Resumo de Leituras – Março de 2017 (2)

57 – O Submarino David – Os Túnicas Azuis – Willy Lambil e Raoul Cauvin – Se num volume anterior assistimos à utilização, na Guerra da Secessão, dos primeiros navios couraçados, neste volume acompanhamos a utilização do CSS David, já considerado um submarino;

58 – Agnar, o Bisavô – A Casta dos Metabarões – Jodorowsky e Gimenez – Este foi lido na biblioteca enquanto aguardava a sessão de lançamento de Lovesenda da autoria de António de Macedo. Este volume continua a apresentar a história dos antepassados do Metabarão demonstrando que se trata de uma linhagem forte que apenas poderia resultar na produção de um super guerreiro;

59 – My work is not yet done – Thomas Ligotti – O conhecido autor de terror apresenta um trio de histórias de terror corporativo onde se apresentam as intensas e corrosivas relações entre chefes de departamento. Nalguns episódios o ar é tão pesado que se apresenta como nevoeiro, impossibilitando o normal andar dos empregados. Claro que sendo Thomas Ligotti não se trata, apenas de terror de ambiente – esperem algumas partes mais gore  brutais com elementos sobrenaturais;

60 – Histórias de outro Mundo – Vários autores  – Antologia de histórias de banda desenhada de ficção científica, possui bons momentos e boas histórias, algumas com pitada de humor e ironia.

Histórias do outro mundo – vários autores

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Este Histórias do Outro Mundo publicado pela Escorpião Azul reúne várias histórias de ficção científica de premissas e visuais variados, algumas histórias irónicas, outras traumáticas ou pesadas, mas todas numa boa combinação de elementos narrativos e artísticos.

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Histórias de horror perpetuadas por familiares, bases espaciais atacadas em surtos de guerra ou enormes catástrofes apocalípticas – algumas investem em sucessivas reviravoltas narrativas, outras em fortes cenários e episódios de acção. Escolham o que preferem numa história de ficção científica e decerto encontrarão neste conjunto.

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Histórias do Outro Mundo foi publicado pela Escorpião Azul.

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Um jogo de ti – Sandman Vol. 5 – Neil Gaiman, Swan McManus, Colleen Doran, Bryan Talbot, George Pratt, Stan Woch e Dick Giordano

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Depois de um volume esplendoroso quer na forma como explora a personagem do Eterno Sono, quer na forma como nos mostra vários deuses, de várias mitologias, em competição pelo Inferno, este volume traz-nos uma história bem mais sombria e arrepiante.

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Quando Barbie, uma rapariga do interior que agora vive na grande cidade, revela que é incapaz de sonhar, tal não parece de grande importância. Quando os elementos dos seus antigos sonhos e brincadeiras infantis se parecem materializar no mundo real, provocando surtos de surrealidade nos que a circundam, percebemos que algo de mundo errado está a ocorrer.

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Uma noite algo de muito errado ocorre. Barbie é puxada para o mundo dos sonhos de criança, numa noite de pesadelo comum a todos os moradores do prédio. Por coincidência (ou não), no mesmo prédio reside um homem vazio que alberga cucos no seu interior, bem como uma bruxa antiga que, ao ser incomodada, inicia uma série de perigosos rituais em vingança.

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Chamada à terra das suas brincadeiras infantis pelos brinquedos materializados em pequenas personagens, Barbie tem uma árdua e longa missão para vencer a governante dos domínios, o Cuco, a personagem que toma conta do ninho alheio, captando recursos e a dedicação dos que a rodeiam.

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Este volume mostra que a fronteira entre o sonho, a imaginação e a realidade é ténue. Neste caso a terra de sonho, formada pela imaginação, transforma-se num longo pesadelo, que engole personagens e tem efeitos bastante nefastos na realidade. O pesadelo não vem só da realidade paralela, mas da conversão das personagens boas em adoradoras do Cuco, fascinadas pelo seu carisma.

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Negro e carregado de consequências pela mútua invasão entre os mundos, o quinto volume volta a demonstrar que atingir novamente o equilíbrio tem um pesado preço, mais para os envolvidos parcialmente do que para os que se encontram no centro dos acontecimentos.

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A colecção Sandman foi publicada em Portugal pela Levoir em parceria com o jornal Público.

My work is not yet done – Thomas Ligotti

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Conhecido por ser uma personagem reclusa, quase escondida e desaparecida, Thomas Ligotti tem recebido ao longo dos vários anos de carreira, inúmeros prémios de onde se destacam 5 prémios Bram Stoker, 3 World Fantasy Award e 1 BFSA. My work is not yet done venceu dois, um Bram Stoker e um International Horror Guild Award.

Depositando pouca esperança na espécie humana, My Work is not yet done apresenta três histórias de terror corporativo. A primeira história, a mais extensa e que dá nome ao conjunto, começa por nos apresentar o horror das reuniões entre chefes onde cada tema é abertura para indirectas que enterram, sem possibilidade de resposta, os colegas.

Oscilando entre as palmadinhas nas costas e a identificação do elo mais fraco que podem atacar de seguida, estas reuniões entre chefes são os locais onde cada um define as suas estratégias destrutivas, ao mesmo tempo que fazem o mínimo possível para manterem o lugar e aproveitam para alimentar a fama de capacidades indispensáveis para a empresa.

A personagem principal, um dos chefes mais recentes, foi identificado como elo mais fraco. As reuniões são momentos tão terríveis que tece uma boa metáfora dos restantes identificando-os como porcos. Tal analogia só é ultrapassada pela associação do aspecto atarracado que têm nas cadeiras da reunião aos sete anões.

Claro que há uma altura em que a personagem principal, homem que tentou inovar ao introduzir um produto revolucionário (herege!), perde a razão e, ajudado por negras forças sobrenaturais, começa a ter uma macabra vingança sobre os sete anões.

Os dois contos seguintes, mais pequenos, são semelhantes, roçando o poder negro sobrenatural que estará por detrás do horror instigado no ambiente empresarial, referindo ambientes tão densos de tensão que funcionam como nevoeiro e impedem a normal circulação de pessoas.

Negro, sarcástico, inovador e quase cómico na forma como aproveita o ambiente aterrorizante de empresas que sugam as energias dos seus trabalhadores e que se impõem pelo medo da hierarquia, My work is not yet done revela a pouca esperança na humanidade

Through the Woods – Emily Carroll

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Negro e sangrento – Through the woods apresenta uma série de histórias carregadas de monstros, alguns dos quais bem humanos, onde nem as crianças nem as jovens donzelas estão a salvo.

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Jovens donzelas que casam com senhores poderosos e descobrem os restos mortais de jovens esposas no castelo, restos que as irão assombrar para sempre, monstros semelhantes a humanos que iludem crianças a acompanhá-los, pessoas que servem de máscara a pequenos seres, capuchinhas que escapam ao lobo… mas por quantas noites?

Oh, but you must travel through these woods again & again and you must be lucky to avoid the wolf every time. But the wolf… the wolf only needs enought luck to find you once.

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Por mais simples que seja a narrativa, quase linear por vezes e expectável, todos os contos presentes em Through the woods estão impregnados de uma negridão quase total, onde, mesmo fisicamente intactos, ninguém escapa incólume.

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Algumas histórias são adaptações de contos conhecidos enquanto outras aproveitam medos comuns perpetuando a noção de que o Mundo é um lugar de perigos constantes que não se suspendem.

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Visualmente apresenta páginas de fortes contraste, onde o negro das histórias é sobreposto por balões de cores berrantes, elementos que nem sempre me agradaram e que conseguem, por vezes, quebrar o ambiente.

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Com alguns elementos interessantes do ponto de vista narrativo (alguma subversão, muita falta de esperança e resignação perante o destino que se apresenta) Through the woods contém um conjunto de histórias negro que mereciam maior desenvolvimento.

Destaque: Novas edições

Não são só os novos livros que devem ser destacados, mas também aqueles que se recuperam no mercado para não caírem em esquecimento. Eis alguns que serão lançados novamente nos próximos tempos:

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Um dos grandes livros de Italo Calvino, As Cidades Invisíveis, terá nova edição na colecção RTP, em capa dura e preço acessível. Este clássico da literatura fantástica apresenta várias cidades ficcionais descritas por Marco Polo ao Imperador Kublai Khan. Nomeado para o prémio Nebula, o livro já serviu de inspiração para uma Opera. Eis a sinopse:

A este imperador melancólico, que percebeu que o seu poder ilimitado conta pouco num mundo que caminha em direção à ruína, um viajante visionário fala de cidades impossíveis, por exemplo, uma cidade microscópica que se expande, se expande até que termina formada por muitas cidades concêntricas em expansão, uma cidade teia de aranha suspensa sobre um abismo, ou uma cidade bidimensional como Moriana. […] Creio que o livro não evoca apenas uma ideia atemporal de cidade, mas que desenvolve, ora implícita ora explicitamente, uma discussão sobre a cidade moderna. […] Penso ter escrito algo como um último poema de amor às cidades, quando é cada vez mais difícil vivê-las como cidades.» Italo Calvino «Ao projetar a sua própria voz nos relatos de cidades que pontuam o diálogo entre Marco Polo e Kublai Kan, Calvino reencontra essa capacidade dos antigos construtores de fábulas, e sabe transmitir o prazer que aquele que conta tem de suscitar no ouvinte, que é o próprio leitor.» Nuno Júdice Prefaciado por Nuno Júdice.

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Adaptado para cinema, O Prestígio é a história fantástica da rivalidade tempestuosa entre dois mágicos:

Uma história de segredos obsessivos e curiosidades insaciáveis. Londres, 1878. Dois jovens mágicos cruzam caminhos enquanto actuam em luxuosas salas de espectáculo vitorianas. E cedo nasce um feudo cruel que irá assombrar as suas vidas, levadas ao extremo pelo mistério de uma espantosa ilusão que ambos fazem em palco. A rivalidade instiga-os a atingir o pico das respectivas carreiras, mas com consequências terríveis. Na busca de um truque que conduza à ruína do rival, escolhem o caminho da ciência mais negra. O sangue será derramado, mas não será suficiente. No fim, o legado dos mágicos irá passar para as futuras gerações e serão os descendentes a ter de desvendar a teia de loucura que envolve estranhos actos de magia…

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Publicado há algum tempo no mercado português, retorna pela G Floy:

Há dois lados para cada história, e agora chegou a altura de ouvir o lado de Loki: o filho preterido de Odin vai contar a história toda do seu ponto de vista, a sua sede insaciável de poder, os seus sentimentos ambíguos para com Sif, a sua antipatia para com Balder, e o seu imenso ressentimento contra o seu irmão mais velho, Thor. Com a excepcional arte de Esad Ribic, um dos maiores artistas da Marvel, e argumento do romancista Robert Rodi, esta história auto-contida vai mostrar-nos Asgard como nunca a tínhamos visto! Loki tornou-se finalmente soberano de Asgard, e Odin foi colocado a ferros, tal como todos aqueles que batalharam em seu nome. No entanto, Loki vê-se cercado de antigos aliados e interesses vários, todos em busca de recompensa pela ajuda prestada na sua ascensão. E Hela, deusa do Reino dos Mortos, empurra-o para completar o seu triunfo com a execução de Thor. Loki terá de ponderar se a sua existência fará algum sentido sem o seu meio-irmão…

Sobre Loki deixo-vos, também, algumas páginas disponibilizadas pela editora:

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H-Alt – 3 – Diversos autores

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Cada vez maior, cada vez reunindo o talento de autores mais diversos e mais diferentes, a terceira revista da H-Alt possui histórias que se enquadram na ficção científica, na fantasia e no horror.

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O volume abre com uma história de bruxarias e destinos onde as intenções divergem bastante do esperado e prossegue para a exploração do desespero com a venda de um fármaco milagroso. Novamente as intenções divergem e o resultado é, no mínimo, irónico.

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Depois dos alienígenas que caminham quase invisíveis entre nós segue-se uma irónica história de Arthur Cordeiro que apresenta, para além do bom visual, uma boa narrativa. De seguida, voltamos a encontrar alienígenas – o espaço pode ser um local medonho mas quem fica assustado com o que encontra são os visitantes, numa história curta, amorosa e engraçada.

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Depois das espectaculares imagens do autor da capa, voltamos a encontrar alienígenas que tecem um plano para, com o mínimo esforço, conseguirem o que pretendem da humanidade, e viagens intergalácticas onde se usam teorias sobre a matéria negra para se escapar a um fim quase inevitável.

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Cruzando diversos géneros, estilos narrativos e abordagens visuais, H-Alt volta a trazer boas histórias curtas onde se destaca a componente gráfica mostrando que a maioria das parcerias atinge um resultado com um nível acima da média.

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Eventos: MotelX – 10 anos de Terror

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No próximo dia 21, pelas 17h30, terá lugar, na Cinemateca de Lisboa, a apresentação do livro MotelX, 10 anos de Terror. A apresentação é seguida pela projecção do filme Society de Brian Yuzna, gratuita para os que tenham adquirido o livro (podem ver indicação na página oficial). A apresentação caberá a João Antunes, Pedro Souto & João Monteiro.

Para mais detalhes sobre o evento podem consultar a página.

Resumo de Leituras – Fevereiro de 2017 (4)

37 – Os Cavaleiros do Céu – Vol.1 – Os Túnicas Azuis – Willy Lambil e Raoul Cauvin – O primeiro volume revelou uma história leve que, apesar de decorrer durante a Guerra da Secessão, usa a dinâmica entre duas personagens bem diferentes mas inseparáveis para aligeirar o tema e dar constantes toques cómicos. Uma leitura leve e divertida;

38 – Malus – Christopher Webster – Entre ensaios farmacêuticos que têm impactos inesperados assistimos a uma mescla de surrealidade e de viagens subconscientes, a confrontos intensos e fantásticos;

39 – Waltz with Basir – Ari Folman e David Polonsky – Banda desenhada poderosa que discorre paralelamente sobre a memória peculiar de um soldado e a sua peculiar experiência da Guerra. Forte pela temática onde os civis são arrastados para o cerne do horror da guerra, interessante pela perspectiva pouco usual, diferente pela forma como resolve explorar um tema sensível, Waltz with Basir é uma leitura marcante;

40 – Remington – Listopad – Aconselhado durante uma das sessões de Recordar os Esquecidos, reúne vários textos curtos do escritor que cruzam referências a personalidades com referências históricas, tudo numa forma quase banal e corriqueira, que passam, aos olhos de quem lê, quase como episódios normais – mas na verdade, poucos o são.

Waltz with Bashir – Ari Folman e David Polonsky

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Ao contrário do que nos diz o nosso cérebro, a memória é algo volátil, em transformação constante, capaz de nos enganar e de nos iludir, capaz de se esconder no nosso inconsciente e de retornar nos momentos menos prováveis. Por vezes este esconder é um mecanismo de defesa, uma forma de nos protegermos a nós próprios, uma forma de mantermos a integridade emocional e de resistir à mudança inevitável que o aceitar dessas memórias traria.

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Um dia um homem resolve contar o pesadelo que o assola, eternamente perseguido pelos cães que matou. Não sabe que o contar do episódio nocturno repetitivo levará, a quem ouve, a ter um flashback da guerra que viveu e da qual nada recordava, iniciando-se uma busca pelos motivos do esquecimento e dos traumáticos acontecimentos ocorridos.

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Entre os vários relatos que busca reconstroem-se ocorrências de um horror quase indescritível, percepções de uma guerra que decorre em cidades e envolve fatalidades civis, pelos olhos de rapazes quase adolescentes que pouco ou nada sabem da vida e muito menos das ordens que receberão.

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Por vezes quase silencioso em relação aos episódios que apresenta, Waltz with Bashir apresenta a realidade pesada e vergonhosa da Guerra no Líbano em 1982, com os massacres que ocorreram durante a guerra. O que o torna peculiar é a perspectiva do soldado que se dissociou das suas próprias memórias, e a perspectiva com que são contados os relatos, pessoal e centrada nos soldados, meros rapazes, peões sem poder de decisão num conflito em que participam mas não controlam.

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Na sua maioria, as imagens destacam a figura do soldado mas nem sempre o integram totalmente no que o rodeia, à semelhança da dissociação que ocorre na sua mente. As cenas de guerra e carnificina confrontam-se com as da cidade por vezes aparentemente pacífica e com as tentativas de vida pessoal destes soldados nas poucas folgas que têm.

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Poderoso pelos cenários que apresenta, vergonhoso como qualquer guerra, Waltz with Bashir contém imagens e perspectiva que não deixam o leitor indiferente, mostrando como a carnificina pode marcar de forma bastante diferente a mente e a realidade de cada um.

Eventos: Sustos às sextas 2017 – 3ª Edição

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A segunda sessão da edição de 2017 já tem data marcada para esta sexta-feira! Eis o programa:
21:00 Recepção dos convidados
21:30 Fado com JORGE MENDES
21:45 Palestra “Folk Horror”, por ANTÓNIO MONTEIRO
22:30 Pausa para café
22:45 Dramatização do conto “Harry”, de Rosemary Timperley
23:15 Sustos às Sextas e CRISTINA ALVES recomendam…

Matiné – Magno Costa e Marcelo Costa

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Em três curtas histórias de acção Matiné relembra os filmes de acção  onde a violência extrema é altamente justificada, componente prática resultante da realidade em que se apresenta, quase normal e dessensibilizada no contexto em que se integra.

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O ambiente é negro e pesado, mas nem por isso totalmente desprovido de esperança e amor, uma pequena ilha positiva, por vezes esmagada num extenso mar de confronto físico onde se excede a maldade e a indiferença. Como resultado ocorrem episódios pontuais de justiça que, não compensando a totalidade do mal causado, expiam parte da carga negativa.

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Como os filmes antigos, Matiné apresenta-se a preto e branco, num belíssimo trabalho visual que espelha bem o ambiente e expressa a dureza dos episódios, com um ou outro toque fantásticos, colocando em relevo o papel da morte, bastante principal nas histórias que aqui se reúnem.

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As três histórias criam um ciclo quase perfeito onde não há lugar para a justiça dos polícias e dos tribunais mas onde, alguns homens, pelas suas próprias mãos se dedicam a balancear o mundo onde se encontram. O único defeito de Matiné é a sua extensão, demasiado curta e que gostaria de ver mais extensamente explorada.

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Matiné foi publicado pela Polvo.

Resumo de Leituras – Janeiro de 2017 (5)

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17 – Starve – vol.2 – Brian Wood, Daniel Zezelj, Dave Stewardo segundo volume fecha a história de forma belíssima, mostrando alguém que consegue, finalmente, enfrentar-se a si próprio, romper com as convenções sociais e reverter os conceitos que determinam um suposto estatuto social baseado em falsidades;

18 – Descender – Vol. 3- Jeff Lemire e Dustin Nguyen – Depois de dois volumes movimentados, este terceiro explora as histórias de cada uma das personagens, mostrando as privações e traumas que tiveram de passar para se tornarem naquilo que vemos. Ainda que seja uma componente interessante da história, estas várias histórias poderiam ter sido dispersas pelos dois volumes anteriores, sendo que aqui, ocupam quase a totalidade do volume, quebrando o ritmo da série;

19 – I Hate Fairyland – Vol.2 – Skottie Young – Ao tornar-se rainha Gertrude inicia um reinado  de horror, com jogos de morte, muitas cabeças cortas e várias guerras com todos os reinos vizinhos. O reinado termina após uma fiscalização e Gertrude encontra-se novamente livre para tentar sair do reino e voltar a casa. Com uma lista de possíveis saídas, este volume é episódico, mostrando Gertrude em cada uma das hipóteses a decidir-se, quase sempre, pela opção violenta, apesar do contexto aparentemente fofinho e querido;

20 – Muros – os muros que nos dividem – José Jorge Letria – A história da humanidade contada em construções de divisão, materialização do medo e influenciadoras do pensamento. Os muros não são meras divisórias, expressam políticas e sentimentos, expressam receios e hostilização, materializam-se a partir dos desejos de alguns, e acabam por se reflectir na mente dos restantes. Um interessante apanhado dos principais muros e muralhas que o homem foi construindo ao longo dos séculos, com espaço para reflexão.

Sandman – Vol.1 – Neil Gaiman, Sam Kieth, Mike Dringenberg, Malcolm Jones III

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Da autoria de Neil Gaiman, vencedora de um World Fantasy Award, Sandman é uma das grandes séries de banda desenhada, uma daquelas que é de leitura obrigatória, principalmente para quem não procura uma história simples, de moral a preto e branco, e que cruze diversas mitologias com contos populares, onde a realidade escorre para a fantasia, como umas cortinas que se entreabrem e deixam vislumbrar algo mais.

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Tendo lido os primeiros quatro volumes de seguida, percebo que efectivamente este primeiro mostra pouca coesão e direcção. Como o próprio autor refere, os primeiros meses foram complicados pois estava pouco habituado a escrever séries regulares. Mas esqueçam esse detalhe e deixem-se engolir pelos detalhes fantásticos aqui referidos, com vários episódios que revelam algumas das características do Neil Gaiman que conhecemos – as boas ideias fantásticas com um toque de estranheza fascinante, a inevitabilidade do destino, a realidade ligeiramente distorcida por elementos bem colocados que, sob uma perspectiva particular se tornam fulcrais.

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A história começa com a viagem de uma seita ao reino de um dos Eternos e a captura do que pensam ser a Morte. Enganaram-se. Aprisionaram Sonho. Sem poder utilizar os seus poderes o equilíbrio do acordar / sonhar é quebrado e várias pessoas entram num sono interminável, outras são incapazes de dormir e enlouquecem lentamente por conta dos pesadelos que presenciam, pesadelos que, durante o sono aprisionam mentes de forma demasiado realista.

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Aprisionado, silencioso, Sonho aguarda o momento certo para se libertar e voltar ao seu reino. O que encontra é um mundo em declínio, uma propriedade degradada que já não consegue repor e controlar com outrora, tanto por conta da sua ausência prolongada como pela falta de objectos que contém a sua própria essência e que perdeu quando capturado. Com pistas fornecidas por Hécate, a deusa de forma tripla, obtém pistas para a recuperação dos três objectos e parte em missão pela Terra para os poder recuperar.

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A vida é estranheza, é morte, é sono, é melancolia. Assim é, também, Sandman, Personagem eterna, implacável mas compreensiva do seu papel em servir os mortais, que cruza elementos de várias deuses e criaturas sobrenaturais relacionados ao sono e ao sonho, vive com o peso da sua idade e das múltiplas vertentes que assume. Por vezes justo, por vezes carregado de ira e vingativo, Sonho assume as responsabilidades do seu papel com toda a solidão que lhe está associado.

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Em Portugal Sandman foi publicado pela parceria Levoir / Público.

Eventos: Sessões de Culto – As Escolhas de Filipe Melo – The Fearless Vampire Killers

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A quarta sessão de culto com as escolhas de Filipe Melo já tem data marcada para dia 18 de Janeiro, pelas 21h30, no Nimas. Deixo-vos a informação disponibilizada sobre o evento, bem como a ligação para a página oficial:

Um sábio professor e o seu limitado aprendiz são aprisionados por vampiros num castelo misterioso da Transilvânia quando tentam salvar uma dama em apuros.

Realizado por Roman Polanski em 1967, este clássico das comédias de terror é uma paródia vampiresca, e apesar de não ter sido um grande sucesso de bilheteira quando estreou, “The Fearless Vampire Killers” tornou-se ao longo dos anos um objecto de culto, além de transformar a actriz Sharon Tate numa estrela.

 

Eventos: Sustos às sextas 2017

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Finalmente está divulgado o programa da terceira temporada de Sustos às sextas que começa num dia muito propício, a próxima sexta feira 13 em Janeiro. Entre música, cinema, entrevista, espectáculos este ano cada sessão é marcada por um espaço de sugestões literárias que começa com João Barreiros. De destacar, também, o painel de Ficção científica e horror para dia 19 de Maio. Marquem na agenda!

 

 

Eventos: Comunidade de Leitores Culturgest – Entre dois Mundos

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A comunidade de leitores da Culturgest inclui, na sua programação, a literatura de horror, incidindo, durante o mês de Janeiro, no excelente Santuário de Andrew Michael Hurley, publicado recentemente em Portugal pela Bertrand. O evento carece de pré-inscrição que podem fazer conforme indicado na página oficial. Abaixo o texto que acompanha o anúncio bem como a programação para os próximos meses:

O estranho, o fantástico, o bizarro poderão estar afastados do nosso quotidiano, neste mundo pragmático e realista em que (quase) todos vivemos. Considerado como uma categoria bem definida, principalmente no Cinema, o Terror, embora muito popular, está normalmente contido dentro das fronteiras de um género específico que, em Literatura, remete para o que foi cunhado de “gótico”. Mas os nossos sentidos não desdenham de um bom calafrio, de um susto inesperado que façam emergir a nossa atávica ligação ao “folclore” (folk-lore). Embora os fantasmas e outras aparições funestas tenham sido maioritariamente relegadas para os jogos de computador e para as séries televisivas, a história da Literatura, principalmente a partir do Romantismo, continua a explorar um certo tipo de imaginário, aquilo a que Sigmund Freud chamou de “unheimlich“, ou seja, o que não é familiar, o que se encontra “entre dois mundos”, entre a luz e a sombra, entre o racional e o irracional, entre o que é explicável e o que é inexplicável. Neste ciclo de leituras, tentaremos perceber em que espaço nos movimentamos quando deparamos com situações tão estranhas como o fanatismo religioso no recente romance de Hurley, as perturbações da infância e adolescência em James, a estranheza de “ser diferente” na sulista O’Connor, os truques mágicos e satíricos de Sena, a hilariante e elegante paródia fantasmagórica de Wilde ou o exemplo do “gótico” sofisticado de Brontë. Um ciclo que não é uma viagem no comboio fantasma mas que promete brumas, catacumbas, ranger de portas, correntes de ar maléficas, aparições, donzelas em perigo e um ou outro arrepio de desconforto.

Helena Vasconcelos

Programação

12 de janeiro – Santuário, Andrew Michael Hurley, ed. Bertrand

26 de janeiro – O Aperto do Parafuso (ou O Calafrio, ed. Europa-América),
Henry James, ed. Sistema Solar

9 de fevereiro – O Físico Prodigioso, Jorge de Sena, Guimarães editora

23 de fevereiro – O Céu é dos Violentos, Flannery O’Connor, ed. Relógio D’Água

9 de março – O Fantasma de Canterville, Oscar Wilde, Porto Editora

23 de março – Jane Eyre, Charlotte Brontë, ed. Relógio D’Água

Literatura aqui – O Medo

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O último episódio do Literatura Aqui centrou-se no Medo com a literatura de horror. Safaa Dib, editora da Saída de Emergência, foi a convidada principal, dando um enquadramento do género e apresentando as obras mais notórias do género que têm sido lançadas em Portugal. Para além dos vários poemas sobre o medo que vão apresentando ao longo do programa é de destacar o excelente excerto de Murar o Medo de Mia Couto «Há quem tenha medo que o medo acabe».

Foi assim a guerra das trincheiras – Tardi

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Na guerra não existem heróis. Mas existem homens. A maioria demasiado jovens para conhecer o mundo, homens impossibilitados de pensar por si mesmos, peões descartáveis levados a uma luta sem sentido contra outros homens que, tal como eles, o que querem é voltar às famílias e ao aconchego do lar.

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Nas trincheiras, o cenário parece saído de um filme de terror. Não existem as mínimas condições de higiene e não bastava a proliferação de piolhos, ratazanas e doenças várias, como os cadáveres em putrefação se misturam com a lama criando um cheiro característico nauseabundo.

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Sair da trincheira é meio caminho andado para se tropeçar num cadáver e enterrar, sem querer, as mãos em entranhas em decomposição, na melhor das hipóteses. A pior é levar um tiro e agonizar durante horas até à morte, sem que ninguém se atreva a sair do esconderijo para lhe poupar o sofrimento ou o trazer para uma enfermaria.

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Para além das doenças, dos parasitas e do inimigo, os soldados têm ainda de contar com os seus. É que tão depressa morrem sob um tiro ou de uma infecção, como dos canhões mal calibrados do seu lado da barricada, dos tiros dos polícias que deveriam ajudar na retirada ou dos próprios colegas sob ordens de comandantes que visam assim ditar o exemplo para quem não aguenta a posição pretendida.

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Entre estes horrores há, ainda, quem consiga sonhar com uma vida após a guerra, com um retornar à noiva para constituírem família, ou um simples retomar da vida quotidiana, banal e sem grandes perigos.

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De relato em relato, Tardi vai mostrando a dura realidade da guerra, uma realidade que ninguém quer recordar e que apenas aqueles que não a viveram directamente nas trincheiras podem romantizar e transformar em missão consciente, sã e heroica.

Senegalês, os teus antepassados gauleses estão orgulhosos de ti. Passas frio e morres, pela França. Abundam os rumores absurdos sobre ti, por isso mantém-te longe da mulher do homem branco. O homenzinho branco que explora as vossas terras e vos espanca. Dirão que vieste entusiasta e feliz para que te estoirassem as tripas, uma “criança grande” grata por poder ajudar aquele que, para teu próprio bem te impôs a sua religião, a sua bebida e a sua tuberculose.

Mas Foi Assim a Guerra das Trincheiras não é só o apresentar de sucessivos relatos de guerra. Entre os episódios em que se apresentam os soldados apenas como homens assustados, destaca-se a perspectiva de uma situação ridícula, que nos parece, a nós leitores no conforto das nossas casas, demasiado estranha, afastada,  quase impossível pela combinação dos detalhes fortes que são encarados com a aparente normalidade por quem teve de se adaptar para sobreviver.

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A par com os relatos encontramos algumas considerações críticas, verdadeiras e doridas que destacam o ridículo da situação que envolveu uma série de países e nacionalidades que pouco tinham a ver com o conflito. No seguimento da guerra massacraram-se pelotões inteiros, populações apanhadas no meio dos dois exércitos, sem dó para mulheres ou crianças, mortes que marcaram de forma mais pesada os soldados em comparação com o inimigo, demonizado e alienado da sua existência humana.

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Este volume que nos apresenta um retrato demasiado pungente da guerra foi publicado na colecção da Levoir, em parceria com o jornal Público, na colecção de Novelas Gráficas.

Retrospectiva 2016 – Banda Desenhada

Este foi o ano em que li mais banda desenhada, com 146 volumes lidos, aproveitando para ler em francês, para além do usual inglês e português. Este maior foco deve-se sobretudo à expansão das publicações no mercado nacional, em que destaco os lançamentos da G Floy e da Levoir, bem como à disponibilização, através do NetGalley, de vários volumes da Image que me despertaram para algumas novas séries.

Banda desenhada Portuguesa

os vampiros

A melhor leitura – Vampiros – Filipe Melo e Juan Cavia – Depois de Dog Mendonça e Pizzaboy, Filipe Melo e Juan Cavia abraçaram um desafio de temática mais séria, retratando uma das mais duras realidades portuguesas, a Guerra Colonial, principalmente na Guiné. Em terreno de difícil controlo como são as florestas, a guerra é, sobretudo, psicológica, por conta das emboscadas permanentes que incutem o terror pela expectativa sempre presente de algo repentino e definitivo. Captando o ambiente incerto, o nervosismo que se transformar em paranoia, o desenvolvimento de uma aparente insensibilidade às desgraçadas, Vampiros não apresenta heróis, mas homens que ficarão para sempre marcados pela Guerra.

Menções honrosas – Para quem não conheceu o conteúdo da revista, como eu, Revisão revelou-se uma boa surpresa, diversa em conteúdos e estilos, mas com muitas histórias inteligentes de excelente visual. Contendo, também, algum conteúdo com carácter experimental, é uma leitura aconselhável a quem gosta de banda desenhada e desconhece o que foi produzido neste período. A Demanda do G (Geral & Derradé) foi uma revelação bem humorada, carregada de espírito cómico onde se destaca a estrutura peculiar, uma demanda mirabolante e divertida, acompanhada por tiras em voz-off que tecem comentários a propósito da acção principal. Por sua vez, Milagreiro com narrativa de André Oliveira centra-se numa entidade secreta composta por agentes sem vida própria que têm por missão criar pequenos milagres para perpetuar a fé. Ao longo da história o desenho de vários artistas vai sendo intercalado, dando um carácter muito próprio ao conjunto. Ainda, Apocryphus revela uma excelente qualidade gráfica cruzando o trabalho de vários autores sob o tema fantástico numa edição de aspecto cuidado;

Banda desenhada de horror

harrow

A melhor leitura Harrow county de Cullen Bunn e Tyler Crook (volum 1)- Desde que comecei a ver esta série em todos os topos de ficção de horror que senti curiosidade para lhe pegar. O primeiro volume foi publicado recentemente por cá e esteve à altura das expectativas. Utilizando o poder da magia antiga, das bruxas rurais que se envolvem com criaturas sobrenaturais, Harrow county mostra como nem sempre os monstros são os que aparentam;

Menções honrosas – Começando pelo fantástico Wytches (de  Snyder, Jock, Hollingsworth e Robins) com criaturas sobrenaturais e milenares como bruxas, num cenário rural de bosques sombrios e passando pela serie lovecraftiana Locke & Key de Joe Hill Gabriel Rodriguez, onde uma série de chaves moldadas com demónios não corporizados possuem faculdades imagináveis mas só podem ser utilizadas por um preço demasiado elevado, o destaque vai também para a série Fatale de Ed Brubaker e Sean Philips, outra série de influência lovecraftiana que segue uma femme fatale com a capacidade de se fazer obedecer por todos os homens, capacidade que distribui a desgraçada por onde passa, com violência desmedida e irracional.

Banda desenhada fantástica

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A melhor leitura – The Autumnlands de Kurt Busiek e Benjamin Dewey – Com imagens de bom detalhe que originam páginas de aspecto arrasador, a história decorre numa realidade onde várias espécies de animais coexistem numa única cidade, apresentando uma civilização de contornos medievais centrada nas artes mágicas. A magia está, no entanto, a desaparecer, ameaçando a vida das populações urbanas, que assim ficariam desprotegidas à rapina pelas restantes espécies. Num acto de desespero convocam, por artes mágicas, um antigo e mítico herói. O que surge é um homem, quase nú, incapaz de realizar magia, mas capaz de utilizar meios científicos para desenvolver formas de luta.

Menções honrosasI Hate Fairyland de Skottie Young é um dos livros mais hilariantes que li este ano. Quem nunca leu uma história que tem como principal personagem uma criança que “cai ” num reino mágico onde tem uma importante missão a cumprir? Neste caso Gertrude vai parar ao reino das fadas, fofinho, amoroso e carregado de músicas animadas e doces. O que parece ser o sonho de qualquer criança transforma-se, 27 anos sem conseguir resolver charadas, num pesadelo e Gertrude transforma-se numa psicopata implacável que mata e come qualquer um que aparecer no seu caminho. Tudo num ambiente fofinho, queriducho e amoroso. Sharaz-De de Toppi fascinou-me pelo visual, diferente do usual, com cada página a constituir uma obra de arte, carregado de texturas diferentes para melhor diferenciar o preto e branco das páginas. De destacar, também, o ambiente e a lógica pouco ocidentais que contribuem para transformar estas histórias numa boa leitura.

Banda desenhada de ficção científica

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A melhor leitura – Trees de Warren Ellis e Jason Howard – Os alienígenas chegaram à Terra, mas não iniciaram nenhuma tentativa de interação. As enormes estruturas cilíndricas esmagaram tudo o que se encontrava no caminho da aterragem provocando diversas catástrofes, algumas em cidades com grande densidade populacional. O terror dos primeiros momentos dá lugar ao nervosismo da incerteza, e as populações que permanecem perto das estruturas apresentam sintomas de elevado stress psicológico. Graficamente brutal, alternando cores conforme o intercalar de locais, Trees consegue combinar uma boa premissa para qualquer história de ficção científica com a excelente qualidade do desenho;

Menções honrosasFragmentos da enciclopédia délfica de Miguelanxo Prado foi o meu primeiro contacto com o trabalho do autor e despertou-me interesse pelas semelhanças para com A Guerra da Elevação da David Brin, com a espécie humana a desenvolver a inteligência de outras espécies da terra, mas continuando a tratá-las como escravos, seres de segunda categoria. Miguelanxo Prado utiliza este contexto para estabelecer um paralelismo com a espécie humana, em episódios de constante crítica social.  Descender de Jeff Lemire e Dustin Nguyen recorda-me um cruzamento de A.I. com Battlestar Galactica retratando um robot, Jim, com aparência de criança que é recebido numa família como um verdadeiro filho. Aquando da revolta dos robots, Jim encontrava-se desligado e não participou. Anos mais tarde, quando acorda, sente falta da sua família e tenta procurá-los, apesar de perseguido por diversas entidades. Parque Chas de Eduardo Barreiro e Eduardo Risso decorre num bairro residencial que tem assistido, ao longo dos anos, a diversos fenómenos inexplicáveis. O autor projectado como personagem na própria história, assiste a alguns e começa a investigar por conta própria o que se poderá estar a passar aqui. Quando se apaixona por uma femme fatale sabemos que se envolverá mais do que pretendia numa aventura mirabolante por várias realidades onde se cruza com várias personagens ficcionais.

Banda desenhada Histórica

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A melhor leitura – Foi assim a guerra das trincheiras de Tarti – Esqueçam a visão romântica de jovens heróis, guerreiros, cheios de vontade de combater e de perder a vida pela nação. A vida nas trincheiras é suja e pestilenta, os soldados inimigos são apenas um dos perigos e os jovens levados para uma guerra em que não se revêm acabam por se dessensibilizar para os horrores a que assistem a cada hora de permanência na linha da frente. A par com este retrato pungente, Tarti compõem tiradas críticas bem colocadas, sobre a situação dos soldados, sobre as populações que acabam por perecer com a guerra e sobre os colonizados que aqui acabam sem saber muito bem como nem porquê.

Menções honrosasDemocracia de Alecos Papadatos, Abraham Kawa e Annie Di Donna decorre na Antiga Grécia e visa mostrar como se desenvolveu o modelo que conhecemos como Democracia. Baseado em factos históricos e preenchido com suposições é uma abordagem interessante que se preocupa em criar e desenvolver personagens para fazer desenrolar os acontecimentos. Por sua vez, O Comboio dos órfãos de Philippe Charlot, Xavier Fourquemin e Scarlett Smulkowski é a história verídica das crianças que viviam nas ruas das cidades. Órfãos, ou não, a quantidade de crianças atingiu tal ordem que se criaram instituições para distribuir por famílias de todos os Estados Unidos da América, sem qualquer registo, e separando irmãos. Décadas depois, alguns procuram saber algo mais sobre as suas origens, investigação difícil nestas circunstâncias.

Outras bandas desenhadas

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A melhor leitura – Ardalén de Miguelanxo Prado – Apesar de ter gostado imenso de tudo o que li de Miguelanxo Prado (Presas fáceis é uma mordaz crítica à forma como foram geridas as crises bancárias com pagamentos milionários para os responsáveis e desaparecimento das poupanças de milhares de pessoas poupadas da classe média, Crónicas Incongruentes um conjunto de episódios satíricos da sociedade onde são exageradas situações comuns criando-se um desassossego cómico mas desconcertante no leitor), Ardalén foi o álbum de que gostei mais. Apresentando uma história contínua, explora a memória e os relacionamentos, as saudades e as experiências de vida pelos encontros de uma jovem com um velhote que se desloca a uma vila no interior em busca de alguma memória do avô.