Resumo de Leituras – Dezembro de 2018 (1)

 

204 – Princípio de Karenina – Afonso Cruz – Com menos elementos fantásticos do que é usual em Afonso Cruz, Princípio de Karenina é, também, o seu livro mais linear, contendo uma história contada pela primeira pessoa, um homem que conta a sua vida à filha, sob a forma de carta, mostrando como alguém pode viver toda a vida com medo do exterior;

205 – O Comboio dos Órfãos – Tomo 2Philippe Charlot e Xavier Fourquemin – Cada volume contém duas histórias. Neste segundo tomo detalha-se a vida de Lisa e Joey, mostrando como os interesses de quem adoptou as crianças nem sempre eram os melhores. Ambos fogem das suas novas famílias adoptivas em busca do irmão perdido de Joey;

206 – Injection Vol.1Ellis, Shalvey e Bellaire – A existir uma inteligência artificial, porque pensaria como nós? Na realidade descrita em Injection o mundo das lendas cruza-se com o real criando zonas de circulação impossível. Enquanto alguns tentam terminar com estes pesadelos vivos, outros tentam afastar-se das obrigações que os esperam;

207 – Os segredos de Loulé – João Miguel Lameiras e João Ramalho-Santos – Num futuro distante a humanidade regressa ao planeta Terra para pesquisar sobre o seu passado. Ao regressar encontra um arquivista que se mantém vivo após séculos, graças a elevada tecnologia, e que conta a história de Loulé ao longo dos séculos.

Watchers – Luís Louro

Na realidade futura apresentada em Watchers um grupo de jovens (Watchers) usa a tecnologia para criar canais que expõem o mundo que os rodeia. Sem filtros, sem análises nem contextos, as filmagens são divulgadas para todos os que as quiserem ver. Começando com episódios fofinhos e caricatos, a busca de mais seguidores e de mais reacções nas redes sociais depressa leva a que sejam filmadas situações mais inusitadas, ridículas, perigosas e violentas.

Sentinel é um dos mais conhecidos Watcher – um jovem anónimo, sem rosto, que consegue captar os episódios mais curiosos e mais populares. Mas a que custo? Sentinel não se remete apenas ao papel de observador e a vontade de aumentar a sua populariedade leva-o a provocar situações de conflito com as quais alimenta o seu canal.

De interferir a provocar, Sentinel passa a tentar exercer justiça pelas próprias mãos, mostrando-se como uma espécie de justiceiro, omnipotente, que tudo vê e tudo pode fazer. Mas não por muito tempo. As suas intervenções já provocaram o envolvimento da polícia, e pouco falta para ser descoberto.

Watchers, de Luís Louro, permite muitas leituras. Primeiro, o mundo futurista que retrata é tão deprimente quanto o nosso, carregado de jovens sem futuro ou sem destino, que não sabem o que fazer da sua vida e como ultrapassar as contrariedades com que se deparam. Por outro, trata-se de uma crítica à sociedade actual, que se centra, excessivamente, nas redes sociais, e para as quais se projecta uma realidade e para a qual se criam expectativas.

 

Em busca de comentários, aceitação e atenção, há quem perca a noção do que é certo e errado, e exponha a privacidade – a sua e a dos outros. Por outro lado, a possibilidade de ter um feedback imediato leva ao à divulgação, sem filtros nem contexto, de notícias e interacções, por uma única perspectiva, viciada. As notícias passam de informação imparcial a pedaços de novelas quotidianas, cedendo-se aos desejos mais primitivos de sexo e sangue.

Sentinel produz, na prática, um misto de reality show e programa noticioso, elevando o seu canal a milhares de visualizações. Mas a que custo? Até que ponto o que retrata é real ou provocado? Da mesma forma, se pode transpor esta crítica para o que vemos nas redes sociais – divulgações de perspectivas viciadas, notícias que misturam a verdade com o ficcional, desinformando ao invés de informar. Watchers leva esta escala esta componente, levando-a ao extremo, num enredo bem composto, contínuo,  lógico e coerente.

Watchers foi publicado em Portugal pela Editora Asa e possui duas versões, uma com título a branco e outra com título a vermelho, duas versões que apresentam finais diferentes. A edição que li e comentei é a vermelha. De realçar, também, que a par com as notícias de Sentinel são apresentados alguns comentários dos seguidores, sendo que alguns dos seguidores ficcionais possuem nomes associados a personalidades reais da banda desenhada.

Almanaque – Curtas de BD – André Oliveira e Vários Artistas

Almanaque, a mais recente aposta da Bicho Carpinteiro, reúne várias histórias criadas por André Oliveira na qualidade de narrador, e por vários desenhadores. Algumas destas histórias foram criadas para a Cais, publicação para a qual André Oliveira produziu regularmente durante algum tempo, e outras são inéditas.

Tendo sido criadas em alturas diferentes com objectivos distintos, as histórias oscilam em temas e tons criando uma amostra bastante diversa das possibilidades narrativas compostas por André Oliveira. O volume abre com a arte de André Diniz, e passa à de Rui Lacas (ambas facilmente reconhecíveis em estilo), seguindo-se uma reformulação moderna de Volta ao Mundo em 80 dias (com desenhos de Phermad).

Entre as histórias encontramos narrativas de ficção científica (com uma invasão alienígena que critica a paixão dos humanos pelos desportos, ou com um primeiro contacto embaraçoso), narrativas cómicas (onde se retratam as impossibilidades de execução de várias tarefas por um T-Rex ou um dentes de sabre, por exemplo) e de fantasia (com velhos e novos deuses).

Não faltam os temas mais mundanos, como a diversidade da vizinhança, a fanfarronice ou a velhice. Existe espaço para a morte e para a saudade, para a confidência e para a família. Explora-se a cidade e o campo. O passado e o futuro. Cruzam-se conceitos e ideias, ironiza-se em tiradas imaginativas, recolhe-se o pensamento em perspectivas mais íntimas.

Tudo isto, em pouco mais de 60 páginas, muito bem aproveitadas, em que André Oliveira explora vários tons e temas, acompanhado por diversos artistas que ajudam a conferir, a cada história, uma aura muito própria. Tal como estados de espírito, estas histórias oscilam e fazem oscilar humores, aconselhando-se, por isso, que a sua leitura se faça aos solavancos. Uma história de cada vez.

Entrevista com André Oliveira

Outras obras do autor

O Feminino no Fantástico

Antologia de contos de ficção científica e fantástico onde o corpo da mulher tem papel fundamental

Desde o passado Fórum Bang! (no qual participei, com a Inês Botelho, numa palestra sobre a mulher na ficção especulativa) que ando com vontade de espelhar alguns pensamentos na forma escrita. Sim, a representação da mulher tem-se alterado nos últimos anos. Porquê? Será a moda do politicamente correcto? Bem, mais do que uma moda, a minha percepção é que resulta da pressão do próprio público, farto do mesmo.

 

 

 

 

 

 

 

Porque digo isto? Bem, dou-vos como exemplo bastante óbvio as nomeações para os prémios Hugo. Para quem não está a par, aqui há uns anos surgiu um grupo de escritores de ficção científica revoltado com o afastamento dos protagonistas ou escritores tradicionais, brancos hetero. Estavam a ser nomeados, e premiados, sucessivamente, autores diferentes deste padrão original.

 

 

 

 

 

 

 

Este grupo de autores, designado como Sad Puppies, não só fizeram campanha pela ficção científica de homens para homens (ocidentais e hetero, claro) como tentaram concentrar votos em obras específicas. O resultado? Conseguiram algumas nomeações mas não o prémio, existindo algumas categorias em que o resultado foi até “sem premiado”. Pelo meio ainda houve uma nomeação curiosa a Chuck Tingle, um autor de pornografia homossexual de ficção científica, que aproveitou para parodiar o destaque, numa obra curiosa.

 

 

 

 

 

 

 

Bem, julgo que a resposta do público a este movimento demonstra que a verdadeira pressão sobre a indústria literária não é tanto pelo politicamente correcto, mas pela vontade, do público, em ver diversidade nas personagens, e ler obras que representem pessoas e não os típicos estereotipos de heróis, há muito ultrapassados. Personagens que se parecem com pessoas, densas, variáveis e, sobretudo, representativas da realidade que nos rodeia. Representativas da diversidade.

 

 

 

 

 

 

 

Não estou a falar, portanto, só de uma representação diferente do feminino, mas, também, uma diferente representação do masculino. Trata-se de criar histórias mais equilibradas em termos de papéis – nem as personagens femininas têm de ser ridiculamente fortes e destemidas para poderem ser protagonistas, abdicando de sentimentos para poderem ser tomadas a serio; nem as personagens masculinas têm de ser a personificação da certeza e da autoridade, podendo ser apenas pessoas com as suas dúvidas, incertezas e sentimentos.

 

 

 

 

 

 

 

Claro, que na componente feminina, outras questões de levantam. O uso do corpo como elemento para apimentar uma história (neste detalhe já existem exemplos que usam o corpo feminino e masculino) ou o consentimento no uso desse corpo. Não é, totalmente de estranhar que as histórias tradicionais, como as da Disney, os contos de fadas (sobretudo as mais recentes versões Disney), de princesas indefesas e passivas, tenham de ser revistos. Habituámo-nos a aceitar, sem questionar, os papéis que são concedidos às mulheres.

 

 

 

 

 

 

 

Detalhando. Se pensarmos bem, que tipo de homem encontra uma mulher, morta ou inconsciente, no meio de uma floresta e a beija? Que papel tem a mulher na escolha do seu parceiro , se se pressupõe que o príncipe que a salva a possui – sem se conhecerem previamente, a princesa passa de cativeiro a cativeiro. Numa gaiola dourada, claro. Mas nem por isso menos questionável. Que tipo de mensagem passa uma história onde um príncipe não reconhece a mulher pela qual se apaixonou e a procura pela medida de um sapato?

 

 

 

 

 

 

 

Sim, estas histórias reflectem a época em que foram construídas. Mas pouca ou nada se tem feito para as adaptar à realidade que nos rodeia. Quantas características ditas femininas não resultarão das expectativas que nos rodeiam? E o mesmo se pode dizer dos rapazes que não podem expressar sensibilidade ou sentimentos sem serem gozados. As personagens têm de evoluir – e não só as femininas. Deixo-vos com esta provocação. E, espero, algo para pensar. E debater.

Resumo de leituras – Novembro de 2018 (3)

200 – Tudo isto existe – João Ventura – Colectânea de histórias de João Ventura que espelha a diversidade de projectos em que se envolve, contendo histórias de fantasia e de ficção científica, jogos de palavras e de ideias que ecoam elementos quotidianos;

201 – Almanaque – Curtas de BD – André Oliveira e vários desenhadores – Conjunto de histórias em que André Oliveira é o narrador e os desenhadores são diversos, cada um com um estilo que se adequa bem a cada história. Como sempre, um bom trabalho de André Oliveira que aqui demonstra histórias tão diversas quanto os estados de espírito;

202 – Marcha para a Morte – Shigeru Mizuki – Estamos habituados a ver a segunda guerra mundial pela perspectiva ocidental. Neste caso acompanhamos a perspectiva japonesa de acordo com o próprio autor, que, parcialmente, narra a sua própria experiência. Demonstrando os elementos idiotas da chefia e como esta se encontrava desorganizada e agarrada a valores que estrategicamente não funcionam, Marcha para a Morte consegue a proeza de intercalar a morte com elementos cómicos e absurdos;

203 – Revival – Volume 2 – O segundo volume adensa o mistério em torno da cidade em que ninguém morre, demonstrando haver outros elementos sobrenaturais em causa. O volume termina com uma pequena história que cruza este Universo com o de Tony Chu, aproveitando os poderes deste investigador para resolver um importante caso na cidade.

Ficção especulativa – Novidades

Depois de muito aconselhar Dormir com Lisboa de Fausta Cardoso Pereira, é a vez de Rui Zink  em O Gosto dos Outros. O Gosto dos outros que decorreu na Gulbenkian e deu espaço a que várias personalidades discutissem as suas listas de gostos para inspiração, provocação e discussão.

Estão abertas as submissões para Antologia Queer, uma antologia com pessoas queer em diversos papéis mas que sejam mais do que ícones, pessoas que ultrapassem estereotipos e que possam ser apenas pessoas. Quer dizer, personagens. Interessados? A Antologia Queer está a ser organizada pela Imaginauta.

Mensageiros das Estrelas está de volta! Trata-se de um evento académico que decorre na Facultade de Letras da Universidade de Lisboa e que se dedica à ficção especulativa, trazendo alguns autores conhecidos de ficção científica ou fantástico (como Geoff Ryman). Este ano o autor convidado é Mike Carey que dará uma palestra no dia 30. Para mais informação sobre o evento podem consultar a página respectiva.

Tudo isto existe – João Ventura

João Ventura tem sido um dos prolíferos autores da ficção especulativa portuguesa (ficção científica e fantasia) produzindo com regularidade histórias para várias antologias portuguesas e, até, brasileiras. Entre o realismo mágico com toques de absurdo, ficção científica (incluindo o steampunk) e a fantasia “a sério” João Ventura é um autor consistente na qualidade que entrega e que publicou, agora, esta colectânea de histórias pela Editorial Divergência.

Dada a diversidade de histórias pela qual é conhecido, não é de estranhar, que esta colectânea a espelhe, contendo quatro diferentes secções: Curtas, Tudo isto existe, Fábulas académicas e Hiper-curtas. Esta separação pouco tem a ver com os vários géneros e mais com uma tentativa de agrupar, em formatos uma linha que os una.

Pequena peça de teatro apresentada no Fórum Fantástico baseada num conto de João Ventura que se encontra nesta colectânea

Na sinopse vemos a comparação a alguns autores como Borges, Calvino ou Córtazar, autores conhecidos pelos jogos de palavras e de ideias. A razão da comparação é justificada logo no primeiro conto, Crónica breve das 64 casas, uma história curta que aproveita o tabuleiro de xadrez para tecer uma pequena mas irónica subversão política.

Entre as vírgulas de Saramago e a vergonha perdida que não se encontra nos perdidos e achados, encontramos A tertúlia dos que não viajam, onde vários dos membros se reúnem para falar das viagens que nunca quererão fazer falando das cidades que nunca hão-de visitar. Com pequenos toques em Turing, pedras falantes e fados, vão-se desenrolando mais histórias curtas.

Apresentação do livro por João Ventura e dos editores Pedro Cipriano e Rogério Ribeiro. A apresentação decorreu no Fórum Fantástico 2018

As referências que deixei acima são apenas uma pequena parte dos contos carregados de imaginação de João Ventura, contos que podem pegar em elementos triviais do quotidiano e os apresentam sob nova luz, jogando com palavras e conceitos, dando vida ao inimaginável. São, sobretudo, histórias curtas de composição elegante que usam o mínimo de palavras, numa optimização refrescante que levam o leitor a estar atento a cada passagem.

Várias destas histórias curtas encontram-se também na página do autor Das Palavras o Espaço. A coletânea Tudo Isto Existe foi publicada pela Editorial Divergência.

Resumo de Leituras – Novembro de 2018 (2)

 

196 – Andromeda – A house on the horizon – Zé Burnay – Cativa pelo visual, de desenhos a preto e branco cujo detalhe das texturas confere toda a cor necessária e apresenta uma história com traços apocalípticos e elementos míticos;

197 – Histórias de livros perdidos – Giorgio Van Straten – Livro curto, é composto por pequenos capítulos em torno de livros desaparecidos e respectivos autores. Os motivos pelos quais mais ninguém poderá ler estes livros são diversos – queimados pelos seus autores, roubados ou desaparecidos com a morte do autor; os casos são diversos! Uma óptima leitura que sabe a pouco!

198 – Watchers – Luís Louro – O livro tem duas versões sendo que a minha é a vermelha. Trata-se de uma sátira aos tempos actuais, com a construção de ídolos, o seguir de personalidades de objectivos desconhecidos na internet, e o imediatismo nas notícias que deixam de ter carácter informativo e passam a forneceder momentos de choque e emoção a quem as lê / vê. De realçar os múltiplos detalhes no texto e no desenho que hei-de detalhar em entrada própria;

199 – O Resto é paisagem – Antologia organizada por Luís Filipe Silva que reúne várias histórias de teor fantástico que aproveitam a paisagem rural como palco. Nas histórias encontramos toques de lendas locais e superstições, elementos sobrenaturais e naturais! Trata-se de um conjunto de histórias diverso que tem como objectivo entreter o leitor.

Novidade: Wolverine Arma X Vol.1 – Jason Aaron e Ron Garney

A G Floy anuncia novo livro de Wolverine!

Há muitos anos, Wolverine foi submetido a uma série de experiências pelo Programa Arma X, uma misteriosa organização militar do governo. Com o objectivo de criar a arma viva perfeita, os cientistas cobriram o seu esqueleto e as suas garras com adamantium, um metal inquebrável que é o complemento perfeito para o factor de cura mutante que ele possui. Wolverine acreditava que tudo isso estava no passado, e que ele podia esquecer esses tempos…

 

Mas agora, Wolverine vai descobrir que as experiências que foram aperfeiçoadas no seu corpo estão de novo a ser feitas, desta vez por uma empresa privada, para criar um exército mercenário perfeito e imparável. Conseguirá ele enfrentar um grupo de soldados implacáveis e psicopáticos – e pior, soldados que possuem os mesmos poderes e habilidades que ele? Preparem-se para uma das mais tremendas e furiosas batalhas de sempre!

 

Jason Aaron é um dos mais aclamados escritores de comics actuais (Thor, Scalped, Southern Bastards), e Wolverine Arma X foi a primeira série em continuação que escreveu para a Marvel, e, juntamente com Scalped, uma das que lhe granjeou maior sucesso. Foi também nesta história que trabalhou pela primeira vez com Ron Garney, um famoso desenhador de comics de super-heróis, uma colaboração que foram continuando ao longo dos anos seguintes, pelo gosto que têm em trabalhar juntos. Isso ocorreu, p.ex. numa parte da primeira fase de Thor que Aaron escreveu, e mais tarde numa série independente creator-owned que a G. Floy já editou em Portugal, Men of Wrath/Má Raça. Ron Garney é um dos mais míticos artistas de comics, com uma imensa obra na Marvel, de que se destaca uma fase de grande sucesso do Capitão América.

Jason Aaron pensou esta série “Arma X” como uma espécie de Marvel MAX, uma série de histórias talvez um pouco mais violentas do que o costume, e quase completamente separadas do universo Marvel e da sua cronologia regular (mesmo que ocasionalmente apareçam outra personagens). É uma série que é portanto ideal para leitores e fãs dos super-heróis da Marvel mais causais. A série durou 16 números, que a G. Floy irá editar em 3 volumes; os próximos dois volumes sairão ao longo de 2019: Demente da Mente (com arte de Yannick Paquette) e O Amanhã Morre Hoje (com arte de novo por Ron Garney, com uma aparição especial de Esad Ribic).

 

WE3 – Grant Morrison e Frank Quitely

WE3 foi das obras de banda desenhada cuja leitura mais me satisfez nos últimos dias.  Não por ser uma obra introspectiva, mas por estar a precisar de uma leitura carregada de acção, rápida e divertida, mas onde o absurdo ganha forma e nos leva à famosa suspensão da realidade.

A premissa de WE3 é simples, mas carregada de prejuízo – animais foram transformados e adaptados para se tornarem armas perigosas, de grossas armaduras e portadores de grandes e poderosas armas. Estes animais estarão ao controlo do laboratório que os gerou mas quando um político decide terminar o programa (e exterminar os exemplares) alguém solta os animais.

Sucede-se, então, uma perseguição por longos territórios, uma perseguição carregada de máximo prejuízo onde se sucedem os episódios de chacinas perpetuadas pelos animais quando os tentam parar. Os animais procuram, na verdade, uma casa, alguém que cuide deles mas, naquele estado transfordo torna-se difícil encontrar um local onde possam ser aceites.

A descarga de adrenalina que se encontra em WE3 é fortalecida pelo forte desenho e quantidade de perspectivas, trabalhadas intensamente pelos autores. De realçar, também, o detalhe mecanizado dos animais, as estruturas robóticas às quais se ligam e que quase os transformam em monstros – mas quem será o monstro? O animal transformado e capaz de falar, ou os humanos que dele se servem para os seus fins bélicos?

Transformados à medida das necessidades dos humanos, os animais deixam de estar adaptados à natureza – não que deixem de ser capazes de caçar e de se alimentar, mas porque se destacam e diferenciam desta de forma gritante. As suas diferenças transformam-nos em monstros e nem os humanos que os criaram como ferramentas os querem depois de usados.

Movimentado e carregado de violência, mas também possibilitando alguns pensamentos sobre a forma como os humanos usam os animais, WE3 permite uma leitura sem grandes neurónios, mas geradora de grande satisfação para quem gosta de uma boa sucessão de episódios fortes.

WE3 foi publicado na colecção de 25 Anos da Vertigo lançada pela Levoir em parceria com o jornal Público.

Resumo de leituras – Novembro de 2018 (1)

192 – Roughneck – Jeff Lemire – Uma história que decorre numa terra fria e dura, onde os meios de sobrevivência são poucos! O hóquei é uma boa forma de escapar, mas para isso é necessário saber gerir uma carreira no hóquei. Neste caso, o ex-jogador volta ao ciclo de violência do qual tentou fugir, tal como a irmã que foge agora do marido abusador. Uma boa história com o estilo particular de Jeff Lemire;

193 – Essex County – Jeff Lemire – Essex County, escrito antes de Roughneck, apresenta a mesma dura realidade, mas aqui saltanto entre várias gerações de famílias  e mostrando a forma como se entrelaçam os destinos. Excelente;

194 – Livro Sagrado – Santo – Uma sucessão de histórias engraçados que tocam nas criaturas tradicionais portuguesas e em histórias religiosas. Apesar de ter gostado da leitura considero que existem detalhes que carecem de melhor edição;

195 – WE3 – Grant Morrison e Frank Quitey – Uma loucura de adrenalina violenta, em que três animais, transformados em armas, fogem do controlo humano e procuram uma casa.

Eventos: Jantar dos Devoradores de Livros

Decorre na próxima quinta feira, dia 15 de Novembro, mais um jantar de Os Devoradores de Livros que terá como convidado Luís Louro, o autor de banda desenhada que recentemente publicou Watchers, um livro publicado em duas edições, cada uma com o seu final.  Os Devoradores de Livros costumam iniciar-se com uma conversa com o convidado na Livraria Tigre de Papel, prosseguindo-se então para jantar.

Podem consultar mais detalhes sobre o evento na página oficial.

 

 

 

Rascunhos na Voz Online – Miguel Jorge

O convidado desta semana foi Miguel Jorge!

Miguel Jorge, ilustrador que trabalha para várias revistas e jornais, como Correio da manhã ou o Expresso, é, também, autor de banda desenhada. Mais recentemente lançou o projecto Apocryphus, um projecto que envolve vários autores de banda desenhada e que conta já com três volumes, de temas distintos! Miguel Jorge esteve à conversa connosco falando dos desafios enquanto autor de banda desenhada e enquanto editor da Apocryphus.

Ligação para o programa na Mixcloud.

Listagem de programas Rascunhos.

Eventos: Fórum do Futuro – Margaret Atwood

Margaret Atwood estará em Portugal no seguimento do evento Fórum do Futuro para falar sobre a sua obra, numa palestra com o tema Mitos na minha obra, em que rejeita os rótulos que lhe aplicam, como sendo feminista ou de ficção científica. Como leitora de Margaret Atwood reservo-me o direito de considerar The Handmaid’s Tale como ficção científica, mais especificamente distopia, até porque nem toda a ficção científica tem de ter naves e alienígenas, e de colocar os livros ao lado de outros clássicos do género.

Para quem ande no Porto, o evento é gratuito, apesar de ser necessário reservar lugar. Se pretendem mais informações sobre o evento, podem consultar a página oficial.

Eventos: CompeptCon 2018

COMCEPT, Comunidade Céptica Portuguesa, é uma associação sem fins lucrativos que tem como objectivo a promoção da ciência, cepticismo científico e pensamento crítico na sociedade (definição retirada da página da comunidade). Esta comunidade pretende informar de forma isenta, com base em conhecimentos científicos actuais, afastando-se dos argumentos baseados na fé ou no misticismo.

Neste sentido a comunidade tem organizado um evento que pretende promover o seu objectivo, e este ano dedica-se à fronteira entre ciência e ficção científica.

Divulgação de resultados – Na Imensidão do Universo

Foram escolhidos os contos que irão integrar a antologia de Space Opera Na Imensidão do Universo,  organizada pela Editorial Divergência em parceria com o Rascunhos. A antologia irá integrar contos dos autores portugueses escolhidos, bem como autores internacionais. Eis os escolhidos:

  • AMP Rodriguez
  • João Luís Mesquita de Avelar Nobre
  • João Pedro Marques Morgado Ferreira de Oliveira
  • Jorge Borbinha
  • Pedro Lucas Martins
  • Sara de Athouguia Filipe

A antologia está prevista para 2019!

Rascunhos na Voz Online – Pedro Cipriano

O programa desta semana é com Pedro Cipriano! Trata-se do editor da Editorial Divergência (http://divergencia.pt/) e o fundador da Convergência (https://convergencia.com.pt/index.php), duas vertentes que têm marcado a ficção especulativa portuguesa, permitindo a publicação de obras de autores portugueses e a distribuição de obras de vários autores independentes e pequenas editoras. Para além de tudo isto é escritor e falou connosco sobre todas estas vertentes.

Podem ouvir aqui!

Novidade: História de Loulé – João Miguel Lameiras, João Ramalho Santos e André Caetano

O próximo lançamento da G Floy é um volume pouco típico no conjunto de obras que costumam publicar – trata-se de uma colaboração com a Câmara Municipal de Loulé para produzir um livro que, num registo de ficção científica, recua ao passado para contar a história desta cidade algarvia até ao futuro. O livro será lançado durante o Amadora BD, no dia 10 de Novembro (Sábado), pelas 16h30, com a presença dos autores, e também de Sua Exa. o Presidente da Câmara de Loulé, Vítor Aleixo (o lançamento será seguido de uma sessão de autógrafos).

Num futuro imaginado, a Terra está transformada num bloco de gelo e a humanidade partiu para colonizar outros planetas, acabando os seres humanos por esquecer a história e a cultura das terras de onde partiram. Para tentar reconstruir esse passado perdido, várias expedições de Verificadores rumaram à Terra em busca de informação fidedigna. Uma dessas expedições vai investigar a lenda de um mítico arquivo que existiria nas Minas de Sal de Loulé.

Este é o ponto de partida de Os Segredos de Loulé: Uma História em Banda Desenhada, uma viagem pela história de Loulé e a sua região, desde o início do universo até aos nossos dias e ao futuro! Uma abordagem diferente a um género com grande tradição na BD portuguesa, como é a Banda Desenhada histórica, escrita por João Miguel Lameiras e João Ramalho Santos, com arte de André Caetano. Esta edição da Câmara Municipal de Loulé é um marco importante na história da BD no nosso país – e no empenho da Câmara em prol da cultura – por apostar numa história e narrativa menos comuns neste tipo de obra, e num formato mais próximo das melhores edições de BD atuais, permitindo realçar a arte do desenhador e contar uma história com fôlego e duração.

Como refere João Miguel Lameiras: “Este projeto nasceu de um convite do Presidente da Câmara Municipal de Loulé, por sugestão de José Carlos Fernandes – que se não estivesse retirado da BD seria a escolha óbvia e natural para fazer este livro – para fazermos uma história de Loulé em BD. Depois desse convite, contactei logo o João Ramalho Santos, meu parceiro habitual nas ocasionais incursões pela escrita de BD, e ambos pensámos no André Caetano, com quem o João Ramalho já tinha trabalhado em Uma Aventura Estaminal, um livro sobre células estaminais, produzido pelo Centro de Neurociências e distribuído com o jornal Público. O ponto de partida da história nasceu quando um amigo me falou das minas de sal de Loulé e de como locais como esse tinham sido usados nos Estados Unidos para armazenar arquivos.”

Para além da escolha de um registo de ficção científica, nada habitual na BD histórica, o livro Os Segredos de Loulé opta também por se apoiar nos diálogos em vez da narração “em off”, como é costume nas obras desta temática. A exceção, assumida, é a parte dedicada à lenda da moura Cássima, que homenageia a BD histórica clássica e autores como Eduardo Teixeira Coelho e Artur Correia. Para além de incorporar nos desenhos de André Caetano imagens reais de objetos como o Foral de Loulé, ou usar o padrão dos mosaicos encontrados no Cerro da Vila, em Vilamoura, como moldura das páginas dedicadas ao período romano, Os Segredos de Loulé não esquece também as bandas desenhadas que antes dele destacaram a região de Loulé e as suas figuras históricas.

“Uma última palavra aos louletanos: gostaria que os Segredos de Loulé contribuíssem para aumentar o orgulho coletivo e que vos levassem a participar ativamente no desenvolvimento deste belíssimo anfiteatro que se estende da serra ao Oceano Atlântico, para nos ajudar a fazer pulsar a vida e a continuar a escrever esta bela história de Loulé…”

O Presidente da Câmara Municipal de Loulé

Vítor Aleixo

 

 

Resumo de Leituras – Outubro de 2018 (3)

 

184 – Portugal 2055 – Vários autores – Neste livro reúnem-se histórias de vários autores sobre as alterações climáticas – para a exploração deste tema os autores fazem o exercício de prever Portugal no ano de 2055, mostrando as consequências no aumento do nível do mar, ou na alteração do clima (impactos biológicos e climáticos, por exemplo);

185 – Reportagem Especial – Adaptação às alterações climáticas em Portugal – As alterações climáticas que estamos a presenciar provocam graves consequências no que nos rodeia e obriga-nos a adaptar cidades e equipamentos. Este livro pretende mostrar o projecto ClimAdaPT de uma forma simples centrando-se nas consequências das alterações climáticas;

186 – Largo Winch – Vol.1 – Philippe Francq e Jean Van Hamme – Este volume duplo é composto por dois tomos de Largo Winch em que nos é apresentado o herdeiro de uma grande fortuna. Mas trata-se de um herdeiro pouco usual, um rapaz adoptado, criado propositadamente para conseguir assumir as empresas, mas se revela um pouco mais rebelde e menos convencional do que seria de esperar para algúem da sua idade;

187 – Moonshine – Brian Azzarello e Eduardo Risso – Passado no interior americano, durante a época da Lei Seca, apresenta um gangster que pretende iniciar uma relação comercial com um produtor local de bebidas alcóolicas. Mas se o gangster pensa estar habituado à violência, nada o prepara para os clãs familiares daquela zona que não têm receio nem dos polícias nem de outras autoridades. Uma banda desenhada movimentada e violenta, com bons momentos, visualmente caracterizada por sombras.