vidas.

Efemérides, João Barreiros.

E dada a escassez, decerto que qualquer resto orgânico seria reutilizado. Mesmo com os riscos que pudessem daí advir (a utilização de fezes humanas na agrícultura é uma prática perigosa por poder facilitar a propagação de doenças):

Depois de lavados e limpos com uma serradura estéril, cada um tem ainda o dever de selar o respectivo saco onde guardaram a matéria fecal, colocá-lo na carrinha que o levará aos jardins hidropónicos e assegurar assim que um dia, num futuro próximo, aquilo que hoje despejaram voltará em triunfo aos respectivos estômagos, transformado em celulose e proteína vegetal.

Efemérides, João Barreiros

Carregada de afirmações caricatas como só a ficção pode ser, este conto de João Barreiros é um, entre tantos outros, que pode ser usado para discutir as possibilidades científicas aligeirando cada um dos elementos que constituem a premissa – E se o homem vivesse na Lua?

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Como uma luva de Veludo forjada em Ferro – Daniel Clowes

Se David Lynch fizesse banda desenhada (para além do The Angriest Dog in the World) imagino que tivesse parecenças com este Como uma luva de veludo forjada em ferro. Os saltos narrativos, os focos em elementos absurdos e arrepiantes (mas simultaneamente alienados), a sexualidade presente mas pouco erótica, a realidade vista como uma má trip onde nem sequer falta uma banda sonora.

Como uma luva de veludo forjada em ferro começa com uma ida ao cinema em que a visualização de um filme fetichista (com o mesmo título da banda desenhada) leva a personagem a procurar a protagonista principal, a ex-esposa, Barbara Allen. Se tal início não fosse suficientemente estranho, até a busca sobre a ficha oficial do filme é surreal com elementos místicos colocados num local estranho e inverosímel.

A partir daqui a personagem é levada por uma sucessão de acontecimentos absurdos e grotescos, cruzando caminho com uma seita de propósitos obscuros. Não será o único. Na vila, onde procura a origem do filme, cruza-se com pessoas obsecadas por essa seita, procurando significados escondidos e pistas em tudo o que as rodeia. Estes não são os únicos elementos surreais. Encontramos cães sem orifícios, hippies que rodeiam um profeta, uma seita (mais uma) misândrica, deformações, desmembramentos, estranhos adereços médicos – tudo aceite quase de uma forma natural pelas personagens.

Como uma luva de veludo forjada em ferro estranha-se. Não é para ser lido esperando uma narrativa linear. Ou sequer como uma história terra a terra, lógica e facilmente preceptível. O título é uma referência ao filme Faster, Pussycat! Kill! Kill! conhecido pela sua violência, representação provocadora dos géneros e… um diálogo que visa envergonhar Raymond Chandler (ou assim o dizem as referências que apanho sobre o filme). Uma combinação estranha, no mínimo.

Mas há mais referências como “What’s the frequency, Kenneth”, uma frase expressa a Dan Rather numa agressão que, mais tarde,  se tornaria uma música. E existirão outras que não apanhei para pesquisar. Mas tão interessante quanto as influências denotadas pela história, é a influência da história noutros meios, tendo influenciado a criação de uma banda sonora.

Este volume foi publicado pela Levoir em parceria com o jornal Público.

 

Novidade: Monstros Fabulosos – Alberto Manguel

Edições Tinta da China anuncia um novo livro de Alberto Manguel, autor de outros livros de livros sobre livros como Biblioteca à noite. Eis a sinopse:

AS PERSONAGENS LITERÁRIAS QUE GANHAM VIDA E FICAM CONNOSCO PARA LÁ DOS LIVROS por Alberto Manguel, um dos maiores bibliófilos do mundo. Com ilustrações do autor e um «monstro» português: o Mandarim, de Eça de Queirós.

Desde a infância, há personagens de livros que começam a fazer parte da vida de quem gosta de ler. Depois, e apesar de nós, os leitores, envelhecermos, e de elas, as personagens, teoricamente ficarem na mesma, vão crescendo connosco, sofrendo mutações, fazendo companhia a outras que vão surgindo e ganhando significado para lá dos livros de onde saíram, como amigos de longa data com quem se partilha experiências e emoções.

O bibliófilo Alberto Manguel apresenta neste livro, com erudição e humor, mais de 30 das suas personagens preferidas, desde o Jim de Huckleberry Finn ao monstro de Frankenstein, passando pela Capuchinho Vermelho ou pelo marido da Madame Bovary. Através desta partilha, desafia cada leitor a explorar as suas relações pessoais com este tipo de «monstros» imortais e amorosos, e com o tanto que estes transportam em si da condição humana.

«Aprendi a minha experiência do mundo — amor, morte, amizade, perda, gratidão, desconcerto, angústia, medo, tudo isto e a minha própria identidade em mutação — com personagens imaginárias que conheci nas minhas leituras, muito mais do que com a minha misteriosa cara no espelho ou o meu reflexo nos olhos dos outros.» — Alberto Manguel, Prefácio

 

 

Resumo de Leituras – Setembro de 2019 (3)

73 – Sweet Tooth – Book one – Jeff Lemire – Desta vez o autor leva-nos para um cenário apocalíptico em que uma doença desconhecida acaba com a espécie humana. Paralelamente, todos os novos seres humanos nascem com características de animais, algumas mais óbvias do que outras. Na sua maioria apresentam atrasos mentais. Mas, sendo um livro de Lemire, a história foca, sobretudo, o lado humano das duas personagens principais, um rapaz com hastes e um homem que o descobre e promete levá-lo para uma reserva;

74 – Prometeu e a caixa de Pandora –  Luc Ferry – Adaptação de um conto mitológico grego para banda desenhada, focando a lenda de geração da espécie humana e a forma como só a esperança lhe resta;

75 – Lenine – Ozanam, Rodier e Rey – A história de Lenine foca-se sobretudo na personalidade histórica, dando-lhe uma componente humana e mostrando os seus maiores amigos e desamores. A história é, no entanto, contada num único volume, pelo que se focam alguns episódios mais representantes, olhando-se para o homem, mas não sendo o suficiente para nos apresentar a pessoa. Ainda assim, uma adaptação interessante;

76 – How to draw Comics the Marvel Way –  Stan Lee e John Buscema – É, sem dúvida, um livro bom para quem desenha, mostrando os truques para desenhar super-heróis à forma Marvel – como dar toda a tragicidade a uma postura ou mais movimento a um desenho. É, também, útil para quem lê, fazendo com que esses truques se tornem mais visíveis

Novidade: Jessica Jones Vol. 2 – Brian Michael Bendis e Michael Gaydos

Os Segredos de Maria Hill é o segundo de três volumes desta série de Jessica Jones! Deixo-vos a sinopse, bem como algumas páginas disponibilizadas pela editora:

Jessica Jones está de regresso ao seu escritório, nas investigações Alias… mas sem saber do seu marido e da sua filha, e, perseguida pelos mistérios dos mais recentes acontecimentos do Universo Marvel, Jessica vai descobrir um segredo inesperado e aterrador. Será este caso demasiado complexo e perigoso, até para ela? Uma investigação que se arrisca a destruir o pouco que resta da vida que ela tinha construído para si mesma… Conseguirá ela juntar de novo os pedaços estilhaçados dessa vida, ou será tarde demais? Os criadores originais de Jessica Jones, Brian Michael Bendis e Michael Gaydos, juntam a sua heroína, a família dela, a S.H.I.E.L.D. e Maria Hill numa surpreendente nova aventura.

 

Saga – Vol. 8 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples

Num tom relaxado e desinibido, Saga vai tocando em alguns aspectos polémicos, assimilando questões associadas a preconceito que cada vez mais são relevantes na nossa sociedade. Mas Saga consegue fazer isto de forma inteligente, integrando estes aspectos na história.

Em Saga o conceito de família é algo fluído. Sim, existe mãe e pai, bem como avôs (nalgumas partes da história), mas criar uma criança requer trabalho (como diz o ditado inglês “It takes a village to raise a child” ) e toda a ajuda é preciosa. Neste caso vem de amigos (ou inimigos) que se juntam à eterna viagem no espaço. Há sempre mais um lugar para ir. Neste volume a família desloca-se a alguém que possa resolvar a gravidez de Alana levando-os a um novo planeta com personagens peculiares, pois a criança estará morta dentro da barriga.

Saga aborda a sexualidade como algo rotineiro. Algo normal que acontece entre adultos, quer sejam um casal, ou não. Não são de estranhar os fétiches ou os casais pouco convencionais. Para além de vermos casais de diferentes espécies sapientes encontramos trans género e pessoas de sexualidade fluída. Tudo de forma bastante natural.

Nada que seja de estranhar numa série que coloca, no centro do enredo, o relacionamento proibido de duas pessoas de espécies diferentes. Esta componente poderá ter algum paralelismo com os relacionamentos inter-raciais e com os problemas sociais que enfrentam. Neste caso, a relação é ainda mais perigosa porque gerou descendência, fazendo com que ambas as facções da guerra se unem para tentar eliminar a família. Será que esta preocupação em eliminar a descendência tem origem na explicação biológica de espécie? Bem, cá estarei para ler o final.

Mas este volume não toca só na sexualidade. Também no aborto e nas razões possíveis para o fazer, trazendo ao enredo uma mãe loba (curioso que a figura esteja associada à maternidade como a loba que salvou Rómulo e Remo) que realiza estes procedimentos em instalações pouco profissionais – os lugares oficiais não realizam abortos para este tempo de gestação, obrigando a família a deslocar-se aos confins da espaço.

Ainda que pareça pouco relevante na narrativa global da série (terei de ler o seguinte para perceber se assim é) este volume volta a conter elementos imaginativos e fantásticos como o povo esterco, uma espécie de entidades pouco racionais (quase zombies) que ganham vida a partir das fezes e que atacam quem encontram, numa luta literalmente suja.

Este oitavo volume continua com a boa disposição demonstrada ao longo da série, apesar da tragicidade dos acontecimentos. Existem batalhas épicas com espécies surreais. Existem picos de tensão que resultam em beijos inesperados. Existem crianças fantasma que saltam e brincam, desafiando a sua própria mortalidade (não, não me enganei a escrever). E são todos estes elementos que continuam a fazer da série uma das melhores histórias de Space Opera de sempre e que levam os leitores a pegar no próximo volume.

A série Saga é publicada em Portugal pela G Floy.

Novidade: Ms. Marvel Vol. 3

A G Floy lança o terceiro volume da série Mrs. Marvel. Deixo-vos a sinopse bem como algumas páginas disponibilizadas pela editora, mas se quiserem saber um pouco mais sobre os volumes anteriores, convido-vos a ler o meu comentário: Volume 1 e Volume 2.

Kamala Khan enfrenta uma nova e aterrorizadora ameaça, os seus sentimentos!

O amor chegou a Nova Jérsia, é Dia dos Namorados, e ninguém fica imune. E se Kamala Khan está proibida de ir à festa da sua escola, ninguém vai conseguir impedir a fantástica Ms. Marvel de aparecer de surpresa! Especialmente se está em causa conseguir derrotar o mais trapaceiro dos seus inimigos. Mas preparem-se também para drama! Intriga! Suspense! Romance! Pancadaria da grande! O misterioso forasteiro que surge na vida de Kamala é lindo, e ela parece estar… apanhada! Continua a série aclamada em que Kamala Khan nos prova mais uma vez que é a melhor (e mais adorável) da nova geração de super-heróis Marvel.

 

Novidade: Gideon Falls Vol.1 – Jeff Lemire e Andrea Sorrentino

A G Floy anuncia o lançamento de uma nova série de banda desenhada no mercado português, desta vez uma nova série de Jeff Lemire, que venceu o prémio Eisner de 2019 para melhor série. Deixo-vos a sinopse e algumas páginas disponibilizadas pela editora:

A lenda do Celeiro Negro: a história de um misterioso edifício, que talvez venha de outro mundo, e que apareceu e reapareceu ao longo da história, arrastando a morte e a loucura na sua passagem.

Norton Sinclair é um jovem perturbado, marginal e algo paranóico. Convencido de que o lixo urbano da sua cidade esconde as chaves de uma vasta conspiração, ele acumula, classifica e apresenta as suas conclusões alucinadas sobre um misterioso Celeiro Negro à Dra. Xu, a psiquiatra que o segue desde que saiu do hospital. E, noutro lugar da pequena cidade de Gideon Falls, o padre Fred vai conhecer a nova comunidade pela qual ficou responsável, depois do súbito desaparecimento do seu antecessor. Mas, durante a primeira noite que passa no local, o sinistro Celeiro Negro vai assinalar uma série de eventos perturbadores… e nenhum dos dois está preparado para aquilo que vai encontrar dentro desse Celeiro. Uma nova série de terror em que mistério rural e terror urbano colidem numa reflexão profunda sobre a obsessão, a doença mental e a fé.

 

 

The Politics of Horror – Worldcon – Algumas considerações

Quando pensamos em horror (ou pelo menos quando penso) a primeira coisa que me vem à cabeça não é a política. E se me falarem em política provavelmente vou pensar em deputados transformados em zombies. Ou em algo semelhante. Mas a verdade é que o horror é usado em política para nos manipular. E é verdade que, na narrativa de horror podem existir influências políticas.

A palestra na Worldcon contou com pessoas como Brett Cox (escritor, professor e membro fundador do prémio Shirley Jackson – agora vice presidente do prémio), Rosanne Rabinowitz (escritora) e Charles Stross (também escritor, conhecido pelas suas extensas séries de ficção) e iniciou-se com uma frase do Editor da revista Rue Morgue.

“Having been editor here for over two years, I’m keenly aware that not all of our readers share my passion for applying genre concepts to a greater understanding of the world around us.  I’ve fielded complaints about the magazine becoming too political, and I never dismiss reader feedback without considering what’s being said with an open mind and an open heart.  What I ask in return is to consider the following: that horror deals in fear, and fear deals in power.  Those who have power will inexorably wield it against those who don’t by means of physical, psychological and constitutional violence or intimidation, and the study of these power differentials in society is social politicsHorror is, by nature, political.”–Andrea Subissati, “Note from Underground,” _Rue Morgue_, July/August 2019, page 6

Trata-se de uma abordagem interessante, principalmente quando nos deparamos com os tempos actuais. Razão pela qual comecei por usar uma das premissas mais comuns da narrativa de horror, o medo do outro. Ainda que, normalmente, o outro seja o alienígena, o monstro, ou o assassino – uma entidade alienada que, não sendo como nós, nos quer fazer mal. Para a narrativa de horror o ser, normalmente esta é uma expectativa que se cumpre. A não ser quando o autor pretende desenvolver uma linha narrativa anti-cliché.

Mas em política, este medo pelo outro é usado da mesma forma. O outro (seja o estrangeiro ou o pobre) é alienado e  transformado no monstro que quer roubar as nossas casas, os nossos empregos, a nossa comodidade. O medo transforma-se numa arma que tem como objectivo dividir para conquistar. Uma forma de manter o foco num potencial e falso inimigo, como forma de distrair em relação aos ordenados que se mantêm baixos enquanto as grandes empresas concretizam somas obscenas usando trabalho barato.

Mas não só. O medo é usado politicamente. Se, por um lado, nos dizem o que não temer – as alterações climáticas ou a contaminação dos alimentos – por outro dizem-nos o que temer usando esse mesmo medo do outro. O medo é usado para manipular, de uma forma arrepiante que poucos autores de horror conseguem reproduzir.

Tão interessante quanto o medo do outro, será o medo do nosso vizinho. Curiosamente, a caminho desta palestra estava a ler um dos livros de ficção científica de Robert Jackson Bennett, Vigilance e deparo-me com o seguinte parágrafo:

The heart of the matter was that from the beginning, America had always been a nation of fear. Fear of the monarchy. Fear of the elites. Fear of losing your property, to the government or invasion. A fear that, though you had worked damn hard, some dumb thug or smug city prick would either find a way to steal it or use the law to steal it.

O medo do outro, que não conhecemos é levado a outro nível. Numa época em que a tecnologia nos aproxima de alguns, mas nos afasta dos vizinhos e se convive cada vez menos com as pessoas do nosso bairro ou do nosso prédio, o “outro” está muito perto de nós. Neste caso específico, o medo é usado para incitar à aquisição de armas para defesa, com uma narrativa que promete que qualquer um pode estar preparado. E vigilante.

Contata-se, assim, que o medo é lucrativo. É o medo que nos leva ao preconceito e ao isolamento. É o medo, por nós e pelos que gostamos, que nos torna manipuláveis. E é a possibilidade de segurança (falsa) que tem, tantas vezes, culminado na guerra e na destruição.

Osso – Rui Zink

À semelhança de A Instalação do Medo (premiado com o Utopiales, o mais prestigiado prémio francês de ficção especulativa) Osso traz-nos uma história que decorre num único espaço e que centra no diálogo entre duas personagens. Enquanto o premiado decorre num só tempo (um mesmo episódio descrito do princípio ao fim) neste caso vão decorrendo pequenos saltos temporais – a conversa vai sendo tido ao longo de vários meses. Até porque um dos intervenientes não tem outro lugar para estar.

Em Osso um homem foi apanhado no aeroporto com explosivos. Nesse seguimento é detido e interrogado. O interrogatório rapidamente segue pelo absurdo, principalmente por culpa do interrogado que tem uma lógica um tanto ou quanto estranha. Sim, tentou passar com explosivos. Mas era uma forma de pagar a viagem. E até era uma bomba tão pequena. Tão insignificante. Tão avariada.

Quem lhe deu a bomba? Um primo. Claro. Que para essas coisas não se recorre a estranhos. Mas o interrogado até inutilizou a bomba. Não havia problema nenhum. Decerto, agora que já confessou, se pode ir embora!

Assim prossegue a conversa durante 130 páginas. Tem bons momentos, outros mais aborrecidos, mas com um final fantástico. Com o prosseguir da conversa, também o relacionamento entre os dois se altera, com o interrogador a deixar cair, por vezes, a sua faceta mais dura e a revelar genuína curiosidade pelo raciocínio do interrogado. Ainda que tenha achado A Instalação do Medo mais interessante este Osso é de agradável (e rápida) leitura, sem chegar ao patamar do excelente.

Comic Con – Alguns painéis de autógrafos

Este post será actualizado consoante os autores ou as editoras anunciem as suas sessões.

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A Saída de Emergência tem, este ano, dois autores na Comic Con Lisboa – Simon Scarrow e Naomi Novik. Os autores estarão em painéis e a dar autógrafos nos seguintes horários:

  • Simon Scarrow – 14 de Setembro às 16h15 no auditório Prime Theatre. Sessão de autógrafos das 17h45 às 18h45.
  • Naomi Novik – 15 de Setembro às 14h30 no auditório Spotlight.  Sessão de autógrafos das 16h às 17h00

Para quem não conhece os autores, Simon Scarrow é o autor de Saga da Águia e da Série Napoleão e Wellington. Ambas as séries são de ficção histórica e a primeira ganhou bastante notoriedade pela dinâmica entre as duas personagens principais.

Naomi Novik é a autora de Coração Negro, obra que venceu vários prémios no género, entre os quais o Nebula, o Locus, o BFA e o Mythopoeic e que estará a ser adaptado para cinema. A autora também é conhecida pela série Temeraire, publicada em Portugal pela Editorial Presença.

A informação dos lançamentos foi divulgada via mail pela própria editora.

A G Floy tem também um convidado internacional no evento, neste caso Ed Brubaker! Trata-se do autor de Criminal, The Fade Out, Velvet e Fatale (para citarmos apenas algumas das suas obras, neste caso das publicadas em português). Para além dos autores internacionais, a editora traz também autores nacionais, alguns dos quais publicou com a Comic Heart. Eis o programa das sessões de autógrafos:

  • Ed Brubaker – 13 de Setembro das 12h15 às 13h15, Stand da G Floy. 12 e 14 de Setembro na área geral;
  • Roberto Gomes – 13 de Setembro das 15h30 às 17h00. 14 de Setembro das 17h às 18h30. 15 de Setembro das 15h às 16h30
  • Fábio Veras e Luís Zhang – 14 de Setembro das 17h00 às 18h30.

A informação dos lançamentos foi divulgada pela editora G Floy na sua página de facebook.

Luís Louro estará no evento para a cerimónia dos Galardões Comic Con e para anunciar o seu novo álbum, Sentinel, no Domingo, dia 15 de Setembro. Estará, também, presente nas sessões de autógrafos abaixo listadas, bem como no Artist Alley no restante tempo:

  • 12 de Setembro das 15h30 às 16h30
  • 13 de Setembro das 16h30 às 17h30
  • 14 de Setembro das 13h00 às 14h00
  • 15 de Setembro das 17h15 às 18h15
Esta informação foi partilhada pelo própio autor, na sua página de facebook.
A autora Sandra Carvalho marcará presença no evento, com o lançamento do seu mais recente livro A Noite do Caçador:
  • 13 de Setembro das 10h45 às 11h45 apresentação no auditório Spotlight;
  • 13 de Setembro das 12h15 às 13h15 sessão de autógrafos;
  • 14 de Setembro das 17h45 às 18h45 sessão de autógrafos.

O autor, nomeado para um dos Galardões Comic Con, estará no evento para duas sessões de autógrafos:

  • 13 de Setembro, das 16h00 às 17h00, no stand da Kingpin Books;
  • 14 de Setembro, das 16h00 às 17h00, no stand da Kingpink Books.

Para além destas sessões de autógrafos oficiais, poderão encontrar mais alguns autores na Artist Alley:

  • Miguel Jorge – Apocryphus;
  • Ricardo Venâncio – Hanuram.

 

Novidade: A Noite do Caçador – Sandra Carvalho

Da mesma autora de A Saga das Pedras Mágicas, Sandra Carvalho, chega este mês ao mercado A Noite do Caçador:

Amaldiçoada pelos pares, a feiticeira Korinna implora ao renegado Theron que encontre uma cura para o seu tormento. O feiticeiro aceita ajudá-la, sem imaginar que o plano que engendrou resultará em danos maiores. Mikkel, o rapaz nascido da perversidade de Theron, irá crescer no seio de uma tribo humana, no Norte do Mundo, ignorando as suas origens e o propósito para o qual foi gerado. Ciente de que é diferente dos demais, terá de lutar para conquistar a confiança dos seus líderes e defender o povo dos implacáveis norrenos. Confrontado com o seu destino, será forçado a empreender a arrepiante travessia dos Pântanos dos Danados. Porém, na terra onde lhe fora prometida salvação, a sorte armou-lhe outra cilada. Conseguirá Mikkel salvar a família dos feiticeiros que o perseguem, contrariar a maldição que o assombra e libertar a sua amada Kitta da cobiça do rei Uruz, enquanto explora a magia que pulsa no seu sangue? Ou sucumbirá à herança paterna que o compele a alimentar-se de vida, e acabará por se tornar o mais terrível dos Caçadores?

Uma aventura fantástica de autodescoberta e constante superação, construída sobre os laços da família, da amizade e do amor, e onde a força, a coragem, a lealdade e a determinação serão testadas a cada fôlego.

 

Lançamento – Estoril 1942 – Super BOX

A MEBO lança uma nova edição de Estoril 1942, desta vez uma Super BOX que contém tudo o que já foi feito para o jogo, incluindo as cartas promocionais. Mas esta caixa contém, também, novidades. Mihajlo Dimitrievski recriou a capa do jogo, fez novas ilustrações de espiões e cenários, e incluiu novas personagens, juntamente com dois novos tabuleiros, novos objectivos e uma carta roleta (expansão VIP).

O jogo terá o primeiro evento de lançamento no próximo dia 18 de Setembro. O último lançamento será efectuado em Essen no final de Outubro. Para os interessados, o evento de lançamento de 18 de Setembro já tem página oficial, pelo que poderão acompanhar as actualizações da editora.

Estoril 1942 é um jogo de autoria portuguesa, mais especificamente de Gil d’Orey e António Sousa Lara. O jogo tem, como cenário, o Estoril que foi, durante a Segunda Guerra Mundial um local importantena espionagem mundial.  Aproveitando este facto os autores desenharam um jogo que os jogadores competem para formar a mais poderosa e influente organização secreta de espiões.

Trata-se de um jogo relativamente acessível que está classificado como tendo complexidade média, que acomoda entre 2 a 5 jogadores e que terá preço de 34,90€ no mercado ibérico.

Como curiosidade, aproveito para acrescentar que o jogo terá uma nova edição com temática de ficção científica, denominada 2491 Planetship, desenhada por Manuel Morgado.

Resumo de Leituras – Setembro de 2019 (2)

69 – Máquinas como eu – Ian McEwan – Um livro de ficção científica que decorre num Universo ligeiramente diferente em que Turing sobreviveu levando à ocorrência de  desenvolvimentos tecnológicos antes do tempo actual. Neste Universo um homem compra um dos primeiros andróides dotados de inteligência artificial e confronta o seu quotidiano com o pensamento lógico de uma entidade;

70 – Monster Dreams – J.S. Meremaa – Uma história curta belissimamente ilustrada que é publicada, neste volume, em três idiomas diferentes;

71 – Flex Mentallo Grant Morrison e Frank Quitely– História pouco linear sobre um Universo de super-heróis algo … flexível. Os episódios estão carregados de elementos surreais, utilizando e deturpando as características gerais dos super-heróis;

72 – Gorazde – Joe Sacco – O autor, jornalista, conta a sua experiência em Gorazde, reunindo relatos da guerra e do quotidiano sob fogo, mostrando como uma cidade em que viviam, em harmonina, pessoas de diferentes religiões e origens, se revira perante movimentos preconceituosos de supremacia. Claramente, ninguém ficou a ganhar com a guerra.

Lançamento: Sentinel – Luís Louro

Depois do sucesso de Watchers (nomeado para o Galardão Comic Con) o autor anuncia Sentinel. O livro será lançado durante a Comic Con, no próximo dia 15 de Setembro, pelas 15h45 no pavilhão Prime Theatre. Deixo-vos a sinopse deste volume:

Na sequência de Watchers, com dois finais distintos, Luís Louro apresenta-nos agora Sentinel, também em duas versões, desta feita com dois inícios e apenas um final. Após o desaparecimento do Sentinel, na última história, assiste-se aqui ao surgimento de uma legião de seguidores, os Discípulos, cujo objetivo é preservar o legado do seu herói e manter bem viva a luta pelo maior número de visualizações. Mas, como em tudo na vida, há sempre duas faces para a mesma moeda… Neste caso, uma das faces são os Discípulos; a outra, algo bem pior! Sim, porque desta vez a questão é pessoal!!!!

Novidade: Os Cavaleiros de Heliópolis – Jodorowsky e Jérémy

A Arte de Autor anuncia um novo volume para dia 12 de Setembro! Trata-se de um álbum duplo de Os Cavaleiros de Heliópolis que contém duas histórias: Nigredo, a Obra ao Negro e Albedo, a Obra ao Branco. A editora anuncia, também, que irá lançar novo volume duplo em 2020 com as histórias Rubedo, a Obra ao Vermelho e Citrinitas, a Obra ao Amarelo.

Deixo-vos com a sinopse e algumas páginas disponibilizadas pela editora:

Este primeiro álbum reúne Nigredo e Albedo, os episódios 1 e 2 saga.

O destino de Luís XVII, que pereceu aos 10 anos nas masmorras da prisão do Templo, é, na mesma medida que o Homem da Máscara de Ferro, um dos maiores mitos da História de França. Um destino romanesco que o genial Jodorowski reescreve com brilho numa grandiosa fábula iniciática e esotérica. O traço virtuoso de Jérémy (Barracuda) dá a Os Cavaleiros de Heliópolis a força de um fresco épico, em que se misturam os segredos da alquimia e os arcanos da História.

I – NIGREDO, A OBRA AO NEGRO

Ele é o detentor de um saber. O herdeiro de um poder.

Fim do século xviii. Num mosteiro do Norte de Espanha, esconde-se o templo sagrado dos Cavaleiros de Heliópolis: uma assembleia de alquimistas imortais e afastados do mundo. No momento em que o discípulo Dezassete se prepara para completar a sua formação e integrar a ordem, o seu mestre Fulcanelli revela aos outros cavaleiros o terrível segredo das suas origens. Na realidade, Dezassete é o filho ocultado de Luís XVI e de Maria-Antonieta: o rei de França Luís XVII! Herdeiro desse destino, o jovem vai reclamar o trono que lhe é devido ou ficar na sombra, fiel aos preceitos milenares da Alquimia?

II – ALBEDO, A OBRA AO BRANCO

Não o deixaram tornar-se rei de França. A alquimia reserva-lhe um destino ainda maior.

Dezassete é um ser único. Filho ocultado de Luís XVI e de Maria-Antonieta, ele é o herdeiro legítimo do trono de França. É igualmente um poderoso alquimista, membro da ordem secreta dos Cavaleiros de Heliópolis. Mas a sua iniciação está apenas a começar… O seu próximo adversário há muito que era candidato a, também ele, se tornar cavaleiro. Excepcional, mas perigoso, é provavelmente o homem mais temido do mundo. Aquele que acaba de derrubar Luís XVIII e se prepara para se tornar igual a um deus: Napoleão Bonaparte.

Jesus Punk Rock – Sean Murphy

Incluído na colecção comemorativa dos 25 anos da Vertigo (e publicado em Portugal pela parceria Levoir Público) Jesus Punk Rock é uma narrativa pesada e desafiadora, que parte de uma premissa algo simples para fazer uma crítica social, religiosa e, até, cultural.

O início é simples. Um homem resolveu clonar Cristo e criar um reality show que acompanha o seu crescimento, induzindo a criança a acreditar que será capaz de todos os milagres que o Jesus Cristo original. Para que este projecto seja possível arranja uma jovem em apuros financeiros que se sacrificará para dar à luz a criança, uma cientista que tem como objectivo paralelo desenvolver uma nova espécie de algas capazes de limpar o ambiente, e um guarda-costas que outrora pertenceu ao IRA. Esta equipa tão diversa permite que o autor explore várias perspectivas e vários passados, dando maior solidez a toda a narrativa.

Ainda que afirme outro tipo de interesses, o produtor de reality show tem óbvios interesses monetários. Para cenário do reality show escolhe uma ilha isolada, um local fácil de controlar. Este produtor não resiste a jogos emocionais e chantagens, manipulando todos os membros da equipa, enquanto acena com consequências. Aliás, a escolha dos membros da equipa terá sido feito exactamente pela forma como os pode controlar.

A jovem mãe, grávida de um clone de Jesus Cristo (se realmente o é, é algo que será discutido ao longo da história) é a sacrificada. A família poderá ter alguma liberdade monetária, mas este mãe será aprisionada na ilha, tendo como único objectivo a criação de um fenómeno científico e religioso, uma combinação que se tornará explosiva mesmo longos anos depois do nascimento da criança.

Por sua vez, o guarda-costas que já pertenceu ao IRA tem um passado pesado. O pai faleceu em resultado do seu próprio tiro, e acabou por ser criado pelo tio, um pesado operacional do IRA que o educou do mesmo modo, entre formações de armas e técnicas marciais. Mas alguma coisa o terá feito voltar costas ao IRA e prometer proteger esta criança. O percurso desta personagem vai sendo apresentado como forma de explorar as motivações do IRA e a forma como opera, utilizando uma forte componente religiosa.

A existência desta criança não será calma. Entre o seu nascimento e a adolescência serão vários os manifestantes, atentados e reviravoltas que levarão a criança a percorrer um percurso entre a inocência de acreditar que é divina (e com a capacidade de executar milagres) e toda a força da revolta em perceber que o que o rodeia está corrompido pelo poder camuflado de ardor religioso.

Passo a passo, este volume utiliza a premissa para ir desmontando o que está por detrás dos interesses religiosos. Os valores indicados por Jesus Cristo não são revistos no modelo seguido pelos que se dizem cristãos, que tentam lucrar com a actividade religiosa e que, ao invés de amar o próximo, propagam mensagens de ódio em relação a todos os que são diferentes – a criança que será um clone de Jesus Cristo até terá a cor de cabelo, pelo e olhos alterada para ter um aspecto mais ocidental.

Mas neste volume debatem-se outras componentes. Como o limite para um reality show. Até que ponto o que realmente manda é o dinheiro e o poder que dele resulta, e como se justifica toda a manipulação da vida das pessoas. Por outro lado, que espécie de sociedade segue um programa que canibaliza a existência dos outros?

De forma tangencial também se podem tecer algumas considerações sobre o movimento punk – como surge a revolta e a necessidade de quebrar com as autoridades vigentes. Neste caso, a personagem principal, o jovem, cansa-se da hipocrisia que o rodeia e decide utilizar toda a sua força no sentido contrário para o qual o destinam.

Novidade: Lazarus – Vol.2

A Devir lança, este mês, o segundo volume de Lazarus. Deixo-vos a sinopse, bem como algumas páginas disponibilizadas pela editora:

Quando o lar de Joe e Bobbie Barret é destruído, a sua única esperança de sobrevivência está na Seleção para Ascensão.

Forever, a Lazarus da Família Carlyle, lida com mentiras e traições, e também com atos de terrorismo perpetrados por um grupo conhecido como Os Livres.

Novidade: Beirão: Rijo como Granito – Rafael Sales

Beirão: Rijo como Granito é o segundo volume que a Escorpião Azul lança para arrancar a leitura depois das férias. Deixo-vos a sinopse, bem como algumas páginas disponibilizadas pela editora:

Nascido nas profundezas de uma mina, um Homem de Granito ameaça a harmonia da vila de Castendo. Conduzido pela ganância, um outro procura uma preciosidade que lhe trará riqueza. Empenhado em manter a paz na vila, um terceiro mascara-se e luta. Um homem a quem as gentes chamam Beirão.

TOP de Agosto

Entre novos jogos de tabuleiro e novos livros, eis o que se destacou durante o mês de Agosto.

Jogos de tabuleiro

Dr. Eureka

Dr. Eureka é um jogo que pretende melhorar a motricidade fina e o raciocínio e tem como objectivo fazer, com as bolas nos nossos tubos de ensaio, fazer o mesmo padrão que se encontra descrito nas cartas. O jogador a conseguir realizar este objectivo ganha a ronda. O primeiro a conseguir ganhar 5 rondas, ganha o jogo. Ainda que pareça (e seja) um jogo destinado a um público mais infantil, tem feito sucesso como party game, envolvendo jogadores inexperientes e tornando-se, rapidamente, viciante.

Century: A New World

Terceiro jogo de uma trilogia de jogos independentes (mas que podem ser combinados entre si para criar novos jogos), este Century consegue utilizar princípios semelhantes ao do primeiro, mas colocando-as num tabuleiro com mecânica de worker placement. Mais complexo que o primeiro, mas, talvez por isso, mais apreciado por jogadores experientes, este Century 3 fez sucesso cá em casa.

Klask

Não é novo cá em casa, mas começou a ser distribuído pelal MEBO em Portugal. É um jogo rápido que precisa de bons reflexos. Os pontos podem ser feitos de três formas diferentes:

  1. Fazer o adversário perder o controlo do manípulo;
  2. Fazer com que, ao manípulo do adversário, se colem dois ímanes;
  3. Conseguir colocar a bola na “baliza” adversária.

É um daqueles jogos que fascina os mais pequenos mas que qualquer adulto quer experimentar e testar os seus reflexos.

Banda desenhada

Sweet Tooth

O auge do mês foi atingido com Sweet Tooth, uma história apocalíptica de Jeff Lemire em que a humanidade é atingida por uma praga avassaladora. Os poucos sobreviventes assistem à degradação da civilização e da sociedade. Mas o ponto de destaque vai para as crianças que começam a nascer após a praga, que apresentam características animais, mais ou menos acentuadas, sendo este o mistério que o autor explora ao longo da série.

Gorazde

Gorazde foi, também, uma das principais leituras do mês, mas por motivos diferentes. A banda desenhada retrata a sobrevivência em clima de guerra, numa cidade que se viu, de repente, dividida entre origens e religião, com vizinhos a tornarem-se cada vez mais hostis. A comida escasseia e os tiros sucedem-se. Joe Sacco, o autor, jornalista, deslocou-se á cidade logo após à inauguração de uma estrada da ONU que lhe permitia entrar e sair do local. Mas os habitantes, esses, continuavam fechados na sua própria realidade. A população encontra-se sub nutrida, pobre, traumatizada e com poucas perspectivas de futuro.

Punk Rock Jesus

Punk Rock Jesus, por sua vez, surpreendeu como história pesada, carregada de acção, mas também de premissas que nos fazem pensar a sociedade e a religião. Fala-se de Jesus Cristo, do IRA, da clonagem, de crença e de reality shows, mas todos estes elementos concentrados numa história forte.

Livros

Um dos livros que mais teve impacto foi Vigilance de Robert Jackson Bennett. Na realidade descrita os tiroteios em massa são autorizados e fazem parte de um espectáculo televisivo que, simultaneamente, apela à corrida às armas e vende direitos publicitários milionários. É interessante constatar como a população reage, achando que a culpa é das vítimas que deviam ter armas para se defender. É interessante perceber como os inimigos começam por ser os outros, e passam a ser os vizinhos.

Máquinas como eu, de Ian McEwan, não é uma leitura dura de ficção científica. Está mais preocupado com os elementos psicológicos e sociais da integração de uma inteligência artificial, usando como factor alienante uma realidade alternativa. Não é uma leitura excelente, mas é uma leitura que escorrega pelos dedos facilmente, podendo ser caracterizada como uma boa leitura para a época de Verão.

City of Miracles, também de Robert Jackson Bennett é o último volume de uma trilogia fantástica de histórias independentes. No mundo em que decorre a acção existiram duas civilizações distintas, uma que se baseia na ciência, outra nos favores dos deuses (milagres). Digo existiram porque, após uma guerra, a civilização da ciência venceu, resultando no colapso de parte das cidades dos perdedores (as estruturas construídas pelos deuses, desapareceram quando estes foram eliminados). Algumas décadas depois, continuam a existir traços divinos que indicam a sobrevivência de algumas entidades. Trata-se de um mundo bem construído e interessante, de premissa simples, em torno da qual o autor desenvolve, de forma competente uma narrativa movimentada.