Evento: O Fascínio das Histórias

No próximo dia 26, irá decorrer, na Gulbenkian, um evento que se centra na ficção especulativa. A programação inclui clássicos de ficção científica, e convidados como Alberto Manguel, Filipe Melo ou Rui Zink, e vai apresentando sessões sobre as várias formas em que estas histórias podem aparecer, desde filmes a livros, sem esquecer a banda desenhada, os videoclips e os videojogos.

Neste dia serão ocupados vários espaços, cada um com uma programação distinta. Aconselho-vos a consultar a página oficial do evento, mas abaixo deixo-vos um rápido resumo. Ainda que me alegra bastante ver desenvolvidas iniciativas como esta, onde há espaço para livros e filmes de ficção científica, o único elemento que me desagrada é o pouco envolvimento de autores do género, existindo vários, entre os convidados que se encontram naquele pseudo intelectualismo que pouco acrescenta a estes géneros da ficção especulativa

Grande auditório – filmes como Fahrenheit 451, Blade Runner,  Blade Runner 2049, o último episódio de Game of Thrones ou o documentário que levou à concretização do evento, O Fascínio das História. De destacar a presença de Rogério Ribeiro, o organizador do Fórum Fantástico, aquando da exibição de Game of Thrones;

Auditório 2 – várias palestras destacando-se Once Upon a Place de Alberto Manguel;

Auditório 3 – dedicada a palestras sobre as histórias do cinema;

Sala 1 – com três palestras diversas, uma sobre o Dicionário dos Lugares Imaginários, outra sobre o tempo e uma terceira sobre distopias / distopias;

Sala 2 – focada na literatura, com palestras, e intervenção de autores como Rui Zink ou Afonso Cruz;

Sala de ensaio do coro – dedicada a biografias;

Sala de ensaio principal – onde se fala de videojogos, séries de televisão e videoclips.

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Resumo de Leituras – Outubro de 2019 (2)

85 – Sentinel – Luís Louro – Luís Louro continua no mesmo tom de Watchers, mostrando uma personagem que se fartou da figura dos observadores que perturbam o quotidiano e parte para uma vingança louca e desmedida. O tom visual continua fabuloso, numa história de uma Lisboa futurista, paralela à nossa que é usada como crítica social num enredo mirabolante;

86 – Legendary Horror Stories – Vários autores – A primeira publicação de uma das lojas de banda desenhada de referência em Lisboa traz-nos histórias dos mais conhecidos autores nacionais. O resultado é agradável, com curtas com bons detalhes narrativos e desenhos fabulosos;

87 – Sweet Tooth – Book Three – Jeff Lemire – A história termina neste terceiro livro, trazendo-nos simultaneamente, o culminar de uma civilização e o nascimento de uma nova, mais equilibrada com a natureza;

88 – Rat Queens – Vol.2 – Kurtis J. Wiebe, Roc Upchurch, Stjepan Šejić – Se tinha achado o primeiro volume leve e agradável, uma leitura engraçada que não chega ao extraordinário mas que pode servir para limpar a mente, neste segundo volume, a história pareceu-me ter perdido o foco e entra por uma resolução narrativa pouco lógica. Sim, estamos a falar de um mundo fantástico, mas a sucessão de acontecimentos deveria reger-se por uma linha lógica.

As tendências da Ficção Científica Mundial – Fórum Fantástico

Mal tive tempo para anunciar o Fórum Fantástico, mas passo aqui rapidamente para indicar que amanhã, sexta feira, começa a mais antiga convenção portuguesa de ficção especulativa ainda em execução anual!

E é, também, amanhã, que estarei à conversa num painel com os dois convidados internacionais do evento, Ian Watson e Cristina Macía, acompanhada pelo editor Pedro Cipriano! Esta conversa irá ocorrer no dia 11, sexta-feira, às 19:30, no auditório, com moderação de Rogério Ribeiro.

 

Get Jiro – Todos querem apanhar o Jiro – Anthony Bourdain, Joel Rose e Langdon Foss

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Em Todos querem apanhar o Jiro somos levados a uma realidade alternativa, em Los Angeles, em que dois chefs de cozinha se degladiam pelos melhores produtos e os melhores restaurantes. Actuando como chefs da máfia, recusam clientes e exercem a sua supremacia alimentar, utilizando ingredientes raros (de espécies em vias de extinção que actualmente ainda não o estão).

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Jiro monta o seu novo restaurante em Los Angeles, alienado de toda esta competição. Mas não por muito tempo. Assim que se sabe da sua existência, num restaurante de sushi, os dois chefs não pouparão esforços para o tentar cativar como aliado, prometendo-lhe o melhor fornecimento de ingredientes. Cada vez mais assediado por ambas as partes, Jiro acaba por ceder e utilizar a sua posição para colocar os dois grupos rivais em guerra aberta, causando o caos na cidade.

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Get Jiro apresenta uma realidade alternativa com toque de absurdo que leva a competição entre chefs de cozinha a um novo patamar. Afrontar um chefe é perigoso e logo nas primeiras páginas assistimos à decapitação de um cliente que pediu um rolo califórnia num restaurante de sushi. Neste futuro próximo novas espécies entraram em extinção e os habitantes da cidade de Los Angeles vivem tão obcecados por comida que os chefs de cozinha têm grande poder.

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Esta combinação resulta numa narrativa com traços de absurdo, divertida e leve. Jiro é uma personagem dura, de princípios culinários e que tenta usar as suas capacidades para se manter fora das lutas entre as duas máfias da cidade. É, no mínimo, uma história original que usa o contexto de comida de forma bastante diferente de outras histórias que se centram na relação com a comida.

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Este volume foi publicado pela Levoir em parceria com o jornal Público.

A Febre de Urbicanda – Schuiten e Peeters

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A Febre de Urbicanda é um dos trabalhos de Schuiten e Peeters no Universo de As Cidades Obscuras, série que integra outros volumes como A teoria do Grão de Areia. Neste caso a narrativa centra-se em Urbicanda, uma cidade de arquitectura imponente, desenhada na perfeição por Eugen Robick.

Urbicanda parece a cidade perfeita. Os prédios alinham-se numa proporção balanceada e imponente. Os cidadãos que vemos estão bem vestidos e confortáveis. As ruas são ordeiras, limpas e luxuosas. Mas para terminar o alinhamento perfeito, falta a construção de uma ponte – uma ponte que ligará os dois lados da cidade e que é, por esse motivo recusada.

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Do outro lado da ponte encontram-se os outros. Os trabalhadores que vivem na cidade onde a desordem faz parte. Os pobres que devem ser afastados das belas construções e cuja entrada deve ser controlada e fiscalizada. É neste contexto que a ponte é recusada, por ser um elemento de contacto que poderá facilitar a passagem dos indesejados.

É com esta recusa que nos apercebemos estar perante uma falsa utopia, um estado totalitário que, à semelhança da sua arquitectura imponente, impõe uma separação das classes e uma autoridade rígida. Algo que será quebrado  de forma inesperada, caótica e irregular.

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Eugen Robick recebe, no seu escritório, um cubo – uma estrutura surreal cujo material não consegue identificar. Não lhe dando grande importância, Robick deixa-a no seu escritório. Quando regressa da reunião em que lhe foi recusada a ponte (o elemento em falta na cidade que projectou) percebe que a estrutura se multiplicou, crescendo em tamanho e quantidade dos cubos.

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Este será o elemento que quebra o quotidiano. Crescendo de forma incontrolável e inquebrável, o cubo sobrepõem-se às estruturas perfeitas desenhadas pelo homem. É uma aberração que, num primeiro momento se torna incomodativo, mas num segundo se transforma numa ponte bizarra entre as duas margens permitindo, pela primeira vez, o contacto não regulado entre os habitantes de ambas as partes.

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O cubo, indiferente às alterações que provoca, é o elemento que move a narrativa ao introduzir uma falha no ambiente perfeito. É o elemento de imperfeição na cidade, a doença citadina que rompe a ditadura e a torna impossível, que possibilita que duas partes da mesma sociedade se toquem, nem que seja momentaneamente.

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A Febre de Urbicanda é um álbum que se destaca pelo seu aspecto visual. A arquitectura que apresenta, simultaneamente futurista com traços de outros tempos, é sonhadora, imponente e perfeita. Em termos narrativos é subtil. Existe um regime opressivo, mas tal é percebido de forma suave, mostrando autoridade sem momentos violentos ou excessivos.

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Este volume foi publicado pela Levoir em parceria com o jornal Público na colecção Novela Gráfica. Não é um lançamento inédito no mercado português, mas o volume encontrava-se esgotado antes desta edição.

Uber – Vol.1 – Kieron Gullen e Caanan White

Conhecido por obras como Phonogram ou The Wicked + The Divine, Kieron Gullen tece, em Uber, uma história de tom bastante diferente que, em comum com as mais citadas contém apenas, um certo tom de misticismo. O cenário é a Segunda Guerra Mundial, mas numa realidade diferente em que a guerra que terá tomado, no final, um rumo bastante diferente.

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Após horríveis experiências humanas, as forças alemãs foram capazes de produzir super soldados através da utilização de uma estranha substância. Com uma força e uma resistência desmesuradas, estes soldados possuem ainda elevadas capacidades psíquicas. A sua existência é o suficiente para parecer virar a guerra. Felizmente, os Aliados conseguiram roubar estes segredos militares e estarão agora a tentar construir os seus próprios super soldados, pensando fazer frente ao avanço nazi na Europa.

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O tom é negro. As primeiras páginas levam-nos a visualizar bombardeamentos e tiroteios, com pedaços de corpos voando em todas as direcções. Os corpos humanos dissolvem-nos, aparecem caveiras e outros pedaços pouco perceptíveis do que já foi uma pessoa.

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Confesso que as primeiras páginas foram cansativas de tanta carnificina. Não por alguma sensibilidade a tanto sangue e restos humanos, mas porque não parecia haver muito mais. Felizmente, a história arranca após estes primeiros episódios, mostrando-nos os elementos que permitiram mudar o curso da guerra.

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Em termos narrativos ganha mais interesse após estes cenários iniciais, ainda que tenha chegado ao final do volume sem perceber se é uma história que se pretende levar a sério (apesar das deambulações místicas) ou que se pretende mais leve. Apesar dos episódios mais pesados, o volume termina com um episódio no limite que parece afastar a história de um tom mais sério.

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Neste seguimento será uma série que provavelmente me levará a adquirir o segundo volume por conseguir combinar uma boa componente de acção com uma explicação de premissa que gostaria de perceber melhor.

Resumo de Leituras – Outubro de 2019 (1)

 

81 – Como uma luva de veludo forjada em ferro – Daniel Clowes – Uma história psicadélica carregada de elementos absurdos onde não faltam cães mutantes, teorias da conspiração ou fascínios sexuais;

82 – Sweet tooth – Book 2 – Jeff Lemire – A humanidade colapse sob a força de uma epidemia. Simultaneamente, as novas crianças apresentam características de animais que as levam a ser caçadas e perseguidas. Um destes novos rapazes sobreviveu isolado com o pai na floresta, mas quando também o progenitor sucumbe, vê-se capturado e tratado como uma cobaia para experiências. Agora encontra-se liberto mas procura, com os seus companheiros, as suas origens;

83 – Get Jiro – Todos querem apanhar o Jiro – Anthony Bourdain, Joel Rose e Langdon Foss –  Um novo chefe de cozinha chega a Los Angeles – Jiro. Profissional de sushi e destemido, Jiro vê-se no meio de uma guerra entre dois chefes de cozinha que actuam como grupos mafiosos. Enquanto os clientes fazem fila por um lugar num restaurante, os chefes degladiam-se pelos melhores produtos e pelos melhores associados;

84 – Get Jiro – Sangue e Sushi – Anthony Bourdain, Joel Rose e Alé Garza – Prequela ao volume Todos querem apanhar o Jiro, este volume mostra as origens de Jiro – mais especificamente como ganhou as tatuagens em todo o corpo e como se tornou num chef.

Resumo de Leituras – Setembro de 2019 (4)

77 – Saga – Vol.8 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples – Neste oitavo volume a família desloca-se a mais um planeta para resolver uma gravidez. Pelo caminho encontram novas especíes que os confrontam (como o povo esterco) e colocam-se várias questões de género e sexualidade, enquadradas na narrativa;

78 – Touch – Claire North – Neste romance da autora existem entidades que conseguem passar a sua consciência através do toque e ocupar novos corpos, vivendo as suas vidas. Uma premissa engraçada que toma um curso mais movimentado porque estas entidades estarão a ser caçadas por uma sociedade para militar;

79 – Rat Queens – Vol.1 – Kurtis J. Wiebe e Roc. Upchurch’s – Divertido e movimentado, este volume não é excelente, mas apresenta um grupo de mercenárias capazes de se fazer valer nas situações mais imprevistas. Existem vários comentários cómicos e divertidos, bem como outras reviravoltas que dão um tom ligeiro à narrativa;

80 – Dias sombrios – Juan Escandell e Luís Ferrer Ferrer – O território espanhol serviu de palco para algumas batalhas durante a Guerra Mundial que causaram alguns distúrbios no território espanhol. Alternando entre duas épocas diferentes, conta uma única história que terá decorrido em Ibiza.

Viver na lua através de Efemérides – Ficção científica e Ciência

Recentemente foi inaugurado o Museu da Lua, em Oeiras. Aproveitando a instalação artísticas de Luke Jerram, a Embaixada Britânica e o Município de Oeiras organizaram um evento em que se falou sobretudo de ciência. Mas a meio do programa também se falou de ficção científica, através de um conto de João Barreiros em que descreve como seria um dia na Lua.

O conto chama-se Efemérides e pode ser encontrado no livro Se acordar antes de morrer. É um conto irónico, como não podia deixar de ser a um conto de João Barreiros, mas é, também, um conto carregado de referências científicas que apresenta, de forma ligeira e bem disposta, as dificuldades de viver fora do planeta Terra. É, no meu entendimento, um conto que pode ser um bom exemplo de como a ficção científica pode ser usada para passar conhecimento científico. E, porque não usar, também, as incorreções científicas, demostrando-as?

All organ systems are affected by exposure to extra-terrestrial environments. Alterations to cardiovascular physiology with reduced gravity manifest acutely and chronically []. Reduced-gravity environments cause the cardiovascular system to undergo adaptive functional and structural changes. Microgravity induces a reduction in hydrostatic pressure, causing a cephalic redistribution of blood and body fluids. This headward shift is responsible for the ‘puffy-face & bird-leg’ appearance of astronauts in space. The cardiovascular system adapts to microgravity by reducing blood volume by approximately 20%, which is in part responsible for the orthostatic intolerance commonly found post-spaceflight. A reduction in heart size was also observed in microgravity.

A comparison between the 2010 and 2005 basic life support guidelines during simulated hypogravity and microgravity, Russomano, et al., Extrem Physiol Med. 2013; 2: 11.

Tendo em vista a exploração espacial, vários trabalhos científicos têm sido desenvolvidos com o objectivo de perceber quais seriam as consequências, no corpo humano, de viver em ambientes de baixa gravidade. A maior parte fala de diminuição do coração e da densidade óssea, bem como do aumento da pressão ocular.

Despite the extensive use of exercise countermeasures, astronauts still return from 6 months ISS missions showing space deconditioning effects. Examples of these effects include decreased calf muscle volume and power, loss of bone mineral density and reduction of peak oxygen uptake

Human Biomechanical and Cardiopulmonary Responses to Partial Gravity – A Systematic Review, Richter, et al., Front Physiol. 2017; 8: 583.

Especula-se (ainda que não tenha encontrado nenhum artigo científico concreto) que crescer noutro planeta de baixa gravidade leve a uma maior altura (parece uma conclusão lógica que, sob o efeito constrangedor de uma menor gravidade, as estruturas biológicas se estendem-se mais). Mas decerto levará a uma menor calcificação dos ossos, deixando-os quebradiços. Se tais alterações já são significativas passados meros meses, imaginem para quem crescesse num local com menor gravidade. Como a Lua. Ou Marte.

Frágil como é, um triste arranjo de palitos com uma cabeça de alfinete eriçada no topo, a gravidade dava-lhe cabo do coração em poucas horas. Sem falar no risco de fracturas múltiplas à mais pequena escorregadela. Se Russell voltasse à Terra, ele que é o produto da primeira geração de lunares, um espirro matava-o. Um grão de pólen fá-lo-ia morrer de choque anafilático.

Efemérides,João Barreiros

São estes pressupostos que se aliam à imaginação e ganham forma em Efemérides. Num único parágrafo deparamo-nos com as consequências de uma vida em baixa gravidade. Consequências essas suportadas pela literatura científica que encontrei sobre o assunto (estejam à vontade para despejar outras referências). Mas o conto não se centra só nas alterações fisiológicas ao corpo humano. Centra-se, também, nas consequências a tal quotidiano.

We found direct and definitive evidence for surface-exposed water ice in the lunar polar regions. The abundance and distribution of ice on the Moon are distinct from those on other airless bodies in the inner solar system such as Mercury and Ceres, which may be associated with the unique formation and evolution process of our Moon. These ice deposits might be utilized as an in situ resource in future exploration of the Moon.

Direct evidence of surface exposed water ice in the lunar polar regions, Shuai Li, et al., PNAS September 4, 2018 115 (36) 8907-8912; first published August 20, 2018.

Existindo água na Lua que possa ser usada para sustentar a vida humana, decerto teria de ser racionada.

Tem de durar séculos. As gerações seguintes também têm dierito à sua conta de esponjas húmidas. Por isso não há brincadeiras neste balneário. Ninguém atira respingos de água à cabeça uns dos outros. Fazer semelhante disparate é crime. Dá direito a sanções, a pontos negros, a dívidas à colectividade a ser descontadas assim que qualquer um deles entrar na fase produtiva das suas vidas.

Efemérides, João Barreiros.

E dada a escassez, decerto que qualquer resto orgânico seria reutilizado. Mesmo com os riscos que pudessem daí advir (a utilização de fezes humanas na agrícultura é uma prática perigosa por poder facilitar a propagação de doenças):

Depois de lavados e limpos com uma serradura estéril, cada um tem ainda o dever de selar o respectivo saco onde guardaram a matéria fecal, colocá-lo na carrinha que o levará aos jardins hidropónicos e assegurar assim que um dia, num futuro próximo, aquilo que hoje despejaram voltará em triunfo aos respectivos estômagos, transformado em celulose e proteína vegetal.

Efemérides, João Barreiros

Carregada de afirmações caricatas como só a ficção pode ser, este conto de João Barreiros é um, entre tantos outros, que pode ser usado para discutir as possibilidades científicas aligeirando cada um dos elementos que constituem a premissa – E se o homem vivesse na Lua?

Resumo de Leituras – Setembro de 2019 (3)

73 – Sweet Tooth – Book one – Jeff Lemire – Desta vez o autor leva-nos para um cenário apocalíptico em que uma doença desconhecida acaba com a espécie humana. Paralelamente, todos os novos seres humanos nascem com características de animais, algumas mais óbvias do que outras. Na sua maioria apresentam atrasos mentais. Mas, sendo um livro de Lemire, a história foca, sobretudo, o lado humano das duas personagens principais, um rapaz com hastes e um homem que o descobre e promete levá-lo para uma reserva;

74 – Prometeu e a caixa de Pandora –  Luc Ferry – Adaptação de um conto mitológico grego para banda desenhada, focando a lenda de geração da espécie humana e a forma como só a esperança lhe resta;

75 – Lenine – Ozanam, Rodier e Rey – A história de Lenine foca-se sobretudo na personalidade histórica, dando-lhe uma componente humana e mostrando os seus maiores amigos e desamores. A história é, no entanto, contada num único volume, pelo que se focam alguns episódios mais representantes, olhando-se para o homem, mas não sendo o suficiente para nos apresentar a pessoa. Ainda assim, uma adaptação interessante;

76 – How to draw Comics the Marvel Way –  Stan Lee e John Buscema – É, sem dúvida, um livro bom para quem desenha, mostrando os truques para desenhar super-heróis à forma Marvel – como dar toda a tragicidade a uma postura ou mais movimento a um desenho. É, também, útil para quem lê, fazendo com que esses truques se tornem mais visíveis

Saga – Vol. 8 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples

Num tom relaxado e desinibido, Saga vai tocando em alguns aspectos polémicos, assimilando questões associadas a preconceito que cada vez mais são relevantes na nossa sociedade. Mas Saga consegue fazer isto de forma inteligente, integrando estes aspectos na história.

Em Saga o conceito de família é algo fluído. Sim, existe mãe e pai, bem como avôs (nalgumas partes da história), mas criar uma criança requer trabalho (como diz o ditado inglês “It takes a village to raise a child” ) e toda a ajuda é preciosa. Neste caso vem de amigos (ou inimigos) que se juntam à eterna viagem no espaço. Há sempre mais um lugar para ir. Neste volume a família desloca-se a alguém que possa resolvar a gravidez de Alana levando-os a um novo planeta com personagens peculiares, pois a criança estará morta dentro da barriga.

Saga aborda a sexualidade como algo rotineiro. Algo normal que acontece entre adultos, quer sejam um casal, ou não. Não são de estranhar os fétiches ou os casais pouco convencionais. Para além de vermos casais de diferentes espécies sapientes encontramos trans género e pessoas de sexualidade fluída. Tudo de forma bastante natural.

Nada que seja de estranhar numa série que coloca, no centro do enredo, o relacionamento proibido de duas pessoas de espécies diferentes. Esta componente poderá ter algum paralelismo com os relacionamentos inter-raciais e com os problemas sociais que enfrentam. Neste caso, a relação é ainda mais perigosa porque gerou descendência, fazendo com que ambas as facções da guerra se unem para tentar eliminar a família. Será que esta preocupação em eliminar a descendência tem origem na explicação biológica de espécie? Bem, cá estarei para ler o final.

Mas este volume não toca só na sexualidade. Também no aborto e nas razões possíveis para o fazer, trazendo ao enredo uma mãe loba (curioso que a figura esteja associada à maternidade como a loba que salvou Rómulo e Remo) que realiza estes procedimentos em instalações pouco profissionais – os lugares oficiais não realizam abortos para este tempo de gestação, obrigando a família a deslocar-se aos confins da espaço.

Ainda que pareça pouco relevante na narrativa global da série (terei de ler o seguinte para perceber se assim é) este volume volta a conter elementos imaginativos e fantásticos como o povo esterco, uma espécie de entidades pouco racionais (quase zombies) que ganham vida a partir das fezes e que atacam quem encontram, numa luta literalmente suja.

Este oitavo volume continua com a boa disposição demonstrada ao longo da série, apesar da tragicidade dos acontecimentos. Existem batalhas épicas com espécies surreais. Existem picos de tensão que resultam em beijos inesperados. Existem crianças fantasma que saltam e brincam, desafiando a sua própria mortalidade (não, não me enganei a escrever). E são todos estes elementos que continuam a fazer da série uma das melhores histórias de Space Opera de sempre e que levam os leitores a pegar no próximo volume.

A série Saga é publicada em Portugal pela G Floy.

Comic Con – Alguns painéis de autógrafos

Este post será actualizado consoante os autores ou as editoras anunciem as suas sessões.

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A Saída de Emergência tem, este ano, dois autores na Comic Con Lisboa – Simon Scarrow e Naomi Novik. Os autores estarão em painéis e a dar autógrafos nos seguintes horários:

  • Simon Scarrow – 14 de Setembro às 16h15 no auditório Prime Theatre. Sessão de autógrafos das 17h45 às 18h45.
  • Naomi Novik – 15 de Setembro às 14h30 no auditório Spotlight.  Sessão de autógrafos das 16h às 17h00

Para quem não conhece os autores, Simon Scarrow é o autor de Saga da Águia e da Série Napoleão e Wellington. Ambas as séries são de ficção histórica e a primeira ganhou bastante notoriedade pela dinâmica entre as duas personagens principais.

Naomi Novik é a autora de Coração Negro, obra que venceu vários prémios no género, entre os quais o Nebula, o Locus, o BFA e o Mythopoeic e que estará a ser adaptado para cinema. A autora também é conhecida pela série Temeraire, publicada em Portugal pela Editorial Presença.

A informação dos lançamentos foi divulgada via mail pela própria editora.

A G Floy tem também um convidado internacional no evento, neste caso Ed Brubaker! Trata-se do autor de Criminal, The Fade Out, Velvet e Fatale (para citarmos apenas algumas das suas obras, neste caso das publicadas em português). Para além dos autores internacionais, a editora traz também autores nacionais, alguns dos quais publicou com a Comic Heart. Eis o programa das sessões de autógrafos:

  • Ed Brubaker – 13 de Setembro das 12h15 às 13h15, Stand da G Floy. 12 e 14 de Setembro na área geral;
  • Roberto Gomes – 13 de Setembro das 15h30 às 17h00. 14 de Setembro das 17h às 18h30. 15 de Setembro das 15h às 16h30
  • Fábio Veras e Luís Zhang – 14 de Setembro das 17h00 às 18h30.

A informação dos lançamentos foi divulgada pela editora G Floy na sua página de facebook.

Luís Louro estará no evento para a cerimónia dos Galardões Comic Con e para anunciar o seu novo álbum, Sentinel, no Domingo, dia 15 de Setembro. Estará, também, presente nas sessões de autógrafos abaixo listadas, bem como no Artist Alley no restante tempo:

  • 12 de Setembro das 15h30 às 16h30
  • 13 de Setembro das 16h30 às 17h30
  • 14 de Setembro das 13h00 às 14h00
  • 15 de Setembro das 17h15 às 18h15
Esta informação foi partilhada pelo própio autor, na sua página de facebook.
A autora Sandra Carvalho marcará presença no evento, com o lançamento do seu mais recente livro A Noite do Caçador:
  • 13 de Setembro das 10h45 às 11h45 apresentação no auditório Spotlight;
  • 13 de Setembro das 12h15 às 13h15 sessão de autógrafos;
  • 14 de Setembro das 17h45 às 18h45 sessão de autógrafos.

O autor, nomeado para um dos Galardões Comic Con, estará no evento para duas sessões de autógrafos:

  • 13 de Setembro, das 16h00 às 17h00, no stand da Kingpin Books;
  • 14 de Setembro, das 16h00 às 17h00, no stand da Kingpink Books.

Para além destas sessões de autógrafos oficiais, poderão encontrar mais alguns autores na Artist Alley:

  • Miguel Jorge – Apocryphus;
  • Ricardo Venâncio – Hanuram.

 

Resumo de Leituras – Setembro de 2019 (2)

69 – Máquinas como eu – Ian McEwan – Um livro de ficção científica que decorre num Universo ligeiramente diferente em que Turing sobreviveu levando à ocorrência de  desenvolvimentos tecnológicos antes do tempo actual. Neste Universo um homem compra um dos primeiros andróides dotados de inteligência artificial e confronta o seu quotidiano com o pensamento lógico de uma entidade;

70 – Monster Dreams – J.S. Meremaa – Uma história curta belissimamente ilustrada que é publicada, neste volume, em três idiomas diferentes;

71 – Flex Mentallo Grant Morrison e Frank Quitely– História pouco linear sobre um Universo de super-heróis algo … flexível. Os episódios estão carregados de elementos surreais, utilizando e deturpando as características gerais dos super-heróis;

72 – Gorazde – Joe Sacco – O autor, jornalista, conta a sua experiência em Gorazde, reunindo relatos da guerra e do quotidiano sob fogo, mostrando como uma cidade em que viviam, em harmonina, pessoas de diferentes religiões e origens, se revira perante movimentos preconceituosos de supremacia. Claramente, ninguém ficou a ganhar com a guerra.

Lançamento: Sentinel – Luís Louro

Depois do sucesso de Watchers (nomeado para o Galardão Comic Con) o autor anuncia Sentinel. O livro será lançado durante a Comic Con, no próximo dia 15 de Setembro, pelas 15h45 no pavilhão Prime Theatre. Deixo-vos a sinopse deste volume:

Na sequência de Watchers, com dois finais distintos, Luís Louro apresenta-nos agora Sentinel, também em duas versões, desta feita com dois inícios e apenas um final. Após o desaparecimento do Sentinel, na última história, assiste-se aqui ao surgimento de uma legião de seguidores, os Discípulos, cujo objetivo é preservar o legado do seu herói e manter bem viva a luta pelo maior número de visualizações. Mas, como em tudo na vida, há sempre duas faces para a mesma moeda… Neste caso, uma das faces são os Discípulos; a outra, algo bem pior! Sim, porque desta vez a questão é pessoal!!!!

Jesus Punk Rock – Sean Murphy

Incluído na colecção comemorativa dos 25 anos da Vertigo (e publicado em Portugal pela parceria Levoir Público) Jesus Punk Rock é uma narrativa pesada e desafiadora, que parte de uma premissa algo simples para fazer uma crítica social, religiosa e, até, cultural.

O início é simples. Um homem resolveu clonar Cristo e criar um reality show que acompanha o seu crescimento, induzindo a criança a acreditar que será capaz de todos os milagres que o Jesus Cristo original. Para que este projecto seja possível arranja uma jovem em apuros financeiros que se sacrificará para dar à luz a criança, uma cientista que tem como objectivo paralelo desenvolver uma nova espécie de algas capazes de limpar o ambiente, e um guarda-costas que outrora pertenceu ao IRA. Esta equipa tão diversa permite que o autor explore várias perspectivas e vários passados, dando maior solidez a toda a narrativa.

Ainda que afirme outro tipo de interesses, o produtor de reality show tem óbvios interesses monetários. Para cenário do reality show escolhe uma ilha isolada, um local fácil de controlar. Este produtor não resiste a jogos emocionais e chantagens, manipulando todos os membros da equipa, enquanto acena com consequências. Aliás, a escolha dos membros da equipa terá sido feito exactamente pela forma como os pode controlar.

A jovem mãe, grávida de um clone de Jesus Cristo (se realmente o é, é algo que será discutido ao longo da história) é a sacrificada. A família poderá ter alguma liberdade monetária, mas este mãe será aprisionada na ilha, tendo como único objectivo a criação de um fenómeno científico e religioso, uma combinação que se tornará explosiva mesmo longos anos depois do nascimento da criança.

Por sua vez, o guarda-costas que já pertenceu ao IRA tem um passado pesado. O pai faleceu em resultado do seu próprio tiro, e acabou por ser criado pelo tio, um pesado operacional do IRA que o educou do mesmo modo, entre formações de armas e técnicas marciais. Mas alguma coisa o terá feito voltar costas ao IRA e prometer proteger esta criança. O percurso desta personagem vai sendo apresentado como forma de explorar as motivações do IRA e a forma como opera, utilizando uma forte componente religiosa.

A existência desta criança não será calma. Entre o seu nascimento e a adolescência serão vários os manifestantes, atentados e reviravoltas que levarão a criança a percorrer um percurso entre a inocência de acreditar que é divina (e com a capacidade de executar milagres) e toda a força da revolta em perceber que o que o rodeia está corrompido pelo poder camuflado de ardor religioso.

Passo a passo, este volume utiliza a premissa para ir desmontando o que está por detrás dos interesses religiosos. Os valores indicados por Jesus Cristo não são revistos no modelo seguido pelos que se dizem cristãos, que tentam lucrar com a actividade religiosa e que, ao invés de amar o próximo, propagam mensagens de ódio em relação a todos os que são diferentes – a criança que será um clone de Jesus Cristo até terá a cor de cabelo, pelo e olhos alterada para ter um aspecto mais ocidental.

Mas neste volume debatem-se outras componentes. Como o limite para um reality show. Até que ponto o que realmente manda é o dinheiro e o poder que dele resulta, e como se justifica toda a manipulação da vida das pessoas. Por outro lado, que espécie de sociedade segue um programa que canibaliza a existência dos outros?

De forma tangencial também se podem tecer algumas considerações sobre o movimento punk – como surge a revolta e a necessidade de quebrar com as autoridades vigentes. Neste caso, a personagem principal, o jovem, cansa-se da hipocrisia que o rodeia e decide utilizar toda a sua força no sentido contrário para o qual o destinam.

TOP de Agosto

Entre novos jogos de tabuleiro e novos livros, eis o que se destacou durante o mês de Agosto.

Jogos de tabuleiro

Dr. Eureka

Dr. Eureka é um jogo que pretende melhorar a motricidade fina e o raciocínio e tem como objectivo fazer, com as bolas nos nossos tubos de ensaio, fazer o mesmo padrão que se encontra descrito nas cartas. O jogador a conseguir realizar este objectivo ganha a ronda. O primeiro a conseguir ganhar 5 rondas, ganha o jogo. Ainda que pareça (e seja) um jogo destinado a um público mais infantil, tem feito sucesso como party game, envolvendo jogadores inexperientes e tornando-se, rapidamente, viciante.

Century: A New World

Terceiro jogo de uma trilogia de jogos independentes (mas que podem ser combinados entre si para criar novos jogos), este Century consegue utilizar princípios semelhantes ao do primeiro, mas colocando-as num tabuleiro com mecânica de worker placement. Mais complexo que o primeiro, mas, talvez por isso, mais apreciado por jogadores experientes, este Century 3 fez sucesso cá em casa.

Klask

Não é novo cá em casa, mas começou a ser distribuído pelal MEBO em Portugal. É um jogo rápido que precisa de bons reflexos. Os pontos podem ser feitos de três formas diferentes:

  1. Fazer o adversário perder o controlo do manípulo;
  2. Fazer com que, ao manípulo do adversário, se colem dois ímanes;
  3. Conseguir colocar a bola na “baliza” adversária.

É um daqueles jogos que fascina os mais pequenos mas que qualquer adulto quer experimentar e testar os seus reflexos.

Banda desenhada

Sweet Tooth

O auge do mês foi atingido com Sweet Tooth, uma história apocalíptica de Jeff Lemire em que a humanidade é atingida por uma praga avassaladora. Os poucos sobreviventes assistem à degradação da civilização e da sociedade. Mas o ponto de destaque vai para as crianças que começam a nascer após a praga, que apresentam características animais, mais ou menos acentuadas, sendo este o mistério que o autor explora ao longo da série.

Gorazde

Gorazde foi, também, uma das principais leituras do mês, mas por motivos diferentes. A banda desenhada retrata a sobrevivência em clima de guerra, numa cidade que se viu, de repente, dividida entre origens e religião, com vizinhos a tornarem-se cada vez mais hostis. A comida escasseia e os tiros sucedem-se. Joe Sacco, o autor, jornalista, deslocou-se á cidade logo após à inauguração de uma estrada da ONU que lhe permitia entrar e sair do local. Mas os habitantes, esses, continuavam fechados na sua própria realidade. A população encontra-se sub nutrida, pobre, traumatizada e com poucas perspectivas de futuro.

Punk Rock Jesus

Punk Rock Jesus, por sua vez, surpreendeu como história pesada, carregada de acção, mas também de premissas que nos fazem pensar a sociedade e a religião. Fala-se de Jesus Cristo, do IRA, da clonagem, de crença e de reality shows, mas todos estes elementos concentrados numa história forte.

Livros

Um dos livros que mais teve impacto foi Vigilance de Robert Jackson Bennett. Na realidade descrita os tiroteios em massa são autorizados e fazem parte de um espectáculo televisivo que, simultaneamente, apela à corrida às armas e vende direitos publicitários milionários. É interessante constatar como a população reage, achando que a culpa é das vítimas que deviam ter armas para se defender. É interessante perceber como os inimigos começam por ser os outros, e passam a ser os vizinhos.

Máquinas como eu, de Ian McEwan, não é uma leitura dura de ficção científica. Está mais preocupado com os elementos psicológicos e sociais da integração de uma inteligência artificial, usando como factor alienante uma realidade alternativa. Não é uma leitura excelente, mas é uma leitura que escorrega pelos dedos facilmente, podendo ser caracterizada como uma boa leitura para a época de Verão.

City of Miracles, também de Robert Jackson Bennett é o último volume de uma trilogia fantástica de histórias independentes. No mundo em que decorre a acção existiram duas civilizações distintas, uma que se baseia na ciência, outra nos favores dos deuses (milagres). Digo existiram porque, após uma guerra, a civilização da ciência venceu, resultando no colapso de parte das cidades dos perdedores (as estruturas construídas pelos deuses, desapareceram quando estes foram eliminados). Algumas décadas depois, continuam a existir traços divinos que indicam a sobrevivência de algumas entidades. Trata-se de um mundo bem construído e interessante, de premissa simples, em torno da qual o autor desenvolve, de forma competente uma narrativa movimentada.

Sweet Tooth – Book 1 – Jeff Lemire e José Villarrubia

Depois de uma Space Opera futurista como Descender, de um comentário à perfeição dos super-heróis com Black Hammer, ou de trabalhos mais realistas de Jeff Lemire como Essex County ou Roughneck, eis que me deparo com a história apocalíptica e deprimente de Sweet Tooth que decorre no interior dos Estados Unidos da América ultra-religiosa e fechada sobre si mesma.

A humanidade encontra-se em declínio. Uma estranha praga vai atacando os humanos que não descobrem uma cura para este doença. Em paralelo, os humanos que nascem parecem cruzados com outros animais, possuindo focinhos de porco ou hastes de veado. Assim é o caso do rapaz, personagem principal, que o pai mantém isolado numa cabana no meio do bosque, avisando-o de que todos os homens são maus e perigosos.

Após o falecimento do pai, o rapaz aventura-se pelos bosques. Quase caçado como um animal, é salvo por um homem forte e destemido que o convence da existência de uma reserva para crianças como ele, onde estará protegido. Assim o leva, atravessando um país caótico, onde os humanos restantes sobrevivem pela malícia. Mas a reserva não é mais do que um forte onde um grupo de homens sobrevive, usando as crianças animais para tentarem perceber a origem da doença.

A partir daqui o autor explora as motivações do homem que levou o rapaz, mostrando como era a sua vida antes da praga e depois da praga – de apaixonado a sobrevivente, capaz de enfrentar os perigos e defender a esposa grávida, até ao dia em que caem numa emboscada.

Neste primeiro volume encontramos uma humanidade em declínio, um mundo apocalíptico em que todos procuram sobreviver da melhor forma, parasitando sempre que possível os que os rodeiam. Tal como noutras realidades deste género, existem os homens que, sendo mais fortes do que os restantes, conseguem liderar pelo medo, impondo práticas duvidosas.

Para quem gosta dos livros de Jeff Lemire, encontrará, neste, o mesmo género de caracterização de personagem. O homem é um homem duro e isolado que carrega mágoas passadas que levam a sobreviver. Por sua vez, o rapaz apresenta-se como inocente do mundo em que vive, sem a malícia típica que permitiriam que pudesse sobreviver sozinho.

Ainda assim, existem alguns, poucos, que tentam estabelecer alguma justiça, como o homem que encontra o rapaz. Homem duro, capaz de lutar e de fazer o que é preciso, tem várias atitutes ao longo da história que não se coadunam com a entrega do rapaz aos maus da fita – algo que Jeff Lemire justifica e que decerto gerará o motor narrativo do próximo volume.

Novidade: Ermal – Vol.3 – Miguel Santos

A rentrée literária na banda desenhada traz-nos um novo volume de Ermal, por Miguel Santos. Nesta realidade alternativa os europeus tiveram de se refugiar em África para poderem sobreviver. Trata-se de um Universo interessante e bem explorado pelo autor. Sobre os primeiros dois volumes podem ler mais aqui no Rascunhos (volume 1 | volume 2). Sobre este terceiro, deixo-vos a sinopse, bem como algumas páginas disponibilizadas pela editora:

Neste 3º volume a ação continua a decorrer num mundo pós-apocalíptico, durante a Guerra Colonial na qual a Metrópole foi devastada pelo conflito atómico que opunha as superpotências. A guerra nuclear destruiu o hemisfério norte. O 25 de Abril nunca aconteceu. O império colonial desmoronou-se, tendo como último reduto a Cidadela, uma cidade cercada de muros e arame farpado. Os inimigos da Cidadela apoderaram-se de plataformas petrolíferas no litoral e infiltraram-se nos bairros periféricos. Santana, oligarca do petróleo, refugiou-se na Cidadela e convenceu os seus dirigentes a reconquistar o petróleo, custe o que custar. À frente dessa campanha está um centurião da Cidadela. Um desgraçado odiado pelos aliados e respeitado pelos inimigos.

Resumo de leituras – Setembro de 2019 (1)

65 – Monika – Thilde Barboni – Em torno de uma mulher de múltiplas máscaras, artista, capaz de se transformar de acordo com os adereços, Monika apresenta uma investigação que leva a jovem e um amigo a cruzar o caminho de perigosos grupos políticos. Paralelamente, o amigo de Monika desenvolve uma inteligência artificial que usa métodos de aprendizagem peculiares;

66 – Cadafalso – Alcimar Frazão – Uma séria de pequenas histórias pesadas num estilo sombrio;

67 – City of Miracles – Robert Jackson Bennett O último de uma belíssima trilogia onde o autor desenvolve a premissa de um Universo relativamente simples, mas de forma brilhante. Neste terceiro livro acompanhamos as personagens com uns bons anos a mais mas ainda capazes de algumas aventuras e acumulando toda a experiência adquirida ao longo do tempo;

68 – Vigilance – Robert Jackson Bennett Depois de ler vários livros de fantasia do autor, eis um mais voltado para a ficção científica que nos traz uma sociedade americana onde os tiroteios são regulados e autorizados – mediante cobertura televisiva, numa forma de apelar à aquisição de armas.