Resumo de Leituras: Junho de 2017 (1)

69 – Velvet Vol.2 -Brubaker, Eptin e Breitweiser – O segundo volume continua no mesmo registo, apresentando uma espia de grandes capacidades que, por conta do seu papel temporário como secretária, é menosprezada por quem a persegue. Ou será que, finalmente, encontra alguém ao mesmo nível que a consegue capturar?

70 – The Long Way to a small, angry planet – Becky ChambersUma Space Opera leve e divertida que consegue apresentar algumas temas interessantes como a discriminação racial ou a identidade de género apresentando várias sociedades alienígenas possíveis com diferentes modelos;

71 – Retratos de jovens senhoras, cavalheiros e casais – Charles Dickens e Edward Caswall – Como o nome indica este pequeno volume apresenta estereótipos de comportamento em sociedade, principalmente de jovens em idade casadoira ou modelos típicos de casais. .

72 – História do Espelho -Sabine Melchior-Bonnet  Aproveitando o reflexo da imagem humana, este pequeno livro de história apresenta várias perspectivas interessantes, desde económica e social, até religiosa e filosófica.

Destaque: Criminosos do Sexo Vol. 2 Matt Fraction e Chip Zdarsky

O primeiro volume de Criminosos do Sexo apresentou uma premissa interessante, centrada numa capacidade peculiar das personagens principais – a de parar o tempo! Mas apenas quando têm um orgasmo.

Depois de um encontro amoroso em que ambos pensavam estar sozinhos nos seus poderes, a partilha desta possibilidade fez com que ganhassem grande afinidade e objectivos comuns, objectivos que poderão ser mais facilmente atingidos se arranjarem uma forma fácil de ganhar dinheiro.

A série está a ser publicada em Portugal pela Devir.

Deixo-vos a sinopse e uma pequena amostra das páginas interiores, bem como a ligação para o comentário ao primeiro volume:

Suzie, uma bibliotecária e Jon, um ator partilham a mesma habilidade…

À medida que a sua relação evolui, decidem aproveitar este truque para assaltar bancos… mas o que fazer a seguir quando termina a emoção?

 

A Farmer in the Sky – Robert A. Heinlein

O mesmo autor de Stranger in a strange land e The Moon is a Harsh Mistress também precisava de pagar as contas, e este livro é um exemplo disso. Pago para escrever ficção científica mais dinâmica e juvenil, Farmer in the sky apresenta algumas incoerências científicas que visam apresentar uma determinada estratégia de colonização que há-de servir de base para as dificuldades que buscam um paralelismo com colonizações terrestres de novos territórios.

Quando a mãe morre, a relação entre Bill, um jovem rapaz e o pai, aprofunda-se. Talvez por isso não esperava que este voltasse a casar, decidindo mudar-se para Ganimedes para ajudar a formar a nova colónia humana. Depois de um pequeno período de resistência, Bill consegue convencer o pai a ir também, deixando os estudos e tendo como única perspectiva a criação de terreno agrícola e de uma pequena quinta.

Nesta lua de Júpiter encontra-se um escudo que permite manter a atmosfera viável a uma nova colónia. O espaço das naves é escasso. Cada colonizador tem uma carga bastante reduzida que pode levar consigo e é à custa de emagrecer que Bill consegue levar o uniforme de escoteiro.

Depois de uma viagem em que são transportados como gado, o que encontram no destino não é o que lhes foi prometido. Por forma a se manterem não podem dedicar-se todos à criação da quinta, e o pai é obrigado a aceitar um emprego metalúrgico deixando Bill sozinho na tarefa de estabelecer os primeiros campos de cultivo.

Cover of “Farmer in the Sky” by Robert A. Heinlein.
Del Rey Books, first edition, ninth printing, December 1982. ISBN 0-345-30202-8

Como seria de esperar a história é demasiado centrada numa única personagem, jovem, conferindo-lhe excessivo envolvimento em acontecimentos importantes onde desempenha um importante papel. Ainda assim consegue dosear a apresentação das suas capacidades, colocando-o como herói secundário nalgumas intervenções.

Farmer in the sky não é um livro excelente mas é uma história com boa dinâmica que intercala momentos explicativos com momentos de acção, não se coibindo de apresentar os momentos pausados e quase aborrecidos da viagem interplanetária.

Feira do Livro de Lisboa – Sugestões livros do dia – 04/06/2017

Eis algumas sugestões de entre os vários livros do dia de hoje!

Referência ao género distópico, 1984 continua a ser um livro actual, cada vez mais aconselhável, publicado em Portugal pela Antígona, a mesma editora que publicou clássicos do género como Nós de Zamiatine ou Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley.

Oscilando entre os tons sépia e os gradientes de cinzento, na ausência de palavras, as imagens contam uma história de emigração, acompanhando o sacrifício de um homem em deixar a família procurando condições melhores, na esperança de, um dia, os poder trazer. Emigrantes de Shaun Tan é um dos livros mais emotivos do autor e em Portugal foi publicado pela Kalandraka. Para os interessados eis um comentário mais longo ao livro.

Destinado a  um público mais juvenil, Os Livros que Devoraram o meu pai, contém várias referências a personagens ficcionais conhecidas utilizando-as para adicionar camadas de complexidade a uma história relativamente simples. O livro foi publicado pela Editorial Caminho. Para os interessados eis um comentário mais longo.

Utilizando a experiência com a banda desenhada e a frequência do curso de Psicologia Miguel Montenegro criou uma série de tiras cómicas que ironizam as práticas e as teorias da Psicologia. A primeira edição de Psicopatos foi publicada através da própria faculdade que frequentava. Entretanto foram publicados dois volumes pela Arcádia.

Resumo de Leituras: Maio de 2017 (2)

65 – O Incrível Hulk – Part 1 – Greg Pak, Carlo Pagulayan e Aaron Lopresti – O primeiro volume desta aventura coloca o herói num planeta carregado de estranhas espécies alienígenas que farão parte dos mais espectaculares cenários de batalha. A narrativa, apesar de possuir pontos cliché, consegue surpreender nalguns pontos com a progressão no segundo volume;

66 – Monstress – Vol.1 – Marjorie Liu e Sana Takeda – Fascinante, fabuloso, negro e imenso. Assim é o mundo de Monstress, de forte influência oriental onde os gatos possuem um papel preponderante;

67 – Herland – Charlotte Perkins Gilman – Um grupo de exploradores procura uma sociedade composta apenas por mulheres esperando encontrar a mais primitiva das combinações. O que encontra é a irmandade perfeita, evoluída mental e tecnologicamente com uma progressão estável – um choque para estes homens habituados a ver as mulheres como potes, belos, indefesos e utilizáveis;

68 – Apenas um peregrino – Garth Ennis e Carlos Ezquerra – Uma história violenta num mundo pós-apocalítptico carregado de salteadores e monstros, onde um homem, justiceiro, religioso mas obscuro, se coloca como bom samaritano, apesar da sua postura violenta e assustadora.

Destaque: Os Despojados – Ursula K. Le Guin

Ursula K. Le Guin será uma das autoras, senão a, mais influentes da ficção científica, tendo escrito vários clássicos dentro deste género e no fantástico (com a série Terramar). Duas das suas obras mais conhecidas encontram-se no ciclo Hannish, uma série de volumes independentes em que humanos existem em vários planetas distintos, demonstrando padrões evolutivos e estruturas políticas bastante distintas que permitem, à autora, explorar diversos conceitos. Uma destas obras é Os Despojados que terá uma segunda edição em português pela Saída de Emergência, voltando às prateleiras das livrarias em início de Junho:

Em Anarres, um planeta conhecido pelas extensas áreas desérticas e habitado por uma comunidade proletária, vive Shevek, um físico brilhante que acaba de fazer uma descoberta científica que vai revolucionar a civilização interplanetária. No entanto, Shevek cedo se apercebe do ódio e desconfiança que isolam o seu povo do resto do universo, em especial, do planeta gémeo, Urras.

Em Urras, um planeta de recursos abundantes, impera um sistema capitalista que atrai Shevek, decidido a encontrar mais liberdade e tolerância. Mas a sua inocência começa a desaparecer perante a realidade amarga de estar a ser usado como peão num jogo político letal.

Que esperança e idealismo restam a Shevek, aprisionado entre dois mundos incapazes de ultrapassar as diferenças? E ao desafiar ambos os regimes políticos, conseguirá ele abrir caminho para os ventos da mudança?

Resumo de Leituras – Maio de 2017

(já foram lidos há mais tempo, mas só agora tive tempo de actualizar esta rubrica)

61 – Edição Extra – Geral & Derradé – Este volume compila histórias mais antigas de Geral & Derradé, entre as quais algumas que foram publicadas em formato solto em jornais e outras publicações do género. Volume menos coeso que A Demanda do G, apresenta o mesmo espírito cómico, leve e divertido revelando-se, por isso, uma leitura muito agradável;

62 – Coisas de adornar paredes – José Aguiar – Uma história pausada sobre a procura de boas premissas quando a mais óbvia se encontra no quotidiano;

63 – Lovesenda – António de Macedo – Conhecido primeiro como cineasta que chegou a ter um filme seleccionado para o festival de Cannes, tem-se dedicado, nos últimos anos à escrita. Entre ficção científica, histórias mais esotéricas e textos que acompanham o desenvolvimento da fantasia, António de Macedo também produz Fantasia! De realçar que este será, sem dúvida, uma das grandes publicações em Portugal nos últimos anos! Apresentando a Ibéria numa época em que os cavaleiros cristãos co-existiam com a presença moura, Lovesenda contém uma história mítica, mística e extraordinária, contada através de uma escrita pausada e bem tecida;

64 – Hoje acontece-me uma coisa brutal – El Torres e Julián López – Partindo com a premissa usual de herói que surge quase do nada com poderes sobrenaturais que usa para o caminho da justiça, apresenta alguns detalhes narrativos poucos usuais e explora a cidade de Barcelona em páginas de excelente visual.

Babel-17 – Samuel R. Delany

Babel-17 … Ou como a linguagem simultaneamente representa e impõe uma determinada forma de pensar – também poderia ser um bom título para o livro, não fosse demasiado longo. A aprendizagem de uma nova língua é uma boa forma de expandir o cérebro a novos conceitos, transpondo alguns elementos culturais que ajudam a captar diferentes perspectivas e a categorizar a realidade com uma lógica distinta.

É este conceito que Babel-17 explora numa história movimentada de personagens pouco lineares onde se procura a origem de uma nova linguagem que surge associada a vários ataques terroristas. Perceber o que é comunicado é o desafio que uma conhecida linguista fora da estrutura militar abraça, Rydra Wong, fascinada pela complexidade e estrutura própria da linguagem. A par com uma enorme capacidade para apreender idiomas, Rydra parece ter alguma capacidade para ler pensamentos – ou será pura capacidade para percepcionar expressões?

Rydra Wong, a mulher que percebeu que as comunicações não se tratavam de meras cifras mas sim de uma linguagem é, em si, uma personagem com uma história pessoal digna de um livro, tanto pelas suas capacidades mentais que demonstra, como pela desenvoltura nas aventuras mirabolantes e surreais em que se envolve constantemente. Capaz de inspirar fidelidade em quem a segue, reúne uma tripulação peculiar mas competente que acaba por a proteger de influências negativas e inesperadas.

Babel-17 explora vários elementos clássicos da ficção científica como viagens espaciais, relacionamentos pouco convencionais ou a possibilidade de acordar os mortos e levá-los a desempenhar as mesmas funções que tiveram em vida. Mas nenhum destes elementos se compara à apresentação da linguagem como modo de percepcionar o mundo e de impor uma determinada lógica, constituindo, até, um modo de subverter mentes e abrir caminho a novas capacidades.

Babel-17 foi vencedor do prémio Nebula de 1966 conjuntamente com Flowers for Algernon. Engraçado perceber como ambos, apesar de conterem vários elementos de ficção científica tradicional se centram sobretudo no desenvolvimento cerebral.

The Forever War – Joe Haldeman

Primeiro número da mítica colecção de SF Masterworks da Gollancz, The Forever War é um exemplo típico (ou O exemplo) de ficção científica bélica, envolvendo alienígenas, como forma de, num contexto abstracto, criticar a espécie humana e a motivação das guerras que desenvolve.

Se a história começa por nos apresentar uma espécie hostil que terá sido responsável pelo desaparecimento de algumas naves terrestres, cedo apanhamos alguns detalhes que nos fazem questionar a verdadeira origem da guerra e a forma como esta está a ser conduzida. Se a guerra pode ser vista, do ponto de vista económico, como uma força impulsionadora de algumas indústrias (e avanços tecnológicos) verdade é que, pode, também, ser usada como forma de exercer pressão nas sociedades, para apertar os cordões à bolsa ou implementar limitações na liberdade. Aliás, é com o conceito de inimigo comum, vigilante e poderoso que se justificam algumas das mais famosas distopias como 1984 ou Kallocaína.

Aqui, de forma bastante circunstancial, vamos assistir a algo semelhante. Neste caso, aproveitando, não só a guerra mas, também o crescimento absurdo da população humana, todos os bens são racionados, e a maioria das pessoas não possui um emprego. Os restantes conseguem algum dinheiro através da substituição ilegal dos verdadeiros trabalhadores por % bastante menores – na prática os detentores do emprego podem nunca chegar a trabalhar e ainda ganham o suficiente para se manterem.

Mas divago. Esta percepção crítica da sociedade em que alguns se mantém à margem em quintas onde podem viver em paz e produzem os mantimentos para os restantes, que permanecem em cidades decadentes carregadas de violência, é apenas uma pequena parte da história mas que terá um efeito determinante em fazer regressar à guerra, soldados que já estavam fartos de morte e destruição.

One thing we didn’t have to worry about in this war was enemy agents. With a good coat of paint, a Tauran might be able to disguise himself as an ambulatory mushroom. Bound to raise suspicions.

Infelizmente, neste caso, o inimigo existe. Ou é materializado sob a forma de alienígenas, os Tauran. As batalhas decorrem em condições extremas e várias expedições são enviadas para os destruir. Seguimos Mandella, um soldado que consegue sobreviver às duras condições de treino onde padece a maior parte dos colegas, e que faz parte da primeira missão em que se consegue capturar um Tauran. De missão em missão percebe que está cada vez mais isolado e que, apesar de pouco ter envelhecido, a vida passa na Terra. Depois de uma missão catastrófica em que resta ele e uma companheira, tentam regressar às suas respectivas famílias, descobrindo que a sociedade está caótica e que já não têm lugar entre os civis. Qualquer semelhança com a realidade dos soldados que retornam da guerra não é uma coincidência.

Depois de alguns episódios violentos e disruptivos ambos resolvem regressar às missões. Demasiado distantes do inimigo, as viagens provocam discrepâncias temporais na vida dos soldados. Mandella vê-se, assim, no ano de 2458, isolado da sua parceira de guerra e, entretanto, companheira, como um homem adulto incapaz de se adaptar às novidades sociais. É que a homossexualidade passou a ser imposta como forma de controlar a natalidade (que apenas existe por meios artificiais) e Mandella é, na prática, o ser humano com comportamento sexual desviante, visto como uma raridade estranha.

A par com a natalidade artificial existe a selecção e uniformização genética, eliminando diferenças raciais e doenças – ainda que esta selecção possa não ser assim tão vantajosa como poderá parecer à primeira vista. Se ambas podem ser defendidas positivamente como tendo em vista a eliminação do racismo e de efeitos genéticos nefastos (pontos expressos durante a narrativa), a verdade é que, do ponto de vista biológico, a eliminação da variedade, a par com a gestação exterior, pode vir a ter duras consequências futuras pela dependência da tecnologia (algo, também, indiciado levemente ao longo da história).

Back in the twentieh century, they had established to everybody’s satisfaction that “I was just following orders” was an inadequate excuse for inhuman conduct… but what can you do when the orders come from deep down in that puppet master of the unconscious?

(…) I was disgusted with the human race, disgusted with the army and horrified at the prospect of living with myself for another century or so… Well, there was always brainwipe.

Numa sociedade tecnologicamente avançada, como convencer soldados inteligentes a lutar? A ideia de um inimigo não é suficiente. Mesmo tratando-se de seres alienígenas, são humanóides e podem causar empatia. Nada melhor do que uma campanha para distinguir o outro, com recurso a mensagens subliminares onde se relata a violência que terá perpetuado, como forma de incitar respostas selvagens. Mesmo que o cérebro consciente do soldado perceba que estes relatos são impossíveis e irracionais, o que lhe provoca dissonância emocional.

Estes temas não são endereçados directamente. Joe Haldeman usa a vida de Mandella, implementando vários elementos paralelos com os que lutaram no Vietnam, para fazer uma crítica intemporal às motivações políticas e económicas por detrás das guerras, bem como ao condicionamento dos soldados, o valor das suas vidas e o retorno a uma vida civil. Tudo isto enquanto nos apresenta uma narrativa com elementos de tecnologia avançada e se questiona sobre a sua utilização. E é por todas estas razões que este é, sem dúvida, um grande clássico do género.

Mais ficção de Joe Haldeman

Resumo de Leituras – Março de 2017 (2)

57 – O Submarino David – Os Túnicas Azuis – Willy Lambil e Raoul Cauvin – Se num volume anterior assistimos à utilização, na Guerra da Secessão, dos primeiros navios couraçados, neste volume acompanhamos a utilização do CSS David, já considerado um submarino;

58 – Agnar, o Bisavô – A Casta dos Metabarões – Jodorowsky e Gimenez – Este foi lido na biblioteca enquanto aguardava a sessão de lançamento de Lovesenda da autoria de António de Macedo. Este volume continua a apresentar a história dos antepassados do Metabarão demonstrando que se trata de uma linhagem forte que apenas poderia resultar na produção de um super guerreiro;

59 – My work is not yet done – Thomas Ligotti – O conhecido autor de terror apresenta um trio de histórias de terror corporativo onde se apresentam as intensas e corrosivas relações entre chefes de departamento. Nalguns episódios o ar é tão pesado que se apresenta como nevoeiro, impossibilitando o normal andar dos empregados. Claro que sendo Thomas Ligotti não se trata, apenas de terror de ambiente – esperem algumas partes mais gore  brutais com elementos sobrenaturais;

60 – Histórias de outro Mundo – Vários autores  – Antologia de histórias de banda desenhada de ficção científica, possui bons momentos e boas histórias, algumas com pitada de humor e ironia.

Herland – Charlotte Perkins Gilman

A ideia de uma sociedade constituída exclusivamente por mulheres não é nova – tem vários séculos, para não dizer milénios e o mito grego poderá ter ganho força (ou inspiração) num grupo de nómadas iranianos onde se poderiam encontrar mulheres guerreiras.

De forma bastante diferente, mas revolucionária, Herland foi escrito há mais de um século e ninguém o diria se o lê-se sem saber a data de publicação. Não só pela prosa, que é escorregadia, mas sobretudo pelas ideias originais e avançada para a época, onde o contraste de uma sociedade exclusivamente feminina permite vislumbrar pessoas e não géneros, sem condescendências ou agressividades.

Herland começa por nos apresentar um grupo de três exploradores (homens, claro) que parte em busca de um rumor onde se expressa a existência de uma civilização composta apenas por mulheres. A expectativa é baixa. Sem homens decerto que não terão ordem nem ciência. Esperam uma sociedade caótica, desorganizada e fútil, onde as mulheres se sentam a fazer casacos de malha ou a cochichar.

O que encontram não podia ser mais discrepante. Pensando, inicialmente, que existirão homens (escondidos) que justifiquem a civilização que encontram, são capturados por várias senhoras que, educadamente, os mantém em quartos compostos. O dia a dia é passado a aprender a língua desta civilização, mostrando estes homens o quão superior pensam ser.

Apesar da origem comum, os três homens apresentam perspectivas bastante diferentes. O narrador é mais acessível e rapidamente percebe que a civilização que encontrou corrigiu todos os defeitos da sua – sem religião (ou pelo menos num conceito bastante diferente) e sem conflitos, é uma sociedade próspera com capacidade de evolução, em que se concede a liberdade de prosseguir as inclinações de cada indivíduo, deixando o papel da educação aos mais sábios e experientes com uma dissociação lógica entre o papel de progenitora e mãe.

É desta forma que aprende a ser parceiro da mulher que o ensina e a aceitá-la como ser inteligente, capaz e igual, algo que não ocorre com outro dos membros do grupo que conhece apenas a lógica do forçar o género feminino ao interpretar o não como sim obscuro, minimizando o querer individual e mostrando-se como incapaz de percepcionar uma mulher como um indivíduo por si.

Tão interessante quanto a sociedade descrita é a evolução do narrador quando confrontado com as diferenças, inicialmente relutante e céptico em relação à perfeição daquela cultura, mas que, com a constante exploração e confronto de ideias, percebe as diferenças, a igualdade entre os membros daquela irmandade, impossível no mundo de competição e corrupção em que cresce.

Interessante não só pela perspectiva de género mas pela perspectiva de construção social em que, sendo possível a igualdade, é também possível o desenvolvimento individual e a concretização das capacidades de cada um, Herland torna-se uma leitura excepcional por conseguir apresentar todas estas ideias de uma forma estável, coesa e lógica.

The long way to a small angry planet – Becky Chambers

Lançado em 2014, The long way to a small angry planet tem uma história curiosa. O livro foi publicado como edição de autor no seguimento de uma angariação de fundos pela própria autora e viria a ser um daqueles raros casos em que o sucesso levou a nova publicação por uma editora conceituada no meio editorial.

Seguir-se-iam nomeações para o prémio Arthur C. Clarke e para o BSFA e referências sucessivas ao livro como uma Space Opera bem humorada, mas nem por isso menos séria ou interessante, com momentos de tensão e de elevado entendimento da condição humana – por vezes, da condição alienígena – mas acima de tudo do entendimento de diferentes entidades inteligentes com questões culturais próprias.

A história apresenta-nos a tripulação de uma nave mercante que realiza diversas missões por um valor que é distribuído pelos membros. Encontramos a nave no momento em que se preparam para aceitar mais um membro, uma jovem que terá como missão ajudar a lidar com as burocracias e colmatar o entendimento entre diferentes espécies alienígenas.

Desde logo percebemos que esta jovem assume uma identidade falsa, não sob pretextos criminosos, mas como forma de esconder a ligação familiar a outros humanos de índole duvidosa. Claro que não é a única a esconder um segredo. A A.I. da nave desenvolveu uma personalidade muito própria e prepara-se para passar a um corpo humano (algo ilegal) e um dos membros da tripulação tem um caso altamente secreto com uma bela alienígena. Um a um, vamos percebendo a diversidade de personalidades que se encontram a bordo.

Depois de estabelecer o ambiente a bordo, de companheirismo bem humorado e respeitoso, com excepção para alguns membros incapazes de grande socialização, Becky Chambers aproveita a diversidade de espécies alienígenas para confrontar hábitos e costumes, diferentes formas de pensar e de agir, justificando-os à luz de cada cultura sem dissertações exaustivas, mas conferindo uma unicidade a cada elemento que o torna mais compreensível e, consequentemente, possível alvo da empatia do leitor.

Assim se exploram algumas questões de discriminação realçando os hábitos que foram sendo progressivamente assumidos pelos viajantes de vários mundos (como não olhar durante demasiado tempo ou tentar conhecer antecipadamente gestos ou expressões que possam ser ofensivas) ou questões de género.

Cada espécie alienígena possui formas bastante próprias de sociedade e serve como modelo para a exploração de diferentes sexualidades e comunidades, ultrapassando a noção estanque de uma sociedade homogénea e estereotipada – cada um dos elementos carrega a sua própria história para além da sua espécie.

The long way to a small angry planet é um livro divertido. Apesar de não levar o leitor a grandes gargalhadas estabelece um ambiente agradável entre os vários elementos (que são, quase todos, boas pessoas) colocando-os em situações difíceis de confronto moral e ético, nos quais se vão safando de forma oscilante. Não esperem acções heróicas ou respostas lineares. Tratam-se de personagens complexas que apresentam as suas próprias limitações e que irão responder de forma diferente conforme a ocasião.

Sem chegar ao patamar de extraordinário (por vezes alonga-se demasiado em episódios de pouca importância e possui algumas arestas a limar na apresentação de personagens) The long way to a small angry planet é uma excelente leitura que recomendaria, mesmo a quem não costuma ler o género da Space Opera.

Resumo de Leituras – Março de 2017 (1)

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53 – O ouro do Quebeque – Túnicas Azuis – Vol. 10 – Ambos os lados da Guerra enviam um par de soldados disfarçados ao Canada com o intuito de capturarem o ouro acumulado por um garimpeiro. Não esperam é que o guia que arranjam seja pior que eles a orientarem-se nas florestas…;

54 – Louco: Fuga – Rogério Coelho – Visualmente esplendoroso, centra-se no Louco, uma personagem da Turma da Mónica que é conhecido pelos episódios mirabolantes. Aqui mostra algumas das suas aventuras entre mundos, fugindo ao cinzento, e aspirando à liberdade das ideias;

55 – Deadpool – A Guerra de Wade Wilson – Duane Swierczynski e Jason Pearson – Neste volume da colecção da Salvat reúnem-se duas histórias sobre a origem desta personagem contadas pelo próprio, e alteradas para sua própria conveniência consoante a situação. Na primeira faz parte de um plano demente como soldado a soldo, e com a segunda pretende angariar alguém que adapte a sua história para um bom filme;

56 – Through the woods – Emily Carroll – De ambiente negro, este livro reúne várias histórias de horror curtas que terminam, quase todas de forma péssima para as personagens, ou, no mínimo, traumática.

Histórias do outro mundo – vários autores

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Este Histórias do Outro Mundo publicado pela Escorpião Azul reúne várias histórias de ficção científica de premissas e visuais variados, algumas histórias irónicas, outras traumáticas ou pesadas, mas todas numa boa combinação de elementos narrativos e artísticos.

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Histórias de horror perpetuadas por familiares, bases espaciais atacadas em surtos de guerra ou enormes catástrofes apocalípticas – algumas investem em sucessivas reviravoltas narrativas, outras em fortes cenários e episódios de acção. Escolham o que preferem numa história de ficção científica e decerto encontrarão neste conjunto.

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Histórias do Outro Mundo foi publicado pela Escorpião Azul.

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Hoje aconteceu-me uma coisa brutal – El Torres e Julián López

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Hoje aconteceu-me uma coisa brutal foi publicado aquando da Comic Con Portugal de 2016, com a vinda dos autores El Torres e Julián López ao evento. Apesar de ter ficado curiosa só recentemente adquiri o livro e descobri uma história de super-herói com poderes um pouco mais introspectiva do que é habitual e um excelente visual.

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Para além das fortes dor de cabeça, Daniel começa, um dia, a ouvir uma voz feminina – uma voz que só ele é capaz de ouvir. A voz instiga-o a intervir no episódio de violência doméstica que decorre no apartamento ao lado e é assim que descobre uma força sobrenatural aliada a uma elevada capacidade de regeneração.

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A este sucedem-se vários episódios em que se decide a intervir, aproveitando os novos poderes para parar e enfrentar criminosos. Como seria de esperar, existem outros como ele, que, desde logo percebe, terem planos próprios ainda que não encarnem o papel de vilão maléfico.

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Apesar destes elementos com super-poderes diferentes juntarem, por vezes esforços para atingirem objectivos comuns, Daniel percebe, num mau momento, que raramente poderá contar com a imediata ajuda e apoio dos restantes. Qual exactamente o papel de cada um e as suas intenções desconhecemos.

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Com elementos comuns a tantas outras histórias semelhantes (o acolhimento alegre e desprendido dos amigos quando descobrem as capacidades de Daniel, a existência de outros, a utilização imediata dos poderes para o bem) e de não conseguir concretizar, na totalidade deste volume, o potencial possível, Hoje aconteceu-me uma coisa brutal tem, também, um desenvolvimento cliché, quase genérico, com a desilusão nos outros elementos com super-poderes e o afastamento necessário de quem se gosta para não os por em perigo.

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No final existem alguns episódios que fogem um pouco à linha narrativa habitual, não se revelando todos os segredos deste mundo e mostrando que o herói central pode escolher o seu próprio percurso afastando-se do que é imediatamente esperado dele.

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Apesar dos elementos conhecidos que são desenvolvidos ao longo da história, a leitura de Hoje aconteceu-me uma coisa brutal vale bastante pelo visual, de fortes contrastes onde se explora, como cenário, a cidade de Barcelona.

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Hoje aconteceu-me uma coisa brutal foi publicado pela Comic Con Portugal.

Drifter – Vol.2 – Ivan Brandon e Nic Klein

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O segundo volume de Drifter continua a linha do primeiro – visual brutal e história misteriosa onde vamos encontrando pistas do que originou as aparentes quebras na linearidade temporal percepcionada, tanto pelas personagens como pelo leitor.

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Passo a explicar. A história começa com um homem a ser salvo de estranhos alienígenas. A percepção que tem é de que a nave onde viajava acabou de se despenhar. Para os que o salvaram, a nave despenhou-se há muito, criando uma pequena confusão na mente deste homem que se refugia na violência como forma de apagar o forte sentimento de impotência.

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Paralelamente vamos assistindo a vários episódios, envolvendo outras personagens,  episódios que visualizamos com pouco contexto, como se, também nós, tivéssemos acabado de chegar e desconhecêssemos este mundo e esta sociedade. Percebemos que os alienígenas funcionam em comunidade entre eles, com uma perspectiva muito própria sobre o que é justiça e regras de convivência, constituindo personagens arrepiantes, pela incapacidade que sentimos em as compreender.

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Misterioso, deixando pequenas pistas ao longo da narrativa saltitante, Drifter é uma leitura desafiante que nos leva a construir um puzzle entre elementos estranhos e pouco lineares, onde os relacionamentos não são óbvios e os acontecimentos não ocorrem de forma sequencial.

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Resumo de Leituras – Fevereiro de 2017 (7)

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49 – Terra de Sonhos – Jiro Taniguchi – Este volume reúne duas histórias bastante distintas, uma primeira, mais longa em que assistimos aos últimos dias de um cão, um animal doméstico muito bem tratado que aguenta o sofrimento da velhice por longos dias, a que se segue a adopção de uma gata prenha que vem preencher o espaço deixado. A segunda é uma história sobre a exploração e o ultrapassar de barreiras físicas e mentais;

50 – Black Face – Túnicas azuis Vol. 9Willy Lambil e Raoul Cauvin – A série continua a explorar a guerra da Secessão aproveitando, neste caso, para explorar o tema da escravatura, um pretexto para fazer uma guerra de ambição e de busca por lucros, que pouco tem a ver com o trabalho escravo;

51 – Histórias de Vigaristas e canalhasOrganizada por George R. R. Martin e Gardner Dozois, a antologia reúne várias histórias fantásticas protagonizadas por vilões em diversos cenários e premissas mirabolantes e imaginativas;

52 – Drifter – Vol.2 – Ivan Brandon e Nick Klein – Tal como no primeiro, a história não é linear e directa. Vamos observando o desenrolar de acontecimentos como meros espectadores, com pouco enquadramento ou compreensão e temos de ir construindo a história, com pistas espalhadas ao longo das várias narrativas.

Destaque: Novas edições

Não são só os novos livros que devem ser destacados, mas também aqueles que se recuperam no mercado para não caírem em esquecimento. Eis alguns que serão lançados novamente nos próximos tempos:

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Um dos grandes livros de Italo Calvino, As Cidades Invisíveis, terá nova edição na colecção RTP, em capa dura e preço acessível. Este clássico da literatura fantástica apresenta várias cidades ficcionais descritas por Marco Polo ao Imperador Kublai Khan. Nomeado para o prémio Nebula, o livro já serviu de inspiração para uma Opera. Eis a sinopse:

A este imperador melancólico, que percebeu que o seu poder ilimitado conta pouco num mundo que caminha em direção à ruína, um viajante visionário fala de cidades impossíveis, por exemplo, uma cidade microscópica que se expande, se expande até que termina formada por muitas cidades concêntricas em expansão, uma cidade teia de aranha suspensa sobre um abismo, ou uma cidade bidimensional como Moriana. […] Creio que o livro não evoca apenas uma ideia atemporal de cidade, mas que desenvolve, ora implícita ora explicitamente, uma discussão sobre a cidade moderna. […] Penso ter escrito algo como um último poema de amor às cidades, quando é cada vez mais difícil vivê-las como cidades.» Italo Calvino «Ao projetar a sua própria voz nos relatos de cidades que pontuam o diálogo entre Marco Polo e Kublai Kan, Calvino reencontra essa capacidade dos antigos construtores de fábulas, e sabe transmitir o prazer que aquele que conta tem de suscitar no ouvinte, que é o próprio leitor.» Nuno Júdice Prefaciado por Nuno Júdice.

prestigio

Adaptado para cinema, O Prestígio é a história fantástica da rivalidade tempestuosa entre dois mágicos:

Uma história de segredos obsessivos e curiosidades insaciáveis. Londres, 1878. Dois jovens mágicos cruzam caminhos enquanto actuam em luxuosas salas de espectáculo vitorianas. E cedo nasce um feudo cruel que irá assombrar as suas vidas, levadas ao extremo pelo mistério de uma espantosa ilusão que ambos fazem em palco. A rivalidade instiga-os a atingir o pico das respectivas carreiras, mas com consequências terríveis. Na busca de um truque que conduza à ruína do rival, escolhem o caminho da ciência mais negra. O sangue será derramado, mas não será suficiente. No fim, o legado dos mágicos irá passar para as futuras gerações e serão os descendentes a ter de desvendar a teia de loucura que envolve estranhos actos de magia…

loki

Publicado há algum tempo no mercado português, retorna pela G Floy:

Há dois lados para cada história, e agora chegou a altura de ouvir o lado de Loki: o filho preterido de Odin vai contar a história toda do seu ponto de vista, a sua sede insaciável de poder, os seus sentimentos ambíguos para com Sif, a sua antipatia para com Balder, e o seu imenso ressentimento contra o seu irmão mais velho, Thor. Com a excepcional arte de Esad Ribic, um dos maiores artistas da Marvel, e argumento do romancista Robert Rodi, esta história auto-contida vai mostrar-nos Asgard como nunca a tínhamos visto! Loki tornou-se finalmente soberano de Asgard, e Odin foi colocado a ferros, tal como todos aqueles que batalharam em seu nome. No entanto, Loki vê-se cercado de antigos aliados e interesses vários, todos em busca de recompensa pela ajuda prestada na sua ascensão. E Hela, deusa do Reino dos Mortos, empurra-o para completar o seu triunfo com a execução de Thor. Loki terá de ponderar se a sua existência fará algum sentido sem o seu meio-irmão…

Sobre Loki deixo-vos, também, algumas páginas disponibilizadas pela editora:

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