Novidade: Saga Vol. 8

Uma das melhores séries de banda desenhada em curso chega ao oitavo volume no mercado português, sendo que o nono está programado para o Verão de 2019 e em 2020 o décimo (os autores decidiram fazer uma pausa maior entre os volumes da série). Deixo-vos a sinopse bem como algumas páginas disponibilizadas pela editora:

SAGA narra a luta de uma jovem família para encontrar o seu lugar num universo vasto e hostil, e já foi descrito como um encontro entre a Guerra das Estrelas e Romeu e Julieta no espaço. Depois dos eventos traumáticos da Guerra por Phang, Hazel e a sua família e companheiros iniciam uma aventura que os irá mudar para sempre, nos limites mais distantes da galáxia. E teremos a oportunidade de descobrir o que aconteceu a Ghüs e à Vontade!

Fantasia e ficção científica – e sexo, traição, morte, amor verdadeiro e vinganças obsessivas – juntam-se como nunca antes neste épico subversivo e provocante do escritor Brian K. Vaughan e da artista Fiona Staples, que questiona incessantemente as narrativas e preconceitos do nosso tempo através do contraste com o seu mundo surreal e bizarro.

“O génio de SAGA não está só no seu argumento hábil e inteligente ou na sua arte maravilhosa, mas na simples e tremenda coragem de ter uma aristocracia robot, assassinos com corpo de aranha, e uma gata mentirosa incrivelmente cativante. Esta explosão de ideias que existe em SAGA de algum modo condensa-se e transforma-se na mais essencial das bandas desenhadas modernas.”

– THE IRISH TIMES

SAGA já venceu doze Prémios Eisner – o galardão máximo da banda desenhada anglo-saxónica – entre os quais prémios para Melhor Série em Continuação, Melhor Nova Série, Melhor Argumento e Melhor Arte. Foi também premiado com o Hugo para Melhor História Gráfica – os Hugos distinguem a melhor ficção científica publicada em cada ano, e com uns incríveis dezassete Harveys, que premeiam os melhores comics independentes, incluindo Melhor Argumento, Melhor Artista, e Melhor Nova Série.

O volume 9 está programado para o início do Verão de 2019 em Portugal. Os autores fizeram uma pausa na produção da série, que deverá regressar depois em 2020 com o volume 10.

 

 

Futuroscópio – Miguel Montenegro

Em Futuroscópio o autor explora uma série de premissas futuristas, levando algumas das tendências actuais da nossa sociedade ao extremo – o extremo da vigilância, o extremo da estupidificação em massa, o extremo do afastamento da verdadeira ciência ou o extremo na entrega total à tecnologia.

De pequena história em pequena história, Miguel Montenegro debruça-se nas grandes questões sociais do presente mostrando sociedades distópicas onde, por exemplo, saber ler é grave, e ler um livro é crime passível de recondicionamento e estupidificação forçada do leitor. Ter capacidade de pensar, também. Aliás, o pensamento é algo que deve ser deixado de parte!

Noutro caso um jovem denuncia a medicina como prática incerta e baseada na crença, uma série de falácias que poderão ser prejudiciais à população. Pior do que ser condenado, o jovem é englobado na classe médica para, ele próprio, engordar das riquezas da classe e perceber as vantagens das práticas aplicadas.

Se por um lado assistimos à desvalorização da vida humana, por outro, esta, a vida, é mantida a todo o custo, mesmo quando alguém está cansado de viver eternamente, aspirando apenas a conseguir eliminar-se. A felicidade é uma espécie de imposição vazia, baseada em elementos supérfluos.

Nestes contos o futuro não é risonho e apesar de haver uma aparente felicidade dos cidadãos (da ignorância vem a felicidade) o futuro desenhado é um beco sem saída, sem evolução possível, uma regressão da humanidade que deixa, como  legado, a tecnologia, mas cuja inteligência dos humanos existentes não a poderia originar. Para o leitor trata-se de um constante contraste com tal mundo, que a mim me pareceu assustadora – não pelo retrato em si mas pelo receio da concretização de tal perspectiva extrema.

Miguel Montenegro explora, ainda, a sexualidade e as questões de género em três componentes distintas e bastante diferentes. Numa primeira, apresenta uma sociedade onde todos são fisicamente iguais, combinando os seus genes consoante a compatibilidade determinada por um programa. Querer ter um género é considerado uma traição e um desvio psicológico.

Noutra história, os “típicos” papéis encontram-se invertidos, com os homens a cuidar da casa e dos filhos, e as mulheres a desenvolver uma carreira e a terem um comportamento desrespeitoso e condescendente para com o outro género. No terceiro apresenta-se um cenário misógeno, de exercício de poder para dispor sexualmente das mulheres, quebrado por uma feminista que acaba por enfrentar a representação tradicional feminina.

Com este volume Miguel Montenegro demonstra ser capaz de duas coisas: capacidade em contar histórias e capacidade em apresentá-las graficamente. Por um lado as histórias apresentadas não são fáceis. Tratam-se de histórias futuristas e distópicas onde, sem grande introdução, conseguimos perceber o que acontece e onde, apesar de existirem temáticas já exploradas por outros autores, se reconhece um cunho próprio, um tom de ironia e crítica que consegue prosseguir por finais menos felizes (e por vezes, inesperados).

Por outro, apesar da complexidade das histórias, estas apresentam-se graficamente de forma competente e percetível, com capacidade para transmitir emoções e expor episódios de acção, resultando num volume de bom aspecto visual e de bons momentos narrativos.

Este volume foi publicado pela Arcádia, mas alguns destes contos já tinha encontrado em volumes anteriores de Apocryphus.

Outras publicações do autor:

Assim foi: Comic Con 2018

Fui pela primeira vez à Comic Con! Por um lado porque decorre em Lisboa, por outro porque fiz parte do júri dos Galardões Comic Con e porque ia apresentar o painel do Daniel Rodrigues no Domingo. Eis um pequeno apanhado sobre o evento: o bom, o mau e o vilão. Claro que, dados os meus interesses, o meu comentário centra-se nas vertentes que mais aprecio: livros, banda desenhada e jogos de tabuleiro.

Espaço dedicado à série Walking Dead

Acessos

Este foi, no Domino, O Vilão do evento. Pelo menos porque nesse dia houve condicionantes adicionais que, não sendo culpa da organização dificultaram o acesso ao evento.

O problema do acesso começou com estradas cortadas por uma corrida na marginal (ou algo do género). Talvez por esta razão, no Domingo, o estacionamento era inexistente. Fomos até Belém sem perspectiva de lugar. Optámos por fazer o resto do percurso de táxi mas nem este pode passar, algo que não é usual. Mas se até posso compreender que para nós os acessos fossem tão distantes. Mas vimos algumas pessoas com mobilidade reduzida (cadeira de rodas) que tiveram de fazer o percurso todo até à entrada do evento.

Saída de Emergência na Comic Con

Restauração

Li vários comentários referindo a pouca variedade de comida. A experiência, do nosso ponto de vista não foi má, considerando o tipo de evento e a expectativa que tinhamos. Quando quisemos comer, escolhemos e recebemos a comida em 5 minutos e até tivemos lugar sentados à sombra. Não vi confusão nem grandes filas e havia várias mesas espalhadas ao sol (demasiadas ao sol). A diversidade não era muita e não era barato. Mas também não achei excessivo para além do esperado.

Programação

Decididamente, O Mau. Uma confusão. A forma como é feita a divulgação e se encontra a informação na página oficial tornou difícil perceber, antes e durante o evento, quem estava onde, quando e a fazer o quê.  Vários autores e editoras tinham as duas publicações separadas, e os autores oscilavam entre o programa oficial do evento e o programa paralelo.

Para poder optimizar todas as presenças que me interessavam no evento, tinha de despender bastante tempo, coisas que não tive.

Espaço – Mapa e indicação

O evento dispunha de bastante espaço para se estender(O Bom). Mas faltavam indicações e organização. Cada stand estava voltado para o seu lado, e ainda que tivessem a mesma temática, não pareciam orientados para rapidamente se perceber a totalidade da oferta. Ainda, as indicações eram escassas – para alguém que pretendia estar em determinado local em determinada hora, houve alturas em que andei feita uma barata tonta. Ah. Quase me esquecia. Casas de banho. Costumam ser a parte esquecida da equação (excepto quando estão em estado miserável). Não vi muitas queixas nesta componente, o que, de si, é excepcional para um evento deste tamanho.

Os mais pequenos

Não levámos crianças ou jovens connosco, mas reparei que existiam várias actividades e espaços de que podiam dispor e divertirem-se!

O Espaço dos mais pequenos

Banda desenhada

Entre apresentações, sessões de autógrafos e stands, esta vertente estava bem representada mas parecia dispersa, sem aproveitar a totalidade dos interessados nessa componente:

  • Artist’s Alley – apertada, confusa e escura. Existiam várias bancas em que teria parado mais tempo se houvesse espaço, mas os visitantes acotovelavam-se. Existiam artistas semi escondidos e não era fácil dar com eles e deparei-me como autores convidados (Rubín, por exemplo) que não sabia que ia estar nesta zona no Domingo. Optei por contactar rapidamente aqueles que tinham livros que queria comprar, pedir os respectivos autógrafos e fugir. Sem dúvida O Vilão desta componente. Os autores que pagaram para expor o seu trabalho mereciam muito melhor;

 

Miguel Montenegro com o seu novo livro, Futuroscópio

Ricardo Venâncio

Pepedelrey

 

  • Painéis – alguns espaços encontravam-se rodeados de barulho, o que não facilitava a audição;
  • Autógrafos – confesso que não tive oportunidade para explorar esta vertente, dado ter planeado algumas entrevistas para o programa de rádio (vamos lá ver se possuem qualidade suficiente) mas várias pessoas que foram com o objectivo de recolher autógrafos se mostraram satisfeitas com o resultado – O Bom.

Jogos de tabuleiro

Talvez porque, em comparação com os videojogos, os jogos de tabuleiros não possuem, neste evento, a mesma quantidade de fãs, revelou-se uma parte com espaço suficiente para circular e comprar. Existiam bancas de várias editoras (a bons preços) e mesas para experimentar os jogos – O Bom.

Cosplay

Ainda que seja das vertentes do evento que menos me interessem, existiam fatos de grande qualidade, e de universos variados, conferindo um aspecto bastante interessante ao evento.

Steampunk

Existiam dois espaços Steampunk no evento, um com adereços próprios e informação, e outro dispondo um género de pavilhão de curiosidades, associado ao Custom Café (cujas fotos apresento a seguir).

Resultado

Quem lê parece que foi uma má experiência. Não foi. Também não foi excepcional. Para quem gosta de banda desenhada, livros e jogos de tabuleiro é um evento agradável, mas algo disperso. Esta dispersão sente-se em tudo: na comunicação das várias vertentes, tanto pública como aos que intervém nos painéis, ou na disposição da página web.

Compreendo que seja um evento de grande dimensão e que é a primeira vez neste espaço, mas existem vários elementos de pouco esforço que poderiam ter contribuído para uma melhor experiência.

Apocryphus – Vol.3 – Femme Power

Apocryphus surpreendeu positivamente nos primeiros dois volumes pela elevada qualidade de impressão e pelo aspecto gráfico. Já neste terceiro mantém a qualidade visual e aumenta bastante a qualidade narrativa, com pequenas histórias para todos os géneros que se centram em protagonistas femininas.

A primeira história, Scouting for girls, de Fernando Lucas, traz-nos um mundo decadente em guerra onde qualquer truque é bem vindo para passar a perna ao inimigo. Na segunda, Os níveis inferiores, o futuro continua deprimente, com argumento de Keith W. Cunningham e desenho de Miguel Jorge onde se apresenta uma sociedade distópica onde as rações podem ser cortadas àqueles que não contribuam da maneira desejada para a sociedade.

Em Suor e Aço, João Oliveira (argumento), Diana Andrade (Arte) e Mariana Flores (cores) colaboram para apresentar uma história em que os género masculino e feminino competem em igualdade. Já em Azul de Mariana Flores utiliza-se a arte como escapatória.

A Cura, a história de Maria João Lima (Argumento) e Ana Varela (Arte) apresenta uma perseguição pela floresta em busca de uma pessoa, enquanto em Femme Power de Miguel Montenegro se começa com um cenário misógeno quebrado por uma feminista que enfrenta a representação tradicional feminina.

Em Os Lobos de White Mist de Inocência Dias (argumento) e Daniel da Silva Lopes (Arte) apresenta-se uma história fantástica em que uma cidade se encontra coberta de espinhos e sem vida! Ainda que esta descrição seja conhecida, o desenrolar não vai de encontro às expectativas.

Este volume fecha com O Mito da Recriaçao, por Sofia Freire (Argumento), Felipe Coelho (Arte) e Fernando Madeira (Legendagem), uma história futurista em que os humanos deixam de ter caracteres primários e secundários de género por conta de uma intervenção!

Apocryphus regressa este ano com um terceiro volume de melhor qualidade narrativa, mantendo o nível gráfico a que já nos habituou. Entre cada história alterna-se o estilo e o resultado é um volume visualmente chamativo onde se denota o especial cuidado que houve em aumentar a presença feminina.

O terceiro volume esteve na banca na Comic Con mas encontra-se prevista uma sessão oficial de lançamento no Fórum Fantástico. Os vários volumes de Apocryphus encontram-se disponíveis na Convergência (este terceiro ainda não). 

O cogumelo vermelho – H. G. Wells

Este pequeno livrinho, comprado em segunda mão na Barata, contém três curiosos contos de H. G. Wells que pertencem à ficção especulativa, oscilando entre o fantástico e a ficção científica. No primeiro, que dá nome ao título, um homem sai de casa furioso, farto das festas que a sua esposa quer manter todos os Domingos, dia Santo, ameaçando a sua seriedade enquanto homem de negócios. É neste estado que encontra uns cogumelos vermelhos que ingere – o resultado há-de mudar o equilíbrio familiar para sempre!

Em A Estranha doença de Davidson um homem é atacado por uma maleita que o faz ver outra realidade totalmente diferente daquela em que se encontra. Confuso, vai recuperando a visão da realidade actual muito lentamente. O que afinal viu durante a doença será revelado, mas como e porquê permanecerá um mistério.

No terceiro conto, O novo acelerador, um investigador desenvolve uma poção que tem um efeito peculiar em quem a ingere – acelera a pessoa ao ponto de viver horas enquanto em seu redor passam escassos segundos. Neste caso tomam-na dois homens que conseguem atravessar a cidade sem que nada se mexa em seu redor.

Os três contos possuem elementos de ficção científica ou de fantástico, principalmente se considerarmos o desenvolvimento da ciência para a época. Os três contos são quase mundanos, levando os seus protagonistas a voltar à realidade banal. Notam-se alguns elementos discriminatórios mas são espelho da época em que o autor viveu.

O cogumelo vermelho foi publicado na colecção Mosaico.

Batman – O príncipe encantado das trevas – Vol.1 e 2 – Marini

Apesar de ser um herói peculiar, pela aura deprimida e soturna, não costumo ler muitos livros de Batman. Mas este, de Marini, tem tal qualidade gráfica que, quando o terminei, quase acreditava ter visto um filme e não lido uma banda desenhada. São varios os episódios movimentos e de confronto tenso, mas sem descurar os episódios mais pausados e introspectivos, demonstrando mestria na componente narrativa, de grande envolvência.

O príncipe encantado das trevas alterna o foco entre dois casais peculiares – o de Batman com a Catwoman, e o de Joker com Harley Quinn. O aniversário de Quinn aproxima-se e Joker irá tentar obter o presente perfeito. Falhando redondamente e enfrentando a fúria da sua apaixonada de humores flutuantes – não sem, pelo meio, chacinar a quase totalidade da sua equipa de bandidos contratados. Salva-se um anão com tendências suicidas e comentários cínicos e depressivos.

Um plano para arranjar um novo presente para Quinn surge quando uma mulher vem a público acusar Bruce Wayne de ser o pai da sua filha. Joker rapta a miúda com o objectivo de manipular Batman mas não conta com o carácter destemido da criança, nem com a fúria do herói que irá virar a cidade do avesso para encontrar o esconderijo de Joker.

Os dois volumes de O príncipe encantado das trevas possuem um formato maior do que é habitual para os volumes da DC publicados pela Levoir, destacando o belíssimo aspecto gráfico desta história, em que Marini é narrador e desenhador, conciliando ambas as vertentes. A linha narrativa tem vários pontos previsíveis e as personagens correspondem aos usuais clichés de género (principalmente as mulheres, voláteis e incompreensíveis) mas o que se destaca é mesmo o aspecto gráfico.

Os dois volumes de O príncipe encantado das trevas foram publicados pela Levoir.

Novidade: Marvel Vol.1 Série 2- Thor

A colecção Marvel Especial tem segunda parte e começa com um volume de Thor, Guerra dos Reinos. Deixo-vos a sinopse, bem como detalhe de conteúdo e algumas páginas disponibilizadas pela editora:

A GUERRA DOS REINOS – As ações de Odin, o “pai-de-todos”, estão a gerar o caos nos Nove Reinos e está prestes a iniciar-se uma guerra a uma escala nunca antes vista. Malekith e os Elfos Negros estão a atacar Alfheim e Thor (Jane Foster) faz tudo o que consegue para os proteger. Mas os planos de Malekith são muito mais cruéis e que a aniquilação dos Elfos Brancos ou um ataque brutal que pudesse ser travado por Thor. Não… Os planos dele são unir os Elfos Brancos e­ Negros através do casamento com Aelsa, Rainha dos Elfos Brancos. Em Asgard a situação não está melhor. Odin ­levou a julgamento a sua própria mulher, a Lady Freyja. Com a “mãe-de- todos” a ser julgada e Heimdall na ­prisão, tem início uma autêntica guerra civil no seio de Asgard. Freyja, Loki e muitos outros tentam proteger o ­reino de Cul Borson, enquando Thor testa os seus poderes numa batalha contra o grande Odin.

Detalhe de conteúdo:

MIGHTY THOR (2015) #3-8 – POR JASON AARON, RUSSELL DAUTERMAN e MATTHEW WILSON

 

Resumo de Leituras – Setembro de 2018 (2)

164 – Morte – Neil Gaiman – Voltamos ao Universo de Sandman, mas desta vez centrados na irmã do senhor dos sonhos, Morte. Morte vive entre os mortais uma vez por ano. A sua vinda não passa despercebida entre uma série de personalidades fantásticas que a tentarão usar para os seus próprios fins;

165 – Dicionário cómico – José Vilhena – Neste pequeno dicionário Vilhena usa algumas palavras para expressar ironia e sarcasmo para com a sociedade, revelando duras verdades em curtos trejeitos;

166 – 100 Balas – Primeiro disparo, última rodada – O primeiro volume desta famosa série aparece pela Levoir em comemoração dos 25 anos da Vertigo, mostrando histórias completas. Neste volume percebemos que quem paga pelos crimes não é quem os comete. Quem sofre são os inocentes que afinal vão ter uma forma de corrigir as injustiças;

167 – Ether Vol.1 – Matt Kindt e David Rubín – A premissa de viajar entre mundos através de mecanismos fantásticos não é nova. Mas não é a novidade da premissa que aqui se torna interessante, mas a forma como é explorada, seguindo um homem dedicado à ciência que pretende explicar cientificamente os portais e as diferentes regras dos mundos em que viaja. Apesar de ter algumas falhas narrativas é uma leitura bastante interessante que me levará a comprar o segundo volume.

Novidade: Nova colecção Clássicos da Literatura Universal

A Goody lança nova colecção Disney no formato maior, melhor qualidade de impressão e com extras de outras séries anteriores como Fantomius. Deixo-vos a sinopse do primeiro volume, bem como previsão de lançamento e algumas páginas disponibilizadas pela editora:

Moby Dick

Nesta edição Apresentamos Moby Dick em versão banda desenhada com Patinhas e companhia a desempenharem os principais papéis. Este conhecido clássico é aqui apresentado com ilustrações cuidadas e um adaptação de argumento brilhante, que conferem uma dinâmica única a cada página da história. Apesar do traço de desenho e das tonalidades de cor serem bastante diferentes do habitual da BD Disney, a qualidade diferenciadora é ostensivamente revelada em cada plano da história. Moby Dick é uma narrativa na primeira pessoa, mais especificamente é o relato da viagem feito pelo marinheiro Ismael.

A viagem é feita no baleeiro Pequod e tem como principal objetivo caçar e abater a grande e feroz baleia branca de seu nome Moby Dick.

Pela Estrada Fora

Pela Estrada Fora foi escrito em apenas três semanas. O manuscrito foi revisto pela editora que, além de inserir pontuação na obra, eliminou cerca de 120 páginas do original. A obra, quase autobiográfica, conta as viagens de dois amigos pelos Estados Unidos da América e México, numa época em que todos os jovens sonhavam em realizar esse ato de liberdade. Vivia-se o ano de 1957 e o rock n’roll era a banda sonora de fundo. De imediato, esta obra foi bem recebida tanto pelo público como pela crítica, catapultando Jack Kerouac para a fama e para ser um dos mentores do movimento literário geração beat.

PLANO EDITORIAL
Volume 1 (144 pág.) // 30-08-2018

Moby Dick (inspirado no romance homónimo de Herman Melville)
>Pela Estrada Fora (inspirado no romance homónimo de Jack Kerouak)

Volume 2 (128 pág.) // 13-09-2018
>Drácula de Rat Stoker (inspirado no Drácula de Bram Stoker)
>Os Contos de Edgar Allan Patoe (inspirado nos Contos de Edgar Allan Poe)

Volume 3 (128 pág.) // 20-09-2018
>As Fantásticas Aventuras de Dom Patetone e do seu fiel escudeiro Miguel Mickancho (inspirado no Dom Quixote de La Mancha de Cervantes)
>Ilha do Tesouro (inspirado no romance A Ilha do Tesouro de Robert Louis Stevenson)

Volume 4 (128 pág.) // 27-09-2018
>O Mundo Perdido (inspirado no romance homónimo de Arthur Conan Doyle)
>Sir Lancelote e os Cavaleiros da Távola que Abunda (inspirado na lenda dos Cavaleiros da Távola Redonda)

Volume 5 (128 pág.) // 04-10-2018
>Mickeynix e a Confusão dos Gauleses (inspirado no universo Asterix de Goscinny e Uderzo)
>A Balada do Rato Salgado (inspirado em A Balada do Mar Salgado de Corto Maltese)

 

Os Monociclistas e outras histórias do ano 2045 – António Ladeira

António Ladeira volta-me a surpreender com este livro. Ainda que tenha sido publicado primeiro que Seis drones – novas histórias do ano 2045, li-os por ordem inversa, tendo tomado conhecimento da sua existência através do evento de lançamento do livro mais recente.

O livro começa com uma história num futuro pouco distante em que o papel, a caneta e o lápis são praticamente desconhecidos. Numa sociedade em que o imediatismo é ainda mais levado ao extremo, a possibilidade de escrever algo que possa durar décadas é uma espécie de mito mágico, mas vai ser possível para algumas crianças numa aula especial de um professor mais velho.

Na segunda história, Estás livre no Sábado?, tece-se uma paródia às escutas telefónicas, fazendo com que estas possam ser realizadas por encomenda, seja por empresas, seja por outras pessoas. Os ouvintes extra não só escutam os detalhes da conversa, como intervêm, defendo os interesses dos que os contrataram para escutar.

Numa sociedade distópica de extrema vigilância tecnológica, O Inspector destaca-se por conseguir, através da sua intuição treinada, antever resultados que a tecnologia demora dias a obter. Facilitando algumas contra ordenações de baixa importância (numa atitude condescendente) o Inspector vê-se de mãos atadas quando varios cidadãos aparecem com máscaras que simulam a sua cara, fazendo com que esteja em todo o lado e, simultaneamente, vigiando os ecrãs.

A grande história deste volume é a mesma que lhe dá título – Os Monociclistas. A reviravolta entusiasmante deste produto advém de um homem que se vê constantemente na sombra do seu irmão, de grande estatura e socialização fácil. Rapidamente se adaptam vias e se diminui espaço de circulação para carros e pessoas, e, até, se alteram restaurantes e casas, para que as pessoas se possam deslocar permanentemente nestes equipamentos.

Em A Galeria volta-se a demonstrar a sociedade distópica em que vivem estas pessoas, de vigilância extrema e manipulação, não havendo inibições em quebrar as resistências de um indivíduo numa entrevista de elevada agressividade pelas autoridades. Já em O Complexo este controlo se sente, mas de forma diferente, mostrando como alguns podem manipular o sistema para seu próprio proveito. A antologia termina com O Contrato, mais curto, mas de grande impacto.

Irónico e inteligente mas assustador, Os Monociclistas e outras histórias do ano 2045 reúne várias histórias de um possível futuro de grande controlo da população, controlo ao qual as próprias pessoas se submetem pelas vantagens que daí advêm. Estas histórias tornam-se assustadoras sobretudo por conterem sementes de possibilidades que reconhecemos no nosso quotidiano, desde a preguiça em dispor das próprias ferramentas para sobreviver, à maior dependência da tecnologia e ao impor de limitações na exploração do que nos rodeia, impondo uma redução de curiosidade e de inteligência.

Os Monociclistas e outras histórias do ano 2045 foi publicado pela On y va.

Outros livros do mesmo autor

Novidade: Apocryphus 3

O terceiro volume de Apocryphus será apresentado oficialmente no Fórum Fantástico mas, para os interessados, o editor irá apresentar o livro no Artist Alley, Eis mais informação e algumas páginas (magníficas) disponibilizadas:

Para Femme Power, foi pedido aos autores que criassem histórias com personagens femininos a conduzir a história e quinze autores chegaram-se à frente para criar oito histórias para o maior volume de Apocryphus até à data (104 páginas).
Fernando Lucas regressa à banda desenhada com o conto “Scouting for Girls“; Keith Cunnigham junta-se outra vez a Miguel Jorge para uma revolta espacial em “Os Níveis Inferiores“; uma modalidade desportiva pouco conhecida, dá-se a conhecer pelas mãos de João Oliveira, Diana Andrade e Mariana Flores em “Suor e Aço“; Mariana Flores trás também uma história de sua autoria em “Azul“; Fantasia e Ficção Ciêntifica juntam-se num conto de Maria João Lima com Arte de Ana Varela intitulado “A Cura“; Presente em todos os outros volumes, Miguel Montegro entitulou a sua história com o mesmo nome deste volume, “Femme Power“,  para aqui marcar a sua presença; também presente desde o primeiro volume, Inocência Dias regressa com a história “Os Lobos de White Mist” desta vez com a arte de Daniel da Silva Lopes e Sofia Freire escreveu “O Mito da Recriação” com arte de Filipe Coelho.
Em formato “script”, está também incluída a história (O)dor escrita por Nuno Amaral Jorge para o tema “Femme Power”.
Como habitual, o artista de capa é apresentado ao leitor numa entrevista e mostra de trabalho no interior. Desta vez é um incontído privilégio poder contar com o trabalho fabuloso de Sara Leal para a imagem deste terceiro volume.
Apesar de ter um modelo de trabalho e de distribuição tão diferente, Aporcryphus tornou-se rápidamente num projecto extremamente aliciante para os vinte e dois nomes já envolvidos desde a sua génese e vai continuar.

 

 

Lightspeed Magazine – Abril 2018

Este número começa com um excelente conto, What is Eve? de Will McIntosh, em que um grupo de crianças se vê num autocarro, envolvidas num programa especial do governo que poderá determinar o seu futuro. Novas demais para pensarem em programas de férias como decisivos numa profissão longínquoa, estas crianças vão para uma escola de condições excelentes, quase normais, não fossem os aparelhos de escuta e os auriculares que têm de usar permanentemente (e através dos quais podem receber ordens sobre o que dizer ou como se comportarem. Ah. E o estranho monstro que com eles frequenta as aulas.

De capacidades violentas (que exerceu rapidamente contra uma professora) este monstro empatiza com as crianças mas sente-se demasiado vigiado, monstrando uma atitude permanente de desafio contra a autoridade. Mas que razão poderá levar um programa secreto do estado a fechar umas quantas crianças na mesma sala que um monstro capaz de violência? A história consegue manter o interesse no mistério que se revela lentamente, fechando de forma elegante, mas deixando um arrepio sobre as possibilidades que explora.

Novela em histórias que se destacou em 2007 nos prémios literários asiáticos

Webs de Mary Anne Mohanraj é a segunda história e não desilude em relação à primeira. Nesta história os problemas de discriminação agudizam-se numa colónia humana noutro planeta. Não contra as diferenças raciais, políticas ou religiosas, mas contra aqueles que efectuaram diferenças estruturais nos seus corpos e que lhes permitem, por exemplo, voar. Comparativamente, a alteração de sexo é banal e até ignorada por estes propagadores de novos ódios.

Explorando a evolução dos relacionamentos humanos ao longo da vida, em que amizades e amores fortes se estabelecem mas, também, esmorecem sem se perceber a razão concreta para tal, a história alieniza-se da realidade actual para apresentar a discriminação levada ao extremo, como resultado do medo que gera o ódio cego e violento.

The Elephant’s Crematorium de Timothy Mudie é uma história menos coesa,  embarcando num quase New Weird, sonhador, ainda que tenha excelentes momentos em que a urgência apolíptica se faz sentir. Na realidade retratada a realidade está em quebra, levando a bolhas que impedem a comunicação e a viagem. Uma investigadora encontra-se em África para estudar elefantes, mas nesta nova realidade assiste à morte destes animais que se vão em chamas sem que se perceba a existência de uma fonte de ignição.

Já em Mozart on the Kalahari de Steven Barnes acompanhamos um jovem que tenta vencer a pobreza, almejando um sonho que o leva a realizar uma série de ilegalidades prodigiosas que provam a sua inteligência e o seu desespero. Também não é uma história perfeita, mas reflecte o desespero de um mundo em declínio ecológico e económico, em que os ricos conseguem safar-se das doenças e os pobres vivem condenados pelas suas limitadas possibilidades.

O livro de contos de Carmen Maria Machado já foi publicado em Portugal

A componente de fantasia abre com uma história de Carmen Maria Machado, The Old Women who were skinned, revertendo os tradicionais contos fantásticos – ou melhor – se calhar voltando. Os contos não são fofinhos e carregados de príncipes e finais felizes. Os reis dispõem dos seus súbitos como querem, e, apesar dos detalhes fantásticos, a vida das mulheres pouco vale neste mundo.

A place without portals de Adam-Troy Castro começa da forma como muitos contos fantásticos terminam: com uma criança a acordar de um sonho em que era a heroína num reino fantástico, e a aperceber-se de se encontrar num mundo normal. Ainda que a premissa seja interessante, a forma como este conto foi apresentado não me envolveu grandemente.

Em The Snow Train de Ken Liu apresenta-se um comboio misterioso que abrirá o caminho por entre a neve para os restantes, enquanto em Nitrate Nocturnes de Ruth Joffre se sabe em quantos dias se conhecerá a alma gémea. Enquanto o primeiro é uma boa história que se estende demasiado, o segundo envolve componentes como sexualidade e relações de poder entre géneros, mas de uma forma que não me convenceu totalmente.

Este número termina com Lazy Dog Out, uma Space Opera movimentada e envolvente, que opõe poderosos a trabalhadores e desconhecidos, tornando-se numa história de amor heróico num cenário de elevada tecnologia. É, portanto, uma história carregada de esperança na humanidade e na capacidade de vencer o bem, contrastando com a dura realidade apresentada noutras histórias deste volume.

Estas histórias encontram-se disponíveis gratuitamente. Basta clicar no título:

What is Eve?

Webs

The Elephant’s Crematorium

Mozart on the Kalahari

The old women who were skinned

A place without portals

The Snow Train

Nitrate Nocturnes

Portais – Octavio Cariello e Pietro Antognioni

Se a publicação de ficção científica é rara em Portugal, que dizer de banda desenhada de ficção científica? Surpreendentemente, nos últimos meses têm saído alguns álbums (que muitas vezes pecam por ser demasiado curtos) bastante interessantes, como é o caso de Ermal ou deste Portais.

Visualmente bem concretizada, Portais apresenta uma história futurista em que várias pessoas vão sendo transportadas pelo espaço e pelo tempo (sem consentimento) para uma época em que a sua presença será decisiva na luta pelo trono, para afastar o déspota que o detém – encontra-se a decorrer uma batalha complicada e estas figuras de outros tempos vão ser decisivas.

Se o início é quase pausado, dando espaço para percebermos o ambiente diferente de onde provêm estes elementos fundamentais, após esta apresentação a história condensa-se, introduz várias personagens e vários acontecimentos, num ritmo que carece de detalhes para o total entendimento.

Cruzam-se linhas temporais diferentes e resolvem-se conflitos, de forma bastante rápida, e com poucas explicações. Sucedem-se reviravoltas inesperadas e pequenas batalhas numa história que carecia de mais espaço para se desenvolver totalmente, tanto pela quantidade de personagens, como pelas várias, possíveis, linhas narrativas.

Não se entenda pelo comentário sobre a falta de espaço que não gostei da história. Pelo contrário. Apesar das páginas apertadas trata-se de uma boa história, com bons alicerces para a criação de algo mais, acompanhada por excelente visual, e a narrativa é forte o suficiente para nos deixar a querer mais.

Portais foi publicado em Portugal pela Polvo.

Novidade: Guia Turístico – Cidade Oculta

O próximo lançamento da Imaginauta é o esperado guia turístico especulativo para a cidade de Lisboa – um guia bi-lingue ilustrado que contém 13 históricas fantásticas sobre Lisboa, com autores bastante conhecidos em Portugal, como João Barreiros, ou João Ventura. Deixo-vos a sinopse:

Já todos os turistas sabem o que devem visitar em Lisboa, mas saberão eles o que não devem visitar?

No Guia Turístico – Lisboa Oculta (publicação bi-lingue em Português e Inglês) poderás encontrar as histórias 13 atracções de Lisboetas até agora ocultas.
Jantares secretos, Institutos paranormais, estátuas falantes, sereias e sons divinos, tudo isto e muito mais nesta edição ricamente ilustrada pelos Credo quia Absurdum

Resumo de Leituras – Agosto de 2018 (8)

156 – Os monociclistas – António Ladeira – Do mesmo autor de Seis Drones, apresenta uma série de contos numa sociedade com elevada tecnologia onde as premissas do lucro ou do controlo são levadas ao extremo, resultando em elementos distópicos ou até absurdos – comparável, claro, à nossa própria realidade e às modas resultantes do marketing que transformam temporiariamente o que nos rodeia;

157 – One-Punch Man – Vol.5 – One e Yusuke Murata – O herói continua na sua demanda em se tornar conhecido e em fazer a diferença apesar da baixa classificação que obteve ao licenciar-se como herói. A sua capacidade de eliminar qualquer monstro com um único murro torna-se um herói peculiar onde as cenas  de batalha são extremamente curtas, com pouca troca de galhardetes verbais;

158 – Hellblazer: Na Prisão – Brian Azzarello e Richard Corben – Eis uma personagem peculiar que se vê na prisão. A sua presença cria instabilidade entre os outros reclusos – sem se encaixar num grupo concreto, sem medo de se isolar, vai respondendo às tentativas de pressão por parte dos vários grupos existentes;

159 – O Último Recreio – Carlos Trillo e Horacio Altuna – Mas mais do que esta leve perspectiva de um novo renascer da humanidade, O Último Recreio retrata o desespero de milhões de crianças que se vêem sozinhas, sem a moralidade e as indicações dos adultos, sem saberem o que é correcto, traumatizadas – mas aprendendo constantemente com as interacções, voluntárias e forçadas.

O último recreio – Carlos Trillo e Horacio Altuna

Em O Último Recreio assistimos à mesma premissa do clássico O Deus das Moscas, agora com impacto mundial – quando um ataque biológio mata todas os adultos, as crianças vêem-se sozinhas no mundo, sem ninguém para as vigiar ou direccionar no que é correcto, sem capacidade de produção de alimentos, brinquedos ou desenhos animados.

Mas se em O Deus das Moscas as crianças apresentam uma maldade absoluta, mas organizada, que parece ter origem na ausência de moralidade e necessidade de integração social (com um perigoso jogo de poder), em O Último Recreio a abrupta ausência de adultos leva ao medo e ao desespero, ao descontrolo e à violência.

Que espécie de sociedade constroem as crianças? Como determinam quem são os líderes e o que farão para sobreviver? Os chefes determinam-se pela força física ou pelas armas. Para sobreviver exploram casas abandonadas e armazéns em busca de comida enlatada. Tal plano tem, claro, um fim e as crianças serão obrigadas a deixar as grandes cidades.

Para além do terror de se verem sem adultos, as crianças têm de enfrentar a realidade de estarem a crescer – as armas biológicas não só mataram todos os adultos, como matam aqueles que atingem a maturidade sexual. Começar a sentir desejo é, na prática, uma sentença de morte.

De fundo negro, a preto e branco, os desenhos detalhados mostram crianças transformadas em pequenos adultos, muitas sem a capacidade para separar o bem do mal, que acabam por se impor como conseguem. Algumas bloqueiam e isolam-se em ciclos de loucura. O mundo aqui retratado é duro e apresentado pela perspectiva desesperada de crianças desnorteadas.

O último recreio é uma leitura envolvente e de boa qualidade visual, apresentando o fim da humanidade como a conhecemos, e um possível recomeço, com os restos da tecnologia, sem que exista quem a saiba utilizar devidamente. Seria interessante ter assistido a um maior desenvolvimento da premissa, ainda que a história que nos seja apresentada aqui seja suficiente.

Mas mais do que esta leve perspectiva de um novo renascer da humanidade, O Último Recreio retrata o desespero de milhões de crianças que se vêem sozinhas, sem a moralidade e as indicações dos adultos, sem saberem o que é correcto, traumatizadas – mas aprendendo constantemente com as interacções, voluntárias e forçadas.

O Último Recreio foi publicado na colecção Novela Gráfica de 2018,  pela Levoir em parceria com o jornal Público.

Steampunk Internacional – Vários autores

Já falei, por diversas vezes, da importância na internacionalização, tanto de autores como de editoras, e na importância de se divulgarem iniciativas e de assistir às convenções nacionais e internacionais. Para quem está habituado a ler antologias de contos de outros países, rapidamente se percebe que o nível de Portugal não é o mesmo de outros países – temos alguns autores excelentes, mas são poucos e não existe um mercado ou editoras que apostem nos contos e, muito menos, em contos de novos autores. Existem, claro, algumas pequenas excepções (Imaginauta, Divergência, etc) mas estas são apostas mais recentes que ainda não têm um grande impacto no nosso mercado, apenas no nicho de quem gosta de ficção científica ou fantástico.

Posto isto, esta antologia é algo inovador no mercado português, resultando de uma ida do editor à Eurocon, onde estabeleceu contactos que lhe permitiram criar uma parceria com outras editoras europeias através da qual se publicou, conjuntamente, uma antologia Steampunk com autores filandeses, ingleses e portugueses.

Com autores reconhecidos internacionalmente no género (como George Mann) esta antologia tem excelentes contos, encontrando-se ao nível de muitas antologias internacionais de ficção científica. A antologia começa com uma história de Anne Leinonen onde se constróem belíssimos chapeús com raras capacidades – capacidades que não são perceptíveis por quem os rouba, resultando numa sucessão de episódios de consequências circulares.

A segunda história, de Meresmaa, é das minhas favoritas do conjunto, mostrando uma rapariga, órfã de pais, que tem de submeter aos caprichos do tio que agora dirige a fortuna que lhe deixaram. A rapariga pretende estudar, algo que, na época, não é bem visto, muito menos pelo tio que não quer deixá-la escapar à sua influência. Já em O Jantar Ateniense a dupla de autores faz uma homenagem ao desenvolvimento dos processos ginecológicos que permitiram que morressem menos mulheres com os partos.

Quatro Estações de Wither por George Mann é outro dos excelentes contos desta antologia, onde a dor da perda se cruza com o poder criativo, resultando numa homenagem monstruosa e na morte de várias pessoas. Já Jonathan Green com Engenharia Imprudente apresenta uma literal fuga de cérebros! Em Videri Quam Esse explora-se a possibilidade de mimetizar vida e de, consequentemente, se criar vida.

Fotografia da editora filandesa Osuuskumma-kustannus

A antologia fecha com mais dois contos de portugueses, Coração de Pedra de Diana Pinguicha e A Aranha de Pedro Cipriano. No primeiro conto alguém se confronta com as criações artificiais, semelhantes a si, enquanto no segundo uma espia aproveita a sua aparente fragilidade para desempenhar uma missão pouco provável.

O resultado conjunto desta antologia é bastante positivo, contendo alguns conceitos interessantes dentro do género Steampunk – a maioria das histórias encontra-se bem desenvolvida, chegando, até, ao nível do excelente e apresentando uma boa diversidade de premissas e de estilos. Apesar de possuir premissas originais estas não sufocam a narrativa, havendo espaço para apresentar histórias que entretém o leitor.

A antologia Steampunk Internacional foi publicada pela Editorial Divergência.

Resumo de Leituras – Agosto de 2018 (7)

152 – Bug – Ángel Miguel Martín – A vida de bicho pequeno não é fácil. Ainda por cima quando se vive em cima de um humano que se sente incomodado com tal presença minúscula na sua pele. De pequena história em pequena história assistimos aos acontecimentos na vida de um pequenino bicho – a vida é o que é e em cima de humano nunca se está em paz.

153 – Gente de Dublin – Alfonso Zapico – Com o mesmo nome do romance mais conhecido de James Joyce, Gente de Dublin centra-se no escritor, contando como se tornou num autor conhecido, e as oscilações que a sua vida sofreu, geográficas, amorosas e económicas que adiaram a publicação de algumas das suas obras;

154 – KM/H – Mark Millar – Nesta história acelerada existe uma droga que confere a capacidade de nos deslocarmos às mais altas velocidades sem necessitarmos de transportes – o tempo quase que para em torno de quem a toma. Um rapaz aproveita estas capacidades para formar uma quadrilha que rouba aos ricos e distribui aos pobres, ganhando, assim, grande notoriedade;

155 – O jogador de xadrez – David Sala – Adaptação do romance de Stefan Zweig, mostra intensos confrontos de xadrez. E se acham que a premissa pode ser aborrecida, desenganem-se e leiam – os confrontos tornam-se bastante intensos, principalmente pelo carácter e experiências de vida dos jogadores.

Artemis – Andy Weir

Não li o famoso Marciano de Andy Weir. Nem vi o filme. Apesar da curiosidade inicial, a excessiva fama levou-me a afastar da história durante uns tempos para não ir com excessiva expectativa. Apesar de ser do mesmo autor, este Artemis ainda não tem um grande histórico de fama, pelo que me resolvi a experimentá-lo.

Fluído e divertido, centra-se na personagem ideal – Jazz, alguém de bons princípios que seguiu um percurso à margem da lei, desviada pelas circunstâncias da vida e as más companhias. Ainda assim não se safa mal e gere o contrabando da cidade lunar, Artemis, tendo como objectivo acumular uma soma que a deixará confortável.

O livro começa com uma cena movimentada em que Jazz tenta regressar à cidade com toda a rapidez, depois de ter um problema técnico com o seu fato. Conseguiu-se salvar mas chumba o exame que lhe permitiria servir de guia para turistas, uma ocupação que lhe concediria uma maior remuneração.

Frustrada, continua com a ocupação legal de transporte de mercadorias que lhe permitem camuflar o contrabando – e é nessa altura que lhe propõem um outro tipo de trabalho, algo mais arriscado mas também com uma margem de lucro muito superior. Algo que a irá colocar no caminho de mafiosos que, felizmente, não têm agentes suficientes em Artemis. Ainda.

Demasiado centrado numa única personagem, muito inteligente e de imenso potencial, Artemis é uma leitura movimentada e divertida que nos leva à primeira cidade fora da Terra, com todos os constrangimentos que esta existência terá na sua construção e nos seus habitantes. O espaço escasseia, o ar é controlado, os possíveis incêncios são a prioridade máxima da cidade e a comida é sobretudo uma tentativa de reconstrução terrestre ou uma gosma de mau sabor.

É neste contexto que Artemis explora, com competência, as características do espaço (falta de atmosfera, pouca gravidade ou recursos locais) para nos levar por uma história de acção onde existem vilões relativos e bonacheirões prejudiciais. Existe uma tentativa constante de nos fazer simpatizar com a personagem principal (Jazz, a rapariga inteligente que se deixou levar por maus caminhos) que comigo nem sempre resultou – mas nem precisou de resultar para se tornar uma leitura absorvente.

Artemis foi publicado pela Topseller.