Bug – Vol.1 – Enki Bilal

Enki Bilal é dos meus autores favoritos de banda desenhada. E se a escolha temática (de ficção científica) parece bastante óbvia, há que acrescentar a qualidade dos desenhos numa narrativa que cruza uma abordagem cínica ao futuro com o sentimento de solidão provocado pela obsessão pela tecnologia. Mas, e se a tecnologia deixar de funcionar?

Em Bug um estranho acontecimento provoca o apagar de todos os registos digitais. Não há discos rígidos nem bases de dados e, consequentemente, não há internet e todos os mecanismos que se baseiam em informação deixam de funcionar. Tal cenário provoca sérios problemas no mundo industrializado neste futuro pouco distante – às próteses electrónicas deixam de funcionar, a grande maioria das comunicações também.

O mundo está, como seria de esperar, um caos. Mas não menos estranhos são os fenómenos que decorrem fora da Terra, numa nave espacial em que os poucos humanos apresentam comportamentos bem mais preocupantes – e relacionados com o desaparecimento de qualquer memória digital!

Para além da capacidade de transmitir o sentimento do cidadão comum que se vê sem net nem todo o suporto tecnológico a que está habituado, Bug apresenta pequenos detalhes curiosos que espelham bem o espírito crítico da sociedade ocidental. Que desapareceram. As publicações passam a apresentar inúmeros erros (o corrector autográfico deixa de funcionar). Não é de estranhar que nenhum ser humano saiba para quem ligar. Tal como no presente, a maioria das pessoas deixou de decorar números de telefone e passou a utilizar as agendas telefónicas incorporadas nos telefones. Os seres humanos parecem perdidos. Mas nada os prepara para a segunda parte do fenómeno que irá se desenvolver no segundo volume.

Graficamente mais interessante que outros trabalhos recentes do autor (como Animal’Z), Bug apresenta uma narrativa num futuro próximo de teor quase apocalíptico (com outras histórias do autor) intercalando várias perspectivas que se opõem na forma como enfrentam os acontecimentos. O resultado é uma boa história que, como outras do autor, parece rodear a realidade de uma aura despreocupada (pela posturua de algumas personagens) e sonhadora – mesmo que esse sonho se possa transformar num pesadelo.

O primeiro volume de Bug foi publicado em Portugal pela Arte de Autor, estando o segundo volume planeado para Outubro.

Laura and the Shadow King – Bruno Martins Soares

 

Bruno Martins Soares é mais conhecido, entre os leitores portugueses, por Alex 9 (publicado inicialmente como trilogia e depois em volume único pela Saída de Emergência) ou por A Batalha da Escuridão (publicado mais recentemente em português pela Editorial Divergência). Mas, para além destes livros, Bruno tem escrito e publicado sobretudo em inglês, pela Amazon, procurando o público internacional, entre o qual poderá ter um maior número de leitores.

Entre os livros publicados na Amazon encontramos Laura and the Shadow King, uma história apocalíptica que refere um género de apocalipse zombie passado em terras da Península Ibérica onde não falta acção e guerra – algo que é pouco usual encontrar em autores portugueses. E esta é uma das principais características da escrita de Bruno Martins Soares, talvez por influência de outra das actividades do autor – escritor de roteiros de cinema.

Quem me segue sabe que dou primazia à narrativa num livro: ao (bom) desenvolvimento de personagens acima de pensamentos filosóficos, à sucessão de episódios lógicos acima de jogos de palavras com significado dúbio. Laura and the Shadow King apresenta estas características, preferindo dar força à velocidade da acção, ainda que dê mais importância à sucessão de episódios do que ao foco nas personagens.

A acção intercala várias personagens que se encontram em diferentes locais.  Se por um lado se foca nos operacionais militares que tentam manter algum controle sobre o território lusitano (ainda que existam grupos civis que mantenham o controle local) e que se debatem com o aparecimento de seres humanos suicidas (para além dos usuais humanos doentes e contagiosos); por outro, apresenta uma dupla mãe-filha que tenta escapar das garras de uma facção russa em território espanhol – uma dupla que tem um papel fulcral no crescimento da facção.

Entre descrições de operações no terreno e pequenas batalhas militares, encontramos a dupla em fuga por territórios perigosos e inóspitos. Mas ambas possuem um dom que as irá manter a salvo mais do que uma vez – um dom que pode ser determinante para o futuro da humanidade.

Utilizando a experiência noutras áreas, Bruno Martins Soares consegue dar ao enredo o devido tom de urgência. Existem vários episódios que conseguem transmitir a tensão de estar no terreno – mesmo quando não existe confronto o ambiente é de alerta e qualquer movimento suspeito poderá iniciar uma rápida troca de agressões. Com várias referências às munições utilizadas (que darão outro gosto a quem as reconhece) a história tem um grande foco militar numa situação de apocalipse, mantendo um ritmo elevado.

Mas não pensem que a história é só militar. Apesar de todos os detalhes nessa componente, a história centra-se muito na relação entre a mãe e a filha, uma relação de amor e dependência em torno da qual toda a história irá se centrar. Se, por um lado, a mãe quer fugir da facção russa a todo o custo, a filha pensa apenas na presença da mãe e em como responder adequadamente às expectativas nela depositadas.

Laura and the Shadow King tem algumas arestas por limar – sobretudo na caracterização de personagens e na forma rápida como as introduz, não dando grande espaço para o leitor respirar. Mas, tratam-se de arestas. São poucos os autores portugueses capazes de conduzir uma história com esta velocidade e Bruno Martins Soares consegue fazê-lo. Ainda que esta história possa ser lida isoladamente, existirão mais livros no mesmo Universo.

Foundryside – Robert Jackson Bennett (Founders Vol.1)

The City of Stairs e The City of Blades (dois volumes da trilogia The Divine Cities – ainda não li o terceiro) são dois dos melhores livros de fantasia que li nos últimos anos.  Neles, o autor leva-nos para um mundo em que duas civilizações se opõem – duas civilizações construídas em desenvolvimentos opostos. Se numa as cidades são construídas recorrendo à magia e à vontade dos deuses, na outra os desenvolvimentos são científicos e as construções são obras de engenharia. O mundo construído nesta trilogia é fascinante e Robert Jackson Bennet faz um trabalho excepcional a desenvolver personagens pelas quais é fácil torcer.

Neste caso, Foundryside, Robert Jackson Bennet repete a fórmula – constrói, novamente, um mundo fantástico com uma premissa simples mas fácil de escalar. Ao longo das páginas o conceito atinge maior complexidade, mas consegue manter sempre a coerência sólida que é necessária para manter satisfeitos os leitores mais exigentes. A par com a construção do mundo, o autor distingue-se, também, como constructor de personagens, desenvolvendo poucas mas de forma eficiente e conseguindo criar forte empatia.

Em Foundryside – o primeiro livro num novo mundo fantástico que possui uma história auto contida; a realidade pode ser transformada recorrendo à escrita numa linguagem específica, a linguagem dos antigos. Podemos, desta forma, dizer a um pau de madeira que  é tão duro quanto um de ferro, ou que, quando lançado, a terra se encontra em frente levando-o a atingir maior velocidade do que o que deveria pelo simples exercício da força de lançamento. Como algumas instruções são demasiado longas, existe a necessidade de criar léxicos (cuja influência se exerce sobre uma área contida), sendo que no objecto se coloca apenas a referência a esta instrução.

Nesta realidade a linguagem é controlada por Casas que funcionam numa espécie de sistema feudal. Cada Casa possui a sua própria cidade, rodeada por muralhas intrasponíveis e portas que são abertas para quem detém a chave certa – tudo controlado pela própria linguagem. O poder é transmitido de pais para filhos e os restantes seres humanos da cidade são meros trabalhadores. No exterior de todas as cidades, num local sem lei, encontram-se os restantes seres humanos que tentam sobreviver recorrendo a actividades pouco legais.

É neste mundo que encontramos Sancia, uma ladra. Devido à sua peculiar capacidade de sentir o que aconteceu com aquilo que toca, Sancia foi contratada para roubar um pequeno cofre numa zona perigosa – um cofre que não deverá abrir e que lhe renderá o valor de que precisa para se curar. A mesma capacidade que a leva a ser uma ladra excepcional é também o tormento que a impede de tocar livremente em tudo o que a rodeia. Depois de várias peripécias, o roubo é bem sucedido, mas torna Sancia num alvo a abater por demasiadas facções. Curiosa, acaba por abrir o cofre descobrindo uma chave antiga que é capaz de abrir qualquer porta – e de falar com Sancia.

De premissa peculiar, original e fantástica, Foundryside torna-se rapidamente numa leitura frenética que envolve e fascina. Apesar de ter alguns (poucos) momentos menos fortes, o autor sabe conjuntar as características do mundo criado com o desenvolvimento da personagem levando-nos por uma sucessão de episódios movimentados. No final, ficamos a querer mais histórias no mesmo mundo – e que mais pode querer um autor que planeia mais alguns livros nessa mesmo Universo? É, sem dúvida, um autor para continuar a seguir!

Novidade: H-Alt N.º8

A H-Alt anuncia o lançamento do oitavo volume com uma selecção de 17 histórias de vários autores e vários géneros. Para mais informações sobre este projecto podem consultar a página oficial.

A imagem da capa é da autoria do consagrado concept-artist e autor de BD espanhol Marcos Mateu-Mestre, estando o seu trabalho em destaque nesta edição. Aparece também uma breve entrevista exclusiva com ele. Na secção Descobrir falamos um pouco sobre a editora Imaginauta.

 

 

 

 

Resumo de Leituras – Junho de 2019

37 – Black Hammer – Vol.2 – O segundo volume continua a história do grupo de super heróis encurralado e semi enlouquecido, mostrando o resultado das tensões acumuladas que se soltam com a chegada de uma jovem, a filha de um dos falecidos super que serve como elemento catalisador para a narrativa;

38 – O Homem Vazio Volume sombrio de terror, O Homem Vazio é uma narrativa competente de horror que nos trás uma espécie de fenómeno sobrenatural memético, em que as pessoas vão sendo contaminadas por uma vontade de se entregarem a fins pouco lógicos;

39 – Winepunk – Vários autores – Apenas agora o inclui na listagem, apesar de o ter lido há alguns meses. A ideia é original, a concretização é fantástica. O volume destaca-se sobretudo pela forma como utiliza factos históricos para criar uma realidade alternativa de grande teor português. Um dos grandes lançamentos do ano.

40 – Laura and the Shadow King – Bruno Martins Soares – É o primeiro livro que leio do Bruno Martins Soares em inglês. A história é movimentada e emotiva, retratando um apocalipse da humanidade no seguimento de uma doença que aproxima os humanos de zombies. Ou pelo menos de seres irracionais, violentos e pouco inteligentes. Mas ao contrário de livros que decorrem em apocalipses zombies, a narrativa tem, neste caso, espaço para explorar relacionamentos e interacções humanas e dá grande foco à empatia.

Novidade: Bug Vol.1 – Enki Bilal

Com a proximidade do Festival de Beja, a Arte de Autor anuncia o lançamento do primeiro volume de BUG (estando o lançamento do segundo já agendado para Outubro):

Num futuro próximo, numa fração de segundo, o mundo digital desaparece, como se sugado por uma força inexprimível. Um homem encontra-se só no meio da tormenta, cobiçado por todos os outros.
BUG significado
Em português: erro ou falha na execução de programas informáticos, prejudicando ou inviabilizando o seu funcionamento.
Em inglês: inseto, bicharoco ou vírus.

Enki Bilal, denunciante! O que acontecerá se a raça humana abandonar sua memória apenas à tecnologia? Ao contar o BUG do ano de 2041, o artista assina um thriller de antecipação nervosa em que os destinos íntimos se chocam com o caos de um mundo em completo apagão. Na continuidade direta de Monster e Coup de Sang, Bilal continua seu trabalho orwelliano e shakespeariano.

Novidade: The Space Between – Miguel Angel Martín

Eis outro dos lançamentos da Escorpião Azul para este mês:

Fomos testemunhas da ascensão e morte do Chambers. Da pena de Miguel Ángel Martín revisitamos as suas primeiras aventuras, descobrindo alguns capítulos por nós desconhecidos até hoje. Também presenciámos como a vida de Chris se desenvolveu na Terra até decidir adormecer. Os Chambers, família cujo o único vínculo comum parecia ser o seu sangue frio com que enfrentavam as situações limite, já não estão entre nós. Só nos ficou este livro magistral para os recordar. Parece-vos pouco?

 

Novidade: Solar Sailors 1 – Daniel da Silva Lopes

 

A Gorila Sentado anuncia a segunda novidade para o Festival de Banda Desenhada de Beja. Aproveito para indicar que a Gorila Sentado é uma nova editora que nasce pela mão de Daniel da Silva Lopes com a edição e revisão de Francisco Ferreira.  A editora nasce da vontade de criar e publicar BD num formato diferente, com o aumento e a diversificação do leque de títulos e autores disponíveis no mercado português.

Resumo de Leituras – Maio de 2019 (1)

33 – The Big Sheep – André Mateus e Rahil Mohsin – Com um reconhecível estilo Noir, apresenta uma história com um humor peculiar e bem enquadrado que se acompanha por um desenho a propósito apesar do seu aspecto crú. Uma leitura curta e agradável;

34 – Batman: Noel – Lee Bermejo – Visualmente brutal, reconta a história de Dickens colocando Batman como o herói que já perdeu as medidas à muito tempo e que não olha a meios para conseguir prender o vilão. Batman usa pequenos ladrões que não têm outro modo de subsistência para tentar apanhar o Joker e nem o Super Homem o conseguirá chamar à razão;

35 – Dylan Dog – Até que a morte vos separe – Mauro Marcheselli, Tiziano Scalvi, Bruno Brindisi – O segundo volume de Dylan Dog pela G Floy apresenta duas histórias em torno dos romances de Dylan. Na primeira acompanhamos uma história fantástica que recorda os atentados do I.R.A. mostrando os vários lados das ocorrências enquanto na segunda se descontrói uma vila numa reviravolta esperada mas coesa;

36 – Black Hammer – Vol.1 – Jeff Lemire, Dean Ormston e Dave Stewart – O primeiro volume publicado desta série traz-nos uma história surpreendente – não pela premissa de explorar as fraquezas humanas dos super-heróis, mas pela forma como o faz, mostrando personagens desengonçadas, emocionalmente frágeis, mentalmente confusas e inseguras. Jeff Lemire ganha, definitivamente, um eterno lugar nas minhas estantes para todos os seus livros.

Novidade: A Viagem da Virgem

A Escorpião Azul anuncia novo lançamento que reúne grandes nomes da banda desenhada nacional e que se enquadra no género de ficção científica:

É uma obra sem preconceito nem presunção e que se insere no género ficção científica.

O argumento de Pepedelrey transporta-nos para o conflito entre dois companheiros, uma forte amizade entre um Humano e um Alien, por causa de uma mulher. A obsessão do Humano pela fêmea, sendo aqui abordado o conceito fêmea-objecto, e a desesperante procura por parte do Alien, da lógica dessa obsessão
Humana.

A opção em escolher quatro desenhadores diferentes (Pepedelrey, Jorge Coelho, Rui Gamito e Rui Lacas), atribuindo assim uma identidade gráfica pessoal a cada capítulo, e optando por unificar esteticamente com a mesma palete de cor, leva-nos a níveis de alguma, estranheza nas emoções envolvidas nesse confronto amoroso.
A presente obra é a versão portuguesa da edição original de 2006, que pretende recuperar todo este universo ficcional esquecido há 13 anos, composta pelos autores referidos anteriormente.

 

Resumo de leituras: Maio de 2019 (1)

33 – The Big Ship – A Farm Noir – André Mateus e Rahil Mohsin – Uma pequena história que se enquadra no género noir e que apresenta como detective uma tartaruga inteligente e lenta. O pequeno livro explora os clichés do género de forma engraçada, conseguindo fechar com um humor peculiar e de leitura satisfatória;

34 – Batman: Noel – Lee Bermejo – A história aproveita o Conto de Natal de Dickens para apresentar o Batman obcecado pelo Joker – de tal forma que usa os que o rodeiam de qualquer forma para prender o vilão. A história é mais interessante do ponto de vista visual do que narrativa, com páginas deslumbrantes;

35 – Dylan Dog – Até que a morte nos separe –  Marcheselli, Sclavi e Brindisi – Uma história bastante diferente de Dylan Dog que tem como tema os atentados do IRA, colocando Dylan Dog como um jovem polícia, apaixonado por uma irlandesa que tem um papel bastante menos inocente do que parece;

36 – Black hammer vol.1 – Vários – Uma extraordinária história de super-heróis com narrativa de Jeff Lemire, em que os heróis são apresentados como pessoas quase comuns, com dúvidas, fragilidades e incertezas, demasiado centradas nos seus próprios dramas para verem o que os rodeia.

Black Hammer – Vol. 1 e 2 – Jeff Lemire, Dean Ormston, Dave Stewart

Quando soube da premissa explorada por esta série pensei que poderia ser apenas mais uma história a conferir um lado humano aos super-heróis. Mas sendo Jeff Lemire avancei com a leitura. E ainda bem. É verdade que outras histórias de banda desenhada já exploraram a humanidade dos super heróis com poderes. Recordo facilmente as novas histórias da Marvel ou O Legado de Júpiter.

Se algumas histórias da Marvel apresentam heróis jovens que tentam encontrar o balanço entre a sua cultura e as novas responsabilidades, mostrando inconsistências típicas da idade, dúvidas existenciais e dificuldade em controlar os poderes, já em O Legado de Júpiter os super hérois são famosos como as estrelas pop, levando a que os mais novos apresentem os vícios dos famosos e os mais velhos se julguem perfeitos, intocáveis e superiores. O resultado, em O Legado de Júpiter, é catastrófico para a humanidade e resultada em complicadas relações familiares entre os heróis.

Mas apesar de toda esta panóplia de narrativas que se centram no lado humano dos heróis com super poderes, nenhuma consegue ser tão estranha, tão envolvente e, em simultâneo, tão disfuncional e caoticamente tão sentimental quanto Black Hammer. Sentimos o desespero, o amor, a rejeição, a demência, a força – tudo em doses brutais e arrebatoras, que acompanham as personagens imperfeitas de Lemire – imperfeitas como qualquer humano, com falhas e valências, com inseguranças, medos e sentimentos. É que Jeff Lemire não retrata os super-heróis quando estes estão no topo da sua forma. Mas velhos, cansados, derrotados e fartos de uma reclusão forçada que lhes retira todas as possibilidades de uma existência satisfatória.

O nosso grupo de super-heróis encontra-se numa vila interior dos Estados Unidos da América, mas na sua própria quinta onde tentam passar uma noção de normalidade. Mas a família começa a despertar algumas desconfianças na vizinhança, sobretudo pelas atitudes da criança que bebe, fuma e pragueja como um adulto. É que apesar do corpo de criança, esta heroína é uma senhora de sessenta anos que se transforma numa menina para desempenhar as tarefas heróicas e que agora se vê presa neste corpo, sem poder usufruir da reforma que tanto anticipava nem das poucas vantagens da idade.

Entre o robot que cuida das tarefas de casa, o alienígena homosexual que tenta estabelecer novos laços e o herói cosmonauta que viaja constantemente entre realidades, tempos e espaços (e por isso não está preso, mas demente), o grupo é disfuncional, catastrófico e depressivo. A menina não consegue ser vista como o adulto que é, causando-lhe eterna frustração e Abe com mais idade procura um novo amor na ex-mulher do xerife ciumento.

Cada membro daquele estranho grupo tem problemas pessoas nos quais se foca excessivamente, perdendo as pistas de que algo naquele local não é coerente. Será a vinda da filha de um dos heróis falecidos que perturbará o equilíbrio insano e dará início a uma sucessão de rupturas – mas onde terminarão é algo que ainda não é revelado.

Jeff Lemire tornou-se rapidamente um dos meus autores favoritos pela forma como desenvolve personagens. São personagens imperfeitas e muito humanas, que facilmente geram empatia fazendo com que os cenários mais banais possam ser explorados e se mantenha o interesse do autor (como com outros livros do autor). Não é o caso. Por detrás destas estranhas relações entre super heróis encontra-se uma trama maior, um mistério pronto a ser desvendado, que serve de ligação de toda a trama.

Os dois primeiros volumes de Black Hammer foram publicados pela Levoir em parceria com o jornal Público.

Novidade – Lazarus – Rucka, Lark, Arcas – Vol.1

O primeiro volume de Lazarus encontra-se nas livrarias! A série é lançada em Portugal pela Devir e o primeiro volume terá o preço apelativo de 9,99€ (não costumo falar de preços, mas, se não me engano, os valores praticados pela editora costumam ser um pouco superiores). Eis a sinopse e algumas páginas disponibilizadas pela editora:

Num mundo dominado pela tecnologia, o poder reside nas mãos de um pequeno número de famílias, governam aqueles que possuem vantagem científica, todos os outros são desperdício.
Forever e a espada e o escudo da família Carlyle, a sua Lazarus.
Esta é a sua história!

 

The Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction

Se bem repararam, o Rascunhos tem estado mais silencioso nestas últimas semanas. Tal redução de publicações deve-se ao surgir de um novo projecto que estou a coordenar conjuntamente com o Carlos Silva – o The Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction.

Ainda que apenas tenha sido lançado no passado Sábado, dia 11, é um projecto que fervilha desde que a sua necessidade se tornou evidente na Eurocon de Barcelona, há alguns anitos. É que, após apresentarmos vários livros, autores e iniciativas portuguesas, não tinhamos nenhum portal que pudesse dar continuidade ao interesse que se gerava pelo que é feito em Portugal.

É neste seguimento que surge, então, o portal – um esforço conjunto de mais de 20 pessoas que inclui associações e vários bloggers para divulgar tudo o que ocorre a nível nacional em várias vertentes – literatura, jogos de tabuleiro, banda desenhada, videojogos, rgp, cinema, música, teatro. E em língua inglesa para podermos dar maior visibilidade internacional!

O arranque de dia 11 trouxe artigos sobre videojogos, jogos de tabuleiro, livros (claro) e banda desenhada – mas já estão programados artigos sobre cinema, teatro, eventos e muito mais. Estamos abertos a contribuições, sugestões, ideias e muito mais – basta contactarem-nos pelo formulário que se encontra na página.

Winepunk – Nunca Mais – João Barreiros

A história de João Barreiros é, como não podia deixar de ser, apocalíptica. Tecendo uma trama intensa, carregada de elementos tecnológicos e futuristas, a história de João Barreiros é das que mais desenvolve esta possibilidade de uma realidade alternativa. Apresentam-se tramas políticas e interesses pessoais, mostram-se os novos reis do Norte que carregam esperanças e expectativas para o seu novo Reino. Mas mais do que isto, apresenta-se uma nação capaz de fazer inveja a poderosos países como os Estados Unidos da América.

A origem desta inveja está numa nova droga, proveniente de uma casa especial de uva que permite, a quem a toma, sonhar com um dos múltiplos futuros possíveis. Os sonhadores, explorados pela Monarquia do Norte , permanecem em armazéns, fechados, em armazéns, enquanto as suas consciências captam detalhes tecnológicos que permitem que a Monarquia do Norte se afirme apesar do diminuto tamanho e das dificuldades financeiras e estratégicas.

As possibilidades provenientes desta droga são de tal forma reconhecidas que não faltam espiões e tramas para conseguir roubar uns ramos desta videira – e é assim que se inicia o volume, com um homem que resolve enfrentar os enxames de abelhas especiais, bem como os morcegos explosivos que pouco hão-de deixar para que possa ser reconhecido. Este é apenas um dos vários episódios catastróficos que demonstram a usual capacidade de João Barreiros em destruir personagens e cenários de forma firme, rápida e com o máximo de prejuízo.

Entre futuros deprimentos e monstros de pensamento básico mas letal encontramos humanos decadentes e egoístas que irão desencadear uma série de eventos bombásticos. João Barreiros não poupa nada nem ninguém!

Cáustico, imaginativo e carregado de um humor negro que é muito característico ao autor, esta longa história apresenta uma trama densa e satisfatória que rapidamente se torna na melhor do antologia, tanto pelos vários elementos que cruza, como pelo desenvolvimento de personagens caricatas e pela descrição de episódios cortantes.

A antologia Winepunk foi publicada pela Editorial Divergência.

Novidade: Terra de Lobos – Tünde Farrand

A TOPSELLER anuncia novo lançamento distópico para o mercado português:

Londres, 2050. A crise socioeconómica terminou e as políticas de incentivo ao consumismo não param de surgir.

Ser proprietário de terrenos fora da cidade é privilégio de uma elite, sendo que a restante população apenas obtém o seu Direito de Residência se o dinheiro que gastar for suficiente para alcançar um dos patamares do estatuto de Consumidor.

O envelhecimento foi abolido graças a uma nova e radical abordagem, que substitui a reforma por uma feliz eutanásia num Dignitorium, embora os mais desfavorecidos sejam deixados à sua sorte, longe da vista daqueles que efetivamente contribuem para a sociedade.

Alice é uma Consumidora Média. Depois do desaparecimento de Philip, arrisca-se a perder a casa e o seu estatuto social, começando a pôr em causa a sociedade em que foi criada e que o próprio marido ajudou a construir. Na demanda pelo paradeiro de Philip, ela acaba por descobrir algumas verdades horrendas acerca do que aconteceu à sua família no passado e da crueldade que se esconde por detrás da nova hierarquia social.

Terra de Lobos é uma poderosa visão distópica, no espírito de Black Mirror, que agradará a fãs de História de uma Serva e Nunca me Deixes.

 

 

 

 

A cidade que não existia – Pierre Christin, Enki Bilal

Eis um livro curioso que transforma uma realidade dura e cinzenta noutra futurista e cómoda mas ainda mais desconfortável. A história começa por nos apresentar uma cidade típica em que uma única unidade fabril fornece o motor económico da região. Quase todos os homens trabalham na mesma fábrica, em míseras condições, enquanto que as mulheres trabalham na indústria fabril, costurando sob as ordens de uma dura patroa.

Dadas as dificuldades económicas, nesta dura realidade os trabalhadores revoltaram-se e perpetuam greve atrás de greve, tendo a intenção de ser donos dos seus próprios destinos e terem uma parcela dos lucros do negócio para o qual trabalham. Já o dono da fábrica, que faz, paralelamente carreira na política, enriqueceu à custa do suor dos seus trabalhadores e não pretende terminar este ciclo de exploração – mas a vida termina por ele, fazendo com que faleça, idoso e sovina.

A reviravolta inesperada na cidade acontece com a herdeira, uma jovem com problemas físicos, que resolve tomar as rédeas da situação. Se os administradores da fábrica esperavam uma jovem fraca e idiota, rapidamente percebem que a jovem tem um temperamento tão forte quanto o do velhote, e intenções bastante diferentes, dando poder aos trabalhadores e iniciando os planos para a construção de uma cidade futurista e utópica – mas também aborrecida e desoladora.

A história, de tom inicial cinzento, lentamente transforma a cidade numa utopia materializada – mas e se aquilo que desejamos realmente se concretizasse? Quão aborrecida seria a vida sem objectivos? Na prática é isso que ocorre para alguns, agora sem objectivos de melhoria de vida numa cidade que, simultaneamente, é um sonho e uma prisão. À semelhança da história os desenhos de Bilal são, inicialmente mais comedidos e cinzentos, podendo dar asas à imaginação apenas na última parte deste volume.

 

 

Novidade: Colecção Spirou

A Asa lança, em parceria com o jornal Público, uma colecção de Spirou! Para quem não conhece trata-se de uma série clássica de banda desenhada de aventuras em que Spirou e Fantásio percorrem mundo enquanto combatem malfeitores, fazem reportagens e descobertas.

Para as crianças esta coleção apresenta aventuras fantásticas. Para os adultos, humor inteligente. Para todos, um clássico sempre jovem – e para muitos, um dos vértices da “Sagrada Trindade” da BD franco-belga clássica, a par de Tintin e Astérix. Junte-se numa viagem pelo mundo à boleia das aventuras de Spirou, do seu amigo inseparável Fan tásio e do esquilo Spip.

Esta coleção, que resulta da parceria ASA/Público é composta por 11 volumes, alguns duplos e outros com várias histórias, e integra todas as aventuras de Spirou e Fantásio da autoria de Franquin, proporcionando assim uma compilação inédita em português.

Eis os volumes que compõem esta colecção:

  1. O Feiticeiro de Champignac / Spirou e os Herdeiros
  2. Os Ladrões do Marsupilami / O Chifre do Rinoceronte
  3. O Ditador e o Cogumelo / A Máscara Misteriosa
  4. O Refúgio da Moreia / Os Piratas do Silêncio
  5. O Gorila e Outras Aventuras
  6. O Dinossauro Congelado e Outras Aventuras
  7. Z de Zorglub / A Sombra do Z
  8. QRN sobre Bretzelburgo / Sarilhos em Champignac
  9. A Herança e Outras Aventuras (*)
  10. Os Chapéus Pretos e Outras Aventuras
  11. Os Elefantes Sagrados e Outras Aventuras(*)

(*) segundo a editora estes volumes incluem histórias inéditas em Portugal

 

Resumo de leituras: Abril de 2019 (2)

 

29 – O outro lado de Z – Nuno Duarte e Mosi – Nuno Duarte volta à banda desenhada com traço de uma nova autora nacional, Mosi, numa história fantástica onde a monotomia do real é quebrada, e as personagens (trabalhadores de call center) que levam vidas cinzentas, são empurradas para melhores existências ;

30 – Isola – Vol.1 – Brenden Fletcher, Karl Kerschl, Masassyk – Visualmente interessante, este primeiro volume denota alguns elementos narrativos que precisavam de ter sido melhor polidos. Existe, desde a primeira página, um sentido de urgência que, sem elementos suficientes, torna difícil ao leitor sentir-se cativado pela história. Percebemos apenas que a rainha foi transformada num tigre e que uma soldado tenta protegê-la e encontrar quem reverta a transformação;

31 – A cidade que não existia – Pierre Christin, Enki Bilal – A história começa como um usual confronto de classes numa cidade à beira do colapso. O homem rico que comandava a cidade morre no meio de uma série de greves laborais – os trabalhadores, contagiados pelo espírito político, pretendem ganhar mão no seu próprio destino e uma percela na fábrica em que trabalham, compreendendo que não existem, ali, outras formas de subsistirem;

32 – Filhos do Rato – Luís Zhang e Fábio Veras – A par com a guerra os soldados descrevem outros cenários nojentos e horríveis, talvez como forma de se afastarem dos horrores que vivem diariamente numa guerra particularmente violenta do ponto de vista psicológico. As facções políticas oscilam, bem como os lados das batalhas e o resultado é brutal.

Assim foi: Contacto 2019

O Contacto, organizado pela Imaginauta, começou em 2018 no Palácio Baldaya em Benfica. Dedicado à ficção científica e fantástico, é um evento que se destaca por ter, para além de palestras e um espaço dedicado à literatura, muitas outras actividades apropriadas para todas as idades – lutas de sabres de luz, aulas de magia influenciadas pelo mundo do Harry Potter, exposições, jogos de tabuleiro, steampunk e muito mais.

Lançamentos

A minha perspectiva do evento é mais literária, destacando os eventos de lançamento que foram decorrendo. O primeiro a que assisti foi o lançamento do novo livro em português de Bruno Martins Soares, As Crónicas de Byllard Iddo – um lançamento em que o autor falou do livro e do interesse nos mundos que cria.

Já no Sábado, ainda presenciar um pouco do lançamento do livro de Nuno Duarte, O outro lado de Z, onde o autor Nuno Duarte falou do mundo fantástico de este livro e de outros. Seguiu-se o lançamento da antologia Winepunk onde participei (no lançamento, não na antologia). A antologia destaca-se por ser uma realidade alternativa que tem por base a história de Portugal, mais propriamente o Reino do Norte que, no meio das convulsões, surgiu no Norte de Portugal mas que apenas durou 3 semanas. E se tivesse durado 3 anos? Após ter iniciado o lançamento, o Rogério Ribeiro falou um pouco da forma como geraram a base antes de enviarem o desafio aos autores, Pedro Cipriano falou da produção que se seguiu por parte da editora, e os dois autores presentes (João Barreiros e João Ventura) falaram do seu processo criativo neste mundo fictício.

O último lançamento a que pude assistir foi o lançamento de Amadis de Gaula por Nuno Júdice, em que o autor falou da incerteza da autoria do livro, da forma como influenciou e é referido em obras posteriores, mostrando um exemplar com vários séculos de existência.

Banda desenhada

Para além do lançamento de O outro lado de Z, o Contacto reservou espaço na agenda para que pudessemos conhecer um pouco melhor outros autores de banda desenhada, como Joana Afonso, Henrique Gandum, Fábio Veras e Luís Zhang (autores de Filhos do Rato).

Ainda, no Lagar (zona central do edifício) estiveram alguns artistas a projectar enquanto desenhavam: FIL e Miguel Santos (da Associação Tentáculo) bem como Diogo Mané.

Ponto de encontro

Este tipo de eventos fantásticos e de ficção científica costumam ser ponto de encontro entre autores e editores, levando à criação de vários projectos. Neste caso o evento ajudou nestes encontros, disponibilizando uma sala para estes pudessem decorrer de forma mais oficial. Destacam-se dois encontros, um para a geração de um portal português de ficção científica e fantástico e outro para o encontro de autores de ficção científica e fantástico onde vários autores trocaram experiências.

Outros detalhes

Durante o evento decorreu uma taberna medieval e uma feira do livro que apresentava bancas das mais conhecidas editoras de ficção científica e fantástico – desde a Saída de Emergência com a colecção Bang!, à Europa-América com a colecção de livros de bolso de ficção científica, passando pela Imaginauta e pela Editorial Divergência entre outras.

Para além das exposições encontrávamos salas temáticas: Steampunk, Harry Potter e Star Wars, mais voltadas para o público jovem; bem como uma pequena oferta de jogos de tabuleiro.