Resumo de leituras – Outubro de 2017 (6)

173 – The Overneath – Peter Beagle – Livro de contos de um mestre! Com algumas histórias excelentes e outras menos envolventes, não há que negar a capacidade de escrita do autor. Mesmo quando os contos são menos interessantes revelam-se bem construídos e coesos;

174 – Histórias de um rapaz mau – Thomas Bailey Aldrich – A infância e a adolescência do autor enquanto rapaz endiabrado e dado para as partidas e aventuras sem medir as consequências;

175 / 176 – Os trilhos do acaso – parte 1 e 2 – Paco Roca – Incidindo sobre os refugiados da Guerra Civil Espanhola, Os trilhos do acaso é um relato muito humano em torno de um refugiado que se tornou soldado e que acabou entre os franceses a guerrear contra Hitler. Actualmente é um velhote, um herói anónimo do qual ninguém sabe a história.

Miracleman – A Idade de Ouro – Gaiman e Buckingham

No primeiro volume construído por Alan Moore a personagem sofre várias evoluções começando como um herói quase linear na sua perfeição típica das perfeitas famílias americanas para se tornar num herói distante, com várias camadas de complexidade (não, a duplicação do conceito de perfeito não foi acidental). A personagem não evolui sozinha – tanto o traço como a narrativa que o envolve vão, também, ganhando novas interpretações e perspectivas.

Gaiman pega na história de Alan Moore apresentando-nos a sociedade humana que é construída após a grande batalha no final do volume anterior. Se Miracleman era uma figura distante no final da história de Moore, aqui é uma sombra omnipresente e poderosa que raramente é vislumbrada. Gaiman prefere contar a história dos que vivem no mundo utópico governado por Miracleman e outros sapientes superiores.

O volume começa por nos apresentar a longa subida por uma escadaria infindável por quatro pessoas que pretendem pedir algo a Miracleman. Não é uma subida a que todos saiam incólumes do ponto de vista físico ou psicológico. Entre várias ouras histórias conhecemos um amante humano de Miraclewoman que, conhecendo-a, já não consegue suportar a imperfeição física das outras mulheres.

Se os adultos vivem entre a nostalgia da perda e da transformação social, já as crianças estão num admirável mundo novo, percebendo que as situações improváveis aumentaram de probabilidade e que facilmente novos poderes podem surgir. Com a nova sociedade vieram as vantagens tecnológicas dos alienígenas que parecem transformar o presente e o futuro.

Mas nem todos são enquadráveis na nova sociedade. Assim conhecemos uma cidade onde ficaram os espiões, incapazes de sair do ciclo vicioso de pistas e frases indirectas e por isso incapazes de aceitar a simplicidade e frontalidade do novo mundo. É uma cidade estranha onde qualquer acção ou palavra pode ter duplo sentido e onde qualquer reacção tem de ter em conta todas as possibilidades.

A sociedade pode estar a caminho da perfeição, mas os humanos ainda são humanos e com a transição recente expressam ainda receios e medos, elementos que não são totalmente expurgados pelos diversos rituais e festas mundiais criados para o efeito.

Ainda que o tom do primeiro volume, construído por Moore, seja diverso, parece-me mais coeso em termos de direcção (mesmo percebendo que alguns percursos são abandonados e novos são introduzidos a meio da história).  Gaiman torna Miracleman numa personagem quase inexistente mas cuja sombra se faz sentir em cada mini história.

Gaiman abandona a personagem perfeita. Talvez porque Gaiman é excelente a apresentar histórias de personagens com falhas, personagens que duvidam de si mesmas e que, com as suas imperfeições se tornam mais cativantes para o leitor. Com estas explora a sociedade demonstrando, ao invés de apresentar em narrativa directa, a sua evolução.

Cada personagem é acompanhada por um estilo diferente, num intercalar que relembra, por vezes, em forma e exploração, Sandman. Talvez por ser uma leitura recente foi-me impossível não ver algum paralelismo na forma como pretende falar das suas grandes personagens mostrando o que ocorre em seu redor, ao invés de nos apresentar episódios em que estas sejam protagonistas.

Ao efectuar estas permanentes comparações, com Moore ou com Sandman, parece que estou a diminuir o Miracleman de Gaiman. Nem por isso. Miracleman de Gaiman é um volume intenso e inteligentemente tecido mas que não pode ser lido como uma continuação de Miracleman de Moore ainda que aproveita os seus fundamentos. Gaiman sabe contar histórias e aproveita este Universo para contar várias ao seu próprio estilo.

Miracleman – A idade de Ouro foi publicado em Portugal pela G Floy.

Novidade: Homem-Aranha Vol. 6

O sexto volume de Homem Aranha encontra-se nas bancas a partir de hoje! Eis informação sobre o conteúdo desse volume, bem como algumas páginas:

A comunidade de super-heróis conseguiu impedir uma invasão alienígena graças ao poder de precognição de um novo e misterioso Inumano chamado Ulysses. Todos concordam que ter esta capacidade de prever o futuro é algo extremamente poderoso e que acarreta uma tremenda responsabilidade. Mas será que é seguro confiar neste inumano e nas suas visões do futuro? Qual será a melhor forma de utilizar esta habilidade? São estas e outras questões que estão na base de uma tensão crescente entre os vários super-heróis, onde se inclui naturalmente o espetacular Homem-Aranha (Peter Parker)… e o jovem Miles Morales. É impossível escondê-lo: a comunidade de super-heróis da Marvel está prestes a viver um dos acontecimentos mais importantes da sua história.

Conteúdo

Guerra Civil II (Peter Parker)
Argumento: Christos Gage
Arte: Travel Foreman
Cores: Rain Beredo

Guerra Civil II (Miles Morales)
Argumento: Brian Michael Bendis
Arte: Nico Leon
Cores: Marte Gracia

 

Resumo de leituras – Outubro de 2017 (4)

165 – O lar da Senhora Peregrine para crianças peculiares – Ransom Riggs – Uma história mais voltada para um público juvenil com características engraçadas, falhando apenas nas coincidências narrativas que, não só simplificam a história, como fazem perder alguma credibilidade. Tirando este detalhe não é uma história condescendente e apresenta elementos fantásticos interessantes;

166 – Tempos Amargos- Étienne Schréder Antes de se tornar um conhecido autor de banda desenhada, Schréder foi um sem abrigo, entre a Bélgica e a França, bêbado e companheiro de diversos outros homens que, como ele, deambulavam com o único objectivo de conseguir mais um copo de vinho;

167 – Memórias do eterno presidente – Benoit Peeters Uma história pós-apocalíptica e distópica que mostra uma sociedade que paga o crime moral de, anteriormente, terem ascendido à categoria de deuses e ousarem manipular a Natureza. Um rapaz encontra um livro e é este encontro que abre um novo futuro;

168 – Fables Vol.14 Witches – Vários – Quando as fábulas pensavam que poderiam retornar aos seus Mundos após a queda do Império, eis que surgem novas ameaças, monstros fantásticos que se libertam e ameaçam as personagens dos contos de fadas.

Resumo de leituras – Outubro de 2017 (3)

161 – A Dança das Andorinhas – Zeina Abirached – Numa cidade dividida por um muro e por uma guerra, sair à rua para visitar um vizinho é uma pequena aventura mortal. Os sobreviventes que resistem na cidade agrupam-se em pequenos serões quase familiares enquanto os bombardeamentos e as más notícias continuam a chegar;

162 – Lágrimas na chuva – Rosa Montero – Livro de ficção científica que me passou despercebido aquando do lançamento, revelou uma extraordinária história futurista com humanos replicados de curta duração, alienígenas (alguns refugiados, outros nem tanto) e colónias fora da terra com legislação própria. Um cenário excelente para explorar preconceitos, racismo e manobras de manipulação de opinião pública;

163 – Clockwerx – Vários Graficamente excelente, possui algumas lacunas narrativas. A história é algo linear, mas o volume compensa pelos magníficos robots de aspecto retro no ambiente soturno de uma Londres há muito extinta;

164 – Cage – Azzarello, Corben e Villarrubia – A dureza das ruas nada é para o nosso herói ainda mais duro. Resistente às balas é mais susceptível aos murros e mostra numa história curta como se podem fazer más escolhas nos bairros mais pobres.

Novidade: Emal – Quando a Guerra Fria Aqueceu – Miguel Santos

Eis novo título da Escorpião Azul que parece interessante, que decorre numa realidade alternativa. Deixo-vos a sinopse e algumas páginas:

A Guerra Fria aqueceu e as super-potências devastaram o hemisfério norte com fogo nuclear. O 25 de Abril nunca aconteceu.

Milhares de refugiados fogem das ruínas de Portugal para o Ultramar, onde novos senhores da guerra competem com os últimos resquícios do Império. E esta é a história de um homem determinado a encontrar um sentido para tudo isto.

 

Resumo de leituras – Outubro de 2017 (2)

157 – A Súbita Aparição de Hope Arden – Claire North – O livro centra-se numa jovem que é facilmente esquecida por todos os que interagem com ela. Sem possibilidade de reter um trabalho ou qualquer tipo de biscate, resta-lhe a carreira de ladra. Apesar desta componente interessante, é no aplicativo que investiga que está a chama da história – um aplicativo que responde à aspiração de ser perfeito com dicas de compras e corte de cabelo que evolui para tratamentos estéticos e não só!

158 – I Am Legion – Nury e Cassaday – Uma banda desenhada coesa e pausada em que não faltam os episódios de acção, passada na Roménia ocupada pelos nazis durante a Segunda Guerra Mundial. Mostrando ambos os lados do conflito, integra a figura tradicional do vampiro nas conspirações vigentes;

159 – O Rei Macaco – Manara e Pisu – Visualmente brutal conta a história de um macaco que não se sente concretizado com o paraíso em que reina. Procura a imortalidade e procura concretização em algo mais, mostrando-se irrequieto e indisciplinado. Nas suas ausências o reino vai sofrendo transformações, trazidas pela religião, pela tecnologia ou pela política;

160 – Locke & Key – Small World – Joe Hill e Gabriel Rodriguez – Uma muito pequena aventura passada na casa das chaves que parece destinar-se a um público mais juvenil. A família que guarda a casa carrega a grande responsabilidade de controlar as chaves, e no aniversário de uma das meninas é-lhe dada a possibilidade de brincar com a casa de bonecas, uma miniatura que reflecte fielmente o que se passa em toda a casa real e que permite interacção directa com os objectos ou com as pessoas.

Novidade: Os Vingadores Vol.5 e Vol. 6

Eis informação sobre os dois mais recentes volumes da colecção Os Vingadores pela Goody, os volumes 5 e 6.

 

O quinto volume de Vingadores, série em publicação pela Goody, já anda nas bancas! Deixo-vos a sinopse, algumas páginas, bem como o detalhe do conteúdo!

Recentemente, o Esquadrão de Unidade juntou-se aos novíssimos e incomparáveis Vingadores para impedir uma fuga violenta de Pleasant Hill, a prisão secreta de supervilões da S.H.I.E.L.D., comandada por um cubo cósmico consciente. O cubo – com a forma de uma jovem chamada Kobik – restaurou a juventude e a vitalidade de Steve Rogers. O Capitão América está assim de regresso ao ativo, mesmo a tempo de enfrentar um novo e surpreendente desafio na forma de um velho conhecido vindo do espaço! Por seu turno, após o caos de Pleasant Hill, os novos Vingadores têm agora algum tempo livro para prepararem a sua base: um hangar abandonado em Nova Jersey que vai exigir muito trabalho… para desgosto de fiel mordomo, Jarvis. Para complicar as coisas o Visão sofre mais um ataque, ao mesmo tempo que o grupo tem de lidar com a visita de uma nova… Vespa.

 

Este volume reúne as seguintes histórias:

O Homem que Caiu na Terra
A
rgumento: Gerry Duggan
Arte: Pepe Larraz
Cores: David Curiel

Free Comic Book Day 2016 (Zumbido)
Argumento: Mark Waid
Arte: Alan Davis
Cores: Matt Holling-Sworth

Assuntos de Família
Argumento: Mark Waid
Arte: Mahmud Asrar
Cores: Dave McCaig

Free Comic Book Day 2016 (Guerra Civil II)
Argumento: Brian Michael Bendis
Arte: Jim Cheung
Cores:  Justin Ponsor

 

O sexto volume de Vingadores, série em publicação pela Goody, passará a estar nas bancas a partir de sexta-feira, dia 6. Correção – o sexto volume estará nas bancas a partir de Sábado, dia 7.

Deixo-vos a sinopse, algumas páginas, bem como o detalhe do conteúdo!

O jovem Nova descobriu que, afinal, o seu pai verdadeiro continua perdido no espaço e os Vingadores disponibilizaram-se para o ajudar nessa procura. A equipa acaba por ficar “presa” num planeta desolado onde se escondem perigos inimagináveis. Entretanto, Jarvis levou a nova Vespa (filha de Hank Pym com a sua primeira mulher) para conhecer o resto da família. O surgimento de um novo Inumano – com o poder de adivinhar o futuro – salvou Manhattan de uma catástrofe sem precedentes. Mas será que é seguro confiar neste “jovem” prodígio e nas suas visões do futuro? Qual será a melhor forma de utilizar esta extraordinária habilidade? Cientes que têm acesso ao poder tremendo de prever o amanhã, os super-heróis são forçados a fazer uma escolha: Proteger o Futuro ou Mudar o Futuro? Uma coisa é certa: nada será como dantes!

Este volume reúne as seguintes histórias:

Rumo às Estrelas
Argumento: Mark Waid
Arte: Mahmud Asrar
Cores: Dave McCaig

Guerra Civil II #0
Argumento: Brian Michael Bendis
Arte: Olivier Coipel
Cores: Justin Ponsor

Guerra Civil II #1
Argumento: Brian Michael Bendis
Arte: David Marquez
Cores: Justin Ponsor

 

Resumo de leituras – Outubro de 2017 (1)

153 – 1602 – Witch Hunter Angela – Bennett, Gillen, Hans – O mundo de Marvel 1602 foi iniciado por Neil Gaiman, mostrando uma realidade alternativa em que os super-heróis apareceram durante os primeiros anos dos Descobrimentos, durante o auge da Inquisição. Neste volume seguimos uma caçadora de bruxas, Angela, que se apercebe que as aberrações existentes podem ter uma origem diferente da que imaginava;

154 – Valerian Vol. 6 – Estação de Brooklyn – terminal do cosmos  / Os espectros de Inverloch – Christin Mézières – Este volume continua a aventura iniciada no anterior, opondo as capacidades de Valerian com as de Laureline, mostrando-o como um homem de acção que nem sempre tem bom discernimento e a Laureline como uma agente mais pensativa e inteligente;

155 – Killer of demons – Christopher Yost e Scott Wegener – Dave trabalha numa grande empresa e está envolvido na criação de grandes comerciais a favor do tabaco. O meio em que trabalha é pouco ético e demoníaco. Literalmente demoníaco. Dave está rodeado de demónios que só ele parece ver, a par com um anjo que o acompanha e o instiga a matar as criaturas – demasiado parecido com o brakedown psicológico? A dúvida fica no ar, mas os corpos continuam a cair;

156 – The Pro – Ennis, Conner, Palmiotti e Mounts – Numa aposta extraterrestre um alienígena decide provar que qualquer humano é capaz de acções nobres e, dessa forma, confere super poderes a uma prostituta. Claro que esta jovem nem sempre usa os seus poderes da forma mais nobre mas o contraste que cria é uma paródia aos super-heróis e à sua nobreza pouco real.

Memórias do Eterno Presente – Schuiten & Peeters

A história decorre num futuro pós-apocalíptico e distópico onde um rapaz descobre um livro. Farto dos mesmos ensinamentos não fundamentados e não explicados, o rapaz entusiasma-se com o livro que terá um conteúdo proibido – explicará o que existia antes do reinado actual, mostrando uma civilização que excedeu os limites da tecnologia e da ciência e, na sua arrogância, efectua experiências catastróficas.

Por todo o lado vemos pedaços da tecnologia existentes antes da catástrofes, grandes roldanas, transportes e mecanismos que não são mais usados de forma automática, mas empurrados à custa de trabalho braçal. A razão para o abandono da tecnologia é escondido dos comuns cidadãos e as perguntas são desencorajadas.

Quando chega o final do livro, o rapaz não tem mais medo. Faltam páginas e a curiosidade ultrapassa tudo o que lhe ensinaram. Deambula então em busca de respostas, algo que lhe explique a situação actual.

Com detalhes arquitectónicos deliciosos, construções minuciosas e sonhadoras, monumentos avassaladores e imaginativos, Memórias do Eterno Presente está impregnado de uma nostalgia contagiosa simultaneamente exacerbada e controlada pela censura vigente e pela culpa esmagadora.

Sente-se o peso da responsabilidade de tentar ultrapassar determinados limites tecnológicos, a paga por se tentar assumir o papel de Deus e construir aquilo que não deve ser construído por humanos – um sentimento comum a alguns clássicos, em que o medo da magia foi substituído pelo medo da ciência. Algo que podemos ver, por exemplo, em Frankenstein.

Aqui existe, no entanto, um pequeno renascer, uma esperança em prosseguir para além da estagnação imposta. O rapaz procura algo mais do que os escassos horizontes que o rodeiam numa atitude inesperadamente pouco submissa, uma atitude que é recebida com surpresa por aqueles que o rodeiam.

Ainda que a premissa não seja totalmente original, Memórias do Eterno Presidente apresenta uma abordagem própria que, em conjunto com as ilustrações, tornam este volume num conto delicioso, envolvente e interessante.

Outros livros do mesmo autor

Assim foi: Fórum Fantástico – as escolhas do ano

 

A minha selecção era um pouco mais alargada, abrangendo obras portuguesas como Lovesenda, Anjos e As nuvens de Hamburgo. Havendo sobreposição com escolhas de outras pessoas (e sabendo que iriam ser muito bem tratadas) retirei da minha secção.

Eis ligações para opiniões mais detalhadas dos livros escolhidos. Infelizmente o João Barreiros não tem blogue próprio (apesar de ter começado a transcrever algumas opiniões para um blogue próprio que deixei de ter tempo de manter).

 

Assim foi: Fórum Fantástico 2017

As diferenças

O Fórum Fantástico cresceu, este ano, de forma bastante positiva! Por um lado notou-se a forte aposta em workshops, o que possibilitou integrar camadas mais jovens e manter um programa mais dinâmico. A par com a usual (e fantástica) impressão a 3D organizada pelo Artur Coelho, houve espaço para desenvolver a imaginação dos mais pequenos, construir Zepellins e armaduras, ou para aprender um pouco mais de ilustração com Ricardo Venâncio.

Por outro, é de realçar a maior ocupação do espaço da Biblioteca Orlando Ribeiro que deu nova vida ao espaço – era impossível não reparar na tenda que ocupava parte do pátio com uma pequena feira do livro, onde se viam exemplares de livros de ficção científica e fantasia, sem faltarem os da autoria de Mike Carey, o escritor convidado deste ano. Nesta pequena feira do livro exterior encontravam-se a Leituria e a Dr. Kartoon.

Mas não foi só com a feira do livro que houve uma maior ocupação do espaço. O bom tempo permitiu a existência de bancas de produtos diversos, com especial destaque para o Steampunk (ou não estivesse a decorrer a EuroSteamCon integrada no Fórum Fantástico), bem como de mesas e cadeiras no exterior que permitiram usufruir do bom tempo. O terraço, bem como outras salas da biblioteca foram ocupadas, permitindo a apresentação de jogos de tabuleiro (com participação da Morapiaf) e a exibição de pranchas de Ricardo Venâncio.

E as diferenças não acabaram por aqui – a existência de um bar aberto durante todo o evento facilitou a permanência no Fórum Fantástico pois em anos anteriores era usual ter-se de deixar o recinto para comer alguma coisa. O menu, fantástico, possuía várias alusões ao evento e a comida fornecida era de boa qualidade (pela Cacaoati).

Mike e Linda Carey

Mike Carey produziu mais de 200 comics, vários livros e guiões para cinema. Com a adaptação para cinema de The Girl with all the gifts tem-se tornado cada vez mais requisitado. Por sua vez, Linda Carey escreveu também alguns livros (alguns sob pseudónimo). O destaque para a imensa obra, principalmente a de Mike Carey, serve para contrastar com o espírito que ambos demonstraram, sem prepotências ou projecções de importância, atenciosos e simpáticos durante todo o evento.

Na sexta-feira Mike Carey, conjuntamente com Filipe Melo e José Hartvig de Freitas, falou da larga experiência na produção de comics, da forma como trabalha com diversos desenhadores e da sua própria evolução e adaptação. Destacou-se a produção da série Unwritten, ideia que surgiu em cooperação com Peter Gross, com o qual já se habituou a desenhar. Foi uma palestra interessante e bem disposta.

No Sábado decorreu a conversa com ambos, Mike e Linda Carey, moderada por Rogério Ribeiro, mais voltada para os restantes livros (fora do formato da banda desenhada) onde se falou intensivamente do The Girl with all the gifts, que foi escrito em simultâneo com a adaptação, para cinema, da mesma história. Ambos os autores demonstraram uma queda para pequenos elementos subversivos nas suas histórias.

As restantes palestras de sexta

E com esta nomenclatura não pretendia referir menor prestígio das restantes palestras, mas sim destacar as que envolveram o autor convidado.

15:30 – Sessão Oficial de Abertura do Fórum Fantástico 2017

O Fórum iniciou-se na sexta (para mim, que não pude ir aos worksops) com uma sessão de apresentação de João Morales e Rogério Ribeiro onde expuseram algumas das diferenças deste ano e destacaram algumas sessões e workshops.

16:00 – Sessão “A Ficção Científica: Espelho de ansiedades políticas e pessoais”, com Jorge Martins Rosa, Maria do Rosário Monteiro, Daniel Cardoso e Aline Ferreira

Nesta sessão referiram-se várias obras e respectivas projecções das ansiedades sociais, não só em relação à evolução tecnológica e respectiva perda dos papéis tradicionais (com especial referência à mulher grávida e aos úteros artificiais), como a novos modelos sociais.

16:45 – Sessão “O lugar do Fantástico na Arte Contemporânea”, com Carlos Vidal, Henrique Costa e Opiarte – Núcleo de Ilustração e BD da FBAUL

A sessão apresentou a Opiarte enquanto espaço que permite, a alguns artistas, explorarem a vertente fantástica e de ficção científica nos seus trabalhos, espaço que visou responder a uma necessidade sentida pelos alunos da faculdade. Durante a sessão mostraram-se trabalhos produzidos neste núcleo, alguns dos quais se destacam pela qualidade.

17:45 – Sessão “Narrativa em Videojogos”, com Nelson Zagalo, Ricardo Correia e João Campos

(Cheguei no final)

As restantes palestras de sábado

14:30 – Sessão “Identidades autorais”, com Ana Luz, Joel Gomes e Pedro Cipriano

Os autores aproveitaram o espaço para falar sobre o seu percurso enquanto escritores, desde influências a desenvolvimento de método (destacando-se a referência de Ana Luz ao conto O Teste de João Barreiros), mostrando os livros em que já participaram, bem como os projectos futuros em que se encontram envolvidos.

16:00 – Lançamento “Almanaque Steampunk” (Editorial Divergência)

Cada EuroSteamCon costuma ser acompanhada pela publicação de um Almanaque Steampunk. O deste ano foi produzido em tempo recordo com a colaboração da Editorial Divergência. Ainda não tive oportunidade de ler, mas a publicação é curiosa, bastante atractiva visualmente, com conteúdos diversos e que promete bastante diversão para o leitor.

17:45 – Sessão “Prémio Adamastor”, com João Barreiros e Luís Filipe Silva

O prémio Adamastor este ano foi atribuído a João Barreiros e Luís Filipe Silva, dois dos poucos autores de ficção científica portuguesa que se têm destacado na divulgação do género dentro e fora do país. De realçar as várias antologias que João Barreiros organizou recentemente, bem como as colecções que organizou enquanto editor. Por seu lado, Luís Filipe Silva tem participado em diversas Con’s onde fala da ficção especulativa portuguesa, divulgando o que se fez em Portugal há várias décadas e o que se continua fazendo.

18:00 – Sessão “Dormir com Lisboa”, com Fausta Cardoso Pereira

Premiado e publicado na Galiza pela Urco Editora, Dormir com Lisboa é um romance de ficção especulativa que decorre na capital portuguesa, partindo da premissa de desaparecimento injustificável de várias pessoas. A passagem lida por João Morales denota um humor peculiar, com caricaturas de personagens e situações insólitas.

18:30 – Lançamento “Apocryphus #2”, com Miguel Jorge

Este projecto de banda desenhada português apresentou, no primeiro volume, uma qualidade gráfica excepcional, com elevado cuidado no tipo de papel utilizado e uma selecção cuidada de autores. À semelhança do primeiro volume, também o segundo foi publicado no Fórum, com a presença de tantos autores que por pouco transbordavam do palco.

Restantes palestras de Domingo

Infelizmente, Domingo apenas pude assistir à palestra do João Morales, Novas Metamorfoses Musicais, para além de participar em As Escolhas do ano com João Barreiros e Artur Coelho (sobre a qual dedicarei uma entrada específica para publicar as escolhas de cada um, como é usual).

A sessão de João Morales demonstrou o usual bom humor, com óptimas escolhas musicais onde se cruzam estilos e épocas, novas conjugações de musicas conhecidas em que destaco as seguintes:

(Venus in Furs: Versão portuguesa em Uma Outra História)

No final, há a destacar que o Fórum Fantástico é um evento TOTALMENTE gratuito, onde, todos os anos, várias pessoas se organizam para proporcionar, ao público, três dias de extrema diversão geek!

Clockwerx – Jason Henderson, Tony Salvaggio, Izu & Jean-Baptiste Hostache

Passado numa Londres alternativa, no final do século XIX, Clockwerx possui um ambiente Steampunk ainda que não se possa classificar como tal (a fonte de energia usada não é o vapor, antes um estranho mineral do qual pode ser extraída uma grande quantidade de energia).

Um pequeno grupo de condenados faz uma catastrófica viagem de barco, onde a chefe, Molly, perde um braço bem como alguns elementos essenciais do seu grupo. Ainda assim, o importante era salvar a carga transportada, feito que conseguiu realizar dada a sua teimosia e perseverança.

Em Londres as coisas não serão fáceis – na noite desaparecem pessoas, levadas por sombrios autómatos, e a sociedade secreta à qual pertenceu Molly vê-a como uma concorrente, alguém de poucos meios que poderá fazer alguma mossa aos investimentos existentes.

Graficamente interessante, este volume possui uma narrativa simples, de luta contra um vilão irascível, rodeado por algumas personagens que se podem dizer cómicas ao cumprirem um estereótipo. O pequeno grupo comandado por Molly é constituído por ex-criminosos que pretendem levar uma nova vida e por isso enfrentam um grupo bastante mais poderoso – mas simultaneamente demasiado convencido da sua invencibilidade.

Com um final que não é totalmente convincente (nem sequer justificado) Clockwerx é uma leitura mais interessante do ponto de vista visual do que pela narrativa. Os detalhes das máquinas grandiosas são fascinantes, máquinas de traços antigos e extensas capacidades e o cenário mostra uma Londres soturna, nublada e misteriosa onde tudo pode acontecer.

Resumo de leituras – Setembro de 2017 (6)

149 – Quatro? – Enki Bilal – Decorrendo no mesmo Universo que O Sono do Monstro, é o último volume de uma tetralogia. Mais imaginativo do que as obra recentes do autor, tanto em termos gráficos quanto narrativos, apresenta um mundo carregado de teorias de conspiração que se tornam reais em que as pessoas podem ser duplicadas, clonadas, perdendo o controlo da sua própria vida;

150 – Pirate Utopia – Bruce Sterling – Conceito engraçado e aspecto gráfico fantástico, possui uma premissa interessante, a criação de uma república pirata, semi anárquica. Uma ideia engraçada que serve mais para show of do que para concretização, com trechos interessantes mas que, na totalidade, não cativa;

151 – Histórias do Bairro – Gabi Beltrán e Bartolomé Seguí – O autor cresceu num bairro complicado e conta aqui as peripécias que faziam parte do seu quotidiano, as pessoas, sem futuro nem esperança que o rodeavam e como, pouco a pouco, se conseguiu distanciar do que o rodeava, num misto de vergonha e receio de tentar;

152 – A arte de caçar destinos – Alberto S. Santos – Contos envolvendo o sobrenatural português, alguns recordando lendas outros episódios quase vulgares, de tom díspar entre eles fazendo com que o conjunto seja algo confuso. No final safam-se alguns contos, de estrutura mais clássica aos quais não falta a mensagem moral.

Eventos: Fórum Fantástico – segundo dia

O programa de Sábado é bastante marcado pela vertente Steampunk (não estivesse a decorrer o EuroSteamCon no mesmo espaço) destacando-se os workshops de criação de Zeppelins ou de criação de armaduras e props, bem como duelos de chá e o lançamento do Almanaque Steampunk deste ano.

A parte da tarde é, ainda, marcada pela conversa I See Dead People entre Mike Carey e Linda Carey, bem como pelo lançamento do segundo volume de Apocryphus, dedicado ao crime – um livro com excelente aspecto visual que ainda não tive oportunidade de ler, mas que espero poder detalhar nos próximos dias. Estou, também, curiosa, quanto à apresentação de Dormir com Lisboa de Fausta Cardoso Pereira. Aproveito, para vos deixar algumas páginas de Apocryphus:

 

 

Rosa Montero – Lágrimas na Chuva

Talvez por causa do título, não reparei neste livro de ficção científica quando foi lançado. Não tivesse tido uma recomendação do João Barreiros aquando do lançamento de O Peso do Coração e não teria olhado duas vezes para nenhuma das obras de Rosa Montero. Aliás, a autora esteve recentemente em Portugal sem que tivesse dado por isso – não me recordo (pode ser um problema da minha memória) de ter visto qualquer menção entre blogues ou grupos de ficção científica.

E porquê o meu espanto? Bem, este é dos melhores livros de ficção científica que li recentemente. Passado no futuro e apresentando uma história rica em detalhes que explica a evolução dos seres humanos entre os dias de hoje e o ano de 2109, Lágrimas na chuva centra-se numa rep, uma humana artificial que é detective.

Rapidamente se vê no centro de uma grande manobra para ostracizar os reps, começando com uma tentativa de assassinato. A partir daqui é contratada para investigar a origem das memórias danificadas que provocam surtos de violência nos reps em que são introduzidos.

Entre a investigação conhecemos detalhes do Arquivo central dos Estados Unidos da Terra onde se explica a origem dos reps, a forma  como se libertaram da escravidão para a qual foram criados, a fundação de, pelo menos, duas colónias satélite com terrestres, e o encontro com outras espécies alienígena que deambulam na Terra.

Com todo este detalhe, importante na história e não apenas mero elemento decorativo, a história centra-se em Bruna, a rep detective. Os reps nascem com cerca de 25 anos biológicos, com um conjunto de falsas memórias que têm como objectivo dar-lhes um contexto, a ideia de uma família e de carinho, bases para uma personalidade própria e única. A vida de um rep é curta, não chegando a uma década.

A conspiração que Bruna encontra é contra os reps. Uma conspiração em larga escala que pretende erradicar estes seres humanos fabricados, em que a introdução de memórias danificadas em alguns reps induz comportamentos altamente violentos que, por sua vez, justificam a expressão dos discursos de ódio acumulados durante anos. Gradualmente, parecem legitimar-se as acções violentas e abertamente discriminatórias.

«-Incomoda-te saber que estamos fartos de vos aturar? Que não vamos deixar que continuem a abusar de nós? E, além disso, o que fazes tu aqui? Não te deste conta de que és o único monstro? (…)

Sim, definitivamente, o mais inquietante era que um tipo daqueles se sentisse suficientemente seguro e apoiado para insultar alguém como ela. »

Numa sociedade em que até o ar puro é pago e muitos humanos são obrigados a viver em zonas poluídas e marginais, expulsos por não serem capaz de pagar os elevados impostos de zonas melhores, a existência de reps bem sucedidos torna-se uma afronta, um bode expiatório para as desgraças pessoais.

Demasiado semelhantes aos restantes seres humanos, mas visivelmente diferentes (olhos de gato, óptimos para visão nocturna, e melhores reflexos, entre outros), com uma esperança de vida muito reduzida, os reps são suficientemente humanos para se sentirem isolados, e até falsos por conta das memórias que sabem fabricadas.

Coeso, Lágrimas na Chuva apresenta uma sociedade lógica, derivada dos acontecimentos do último século em que cada um dos elementos que possui está devidamente integrado na história e nas personagens. A história centra-se numa única personagem mas nem por isso fornece uma visão afunilada e não parece ter episódios desnecessários ou em excesso. Por tudo isto, Lágrimas na chuva é uma das melhores leituras dos últimos tempos.

Lágrimas na chuva foi publicado em Portugal pela Porto Editora.

Pirate Utopia – Bruce Sterling

Aspecto gráfico brutal e premissa fantástica – o que podia falhar? A concretização. Pirate Utopia apresenta uma realidade alternativa dentro do género Dieselpunk, onde piratas, guerreiros anarquistas, constroem o seu próprio mundo odiando fascistas e comunistas por igual.

O ambiente original é delicioso, com hordas de homens brutos a assistir a um filme delicado, em que se encontram relacionamentos pouco prováveis (e bastante mais platónicos do que prevemos).

Entre as várias fracções que possuem interesse na área contornam-se intenções e actos e tenta-se perpetuar este reino que, na nossa realidade, teve uma existência muito fugaz.

Cumprindo o papel de diversão, Pirate Utopia é uma história curta, mais intrincada do que por vezes seria necessário, que nos deixa, no final, a sensação de que não se chegou a lado algum. Ficam alguns bons episódios, divertidos e com tacadinhas históricas.

Outros livros do autor

 

Eventos: Mike Carey no Fórum Fantástico

Autor de ficção científica e banda desenhada, Mike Carey escreve, também, guiões para filmes. No formato da banda desenhada a sua obra é imensa, destacando-se a participação na Marvel (com X: Men Legacy ou Ultimate Fantastic Four) ou na Vertigo (Lucifer, Hellblazer ou The Unwritten). No formato de romance de ficção científica destaca-se The Girl with all the gifts, publicado em português como A Rapariga que sabia demais pela Nuvem de tinta).

Mike Carey vai estar presente no Fórum Fantástico, estando previstas duas sessões com o autor, uma sobre comics no dia 29 de Setembro:

18:30 – Sessão “Talking about comics…”, com Mike Carey, José Hartvig de Freitas e Filipe Melo

e outra no dia 30 de Setembro:

16:30 – Sessão “I See Dead People!”, com Mike Carey e Linda Carey

A sessão de autógrafos decorre às 17h15 no Sábado (30 de Setembro).

Resumo de leituras – Setembro de 2017 (5)

145 – A Biblioteca à noite – Alberto Manguel – Um livro apaixonante sobre bibliotecas e a sua dinâmica. Discorrendo sobre as várias bibliotecas, seja do ponto de vista de conteúdo, organização, disponibilidade (pública ou privada), Alberto Manguel constrói um livro fantástico para quem gosta de livros e de os ter organizados em prateleiras;

146 – Valerian Vol. 5 – Os Heróis do Equinócio / Metro de Châtelet – Direcção Cassiopeia – Christin Mézières – Duas histórias de Valerian bastante diferentes, a primeira pega num conceito romantizado de guerreiro que será imortalizado na regeneração de uma civilização, enquanto a segunda se centra em projecções monstruosas de origem desconhecida;

147 – Corto Maltese: A Juventude – Hugo Pratt – Um volume que nos apresenta a personagem enquanto jovem, dando-lhe um papel quase secundário – por diversas vezes referido, mas aparecendo apenas no final, a história dá especial destaque a um encontro entre Raspustine e Jack London, cruzando factos com ficção para dar realce ao surgir do espírito explorador de Corto Maltese;

148 – As melhores histórias de Donald & Patinhas – Don Rosa – Um conjunto de histórias mais compostas da Disney onde se exploram grandes tesouros perdidos, como a Biblioteca de Alexandria. Viajando pelo mundo, explorando o fundo dos mares ou as catacumbas de uma civilização perdida, estas histórias de traço mais detalhado do que vemos na maioria das histórias Disney, apresenta pequenas aventuras mirabolantes.

The Pro – Ennis, Conner, Palmiotti e Mounts

Garth Ennis, o autor de Preacher, The Boys, Just a Pilgrim, Punisher, entre outros, construiu, em 2002, uma paródia aos super-heróis, colocando uma prostituta a receber poderes sobrenaturais e a ter de enfrentar vilões à sua maneira, pouco digna, própria de quem se habituou a fazer pela vida e a aproveitar os poucos momentos em que se pode defender.

A história começa com esta mulher, indefesa, a tentar obter o dinheiro acordado previamente com o cliente. Sob a ameaça de uma arma foge para casa e recolhe o filho na ama, uma velhota irascível e mal-educada. Nesta altura uns alienígenas que fazem experiências com os terrestres atribuindo-lhes super poderes resolvem seleccioná-la com o objectivo de provar que qualquer um é capaz de acções nobres:

Any human can be a hero, my faithful robot assistant. For if there is one thing i have learned in my ceaseless vigil, it is that these strange creatures hold within them the potencial for endless evil and ultimate greatness.

Nessa mesma noite acorda com um esquadrão de super-heróis à janela, prontos para a enquadrar no novo ofício, nobre e honrado, mostrando-lhe que a remuneração associada é vantajosa. Aceita. Claro. Mas na sua primeira missão humilha o vilão urinando-lhe em cima o que levanta sérios problemas para a imagem polida dos super-heróis.

Cada um dos super-heróis é uma paródia a um conhecido, quase personagens de papel encarnando o cliché que lhe está associado, tornando-se imberbemente cómicos perante a profissional que desmancha, com cinismo, os pudores de quem se dá ao luxo de combater os vilões de forma  suave.

Entre missões a profissional volta ao ofício original, aproveitando os poderes para rentabilizar as horas de trabalho e para se vingar, e às colegas de profissão, de clientes afoitos que gostam de usufruir sem pagar ou que recorrem à violência. Sem sonhos românticos e sem restrições morais, a profissional contrasta e corrompe o verniz heróico, conseguindo mostrando-se mais correcta e verdadeira nas suas intenções.

Cínico, divertido e violento, The Pro parodia a banda desenhada de super-heróis, carregada de feitos nobres e mentes honradas, confrontando a dura realidade das ruas com as batalhas épicas dos heróis e criticando a forma como os super-heróis se distanciam dos problemas reais dos comuns mortais.

É um livro curto mas divertido, com uma história extra que apresenta uma outra mulher a quem os novos super poderes impossibilitam de um futuro universitário e, por essa razão, se vira para a prostituição. Ambas trocam experiências num pequeno episódio visualmente mirabolante.