Destaque: Uma magia mais escura – V. E. Schwab

Os lançamentos de fantasia este mês parecem ter proliferado! Desta vez pela Minotauro, um livro de fantasia que auspicia alguma diversão:

Kell é um dos últimos viajantes, magos com a capacidade rara e muito desejada de viajar entre universos paralelos, ligados através de uma cidade mágica. Existe a Londres Cinzenta, suja e aborrecida, desprovida de qualquer magia e regida por um rei louco: George III. Existe a Londres Vermelha, onde a vida e a magia são veneradas e onde Kell cresceu com Rhy Maresh, o herdeiro irreverente de um império próspero. Existe a Londres Branca, um lugar onde as pessoas lutam para controlar a magia e a magia contra-ataca, consumindo a cidade até aos ossos. Outrora, existiu a Londres Negra. Mas já ninguém fala dela. Kell é oficialmente o viajante da Londres Vermelha, embaixador do império Maresh, guardião da correspondência mensal entre as realezas de cada Londres. Não oficialmente, é um contrabandista, servindo as pessoas dispostas a pagar pelo mais pequeno vislumbre de um mundo que nunca verão. É um passatempo difícil, cujas consequências perigosas Kell sofrerá em primeira mão. Fugitivo na Londres Cinzenta, conhece Delilah Bard, uma fora da lei com aspirações grandiosas. Primeiro, rouba-o, depois, salva-o de um inimigo mortífero e, por fim, obriga-o a levá-la para outro mundo à procura de uma verdadeira aventura. Mas uma magia perigosa cresce e a traição está em todas as esquinas. Para salvar todos os mundos, têm, antes de mais, de sobreviver.

Evento: Lançamento – Os Monstros que nos habitam

A mais recente antologia da Editorial Divergência vai ser lançada durante o próximo fim de semana, em dois eventos, um a decorrer em Lisboa na maravilhosa Biblioteca de São Lázaro e outro a decorrer no Centro Cultural de Vila Nova da Barquinha (Santarém). Sobre o evento podem consultar a página oficial e sobre a antologia deixo-vos a sinopse:

NO AR PAIRA ALGO MALIGNO…

Os mortos erguem-se das campas, os espíritos rondam a calçada, os demónios caçam almas para torturar e os cientistas tentam encontrar a fórmula para ressuscitar os mortos.

* * *
OS MONSTROS QUE NOS HABITAM é a mais recente antologia da Editorial Divergência, focada no paranormal. Nela estão incluídos seis contos de seis autores portugueses: Alexandra Torres, Ângelo Teodoro, Carina Rosa, Nuno Ferreira, Soraia Matos e Patrícia Morais.

Destaque: As Crónicas de Âmbar – Livro 1: Nove Príncipes de Âmbar – Zelazny

Sim, já saiu no início do mês, mas não podia deixar passar este lançamento em Portugal sem o referir! Com uma pitada de demência e de instintos assassinos, As Crónicas de Âmbar apresentam-nos um conjunto de irmãos que, constantemente, tecem planos para se matarem uns aos outros – e não é apenas o desejo de poder que os motiva. Li esta série há uns anitos e foi daquelas que marcou o meu gosto por fantasia a sério,  sem condescendências, príncipes encantados e felicidades idiotas. O primeiro volume da série foi publicado pela Saída de Emergência:

Âmbar é o único mundo verdadeiramente real. Todos os outros mundos, incluindo a Terra, não passam de sombras que de certa forma o imitam. Exilado na Terra desde há séculos, o príncipe Corwin acorda na cama de um hospital, sem memórias da sua existência passada. Gradualmente, descobre a verdade e é forçado a regressar ao mundo paralelo de Âmbar onde descobre que o rei Oberon, seu pai, é dado como desaparecido. Para ganhar o seu direito à sucessão do trono, Corwin terá de enfrentar realidades impossíveis forjadas por assassinos demoníacos, horrores inomináveis e os exércitos e fúria dos seus irmãos, os príncipes de Âmbar.

 

The Forever War – Joe Haldeman

Primeiro número da mítica colecção de SF Masterworks da Gollancz, The Forever War é um exemplo típico (ou O exemplo) de ficção científica bélica, envolvendo alienígenas, como forma de, num contexto abstracto, criticar a espécie humana e a motivação das guerras que desenvolve.

Se a história começa por nos apresentar uma espécie hostil que terá sido responsável pelo desaparecimento de algumas naves terrestres, cedo apanhamos alguns detalhes que nos fazem questionar a verdadeira origem da guerra e a forma como esta está a ser conduzida. Se a guerra pode ser vista, do ponto de vista económico, como uma força impulsionadora de algumas indústrias (e avanços tecnológicos) verdade é que, pode, também, ser usada como forma de exercer pressão nas sociedades, para apertar os cordões à bolsa ou implementar limitações na liberdade. Aliás, é com o conceito de inimigo comum, vigilante e poderoso que se justificam algumas das mais famosas distopias como 1984 ou Kallocaína.

Aqui, de forma bastante circunstancial, vamos assistir a algo semelhante. Neste caso, aproveitando, não só a guerra mas, também o crescimento absurdo da população humana, todos os bens são racionados, e a maioria das pessoas não possui um emprego. Os restantes conseguem algum dinheiro através da substituição ilegal dos verdadeiros trabalhadores por % bastante menores – na prática os detentores do emprego podem nunca chegar a trabalhar e ainda ganham o suficiente para se manterem.

Mas divago. Esta percepção crítica da sociedade em que alguns se mantém à margem em quintas onde podem viver em paz e produzem os mantimentos para os restantes, que permanecem em cidades decadentes carregadas de violência, é apenas uma pequena parte da história mas que terá um efeito determinante em fazer regressar à guerra, soldados que já estavam fartos de morte e destruição.

One thing we didn’t have to worry about in this war was enemy agents. With a good coat of paint, a Tauran might be able to disguise himself as an ambulatory mushroom. Bound to raise suspicions.

Infelizmente, neste caso, o inimigo existe. Ou é materializado sob a forma de alienígenas, os Tauran. As batalhas decorrem em condições extremas e várias expedições são enviadas para os destruir. Seguimos Mandella, um soldado que consegue sobreviver às duras condições de treino onde padece a maior parte dos colegas, e que faz parte da primeira missão em que se consegue capturar um Tauran. De missão em missão percebe que está cada vez mais isolado e que, apesar de pouco ter envelhecido, a vida passa na Terra. Depois de uma missão catastrófica em que resta ele e uma companheira, tentam regressar às suas respectivas famílias, descobrindo que a sociedade está caótica e que já não têm lugar entre os civis. Qualquer semelhança com a realidade dos soldados que retornam da guerra não é uma coincidência.

Depois de alguns episódios violentos e disruptivos ambos resolvem regressar às missões. Demasiado distantes do inimigo, as viagens provocam discrepâncias temporais na vida dos soldados. Mandella vê-se, assim, no ano de 2458, isolado da sua parceira de guerra e, entretanto, companheira, como um homem adulto incapaz de se adaptar às novidades sociais. É que a homossexualidade passou a ser imposta como forma de controlar a natalidade (que apenas existe por meios artificiais) e Mandella é, na prática, o ser humano com comportamento sexual desviante, visto como uma raridade estranha.

A par com a natalidade artificial existe a selecção e uniformização genética, eliminando diferenças raciais e doenças – ainda que esta selecção possa não ser assim tão vantajosa como poderá parecer à primeira vista. Se ambas podem ser defendidas positivamente como tendo em vista a eliminação do racismo e de efeitos genéticos nefastos (pontos expressos durante a narrativa), a verdade é que, do ponto de vista biológico, a eliminação da variedade, a par com a gestação exterior, pode vir a ter duras consequências futuras pela dependência da tecnologia (algo, também, indiciado levemente ao longo da história).

Back in the twentieh century, they had established to everybody’s satisfaction that “I was just following orders” was an inadequate excuse for inhuman conduct… but what can you do when the orders come from deep down in that puppet master of the unconscious?

(…) I was disgusted with the human race, disgusted with the army and horrified at the prospect of living with myself for another century or so… Well, there was always brainwipe.

Numa sociedade tecnologicamente avançada, como convencer soldados inteligentes a lutar? A ideia de um inimigo não é suficiente. Mesmo tratando-se de seres alienígenas, são humanóides e podem causar empatia. Nada melhor do que uma campanha para distinguir o outro, com recurso a mensagens subliminares onde se relata a violência que terá perpetuado, como forma de incitar respostas selvagens. Mesmo que o cérebro consciente do soldado perceba que estes relatos são impossíveis e irracionais, o que lhe provoca dissonância emocional.

Estes temas não são endereçados directamente. Joe Haldeman usa a vida de Mandella, implementando vários elementos paralelos com os que lutaram no Vietnam, para fazer uma crítica intemporal às motivações políticas e económicas por detrás das guerras, bem como ao condicionamento dos soldados, o valor das suas vidas e o retorno a uma vida civil. Tudo isto enquanto nos apresenta uma narrativa com elementos de tecnologia avançada e se questiona sobre a sua utilização. E é por todas estas razões que este é, sem dúvida, um grande clássico do género.

Mais ficção de Joe Haldeman

Destaque: História natural da estupidez – Paul Tabori

Já se encontra à venda mais eis um livro que me parece interessante pela premissa e pela respectiva sinopse!

Um dos grandes clássicos do ensaio do século XX, divertido e profundo. «A Estupidez é a mais mortífera arma ao alcance do ser humano; a epidemia mais devastadora; o luxo mais dispendioso.» A «História Natural da Estupidez» é uma excelente reflexão acerca dessa característica infindável e inefável da raça humana que é a estupidez. O livro está repleto exemplos históricos que marcaram a evolução da estupidez desde a Antiguidade até aos tempos de hoje. A burocracia, o servilismo, a dúvida e a rigidez das leis são alguns dos temas incluídos nos capítulos do livro. Uma deliciosa panorâmica com um fundo histórico-filosófico riquíssimo e ao mesmo tempo uma reflexão para a vida! Uma versão desta obra foi publicada em Portugal pela Portugália nos anos 60 sob o título «A Ciência Natural da Estupidez» e vendeu mais de 12 tiragens. Esse volume, contudo, tinha cerca de 2/3 do original tendo sido censurado. Esta é a primeira edição integral em língua portuguesa.

 

Resumo de Leituras – Março de 2017 (2)

57 – O Submarino David – Os Túnicas Azuis – Willy Lambil e Raoul Cauvin – Se num volume anterior assistimos à utilização, na Guerra da Secessão, dos primeiros navios couraçados, neste volume acompanhamos a utilização do CSS David, já considerado um submarino;

58 – Agnar, o Bisavô – A Casta dos Metabarões – Jodorowsky e Gimenez – Este foi lido na biblioteca enquanto aguardava a sessão de lançamento de Lovesenda da autoria de António de Macedo. Este volume continua a apresentar a história dos antepassados do Metabarão demonstrando que se trata de uma linhagem forte que apenas poderia resultar na produção de um super guerreiro;

59 – My work is not yet done – Thomas Ligotti – O conhecido autor de terror apresenta um trio de histórias de terror corporativo onde se apresentam as intensas e corrosivas relações entre chefes de departamento. Nalguns episódios o ar é tão pesado que se apresenta como nevoeiro, impossibilitando o normal andar dos empregados. Claro que sendo Thomas Ligotti não se trata, apenas de terror de ambiente – esperem algumas partes mais gore  brutais com elementos sobrenaturais;

60 – Histórias de outro Mundo – Vários autores  – Antologia de histórias de banda desenhada de ficção científica, possui bons momentos e boas histórias, algumas com pitada de humor e ironia.

Herland – Charlotte Perkins Gilman

A ideia de uma sociedade constituída exclusivamente por mulheres não é nova – tem vários séculos, para não dizer milénios e o mito grego poderá ter ganho força (ou inspiração) num grupo de nómadas iranianos onde se poderiam encontrar mulheres guerreiras.

De forma bastante diferente, mas revolucionária, Herland foi escrito há mais de um século e ninguém o diria se o lê-se sem saber a data de publicação. Não só pela prosa, que é escorregadia, mas sobretudo pelas ideias originais e avançada para a época, onde o contraste de uma sociedade exclusivamente feminina permite vislumbrar pessoas e não géneros, sem condescendências ou agressividades.

Herland começa por nos apresentar um grupo de três exploradores (homens, claro) que parte em busca de um rumor onde se expressa a existência de uma civilização composta apenas por mulheres. A expectativa é baixa. Sem homens decerto que não terão ordem nem ciência. Esperam uma sociedade caótica, desorganizada e fútil, onde as mulheres se sentam a fazer casacos de malha ou a cochichar.

O que encontram não podia ser mais discrepante. Pensando, inicialmente, que existirão homens (escondidos) que justifiquem a civilização que encontram, são capturados por várias senhoras que, educadamente, os mantém em quartos compostos. O dia a dia é passado a aprender a língua desta civilização, mostrando estes homens o quão superior pensam ser.

Apesar da origem comum, os três homens apresentam perspectivas bastante diferentes. O narrador é mais acessível e rapidamente percebe que a civilização que encontrou corrigiu todos os defeitos da sua – sem religião (ou pelo menos num conceito bastante diferente) e sem conflitos, é uma sociedade próspera com capacidade de evolução, em que se concede a liberdade de prosseguir as inclinações de cada indivíduo, deixando o papel da educação aos mais sábios e experientes com uma dissociação lógica entre o papel de progenitora e mãe.

É desta forma que aprende a ser parceiro da mulher que o ensina e a aceitá-la como ser inteligente, capaz e igual, algo que não ocorre com outro dos membros do grupo que conhece apenas a lógica do forçar o género feminino ao interpretar o não como sim obscuro, minimizando o querer individual e mostrando-se como incapaz de percepcionar uma mulher como um indivíduo por si.

Tão interessante quanto a sociedade descrita é a evolução do narrador quando confrontado com as diferenças, inicialmente relutante e céptico em relação à perfeição daquela cultura, mas que, com a constante exploração e confronto de ideias, percebe as diferenças, a igualdade entre os membros daquela irmandade, impossível no mundo de competição e corrupção em que cresce.

Interessante não só pela perspectiva de género mas pela perspectiva de construção social em que, sendo possível a igualdade, é também possível o desenvolvimento individual e a concretização das capacidades de cada um, Herland torna-se uma leitura excepcional por conseguir apresentar todas estas ideias de uma forma estável, coesa e lógica.

The long way to a small angry planet – Becky Chambers

Lançado em 2014, The long way to a small angry planet tem uma história curiosa. O livro foi publicado como edição de autor no seguimento de uma angariação de fundos pela própria autora e viria a ser um daqueles raros casos em que o sucesso levou a nova publicação por uma editora conceituada no meio editorial.

Seguir-se-iam nomeações para o prémio Arthur C. Clarke e para o BSFA e referências sucessivas ao livro como uma Space Opera bem humorada, mas nem por isso menos séria ou interessante, com momentos de tensão e de elevado entendimento da condição humana – por vezes, da condição alienígena – mas acima de tudo do entendimento de diferentes entidades inteligentes com questões culturais próprias.

A história apresenta-nos a tripulação de uma nave mercante que realiza diversas missões por um valor que é distribuído pelos membros. Encontramos a nave no momento em que se preparam para aceitar mais um membro, uma jovem que terá como missão ajudar a lidar com as burocracias e colmatar o entendimento entre diferentes espécies alienígenas.

Desde logo percebemos que esta jovem assume uma identidade falsa, não sob pretextos criminosos, mas como forma de esconder a ligação familiar a outros humanos de índole duvidosa. Claro que não é a única a esconder um segredo. A A.I. da nave desenvolveu uma personalidade muito própria e prepara-se para passar a um corpo humano (algo ilegal) e um dos membros da tripulação tem um caso altamente secreto com uma bela alienígena. Um a um, vamos percebendo a diversidade de personalidades que se encontram a bordo.

Depois de estabelecer o ambiente a bordo, de companheirismo bem humorado e respeitoso, com excepção para alguns membros incapazes de grande socialização, Becky Chambers aproveita a diversidade de espécies alienígenas para confrontar hábitos e costumes, diferentes formas de pensar e de agir, justificando-os à luz de cada cultura sem dissertações exaustivas, mas conferindo uma unicidade a cada elemento que o torna mais compreensível e, consequentemente, possível alvo da empatia do leitor.

Assim se exploram algumas questões de descriminação realçando os hábitos que foram sendo progressivamente assumidos pelos viajantes de vários mundos (como não olhar durante demasiado tempo ou tentar conhecer antecipadamente gestos ou expressões que possam ser ofensivas) ou questões de género.

Cada espécie alienígena possui formas bastante próprias de sociedade e serve como modelo para a exploração de diferentes sexualidades e comunidades, ultrapassando a noção estanque de uma sociedade homogénea e estereotipada – cada um dos elementos carrega a sua própria história para além da sua espécie.

The long way to a small angry planet é um livro divertido. Apesar de não levar o leitor a grandes gargalhadas estabelece um ambiente agradável entre os vários elementos (que são, quase todos, boas pessoas) colocando-os em situações difíceis de confronto moral e ético, nos quais se vão safando de forma oscilante. Não esperem acções heróicas ou respostas lineares. Tratam-se de personagens complexas que apresentam as suas próprias limitações e que irão responder de forma diferente conforme a ocasião.

Sem chegar ao patamar de extraordinário (por vezes alonga-se demasiado em episódios de pouca importância e possui algumas arestas a limar na apresentação de personagens) The long way to a small angry planet é uma excelente leitura que recomendaria, mesmo a quem não costuma ler o género da Space Opera.

Resumo de Leituras – Março de 2017 (1)

img_2633

53 – O ouro do Quebeque – Túnicas Azuis – Vol. 10 – Ambos os lados da Guerra enviam um par de soldados disfarçados ao Canada com o intuito de capturarem o ouro acumulado por um garimpeiro. Não esperam é que o guia que arranjam seja pior que eles a orientarem-se nas florestas…;

54 – Louco: Fuga – Rogério Coelho – Visualmente esplendoroso, centra-se no Louco, uma personagem da Turma da Mónica que é conhecido pelos episódios mirabolantes. Aqui mostra algumas das suas aventuras entre mundos, fugindo ao cinzento, e aspirando à liberdade das ideias;

55 – Deadpool – A Guerra de Wade Wilson – Duane Swierczynski e Jason Pearson – Neste volume da colecção da Salvat reúnem-se duas histórias sobre a origem desta personagem contadas pelo próprio, e alteradas para sua própria conveniência consoante a situação. Na primeira faz parte de um plano demente como soldado a soldo, e com a segunda pretende angariar alguém que adapte a sua história para um bom filme;

56 – Through the woods – Emily Carroll – De ambiente negro, este livro reúne várias histórias de horror curtas que terminam, quase todas de forma péssima para as personagens, ou, no mínimo, traumática.

Monstress – Marjorie Liu e Sana Takeda

img_2998

Publicada pela Image, Monstress revelou um fabuloso mas negro mundo fantástico onde os seres humanos repartem o mundo com Arcanics, seres mágicos na sua maioria antropormóficos ainda que possam misturar características de outros seres ou elementos irreconhecíveis. Bem, repartir o mundo não será a palavra correcta. Os humanos encontram-se em guerra com os Arcanics e consomem-nos para obterem mais magia.

img_3007

A história começa com a captura de uns quantos Arcanics, entre os quais se encontra Maika, uma jovem Arcanic que tem poderes pouco usuais associados a uma marca corporal. Em missão de descoberta e vingança, Maika irá libertar-se e libertar os restantes prisioneiros, numa enorme chacina em que enfrenta o passado e revela um assustador monstro interior – um monstro faminto que a protege mas que toma conta da sua consciência e provoca horrores indescritíveis.

img_3001

De forte influência oriental, Monstress mistura várias mitologias e dá à figura felina um papel importante nesta realidade fantástica – um papel que vai ganhando importância com a progressão da narrativa, mostrando que são os detentores do conhecimento antigo, da história e de grandes segredos que poderão explicar o actual relacionamento entre os Arcanics e os seres humanos.

img_3017

Os Arcanics, vistos pelos humanos como animais úteis, monstros que são chacinados e usados em experiências macabras, são criaturas inteligentes e sensíveis com os quais é mais fácil mostrar empatia. Os humanos mostram-se, ora como marionetas obedientes, ora como seres manipuladores, sádicos em busca de maior poder.

img_3021

A história é sombria e explora, indirectamente várias temáticas. Por um lado, Monstress recorre a várias personagens femininas para quebrar os estereótipos e a comum atribuição de papéis.  Vilãs ou heroínas, as várias mulheres que aqui encontramos são personagens complexas, com passados que desconhecemos mas que vamos descobrindo, pessoas de objectivos vários que se confrontam em mais do que um plano.

img_3004

Para além da óbvia dissociação entre o género e a capacidade de realizar acções violentas, Monstress apresenta questões associadas à descriminação levando-nos a questionar não só o que define um ser humano mas a legitimidade de torturar, matar e usar indiscriminadamente seres sensíveis e, até inteligentes.

img_3022

Monstress é, em suma, uma banda desenhada de difícil definição. Contendo elementos que recordam a melancolia sombria de alguns animes com a impossibilidade de fugir de um destino mesmo que o mesmo se preveja catastrófico, é uma história de auto-descoberta encapuçada de demanda pela vingança.

img_3011

 

Histórias do outro mundo – vários autores

img_2939

Este Histórias do Outro Mundo publicado pela Escorpião Azul reúne várias histórias de ficção científica de premissas e visuais variados, algumas histórias irónicas, outras traumáticas ou pesadas, mas todas numa boa combinação de elementos narrativos e artísticos.

img_2952

Histórias de horror perpetuadas por familiares, bases espaciais atacadas em surtos de guerra ou enormes catástrofes apocalípticas – algumas investem em sucessivas reviravoltas narrativas, outras em fortes cenários e episódios de acção. Escolham o que preferem numa história de ficção científica e decerto encontrarão neste conjunto.

img_2957

Histórias do Outro Mundo foi publicado pela Escorpião Azul.

img_2955

Um jogo de ti – Sandman Vol. 5 – Neil Gaiman, Swan McManus, Colleen Doran, Bryan Talbot, George Pratt, Stan Woch e Dick Giordano

img_2526

Depois de um volume esplendoroso quer na forma como explora a personagem do Eterno Sono, quer na forma como nos mostra vários deuses, de várias mitologias, em competição pelo Inferno, este volume traz-nos uma história bem mais sombria e arrepiante.

img_2529

Quando Barbie, uma rapariga do interior que agora vive na grande cidade, revela que é incapaz de sonhar, tal não parece de grande importância. Quando os elementos dos seus antigos sonhos e brincadeiras infantis se parecem materializar no mundo real, provocando surtos de surrealidade nos que a circundam, percebemos que algo de mundo errado está a ocorrer.

img_2534

Uma noite algo de muito errado ocorre. Barbie é puxada para o mundo dos sonhos de criança, numa noite de pesadelo comum a todos os moradores do prédio. Por coincidência (ou não), no mesmo prédio reside um homem vazio que alberga cucos no seu interior, bem como uma bruxa antiga que, ao ser incomodada, inicia uma série de perigosos rituais em vingança.

img_2539

Chamada à terra das suas brincadeiras infantis pelos brinquedos materializados em pequenas personagens, Barbie tem uma árdua e longa missão para vencer a governante dos domínios, o Cuco, a personagem que toma conta do ninho alheio, captando recursos e a dedicação dos que a rodeiam.

img_2546

Este volume mostra que a fronteira entre o sonho, a imaginação e a realidade é ténue. Neste caso a terra de sonho, formada pela imaginação, transforma-se num longo pesadelo, que engole personagens e tem efeitos bastante nefastos na realidade. O pesadelo não vem só da realidade paralela, mas da conversão das personagens boas em adoradoras do Cuco, fascinadas pelo seu carisma.

img_2561

Negro e carregado de consequências pela mútua invasão entre os mundos, o quinto volume volta a demonstrar que atingir novamente o equilíbrio tem um pesado preço, mais para os envolvidos parcialmente do que para os que se encontram no centro dos acontecimentos.

img_2554

A colecção Sandman foi publicada em Portugal pela Levoir em parceria com o jornal Público.

O Incrível Hulk – Planeta Hulk parte 1 – Greg Pak, Carlo Pagulayan e Aaron Lopresti

img_2931

Se querem força bruta e grandes cenários de batalha mirabolantes, chamem Hulk. Pouco racional e raivoso, Hulk investe contra tudo e contra todos, descarregando grandes quantidades de energia por quem se encontra à sua frente. O facto de ser quase incapaz de se encontrar leva a que os outros super heróis se reúnam e o enviem para um planeta alienígena sem saberem que o estão a enviar para um planeta carregado de batalhas.

img_2972

O planeta em que Hulk agora se encontra é dominado por um Imperador, um ditador déspota, maléfico e impiedoso que, à mínima contrariedade ou simplesmente capricho, condena os seus súbditos aos calabouços para ingressarem em batalhas sucessivas onde lutam uns contras os outros, para além de enfrentarem enormes monstros locais.

img_2970

Possuidor de uma força sobrenatural, mesmo para este planeta, o cenário não poderia ser melhor para a raiva de Hulk. Não se aliando a ninguém, enfrenta estes monstros de forma desprendida mas vitoriosa em cenas de suster a respiração pela espectacularidade visual.

img_2977

Este primeiro volume apresenta não só as sucessivas batalhas, mas a consequente libertação do povo, impulsionados pela destruição de Hulk que acaba por soltar alguns dos outros “gladiadores”. É assim que vamos conhecendo o restante planeta e as povoações, também elas movidas pela raiva, mas também pela vingança, iniciando-se uma série de batalhas que corresponderão à concretização de uma antiga profecia.

img_2981

Intercalando diferentes espécimes inteligentes com esplendorosas capacidades para a guerra e para o confronto corpo a corpo, Hulk – Planeta Hulk possui uma premissa bastante simples, quase linear que atinge o seu objectivo de forma bastante simples. A sucessão dos episódios de acção garante uma dinâmica elevada e uma boa variedade visual.

img_2980

Este volume é quinto de A Colecção Oficial de Graphic Novels Marvel publicada pela Salvat.

Edição Extra – Geral et Derradé

img_3033

Depois de ter adorado A Demanda do G, carregado de elementos mirabolantes que colocam qualquer leitor num estado de boa disposição, foi com grande vontade que peguei neste Edição Extra, que contem histórias das mesmas personagens que já tinham sido publicadas nos mais diversos formatos desde 98.

img_3040

Claro que, compilando diferentes história de diferentes origens não é de esperar a estrutura coesa e contínua de A Demanda de G, mas uma série de episódios com o mesmo tipo de humor e elementos divertidos, numa compilação que vale muito a pena.

img_3046

Nos primeiros episódios acompanhamos as desventuras de uma mosca intercaladas com os Psicopathos, patos que reúnem uma série de patologias psicológicas. Não faltam, claro, os episódios com a célebre The Badsummerboys Band e até o Pai Natal e Fernando Pessoa aparecem entre as pequenas aventuras.

img_3054

O tipo de humor vai variando, com as personagens e as situações, fazendo com que o conjunto seja uma descoberta constante de cenas inusitadas, mirabolantes ou simplesmente idiotas (idiotamente cómicas, claro).

img_3049

O conjunto de histórias foi publicado sobre o título Edição Extra pela Escorpião Azul.

Hoje aconteceu-me uma coisa brutal – El Torres e Julián López

img_3064

Hoje aconteceu-me uma coisa brutal foi publicado aquando da Comic Con Portugal de 2016, com a vinda dos autores El Torres e Julián López ao evento. Apesar de ter ficado curiosa só recentemente adquiri o livro e descobri uma história de super-herói com poderes um pouco mais introspectiva do que é habitual e um excelente visual.

img_3073

Para além das fortes dor de cabeça, Daniel começa, um dia, a ouvir uma voz feminina – uma voz que só ele é capaz de ouvir. A voz instiga-o a intervir no episódio de violência doméstica que decorre no apartamento ao lado e é assim que descobre uma força sobrenatural aliada a uma elevada capacidade de regeneração.

img_3080

A este sucedem-se vários episódios em que se decide a intervir, aproveitando os novos poderes para parar e enfrentar criminosos. Como seria de esperar, existem outros como ele, que, desde logo percebe, terem planos próprios ainda que não encarnem o papel de vilão maléfico.

img_3090

Apesar destes elementos com super-poderes diferentes juntarem, por vezes esforços para atingirem objectivos comuns, Daniel percebe, num mau momento, que raramente poderá contar com a imediata ajuda e apoio dos restantes. Qual exactamente o papel de cada um e as suas intenções desconhecemos.

img_3101

Com elementos comuns a tantas outras histórias semelhantes (o acolhimento alegre e desprendido dos amigos quando descobrem as capacidades de Daniel, a existência de outros, a utilização imediata dos poderes para o bem) e de não conseguir concretizar, na totalidade deste volume, o potencial possível, Hoje aconteceu-me uma coisa brutal tem, também, um desenvolvimento cliché, quase genérico, com a desilusão nos outros elementos com super-poderes e o afastamento necessário de quem se gosta para não os por em perigo.

img_3094

No final existem alguns episódios que fogem um pouco à linha narrativa habitual, não se revelando todos os segredos deste mundo e mostrando que o herói central pode escolher o seu próprio percurso afastando-se do que é imediatamente esperado dele.

img_3098

Apesar dos elementos conhecidos que são desenvolvidos ao longo da história, a leitura de Hoje aconteceu-me uma coisa brutal vale bastante pelo visual, de fortes contrastes onde se explora, como cenário, a cidade de Barcelona.

img_3082

Hoje aconteceu-me uma coisa brutal foi publicado pela Comic Con Portugal.

Drifter – Vol.2 – Ivan Brandon e Nic Klein

img_2650

O segundo volume de Drifter continua a linha do primeiro – visual brutal e história misteriosa onde vamos encontrando pistas do que originou as aparentes quebras na linearidade temporal percepcionada, tanto pelas personagens como pelo leitor.

img_2873

Passo a explicar. A história começa com um homem a ser salvo de estranhos alienígenas. A percepção que tem é de que a nave onde viajava acabou de se despenhar. Para os que o salvaram, a nave despenhou-se há muito, criando uma pequena confusão na mente deste homem que se refugia na violência como forma de apagar o forte sentimento de impotência.

img_2865

Paralelamente vamos assistindo a vários episódios, envolvendo outras personagens,  episódios que visualizamos com pouco contexto, como se, também nós, tivéssemos acabado de chegar e desconhecêssemos este mundo e esta sociedade. Percebemos que os alienígenas funcionam em comunidade entre eles, com uma perspectiva muito própria sobre o que é justiça e regras de convivência, constituindo personagens arrepiantes, pela incapacidade que sentimos em as compreender.

img_2870

Misterioso, deixando pequenas pistas ao longo da narrativa saltitante, Drifter é uma leitura desafiante que nos leva a construir um puzzle entre elementos estranhos e pouco lineares, onde os relacionamentos não são óbvios e os acontecimentos não ocorrem de forma sequencial.

img_2877