Resumo de leituras – Dezembro de 2017 (3)

254 – The surrogate’s owner’s manual Uma banda desenhada futurista com um ambiente sombrio que recorda clássicos de ficção científica como Blade Runner, apresenta um futuro onde podemos usar corpos artificiais que podem mascarar todas as características raciais ou de género. Neste enquadramento questiona a humanidade não pela apresentação de entidades artificiais mas pela apresentação de entidades humanas que se tornam artificiais.

255- Mónica: Força – Desta vez a personagem visada com uma história fora do enquadramento usual é Mônica, uma menina forte que enfrenta os seus problemas, mas que, desta vez, se depara com problemas demasiado adultos para os conseguir resolver;

256 – East of West Vol.4 – Hickman, Dragotta e Martin – As várias fracções continuam em luta. Neste volume não há desenlaces, mas há fichas informativas das várias fracções (que já deveriam ter sido apresentadas) e há colocação estratégica de alguns elementos;

257 – Os diários de Adão e Eva – Mark Twain – Neste pequeno livro Adão e Eva expressam as suas impressões. Adão, mais conciso e calado, estranha a capacidade de falar de Eva e ainda mais o bicho estranho com que ela aparece, um bicho dependente e sem pêlos;

258 – A instalação do medo – Rui Zink – O livro venceu o prémio Utopiales ultrapassando outros livros de ficção especulativa como Luna de Ian McDonald, Railsea de China Miéville ou My real children de Jo Walton. Trata-se de uma distopia quase episódica (em que, a partir do episódio se constrói a realidade);

259 – A Guerra é para os velhos – John Scalzi – Os seres humanos já colonizaram outros planetas, mas as colónias possuem não está ao dispor da Terra. Os novos colonos provêm sobretudo de países pobres ou são velhos que são integrados no serviço militar. Porque querem idosos a servir no exército? Ninguém sabe mas especula-se que as pessoas podem ser rejuvenescidas…

Flight – volume 1

Flight é o nome de uma antologia de banda desenhada que pretende ter histórias diversas de autores pouco conhecidos. Contendo 23 histórias possui uma qualidade global acima da média, muitas das quais centradas no tema voar, ainda que não seja suposto ser uma antologia temática. As histórias diferem em forma e conteúdo, mas quase todas conseguem apresentar uma narrativa coesa, sem grandes deambulações experimentais.

A primeira história apresenta dois amigos que constroem o seu próprio avião, fazendo planos para uma longa viagem de inauguração. Ainda que um deles se mostre confiante, o outro hesita, optando por adquirir para-quedas.

Depois desta história inicial, engraçada e bem contada, somos transportados para um mundo mágico onde as baleias voam e jovens entregam encomendas transportados por tubarões amestrados (que também são capazes de voar). É uma história juvenil que não deixa grande marca apesar de ser competente.

Entre raparigas que crescem asas e mulheres que relembram os tempos de infância libertando papagaios, temos uma história de regresso à terra natal de um jovem e um episódio de acção passado num zepelim. A próxima história que se destaca é a de Khang Lee onde uma menina é levada por um robot que tenta reproduzir no seu mundo a realidade da menina – mas, depois de tentar distrai-la com amigos mecânicos e festas, a menina continua a sentir a falta dos pais.

Após uma história de crianças expostas à guerra que sonham com lugares mais aprazíveis, segue-se a deturpação de um conto com The Maiden and the River Spirit que tem uma reviravolta engraçada, ainda que não totalmente original. Esquilos voadores que são ainda demasiado jovens para ficarem livre de perigos e circos onde as motas voam livremente – o tema voar continua a impregnar a maioria dos contos.

As restantes histórias têm mais interesse visual do que narrativo, com algumas deambulações gráficas que não pretendem contar uma sequência de acontecimentos mas aproveitar o tema para explorar.

Esta é, no mínimo, uma antologia de banda desenhada competente. Todas transmitem alguma narrativa, ainda que nalgumas se perceba que esse não é o foco (são poucas), e todas são visualmente agradáveis (no mínimo), bastantes com detalhes caricatos que transmitem simpatia ao leitor.

A instalação do medo – Rui Zink

Quando caracterizo, como negativo, o facto de uma história ser episódica e pouco mais apresentar (algo que tenho feito principalmente em contos) esqueço-me que, quando bem contado, um episódio pode expressar todo o mundo onde decorre. Neste caso A instalação do medo decorre numa realidade distópica de características autoritárias onde as condições se degradaram fruto de uma economia impossível, economia essa de princípios com elevado paralelismo à nossa. O resultado é um retrato cínico e perspicaz que aproveita a estranheza do ambiente para espelhar uma realidade com demasiados elementos possíveis.

O episódio relatado em A instalação do medo começa com uma senhora a abrir a porta a uma equipa de instalação. Mas antes, esconde a criança na casa de banho. Percebemos que é prioritário que ninguém encontre a criança e a menção da necessidade dos elementos da equipa usarem a casa de banho aguça os sentidos da mãe protectora. Felizmente, o elemento aflito aproveita uma ida à carrinha para se aliviar, e após a instalação técnica começam as demonstrações, representadas por ambos os elementos:

Convenhamos, quantas serpentes subindo sanita acima podem existir numa mesma cidade? as estatísticas podem ser um bom aliado do medo, mas demasiadas vezes funcionam como inibidor. Provavelmente, como se costuma dizer, “só acontecerá aos outros”. Durante alguns dias, sim, podemos ter receio em sentar-nos na sanita, e espreitemos debaixo da cama a ver se não tem intrusos, mas depois começamos inevitalmente a relaxar e…

Em conjunto a dupla explora os mais diversos medos, sejam provenientes de violência animal ou humana, passando pelos cenários de desastre económico:

Quando ficam nervosos, os mercados partem coisas.
Aí , quando virmos que toca a nós, minha senhora…
Será cada um por si. (…)
Temos de vender as reservas de ouro.
Vender os anéis.
Vender os dedos, se necessário.

Se não pelos mercados, pelas acções oscilantes:

O Sousa tem razão, minha senhora. O segredo está na linguagem.
Na linguagem complicada.
Palavras inglesas, ásperas e aguçadas.
Como chaves inglesas
Enigmas inglesas.
O código é a chave.

Exposição a exposição, a senhora mostra-se temerosa, mas o verdadeiro medo, de que a dupla de instaladores não se apercebe, está na possível descoberta da criança, há demasiado tempo escondida na casa de banho. As situações ensaiadas são diversas, extrapolações de possibilidades que aproveitam epidemias tenebrosas, a desconfiança para com etnias diferentes ou a armadilha de um assassino em série – o desastre ocasional confronta-se com a maldade intencional numa sucessão de cenários diversos.

Vencedor do prémio Utopiales de 2017, ultrapassando outros  nomeados como Luna de Ian McDonald, Railsea de China Miéville ou My real children de Jo Walton, A instalação do medo é uma história curta e distópica de final inteligente e cortante que pouco ou nada foi divulgada aquando do lançamento em Portugal e sobre a qual não me recordo de ter lido críticas anteriores ao prémio. A edição portuguesa é pela Teodolito.

Planetary – Warren Ellis e John Cassaday

Altamente recomendada por João Barreiros, este volume de banda desenhada centra-se numa estranha e fria personagem com poderes associados ao gelo, Elijah Snow. A história começa com a sua contratação por um grupo de investigadores de mistérios, um grupo de pessoas curiosas e aborrecidas que são pagas para usar os seus poderes e coleccionarem informação sobre a história secreta do mundo – principalmente aquela que envolve eventos sobrenaturais e pessoas com poderes.

Este grupo designa-se por Planetary e é financiado pelo quarto homem, um personalidade obscura e desconhecida, do qual só se sabe ser suficientemente rico para sustentar um projecto destes. Para além de Snow existem outros agentes, mas o grupo que o acompanha é constituído por mais dois, Jakita Wagner (uma lutadora quase invencível) e Drummer (que consegue invadir quase todos os sistemas informáticos).

Ao longo dos vários episódios em que Snow vai agindo com perspicácia e maturidade (apesar do seu ar mal disposto e anti social) percebemos que tem problemas de memória. Nascido, como tantas outras personagens especiais, no virar do século, Snow sabe mais do que ele próprio compreende nas situações mais banais.

Ainda que as personagens possuam super poderes não esperem vê-los em grandes intervenções e batalhas. Aliás, as intervenções desta equipa são bastante subtis, mais dedicados a observar do que a agir, compilando a informação de que necessitam de forma competente. Alguns dos fenómenos que acompanham não são justificados, faltando um enquadramento ao leitor, tal como falta a Snow, devido à falha de memória.

A dinâmica entre personagens segue um rumo estranho, com Jakita e Drummer a mostrarem grande familiaridade e companheirismo, e Snow a mostrar-se sempre distante, crítico e bem… frio – um membro mais útil pelas suas capacidades de observação do que pelos seus poderes.

Carregado de mistérios, Planetary mostra uma sucessão de episódios nem sempre dispostos cronologicamente que fornecem pistas para um puzzle maior que se vai construindo ao longo do livro. Existem forças maiores na Terra e o grupo Planetary poderá ter de escolher deixar o papel principal de observador.

Este primeiro volume fecha alguns mistérios e abre portas a algumas mudanças no Planetary, apresentando um grupo poderoso que poderão ter de enfrentar mais tarde. Ficam por explicar algumas coincidências entre os vários episódios que poderão ser relevantes e que espero que sejam exploradas no próximo volume.

 

Novidade: Saga Vol.7 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples

O sétimo volume da série de banda desenhada Saga já chegou às bancas! Esta série cruza elementos de ficção científica e fantasia mostrando um Universo onde dois mundos perpetuam, por longos séculos, uma guerra interminável – um dos mundos baseia-se na tecnologia, outro na magia.

Em Saga o impensável acontece – estabelece-se um casal que cruza dois elementos de cada um dos mundos e uma criança nasce com características de ambas as raças. Perseguidos por toda a galáxia e separados por circunstâncias adversas, o casal tenta proteger a criança omitindo a sua origem!

Esta série épica já ganhou doze prémios Eisner, um prémio Hugo e dezassete prémios Harveys. Deixo-vos a sinopse e algumas páginas deste sétimo volume:

SAGA narra a luta de uma jovem família para encontrar o seu lugar num universo vasto e hostil, e já foi descrito como um encontro entre a Guerra dos Tronos e a Guerra das Estrelas ou Romeu e Julieta no espaço. O volume sete lança-nos em mais um capítulo da sua saga cósmica,“ A Guerra por Phang”, um dos eventos mais épicos de SAGA. Hazel está finalmente reunida com a sua família e viaja com ela para um cometa mergulhado na guerra que Coroa e Terravista travam desde sempre. Serão forjadas novas amizades e outras serão perdidas para sempre, neste volume cheio de acção sobre famílias, batalhas e refugiados.

Fantasia e ficção científica – e sexo, traição, morte, amor verdadeiro e fundamentalismo religioso – juntam-se como nunca antes neste épico subversivo e provocante do escritor Brian K. Vaughan e da artista Fiona Staples.

 

 

The Surrogates – Owner’s Manual – Robert Venditti, Brett Weldele, Chris Staros e Jim Titus

Num futuro próximo os seres humanos poderão andar na rua com corpos artificiais comprados. Estes avatares transmitem, aos humanos que através deles se projectam, as mesmas sensações sem os prejuízos para a saúde da utilização do próprio corpo, sejam estes prejuízos a transmissão de doenças ou os riscos de cancro provenientes do tabaco.

Uma das utilizações mais práticas será pelos agentes de segurança que assim evitam colocar-se verdadeiramente em situações perigosas. Estes corpos podem manter a vitalidade e a força de uma pessoa de vinte anos, ainda que o seu utilizador seja um barrigudo de sessenta, sedentário, mas que na sua mente carrega os largos anos de experiência na profissão.

Claro que a utilização destes corpos não se restringe ao que é lícito e laboral. Algumas pessoas usam-nos por questões profissionais, mas outros para esconderem o seu verdadeiro aspecto (fruto de inseguranças e ansiedades), para não serem reconhecidos ou para ostentar um aspecto mais atraentes num encontro romântico.

Este volume apresenta duas histórias, sendo que a que ocorre temporalmente antes é apresentada depois. Na primeira história começam a aparecer corpos estragados propositadamente utilizando electricidade. Sabe-se apenas que quem os estraga está contra a intensa utilização dos corpos falsos em detrimento de sair de casa com os corpos imperfeitos mas verdadeiros.

O principal suspeito? Um líder religioso que terá, na sua agenda, o extermínio destes corpos e terá sido, no passado, responsável por revoltas violentas. Ainda que os discursos coincidam, as peças parecem não corresponder totalmente.

A segunda história centra-se, exactamente, nos eventos que deram origem às revoltas violentas lideradas pelo líder religioso, começando com um assassinato de um homem pobre, um sem abrigo, que não tem dinheiro para um corpo falso. O assassinato ocorreu às mãos de três adolescentes que usavam os corpos falsos dos pais.

Para além das questões associadas à identidade questionável de quem controla o corpo, este assassinato destaca as questões éticas da utilização de corpos falsos (e adultos) por menores de idade. Pondo de lado o novo produto destinado aos mais jovens, a empresa que cria corpos falsos resolve estas questões na origem, mostrando-se uma empresa responsável que coloca os interesses da comunidade acima dos lucros.

Intercalando cada capítulo com um bloco informativo sobre a realidade onde decorrem as duas histórias (por vezes notícias de jornal ou artigos científicos, outras mostrando os folhetos informativos que são distribuídos para publicitar os corpos falsos) The Surrogates apresenta um futuro cinzento. Não me parece que seja cinzento e soturno por alguma catástrofe, mas como reflexo do afastamento da realidade, resultado directo do uso dos corpos.

Mas, claro, nem tudo é negativo. Os artigos disponibilizados mostram as componentes associadas à segurança nas profissões perigosas (polícias, exército, construção civil, etc) bem como ao desaparecimento de descriminação. O corpo que cada um apresenta pode ser de um género e de características físicas diferentes, louro ou moreno conforme desejado, e desta forma concorre-se a qualquer emprego sem que os empregadores saibam as verdadeiras características físicas das pessoas.

Se por um lado os corpos proporcionam a vivência de uma pessoa saudável e jovem, provocam, também, um sentimento de desligar da realidade, uma vivência inconsequente onde as pessoas assumem outras personalidades, vivendo farsas e afastando-se do contacto pessoal e directo com outras, realizando experiências que não ousariam em primeira mão.

Ainda que a postura de um terrorista e de um líder religioso instigador de revoltas sejam demasiado drásticas, a verdade é que nem todas as transformações fornecidas pela tecnologia se revelam positivas. De ambiente que recorda clássicos de ficção científica como Blade Runner, ou policiais noir, questiona a humanidade não pela apresentação de entidades artificiais mas pela apresentação de entidades humanas que se tornam artificiais.

A guerra é para velhos – John Scalzi

Publicado há alguns anos na colecção 1001 (e podendo ser encontrado pelo preço de 3,15€, ou ainda menos quando aplicada alguma promoção) é um livro de ficção científica num futuro tecnologicamente bastante avançado em que os humanos já conquistaram vários outros planetas. Mas no planeta Terra estes avanços tecnológicos são quase desconhecidos, detidos pela Agência Colonial. Para a exploração e colonização do espaço apenas são recrutados os seres humanos dos países mais pobres. Ah. E velhotes para integrarem as forças militares e poderem assentar noutro planeta depois de servirem alguns anos.

 

Porquê velhos? Ninguém na Terra sabe. Mas John Perry e a esposa vêm neste recrutamento a oportunidade de uma nova vida – decerto que ninguém precisa de velhos para lutar e com a tecnologia das colónias é possível que sejam rejuvenescidos e terão uma nova vida a dois. Os planos futuros vão por água abaixo quando a esposa colapsa na cozinha pouco tempo antes de poder enveredar pela nova carreira. Com menos um laço a prendê-lo à Terra John Perry decide prosseguir e deixar todos os bens terrenos.

O que encontra são outros velhos como ele. Dezenas. Centenas. Rapidamente se forma um grupo com algumas empatias e teorias sobre o que lhes irá acontecer. Desde que deixaram a Terra deparam-se com exibições fabulosas de tecnologia e esperam poder voltar a ser jovens – a realidade supera as expectativas. As suas consciências serão transferidas para novos corpos, geneticamente melhorados, que são muito mais musculados e perfeitos do que os originais alguma vez foram.

E o que fazem centenas de velhotes, agora jovens, atraentes e fortes, sabendo que os novos corpos são estéreis? Enrolam-se em qualquer lado com a primeira pessoa com que se deparam. Este período em que experimentam os novos corpos estende-se durante a curta viagem, no final da qual lhes explicam que existem várias guerras em curso e que terão de efectuar um duro treino militar. John destaca-se pela sua capacidade inventiva que deve à profissão anterior em campanhas publicitárias.

O grupo é separado mas mantém-se em contacto através dos AmigosDaMente – computadores portáteis que possuem ligação directa ao cérebro e aos quais é possível dar ordens sem recorrer a palavras. Cada pessoa dá um nome específico ao seu AmigoDaMente e os nomes não poderiam ser mais ofensivos, fruto do desconforto inicial que cada um sente pela invasão desta entidade no seu cérebro. Serão, no entanto, estes computadores que permitirão elevar a capacidade de guerra dos seres humanos para poderem enfrentar outras espécies.

Entre espécies que guerreiam por questões religiosas e ritual e espécies que procuram grandes vantagens tecnológicas, os seres humanos tentam conquistar o seu espaço com dificuldade. A taxa de mortalidade destas tropas é elevada e rapidamente o pequeno grupo de amigos diminui, fruto de pequenos acidentes ou confrontos bélicos. Surpreendentemente (e como não podia deixar de ser) a personagem principal mostra grande aptidão para soluções rápidas e funcionais que salvam dezenas de vida, destacando-se em quase todas as missões.

A Guerra é para velhos não é a melhor leitura de ficção científica dos últimos tempos (relembro que (re)li, entre outras coisas, alguns livros de Philip K. Dick, vários contos de revistas de topo ou Normal de Warren Ellis) mas é uma história com pontos tecnológicos originais, espécies alienígenas peculiares e a uma perspectiva solta que permite uma leitura relaxada e interessante.

Seguir o link para a restante obra do autor da imagem

Nota: Não aconselho a leitura deste livro em locais em que a faixa etária média ronda os 70 anos. Como um hospital. Ou um centro de fisioterapia. Falando por experiência própria, os olhares que o(a) leitor(a) obtém não são simpáticos.

Ermal – Miguel Santos

Principal defeito – ser curto. Em Ermal revela-se um mundo pós-apocalíptico em que a Guerra Fria levou à devastação do hemisfério norte com fogo nuclear. No caso de Portugal, os portugueses fogem para o Ultramar e nos países africanos defrontam-se velhos e novos poderes.

É nesta realidade que um homem é capturado e acaba por se aliar a uma misteriosa mulher que lhe promete uma saída caso a ajude com o seu plano. As hipóteses são poucas e o homem cede.

Retratando uma realidade de múltiplos confrontos onde vários interesses se entrelaçam, Ermal parte de uma premissa interessante para entregar uma pequena história muito terra a terra, com potencial para mais desenvolvimentos.

Sente-se a pressão da constante possibilidade de violência e a força das pequenas guerrilhas. Percepciona-se, em simultâneo, a tentativa de reconstrução e de evolução de uma sociedade, que se confronta com puras tentativas de destruição e ganância.

Ermal foi publicado pela Escorpião Azul.

Resumo de leituras – Novembro de 2017 (7)

237 – One Punch Man Vol.2 – One e Yusuke Murata – O segundo volume pareceu-me menos estruturado em história apresentando o nosso herói no seu usual papel de intervenção minimalista mas eficaz. Enfrentam-se clones que pretendem dominar o mundo e uma seita de carecas com a qual o herói tem receio de ser confundido. Entretanto, o seu ajudante segue a rotina que o poderá levar a adquirir os mesmos poderes.

238 – Ermal – Miguel Santos – A história decorre numa realidade pós-apocalíptica que deixou a Europa inviável à sobrevivência humana. Os europeus recorrem assim às colónias africanas, sendo mais uma força a lutar pelo território, entre tantas outras – algumas que pretendem a evolução da sua civilização;

239 – Tungsténio – Marcello Quintanilha – A realidade dos subúrbios brasileiros é dura e é necessário criar uma série de estratégias de sobrevivência para se poder esquivar a grandes criminosos e polícias corruptos;

240 – Os Vingadores Vol.6 – Continua a guerra entre os super-heróis com origem na capacidade de prever o futuro – quão certas serão estas previsões para que se possa agir em relação a elas é a causa da divergência;

241 – Nova ordem – Fernando Dordio, Osvaldo Medina e Mário Freitas – A nova aventura do Inspector Francos traz-nos uma personagem implacável, capaz de fazer confessar o mais duro dos vilões. Depois de um grande atentado em Portugal, um grupo terrorista resolve raptar agentes de polícia como forma de chantagem;

242 – Os três estigmas de Palmer Eldritch – Philip K. Dick – Philip K. Dick no seu melhor, apresentando uma história onde a realidade se mistura com o efeito das drogas de tal forma que acompanhamos sonhos dentro de sonhos e os episódios que foram sonhados têm um grande efeito na realidade. Joga-se, também, com a capacidade de perspectivar o futuro e de agir em relação a estas perspectivas.

Valerian Vol. 11 – A Ordem das Pedras / O Abretempo – Christin, Mézières

O último volume das aventuras de Valerian e Laureline (existe um 12º volume mas não se trata propriamente de uma aventura) começa com os nossos heróis em busca da sua versão da Terra, a versão que detém a agência espáço-temporal à qual estavam ligados.

Esta busca leva-os a participar numa expedição ao grande nada numa nave comandada por uma valentosa comandante. A bordo encontramos um Corto Maltese aventureiro (perdão, um outro Maltese, mais alienígena) e uma série de figuras caricatas que passam a vida a explorar.

É nesta exploração que Valerian e Laureline descobrem uma ameaça para todo o Universo e depois de alguns contratempos consegue juntar forças por todos os mundos que visitaram contra uma espécie invasora de esmagadoras proporções.

Aproveitando as circunstancias da narrativa oscilam-se estilos gráficos, algo que já vinha a acontecer em álbuns anteriores, mas que aqui se fortalece. Mais denso em coloração, algumas destas páginas noutro estilo recordam, por vezes, Bilal.

E assim terminam as aventuras de Laureline e Valerian nesta realidade (e apenas nesta realidade) com uma história imensa que aproveita quase todas as personagens com que se cruzaram ao longo dos volumes anteriores. A ameaça para o Universo que conhecem é grande, e perante uma ameaça comum unem-se esforços para lutar contra a invasão.

Começando com aventuras menos sólidas e estrutura mais clássica (uma aventura com um vilão concreto que Valerian e Laureline enfrentam), a série prossegue apresentando uma dinâmica de espaço e de tempo que permite afastar-se dessa estrutura e explorar as possibilidades da tecnologia que possui.

Criando progressivamente os elementos necessários para tornar a realidade caricata, mas não demasiado estranha, a série evolui mantendo a consistência das duas personagens. Valerian é um aventureiro, um homem de acção habituado a seguir ordens que, com a separação da sua Terra original, se habitua a agir por si só, e Laureline apresenta-se rebelde desde o primeiro momento, seguindo ordens mas contornando-as sempre que necessário para que possa agir de acordo com o seu código de honra.

É, tanto pelas personagens, como pelo seu desenvolvimento e pelo mundo que os autores constroem, que esta série se torna uma das minhas séries de banda desenhada favoritas no género da ficção científica.

A série Valerian foi publicada em Portugal pela Asa.

Relatório Minoritário e Outros Contos – Philip K. Dick

Eis um excepcional conjunto de contos! O que o torna excepcional não é só a qualidade de algumas histórias, mas o facto de serem, quase todos, estrondosos! Algo que ainda é de maior espanto quando sabemos que foram escritos entre 1953 e 1974 e que partem de premissas bastante simples que são levadas até às últimas consequências, algumas de forma irónica, demonstrando o ridículo da inteligência artificial ou o ridículo de seguir instruções sem capacidade de as questionar.

Esta colectânea começa com Segunda Variedade, um conto inteligente que decorre na guerra, mostrando que os seres humanos inventam mecanismos cada vez mais catastróficos para tentarem exterminar a facção oposta. Neste caso a luta é contra os russos e inventaram-se robots com aparência de verme que exterminam os que não estiverem marcados.

 

 

 

 

 

 

 

O problema é que as fábricas que constroem estes robots têm a capacidade de inventar variedades cada vez mais evoluídas. Não é assim de estranhar que um dia se receba uma mensagem dos russos para negociarem os termos da paz. O major Hendricks começa a sua caminhada, perspectivando a possibilidade de uma armadilha e quando encontra um rapaz carregando um urso de peluche, lá se deixa acompanhar pela criança taciturnoa e silenciosa – trata-se de um modelo robot que pretende o extermínio total dos seres humanos, modelo já conhecido pelos russos e que se sabe não ser o único. Falta identificar um modelo e até lá instala-se a desconfiança entre os poucos sobreviventes.

 

 

 

 

 

 

 

Tal como Segunda Variedade, também o segundo conto deste conjunto, Impostor, foi alvo de adaptação para cinema, se bem que nenhum dos filmes teve grande sucesso. No caso de Impostor, houve ainda adaptação para série, constituindo um dos episódios de Out of this World.

Um homem bem colocado militarmente é preso – os seus colegas julgam-nos um impostor, um humano substituído por um andróide que teria sido construído para não se aperceber dos seus próprios aspectos mecânicos e encarnar, na totalidade, o espécime. A caminho da lua, onde deveria ocorrer a execução, o homem escapa com um único plano em mente – provar que não se trata de um andróide programado para prosseguir com um atentado.

 

 

 

 

 

 

 

Um homem sai mais tarde de casa do que devia. O atraso, exacerbado por um agente de seguros que lhe bate à porta, fá-lo presenciar a desmaterialização do seu local de trabalho, levada a cabo por uma eficiente equipa de ajustamento que pretenderá reconstruir este pequeno pedaço da realidade.

Como seria de esperar, o homem entra em colapso nervoso quando se apercebe que é a ponta solta desta equipa e que poderá sofrer o mesmo destino que as pessoas do local onde trabalha. Em casa, a mulher convence-o a regressar ao trabalho, com o argumento de que teria alucinado. Mas uma vez de regresso apercebe-se de pequenas, quase imperceptíveis mudanças.

Adjustment Team é um conto relativamente curto que coloca em perspectiva a existência humana e a própria realidade. Até que ponto esta é controlada pelos seres humanos, ou até que ponto esta é imutável e viável, uma constante inalterável.  É, sobretudo, uma história irónica que explora a teoria paranóica de um homem e que questiona tudo o que nos rodeia.

Adaptada para um drama em formato áudio, Nesta Mortiça Terra contém inúmeros elementos religiosos mostrando uma realidade onde os anjos existem. Sílvia é uma rapariga que aprendeu a aceitar a sua presença tenebrosa – uma aprendizagem que os restantes só tarde de mais se apercebem que poderá ser catastrófica. É que os anjos, essas entidades luminosas e pouco angelicais (no sentido de bondosas e disponíveis para ajudar), pretendem fazer Sílvia evoluir para o próximo passo do hierarquia de energia e transformá-la num deles. Ao anteciparem esta evolução desequilibram as energias das fases envolvidas.

Autofab decorre num mundo pós-apocalíptico onde uma rede de máquinas mantém o fornecimento de uma série de bens. Esta rede de máquinas inclui fábricas com capacidades de auto-replicação e robots capazes de captar, da natureza, os bens (como metais), para a sua própria preservação e expansão. Os seres humanos que restam pretendem fechar esta rede de máquinas para poderem evoluir e utilizar, eles próprios, as matérias primas de que necessitam.

Depois de tentarem, sem sucesso, provocar um erro de sistema, indicando às máquinas um erro por elas desconhecido, optam por tentar fazer com que as fábricas compitam pelos menos recursos. Não se reconhecendo como sendo da mesma facção, as fábricas tentam responder às suas necessidades por recursos lutando pela retenção dos metais.

Este é outro conto que nos apresenta as máquinas que se desenvolvem por si próprias, com capacidade para criarem novas e se inventarem consoante as adversidades que enfrentam, num ciclo sem fim, cego às necessidades iniciais. As máquinas reconhecem apenas o objectivo claro e único para o qual foram criadas, sem perceberem a origem e o desaparecimento desse objectivo.

 

 

 

 

 

 

 

Adaptado para cinema, série televisiva e videojogo, Minority report é um dos contos mais conhecidos de Philip K. Dick. Como seria de esperar existem algumas divergência entre a adaptação cinematográfica e o conto. O chefe da divisão pré-crime recebe um homem mais jovem que o deverá acompanhar e aprender com ele. Trata-se de um homem escolhido por razões políticas. Nesse mesmo dia o chefe da divisão recebe a informação de que ele próprio será um assassino mas desconhece o homem que é suposto matar.

Na divisão pré-crime usa-se o potencial de seres humanos deficientes que se revelaram pré-cognitivos para diversos crimes. Apenas se age em relação ao assassinatos. As indicações são geradas pela combinação de três relatório, originando um relatório maioritário e decisivo. Com base neste relatório e antes que ocorra o homicídio, a divisão pré-crime actua e prende os futuros homicidas antes que ocorra o evento.

Este conto joga com a previsão de um futuro, mostrando as várias formas como o conhecimento da previsão pode influenciar esse mesmo futuro – seja porque ele pode ser evitado, seja porque pode ser reforçado mediante determinadas circunstâncias. Por outro lado, não pode deixar de se questionar a ordem de prisão a indivíduos que são potenciais homicidas mas que, não sendo um homicídio planeado, não têm, à data da prisão, qualquer intenção ou conhecimento das circunstâncias em que tal evento pode ocorrer.

Não é a única vez em que Philip K. Dick coloca adultos a usar bonecos como elemento recreativo para fuga à própria realidade. Se em Os Três Estigmas de Palmer Eldritch os adultos se encontravam num mundo desconhecido, distante da Terra, no caso de No tempo da Rita Catita o cenário é uma Terra apocalíptica em que os poucos seres humanos que restam permanecem em crateras, sobrevivendo à custa dos recursos disponibilizados por uma espécie sapiente marciana.

Enquanto os mais novos, adaptados à nova realidade, olham com algum desdém para a actividade dos mais velhos, os adultos refugiam-se no passado brincando com uma boneca, para a qual recriam os mais diversos luxos – restaurantes e helicópteros! O jogo decorre confrontando duas equipas de dois adultos, em que fazem a boneca evoluir social e economicamente.

Craig Moore – vejam outros projectos de ficção científica do autor – têm alguns fenomenais

Quando, os adultos de um grupo de sobreviventes descobre que, noutro grupo, usam uma boneca diferente, instala-se a curiosidade e a necessidade de um confronto – como será a outra boneca? Mais evoluída? Que roupas terá? Será mais adulta?

 

 

 

 

 

 

 

Se em Precioso Artefacto (um dos contos menos interessantes do conjunto) um homem regressa à Terra para a mudar e adaptar novamente aos seres terrestres depois de uma Guerra, tendo-o já feito em Marte, em Recordações por atacado (We Can Rember It for you Wholesale), são as paisagens marcianas que são ambicionadas por um homem que não tem esperanças económicas de alguma vez concretizar o seu sonho.

Desloca-se, assim, a uma empresa que poderá plantar, na sua mente, uma viagem fictícia que recordará como sendo verdadeira, recolhendo, até, recordações do que nunca existiu. O problema é que, após a implementação das memórias, percebe-se que este homem aparentemente pouco importante é, na verdade, um espião esquecido das suas façanhas que, com a alteração da memória, recorda o que realmente ocorreu.

A fé dos nossos pais é uma curiosa história distópica onde um burocrata jovem e ambicioso vive, no mesmo dias, dois eventos contraditórios em termos de possibilidades futuras: por um lado é convidado a executar uma tarefa que poderá garantir a sua carreira política, por outro é-lhe vendida uma estranha substância como sendo inócua, mas que revela o aspecto estranho do líder máximo naquele estado.

Surge-lhe então, nessa noite, uma jovem que informa que outros tiveram as mesmas visões, incoerentes entre si, mas reveladoras de que o verdadeiro aspecto do líder não seria o humano que todos viam.

Passado numa distopia em que persiste o controlo máximo do cidadão, este conto apresenta o confronto com algo maior do que a humanidade, algo que incorpora todo o mal e todo o bem.

Obra de João Ramos Filho

 

 

 

 

 

 

 

Adaptado para banda desenhada numa série do mesmo nome na Marvel, A Formiga Eléctrica acompanha Poole, um homem que descobre, após um acidente fabril, ser um andróide, um ser artificial construído com o intuito de reger uma fábrica. Chocado com a sua própria condição, explora os limites da realidade que percepciona, mexendo na cassete que supostamente lhe passa a informação do que o rodeia. Ao mexer na cassete o que vê efectivamente muda, mas será que o que muda é a realidade ou ele?

Este conto, como muitos outros de Philip K. Dick (e o anterior, A Fé dos nossos pais), explora os limites da realidade que percepcionamos – até que ponto podemos confiar nos nossos receptores ou até que ponto podemos confiar no que inferimos para nos influenciar? E será que após a ingestão percepcionamos a verdadeira realidade? E após a manipulação dos nossos receptores?

Outro trabalho de Craig Moore

O último conto do conjunto é Tenham pena dos Temponautas, onde um conjunto de viajantes no tempo (baptizados como temponautas) viaja uns dias para o futuro. Nesse futuro descobre que o regresso foi-lhes fatal e tentam descobrir o motivo para essa fatalidade. Lentamente começam a achar que estão presos num loop temporal e tentam quebrá-lo.

Relatório minoritário é um estrondoso conjunto de contos que demonstra alguns dos temas principais que Philip K. Dick também explora em obras mais extensas, como a continuidade do tempo e a percepção da realidade, sem faltarem as alusões a entidades quase divinas nas suas capacidade, entidades que não possuem o aspecto de velhote simpático e bondoso e que conseguem ser aterradores na forma como se expressam.

Relatório minoritário e outros contos foi publicado pela Relógio d’água.

Comentário a outras obras de Philip K. Dick

Assim foi: Amadora BD

Tenho visto várias críticas negativas. E com razão. O programa é divulgado em cima da hora (com pontos incompletos) não permitindo organizar a(s) visita(s) e que livros levar para serem assinados, as exposições nem sempre estão disponíveis nos primeiros dias do evento, muitas são demasiado focadas no passado e pouco no que se faz actualmente.

Ainda assim, continuo a achar que é um evento que vale a pena, principalmente quando olho para o preço do bilhete. E têm existido algumas (pequenas) diferenças. O espaço para os autores assinarem já não é na garagem, escura e algo claustrofóbica, mas num espaço que coloca os autores num lugar mais aprazível para os leitores aguardarem a sua vez. A parte superior afasta-se mais do aspecto de ginásio ou de armazém com que me deparei nalguns anos e o espaço da garagem parece melhor aproveitado. O auditório tem uma disposição mais confortável e foi possível usufruir do evento mesmo estando de canadianas (com foi o meu caso este ano), algo que reparei não ser totalmente possível noutros anos. Só posso, claro, falar, comparando os anos em que fui e confesso que não puderam ser muitos.

Autógrafos

Posto isto, esta entrada resume duas visitas ao evento. A primeira no dia 04 em que cheguei a meio da tarde e me dediquei a explorar as exposições, e a segunda no dia 12 em que cheguei após o almoço e mais focada nos autógrafos que pretendia recolher. No dia 04 pude aproveitar apenas para assinar um livro de Marcello Quintanilha.

Já no dia 12, estranhei a pouca fila para John Layman, o autor de Tony Chu, que talvez se devesse à hora – a série é das minhas favoritas da Image e encontra-se actualmente a ser publicada em Portugal pela G Floy; e aproveitei para assinar alguns livros.

Já no caso de Grazia La Padula, cheguei mesmo em cima da hora em que se formou a fila para os autógrafos – felizmente! Porque tornou-se demasiado grande em pouco tempo. O peso excessivo dos livros para estes dois autores fez com que não tivesse conseguido, neste dia, pegar mais autógrafos.

O que gostei menos? Só soube da presença de alguns autores / eventos em cima da hora e o controlo do fim das filas ser descarregado em cima de quem já estava na fila “É o último – veja se mais ninguém se põe atrás de si”.

Exposições

Tendo só ido no segundo fim de semana, tive a possibilidade de ver todas as exposições já montadas (como já começa a ser usual, as exposições não estão todas disponíveis nos primeiros dias do evento). A área disponível no pavilhão principal tinha o inconveniente de ter cruzamentos estranhos com espelhos que dificultaram a navegação e perceber se já tinhas enveredado por aquele caminho antes.

Em Contar o Mundo – A reportagem em banda desenhada mostravam-se alguns eventos comparando a perspectiva jornalística e o respectivo retrato numa página de banda desenhada, seja na perspectiva de uma personagem, seja numa perspectiva mais neutra. Mostraram-se alguns trabalhos de banda desenhada que são peças não ficcionais e realistas, como biografias ou reportagens neste formato, mas também alguns trabalhos com componente ficcional onde se demonstram eventos reais.

Uma exposição interessante, mais coesa nalgumas partes que noutras, que realçava o papel da banda desenhada enquanto meio de transmissão, não só de histórias, mas de eventos reais.

Para além desta, destacaria, claro, as de Will Eisner e Jack Kirby, com Tormenta a destacar-se inesperadamente pelo efeito visual da sala (durante o tempo em que lá estive não houve visitante que não se tivesse fotografado com o boneco), e Revisão a reconhecer trabalhos antigos mas interessantes que assim voltam a estar disponíveis a novos leitores. A ala onde se destacam os autores portugueses com obra publicada no estrangeiro também era das mais interessantes (e das poucas com suporte audio visual para dar a conhecer algo mais dos autores).

 

Marvel Coleção Especial Vol.1 – Deadpool – Duggan e Hawthorne

Este é o primeiro volume da Marvel Coleção Especial, uma publicação de periodicidade mensal que decorre na mesma linha temporal das publicações Homem-Aranha e Os Vingadores, que são lançadas em Portugal pela Goody. Os três primeiros números apresentam heróis diferentes, com o primeiro volume a centrar-se em Deadpool, o segundo em O velho Logan e o terceiro em Guardiões da Galáxia.

A história presente neste volume é totalmente independente das publicações Homem-Aranha e Os Vingadores, mostrando a personagem controversa de moralidade flexível que conhecemos, com evidentes falhas de memória, mas que investiu num negócio heróico que tem, literalmente, a sua imagem como fachada.

Deadpool tem uma companhia de heróis a soldo. Ou melhor dizendo, mercenários com uma boa campanha de publicidade. Aceitando várias missões de bons propósitos que são, na prática, missões não pagas, ainda que Deadpool não queira que se saiba não vá manchar a sua má reputação, a companhia está economicamente em maus lençóis.

Para além dos problemas económicos os vários elementos da empresa possuem alguns contendas entre si e, principalmente, contas antigas a ajustar com Deadpool. O facto de todos usarem a máscara de Deadpool por razões comerciais irá ajudar nos primeiros passos de um plano destruidor para tentar acabar com o mercenário desbocado.

Sem ser narrativamente excelente, este volume apresenta uma história mirabolante e divertida que cumpre o papel de entreter o leitor. Deadpool expressa o seu carácter imprevisível onde algumas boas intenções são cortadas pelas consequências dos planos pouco pensados e aprofundados.

É, sem dúvida, um herói louco. Mas de uma loucura justificada pelos longos e pesados episódios de dor e pelos acontecimentos traumatizantes e destruidores que presenciou. Salva-o a ironia pela própria situação que lhe permite alienar-se de todo o peso que transporta.

 

Resumo de leituras – Novembro de 2017 (6)

 

231 – Papa-capim – Noite Branca – Esta colecção tem apresentado histórias de personagens conhecidas em contextos bastante diferentes do que lhes é usual. Desta vez a personagem escolhida é Papa-capim na sua juventude, um guerreiro em potencial que ainda não reconhecido como tal e que, por esse, motivo, não é levado a sério quando começa a ter fortes premonições de uma desgraça;

232 – O elixir da eterna juventude – Fernando Dordio e Osvaldo Medina – A história apresenta, como personagem principal, Sérgio Godinho! Mas um Sérgio Godinho que é envolvido, contra sua vontade, em teorias esotéricas de vida eterna que estarão associadas a algumas das suas letras. É uma aventura mirabolante e divertida, com elementos interessantes;

233 – O que se vê da última fila – Neil Gaiman – Livro não ficcional, compila vários textos do autor sobre leitura, banda desenhada, livros ou prémios que recebeu. Não faltam alusões à importância do acesso gratuito à leitura ou aos livros, nem alusões políticas às suas convicções, ainda que estas não estejam expressas de forma muito explícita. Um livro a não perder para quem aprecia a obra de Neil Gaiman;

234 – A desobediência civil – Henry David Thoreau – Eis uma leitura subversiva de uma época muito diferente mas que se aplica totalmente aos dias de hoje. Thoreau incita à revolta perante o estado. Não uma revolta violenta ou irracional, mas pequenos actos de rebeldia para expressar divergência de opinião – numa época em que a escravatura é legal, questiona-se a rectidão das leis, ou a justiça de condenar à forca um defensor dos escravos fugidos;

235 – Living Will 6 – André Oliveira e Pedro Serpa – Único defeito? ser pequeno. Este sexto número contém mais umas páginas de Living Will, uma história tocante e única que André Oliveira tem publicado em parceria com outros autores na componente gráfica. Será um projecto que ele próprio publica e que espero que veja o final  brevemente (bem como uma edição em volume único, que vale bem a pena);

236 – A máquina de prever o futuro de José Frotz – José Carlos Fernandes – Uma pequena história bem ao estilo de José Carlos Fernandes onde a profecia se concretiza. Será que se concretiza porque o futuro é mesmo adivinhado ou será esta máquina a origem das desgraças que antecipa?

Monstress vol.2 – Marjorie Liu e Sana Takeda

O primeiro volume tinha-nos apresentado um mundo onde vinga uma espécie de racismo para com os seres que cruzam características humanas com as de outros animais. Está, assim, em curso, um extermínio que tem, por base, (como não podia deixar de ser) o medo.

É neste contexto que Maika (uma rapariga com características de lobo que alberga um antigo Deus no seu corpo) procura uma ilha onde a mãe terá estado e que será decisiva para descobrir um pouco mais sobre os seus poderes e a sua história familiar.

Mas não será uma viagem fácil. A ilha está assombrada por uma mitologia poderosa que leva a tripulação do barco onde viaja ao nervosismo e à revolta. Alguns elementos entram em confronto directo e Maika terá de proteger os dois elementos que viajam com ela – uma pequena menina-raposa e um gato falante que pertencerá à espécie responsável por manter o arquivo histórico.

Quando finalmente avistam a ilha, Maika terá novas provas para superar – aplicar astúcia com o poderoso barqueiro que guarda a ilha, encontrar quem pretende numa cidade de ilusão, e saber distinguir entre as verdades e as falsidades que lhe contam. No meio de todos estes elementos há-de descobrir um pouco mais sobre a mãe e sobre as suas origens.

Não se deixem enganar pelo aspecto fofo das personagens. O ambiente é pesado, carregado pelas perdas familiares e a dureza da sobrevivência a custo de mortes, um fardo que Maika carrega tentando afastar-se de tudo e todos. O poder que a transforma é também o poder que a consome, algo que terá de aprender a dominar se quiser sobreviver.

Contendo elementos ficcionais diversos, com uma forte mitologia, suportada pelos relatos históricos dos gatos que enquadram a sociedade actual, Monstress é uma série visualmente avassaladora na forma como sobrepõe o monstruoso (presente sobre a forma de monstros e planos maquiavélicos) à inocência das personagens (que se assemelham a crianças, valentes e leais).

Este segundo volume acaba por ser mais focado na acção presente de Maika, alargando-se para o seu passado apenas para pequenos detalhes necessários à história. São, também, menos as páginas dedicadas à história daquela sociedade. Depois do primeiro volume, este dedica-se mais à acção, ainda que se permita algum espaço à introspecção.

A série é da Image e, em Portugal, está a ser publicada pela Saída de Emergência, estando já programado o lançamento do segundo volume pela editora portuguesa.

Novidade: Jessica Jones Alias Vol.4

Está nas bancas o quarto volume que completa a história que mais influenciou a série de TV da Netflix. Neste volume conta-se a origem secreta desta personagem peculiar que usa as suas características especiais para resolver casos complexos envolvendo outras personagens, também peculiares:

Jessica Jones é uma detective privada implacável, e o submundo negro do Universo Marvel é o seu território, como vimos em três volumes de casos complexos, muitos dos quais envolveram super-heróis. Mas nem sempre foi assim.

Em tempos, Jessica foi ela também uma super-heroína, e aqui, pela primeira vez, descobriremos os seus segredos – como ganhou os seus poderes, como se tornou numa heroína, e o momento terrível e negro da história do Universo Marvel que mudou a sua vida para sempre. Com muitos convidados especiais, desde o Homem-Aranha e Jean Grey, aos Vingadores e ao temível Killgrave.

O último volume da primeira série de Jessica Jones, ALIAS, é geralmente considerado o melhor da saga, e revela finalmente as origens dos super-poderes da nossa heroína, juntando todas os fios narrativos dos volumes anteriores numa só saga, um verdadeiro “romance gráfico” em vez de uma série de comics, em que confluem inúmeros géneros: super-heróis, crime e policial, romance… Na primeira parte do volume (números #22-23) Michael Gaydos consegue um verdadeiro triunfo, ao apresentar-nos um flashback e ao transportar-nos para o passado de Jessica com um desenho completamente diferente do normal, que evoca o estilo Marvel antigo (assinalado por uma simples menção de “after DITKO!”), contando as origens dos poderes de Jessica e a sua vida no mesmo liceu em que foi colega de Peter Parker. Depois desta introdução, entramos no cerne da história, o Homem-Púrpura, e o que ele fez a Jessica… Mas deixemos que o leitor descubra tudo sozinho, neste volume cujas histórias foram nomeadas para dois Prémios Eisner em 2004, Melhor Série em Continuação e Melhor Arco de História.

 

Fables Vol.13 – The Great Fables Crossover

A presença demoníaca que se libertou com a queda do Império continua a exercer o seu efeito sobre as figuras dos contos de fadas e sobre os comuns mortais. Se nas cidades comuns se verifica um aumento do crime e do medo de todas as sombras, já algumas personagens de contos de fadas percebem que o seu lado negro está descontrolado, pronto a partir para a violência.

Enquanto Bigby (o lobo mau / lobisomem) e o Monstro (de a Bela e o Monstro) se batem quase mortalmente por não se conseguirem controlar, Jack envia uma mensagem – o Literal responsável pela criação de todos eles está ainda mais louco e pretende acabar com a existência de todos os seus Mundos e respectivas fábulas!

Enquanto Branca de Neve e Bigby partem para investigar os Literais, a quinta sofre uma revolução. Os animais estão crentes no possível regresso de Blue que irá conduzir o repovoamento dos reinos das fábulas. Uma crença demasiado excessiva que leva a um fanatismo extremo, fanatismo aproveitado por Jack que se faz passar por Blue para pregar mais umas quantas partidas.

Os literais serão as entidades responsáveis pela escrita dos vários géneros literários e os criadores de vários mundos. Para cada género encontramos um literal que se expressa de acordo com o género a que corresponde. O literal responsável pelo reino das fábulas acordou de um torpor e encontrou as fábulas com percursos diversos, bastante diferentes do que pretendia – o Lobo Mau casado com a Branca de Neve? Que desvio tão grande!

Percebendo o risco que correm, Branca de Neve e Bigby procuram o Literal responsável, sofrendo directamente algumas consequências transformadores – o Literal é capaz de, com o escrever de uma caneta, mudar o aspecto de Bigby. Mas, por alguma razão que não compreende, não consegue matá-lo logo num acidente.

Divertido e utilizando uma ideia engraçada, este volume mostra como a crença em Blue cresce e se torna problemática, enquanto as restantes fábulas enveredam por batalhas que, sendo necessárias, atrasam o enfrentar da figura maléfica que destruiu a cidade e os impede de prosseguir na reconquista dos reinos fantásticos.

Visualmente interessante (ainda que menos do que o próximo, o 14 volume – sim, sem querer troquei a leitura de ambos, sem grande prejuízo) The Great Fables Crossover mostra como se tornam independentes e passam a ser responsáveis pelo seu próprio destino.

Valerian Vol.10 – Tempos Incertos / Nas Imediações do Grande Nada – Christin, Mézières

Depois de algumas aventuras deambulando pela Galáxia, Valerian e Laureline resolvem pôr mãos à obra e procurar a Terra da sua realidade – talvez no Grande nada? Apanhando as entidades que controlam economicamente a Terra (e que representam Deus, Jesus e o Espírito Santo, sem que faltem as acções de Sat) arranjam pistas adicionais para procurar a Terra do seu tempo.

Nas imediações do Grande Nada, numa prisão onde existem presos anónimos e escondidos, Laureline e Valerian instalam uma pequena nave comerciante a fim de obter informações sobre o que os rodeia.

Enquanto Laureline faz a diferença na vida de um grupo de ex-empregadas de uma fábrica, Valerian consegue que sejam novamente multados. Existe algo a esconder e os guardas da prisão não gostam de novos olhos no planeta.

Este é, sem dúvida, um volume que pretende colocar os nossos heróis no local necessário para o grande final. Sem grandes pressas, apresenta a forma como obtém informação sobre o Grande Nada e uma forma de investigarem sem darem muito nas vistas.

Demonstrando, mais uma vez, o espírito aventureiro e decidido de Valerian, bem como o espírito bondoso de Laureline que faz a diferença nos locais por onde passa, sem deixar de lado a inteligência que a caracteriza, é um volume com algumas reviravoltas e com episódios de transição para um objectivo que só a seguir será cumprido.

A série Valerian foi publicada em Portugal pela Asa.