Resumo de leituras – Agosto de 2019 (1)

61 – Osso – Rui Zink – Tal como a Instalação do Medo, este livro do autor decorre num espaço fechado, baseando-se na totalidade na conversa entre duas pessoas, neste caso, um homem preso por tentativa de terrorismo e o seu interrogador. A conversa desenvolve-se, por vezes de forma circular resultando numa maior comunicação entre os dois do que o interrogador pretende. O final tem traços fantásticos, apesar de toda a restante narrativa não ter elementos fora do comum;

62 –O Rasto de García Lorca – Carlos Hernández e El Torres – Enquanto outras narrativas tentam reconstituir o autor através da biografia, esta narrativa centra-se no vazio que o artista deixou nos amigos e na sua terra de origem. Trata-se de uma narrativa em que o artista é, sobretudo, uma figura ausente e se caracteriza exactamente por essa ausência;

63 – Fantasmas da Mente – Paul Tremblay – Uma narrativa curiosa de horror que conta, pela perspectiva de uma menina, os transtornos psicológicos da irmã que se julga possessa. A própria narrativa não tenta impor uma interpretação sobrenatural, deixando  no ar pistas para todas as dúvidas possíveis;

64 – Punk Rock Jesus – Sean Murphy – Este volume da colecção comemorativa dos 25 anos da Vertigo apresenta o retorno de Jesus pelas mãos da ciência. Numa espécie de reality show é explorado este retorno, com a apresentação de uma jovem inseminada com aquilo que se julga ser o clone de Jesus. O responsável pelo programa determina a educação do menino e controla todos os que directa, ou indirectamente, participam – com consequências catastróficas.

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Worldcon Dublin

Estarei aqui nos próximos dias, entre palestras, pedidos de autógrafos e muito mais. Por esse motivo (e por causa das férias) o blogue terá um período de pausa. Aproveito também para informar as palestras das quais farei parte:

The Politics of Horror – Domingo, dia 18 de Agosto, 12:00-12:30

Participantes: F. Brett Cox, Rosanne Rabinowitz, Charles Stross, eu.

Is horror political? Should it be? How do the metaphors of horror map onto social and political concerns? What creators are using horror to engage with the contemporary political climate right now?

Games for Science – Segunda, dia 19 de Agosto, 11:00 -12:50

Participantes: Tom Lehmann, Steve Jackson, Bob, eu.

STEM-inspired games have been growing and getting more popular in recent years, with Pandemic as one of the most well-known examples. Board and video games now cover biology, evolution, and terraforming Mars. We’ll look at the use of science in games and how it can encourage interest in science and engineering game designers and players discuss this trend.

 

 

 

Resumo de leituras – Julho de 2019 (4)

57 e 58 – All-Start Superman Vol. 1 e 2 – Uma abordagem curiosa ao super homem, colocando-o como mortal no seguimento de um plano do vilão. Surgem réplicas e versões futuras, enquanto o herói se confronta com a sua própria mortalidade.

59 – A Febre de Urbicanda – Schuiten e Peeters – O volume tem nova publicação em Portugal, com uma história adicional no final. As Cidades Obscuras (nome da série de histórias que decorrem neste Universo) possui vários detalhes fantásticos, numa realidade caracterizada pelo retro-futurismo, onde se construiu uma parte da cidade com grandes e harmoniosos projectos. Enquanto outra parte, semi isolada, permanece num caos contido … até quando… !

60 – Mataram a cotovia – Harper Lee – Não tendo lido a obra original, trata-se de uma adaptação competente que consegue transmitir a história e a problemática social numa pequena localidade interior em que cada família tem o seu lugar social. Existe uma hierarquia clara entre cada uma das famílias.

O invisível, a sua sombra e o seu reflexo – António Bizarro

Neste pequeno livro de autoria nacional o autor desenvolve várias histórias de crime centrando-se no assassino e nas suas obsessões. Algumas histórias possuem detalhes ligeiramente fantásticos mas a maioria apresenta narrativas sem qualquer elemento pouco natural.

O volume abre com uma obsessão fotográfica – uma obsessão que tem contornos mais trágicos do que inicialmente se percepciona, passando para o caso de um anjo da morte. Entre assassinos com dupla personalidade e duplas de assassinos encontramos incesto, mortes por impulso e homicidas em série com grandes planos.

Entre estes casos mais detalhados encontramos letras de músicas, poemas e contos mais curtos, como A Colónia ou O Quarto Escuro que se podem considerar de ficção científica ou Jacqueline Hyde que deambula entre a escrita de um conto e o próprio conto. Já em Leonard Pine fala-se da auto publicação como forma de atingir o estatuto de autor.

Os contos são, na sua maioria, bem construídos em termos narrativos. O autor sabe levar o enredo e tecer expectativa, desenvolver o relacionamento entre o assassino e a sua vítima e entregar, por vezes, finais pouco esperados. Digo na sua maioria porque alguns contos, mais curtos, são pequenas deambulações literárias que nos levam brevemente para outros mundos ou enredos mas que não se concretizam em histórias com príncipio, meio e fim. Julgo que o livro seria bastante mais coerente sem estes trechos.

Para quem gosta do género crime / suspense este é um livro aconselhável, com boas histórias que, decerto irão de encontro ao que pretendem. O invisível, a sua sombra e o seu reflexo foi publicado pela Coolbooks.

 

Novidade: Solar Sailors #2 – Daniel da Silva Lopes e Francisco Ferreira

A editora Gorila Sentado anuncia novo número de Solar Sailors. Este número será lançado no dia 27 de Julho, na Legendary Books (Alvalade Lisboa), pelas 19:30h. Eis a sinopse, bem como algumas páginas disponibilizadas pela editora:

Sê discreto ao explorar a terra do Homem e conseguirás ouvir a verdade. Um Sailor, alguns Reavers, um pai e um filho dão o primeiro passo. Estão abertas as hostilidades e a cortina começa lentamente a subir.

 

Resumo de Leituras – Julho de 2019 (3)

53 – O invisível, a sombra e o seu reflexo – Antónjo Bizarro – Neste pequeno livro de autoria nacional o autor desenvolve várias histórias de crime centrando-se no assassino e nas suas obsessões. Algumas histórias possuem detalhes ligeiramente fantásticos mas a maioria apresenta narrativas sem qualquer elemento pouco natural;

54 – Príncipe Valente – 1937 – Hal Foster – Eis uma série que, curiosamente, envelheceu bem. Talvez por ser voltada para um público mais jovem possui um bom ritmo e uma narrativa simples, que lhe permitem ser lida na actualidade sem quebras. Reconhece-se, claro, o estilo e a cor típicos da altura;

55 – Frango com Ameixas – Marjane Satrapi – Uma narrativa curiosa em que a autora explora um antepassado que, quebrado o seu instrumento musical de eleição, decide morrer. Mas poderá haver mais do que esta quebra de vontade e a autora mistura factos com outros elementos para tecer uma outra história;

56 – A metamorfose e outras fermosas morfoses – Rui Zink – Uma série de pequenos contos que exploram as fronteiras entre o ficcional e o não ficcional, entre o quotidiano e a demência.

Os Engonços da Quionga / A loja do desejo agridoce – Rhys Hughes

Ainda que a maioria dos contos da antologia Winepunk sejam de autoria nacional, existem dois de Rhys Hughes que decorrem no mesmo Universo. Na primeira história um estrangeiro explora as origens da sua estranha casa, percebendo que a casa viajou vários milhares de quilómetros. No segundo conto parte este mesmo estrangeiro para salvar uma donzela, utilizando-se elementos narrativos criados no primeiro conto.

Quem conhece o autor percebe o seu fascínio por culturas não ocidentais. Não é, assim, de estranhar, que o autor tenha situado os dois contos em África, começando com os conflitos armados que aí decorriam. Nostálgicos pela terra natal e sem querer largar as suas casas, seguem um inventor louco que cria um mecanismo capaz de viajar longas distâncias, transportando, numa plataforma, todas as casas de quem deseja regressar. A convivência permanente dos viajantes e os trios amorosos resultam em conflitos difíceis de resolver. Os viajantes acabam por se separar de forma inesperada.

Num segundo conto, o mesmo estrangeiro explora as lojas locais e encontra uma de desejos agridoce onde se fala de árvores de bochechas e outros eventos improváveis. A compra de uma poção leva-o à praia, onde encontra uma garrafa com uma mensagem de socorro. Ainda sob o efeito da poção, o estrangeiro parte para salvar uma donzela, sem saber que será uma viagem de reviravoltas inesperadas.

Ainda que as duas histórias possuam um ambiente algo diferente do resto da antologia, são dois contos imaginativos e fantásticos, de leitura divertida pela forma como jogam com ideias mirabolantes.

Outros contos da antologia Winepunk

In Vino Veritas – João Ventura – Winepunk

Pegando na frase em Latim, João Ventura dá-lhe um novo significado integrando um novo tipo de vinhas combatentes que são capazes de ter uma acção determinante contra forças inimigas.  O conto ganha especial interessante por usar figuras históricas da época, integrando-as de forma coerente.

A premissa do conto é simples e João Ventura trabalha-a de forma consistente e elegante, transformando-se numa história imaginativa, interessante e de bom ritmo. A história mostra o novo tipo de vinhas combatantes, mas consegue focar-se em várias localizações para dar uma visão maior dos conflitos entre o Norte e o Sul do país.

Outros contos da antologia Winepunk

Eventos: O Museu da Lua

O Museu da Lua chega a Portugal! Neste seguimento, vão decorrer festividades nos próximos dias no Palácio do Marquês de Pombal e estaremos presentes para apresentar um conto de João Barreiros sobre o viver na Lua e as consequências que tal teria para o corpo humano e para a criação de cidades sustentáveis. A leitura decorrerá a três vozes, alternando entre João Barreiros, Carlos Silva e eu.

Mas o programa é bastante mais extenso, contemplando apresentações e música, em torno da ciência e da Lua.

Novidade – All-Star Superman – Vol.2

Chega às bancas, no dia 06 de Julho, o segundo volume de All-Star Superman:

A premissa que guia All-Star Superman é o último dia de vida do Kryptoniano e como Lex Luthor, no primeiro volume, consegue arrastar o Homem de Aço para uma armadilha mortal, forçando-o a absorver mais radiação solar do que aquela que o seu corpo pode processar. A partir deste ponto de partida viveremos uma história épica cheia de episódios dos mais estranhos, atingindo o seu apogeu de loucura com a viagem do Superman ao Subverso povoado por bizarros e Zibarro. Os Bizarros serão uma espécie de praga assustadora, zumbis impossíveis de serem detidos.

Zibarro, é o único “bizarro” normal num mundo em ruínas, com seres extremamente limitados. A narrativa é tocante, belíssima mesmo.

O desenho de Frank Quitely não é de fácil absorção para o leitor, o seu Superman é gigante, bem diferente daquilo a que o leitor está habituado. No entanto, apesar da estranheza inicial que o desenho causa, ele acompanha muito bem o texto épico – mitológico mesmo – que Morrison cria. Superman é grande por que ele é maior do que a vida. Um verdadeiro deus entre os homens, mas um deus benevolente, de carácter ilibado e acções altruístas mesmo diante do seu inevitável fim.

Para All-Star Superman, a DC escolheu a dupla Grant Morrison e Frank Quitely. Quitely, na verdade, foi uma imposição de Morrison. “O Super-Homem é o melhor super-herói, Frank é o melhor ilustrador. Tinha de ser ele”, declarou o argumentista numa longa entrevista concedida ao site Newsarama.

 

 

 

Resumo de Leituras – Julho de 2019 (1)

45 – A viagem da Virgem –  Pepeldelrey, Jorge Coelho, Rui Gamito e Rui Lacas – Oscilando entre autores, mas conseguindo manter uma coerência visual ao longo de todo o volume, este A viagem da Virgem é uma história curiosa em torno e das paixões que move;

46 – Foundryside – Robert Jackson Bennett O primeiro volume de uma nova série fantastica do autor que pode ser lido isoladamente e que nos leva para um mundo em que a realidade pode ser alterada pela escrita! Nesta sociedade aspira-se ao retorno da tecnologia dos antigos, uma civilização extinta que conseguiu mover montanhas – literalmente;

47 – No Caderno da Tangerina – Rita Alfaiate – Uma história juvenil em que a nova aluna da escola tem dificuldades em se integrar e criar amigos. As suas deambulações levam-na a cruzar caminho com um monstro! Apesar de apresentado de forma simplista, é um livro que ganha nova dimensão com a leitura do seguinte da mesma autora, Tangerina;

48- Tangerina – Rita Alfaiate – Neste volume conta-se a história do anterior, com diferentes perspectivas que lhe concedem novas interpretações. Neste segundo volume temos outra leitura da primeira história, fazendo com que o conjunto seja bastante aconselhável.

Lenguluka – Onofre dos Santos

Eis um livro curioso no nosso mercado – um livro de ficção científica que tem, como cenário, Lisboa, e que decorre num futuro pouco incerto mas em tudo tecnologicamente semelhante ao nosso. O que muda? A posição estratégia a nível económico, firmando-se Portugal como uma economia em expansão! E como? Saindo da União Europeia e estabelecendo parcerias com países africanos (de língua portuguesa) e com países asiáticos.

As parcerias estabelecidas levam a que se fixem, em Portugal, milhões de habitantes desses países, com especial destaque para angolanos e chineses. De forma a manter o equilíbrio social entre relevantes grupos populacionais com culturas e hábitos diferentes, elegem-se representantes de cada uma das parcelas – representantes que, reunidos em conselho, ajudam a manter a estabilidade da sociedade portuguesa.

A realidade criada por Onofre dos Santos é-nos dada a conhecer através dos acontecimentos, tendo como personagens principais um trio romântico. Teresa, nascida em Portugal de cabo verdianos, tem noivo anunciado. Estudiosa e auspiciando um brilhante futuro, desperta o interesse de um professor mais velho que aproveita o fim do ano lectivo para se aproximar. Tal aproximação resulta numa gravidez, na quebra de noivado e na revolta do noivo, Nelson, que decide vingar-se e instigar os ânimos dos seus compatriotas pela honra ferida.

O que começou como uma noite de romance consentida por ambas as partes acaba como um factor de instabilidade e de divisão da sociedade portuguesa (ao recordarem diferenças culturais e tempos idos de colonialismo) existindo múltiplas reuniões dos representantes e de outras figuras de importância, formulando planos para restaurar a ordem e o sentido de justiça – mesmo afastando-se Teresa do papel de vítima e assumindo-se como mulher independente, capaz de poder de decisão.

Apesar das alusões a um Blade Runner português, Lenguluka afasta-se bastante de tal sentimento. Se, por um lado fala de uma realidade portuguesa alternativa, reflexo da maior diversidade cultural, e mantém um bom ritmo com referências a velocidade, por outro faltam as referências à tecnologia, ao sentimento de perda de humanidade e de natureza com tamanho avanço científico. Faltam os andróides, os animais sintéticos, as armas destruidoras e os avançados meios de vigilância que poderiam transformar este livro num romance com espírito Blade Runner.

Esta referência a um Blade Runner é algo que não procuraria se não tivesse referida na publicidade do livro, mantendo-se o interesse pelo romance pelo que é – a descrição de uma sociedade inexistente mas possível, mostrando formas de a concretizar e a facilidade com que acções individuais poderiam acabar com a estabilidade. Um relato interessante que se foca sobretudo no trio amoroso, levando-o a ser um factor de quebra pelas diferentes percepções culturais.

Lenguluka foi publicado em Portugal pela Guerra & Paz.

Novidade: Anarquia de Megan DeVos

A Colecção 1001 Mundos tem novo volume – uma distopia pós-apocalíptica:

Após uma guerra devastadora, resta uma grande metrópole. É uma ruína entre ruínas mas é aí, entre os escombros, que a população sobrevivente se concentra. Vivem constantemente alerta, pois na ausência de regras, resta matar ou morrer…

Num ataque a uma fação rival, Hayden, o jovem líder do acampamento Blackwing, poupa a vida a Grace. Grace é linda, carismática, corajosa – mas também uma inimiga mortal.

Filha do líder do acampamento rival, Greystone, e inquestionavelmente leal ao pai, Grace sabe que não pode confiar em ninguém – muito menos no representante do povo que foi treinada para matar… Reina o perigo. Reina o caos. Reina a… ANARQUIA.

Entre cegos e invisíveis – André Diniz

Entre cegos e invisíveis é o mais recente livro de André Diniz, autor de origem brasileira que reside actualmente em Portugal e que tem publicado diveros livros no nosso mercado através da Polvo (sobretudo, ainda que tenha publicado na colecção Novela Gráfica o livro O Idiota, adaptação do romance de mesmo nome). O mais recente livro dá-nos a conhecer uma família marcada pela ausência do pai – um herói militar que, como pai, pouco se destacou.

O herói morreu. O funeral estava, como seria de esperar, apinhado de pessoas que pretendiam prestar a última homenagem. Mas entre os presentes encontravam-se os que, segundo a moralidade local, eram uma nódoa no passado do militar – os filhos ilegítimos.

A história é contada pela perspectiva destes filhos que cresceram sem presença do pai e começa com o regresso do funeral. Como ilegítimos a presença no funeral foi incómoda, ignorada pelos familiares e amigos do herói, facto que recordou os ressentimentos do passado.

Quando o carro fica sem combustível e são obrigados a retornar a pé, até à última bomba pela qual tinha passado, surge a necessidade de falar desses mesmos ressentimentos e da forma como cada um deles lidou com a ausência do pai, recordando as circunstâncias em que cresceram.

Num local onde a moralidade se baseia nas aparências tradicionais de uma família baseada no matrimónio de uma vida, a existência de filhos fora do casamento é algo que deve ser escondido e mantido em segredo. Mesmo que tal implique não dar o devido apoio aos filhos ignorados.

A força das aparências é de tal forma que os familiares e amigos defendem a manutenção da imagem perfeito em detrimento do reconhecimento daqueles jovens. Esta mentalidade condena à inexistência social os jovens que nascem destes relacionamentos, impedindo-os de terem um futuro normal, e negando-lhes o apoio que deveria ser normal de um progenitor.

Mas em Entre cegos e invisíveis, André Diniz faz muito mais do que tocar neste tema, desenvolvendo diferentes personagens e dando-lhes diferentes complexidades e problemas. Como adultos, estes jovens rejeitados, possuem dramas que vão para além da inexistência do pai, ainda que este facto seja uma sombra na forma como se irão relacionar com os outros.

Apresentando o estilo que já lhe é conhecido, André Diniz apresenta uma história bastante diferente das anteriores, com uma narrativa movida por um simples evento que justifica todas as conversas e acções posteriores. A ausência de combustível serve como motor para todo o desenrolar que se segue, mas, na prática, é apenas a justificação para que todos os conflitos sejam expostos.

Entre cegos e invisíveis de André Diniz foi publicado em Portugal pela Polvo.

Bug – Vol.1 – Enki Bilal

Enki Bilal é dos meus autores favoritos de banda desenhada. E se a escolha temática (de ficção científica) parece bastante óbvia, há que acrescentar a qualidade dos desenhos numa narrativa que cruza uma abordagem cínica ao futuro com o sentimento de solidão provocado pela obsessão pela tecnologia. Mas, e se a tecnologia deixar de funcionar?

Em Bug um estranho acontecimento provoca o apagar de todos os registos digitais. Não há discos rígidos nem bases de dados e, consequentemente, não há internet e todos os mecanismos que se baseiam em informação deixam de funcionar. Tal cenário provoca sérios problemas no mundo industrializado neste futuro pouco distante – às próteses electrónicas deixam de funcionar, a grande maioria das comunicações também.

O mundo está, como seria de esperar, um caos. Mas não menos estranhos são os fenómenos que decorrem fora da Terra, numa nave espacial em que os poucos humanos apresentam comportamentos bem mais preocupantes – e relacionados com o desaparecimento de qualquer memória digital!

Para além da capacidade de transmitir o sentimento do cidadão comum que se vê sem net nem todo o suporto tecnológico a que está habituado, Bug apresenta pequenos detalhes curiosos que espelham bem o espírito crítico da sociedade ocidental. Que desapareceram. As publicações passam a apresentar inúmeros erros (o corrector autográfico deixa de funcionar). Não é de estranhar que nenhum ser humano saiba para quem ligar. Tal como no presente, a maioria das pessoas deixou de decorar números de telefone e passou a utilizar as agendas telefónicas incorporadas nos telefones. Os seres humanos parecem perdidos. Mas nada os prepara para a segunda parte do fenómeno que irá se desenvolver no segundo volume.

Graficamente mais interessante que outros trabalhos recentes do autor (como Animal’Z), Bug apresenta uma narrativa num futuro próximo de teor quase apocalíptico (com outras histórias do autor) intercalando várias perspectivas que se opõem na forma como enfrentam os acontecimentos. O resultado é uma boa história que, como outras do autor, parece rodear a realidade de uma aura despreocupada (pela posturua de algumas personagens) e sonhadora – mesmo que esse sonho se possa transformar num pesadelo.

O primeiro volume de Bug foi publicado em Portugal pela Arte de Autor, estando o segundo volume planeado para Outubro.

Laura and the Shadow King – Bruno Martins Soares

 

Bruno Martins Soares é mais conhecido, entre os leitores portugueses, por Alex 9 (publicado inicialmente como trilogia e depois em volume único pela Saída de Emergência) ou por A Batalha da Escuridão (publicado mais recentemente em português pela Editorial Divergência). Mas, para além destes livros, Bruno tem escrito e publicado sobretudo em inglês, pela Amazon, procurando o público internacional, entre o qual poderá ter um maior número de leitores.

Entre os livros publicados na Amazon encontramos Laura and the Shadow King, uma história apocalíptica que refere um género de apocalipse zombie passado em terras da Península Ibérica onde não falta acção e guerra – algo que é pouco usual encontrar em autores portugueses. E esta é uma das principais características da escrita de Bruno Martins Soares, talvez por influência de outra das actividades do autor – escritor de roteiros de cinema.

Quem me segue sabe que dou primazia à narrativa num livro: ao (bom) desenvolvimento de personagens acima de pensamentos filosóficos, à sucessão de episódios lógicos acima de jogos de palavras com significado dúbio. Laura and the Shadow King apresenta estas características, preferindo dar força à velocidade da acção, ainda que dê mais importância à sucessão de episódios do que ao foco nas personagens.

A acção intercala várias personagens que se encontram em diferentes locais.  Se por um lado se foca nos operacionais militares que tentam manter algum controle sobre o território lusitano (ainda que existam grupos civis que mantenham o controle local) e que se debatem com o aparecimento de seres humanos suicidas (para além dos usuais humanos doentes e contagiosos); por outro, apresenta uma dupla mãe-filha que tenta escapar das garras de uma facção russa em território espanhol – uma dupla que tem um papel fulcral no crescimento da facção.

Entre descrições de operações no terreno e pequenas batalhas militares, encontramos a dupla em fuga por territórios perigosos e inóspitos. Mas ambas possuem um dom que as irá manter a salvo mais do que uma vez – um dom que pode ser determinante para o futuro da humanidade.

Utilizando a experiência noutras áreas, Bruno Martins Soares consegue dar ao enredo o devido tom de urgência. Existem vários episódios que conseguem transmitir a tensão de estar no terreno – mesmo quando não existe confronto o ambiente é de alerta e qualquer movimento suspeito poderá iniciar uma rápida troca de agressões. Com várias referências às munições utilizadas (que darão outro gosto a quem as reconhece) a história tem um grande foco militar numa situação de apocalipse, mantendo um ritmo elevado.

Mas não pensem que a história é só militar. Apesar de todos os detalhes nessa componente, a história centra-se muito na relação entre a mãe e a filha, uma relação de amor e dependência em torno da qual toda a história irá se centrar. Se, por um lado, a mãe quer fugir da facção russa a todo o custo, a filha pensa apenas na presença da mãe e em como responder adequadamente às expectativas nela depositadas.

Laura and the Shadow King tem algumas arestas por limar – sobretudo na caracterização de personagens e na forma rápida como as introduz, não dando grande espaço para o leitor respirar. Mas, tratam-se de arestas. São poucos os autores portugueses capazes de conduzir uma história com esta velocidade e Bruno Martins Soares consegue fazê-lo. Ainda que esta história possa ser lida isoladamente, existirão mais livros no mesmo Universo.

Foundryside – Robert Jackson Bennett (Founders Vol.1)

The City of Stairs e The City of Blades (dois volumes da trilogia The Divine Cities – ainda não li o terceiro) são dois dos melhores livros de fantasia que li nos últimos anos.  Neles, o autor leva-nos para um mundo em que duas civilizações se opõem – duas civilizações construídas em desenvolvimentos opostos. Se numa as cidades são construídas recorrendo à magia e à vontade dos deuses, na outra os desenvolvimentos são científicos e as construções são obras de engenharia. O mundo construído nesta trilogia é fascinante e Robert Jackson Bennet faz um trabalho excepcional a desenvolver personagens pelas quais é fácil torcer.

Neste caso, Foundryside, Robert Jackson Bennet repete a fórmula – constrói, novamente, um mundo fantástico com uma premissa simples mas fácil de escalar. Ao longo das páginas o conceito atinge maior complexidade, mas consegue manter sempre a coerência sólida que é necessária para manter satisfeitos os leitores mais exigentes. A par com a construção do mundo, o autor distingue-se, também, como constructor de personagens, desenvolvendo poucas mas de forma eficiente e conseguindo criar forte empatia.

Em Foundryside – o primeiro livro num novo mundo fantástico que possui uma história auto contida; a realidade pode ser transformada recorrendo à escrita numa linguagem específica, a linguagem dos antigos. Podemos, desta forma, dizer a um pau de madeira que  é tão duro quanto um de ferro, ou que, quando lançado, a terra se encontra em frente levando-o a atingir maior velocidade do que o que deveria pelo simples exercício da força de lançamento. Como algumas instruções são demasiado longas, existe a necessidade de criar léxicos (cuja influência se exerce sobre uma área contida), sendo que no objecto se coloca apenas a referência a esta instrução.

Nesta realidade a linguagem é controlada por Casas que funcionam numa espécie de sistema feudal. Cada Casa possui a sua própria cidade, rodeada por muralhas intrasponíveis e portas que são abertas para quem detém a chave certa – tudo controlado pela própria linguagem. O poder é transmitido de pais para filhos e os restantes seres humanos da cidade são meros trabalhadores. No exterior de todas as cidades, num local sem lei, encontram-se os restantes seres humanos que tentam sobreviver recorrendo a actividades pouco legais.

É neste mundo que encontramos Sancia, uma ladra. Devido à sua peculiar capacidade de sentir o que aconteceu com aquilo que toca, Sancia foi contratada para roubar um pequeno cofre numa zona perigosa – um cofre que não deverá abrir e que lhe renderá o valor de que precisa para se curar. A mesma capacidade que a leva a ser uma ladra excepcional é também o tormento que a impede de tocar livremente em tudo o que a rodeia. Depois de várias peripécias, o roubo é bem sucedido, mas torna Sancia num alvo a abater por demasiadas facções. Curiosa, acaba por abrir o cofre descobrindo uma chave antiga que é capaz de abrir qualquer porta – e de falar com Sancia.

De premissa peculiar, original e fantástica, Foundryside torna-se rapidamente numa leitura frenética que envolve e fascina. Apesar de ter alguns (poucos) momentos menos fortes, o autor sabe conjuntar as características do mundo criado com o desenvolvimento da personagem levando-nos por uma sucessão de episódios movimentados. No final, ficamos a querer mais histórias no mesmo mundo – e que mais pode querer um autor que planeia mais alguns livros nessa mesmo Universo? É, sem dúvida, um autor para continuar a seguir!

Novidade: H-Alt N.º8

A H-Alt anuncia o lançamento do oitavo volume com uma selecção de 17 histórias de vários autores e vários géneros. Para mais informações sobre este projecto podem consultar a página oficial.

A imagem da capa é da autoria do consagrado concept-artist e autor de BD espanhol Marcos Mateu-Mestre, estando o seu trabalho em destaque nesta edição. Aparece também uma breve entrevista exclusiva com ele. Na secção Descobrir falamos um pouco sobre a editora Imaginauta.

 

 

 

 

Resumo de Leituras – Junho de 2019

37 – Black Hammer – Vol.2 – O segundo volume continua a história do grupo de super heróis encurralado e semi enlouquecido, mostrando o resultado das tensões acumuladas que se soltam com a chegada de uma jovem, a filha de um dos falecidos super que serve como elemento catalisador para a narrativa;

38 – O Homem Vazio Volume sombrio de terror, O Homem Vazio é uma narrativa competente de horror que nos trás uma espécie de fenómeno sobrenatural memético, em que as pessoas vão sendo contaminadas por uma vontade de se entregarem a fins pouco lógicos;

39 – Winepunk – Vários autores – Apenas agora o inclui na listagem, apesar de o ter lido há alguns meses. A ideia é original, a concretização é fantástica. O volume destaca-se sobretudo pela forma como utiliza factos históricos para criar uma realidade alternativa de grande teor português. Um dos grandes lançamentos do ano.

40 – Laura and the Shadow King – Bruno Martins Soares – É o primeiro livro que leio do Bruno Martins Soares em inglês. A história é movimentada e emotiva, retratando um apocalipse da humanidade no seguimento de uma doença que aproxima os humanos de zombies. Ou pelo menos de seres irracionais, violentos e pouco inteligentes. Mas ao contrário de livros que decorrem em apocalipses zombies, a narrativa tem, neste caso, espaço para explorar relacionamentos e interacções humanas e dá grande foco à empatia.

Novidade: Bug Vol.1 – Enki Bilal

Com a proximidade do Festival de Beja, a Arte de Autor anuncia o lançamento do primeiro volume de BUG (estando o lançamento do segundo já agendado para Outubro):

Num futuro próximo, numa fração de segundo, o mundo digital desaparece, como se sugado por uma força inexprimível. Um homem encontra-se só no meio da tormenta, cobiçado por todos os outros.
BUG significado
Em português: erro ou falha na execução de programas informáticos, prejudicando ou inviabilizando o seu funcionamento.
Em inglês: inseto, bicharoco ou vírus.

Enki Bilal, denunciante! O que acontecerá se a raça humana abandonar sua memória apenas à tecnologia? Ao contar o BUG do ano de 2041, o artista assina um thriller de antecipação nervosa em que os destinos íntimos se chocam com o caos de um mundo em completo apagão. Na continuidade direta de Monster e Coup de Sang, Bilal continua seu trabalho orwelliano e shakespeariano.