Resumo de Leituras – Dezembro de 2018 (1)

 

204 – Princípio de Karenina – Afonso Cruz – Com menos elementos fantásticos do que é usual em Afonso Cruz, Princípio de Karenina é, também, o seu livro mais linear, contendo uma história contada pela primeira pessoa, um homem que conta a sua vida à filha, sob a forma de carta, mostrando como alguém pode viver toda a vida com medo do exterior;

205 – O Comboio dos Órfãos – Tomo 2Philippe Charlot e Xavier Fourquemin – Cada volume contém duas histórias. Neste segundo tomo detalha-se a vida de Lisa e Joey, mostrando como os interesses de quem adoptou as crianças nem sempre eram os melhores. Ambos fogem das suas novas famílias adoptivas em busca do irmão perdido de Joey;

206 – Injection Vol.1Ellis, Shalvey e Bellaire – A existir uma inteligência artificial, porque pensaria como nós? Na realidade descrita em Injection o mundo das lendas cruza-se com o real criando zonas de circulação impossível. Enquanto alguns tentam terminar com estes pesadelos vivos, outros tentam afastar-se das obrigações que os esperam;

207 – Os segredos de Loulé – João Miguel Lameiras e João Ramalho-Santos – Num futuro distante a humanidade regressa ao planeta Terra para pesquisar sobre o seu passado. Ao regressar encontra um arquivista que se mantém vivo após séculos, graças a elevada tecnologia, e que conta a história de Loulé ao longo dos séculos.

Rascunhos na Voz Online – Inês Garcia e Tiago Cruz

 

Os autores de Sintra, Inês Garcia e Tiago Cruz, falaram dos seus projectos na banda desenhada, bem como das suas principais influências e à forma como trabalham a imaginação para produzirem histórias de horror fantástico. Sintra foi publicado pela Escorpião Azul. Deixo-vos a ligação para o programa.

O Feminino no Fantástico

Antologia de contos de ficção científica e fantástico onde o corpo da mulher tem papel fundamental

Desde o passado Fórum Bang! (no qual participei, com a Inês Botelho, numa palestra sobre a mulher na ficção especulativa) que ando com vontade de espelhar alguns pensamentos na forma escrita. Sim, a representação da mulher tem-se alterado nos últimos anos. Porquê? Será a moda do politicamente correcto? Bem, mais do que uma moda, a minha percepção é que resulta da pressão do próprio público, farto do mesmo.

 

 

 

 

 

 

 

Porque digo isto? Bem, dou-vos como exemplo bastante óbvio as nomeações para os prémios Hugo. Para quem não está a par, aqui há uns anos surgiu um grupo de escritores de ficção científica revoltado com o afastamento dos protagonistas ou escritores tradicionais, brancos hetero. Estavam a ser nomeados, e premiados, sucessivamente, autores diferentes deste padrão original.

 

 

 

 

 

 

 

Este grupo de autores, designado como Sad Puppies, não só fizeram campanha pela ficção científica de homens para homens (ocidentais e hetero, claro) como tentaram concentrar votos em obras específicas. O resultado? Conseguiram algumas nomeações mas não o prémio, existindo algumas categorias em que o resultado foi até “sem premiado”. Pelo meio ainda houve uma nomeação curiosa a Chuck Tingle, um autor de pornografia homossexual de ficção científica, que aproveitou para parodiar o destaque, numa obra curiosa.

 

 

 

 

 

 

 

Bem, julgo que a resposta do público a este movimento demonstra que a verdadeira pressão sobre a indústria literária não é tanto pelo politicamente correcto, mas pela vontade, do público, em ver diversidade nas personagens, e ler obras que representem pessoas e não os típicos estereotipos de heróis, há muito ultrapassados. Personagens que se parecem com pessoas, densas, variáveis e, sobretudo, representativas da realidade que nos rodeia. Representativas da diversidade.

 

 

 

 

 

 

 

Não estou a falar, portanto, só de uma representação diferente do feminino, mas, também, uma diferente representação do masculino. Trata-se de criar histórias mais equilibradas em termos de papéis – nem as personagens femininas têm de ser ridiculamente fortes e destemidas para poderem ser protagonistas, abdicando de sentimentos para poderem ser tomadas a serio; nem as personagens masculinas têm de ser a personificação da certeza e da autoridade, podendo ser apenas pessoas com as suas dúvidas, incertezas e sentimentos.

 

 

 

 

 

 

 

Claro, que na componente feminina, outras questões de levantam. O uso do corpo como elemento para apimentar uma história (neste detalhe já existem exemplos que usam o corpo feminino e masculino) ou o consentimento no uso desse corpo. Não é, totalmente de estranhar que as histórias tradicionais, como as da Disney, os contos de fadas (sobretudo as mais recentes versões Disney), de princesas indefesas e passivas, tenham de ser revistos. Habituámo-nos a aceitar, sem questionar, os papéis que são concedidos às mulheres.

 

 

 

 

 

 

 

Detalhando. Se pensarmos bem, que tipo de homem encontra uma mulher, morta ou inconsciente, no meio de uma floresta e a beija? Que papel tem a mulher na escolha do seu parceiro , se se pressupõe que o príncipe que a salva a possui – sem se conhecerem previamente, a princesa passa de cativeiro a cativeiro. Numa gaiola dourada, claro. Mas nem por isso menos questionável. Que tipo de mensagem passa uma história onde um príncipe não reconhece a mulher pela qual se apaixonou e a procura pela medida de um sapato?

 

 

 

 

 

 

 

Sim, estas histórias reflectem a época em que foram construídas. Mas pouca ou nada se tem feito para as adaptar à realidade que nos rodeia. Quantas características ditas femininas não resultarão das expectativas que nos rodeiam? E o mesmo se pode dizer dos rapazes que não podem expressar sensibilidade ou sentimentos sem serem gozados. As personagens têm de evoluir – e não só as femininas. Deixo-vos com esta provocação. E, espero, algo para pensar. E debater.

Rascunhos na Voz Online – Sugestões

Esta semana recomendo livros, banda desenhada, eventos e jogos de tabuleiro! De realçar, claro, a presença de Mike Carey em Portugal no Mensageiros das Estrelas, evento que está a decorrer na Faculdade de Letras na Universidade de Lisboa (evento gratuito). Desejo que estas recomendações vos tragam bons momentos de lazer!

Recomendações de Halloween

Livros

Lisboa Oculta

O mais recente lançamento da Imaginauta confere uma aura sobrenatural a vários dos espaços de Lisboa, cruzando história com elementos ficcionais para criar um guia turístico que levará os viajantes a olhar por cima do ombro a cada passada.

O resto é paisagem

O ambiente rural é dado a deambulações fantasmagóricas e à exploração de elementos sobrenaturais. Nesta antologia fantástica vários autores aproveitam o cenário simultaneamente conhecido, mas misterioso, para apresentar histórias apropriadas a estes dias assombrados.

Os monstros que nos habitam

A antologia não é nova (foi lançada o ano passado) mas é um bom exemplo de um conjunto de contos assustadores em que vários autores exploram monstros que não são, necessariamente, sobrenaturais.

Banda desenhada

Wytches – Snyder, Jock, Hollingsworth e Robins

Não podia deixar de recomendar Wytches que continua a ser uma das minhas preferidas bandas desenhadas de horror.  Wytches também aproveita o cenário rural, assustador não só pela floresta deserta e sombria, mas pela população muito fechada de uma pequena vila. É neste ambiente, já de si inóspito, que existem bruxas milenares, seres mais antigos que a humanidade que se servem dos humanos para alimentarem a sua malvadez.

Harrow County – Cullen Bunn e Tyler Crook

A série começou com um primeiro volume brutal que pode ser lido isoladamente. Neste uma menina descobre ser a encarnação de uma bruxa, entre elementos sobrenaturais e criaturas criadas da lama. Esta série tem-se alongado por mais volumes interessantes mostrando que os monstros nem sempre são aqueles que o aparentam e usam o meio rural para explorar os elementos mais primitivos associados ao medo e ao sobrenatural.

Sintra – Tiago Cruz e Inês Garcia

Quem já andou por Sintra à noite sabe que as florestas são tenebrosas e carregadas de sombras! Não é pois difícil de imaginar que possa ser um cenário de uma história de horror, principalmente de teor fantasmagórico! Estes dois autores juntaram esforços para apresentar um conto competete, com alguns clichés (que funcionam) que consegue criar tensão e escalar o horror!

Jogos de tabuleiro

Mysterium

Só ainda o joguei uma vez, mas é um jogo que aproveita um pouco a lógica do Dixit para explorar um tema sobretural. Explicando, rapidamente, um fantasma pretende indicar aos investigadores (os jogadores) os detalhes pelo qual virou fantasma, mostrando o local onde foi assassinado, com que arma e quem a empunhou. Para tal não pode dispor de palavras, apenas das imagens que tem em mão!

Jogos de telemóvel

Last day on earth: survival

Ao contrário de muitos jogos com componente de construção para pequeno ecrã, achei este fácil de manipular e de gerir. O jogo passa-se durante um apocalipse zombie, durante o qual temos de criar o nosso próprio refúgio e construir as nossas próprias ferramentas, dispondo apenas do que a natureza e os restos de uma civilização têm para nos oferecer.

Lutando contra zombies e outros sobreviventes humanos (que podemos saquear), explorando áreas onde podemos recolher matérias primas e alguns items, é um jogo que nos envolve rapidamente.

Resumo de Leituras – Outubro de 2018

 

176 – Futuroscópio – Miguel Montenegro – Com este volume Miguel Montenegro demonstra ser capaz de duas coisas: capacidade em contar histórias e capacidade em apresentá-las graficamente. Por um lado as histórias apresentadas não são fáceis. Tratam-se de histórias futuristas e distópicas onde, sem grande introdução, conseguimos perceber o que acontece e onde, apesar de existirem temáticas já exploradas por outros autores, se reconhece um cunho próprio, um tom de ironia e crítica que consegue prosseguir por finais menos felizes (e por vezes, inesperados).

177 – Sexo, mentira e fotocópias – Álvaro – Atender o público não é fácil. Por vezes, ser o público também não. Neste caso um rapaz apenas quer uma folha. A3. Mas o centro de fotocópias não vende folhas. Apenas fotocópias. Sucede-se uma cómica sucessão de interacções entre a senhora das fotocópias e o rapaz – episódios que recordarão, aos leitores, outros semelhantes pelos quais já terão passado;

178 – Nightflyers – George R. R. Martin – Tal como Fevre Dream, George R. R. Martin explora uma vertente mais de horror, mas neste caso a bordo de uma nave. Quando um grupo de exploração aluga uma estranha nave, dividida em duas áreas estanques, não pensa bem neste detalhe… excepto quando os mortos se começam a acumular…

179 – Zahna – Joana Afonso  – Num bem humorado tom de resmungo, este Zahna é uma história caricata que utiliza alguns elementos clássicos das histórias fantásticas, revertendo-os! Zahna é o nome da personagem principal, uma guerreira de armadura com uma maldição que paira sobre a sua cabeça. Literalmente.

Nightflyers – George R. R. Martin

Nomeada para um prémio Hugo, esta história de George R. R. Martin recorda-me outra obra do autor – Fevre Dream (publicada em Portugal pela Saída de Emergência como Sonho Febril), mas se esta pertence ao género fantástico, Nightflyers é totalmente uma história de ficção científica que também se entrelaça com o horror, referindo-se a passageiros suspeitos que põem em risco os restantes.

Nightflyers começa por nos apresentar um mundo onde os humanos se expandiram pelo Universo e habitam vários planetas, mantendo a sua curiosidade e interesse em investigação. É assim que um grupo contrata uma nave para investigar a existência de uma mítica espécie alienígena, uma espécie bastante antiga que será referida de forma diferente, nos diferentes mitos de várias civilizações.

Mas quando o grupo se introduz na nave, a curiosidade volta-se para o meio de transporte e para o seu dono, que nunca aparece fisicamente, apenas enquanto holograma. A nave encontra-se totalmente dividida em duas componentes estanques, sendo que o comandante tem olhos e ouvidos em todos os cantos da nave. Os verdadeiros problemas começam quando a senciente de nível 1 começa a sentir uma presença hóstil a bordo.

Sendo uma história relativamente curta e, nesta edição, bastante ilustrada, Nightflyers não atinge a complexidade e o ambiente pesado de Fevre Dream, apesar de conseguir criar uma intensa aura de terror. O desenvolvimento possui alguns momentos expectáveis mas, mesmo assim, consegue manter o leitor envolvido. O resultado é uma boa leitura de terror carregada de elementos de ficção científica.

Novidade: Lisboa Oculta

Lisboa Oculta trata-se de um livro de vários autores portugueses que visa cruzar as ruas de Lisboa com histórias de ficção especulativa, dando-lhe novas tonalidades. Este projecto já tem vindo a ser anunciado há algum tempo, mas vê finalmente a luz do dia, com um acabamento que tudo indica ser especial!

O lançamento do livro decorrerá num dos mais esperados eventos de ficção especulativa do ano – o Fórum Fantástico! Deixo-vos a sinopse:

Já todos os turistas sabem o que devem visitar em Lisboa, mas saberão eles o que não devem visitar?

No Guia Turístico – Lisboa Oculta (publicação bi-lingue em Português e Inglês) poderás encontrar as histórias 13 atracções de Lisboetas até agora ocultas.

Jantares secretos, Institutos paranormais, estátuas falantes, sereias e sons divinos, tudo isto e muito mais nesta edição ricamente ilustrada pelos Credo Quia Absurdum.

Resumo de Leituras – Setembro de 2018 (2)

164 – Morte – Neil Gaiman – Voltamos ao Universo de Sandman, mas desta vez centrados na irmã do senhor dos sonhos, Morte. Morte vive entre os mortais uma vez por ano. A sua vinda não passa despercebida entre uma série de personalidades fantásticas que a tentarão usar para os seus próprios fins;

165 – Dicionário cómico – José Vilhena – Neste pequeno dicionário Vilhena usa algumas palavras para expressar ironia e sarcasmo para com a sociedade, revelando duras verdades em curtos trejeitos;

166 – 100 Balas – Primeiro disparo, última rodada – O primeiro volume desta famosa série aparece pela Levoir em comemoração dos 25 anos da Vertigo, mostrando histórias completas. Neste volume percebemos que quem paga pelos crimes não é quem os comete. Quem sofre são os inocentes que afinal vão ter uma forma de corrigir as injustiças;

167 – Ether Vol.1 – Matt Kindt e David Rubín – A premissa de viajar entre mundos através de mecanismos fantásticos não é nova. Mas não é a novidade da premissa que aqui se torna interessante, mas a forma como é explorada, seguindo um homem dedicado à ciência que pretende explicar cientificamente os portais e as diferentes regras dos mundos em que viaja. Apesar de ter algumas falhas narrativas é uma leitura bastante interessante que me levará a comprar o segundo volume.

Resumo de Leituras – Agosto de 2018 (4)

140 – O corpo dela e outras partes – Carmen Maria Machado – Uma série de contos de ficção especulativa, com elementos de ficção científica, fantasia e horror, que apresentam personagens com diferentes sexualidades e nas quais a sexualidade é parte da história, como algo natural. Estes contos podem servir de ponto de partida para discussões mais profundas sobre dinâmica de género ou de relação, ou podem ser simplesmente apreciados conforme se apresentam;

141 – Cicatriz – Sofia Neto – Enquadrado no género da ficção científica, apresenta um futuro em que a o sociedade é dividida. Alguns escolheram permanecer dentro das cidades, com acesso a todas as componentes tecnológicas, enquanto outros ficam nos campos. Duas realidades fechadas, alimentando rumores sobre a outra metade que é demonizada sobre os aspectos mais propícios. Uma leitura interessante e inesperada ainda que saiba a pouco a incursão neste mundo;

142 – Tatuagem – Hernán Migoya e Bartolomé Seguí – Adaptação de um romance policial, apresenta alguns clichés do género, fazendo piada sobre estes mesmos aspectos comuns a tantas outras obras de ficção policial. A personagem principal é um homem que não perde a oportunidade de se aproximar de mais uma donzela, aliás, algo que partilha com o homem de quem procura a identidade;

143 – O jogo – Carmo Cardoso e José Machado – Trata-se de um dos mais recentes contos de ficção científica publicados na colecção Barbante que nos apresenta a situação limite de uma vida dependente do resultado de um jogo.

Resumo de Leituras – Agosto de 2018 (2)

132 – O Anel dos Lowenskolds – Selma Lagerlof – Nesta história de fantasmas um anel é roubado da tumba de um nobre. Revoltado, o fantasma do nobre há-de infernizar a vida de várias pessoas até ter o que é seu por direito.

133 – O gato do rabino – Joann Sfar – Este volume duplo apresenta duas fascinantes histórias com personagens culturalmente distantes do mundo ocidental, com costumes e hábitos bastante diferentes. Se a primeira história é mais trágica, a segunda mantém o bom humor da convivência entre culturas e religiões que é feita com alguma camaradagem. Adorei o estilo ainda que as letras sejam de difícil leitura;

134 – Uma irmã – Bastien Vivès – O despertar da adolescência vem, para este rapaz, numa férias de Verão passadas com uma jovem mais velha e desinibida. Entre o roubo do álcool e as primeiras experiências sexuais, o rapaz mantém uma dinâmica estranha com a jovem, um misto de respeito por uma irmã mais velha, e a atracção física própria da idade;

135 – Tony Chu – Vol.9 -John Layman e Rob Guillory – Este nono volume centra-se mais em Poyo, explorando as suas missões por este e por outros mundos, onde encontramos situações ainda mais mirabolantes. Apesar da centralização na comida a série consegue surpreender com elementos cada vez mais imaginativos.

Prémio Ataegina 2019

Encontra-se publicado o regulamento do concurso nacional de contos de ficção científica.  Este concurso resulta da parceria entre vários organizadores de eventos e projectos em Portugal, mais especificamente, Editorial Divergência, Imaginauta e Sci-fi LX. O prémio anterior foi atribuído no último Sci-fi LX.

O corpo dela e outras partes – Carmen Maria Machado

Nomeada para vários prémios, entre os quais um Nebula (e na semana passada, um World Fantasy Award), Carmen Maria Machado possui contos publicados em várias revistas de ficção especulativa e uma colectânea. E eis algo que nunca pensei ver publicado em Portugal – a colectânea, de nome O corpo dela e outras partes.

Trata-se de um conjunto de histórias com elementos de ficção especulativa (desde horror a ficção científica e fantástico), mas o que surpreende é a forma como entrelaça a sexualidade das suas personagens. Encontramos heterossexuais, homossexuais ou bissexuais em semelhante proporção, em contextos quase banais, sendo que o que distingue do banal se deve aos elementos fantásticos.

Se, na primeira história acompanhamos a dinâmica de poder num casal quase tradicional transformada em tema de horror, em várias das outras histórias as mulheres expressam a sua sexualidade com um desprendimento libertador, sem tabus ou preocupações de julgamento social, algo que me pareceu tão natural que só após a leitura me apercebi desta componente.

Tratam-se de histórias muito focadas no ponto de vista da personagem narradora, que, em quase todas é feminina, destacando-se a forma fluída como o faz. A sucessão de episódios assemelha-se ao fluxo de pensamentos (numa pessoa lúcida), com pequenos saltos narrativos e intercepção de outros episódios, mas nada que seja em excesso e que dificulte a leitura. Noutros contos a apresentação de cada parágrafo é antecida por uma palavra chave, elemento que marca a percepção do sentimento de cada parte.

Encontramos elementos de ficção especulativa para todos os gostos: desde apocalipses em que a espécie humana é dizimada por uma doença mortal de rápida e silenciosa propagação, a elementos fantásticos num conto de terror, a histórias de crime com componentes sobrenaturais que, em simultâneo, exploram relacionamentos, amores e desamores.

O Corpo dela e outras partes foi publicado em Portugal pela Alfaguara.

Harrow County – Vol.4 – Laços de Família – Cullen Bunn, Tyler Crook

Em volumes anteriores já nos tinhamos apercebido que existiam outras entidades com fortes poderes – poderes que rivalizavam com os de Emmy. Neste quarto volume estas entidades apresentam-se finalmente – tratam-se de seres intemporais, cada um com capacidades específicas e poderes diferentes, que baniram Hester do seu grupo.

Sendo Hester a bruxa que viria a dar origem a Harrow County e a Emmy, o grupo tem vigiado a jovem e apresenta-se agora como uma espécie de família que se reúne, de tempos a tempos, numa casa sobrenatural fora do tempo e do espaço. A integração de Emmy pressupõe um preço demasiado caro, um preço com o qual não concorda mas quase é obrigada a pagar – o extermínio das pessoas de Harrow County!

Se, por um lado, Emmy sente uma certa familiaridade pelo local em que se encontram e algum fascínio por estas entidades, a sua vontade em acabar com Harrow County acorda o espírito protector de Emmy que acaba por se revoltar.

Carregado de monstros e de entidades de intuitos duvidosos, este quarto volume cimenta a realidade de Harrow County como sendo um local impregnado de magia, onde os espantalhos ganham vida para atormentar os habitantes, as bruxas proliferam e os monstros se escondem nas sombras. Populam os episódios de acção, mas sem deixar de lado algum espaço para a introspecção. A combinação rara para uma série de horror faz desta uma das melhores do género.

A série é publicada em Portugal pela G Floy.

Resumo de Leituras – Julho de 2018

108 – Jardim dos Espectros – Fábio Veras A história é sombria, bem como o aspecto gráfico. Trata-se de uma história de terror onde a tentativa de redenção de um homem fâ-lo enfrentar almas presas a um local maldito;

109 – Viagens – TLS – Vol.3 – A Gfloy e a Comic Heart continuam a promover o trabalho de autores portugueses num volume de boa qualidade e preço acessível onde se reúnem pequenas histórias. O terceiro volume tem como tema Viagens e destaca o trabalho de Ricardo Cabral numa história a cores carregada de elementos fantásticos;

110 – Malditos amigos – André DinizUma grande história de André Diniz em que se explora a depressão e a influência das pessoas que rodeiam a pessoa para conseguir ultrapassar a doença:

111 – Bestiário fantástico – 18 – Jean Ray -Um conjunto de histórias diversas enquadradas no género do terror, que não resvala para o gore ou para a carnificina. Algumas histórias possuem uma estrutura clássica, outras afastam-se bastante e possuem elementos fantásticos – o conjunto é de leitura agradável e essencial para os fãs do género.

Redneck – Vol.1 – Donny Cates, Lisandro Estherren, Dee Cunnife

Redneck é uma série de vampiros no interior americano – uma premissa que tem sido bastante explorada no cinema e na televisão, mas que, aqui, não assume detalhes românticos ou sonhadores, apenas práticos. Neste caso concreto trata-se de uma família de vampiros que tenta uma existência pacífica alimentando-se de sangue de vacas para conseguirem sobreviver sem entrar em conflito com os humanos.

De longas existências, estes vampiros desejam manter-se em paz, mas a verdade é que, tanto eles, como os humanos, recordam tempos em que tal não era possível. A tensão, sobretudo psicológica acumula-se, o receio dá lugar à materialização do medo. O resultado é uma guerra sangrenta de vingança, uma guerra com origem num mal entendido.

Nem todos os vampiros possuem os mesmos dons e, no caso desta família, apenas dois possuem o poder de ler os pensamentos e memórias de outros seres. Neste caso trata-se de um vampiro idoso que aspira aos costumes antigos, e um vampiro muito jovem que ainda não tem maturidade para que o deixam percepcionar determinados acontecimentos. Ambos possuem a chave para se perceber os acontecimentos que dão origem à guerra, mas, por motivos opostos, não se procura a capacidade de nenhum a não ser quando já é demasiado tarde.

Redneck é uma história sombria que explora personagens cuja longa vida não os deixa esquecer os traumas do passado – tão habituados estão a que os acontecimentos se desenrolem de determinada forma que é só uma questão de tempo para que voltem a acontecer. E ainda que tal seja verdade na maioria das vezes, esta expectativa fortalecida pela experiência leva-os, neste caso, a assumir determinados factos antes de os validarem.

Este volume começa de forma lenta, tentando acumular tensão nas primeiras páginas para levar o leitor ao esperado episódio de acção. E ainda que o tenha feito, parecem faltar peças no puzzle e os acontecimentos sucedem-se sem conseguir envolver, consistentemente o leitor. Ainda que existam momentos em que consegue captar, esta capacidade não se mantém, oscilando durante os episódios mais calmos que deveriam servir para tal.

Entenda-se, não é uma má banda desenhada. Tem personagens interessantes que poderiam ter sido melhor desenvolvidas e uma premissa que, não sendo totalmente original, poderia ter resultado melhor se alguns episódios tivessem sido limados. Trata-se de uma leitura engraçada, mas que ainda não sei se me vai levar a ler os restantes da série.

Dampyr – Infante – Aventuras em Portugal – Boselli / Bocci / Eccher / Dotti

Dampyr surpreendeu-me, sobretudo, pelo aspecto gráfico. Constituindo uma espécie de pulp da banda desenhada, com histórias movimentadas e de premissa simples, esperava desenhos mais simples e menos detalhados. Em Dampyr encontramos vampiros e outras criaturas sobrenaturais mas os verdadeiros monstros parecem ser os humanos que os ajudam, ludibriando outros humanos e entregando-os.

As duas aventuras reunidas neste volume rodam em torno de um caçador de vampiros, que é fruto da união de um vampiro com uma mulher humana e que, por isso, possui os seus próprios poderes peculiares. Ambas as aventuras decorrem no Norte de Portugal, a primeira num castelo quase abandonado, cenário de filmagem de um filme de terror, e a segunda no Porto, em torno da produção do vinho do Porto.

Que o ambiente de filmes de terror é propício à loucura dos actores, sobretudo das acrizes que fazem de vítimas, é conhecido. Mas na primeira aventura parecem existir sérias razões para tais desvaneios – é que o castelo onde decorrem as filmagens é o palco de várias histórias locais de terror e de perdição, um local onde poucos têm a coragem de se deslocar, sobretudo de noite.

Na segunda história o alerta para a existência de vampiros (ou outras entidades) provem da visita de um casal às caves do vinho do Porto. Aqui a senhora, com capacidades psíquicas, descobre um fantasma que a leva a uma sala onde vários terrores terão ocorrido. Conhecida do caçador de fantamas logo o chama, e juntos irão investigar a prosperidade do dono das caves.

Não esperem, em Dampyr, histórias com profundidade ou introspecção. São, sobretudo, aventuras que utilizam os clichés das criaturas sobrenaturais em que se centram, não faltando as referências cinematográficas, e que aproveitam cenários conhecidos dos autores. Ainda assim, não são histórias demasiado lineares, apresentando episódios centrados noutras personagens, ou episódiso que decorrem várias décadas ou séculos antes. Não sendo uma das minhas leituras favoritas desta colecção destaca-se pelo detalhe dos desenhos que, neste caso, fazem uma grande menção a Portugal.

Dampyr é o segundo volume da colecção Bonelli publicada em Portugal pela Levoir em parceria com o jornal Público.

A maldição de Hill House – Shirley Jackson

Autora de obras conhecidas como The Lottery ou Sempre vivemos no castelo, Shirley Jackson escreveu, também, um dos mais conhecidos e reconhecidos livros de terror gótico, uma das melhores histórias de fantasmas do século XX, A Maldição de Hill House. À semelhança de Sempre vivemos no castelo ou das histórias curtas de Dark Tales, não esperem, em A Maldição de Hill House, um terror explícito, mas sim, algo que questiona as capacidades psicológicas e emocionais das personagens, e que joga com a percepção do leitor.

A Maldição de Hill House começa com um cientista, John Montague, que assumir um perspectiva científica no estudo do paranormal e que, para tal, convida várias pessoas para a realização de uma experiência. Dada a natureza da experiência quem lhe aluga a casa coloca como condição o envio do jovem futuro herdeiro da casa. A história centra-se numa das duas jovens que aceita o convite, Eleanor, que cresceu a cuidar da mãe inválida e de cuja morte se atribui a culpa por ter adormecido.

Após uma peculiar introdução da casa – Eleanor é a primeira a chegar e depara-se com o casal peculiar de caseiros que se recusam a pernoitar na casa – John Montague introduz ao grupo a peculiar história da casa. Construída por um homem que visa a prosperidade da sua família numa casa grandiosa, Hill House é palco de uma sucessiva série de infortúnios que resulta na loucura e morte de alguns dos seus anteriores moradores.

Mas não é só a história da casa que é peculiar. Construída como um labirinto de difícil percepção e orientação, Hill House possui uma série de ângulos e inclinações ligeiramente diferentes da construçao usual que provocam a impossibilidade de manter fechada uma porta, e a consequente confusão de quem lá circula.

Jogando com a interacção entre as personagens e a desorientante geometria da casa, A Maldição de Hill House apresenta uma série de fenómenos estranhos, sobretudo pela perspectiva de Eleanor que, já na infância, tinha sido centro de uma série de acontecimentos de teor duvidoso. Através da mente emocionalmente instável de Eleanor os acontecimentos são apresentados de forma dúbia e questionável, jogando, também, com a percepção do leitor e nunca fazendo com que se tenha a certeza da assombração.

Shirley Jackson tece, em A Maldição de Hill House, um inteligente puzzle sem resolução óbvia que deixa o leitor desorientado, como um mero espectador que poderá criar a sua própria conclusão dos acontecimentos a que assistiu.

A Maldição de Hill House foi publicado pela Cavalo de Ferro.

The Ghoul Goes West – Dale Bailey

Hollywood destrói pessoas.  De mais do que uma forma. Destrói as pessoas que conseguem o estrelato e que para tal abdicam de um parte de si. Destrói as pessoas que seguem sonhos de sucesso no meio cinematográfico. Destrói os que perseguem uma obsessão.

O relacionamento de dois irmãos centra-se, sobretudo, nos filmes. Mas são também estes que acabam por os afastar – o irmão mais velho muda-se para Hollywood com o objectivo de escrever guiões, enquanto o mais novo segue uma via mais académica estudando filmes. Ambos preferem filmes que tocam no fantástico de horror.

Quando o mais novo recebe uma chamada que indica a morte do mais velho, percebe que a vida do irmão foi destruída lentamente pelo perseguir de um sonho, alimentado pelo surgir de uma série de filmes impossíveis – filmes que teoricamente se tinham ficado por meros planos, ou filmes que ficaram a meio devido a alguma desgraça.

Esta história não é das melhores que já foram publicadas no TOR.com mas é uma história envolvente que reflecte o fascínio pelos antigos filmes de horror, uma alusão a referências como Bela Lugosi e a tantos outros que se perderam no meio dos filmes.

The Ghoul goes west foi publicado pela Tor.com e encontra-se disponível gratuitamente.