Descender – Vol.4 – Jeff Lemire e Dustin Nguyen

As primeiras páginas deste quarto volume marcam um regresso em grande com a apresentação de três linhas narrativas em simultâneo, três linhas que atingem picos de tensão e de resolução em simultâneo, dando continuidade a todas as vertentes da história em paralelo e abrindo com força uma das componentes mais movimentadas e surpreendentes da história – uma multiplicidade que não seria possível em nenhum outro meio narrativo.

No primeiro volume referi que esta série parecia o cruzamento de Battlestar Galactica com A.I.. Por um lado temos um Rise of the Machines em que as máquinas, cada vez mais inteligentes e conscientes se revoltam contra quem as trata mal, por outro temos um pequeno robot, Tim, amigável e familiar que é tratado com bondade e que vê os seres humanos com outros olhos.

Aquando da revolta das máquinas, Tim é posto a hibernar e só acorda muitos anos depois sem saber o que aconteceu entretanto. Tendo como único pensamento voltar a encontrar o seu irmão humano, o rapaz com quem partilhava o dia-a-dia, vê-se perseguido por várias fracções, ora pelo seu potencial militar enquanto máquina com uma programação especial, ora pelo seu potencial monetário, para ser vendido às peças por salteadores.

Depois de capturado por militares que, por sua vez, são capturados pelas máquinas revoltadas, Tim descobre que não é o único do seu modelo, um robot capaz de empatia e de mostrar os sentimentos que capta em torno deles. Mas rapidamente descobre que nem todos são como ele quando o seu duplo o tenta matar. A luta termina com uma reviravolta, com Tim a matar o seu duplo e a ficar traumatizado, enquanto consegue escapar com os seus captores humanos.

Enquanto explora um enredo futurista, Descender apresenta várias questões sobre a humanidade das máquinas, levantando a fronteira entre humanos que se transformam em máquinas por substituição de partes humanos em partes mecânicas, e as máquinas que aparentam ter mais consciência que humanos. Máquinas capazes de se defender e de matar, mas, também, capazes de mostrar remorsos e sentimentos próprios de humanos.

Graficamente esplendoroso, Descender apresenta diversos planos fabulosos, com construções esteticamente transcendentes que dão novo folgo à história – uma história com nuances e reviravoltas onde as personagens se mostram pouco lineares e, tal como pessoas normais, mostram divergências entre aquilo que dizem querer e aquilo que inconscientemente pretendem.

Esta fantástica série da Image vai começar a ser publicada em Portugal pela G Floy a partir do próximo Outono!

O entrelaçamento electroquântico de que são feitas as lendas – Rui Bastos

Quem não conhece o Comandante Serralves? Provavelmente demasiados leitores. Comandante Serralves é um projecto lançado pela Imaginauta, um Universo de ficção científica em que vários autores portugueses lançaram contos, reunidos numa antologia denominada de Comandante Serralves. O tom das histórias varia consoante o estilo de cada autor, resultando num conjunto bastante agradável de histórias – uma antologia que é decerto um marco da ficção científica em Portugal nos últimos anos.

Decorrendo no mesmo Universo, este conto traz-nos o surgir da lenda, o homem cuja consciência é transferida de corpo em corpo após a sua morte, custando a consciência de um rebelde por cada morte física do Comandante Serralves. Personagem lendária neste Universo é aqui mostrado como humano, com os seus receios e limitações, que serão ultrapassadas com a ajuda de rebeldes que não são assim tão cooperantes.

Um conto bem tecido com toques cómicos onde não falta o cientista louco que aspira ao impossível. O conto encontra-se disponível no Smashwords.

The Uploaded – Ferrett Steinmetz

Direccionado para um público mais jovem (pelo menos Young Adult) The Uploaded tem uma premissa engraçada que cruza a possibilidade de fazer backup às nossas mentes para uma vivência virtual pós-morte física com elementos de distopia resultando numa história engraçada, mas que se alonga demasiado em determinados episódios sem grande relevância para a globalidade da história.

No mundo aqui descrito os seres humanos descobriram a possibilidade de guardar memórias e personalidade num servidor para assim viverem virtualmente após a morte do corpo. O que pode ser uma perspectiva agradável para os vivos sofre uma reviravolta quando é concedido aos virtuais (os mortos) poder de voto.

Rapidamente os mortos ganham grande influência e peso político mas, esquecidos do que é ter um corpo, os constrangimentos do mundo dos vivos não os afectam. Decorridos alguns anos os vivos são transformados numa espécie de escravos que, para poderem ter direito a esta vivência virtual, devem passar os dias a servir os mortos (ou em profissões que melhorem os servidores). O prémio é a vivência idílica, virtual, carregada de jogos viciantes. O castigo, a morte eterna.

Valorizados pelas possibilidades corporais (físicas) de trabalho, os vivos são desencorajados de perseguir profissões criativas ou inteligentes, até porque dificilmente poderão competir com as décadas de experiência dos mortos.

Quando um rapaz fica orfão e a sua irmã gravemente doente no hospital, começa a aperceber-se que os mortos já não são bem quem eram em vida, mudando drasticamente de prioridades, e que todos os esforços em conseguir uma vivência minimamente confortável à irmã passam por décadas de escravidão. De espírito rebelde e carismático, irá influenciar de forma decisiva a onda de descontentamento que leva a uma pequena guerra.

Sandman Fábulas e Reflexões – Vol.6 – Gaiman et al

Este sexto volume reúne várias histórias pequenas que se centram nos sonhos, mas nem sempre no seu mestre. Depois de uma excelente sinopse de Gene Wolfe (um escritor de renome na ficção especulativa) que, mesmo assim, fica aquém da de Harlan Ellison, surge-nos uma pequena história sobre o medo de cair, o medo de tentar concretizar os nossos sonhos e, nessa tentativa falharmos redondamente. Uma abordagem graficamente estranha que apresenta o ultrapassar desse medo comum.

A história seguinte centra-se em Joshua Norton, auto-proclamado imperador dos EUA no século XIX. Apesar de não ter poder político, a sua influência estendia-se aos que o rodeavam, e a moeda que foi impressa em seu nome era honrada nos estabelecimentos que frequentava. A história, de raízes verdadeiras, é aqui apresentada como tendo tido influência do Sonho. Graficamente mais interessante, é uma história caricata que escorrega para o reino dos sonhos.

Numa pequena aventura assistimos à perseguição de uma cabeça que Johanne Constantine carrega. Entre a imposição do racionalismo que começa a crescer na época e o misticismo que ainda se faz sentir, fora da convenção da religiosidade, a história apresenta a fraqueza, perante a justiça dos de baixo estatuto social, enquanto nos apresenta uma personagem feminina dúbia.

O próximo conto, A caçada traz-nos uma lenda que se entrelaça com a realidade num cenário de floresta. Um jovem deste povo encontra uma velha vendedora de falsidades e fascina-se com a possibilidade de vir a ter uma bela donzela. Depois de uma pequena demanda descobre que nem sempre o que idealizamos é realmente o que queremos.

Entre imperadores romanos que usam o sonho para manipular o futuro e rapazes perdidos no deserto que entram no reino dos sonhos descobrimos A Canção de Orfeu onde assistimos ao casamento rodeado em desgraça, a apresentação de um mito que ajuda a perceber o surgir de algumas figuras sobrenaturais.

Alternando visuais e tons nas diversas histórias, este volume apresenta sobretudo lendas, fábulas e mitos transformados constituindo um conjunto, na sua maioria, pouco centrado em Sonho ou Orfeu, criando um mistério cada vez maior em torno desta personagem sobrenatural.

A série Sandman foi publicada em Portugal pela Levoir.

Resumo de leituras – Agosto de 2017 (2)

109 – City of Blades – Robert Jackson Bennett O segundo livro desta fantásticas trilogia retorna ao mesmo mundo que, durante muitos séculos, este dividido entre duas civilizações, uma baseada nos avanços tecnológicos e outro nos milagres das entidades divinas. As divindades morreram na guerra deixando quem suportavam submissos a outra civilização. No entanto, alguns milagres parecem continuar a ocorrer – será que as divindades retornaram?

110 – Os Vingadores vol.1 – Os sete magníficos / Futuro Perdido – Vários autores – Quando se pensa já não existirem mais equipas de super-heróis surgem duas com os que restam com super poderes, duas bastante diferentes, com segredos e divergências que terão de aprender a ultrapassar. Visualmente bastante bom, este volume é um dos com que a Goody entra no mercado da Marvel;

111 – Velvet Vol.3 – Brubaker e Epting – O terceiro volume fecha uma aventura com esta espia, uma personagem inteligente e sagaz, mas falível que demonstra ter princípios. Deixando o lugar pacífico de secretária investiga a morte suspeita de um colega, descobrindo uma trama maior do que alguma vez poderia ter imaginado;

112 – Sandman Vol.6 – Fórmulas e reflexões O sexto volume apresenta várias histórias, mostrando como surge a entidade sobrenatural e deambulações de várias personagens histórias no mundo dos sonhos.

Valerian – Sonhos Maus / A Cidade das águas movediças – Christin e Mézières

Esta é a obra que se diz, mais ou menos sorrateiramente, ter influenciado a série Star Wars. Existem algumas semelhanças em cenários e situações, mas pessoalmente acho a linha narrativa bastante distinta. Valerian, a personagem principal é um agente que viaja no tempo para salvar o mundo do domínio de um vilão.

Num futuro distante a maioria dos cidadãos vive num estado de sonho constante, uma espécie de paraíso simulado. Neste futuro foram descobertas viagens instantâneas no tempo e no espaço, o que permite o teletransporte para qualquer ponto desejado, ou o descobrir de qualquer século. Valerian é um dos agentes responsáveis por agir em caso de disrupção temporal.

A primeira história leva-nos para a Idade Média, onde um vilão do futuro se fez transportar para, com os segredos de um poderoso mago, aprender a controlar os que os rodeiam. É aqui que Valerian conhece Laureline, a jovem que o irá acompanhar também como agente nas restantes aventuras.

Já a segunda história leva-nos para os anos 80 o que, tendo em consideração que foi escrita em 68, significa que, na época, perspectivava-se o futuro. E este não podia ser mais negro. O nível das águas subiu consideravelmente e a cidade de Nova Iorque encontra-se quase submersa, cada vez mais afundada pelos sucessivos tsunamis. Grupos armados pilham os edifícios e Valerian tem de se esquivar várias vezes para conseguir localizar o verdadeiro vilão do tempo.

De imagens bem detalhadas acompanhadas por longos textos, Valerian é um livro de banda desenhada de aventuras para se saborear. O texto ultrapassa o discurso directo e explicativo, com frases de estrutura mais complexa e elegantemente tecida do que é usual. Conseguindo, até, gozar com alguns estereótipos em relação às mulheres (a personagem feminina não é a “normal” burra que apenas existe pelas curvas) Valerian revela-se uma banda desenhada inteligente mesmo na primeira aventura que é mais simples em estrutura.

A série Valerian está a ser publicada em Portugal pela Asa em parceria com o jornal Público.

Central Station – Lavie Tidhar

A Tel Aviv do futuro é uma cidade sem grande controlo ou regras, onde os seres que por lá andam subsistem com um código próprio, entre a pobreza e os fantasmas de várias guerras. Nem todos são humanos. Alguns são robots ou humanos roboficados que perderam grande parte das suas memórias, outros são inteligências totalmente artificiais sem corpo. Mesmo os humanos possuem capacidade intrínseca de se ligarem aos aparelhos eléctricos que os circundam porque todos vêm com ligações de nascença.

Bem. Nem todos. Um homem não possui essa capacidade e vive diariamente com a barreira da comunicação – é que estas ligações servem, inclusive, para que os humanos comuniquem entre si. Quando se apaixona por uma espécie de Vampiro moderno, uma mulher cujo sistema se encontra infectado por um vírus que suga os dados dos humanos que a circundam, vê-se incapaz de satisfazer essa necessidade que atormenta a mulher como se fosse uma drogada.

Simultaneamente, o primo, médico, retorna a Tel Aviv e encontra a amante com uma rotina muito diferente da de anos anteriores – cuidando de um rapaz prodígio capaz de manipular o tempo e o fluxo de dados que o rodeia. Como ele existem outros, espalhados, pequenos deuses em desenvolvimento, constituindo, talvez, o próximo passo evolutivo dos humanos.

Com pequenos toque de ironia sobre a extensão da tecnologia (que produz elevadores conversadores a que os tripulantes querem escapar, mas não o podem fazer até chegarem ao seu destino) Central Station apresenta seres humanos que se fundiram à tecnologia mas que, ainda assim, continuam humanos – com paixões e receios, com desentendimentos e com o ultrapassar de determinadas barreiras éticas por curiosidade, mas, também, com personagens altruístas.

Ligeiramente caótico e sombrio em atmosfera, Central Station é sobretudo uma história humana num futuro distante em que a tecnologia é extensa mas não apresenta um glamour fascinante, antes uma evolução de possibilidades que nos parecem tão estranhas a nós quanto às personagens que mostram observação e ponderação.

Com diversos prémios e nomeações, Lavie Tidhar há muitos anos que deixou de ser um autor em início de carreira, passando a ser um nome reconhecido no meio sobretudo pelo impulso da ficção especulativa judaica (com a edição de antologias como HebrewPunk, Jews Vs. Zombies, Jews Vs. Aliens). Em Central Station este legado é mais óbvio e mostra uma história totalmente diferente das que já tinha tido oportunidade de ler.

Outras obras do autor

Os Vingadores – Waid, Kubert, Asrar, Duggan e Stegman

Os Vingadores (Os sete magníficos I, Futuro Perdido I) é o primeiro de 10 volumes de Os Vingadores que a Goody vai lançar até início de Dezembro e foi lançado no dia 04 de Agosto.Paralelamente, a Goody também vai lançar, no Universo Marvel uma série de 10 volumes Homem-Aranha, com o primeiro volume, Aprender a escalar, já lançado no dia 28 de Julho.

O volume começa por se centrar no encontro de dois heróis juvenis enquanto combatem um vilão. Paralelamente as empresas Stark foram quase à falência (na sequência da ausência do Homem-de-ferro da Terra durante seis meses) e os super-heróis têm de encontrar novas formas para cooperarem sem magnífica sede Stark.

O vilão neste caso é um alienígena que pretende, claro, dominar a Terra e fazer nome entre os da sua espécie. Ele não terá sido primeiro e não só conta com a ajuda de um humano como com a existência de um artefacto poderoso que o poderá ajudar. Reunindo-se vários super-heróis para enfrentar este vilão, acabam por perceber que poderão ter uma equipa com elementos diferentes do que pensaram inicialmente.

Lançando sementes para várias continuações, tanto pela existência de seres humanos poderosos prontos a ajudar inimigos da Terra, como pela existência de alienígenas conquistadores, como pelo surgir de segredos com graves consequências, este volume promete histórias divertidas com alguma leveza. O final é abrupto mas definitivo.

Terminada esta aventura voltamos aos Vingadores, mas com uma segunda equipa numa história que tem Deadpool como catalizador. Seria impensável que uma personagem como esta pudesse integrar um grupo e cooperar. Mas é o que vai acabar por acontecer sob o comando de um velhote Capitão América.

Estes volumes lançados pela Goody têm capa mole em papel lustrado, sendo que também as páginas são lustradas (mais finas, mas sem deixar transparecer o que se encontra na página oposta). Os volumes de cada série são distribuídos quinzenalmente.

Resumo de leituras – Agosto de 2017 (1)

105 – Southern Bastards – Vol.2 – Jason Aaron e Jason Latour – O segundo volume explora o duro crescimento do vilão da história, um homem que conseguiu ingressar no mundo do futebol americano, mas não na posição nem da forma que sonhava. Revelou-se um homem capaz de dar a volta à situação em que se encontrava mas afunda-se ainda mais no mundo do crime;

106 – Mulher-Hulk – Solteira, verde, perigosa – Dan Slott, Juan Bobillo e Paul Pelletier – eis uma heroína peculiar, com os poderes do primo Hulk, mas com controlo sobre a enorme força que detém quando se transforma. Advogada, mostra uma personalidade mais calma e introspectiva quando mantém a forma humana. Entre o tribunal e as lutas contra vilões, contém uma sucessão de episódios divertidos e leves que distraem o autor;

107 – Batman: uma história verdadeira – Paul Dini e Eduardo Risso – Não, não se trata de uma história do Batman, antes a história de um homem que cresceu a pensar em bonecos animados e que, ao contrário do que lhe diziam os pais, conseguiu fazer carreira disso. Ainda assim sempre foi apoiado pela família, mas a sua motivação foi posta em causa no dia em que foi assaltado e foi confrontado com a dura realidade da violência física;

108 – Capitão América Branco – Jeph Loeb e Tim Sale – o Capitão América teve um ajudante durante a Segunda Guerra Mundial – um ajudante menor o que, nas circunstâncias da Guerra não parecia muito mal, mas com grande maturidade nalguns aspectos. Uma parceria quase perfeita, não fosse o rapaz tão frágil quanto qualquer outro ser humano.

A.D. After Death – Scott Snyder e Jeff Lemire

Conhecido por American Vampire (série com a qual ganhou alguns dos prémios mais interessantes da banda desenhada), Scott Snyder é, também, o autor de Wytches, uma das melhores obras de banda desenhada de horror que tive oportunidade de ler. Por sua vez, Jeff Lemire é o autor da fabulosa série de ficção científica Descender e participa aqui como desenhador no seu estilo inconfundível, tanto a nível de expressividade, como de coloração.

Agora homem feito, a personagem principal é um ladrão profissional, uma profissão menos glamorosa do que seria de esperar, sem grandes episódios de acção, que se baseia, sobretudo, numa boa capacidade de efectuar planos e uma grande lata. Esta profissão valeu-lhe um lugar na cidade do futuro, uma cidade onde não existem doenças ou envelhecimento e se vive para sempre. Utópico? Nem tanto. O preço a pagar é a memória que persiste apenas por pouco mais do que uma década.

Tendo crescido traumatizado pela morte repentina da mãe, vítima de uma doença rápida e progressivamente incapacitante, este homem não cede logo à utopia que lhe apresentam, e continua, inquieto, em busca de algo que possa ter sobrevivido no mundo que circundaria a cidade perfeita. Enquanto os restantes vão vivendo vidas diversas, aproveitando a curta memória que possuem para se reconstruírem, a nossa personagem angustia-se e dedica-se ao que parece ser uma causa perdida.

Explorando uma personagem peculiar, pouco linear em perspectiva, mais revolucionário do que seria de esperar, sem a mentalidade de ovelha que o poderia fazer seguir cegamente o caminho da felicidade que lhe é oferecido, parece encontrar-se num beco sem saída de angústia e depressão, uma luta na qual envereda sozinho.

Apesar da premissa pouco original torna-se interessante pela abordagem, não só pela personagem principal que foge a qualquer rumo esperado pelo leitor, como pela forma como é descoberto o elixir da juventude que causa o fim da humanidade enquanto sociedade em progresso. A falta de memória a que leva o elixir é um elemento interessante, mas também aquele que leva a um final algo cliché, um ponto de decisão que se pode tornar catastrófico.

Resumo de leituras – Julho de 2017 (6)

101 – A Leoa – Anne-Caroline Pandolfo e Terkel Risbjerg – A autora de África Minha teve uma vida atribulada, fruto de ser uma mulher pouco comum para o seu tempo, inteligente e aventureira, características pouco pretendidas na época numa sociedade extremamente religiosa;

102 – Lightspeed Magazine – Junho 2017 – Vários autores – A revista continua a mostrar porque é uma das melhores da ficção especulativa, demonstrando boas histórias de fantasia e de ficção científica;

103 – East of West Vol.2 – Hickman, Dragotta e Martin – Depois da novidade estrondosa do primeiro volume, este continua as várias histórias paralelas acompanhando os cavaleiros do apocalipse nas suas demandas. Morte prossegue em busca do filho, enquanto os restantes tentam travar os seus avanços e concretizar uma profecia de rimas obscuras;

104 – A.D. After Death – Scott Snyder e Jeff Lemire – Visualmente com o estilo reconhecível de Jeff Lemire, centra-se num ladrão profissional que teve a possibilidade de enquadrar os habitantes de uma cidade que viverão para sempre, mas apenas recordando os últimos 10 anos das suas vidas. Entre encontros e reencontros cíclicos, esquecem-se os familiares e tenta-se salvar o resto da humanidade. Ou pelo menos alguns tentam.

Mulher-Hulk – Solteira, verde e perigosa – Dan Slott, Juan Bobillo e Paul Pelletier

O volume n.º 22 de A Colecção Oficial de Graphic Novels apresenta-nos Mulher-Hulk, a prima do Hulk que, no seguimento de uma transfusão de sangue do primo adquire poderes semelhantes a nível de força e invencibilidade, mas sem perder a racionalidade quando se transforma.

Enquanto Jennifer Walters é uma rapariga tímida, mas como Mulher-Hulk torna-se mais confiante e destemida. Heroína reconhecida e famosa, vai manter-se pouco tempo na mansão dos vingadores por conta das constantes festas que desestabilizam o ambiente.

A reviravolta na sua vida acontece quando a contratam como advogada numa prestigiada empresa, mas com a condição de assumir a forma humana e frágil de Jennifer Walter. Os casos que lhe atribuem envolvem outros super heróis e entidades com poderes, nos quais deve usar as leis da melhor forma possível.

Alternando entre defesas brilhantes em tribunal e as pequenas lutas contra o mal, a Mulher-Hulk é uma heroína divertida e relaxada, demasiado jovem para manter uma seriedade constante que, apesar de inteligente, ainda tem muito que explorar da sua própria personalidade.

Com toques hilariantes, as histórias apresentadas neste volume tocam em várias outras personagens, sem deixar o foco de Mulher-Hulk. Sem chegar a ser visualmente excepcional este volume cumpre o papel de divertir, sem grandes questionamentos filosóficos e deprimentes.

A Colecção Oficial de Graphic Novels da Marvel tem saído autonomamente pela Salvat e em parceria com o jornal Record. Para mais detalhes sobre a colecção podem consultar a página oficial.

Opinião a outros volumes da mesma colecção

Assim foi: Sci-fi LX 2017

Este ano o Sci-fi LX iniciou-se com a sessão Enredos Inacreditáveis dada pelo João Barreiros e por mim onde apresentámos enredos de livros reais e ficcionais. Deixo-vos a apresentação para poderem ter a lista de livros referidos:

De seguida, claro que tive de assistir à apresentação do livro do Carlos Silva, Anjos, o vencedor do prémio Divergência. Para além do livro o autor tem já dois contos publicados na revista Bang! (um deles na que foi lançada há poucos dias para as fnac’s de todos os países) e em várias outras antologias de Ficção Especulativa. O autor espera dedicar-se um pouco mais ao género fantástico nas suas próprias obras e pretende continuar a escrever em português.

Infelizmente (por sobreposição com outros eventos) não pude assistir a tudo o que gostaria (a sessão Alimentopia de Luís Filipe Silva parecia interessante, bem como Ciência e Sci-fi de Rui Agostinho) mas deu para ter uma ideia dos vários espaços de jogos e actividades (para todas as idades). O meu dia fechou com um divertido torneio de Pandemic (no qual levámos uma memorável tareia).

O Sci-fi LX continua a proporcionar um fim de semana geek diverso em vertentes dentro do género (jogos de tabuleiro, jogos de computador, livros, banda desenhada) com muita diversão para diferentes públicos.

Outras opiniões

Destaque: Um Mundo de Pernas Para o Ar – Elan Mastai

Já tinha visto o lançamento e a sinopse, mas o que realmente me fez despertar o interesse foi a leitura do primeiro capítulo que foi distribuído gratuitamente à entrada do metro:

Estamos em 2016 e no mundo de Tom Barren a tecnologia solucionou os grandes problemas da humanidade: não há guerra, nem pobreza, nem abacates pouco maduros. Infelizmente, Tom não é um homem feliz. Perdeu a rapariga dos seus sonhos. E o que é que uma pessoa faz quando está de coração partido e depara com uma máquina do tempo? Faz uma estupidez. Agora Tom dá por si numa realidade paralela aterradora (que nós reconhecemos logo como sendo o nosso 2016) e só pensa em corrigir o erro e voltar para casa. Mas é então que descobre uma versão encantadora da sua família, da sua carreira e de uma mulher que pode muito bem ser a mulher da sua vida. Tem agora de enfrentar uma escolha impossível. Regressar para a sua vida perfeita, mas pouco emocionante, ou permanecer na nossa realidade, um mundo caótico, mas onde terá ao seu lado a sua alma gémea. À procura da resposta, Tom é levado numa viagem pelo tempo e pelo espaço, tentando perceber quem é de facto e qual será o seu futuro. Cheio de humor e emoção, um livro inteligente e caloroso que é uma poderosa história de vida, de perdas e de amor.

 

East of West – Vol.2 – Hickman, Dragotta e Martin

Depois de um primeiro volume sublime, este segundo dedica-se sobretudo a avançar as várias linhas narrativas, demonstrando a concretização subversiva da profecia em cenários de fazer cair o queixo.

Enquanto a Morte procura a localização do filho, seguindo pistas que o levam a sucessivos confrontos com indicações dúbias e finais sangrentos, acompanhamos um grupo de poderosos que tudo faz pelo cumprir da profecia, até deixar o próprio filho transformar-se num monstro.

Paralelamente assistimos ao estado da degradação das sociedades humanas, em que é possível comprar quer políticos, quer juízes, realçando-se que existirão mais juízes comprados – não que sejam piores seres humanos que os políticos, mas por serem mais baratos.

Tal estado social causa revolta e não é de estranhar que se sucedam os casos de violência e revolta, que aumentam com o acumular da tensão resultante da injustiça e da pobreza de espírito.

Sem o factor surpresa do primeiro volume, este segundo mantém os mesmos elementos, prosseguindo lentamente com as várias linhas narrativas em cenários extraordinários, quer pela imensidão, quer pelos elementos fantásticos. Mais pausado, não provoca o mesmo impacto no leitor mas mantém um bom nível de qualidade e interesse para os volumes seguintes.

Resumo de leituras – Julho de 2017 (5)

97 – Lugar Maldito – André Oliveira e João Sequeira – Uma história de terror centrada numa casa amaldiçoada, local de refúgio de um jovem casal que se pretende unir. Fugidos das autoridades, sob pressão emocional e num local pouco hospitaleiro, não é de estranhar que os relacionamentos comecem a ficar contaminados, assombrados pelas sombras que circundam a casa;

98 – The Walking dead Vol.3 e 4 – Robert Kirkman, Charlie Adlard e Cliff Rathburn – Os dois volume seguem o grupo de sobreviventes que encontra, numa prisão um possível refúgio para se instalarem. Na prisão encontram quatro seres humanos não transformados, reclusos com um passado duvidoso que instiga a imaginação e a dúvida dos restantes. Uma mistura explosiva com o desespero palpável que irá ter o desfecho esperado;

100 – Jardim de Inverno – Renaud Dillies e Grazia la Padula – Fofo e envolvente, demonstra a solidão da cidade e o progressivo afastamento dos entes queridos no seguimento do cinzento urbano. Felizmente existem eventos que fazem contrariar esta espiral descendente.

Resumo de leituras – Julho de 2017 (4)

 

93 – Fatale Vol.5 – Ed Brubaker e Sean Phillips – O quinto volume fecha esta extraordinária série com detalhes lovecraftianos, carregada de violência em torno de uma femme fatale a cuja voz poucos homens conseguem resistir. Simultaneamente presa e predadora, mas de consciência clara, esta mulher irá resistir ao papel de sacrificada num culto com um final movimentado;

94 – The new voices of fantasy – Vários autores – Compilação de histórias dos novos autores de fantasia que se têm destacado com prémios para os contos publicados em revistas. Bem escritas e diversas, a maioria das histórias apresenta novas tendências no género, de fronteira menos sólida e premissas menos comuns;

95 – O Homem que passeia – Jiro Taniguchi – Do genial Jiro Taniguchi é publicada esta nova versão do livro, onde acompanhamos os vários passeios de um homem que não percorre caminhos lineares, deixando-se levar por onde a curiosidade chama, por vezes à deriva, noutras com propósitos claros;

96 – Shenzhen – Guy Delisle – Menos interessante que outros livros de Guy Delisle, apresenta um cenário mais monótono onde pouco acontece, e o autor quase não tem interacção com as pessoas que o circundam (por dificuldades linguísticas). De destacar, como sempre, o humor do autor e a capacidade para representar o caricato.

Lightspeed Magazine June 2017

A Lightspeed Magazine continua a ser, para mim, uma das melhores revistas de ficção especulativa do mercado, ou não estivesse a cargo de John Joseph Adams, uma das raras pessoas de quem costumo gostar de todas as antologias. Trazendo duas secções de contos, uma de ficção científica, outra de fantasia, possui ainda uma novela, excertos de alguns livros, críticas e entrevistas.

Este número começa com Yakshantariksh, um conto publicado originalmente em The Bestiary que nos apresenta seres enormes, invisíveis, apenas perceptíveis mentalmente, que projectam imagens de outros Universos e uma enorme solidão.

Marcel Proust, Incorporated de Scott Dalrymple é uma história genial de como o próprio futuro das pessoas é feito refém, ao se poder retirar a educação (que é antes uma licença) se não se pagar o respectivo empréstimo ao banco. Neste conto cria-se uma substância capaz de acelerar e melhorar exponencialmente a memória, mas se se deixar de tomar esta substância todo o conhecimento adquirido durante a toma da droga, desaparece. Se por um lado o conhecimento adquirido pode deixar de ser válido, por outro, pode desaparecer totalmente.

O conto de Elizabeth Bear, The Heart’s Filthy Lesson mostra a capacidade de adaptação dos seres humanos, que, mesmo noutro planeta, se mantém orgulhosos e com necessidade de mostrar que são capazes dos maiores feitos pondo a própria vida em risco.Já Love Engine Optimization é uma história arrepiante de como uma sociopata usa as suas extensas capacidades informáticas, para obter todas as informações necessárias para que as suas vítimas se apaixonem irreversivelmente.

Enquanto que em World of the Three de Shweta Narayan existem seres mecânicos com extensas capacidades que podem ser, até, reis, em The Magical Properties of Unicorn Ivory de Carlos Hernandez uma experiência num laboratório de físico leva a que elementos de uma realidade paralela sejam transportados para o nosso, como Unicórnios que alguns humanos se divertem a caçar por acreditarem nas propriedades mágicas dos seus chifres.

Depois de dois contos que achei pouco relevantes ou interessantes, Iseul’s Lexicon de Yonn Ha Lee é uma novela extraordinária que nos apresenta uma realidade mágica onde alguns feitiços perduram, mais fracos, com a morte da raça inteligente que os criou. Ou será que morreram mesmo? Enquanto rouba a casa de um mágico enfrenta uma criatura que supostamente não existe, e a longa batalha de submissão volta a reacender-se.

De diferentes premissas, cruzando algum horror nalgumas histórias, como já é habitual na Lightspeed, esta edição de Junho vale bem o valor investido, não só pela diversidade, como pela qualidade do conteúdo.

Resumo de leituras – Julho de 2017 (3)

89 – Saga Vol.6 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples – O sexto volume da série reposiciona algumas das personagens principais, em episódios mais calmos do que os do volume anterior, permitindo lançar as bases para novos desenvolvimentos;

90 – Tony Chu – Vol.6 – John Layman e Rob Guillory Também sexto volume mas de Tony Chu, centra-se mais na irmã da personagem principal e está carregado de trechos hilariantes e imaginativos, numa explosão de criatividade cómica que torna este volume um dos melhores mais da série;

91 – Diálogo das compensadas – João Aguiar – Não esperem um romance histórico a desviar-se para o fantástico, antes um livro passado num futuro pouco distante em que a carreira do novo director da produção numa empresa de computadores depende de concretizar negócio com um convento de freiras;

92 – Outlaw of Gor – Vol.2 – John Norman – O segundo livro continua no mesmo Universo, mostrando uma nova aventura numa cidade de estrutura bastante diferente das apresentadas no primeiro – aqui são as mulheres que governam! O nosso herói desvia-se da demanda principal (a procura do motivo pelo qual a sua cidade foi destruída) para se envolver numa revolução.

Saga Vol.6 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples

No sexto volume de Saga voltamos a encontrar a família mais improvável de sempre – Marko e Alana eram dois soldados de fracções opostas, duas civilizações que guerreiam há séculos, opondo magia e ciência, que se apaixonaram e deram origem a Hazel, um símbolo de união que põe ambos os lados a persegui-los por toda a galáxia.

De peripécia em peripécia, de planeta em planeta, fugindo de militares robots e mercenários sanguinários, a família sobrevive, mas separada. Alana e Marko estão juntos, mas numa tentativa de salvar a criança, a avô está com Hazel numa prisão para prisioneiros de guerra, escondendo as asas das costas de Hazel que a denunciariam como o resultado de uma união impossível.

Aproveitando o clímax violento atingido no anterior volume, este é mais pausado e move as personagens para novas posições onde será possível uma nova dinâmica. Os dois jornalistas que foram forçados a largar a investigação da existência de Hazel percebem que podem retomar, Hazel irá deixar a avô e o príncipe robot será envolvido numa nova tentativa de reunir toda a família.

A premissa de Saga pode não ser totalmente original (família separada pela guerra, um amor que ultrapassa a barreira de povos inimigos de longa data, a geração de uma nova pessoa que representa a união impossível) mas a forma como a explora, caracterizando de formas bastante distintas cada civilização e, sobretudo, os episódios hilariantes e imaginativos transformam a série numa excelente banda desenhada de ficção científica.

Série vencedora de vários prémios Eisner, Goodreads, Hugo e Harvey, entre outros, Saga está a ser publicada em Portugal pela G Floy.