A cidade que não existia – Pierre Christin, Enki Bilal

Eis um livro curioso que transforma uma realidade dura e cinzenta noutra futurista e cómoda mas ainda mais desconfortável. A história começa por nos apresentar uma cidade típica em que uma única unidade fabril fornece o motor económico da região. Quase todos os homens trabalham na mesma fábrica, em míseras condições, enquanto que as mulheres trabalham na indústria fabril, costurando sob as ordens de uma dura patroa.

Dadas as dificuldades económicas, nesta dura realidade os trabalhadores revoltaram-se e perpetuam greve atrás de greve, tendo a intenção de ser donos dos seus próprios destinos e terem uma parcela dos lucros do negócio para o qual trabalham. Já o dono da fábrica, que faz, paralelamente carreira na política, enriqueceu à custa do suor dos seus trabalhadores e não pretende terminar este ciclo de exploração – mas a vida termina por ele, fazendo com que faleça, idoso e sovina.

A reviravolta inesperada na cidade acontece com a herdeira, uma jovem com problemas físicos, que resolve tomar as rédeas da situação. Se os administradores da fábrica esperavam uma jovem fraca e idiota, rapidamente percebem que a jovem tem um temperamento tão forte quanto o do velhote, e intenções bastante diferentes, dando poder aos trabalhadores e iniciando os planos para a construção de uma cidade futurista e utópica – mas também aborrecida e desoladora.

A história, de tom inicial cinzento, lentamente transforma a cidade numa utopia materializada – mas e se aquilo que desejamos realmente se concretizasse? Quão aborrecida seria a vida sem objectivos? Na prática é isso que ocorre para alguns, agora sem objectivos de melhoria de vida numa cidade que, simultaneamente, é um sonho e uma prisão. À semelhança da história os desenhos de Bilal são, inicialmente mais comedidos e cinzentos, podendo dar asas à imaginação apenas na última parte deste volume.

 

 

Novidade: Colecção Spirou

A Asa lança, em parceria com o jornal Público, uma colecção de Spirou! Para quem não conhece trata-se de uma série clássica de banda desenhada de aventuras em que Spirou e Fantásio percorrem mundo enquanto combatem malfeitores, fazem reportagens e descobertas.

Para as crianças esta coleção apresenta aventuras fantásticas. Para os adultos, humor inteligente. Para todos, um clássico sempre jovem – e para muitos, um dos vértices da “Sagrada Trindade” da BD franco-belga clássica, a par de Tintin e Astérix. Junte-se numa viagem pelo mundo à boleia das aventuras de Spirou, do seu amigo inseparável Fan tásio e do esquilo Spip.

Esta coleção, que resulta da parceria ASA/Público é composta por 11 volumes, alguns duplos e outros com várias histórias, e integra todas as aventuras de Spirou e Fantásio da autoria de Franquin, proporcionando assim uma compilação inédita em português.

Eis os volumes que compõem esta colecção:

  1. O Feiticeiro de Champignac / Spirou e os Herdeiros
  2. Os Ladrões do Marsupilami / O Chifre do Rinoceronte
  3. O Ditador e o Cogumelo / A Máscara Misteriosa
  4. O Refúgio da Moreia / Os Piratas do Silêncio
  5. O Gorila e Outras Aventuras
  6. O Dinossauro Congelado e Outras Aventuras
  7. Z de Zorglub / A Sombra do Z
  8. QRN sobre Bretzelburgo / Sarilhos em Champignac
  9. A Herança e Outras Aventuras (*)
  10. Os Chapéus Pretos e Outras Aventuras
  11. Os Elefantes Sagrados e Outras Aventuras(*)

(*) segundo a editora estes volumes incluem histórias inéditas em Portugal

 

Resumo de leituras: Abril de 2019 (2)

 

29 – O outro lado de Z – Nuno Duarte e Mosi – Nuno Duarte volta à banda desenhada com traço de uma nova autora nacional, Mosi, numa história fantástica onde a monotomia do real é quebrada, e as personagens (trabalhadores de call center) que levam vidas cinzentas, são empurradas para melhores existências ;

30 – Isola – Vol.1 – Brenden Fletcher, Karl Kerschl, Masassyk – Visualmente interessante, este primeiro volume denota alguns elementos narrativos que precisavam de ter sido melhor polidos. Existe, desde a primeira página, um sentido de urgência que, sem elementos suficientes, torna difícil ao leitor sentir-se cativado pela história. Percebemos apenas que a rainha foi transformada num tigre e que uma soldado tenta protegê-la e encontrar quem reverta a transformação;

31 – A cidade que não existia – Pierre Christin, Enki Bilal – A história começa como um usual confronto de classes numa cidade à beira do colapso. O homem rico que comandava a cidade morre no meio de uma série de greves laborais – os trabalhadores, contagiados pelo espírito político, pretendem ganhar mão no seu próprio destino e uma percela na fábrica em que trabalham, compreendendo que não existem, ali, outras formas de subsistirem;

32 – Filhos do Rato – Luís Zhang e Fábio Veras – A par com a guerra os soldados descrevem outros cenários nojentos e horríveis, talvez como forma de se afastarem dos horrores que vivem diariamente numa guerra particularmente violenta do ponto de vista psicológico. As facções políticas oscilam, bem como os lados das batalhas e o resultado é brutal.

Assim foi: Contacto 2019

O Contacto, organizado pela Imaginauta, começou em 2018 no Palácio Baldaya em Benfica. Dedicado à ficção científica e fantástico, é um evento que se destaca por ter, para além de palestras e um espaço dedicado à literatura, muitas outras actividades apropriadas para todas as idades – lutas de sabres de luz, aulas de magia influenciadas pelo mundo do Harry Potter, exposições, jogos de tabuleiro, steampunk e muito mais.

Lançamentos

A minha perspectiva do evento é mais literária, destacando os eventos de lançamento que foram decorrendo. O primeiro a que assisti foi o lançamento do novo livro em português de Bruno Martins Soares, As Crónicas de Byllard Iddo – um lançamento em que o autor falou do livro e do interesse nos mundos que cria.

Já no Sábado, ainda presenciar um pouco do lançamento do livro de Nuno Duarte, O outro lado de Z, onde o autor Nuno Duarte falou do mundo fantástico de este livro e de outros. Seguiu-se o lançamento da antologia Winepunk onde participei (no lançamento, não na antologia). A antologia destaca-se por ser uma realidade alternativa que tem por base a história de Portugal, mais propriamente o Reino do Norte que, no meio das convulsões, surgiu no Norte de Portugal mas que apenas durou 3 semanas. E se tivesse durado 3 anos? Após ter iniciado o lançamento, o Rogério Ribeiro falou um pouco da forma como geraram a base antes de enviarem o desafio aos autores, Pedro Cipriano falou da produção que se seguiu por parte da editora, e os dois autores presentes (João Barreiros e João Ventura) falaram do seu processo criativo neste mundo fictício.

O último lançamento a que pude assistir foi o lançamento de Amadis de Gaula por Nuno Júdice, em que o autor falou da incerteza da autoria do livro, da forma como influenciou e é referido em obras posteriores, mostrando um exemplar com vários séculos de existência.

Banda desenhada

Para além do lançamento de O outro lado de Z, o Contacto reservou espaço na agenda para que pudessemos conhecer um pouco melhor outros autores de banda desenhada, como Joana Afonso, Henrique Gandum, Fábio Veras e Luís Zhang (autores de Filhos do Rato).

Ainda, no Lagar (zona central do edifício) estiveram alguns artistas a projectar enquanto desenhavam: FIL e Miguel Santos (da Associação Tentáculo) bem como Diogo Mané.

Ponto de encontro

Este tipo de eventos fantásticos e de ficção científica costumam ser ponto de encontro entre autores e editores, levando à criação de vários projectos. Neste caso o evento ajudou nestes encontros, disponibilizando uma sala para estes pudessem decorrer de forma mais oficial. Destacam-se dois encontros, um para a geração de um portal português de ficção científica e fantástico e outro para o encontro de autores de ficção científica e fantástico onde vários autores trocaram experiências.

Outros detalhes

Durante o evento decorreu uma taberna medieval e uma feira do livro que apresentava bancas das mais conhecidas editoras de ficção científica e fantástico – desde a Saída de Emergência com a colecção Bang!, à Europa-América com a colecção de livros de bolso de ficção científica, passando pela Imaginauta e pela Editorial Divergência entre outras.

Para além das exposições encontrávamos salas temáticas: Steampunk, Harry Potter e Star Wars, mais voltadas para o público jovem; bem como uma pequena oferta de jogos de tabuleiro.

Batman 80 anos – Vol.3 – Bloom – Scott Snyder e Greg Capullo

O terceiro volume da colecção Batman 80 anos fecha a história dos primeiros dois volumes – uma história que confronta Batman e Joker, levando-os a desenterrar a origem de ambos e a confrontar a sua existência mútua – sem vilão não há super-herói. Se, num primeiro volume se exploram questões associadas à mortalidade das personagens e, num segundo, a identidade de cada um, neste retorna-se a uma consolidação de identidades.

Joker quase venceu – a personalidade de Batman e de Bruce ramificaram-se. O homem que unia as duas vertentes desapareceu, dando lugar a um Bruce calmo e capaz de ter vida pessoal e de se envolver, ajudando a sociedade à luz do dia. Paralelamente, a cidade de Gotham continua em apuros e precisa de um herói – neste caso serão as próprias autoridades a construir um super-herói, apoiado em elevada tecnologia, mas que obedeça às entidades oficiais!

Tal como não há herói sem vilão, com o surgir de um novo Batman floresce um novo vilão, resultante de uma experiência que não foi no melhor caminho. Tal como as plantas, este novo vilão espalha sementes que transformam os habitantes de Gotham em novas entidades com poderes próprios. Serão, no entanto, entidades descontroladas e que, por isso, se tornam daninhas por si.

O conjunto dos três volumes forma uma história complexa, carregada de referências e de reviravoltas onde se explora a complexidade das personagens Batman e Joker, bem como as circunstâncias que forçaram o surgir de ambas. É uma história soturna e pesada como Gotham, a cidade que não deixa ninguém escapar ileso à sua corrupção.

A série comemorativa dos 80 anos do Batman está a ser publicada em Portugal pela Levoir.

Novidade: Druuna 3 – Paolo E. Serpieri

A Arte de Autor anuncia o lançamento de novo volume de Druuna e pretende publicar a série completa em 2020:

Saída de um estranho sonho em companhia do seu amante Shastar, Druuna é convocada pelo comandante da nave. O «mal» existe a bordo, e é ela que tem de encontrar a fórmula do soro capaz de conter o flagelo. Druuna parte então para uma nova viagem cerebral ao coração da cidade de onde é originária. Aí reencontrará sem dúvida Shastar, mas também o seu gnomo salvador e o doutor Ottonegger, que lhe revelará o ingrediente necessário ao remédio que ela procura, uma flor misteriosa: a Mandrágora…

Druuna, série de referência da banda desenhada erótica dos anos 1980, é reeditada na Arte de Autor! Este terceiro álbum reúne Mandrágora e Aphrodisia, os episódios 5 e 6 da saga. Cada álbum desta nova é enriquecido por um caderno gráfico.

Novidade: Descender Vol.3 – Jeff Lemire e Dustin Nguyen

Como já referi por diversas vezes, Descender é uma das minhas séries favoritas de banda desenhada de ficção científica, não só pelas capacidades narrativas de Jeff Lemire (um dos meus autores favoritos de banda desenhada)  como pelo estilo gráfico em que o desenho se consegue unir à narrativa de uma forma muito mais eficaz do que nos parece quando simplesmente folheamos o livro.

O terceiro volume de Descender, publicado em Portugal pela G Floy, já se encontra à venda nas bancas e prevê-se que a série seja finalizada no primeiro trimestre de 2020 com a publicação do sexto volume. Apesar de ter a versão inglesa (comecei a adquirir antes de saber do lançamento nacional) aconselho vivamente a edição portuguesa pela relação qualidade / preço!

Curiosos por saber mais sobre este volume? Deixo-vos a minha crítica ao terceiro volume (na edição inglesa) bem como a sinopse e algumas páginas disponibilizadas pela editora:

Dez anos depois de uma súbita invasão de robots do tamanho de planetas – os Colectores – ter devastado a galáxia, um jovem andróide chamado TIM-21 acorda para descobrir que todos os robots foram proibidos e colocados fora-da-lei. TIM talvez esconda os segredos dos Colectores no seu ADN mecânico, e rapidamente se transforma no robot mais procurado num universo em que os andróides foram colocados fora-da-lei, e em que os caçadores de prémios espreitam em todos os planetas da galáxia.

Cinco histórias separadas que revisitam o passado desta saga cósmica, cinco pontos singulares na linha do tempo que levará Tim-21, o Dr. Quon e a Capitã Telsa, Bandit e Broca, e todos os protagonistas de DESCENDER até ao seu momento presente, e que prepararão os leitores para os acontecimentos tremendos do volume 4!

A ira da Ferreirinha – Carlos Eduardo Silva – Winepunk

O segundo conto desta antologia é de Carlos Silva, o autor de ficção científica e fantástico que venceu o prémio Imaginauta com o livro Anjos, e que tem participado em várias antologias portuguesas. Aproveitando uma das figuras mais emblemáticas ao Vinho do Porto (a Dona Antónia Adelaide Ferreira que era detentora de dezenas de quintas na região do Douro) Carlos Silva confere-lhe uma aura sobrenatural associada ao próprio Vinho do Porto.

Mulher independente e destemida, gera ira ao recusar um pretendente (ou não achassem sempre os homens que nunca podem ser recusados). Esta ira dá lugar a despeito e a traição, levando a um confronto no ar e à tentativa de acabar com as enormes plantações.

Imaginativo, carregado de elementos fantásticos, este conto aproveita várias referências históricas do Vinho do Porto mas cruza-as com circunstâncias ficiconais de cariz sobrenatural, aligeirando um pouco o tom pesado do conto anterior de Joel Puga, e fazendo de Dona Antónia uma figura marcante.

A antologia Winepunk é uma publicação da Editorial Divergência que tem como premissa que a Monarquia do Norte se manteve durante  3 anos e não apenas uma semana. A antologia foi lançada no Norte de Portugal e terá o seu lançamento a Sul no próximo evento da Imaginauta, Festival Contacto.

A antologia encontra-se disponível na Editorial Divergência.

A Companhia Zero – Joel Puga – Winepunk

Depois de uma explicação do conceito por detrás de Winepunk e de uma cronologia bem pensada, a antologia abre com um conto de Joel Puga denominado A Companhia Zero. Estruturado sob a forma de cartas, este conto apresenta a visão de um soldado nas trincheiras que escreve à namorada relatando a baixa condição física e psicológica dos seus colegas, bem como as apertadas instalações em que se encontram, impossíveis de manter e de os ajudar a defender a linha de combate.

Carregado de ilustrações alusivas a uma guerra das trincheiras no Norte de Portugal, este conto consegue transmitir o ponto de vista claustrofóbico e afunilado de um soldado que não tem qualquer perspectiva sobre os acontecimentos e que é, literalmente, carne para canhão. Juntamente com os seus camaradas de trincheira, o soldado é mais um que está num destacamente frágil que poderá ser sacrificado, sem grandes considerações, pelas mais altas patentes.

A Companhia Zero apresenta-se com um bom ritmo e envolvente, marcando o tom da época. Trata-se, como seria de esperar, de um conto com algumas alusões ao tipo de confronto bélico da época, mas que acrescenta alguns elementos de ficção científica.

A antologia Winepunk é uma publicação da Editorial Divergência que tem como premissa que a Monarquia do Norte se manteve durante  3 anos e não apenas uma semana. A antologia foi lançada no Norte de Portugal e terá o seu lançamento a Sul no próximo evento da Imaginauta, Festival Contacto.

A antologia encontra-se disponível na Editorial Divergência.

Resumo de Leituras – Março de 2019 (3)

 

25 – Tony Chu – Vol. 10 – Galo de Cabidela – John Layman e Rob Guillory – Este volume apresenta desenvolvimentos que preparam a narrativa para um fecho em grande! Enquanto Poyo chega ao Inferno e faz do local um Inferno para os demónios, Tony Chu ultrapassa as birras que não o deixavam progredir e prepara-se para enfrentar os seus verdadeiros inimigos!

26 – Batman 80 anos – Vol.3 – Bloom – Scott Snyder e Greg Capullo – O terceiro volume da colecção fecha a história desenvolvida nos dois primeiros, mostrando como o verdadeiro Batman renasce das cinzas, deixando para trás a separação das suas diferentes identidades! Trata-se de um volume movimentado e visualmente impressionante onde não escapa o habitual tom negro e melancólico deste herói;

27 – Dylan Dog – O Velho que Lê – Celoni, Sclavi e Stano – Este volume abre uma nova colecção da Levoir! Para o lançamento a editora trouxe o autor, Celoni, capaz de desenhar belíssimas dedicatórias. A história é típica de Dylan Dog, cruzando elementos reais com sobrenaturais, mas destaca-se pela qualidade gráfica;

28 – The Real Town-Murders – Adam Roberts – Um crime passado num futuro pouco distante que aproveita as tecnologias possíveis e nos mostra uma luta de poderes em tal mundo – uma luta sem moral que atinge o mundo real e virtual, resultando numa história movimentada – uma boa leitura.

Novidades fantásticas em Portugal (Março de 2019)

Enquanto se aproxima o Festival Contacto carregado de actividades para todas as idades e todos os gostos fantásticos e de ficção científica (e gratuito), vamos conhecendo alguns dos lançamentos nacionais que nos esperam: Bruno Martins Soares regressa ao mercado português pela Editorial Divergência com As Crónicas de Byllard Iddo (podem ouvir a entrevista com o autor para saber mais sobre o livro), a antologia Winepunk tem o seu lançamento a sul do país (recomendadíssimo), e a próprio Imaginauta (organizadora do evento) aproveita para lançar Amadis de Gaula.

Aproveito, também, para divulgar que se encontra na fase de projecto, a possibilidade de criar um Portal de Ficção Científica e Fantasia que terá por objectivo a divulgação do trabalho que se desenvolve neste género em Portugal. Esta reunião será promovida por mim e estará aberta a todos os interessados que queiram participar (seja activamente na construção do portal, seja com ideias ou sugestões). A reunião irá decorrer durante o Contacto, no dia 06 de Abril, a partir das 11h.

Já sabemos que não vai decorrer Festival Bang! em 2019, mas o Fórum Fantástico já divulgou as suas datas para este ano (11 a 13 de Outubro) e sabemos que irá decorrer Festival Vapor, com a Editorial Divergência a abrir submissões para um Almanaque Steampunk (ver mais detalhe na página da própria editora). Estão, também, abertas as subscrições para uma nova antologia de Fantasia urbana de título Os Medos da Cidade (ver mais detalhe).

Detectámos também (graças ao Jorge Candeias e à Imaginauta) a existência de um novo programa dedicado à ficção científica e fantástico (quantos mais formos, melhor) denominado Em Busca da Fantaciência. Ainda,  o João Barreiros publicou novo conto na revista Fluir o outro, que está disponível online.

Por último, a Colecção Livro B está de volta pela E-Primatur, prometendo livros que integrarão o Plano Nacional de Leitura (espero que este detalhe torne a colecção sustentável para que se possa manter).

 

The Real-Town Murders – Adam Roberts

A ideia que dá origem ao mundo de The Real-Town Murders não é original – um mundo em que existe uma realidade virtual na qual os seres humanos preferem passar a maioria do seu tempo consciente, presos à realidade apenas pelos seus corpos físicos que não podem deixar corromper. O elemento original desta história é o que faz mover a narrativa, um crime de resolução quase impossível em que um corpo se materializa no interior de um carro numa fábrica, um crime que esconde perigosos segredos e que levam a detective a temer pela vida.

Alma é uma detective no mundo real que vai aceitando pequenos trabalhos para se poder sustentar, a si e à sua companheira que foi infectada por um vírus personalizado que obriga a que Alma efectue um procedimento médico de quatro em quatro horas. Este procedimento nem sempre é o mesmo, e depende de uma série de parâmetros que Alma tem de analisar em pouco tempo, ou a companheira sucumbirá à doença que a impede de se ligar ao mundo virtual e que transformou o seu corpo numa imensidão impossível de deslocar.

Com as finanças comprometidas, Alma é chamada a uma fábrica de automóveis para descobrir como terá surgido o corpo no interior de um carro acabado de montar, sendo que, nem as câmaras nem a inteligência artificial que supervisiona a montangem, possuem qualquer pista de como terá sido transportado o corpo. Alma procura então a ambulância que transportou o corpo por forma a descobrir o estado em que este se encontrava, mas é aqui que começam as dificuldades – a enfermeira de serviço encontra-se de baixa e as poucas pistas que obtém valem-lhe uma ameaça.

Alma decide afastar-se do caso – mas as várias facções associadas ao aparecimento do cadáver irão pressioná-la, afastá-la da companheira ou incentivá-la das piores formas possíveis. Rapidamente a detective se vê num rodopio de assassinatos e teorias da conspiração – tudo isto num mundo tecnologicamente avançado, onde as várias técnicas de vigilância dificultam as fugas e a própria polícia possui motivações dúbias.

O resultado é um livro movimentado que aproveita a tecnologia que poderá existir num futuro próximo, para construir uma narrativa acelerada carregada de conspirações, investigações e reviravoltas. A premissa é bem utilizada, caracterizando um mundo negro quase cyberpunk, onde as novas fontes de poder político colidem com as antigas e diversos interesses se sobrepõem enquanto as multidões vivem fascinadas num mundo artificial e quase perfeito. Este possível futuro é envolvente e sonhador, mas facilmente se pode transformar em decadência humana e corrupção.

The Real-Town Murders é uma história de leitura compulsiva que possui alguns elementos interessantes em que se questionam vários dos avanços tecnológicos mas sem grande profundidade psicológica – nem se pretende.

Senlin Ascends – The books of Babel Vol.1 – Josiah Bancroft

Em Senlin Ascends inicia-se uma tetralogia fantástica, com traços de ficção científica, que se centra numa construção que marca este mundo imaginário – a Torre de Babel. Construção gigantesca que comporta reinos infindáveis e quase impossível de mapear, a Torre de Babel inspira a economia dos que a rodeiam, bem como os sonhos de grandiosidade da humanidade.

Senlin é um dos homens que sonha com a Torre de Babel e que resolve visitar a Torre.Professor austero, aproveita a Lua de Mel e leva a esposa, alguns pertences e uma enorme expectativa em conhecer o exponente máximo da tecnologia e da cultura, pensando que, sob a sua sombra, se encontra o pico da civilização e da educação.

Não demora muito até se aperceber que a Torre é bastante diferente do que tinha pensado: rapidamente perde a mulher no enorme mercado, é enganado e roubado. Depois de alguns dias em busca da esposa, resolve procurá-la dentro da Torre mas a situação não mostra sinais de melhorar: os primeiros passos fazem-se por uma passagem pouco glamorosa e claustrofóbica que o levam a ser novamente enganado e roubado.

A partir daqui Senlin explora os níveis seguintes, sendo que a passagem para o seguinte é uma aventura de elementos aparentemente idiotas. No primeiro cada novo visitante é integrado num palco sem público onde deve realizar determinado papel mesmo que coloque em risco a sua própria vida. Quem não cumprir com as regras é marcado e expulso, existindo diferentes castigos consoante o número de expulsões.

Já no segundo nível, a boa vida de uma cidade com dezenas de hóteis e bares pode levar à ruína financeira de qualquer um e, consequentemente, à sua condenação a trabalhos forçados. Esta cidade é controlada por um déspota sanguinário, cujo poder se estende a vários níveis. No terceiro Senlin encontra uma cidade portuária na qual é forçado a ter um papel de grande responsabilidade mas, sendo um fugitivo procurado da cidade anterior, não terá descanso.

Senlin ascends centra-se demasiado numa única personagem – uma personagem que, nas primeiras aventuras continua a ser um homem ingénuo, incapaz de percepcionar a dureza da vida da torre e que, por isso, não se adapta. Será necessário assistir a injustiças provenientes de fontes supostamente oficiais para perceber que, na Torre, não são os honestos que vencem na vida. Será necessário ter notícias da actual situação da esposa para se revoltar, tomar novo fôlego e aprender a manobrar os que o rodeiam, sem largar os seus limites morais.

Este demasiado centralismo numa única personagem que, no início, é fraca e pouco interessante, torna os primeiros momentos do livro pouco envolventes. Com o prosseguir das páginas a personagem ganha calo face às inusitadas e violentas situações que o atingem e consegue estabelecer algumas alianças interessantes que melhoram a dimensão das personagens na história. Outro defeito na caracterização é a forte perspectiva inicial das mulheres como indefesas e necessitadas de protecção masculina – perspectiva que evolui nas páginas finais do livro, pelo menos para algumas personagens femininas.

Desconsiderando a lenta entrada na narrativa, Senlin Ascends revelou-se uma boa leitura com elementos curiosos em cada um dos níveis apresentados – elementos que fazem parte de um puzzle maior, de uma engranagem de difícil percepção que lentamente se revela. Ainda que a narrativa pareça de fantasia, as várias engrenagens que vão sendo expostas fazem resvalar Senlin Ascends para um Steampunk soft, que terá de ser confirmado nos volumes seguintes. Decerto irei ler os próximos volumes num futuro próximo!

Jogos de tabuleiro de Ficção científica (1)

Começo por apresentar dois jogos leves, rápidos e portáteis, a par com um mais pesado (e, diria, mais voltado para jogadores experientes), mas que possuem, em comum, os temas de ficção científica, combinando, dessa forma, dois dos temas deste Rascunhos: ficção científica e jogos de tabuleiro.

Star Realms

Star Realms é um jogo de cartas rápido e fácil de aprender que possui uma combinação de mecânicas de construção de baralho (deck building), gestão de mão (hand management) e compra de cartas de um conjunto disponível (card drafting).

De uma forma simplista, o jogo tem como objectivo a destruição do Império adversário sem que o nosso seja destruído. Para tal vamos construindo naves e bases, combinando poderes e infligindo dano no Império adversário enquanto tentamos impôr barreiras para que não sejamos destruídos.

Visualmente trata-se de um jogo agradável que aproveita o tema de forma simplista, sem grande imersão, mas que ganha adesão pela simplicidade de regras e de símbolos, pela portabilidade e pela rapidez de jogo.

Tiny Epic Galaxies

O primeiro do que haveria de se tornar uma colecção de Tiny Epic, tem como tema o desenvolvimento de um Império, construído com a movimentação de naves e o rolar de dados a cada turno. Tal como o anterior é um jogo simples, de jogadas rápidas e bastante portátil mas que tem um elemento pouco comum que permite retirar os tempos mortos entre cada turno, permitindo que um jogador siga a acção de outro.

Ainda que tenha como tema um Império Galáctico, o aproveitamento do tema é sobretudo visual, apesar de ter naves que podem manter-se em órbita ou aterrar num planeta, sendo que cada planeta confere capacidades diferntes.

Terraforming Mars

Dos jogos apresentados hoje, este é aquele que mais usa a premissa para intergar as várias mecânicas. O objectivo do jogo é, como o nome indica, transformar Marte para que possa sustentar vida terrestre, objectivo que é atingido aumentando a temperatura, o nível de oxigénio e a água líquida no planeta.

Cada jogador vai adquirindo e jogando cartas que permitem aumentar a produção de dinheiro, plantas, minério, temperatura e energia (de uma forma simplista), elementos que podem ser transformados em cada um dos três elementos (temperatura, oxigénio ou colocação de peças que correspondem a água líquida). Existem, ainda, cartas que permitem a construção de indústrias e de cidades, aumentando a rapidez com que se consegue transformar Marte num planeta habitável para a vida terrestre.

Para além da lógica envolvente em terratransformar Marte, destacam-se as descrições das cartas, algumas mais inventivas do que outras, mas bastantes com alguma lógica científica – se na literatura de ficção científica se fala, várias vezes, de terratransformar vários planetas, no jogo pode-se explorar esta componente, evoluindo um planeta de diversas formas.

East of West – Vol.6 – Hickman e Dragotta

Depois de um quinto volume que posiciona algumas personagens para um desenlace futuro, este sexto resolve fechar algumas tensões e algumas histórias, eliminando personagens e facções numa antecipação da destruição massiva que está por vir.  Com vários episódios de brutais batalhas, mas também com vários momentos mais pausados, este volume retoma o fôlego da série e prepara o final.

Entre as várias personagens que seguimos há quem se queira assumir como profeta num papel de liderança suprema sob diversas entidades poderosas. Tal aspirante a profeta não compreende que apesar das provas (que acha de carácter absoluto) estas entidades são autónomas e desafiadoras para que tal possa acontecer com sucesso de forma pacífica e complacente. Não é, assim, de estranhar, que este momento de elevada tensão seja resolvido violentamente, com a morte de meros mortais e de entidades mais poderosas.

Paralelamente, O Cavaleiro do Apocalipse, Morte, continua à procura do filho, contratando, para isso, o dono de um café que possui agentes por todo o mundo. O negócio não corre como esperado devido a quezílias mais antigas e O Cavaleiro continua a busca com um olho a mais, enquanto vários mercenários procuram o rapaz com outras intenções.

Visualmente, esta série continua a ser excelente, cruzando elementos grosseiros de fantástico de horror com elementos futuristas de ficção científica. A tecnologia desenvolvida convive com monstros inimagináveis numa história carregada de episódios violentos, traições políticas e amores perdidos e o resultado é arrebatador.

Novidade: Seca – Jarrod Shusterman e Neal Shusterman

A Saída de Emergência anuncia novo livro de ficção científica – com uma história que esperemos que se mantenha como ficção científica!

Quando a seca atinge proporções catastróficas, há decisões que não podem esperar.

A seca já dura há muito tempo na Califórnia. E a vida da população tornou-se uma interminável lista de proibições: proibido regar a relva, proibido encher a piscina, proibido lavar o carro ou tomar duches longos.
Até que as torneiras secam de vez.
E é assim que, de repente, o tranquilo bairro onde Alyssa Morrow vive se transforma numa zona de guerra, onde vizinhos e famílias, outrora solidários, se digladiam em busca de água. Quando os pais da jovem não regressam e a sua vida é ameaçada, Alyssa tem de tomar decisões impossíveis se quiser sobreviver. Um thriller fantástico que pode acontecer ainda no nosso tempo… e na nossa rua.

 

 

 

Novidade: Ascensão – MAF

O terceiro lançamento da Escorpião Azul para este mês é um novo livro de MAF, Ascensão:

E se te dessem a oportunidade de te tornares um deus, aceitavas o desafio? Mesmo sabendo que o mais certo era morreres? Este livro é a segunda parte da aventura iniciada em “Terra 2.7” por quatro heróis improváveis e que dá respostas às questões então levantadas.

 

Farmhand – Vol.1 – Rob Guillory

O nome de Rob Guilloy é conhecido como sendo o desenhador de Tony Chu, uma das séries mais nojentamente divertidas de sempre que é, também, um dos grandes êxitos da Image e da G Floy em Portugal. Foi com esta referência que peguei em Farmhand,  reconhecendo o estilo visual do desenhador, mas curiosa quanto o que poderia fazer a solo. O resultado, surpreendeu positivamente.

Em Farmhand um mau agricultor, Jedidiah Jenkins, descobriu um caminho para o sucesso através de um plano que lhe terá sido entregue por uma entidade divina – um plano através do qual seria possível tornar as células indiferenciadas e crescer partes de corpos humanos que poderiam ser usados em transplantes.

O que é peculiar é que estes pedaços de corpos humanos crescem em árvores e arbustos, dando, a todo o ambiente de cultivo uma imagem de filme de horror. Mas ligeiramente cómico. E trágico. E carregado de boas personagens – personagens mal humoradas que quebram estereotipos (como quase todas as boas personagens) e que transformam toda a premissa numa história interessante e envolvente.

A história começa quando o filho de Jedidiah retorna à casa do pai, decidido a remendar o relacionamento que se quebrou há alguns anos. Leva consigo a esposa e os filhos, uma dupla curiosa e pouco tradicional, com a rapariga durona e um rapaz mais preocupado com leituras e afins.

Nesta mistela de ficção científica e fantástico a história destaca-se por apresentar personagens reais e únicas, personagens que conseguem mostrar diferentes reacções de forma convincente, sem necessidade de mostrar grande enquadramento ou passado. Existem, claro, frases e referências a outros tempos que nos levam a perceber melhor o que ocorre, mas sem grande excesso de informação.

Para poder apreciar a narrativa é necessário esquecer os detalhes de biologia celular e deixarmo-nos envolver pelos detalhes absurdos e engraçados da premissa – algo que vale a pena até porque, ao contrário de outras séries que pegam em detalhes científicos, Farmhand não pressiona demasiado o leitor nesse sentido.

O resultado consegue ser divertido e absurdo, reconhecendo-se o tom de imaginação cómica (com narizes a crescer em árvores que nem maçãs) que caracteriza Tony Chu. As personagens são diversas e credíveis, contrastando com a premissa nos limites do absurdo que, pelo menos neste volume, se sustenta.

Jogos ao Sábado – Star Realms

Start Realms é um jogo de cartas rápido e fácil de aprender que possui uma combinação de mecânicas de construção de baralho (deck building), gestão de mão (hand management) e compra de cartas de um conjunto disponível (card drafting). De uma forma simplista, o jogo tem como objectivo a destruição do Império adversário sem que o nosso seja destruído.

Para cumprir tal objectivo, o jogador vai adquirindo cartas mais fortes entre as que estão disponíveis na mesa, construindo bases para combinar poderes com os das naves, e infligindo dano ao adversário. As cartas possuem, sucintamente, três tipos de poderes base: pontos de dano, moeda e recuperação de pontos.

Para além destas características, algumas cartas possuem capacidades adicionais, como a de retirar cartas do nosso baralho (aumentando a probabilidade de nos sairem melhores cartas) de comprar outras cartas a custo 0 ou de se transformarem em outras cartas. Muitas das cartas têm o símbolo da facção a que pertencem e a combinação de cartas da mesma facção permite o uso de poderes adicionais.

Os pontos de vida iniciais não são muito elevados e são, normalmente, difíceis de recuperar, pelo que o jogo costuma ser rápido. A simbologia das cartas é de fácil apreensão resultando em jogadas fluídas e num jogo rápido. Em termos visuais, o jogo possui um tema de ficção científica, com naves e bases espaciais que usa eficazmente nas cartas, ainda que em termos de aproveitamento do tema resulte, sem ser imersivo.

Star Realms possui um baralho base, mas várias outras variantes que podem ser adquiridas à parte. Ainda que a compra de um baralho só permita o jogo a dois existem adições que o podem transformar num jogo para quatro jogadores. Para quem quiser experimentar o jogo antes de o comprar, existe uma APP gratuita que permite jogar nos modos simples e médio (para mais modos de jogos é necessário pagar a aplicação).

Star Realms foi publicado em Portugal pela Devir.

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