We será uma das obras distópicas mais influentes do início do século. O autor ter-se-à baseado na sua experiência directa com a Revolução Russa, e o seu livro terá influenciado obras como 1984 (George Orwell), The Dispossessed (Ursula K. le Guin) ou Player Piano (Kurt Vonnegut). Compreensivelmente, We encontra-se entre as obras banidas na União Soviética.
A obra de Yevgeny Zamyatin constitui o diário de um matemático, D-503, o responsável pela construção de uma nave espacial que se espera levar a felicidade atingida na Terra às culturas alienígenas. Todos os dias D-503 descreve a sociedade onde se encontra, uma sociedade que se rege pela estabilidade e previsão de todos os momentos seguintes.
But then, the sky! Blue, untainted by a single cloud (the Ancientes had such barbarous tastes given that their poets could have been inspired by such stupid, sloppy, silly-lingering clumps of vapour). I love – and i’m certain that i’m not mistaken if i say we love – skies like this, sterile and flawless! On days like these, the whole world is blown from the same shatterproof, everlasting glass as the glass of the Green Wall and of all our structures. On days like these, you can see to the very blue depths of things, to their unknown surfaces, those marvelous expressions of mathematical equality – which exist in even the most usual and everyday objects.
Qual 1984 existe uma figura paternal que representa o estado, mas que aqui se designa de Grande Benfeitor. Não existem câmaras em casa, mas as paredes são de vidro e todos os sentimentos são desencorajados – controlam-se os desejos e a sua satisfação e até a sexualidade é supervisionada pelo Estado. As pessoas são referidas como cifras e nomeadas por números e letras que relembram, talvez propositadamente, nomes de robots.Pretende-se atingir a perfeição pela ausência de imprevistos e pelo controlo extremo:
The only means of ridding man of crime is ridding him of freedom
Com o desenrolar da história assistimos a uma gradual mudança de discurso – a perfeição conhecida por D-503 é quebrada quando conhece I-330, uma mulher inquietante que lhe revela uma realidade muito diferente e pouco expectável, onde um grupo de resistentes planeia uma revolução. D-503 descreve-se então como doente – de noite é acossado por sonhos, os sentimentos interferem com os pensamentos e o reconhecimento de uma alma em si atormenta-o.
Livro impressionante, não achei We tão chocante quanto 1984 ou Admirável Mundo Novo. 1984 tinha-me deixado uma forte sensação de claustrofobia e o último atingiu-me com uma pedra com a extrema desvalorização de um ser humano. Ainda assim é uma obra excepcional, recomendável a todos os que gostam de distopias.
