Contos de José Rodrigues Miguéis

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Julgo que antes da última sessão de Recordar os Esquecidos nunca tinha ouvido falar de José Rodrigues Miguéis. O que me captou e convenceu em ler algo foi o tom pitoresco com que descrevia episódios quase banais e quotidianos, dando-lhes uma perspectiva fresca e até, cómica em que as palavras não definem apenas o objecto a que se referem, mas criam facilmente uma imagem mental de tiques reconhecíveis.

Se pesquisarem na maioria dos alfarrabistas encontram alguns livros do autor a valores que considerei demasiado elevados. Felizmente encontrei uns quantos na Dejá lu a preços mais razoáveis ( 4€) e trouxe dois. Esta edição contém uma apresentação crítica, com lugar para bibliografia e dissertações sobre cada um dos contos.

O Acidente é o primeiro conto que se centra num rapaz, jovem, que sobrevive trabalhando nas obras de uma enorme mansão. A morte do dono, sem ser trágica (até porque é uma figura distante) é como que um prenúncio para acontecimentos mais próximos, neste caso o acidente que envolve o rapaz. Nesse dia, como em todos os outros, a mãe chega pouco antes da hora da pausa, com o almoço, mas ninguém tem coragem para falar com a velhota, de aspecto frágil.

Havia uma velha que vinha todos os dias: cómica, aos pulinhos por cima da lama e das poças, para não molhar os sSaudapatos, que tinham bem, o quê, dez anos de uso: ainda eram do tempo do seu defunto.

Em Léah descreve-se o quotidiano numa pensão barata onde uma jovem cuida dos quartos. A nossa personagem principal é um homem jovem, solteiro e que logo começa a sentir curiosidade pela rapariga que todos chamam, Léah – desprendida, vigorosa, apaixonada e apaixonante.

Saudades para Dona Genciana apresenta o bairro onde cresce um jovem rapaz, antigamente de ambiente bastante mais familiar onde todos se conhecem e todos sabem o que vai em casa de cada um. A Dona Genciana é uma daquelas senhoras de porte agradável que faz suspirar os homens da zona e que é bem menos recatada do que seria de esperar. Sob esta aura de aparente normalidade e em tom banal, sem qualquer crítica aparente, é descrita a vida desta senhora que não é, nem boa mãe, nem boa esposa:

Visse-a você ali à janela, na bata de folhos engomados, o cabelo preto todo frisado a papelotes, cotovelos no peitoril, os seios fartos aninhados como pombos nos braços roliços – e não resistiria a admirá-la como todos nós, os do tempo. Sugeria frescuras, grandes lavagens, bochechos de água de Botot, conchegos tépidos, colchões macios, noites regaladas. Vista de perto, não era nova, nem bela, nem elegante. Tinha mesmo o nariz avermelhado e grosso. Mas os seus olhos eram negros e rasgados, a pele alva e fresca, o cabelo abundante. E tinha essa fartura de carnes que, com o ardos dos olhos e as rendas e folhos faz o nosso encanto: «Mulher asseada!» ou «Bom colchão!».

Se «Porque te calas, Amândio?» é um pequeno conto que nos apresenta uma família consternada pelo acidente que abalou o tio da personagem principal e que tem, agora poucas horas de vida, O Cosme de Riba-Douro muda totalmente de ambiente, apresentando-nos a dura vida dos que viajam para outro país em busca de melhores condições, para sempre ilegais, mas ainda assim tentando constantemente a sua sorte numa mistura de esperteza e jeito para a paródia que acaba por ir safando de algumas situações mais desagradáveis, apesar dos princípios que gritam e de se tentarem desmarcar das instituições ilegais que gerem as influências e sob fachada dizem proteger os mais frágeis.

 

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