Harrow County – Vol.4 – Laços de Família – Cullen Bunn, Tyler Crook

Em volumes anteriores já nos tinhamos apercebido que existiam outras entidades com fortes poderes – poderes que rivalizavam com os de Emmy. Neste quarto volume estas entidades apresentam-se finalmente – tratam-se de seres intemporais, cada um com capacidades específicas e poderes diferentes, que baniram Hester do seu grupo.

Sendo Hester a bruxa que viria a dar origem a Harrow County e a Emmy, o grupo tem vigiado a jovem e apresenta-se agora como uma espécie de família que se reúne, de tempos a tempos, numa casa sobrenatural fora do tempo e do espaço. A integração de Emmy pressupõe um preço demasiado caro, um preço com o qual não concorda mas quase é obrigada a pagar – o extermínio das pessoas de Harrow County!

Se, por um lado, Emmy sente uma certa familiaridade pelo local em que se encontram e algum fascínio por estas entidades, a sua vontade em acabar com Harrow County acorda o espírito protector de Emmy que acaba por se revoltar.

Carregado de monstros e de entidades de intuitos duvidosos, este quarto volume cimenta a realidade de Harrow County como sendo um local impregnado de magia, onde os espantalhos ganham vida para atormentar os habitantes, as bruxas proliferam e os monstros se escondem nas sombras. Populam os episódios de acção, mas sem deixar de lado algum espaço para a introspecção. A combinação rara para uma série de horror faz desta uma das melhores do género.

A série é publicada em Portugal pela G Floy.

Resumo de Leituras – Julho de 2018

108 – Jardim dos Espectros – Fábio Veras A história é sombria, bem como o aspecto gráfico. Trata-se de uma história de terror onde a tentativa de redenção de um homem fâ-lo enfrentar almas presas a um local maldito;

109 – Viagens – TLS – Vol.3 – A Gfloy e a Comic Heart continuam a promover o trabalho de autores portugueses num volume de boa qualidade e preço acessível onde se reúnem pequenas histórias. O terceiro volume tem como tema Viagens e destaca o trabalho de Ricardo Cabral numa história a cores carregada de elementos fantásticos;

110 – Malditos amigos – André DinizUma grande história de André Diniz em que se explora a depressão e a influência das pessoas que rodeiam a pessoa para conseguir ultrapassar a doença:

111 – Bestiário fantástico – 18 – Jean Ray -Um conjunto de histórias diversas enquadradas no género do terror, que não resvala para o gore ou para a carnificina. Algumas histórias possuem uma estrutura clássica, outras afastam-se bastante e possuem elementos fantásticos – o conjunto é de leitura agradável e essencial para os fãs do género.

Redneck – Vol.1 – Donny Cates, Lisandro Estherren, Dee Cunnife

Redneck é uma série de vampiros no interior americano – uma premissa que tem sido bastante explorada no cinema e na televisão, mas que, aqui, não assume detalhes românticos ou sonhadores, apenas práticos. Neste caso concreto trata-se de uma família de vampiros que tenta uma existência pacífica alimentando-se de sangue de vacas para conseguirem sobreviver sem entrar em conflito com os humanos.

De longas existências, estes vampiros desejam manter-se em paz, mas a verdade é que, tanto eles, como os humanos, recordam tempos em que tal não era possível. A tensão, sobretudo psicológica acumula-se, o receio dá lugar à materialização do medo. O resultado é uma guerra sangrenta de vingança, uma guerra com origem num mal entendido.

Nem todos os vampiros possuem os mesmos dons e, no caso desta família, apenas dois possuem o poder de ler os pensamentos e memórias de outros seres. Neste caso trata-se de um vampiro idoso que aspira aos costumes antigos, e um vampiro muito jovem que ainda não tem maturidade para que o deixam percepcionar determinados acontecimentos. Ambos possuem a chave para se perceber os acontecimentos que dão origem à guerra, mas, por motivos opostos, não se procura a capacidade de nenhum a não ser quando já é demasiado tarde.

Redneck é uma história sombria que explora personagens cuja longa vida não os deixa esquecer os traumas do passado – tão habituados estão a que os acontecimentos se desenrolem de determinada forma que é só uma questão de tempo para que voltem a acontecer. E ainda que tal seja verdade na maioria das vezes, esta expectativa fortalecida pela experiência leva-os, neste caso, a assumir determinados factos antes de os validarem.

Este volume começa de forma lenta, tentando acumular tensão nas primeiras páginas para levar o leitor ao esperado episódio de acção. E ainda que o tenha feito, parecem faltar peças no puzzle e os acontecimentos sucedem-se sem conseguir envolver, consistentemente o leitor. Ainda que existam momentos em que consegue captar, esta capacidade não se mantém, oscilando durante os episódios mais calmos que deveriam servir para tal.

Entenda-se, não é uma má banda desenhada. Tem personagens interessantes que poderiam ter sido melhor desenvolvidas e uma premissa que, não sendo totalmente original, poderia ter resultado melhor se alguns episódios tivessem sido limados. Trata-se de uma leitura engraçada, mas que ainda não sei se me vai levar a ler os restantes da série.

Dampyr – Infante – Aventuras em Portugal – Boselli / Bocci / Eccher / Dotti

Dampyr surpreendeu-me, sobretudo, pelo aspecto gráfico. Constituindo uma espécie de pulp da banda desenhada, com histórias movimentadas e de premissa simples, esperava desenhos mais simples e menos detalhados. Em Dampyr encontramos vampiros e outras criaturas sobrenaturais mas os verdadeiros monstros parecem ser os humanos que os ajudam, ludibriando outros humanos e entregando-os.

As duas aventuras reunidas neste volume rodam em torno de um caçador de vampiros, que é fruto da união de um vampiro com uma mulher humana e que, por isso, possui os seus próprios poderes peculiares. Ambas as aventuras decorrem no Norte de Portugal, a primeira num castelo quase abandonado, cenário de filmagem de um filme de terror, e a segunda no Porto, em torno da produção do vinho do Porto.

Que o ambiente de filmes de terror é propício à loucura dos actores, sobretudo das acrizes que fazem de vítimas, é conhecido. Mas na primeira aventura parecem existir sérias razões para tais desvaneios – é que o castelo onde decorrem as filmagens é o palco de várias histórias locais de terror e de perdição, um local onde poucos têm a coragem de se deslocar, sobretudo de noite.

Na segunda história o alerta para a existência de vampiros (ou outras entidades) provem da visita de um casal às caves do vinho do Porto. Aqui a senhora, com capacidades psíquicas, descobre um fantasma que a leva a uma sala onde vários terrores terão ocorrido. Conhecida do caçador de fantamas logo o chama, e juntos irão investigar a prosperidade do dono das caves.

Não esperem, em Dampyr, histórias com profundidade ou introspecção. São, sobretudo, aventuras que utilizam os clichés das criaturas sobrenaturais em que se centram, não faltando as referências cinematográficas, e que aproveitam cenários conhecidos dos autores. Ainda assim, não são histórias demasiado lineares, apresentando episódios centrados noutras personagens, ou episódiso que decorrem várias décadas ou séculos antes. Não sendo uma das minhas leituras favoritas desta colecção destaca-se pelo detalhe dos desenhos que, neste caso, fazem uma grande menção a Portugal.

Dampyr é o segundo volume da colecção Bonelli publicada em Portugal pela Levoir em parceria com o jornal Público.

A maldição de Hill House – Shirley Jackson

Autora de obras conhecidas como The Lottery ou Sempre vivemos no castelo, Shirley Jackson escreveu, também, um dos mais conhecidos e reconhecidos livros de terror gótico, uma das melhores histórias de fantasmas do século XX, A Maldição de Hill House. À semelhança de Sempre vivemos no castelo ou das histórias curtas de Dark Tales, não esperem, em A Maldição de Hill House, um terror explícito, mas sim, algo que questiona as capacidades psicológicas e emocionais das personagens, e que joga com a percepção do leitor.

A Maldição de Hill House começa com um cientista, John Montague, que assumir um perspectiva científica no estudo do paranormal e que, para tal, convida várias pessoas para a realização de uma experiência. Dada a natureza da experiência quem lhe aluga a casa coloca como condição o envio do jovem futuro herdeiro da casa. A história centra-se numa das duas jovens que aceita o convite, Eleanor, que cresceu a cuidar da mãe inválida e de cuja morte se atribui a culpa por ter adormecido.

Após uma peculiar introdução da casa – Eleanor é a primeira a chegar e depara-se com o casal peculiar de caseiros que se recusam a pernoitar na casa – John Montague introduz ao grupo a peculiar história da casa. Construída por um homem que visa a prosperidade da sua família numa casa grandiosa, Hill House é palco de uma sucessiva série de infortúnios que resulta na loucura e morte de alguns dos seus anteriores moradores.

Mas não é só a história da casa que é peculiar. Construída como um labirinto de difícil percepção e orientação, Hill House possui uma série de ângulos e inclinações ligeiramente diferentes da construçao usual que provocam a impossibilidade de manter fechada uma porta, e a consequente confusão de quem lá circula.

Jogando com a interacção entre as personagens e a desorientante geometria da casa, A Maldição de Hill House apresenta uma série de fenómenos estranhos, sobretudo pela perspectiva de Eleanor que, já na infância, tinha sido centro de uma série de acontecimentos de teor duvidoso. Através da mente emocionalmente instável de Eleanor os acontecimentos são apresentados de forma dúbia e questionável, jogando, também, com a percepção do leitor e nunca fazendo com que se tenha a certeza da assombração.

Shirley Jackson tece, em A Maldição de Hill House, um inteligente puzzle sem resolução óbvia que deixa o leitor desorientado, como um mero espectador que poderá criar a sua própria conclusão dos acontecimentos a que assistiu.

A Maldição de Hill House foi publicado pela Cavalo de Ferro.

The Ghoul Goes West – Dale Bailey

Hollywood destrói pessoas.  De mais do que uma forma. Destrói as pessoas que conseguem o estrelato e que para tal abdicam de um parte de si. Destrói as pessoas que seguem sonhos de sucesso no meio cinematográfico. Destrói os que perseguem uma obsessão.

O relacionamento de dois irmãos centra-se, sobretudo, nos filmes. Mas são também estes que acabam por os afastar – o irmão mais velho muda-se para Hollywood com o objectivo de escrever guiões, enquanto o mais novo segue uma via mais académica estudando filmes. Ambos preferem filmes que tocam no fantástico de horror.

Quando o mais novo recebe uma chamada que indica a morte do mais velho, percebe que a vida do irmão foi destruída lentamente pelo perseguir de um sonho, alimentado pelo surgir de uma série de filmes impossíveis – filmes que teoricamente se tinham ficado por meros planos, ou filmes que ficaram a meio devido a alguma desgraça.

Esta história não é das melhores que já foram publicadas no TOR.com mas é uma história envolvente que reflecte o fascínio pelos antigos filmes de horror, uma alusão a referências como Bela Lugosi e a tantos outros que se perderam no meio dos filmes.

The Ghoul goes west foi publicado pela Tor.com e encontra-se disponível gratuitamente.

You know how the story goes – Thomas Olde Heuvelt

Conheci este autor holandês com  The Day the World Turned Upside Down, antes de saber que tinha ganho o prémio Hugo, constituindo o primeiro conto traduzido a vencer na categoaria. Este autor publicou, também, um dos livros de ficção especulativa mais falados de 2013, Hex (e bastante recomendado por João Barreiros) e venceu vários prémios holandeses de literatura.

Em You Know How The Story Goes o autor pega num cliché de horror e desenvolve- competentemente, mantendo o interesse do leitor até ao final. Trata-se de uma história típica de estradas assombradas por um carro, onde quem apanha boleia vive uma autêntica história de terror.

Ao usar uma ideia comum o autor aproveita o medo das estradas sombrias durante a noite, a sensação inquietante provocada por desgraçadas anteriores, bem como reminiscências dos antigos contos onde, nas estradas, andavam fantasmas que levavam à desgraça os viajantes, num padrão reconhecível e inevitável.

Este aproveitamento é feito de forma assumida no próprio título, onde a personagem narradora começa por nos dizer que nunca acreditou em tais histórias – tal como o possível leitor que se depara com tal narrativa.

You know how the story goes é uma história disponível gratuitamente em TOR.com.

Novidade: Apontamentos de terror – Pepedelrey

Eis o lançamento da Escorpião Azul para este mês – Apontamentos de terror de Pepedelrey. Deixo-vos a sinopse, bem como algumas páginas fornecidas pela editora:

Quando se vagueia sozinho numa cidade fria e distante, onde nos parece e nos soa a diferente e violento, a alma cria em nós uma ilusão de algo que está para além do racional.

As quatro histórias que constituem este livro tentam criar medos e pavores ancestrais, mas tudo não passa de simples incapacidade de admitir a nossa violência interior, o medo de nos expormos e sermos julgados.

Pepedelrey nasceu algures no ano de 1967, apareceu por entre muros e janelas, gritando bem alto em celebração do seu nascimento. Nos agitados anos 80 do século XX, entra para uma igreja do conhecimento: Escola de Artes de António Arroio. Por entre estudos na área da imagem e da Comunicação, das Artes Gráficas, descobre o pior de todos os pesadelos: contar histórias. A loucura apoderasse dele e já no século XXI, funda uma editora, um estúdio e uma loja/galeria.

Depois de Futuro Proibido volume um, este é o seu segundo livro publicado pela editora Escorpião Azul.

 

Novidade: Gótico Americano – Maria Antónia Lima

Eis um lançamento de não ficção que parece interessante, pela Húmus (em formato digital gratuitamente)! Entre os artigos podemos encontrar referências a Lovecraft, Vampiros, Edgar Allan Poe ou House of Leaves de Mark Z. Danielewski (já agora, um livro excelente).

 

Recusando ser reduzidos à função de meros espectadores quotidianos de actos de violência, terrorismo, destruição, corrupção e perversidade humana no seu mais alto grau, muitos sentem que vivemos em tem-pos Góticos. Várias das recentes séries de TV americanas, como The Following, Criminal Minds, Dexter, Wal-king Dead ou Wayward Pines, ilustram bem a actual apetência do público por certas temáticas, atmosferas e personagens góticas, onde se pode encontrar uma crítica muitas vezes mordaz e sarcástica à sociedade contemporânea, que assim vê desvelados os falsos valores e aparências onde persistentemente se tem refugiado. Em todos estes ensaios c¬omprovar-se-á que o Gótico se transformou num modo de compreender e articu-lar o mundo à nossa volta, deixando de ser um simples conceito, para se tornar numa visão da existência e numa filosofia que traduz um profundo desencanto relativamente à sociedade em que vivemos. Mais especificamente centrados no Gótico Americano e naqueles que são alguns dos seus autores mais representativos, estes textos exigem que se compreenda a relevância deste modo literário e estético no universo da Literatura Norte-Americana.

 

Harrow County Vol.3 – Bunn, Crook, McNeil

Harrow County está de volta com um volume mais aberto a novos desenvolvimentos – Emmy não é a única pessoa com poderes sobrenaturais! Outros, envoltos em sombras de velhas histórias obscuras detém um poder desconhecido mas temido pela população.

O volume começa com um homem a tentar corromper o Rapaz sem pele e a tentar voltá-lo contra Emmy, mostrando-lhe que um dia já tinha sido um rapaz com nome e família, um rapaz que costumava brincar pelos bosques mas que um dia foge de medo.

Paralelamente, uma família apercebe-se que vive numa casa assombrada e que os fantasmas atingem sobretudo as crianças, chamando-as para o interior da casa e tentando impor a sua vontande sobre todos os habitantes. Emmy é chamada a resolver o problema mas, quando lá chega, não encontra o tradicional fantasma.

De história em história, parece que a soberania de Emmy vai ser posta em causa por várias entidades que conhecem segredos que a rapariga ainda desconhece. Cada um dos episódios parece fornecer bases para uma fractura diferente e aguardo, com impaciência o próximo volume!

A série Harrow County está a ser publicada em Portugal pela G Floy.

Novidade: A maldição de Hill House

De Shirley Jackson já tinha sido publicado, também pela Cavalo de Ferro, Sempre vivemos no castelo, uma história negra e arrepiante que transmite, ao leitor, as fobias da própria personagem. A Maldição de Hill House é um dos romances mais conhecidos da autora que apenas surge agora no mercado português. Trata-se de um dos mais conhecidos clássicos de horror. Deixo-vos a sinopse:

John Montague, especialista e estudioso do oculto, chega a Hill House em busca de algo concreto que possa provar a existência do sobrenatural. Acompanham-no, Theodora, a sua assistente, Luke, o futuro herdeiro da propriedade e Eleanor, uma mulher solitária e frágil, já com experiência de encontros com poltergeists.

Contudo, aquilo que, inicialmente, era apenas uma experiência em torno de fenómenos inexplicáveis torna-se, em pouco tempo, uma corrida pela sobrevivência, à medida que Hill House ganha poder e escolhe, de entre eles, aquele que quer para si…

A Maldição de Hill House é um dos mais perfeitos exemplos do terror e do suspense em literatura. Fonte de inspiração para nomes como Stephen King ou Guillermo del Toro, confessos admiradores de Shirley Jackson, a história foi adaptada por duas vezes ao cinema em filmes de grande sucesso.

 

Novidade: Harrow County Vol.3

Chega às bancas portuguesas o terceiro volume de Harrow County, uma das melhores (a melhor, para mim) séries de banda desenhada de terror em curso! Depois de um primeiro volume brutal e de um segundo surpreendente, veremos o que nos espera no terceiro:

O Rapaz sem Pele tenta compreender os mistérios do seu passado, Emmy investiga uma casa assombrada, e umas serpentes maléficas infectaram as mentes dos habitantes do Holler. E só Bernice poderá opor-se a este novo mal – mas será que pedir ajuda à sombria e temível Lovey Belfont a vai colocar num perigo ainda maior?

The Dark Tower Vol.2 – The long road home – Robin Furth, Peter David, Jae Lee, Richard Isanove

Eis o que me irritou profundamente no filme – ainda que não seja particularmente fã da obra de Stephen King, não tenha lido os livros e apenas tivesse lido o primeiro livro da banda desenhada à data da visualização cinematográfica,  achei que a adaptação transformava um mundo com excelentes capacidades na história rotineira de um rapaz que, na ausência dos pais, encontra alguém que o ajuda a explorar os poderes adormecidos. Cliché. E se é verdade que o problema dos clichés é que funcionam, neste caso havia tantas falhas narrativas que a capacidade de crença do narrador foi rapidamente esgotada.

No volume anterior acompanhámos uma série de forças negras que tentam ganhar poder no mundo onde se encontra a Torre Negra, uma construção que constituirá o centro de suporte para a existência de vários mundos. Sem ela, tudo colapsa. Roland pertence à família que tem como objectivo proteger a Torre Negra e quando as várias forças colapsam é obrigado a crescer e a tornar-se um adulto capaz.

Paralelamente desenrola-se um romance entre Roland e Susan Delgado, uma jovem que é vendida como concunbina pela própria família. Mas antes de desempenhar este papel apaixona-se por Roland e acaba por morrer numa fuga mal sucedida. Este volume começa após essa morte, com Roland inanimado na maioria das páginas, depois de um acidente com um objecto poderoso. Na realidade a mente de Roland está dentro do objecto, onde encontra um dos seus piores inimigos e onde lhe é exposto o motivo pelo qual tenta destruir o Universo.

Enquanto Roland e os companheiros de viagem (que o transportam) se dirigem até território seguro, muitas coisas acontecem. Enquanto são caçados por um batalhão de homens, um rapaz idiota que segue este batalhão (com o intuito de vingar a morte de Susan Delgado) é modificado no que reconhecemos ser o resto de um parque de diversões (referência interessante num mundo de características medievais que teoricamente não tem electricidade nem tecnologia) – esta modificação será fulcral para os episódios que se seguem.

Roland e os seus amigos não terão apenas de fugir do batalhão de homens – pelo caminho enfrentam muitos outros perigos que não os deixam incólumes. Para além das pontes frágeis encontram-se com lobos e monstros.

A história apresenta na banda desenhada constitui uma prequela à história dos livros, ainda que possua episódios que (pelo que li) podemos encontrar nos livros. A história está carregada de elementos fantásticos, mas inclui, também, o conceito de mundos paralelos que serão suportados pela Torre Negra, ou resquícios de uma tecnologia avançada de uma época anterior.

Cruzando elementos de uma sociedade entre o medieval e o faroeste, com magia e tecnologia, um dos pontos fortes desta série é a qualidade da edição e o fantástico aspecto das páginas que transmitem um ambiente negro onde as forças benignas parecem esmagadas pelas circunstâncias. Há muito para compreender neste mundo que parece ter uma história rica em detalhes.

Opinião a volumes anteirores

Resumo de leituras – Janeiro de 2018

01 – The complete Phonogram – Gillen, McKelvie, Wilson e Cowles – Este volume tem várias semelhanças com The Wicked + The Divine, contendo deuses e figuras com poderes que nascem num cenário urbano. Se no outro se trata do renascer cíclico dos deuses, aqui a fonte é a música, que influencia, adormece e alimenta os detentores dos poderes. Tal como a outra série, esta não faz muito o meu género, não gostando muito da aura decadente dos defeitos humanos inevitáveis que levam recorrentemente ao mesmo erro;

02 – O último reino – Bernard Cornwell – Há algum tempo que não lia nada do autor (ou outras obras de ficção histórica). Trata-se de uma série centrada num lorde inglês que, em criança, presencia a invasão dos Vikings. Mostrando-se lutador e destemido, é adoptado por estes e aprende uma série de técnicas de guerra que o irão ajudar posteriormente;

03 – Metabarons Genesis: Castaka – Alejandro Jodorowsky e Das Pastoras – No seu estilo implacável, eis mais um volume onde se explora a ascendência do Metabarão e a sua ligação com a tecnologia. Guerreiro honrado para quem as acções carregam um peso, o Metabarão tem um ascendente pirata que terá determinado a saído do planeta da sua linhagem;

04 – Mitologia Nórdica – Neil Gaiman – Curto conjunto de histórias mitológicas, onde Neil Gaiman parte dos mitos originais que tanto o fascinaram, para apresentar os Deuses nórdicos como personagens em episódios de valor moral questionável onde a demonstração de esperteza, com interpretações dúbias de pactos, são bastante comuns.

05 – Plutona – Jeff Lemire, Lenox, Bellaire – Com uma premissa que não é totalmente original e explorando a complexidade da adolescência, Plutona consegue apresentar personagens com dimensão própria com as quais é possível sentir empatia. A história vai explorando, ligeiramente, o contexto familiar de cada jovem e assim permitir dar-lhes peso e importância para além do estereotipo fácil;

06 – Fun Home – Alison Bechdel – Em Fun Home entra-se no quotidiano de uma família peculiar pelas recordações de criança da autora que, só com algumas revelações, percebeu o quão peculiar era a família (e a sua infância onde ocorreram viagens à Europa, onde os pais teriam vivido). Mais mais do que o quotidiano de uma família, durante o desenrolar das memórias a autora tenta eternamente estabelecer um contacto mais próximo com um pai, um suposto entendimento e reconciliar com o seu peculiar feitio, como forma de ultrapassar a sua morte.

 

 

Retrospectiva 2017 – O Rascunhos em Banda desenhada

Numa contagem desatenta percebo que ultrapassei o número de leituras de banda desenhada do ano passado, rondando quase as 200 leituras, algumas (poucas) em francês ou espanhol, mas sobretudo em inglês e português (este registo passou a ser feito no Goodreads). Considero que este foi um grande ano na publicação da banda desenhada em Portugal, com a colecção de Novela Gráfica publicada pela Levoir em parceria com o jornal Público, a lançar grandes obras que, de outra forma, dificilmente veriam a luz da edição portuguesa, e editoras nacionais a lançarem-se, pela primeira vez, na publicação de banda desenhada.

Banda desenhada portuguesa

 

 

 

 

 

 

 

A melhor leitura – O problema de separar em categorias e ter uma só para a banda desenhada portuguesa é ter de comparar obras bastante diferentes em tom e tema. Eis, portanto, as duas melhores leituras do ano em banda desenhada portuguesa : O Elixir da Eterna Juventude de Fernando Dordio e Osvaldo Medina e Comer Beber de Filipe Melo e Juan Cavia. O primeiro destaca-se pelo tom leve com que integra as músicas de Sérgio Godinho numa aventura divertida e o segundo pela qualidade do desenho e pelos temas, mais sérios, abordados nas duas histórias que compõem o volume que, apesar de curtas, conseguem transmitir o peso dos acontecimentos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas – De Rui Lacas, Ermida é uma história curta mas caricata que inspira um enorme simpatia graças à força das expressões e dos modos que as personagens apresentam. Por sua vez, Hanuram de Ricardo Venâncio é visualmente interessante, tanto pela qualidade do desenho como pela composição, centrando-se num guerreiro que ousou desafiar os deuses ao se proclamar invencível. Totalmente diferente dos anteriores, Ermal de Miguel Santos destaca-se pela criação de uma realidade pós-apocalíptica em que o ocidente foge para território africano, resultando em guerras onde as várias facções tentam explorar interesses diferentes. No final o principal defeito é tratar-se de uma história curta. Finalmente, em tom humorístico, Conversas com os putos de Álvaro apresenta vários episódios cómicos que decorreram enquanto dava explicações.

Banda desenhada de ficção científica

A melhor leitura – Valerian de Christin e Mézières – A série publicada pela Asa em parceria com o jornal Público trouxe um conjunto de aventuras com uma qualidade que não esperava. Referida, por diversas vezes, como tendo influenciado Star Wars (ou mais do que influenciado) possui uma grande diversidade de mundos e de espécies alienígenas que se tornam fascinantes pela coerência que possuem. A dupla de agentes, por sua vez, ora viagem no espaço, ora no tempo, e se, nas primeiras aventuras as histórias são simples e quase clichés, sente-se que, com o avançar dos volumes, a série melhora, utilizando as histórias anteriores como alicerces para as seguintes, e ganha uma dimensão avassaladora.

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas – Pela primeira vez de que me recordo tenho de reclassificar o género de uma série. Autumnlands, que começou por parecer uma série fantástica com elementos extraordinários, assume-se, no segundo volume, como ficção científica, utilizando espécies alienígenas tecnologicamente avançadas para justificar a origem do que se pensava ser magia. Espero que o terceiro volume revele um pouco mais desta dualidade. Por sua vez, Surrogates apresenta um mundo sombrio onde se inventaram corpos artificiais para os quais as pessoas se projectam e com os quais saem à rua, protegendo-se assim de potenciais acidentes e problemas de discriminação (já que o corpo pode não ter qualquer semelhança física com o seu dono). As vantagens são, no entanto, submersas pelas desvantagens, numa sociedade cada vez mais superficial. Outra das grandes descobertas não é uma novidade em termos editoriais, mas trata-se de A feira dos imortais de Bilal, autor do qual apenas conhecia os álbuns mais modernos e só com estes percebi porque tanta gente os repudia.

Banda desenhada de horror

A melhor leitura – Harrow County de Cullen Bunn e Tyler Crook – Depois de um excelente primeiro volume, o segundo mantém o tom negro, e percebemos que a menina com capacidades de bruxa, ao contrário do estereotipo se preocupa com a correcta utilização dos seus poderes, por forma a que exista um equilíbrio de forças. Esta preocupação será exacerbada pela entrada de uma nova personagem, uma irmã gémea que terá os meus poderes mas que não os usa de igual forma.

Banda desenhada fantástica

A melhor leitura – Monstress de Marjorie Liu e Sana TakedaMonstress fascinou pelo aspecto exótico e pela mitologia densa num mundo semelhante ao nosso, com tecnologia semi-medieval, onde existem seres semelhantes aos humanos com características de animais. Estes seres são caçados pelos humanos a mando de feiticeiras que com eles pretendem realizar experiências. Enquanto os supostos monstros são emocionalmente mais humanos do que os humanos e os deuses se escondem, simultaneamente dependentes e poderosos, temos uma espécie inteligente de gatos que se dedica a registar e a passar, de geração em geração, a história deste complexo mundo;

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas – A famosa série Sandman foi finalmente publicada em Portugal numa parceria entre a Levoir e o jornal Público. Ainda não li todos os volumes mas a série, melancólica, centra-se na figura eterna responsável pelos sonhos cruzando as histórias mitológicas de várias civilizações. O resultado é uma história abismal onde Neil Gaiman explora personagens e mitos de forma envolvente. O Rei Macaco, de Manara e Silverio Piso é uma obra visualmente impressionante, onde a figura divina de um macaco usa o seu carácter irrequieto como explorador e parte do paraíso com o intuito de se tornar imortal e assim poder usufruir eternamente do paraíso. Irónico? Bastante. São comuns os comentários políticos e religiosos, bem como as insinuações fálicas ou a observação do decadente comportamento humano. Finalmente, comecei a série East of West, uma série que cruza tecnologia e fantástico apresentando-nos a demanda dos cavaleiros do apocalipse. A Morte busca o filho que está a ser manipulado para provocar o fim da existência.

Banda desenhada histórica

A melhor leitura – Os trilhos do acaso de Paco Roca – Nesta obra publicada em dois volumes o autor explora a guerra civil espanhola numa perspectiva pouco habitual, seguindo um refugiado espanhol – um homem que se viu obrigado a deixar Espanha num barco e que mesmo assim foi sortudo, considerando que a maioria não foi capaz de embarcar. Este homem é, agora, um velhote que ninguém suspeita ter sido um herói de guerra, lutando na Segunda Guerra Mundial. O que é peculiar não é só a personagem, mas a forma como Paco Roca cria empatia e explora a história mais pelo lado humano do que pela terror da guerra.

Menções honrosas – Também Destino Adiado de Gibrat tem como palco a guerra mas, desta vez, centra-se num jovem que desertou e que, por sorte, foi dado como morto. A partir daqui consegue esconder-se na vila de origem, passando os dias sem poder ser visto, mas numa casa que lhe permite observar o quotidiano de todos.

Antologia

A melhor leituraSilêncio – Das várias antologias de contos de banda desenhada que li este ano a que mais me impressionou foi o segundo volume The Lisbon Studio com o título Silêncio. Neste volume reúne-se o trabalho de vários autores portugueses que pertencem ao mesmo estúdio e se organizaram para entregar histórias curtas centradas no mesmo tema. Este é o segundo volume da série em torno do estúdio, sendo que achei que o trabalho apresentado neste ainda conseguia ser de melhor qualidade do que no primeiro volume. Os temas são diversos bem como o estilo, entregando-se boas histórias curtas.

Menções honrosas – Flight Esta é, no mínimo, uma antologia de banda desenhada competente. Todas transmitem alguma narrativa, ainda que nalgumas se perceba que esse não é o foco (são poucas), e todas são visualmente agradáveis (no mínimo), bastantes com detalhes caricatos que transmitem simpatia ao leitor. Ainda que Flight não devesse ser um tema, mas apenas o título do volume, várias das histórias têm o voo como premissa.

Registo autobiográfico

 

A melhor leitura – Tempos Amargos de Étienne Schréder – O autor apresenta os seus piores momentos de degradação originados pelo vício do vinho. Sem conseguir terminar os estudos pretendidos, pai demasiado cedo e trabalhando numa prisão, Étienne Schréder afunda-se cada vez mais na bebedeira como possibilidade de fuga da vida que leva. Aqui expõe-se (mas tem cuidado em não expor os outros) e demonstra os anos de escuridão.

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas – Em Histórias do bairro o autor mostra a sua infância e, até, adolescência num bairro problemático de onde é difícil escapar. Cedo os habitantes se envolvem em actividades ilícitas que são tão comuns que quase são tomadas por normais. Mas é a capacidade de desenhar e de querer fazer algo com essa capacidade que lhe concede a porta de saída deste mundo. Em Os Ignorantes dois homens trocam paixões com o autor a mostrar a banda desenhada a um produtor de vinho, e o produtor de vinho a demonstrar as fases e segredos da sua profissão.

Outras

A melhor leitura – NonNonBa de Shigeru Mizuki – Um rapaz endiabrado mas de bom coração entrelaça o sobrenatural em todos os momentos da sua vida, fazendo com que criaturas diferentes sejam vistas como a causa para os eventos que os rodeiam. Este rapaz encontra-se no Japão rural, fazendo com que percepcionemos a pobreza deste ambiente, afastado das maravilhas da cidade. Para além deste retrato, que é um factor de peso para ter gostado tanto deste livro, outro elemento importante é o caricato das personagens que nos envolve e cativa, contrastando com os cenários detalhados, bem como a forma como transforma episódios quase banais em grandes aventuras sobrenaturais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas Daytripper foi uma excelente surpresa, explorando a vida como uma série de pequenas fugas a eventos terminais numa história inspiradora e envolvente. Já The Fade Out destacou-se pela temática, com a apresentação de um crime nos bastidores do cinema de Hollywood dos anos 40 num ambiente negro e decadente. Da mesma dupla criativa, Criminal segue a vida de uma série de pessoas que retornam, voluntaria ou involuntariamente a vida do crime. Southern Bastards retrata  o interior americano onde o equilíbrio de forças é controlado pelo maior criminoso local que mantém debaixo de olho até a polícia. Num tom totalmente diferente, Jardim de Inverno é um relato delicioso e expressivo que apresenta a existência cinzenta de um rapaz na cidade.

A Melhor leitura – Tony Chu de John Layman e Rob Guillory A série centra-se em poderes associados à comida e, partindo de Tony Chu, um agente enfezado que percepciona a vida de tudo aquilo que come, tem conseguido centrar-se noutras personagens e manter o interesse do leitor com elementos cada vez mais estranhos.

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas – É impossível não falar de série de banda desenhada e deixar de fora Saga. Ainda que, nos últimos volumes, sinta que faltam elementos inovadores e que a narrativa está “apenas” a colocar as personagens no local que deseja para poder desenrolar um final, continua a ser uma série interessante e mirabolante, com elementos leves e trágicos, uma piada às séries de ficção científica e fantasia mais conhecidas. Finalmente, estou na leitura da série Fables que tem altos e baixos. Os últimos volumes (13 e 14) que li destacam-se visualmente, com belíssimas composições (que merecia uma melhor qualidade do papel em que é impresso, mas essa é a mesma discussão de sempre em relação à banda desenhada da Vertigo).

Outras retrospectivas

A ficção especulativa em Portugal – 2017

2016 foi, comparativamente a 2017, um ano muito bom. 2017 conseguiu manter alguns dos eventos, mas esmoreceu nas visitas estrangeiras. Veremos o que vem com 2018.

O ano começou em grande, com os eventos de lançamento de Terrarium (de Luís Filipe Silva e João Barreiros), sessão de Sustos às sextas, Devoradores de Livros, Comunidade de Leitores Culturgest e filme de culto de Filipe Melo.

Depois da apresentação inicial da Comic Con (ainda em 2016) decorreu uma sessão na Leituria, integrada nos Devoradores de Livros, e uma na FNAC com a presença de Rui Zink. As sessões foram divertidas e bem humoradas com as usuais boas tiradas do Tio Barreiros que podem ser ouvidas na entrevista sobre o livro.

O evento Devoradores de Livros sofreu uma pausa em 2017 mas já tem sessão para Janeiro de 2018 agendada!

Por sua vez, os Sustos às Sextas de 2017 também garantiu momentos interessantes, com exposições, contos ou marionetas, tendo aberto, este ano, espaço para sugestões de leitura! Infelizmente o evento não retorna em 2018, mas esperemos que não seja o fim de um dos poucos eventos dedicados ao Terror em Portugal que não cai e se baseia apenas no Gore.

O ano começou, também, com a ida à Comunidade de Leitores Culturgest (entre dois mundos) a dia 12 de Janeiro para a sessão de Santuário de Andrew Michael Hurley, mas desgostei tanto da sessão que foi a primeira e a única.

Destas sessões de culto organizadas por Filipe Melo (que infelizmente já não se verificam em 2018) fizeram parte filmes como Dellamorte Dellamore ou Fearless Vampire Killers e vieram convidados como Greg Sestero (actor no filme The Room) ou Lloyd Kaufman (TROMA). Este foi um dos eventos que marcou o ano e que nos fazia antecipar a ida mensal ao cinema pelo excelente clima que se verificava na sala.

Também o evento Recordar os Esquecidos parou em 2017, tendo sido efectuadas 29 sessões com a moderação de João Morales. A última sessão teve como convidados alguns editores ao invés dos usuais escritores: Guilhermina Gones (Círculo de Leitores e Temas e Debates), João Rodrigues (Sextante editora), Maria Afonso (Antígona) e Hugo Xavier (E-Primatur). Ao longo destas sessões foram várias as indicações que me fizeram ler algumas obras pouco prováveis.

Na  biblioteca de São Lázaro decorreram dois lançamentos da Editorial Divergência, o primeiro do livro Lovesenda de António de Macedo onde tive oportunidade de falar um pouco sobre o livro, e o segundo da antologia Monstros que nos habitam, que reúne vários contos sobrenaturais de autores nacionais.

O Sci-fi LX deste ano teve várias sessões ligadas à literatura e voltou a explorar o pavilhão central do IST, tendo espaço para vários workshops interessantes, jogos e cinema. Continua a ser um evento em expansão, gratuito e acessível para todas as idades e esperemos que continue a crescer nos próximos anos.

Uma das grandes novidades deste ano veio com a antecipação do Fórum Fantástico no calendário que decorreu em Setembro, permitindo a exploração dos espaços ao ar livre da Biblioteca, com uma tenda para a venda de livros e espaços para a venda de produtos relacionados com a fantasia ou o Steampunk. De realçar, também, a presença de Mike e Linda Carey, dois autores de ficção científica e fantástico que também têm estado envolvidos na banda desenhada.

Outra das grandes novidades deste ano foi o Festival Bang, organizado pela Saída de Emergência que teve como principal convidada a Anne Bishop. Não tendo podido estar presente, deixo-vos o relato do Artur Coelho.

Entre eventos dedicados a Tolkien e a Arthur C. Clarke, decorreu ainda a Comic Con com convidados como Andrzej Sapkowski e Claire Nort (que gostaria que tivessem tido algum evento no Sul do país, mas infelizmente tal não se verificou).

Lançamentos

O Jorge  Candeias já antecipou esta componente,  mas destaco que tanto Comandante Serralves – Expansão como Crazy Equóides são lançamentos previstos para 2018 (nota que o próprio levanta, dizendo que a compilação são de alertas de lançamento e não de lançamentos efectivos).

De 2017 realçaria os seguintes (ordem alfabética):

  • A Estrada Subterrânea – Colson Whitehead
  • A Rapariga que Sabia Demais – M. R. Carey
  • A Revolta de Atlas – Ayn Rand
  • A Súbita Aparição de Hope Arden – Claire North
  • Almanaque Steampunk – vários autores
  • Anjos – Carlos Silva
  • As nuvens de Hamburgo – Pedro Cipriano
  • Autoridade – Jeff VanderMeer
  • Contos do Gin-Tonic e Outros Preparados Inéditos – Mário-Henrique Leiria
  • Lovesenda – António de Macedo
  • Mulheres Perigosas – org. George R. R. Martin e Gardner Dozois
  • Normal – Warren Ellis
  • O Espírito da Ficção Científica – Roberto Bolaño
  • O Homem Duplo – Philip K. Dick
  • Os Cavalos de Abdera e Mais Forças Estranhas – Leopoldo Lugones
  • Os monstros que nos habitam – vários autores
  • Os Pássaros no Fim do Mundo – Charlie Jane Anders
  • Os Três Estigmas de Palmer Eldritch – Philip K. Dick
  • Reino do Amanhã – J. G. Ballard
  • Relatório Minoritário e Outros Contos – Philip K. Dick
  • Terrarium – João Barreiros e Luís Filipe Silva

Resumos de outros anos

Retrospectiva 2017 – O Rascunhos

2017 no Rascunhos

Quase 270 livros depois da última retrospectiva, eis a de 2017, em que consegui ultrapassar o número de leituras de 2016! Mantive a leitura de livros em outras línguas para além do português e do inglês e, não podendo estar numa CON internacional como no ano passado, tive oportunidade de falar sobre livros em mais eventos nacionais: Sustos às sextas, Sci-fi LX e o usual (mas nem por isso inferior) Fórum Fantástico.

Os valores globais de visualizações deste ano rondaram os do ano passado, 44 000, com alguns meses a exceder este valor e outros mais parados (resultado de compromissos profissionais). Tal como o ano passado verifica-se uma grande procura por informação dos livros do Plano Nacional de Leitura. Mas as entradas do ano de 2017 com maior número de visualizações são, por ordem crescente, Monstros que nos habituam (uma antologia de contos sobrenaturais de autoria portuguesa lançada pela Editorial Divergência), Crónica do Rei Pasmado (uma história irónica de uma corte hipócrita e imoral que tenta evitar que o rei veja a rainha nua), O Labirinto dos Espíritos de Carlos Ruíz Záfon (volume que finaliza a tetralogia O Cemitério dos livros esquecidos). Estes números de visualização excluem os volumes de banda desenhada que terão entrada própria.

As melhores leituras

Excluindo a banda desenhada, que será focada mais tarde, eis as melhores leituras de 2017:

Melhor colectânea – Relatório Minoritário e outros contos

Philip K. Dick gosta de brincar com a memória e com a nossa construção da realidade, sobrepondo diferentes visões, adicionando o efeito de substâncias duvidosas e fazendo-nos questionar o que achamos que existe à nossa volta. Esta fenomenal antologia não é excepção. Entre elementos programados que prosseguem sem a humanidade na concretização absurda do propósito para o qual foram construídos, encontramos adultos que se refugiam da realidade em casas de bonecas e pessoas capazes de perspectivar alguns futuros possíveis. Vários destes contos deram origem a filmes ou pequenas séries e o conjunto é sublime.

Melhor ficção curta – Kuszib de Hassan Abdulrazzak (Iraq +100)

Um dos melhores contos que li este ano (excluindo, claro, os do Philip K. Dick) encontra-se num local pouco provável, uma antologia de ficção científica iraquiana. Porquê pouco provável? Porque não é um país com tradição na ficção especulativa, onde o regime vigente não favorece o florescimento de especulações e previsões futuras. O próprio organizador da antologia começa por nos referir que a maioria dos autores não está habituado ao género e que terá aqui uma das suas primeiras explorações.

Este conto apresenta um planeta Terra governado por alienígenas. O casal que acompanhamos encontra-se num evento social, experimentando, pela primeira vez, uma determinada marca de vinho que tem, como característica peculiar, ser feito como antigamente, de uvas. Mas então, de que é feito o vinho que conhecem? De sangue. De seres humanos. Um conto extraordinário com reviravoltas viscerais.

Melhor ficção científica – Lágrimas na Chuva de Rosa Montero

Este ano parece centrar-se muito em Philip K. Dick – neste caso Lágrimas na chuva é um livro de uma autora espanhola com vários elementos de Blade Runner que nos apresenta uma rep, uma humana artificial, que se dedica à investigação de crimes. No mais recente caso que investiga ela próprio foi uma das potenciais vítimas e começa quando alguns reps aparecem com memórias deturpadas e tentam assassinar outras reps.

A história possui fortes referências à descriminação (e às suas origens sociais) ou à distinta justiça que é aplicada a ricos e a pobres: numa sociedade em que até o ar puro é pago e muitos humanos são obrigados a viver em zonas poluídas e marginais, expulsos por não serem capaz de pagar os elevados impostos de zonas melhores, a existência de reps bem sucedidos torna-se uma afronta e um bom bode expiatório para as desgraças pessoais.

Melhor não ficção – A Biblioteca à noite – Alberto Manguel

Quem bem me conhece sabe que livros sobre livros são das minhas leituras favoritas, uma paixão reconhecida tardiamente! Este, de Manguel é divinal, centrando-se nas bibliotecas desde tempos imemoriais para mostrar diversas formas de organização e de importância na sociedade. Cruzando diferenças culturais e históricas com a actualidade ocidental, realça o mistério da biblioteca à noite, obscura, carregando todas as possibilidades e todos os livros, os lidos e os não lidos.

Melhor fantasia – City of Blades de Robert Jackson Bennett

Depois de um extraordinário primeiro volume, este segundo não se encontra no mesmo nível mas, mesmo assim, é a melhor leitura de fantasia, considerando que não me dediquei muito ao género. Não me entendam mal – é uma excelente leitura, simplesmente fica aquém da expectativa criada em City of Stairs.

Com uma realidade que alterna os detalhes medievais com uma elevada cadência de descobertas tecnológicas, City of Blades apresenta uma mitologia completa mas não demasiado complexa que vai sendo apresentada sem sobrecarregar o leitor e episódios mais leves provocados por tiradas cómicas de personagens peculiares, constituindo um bom equilíbrio com as desgraças eminentes.

Melhor ficção científica nacional – Anjos de Carlos Silva

Esta não foi uma decisão fácil. Não por causa do livro indicado mas porque este ano li histórias excelentes de autores nacionais (mais, abaixo, nas menções honrosas). O elemento utilizado para o desempate foi o destaque da componente narrativa, elemento que muito prezo.

Partindo de um tema actual e adicionando vários elementos originais, Anjos possui diversas linhas narrativas que se combinam e divergem, resultando num romance de ficção científica carregado de acção e detalhes tecnológicos.

Melhor ficção histórica – Lovesenda de António de Macedo

Cineasta caído na obscuridade, professor, escritor competente mas pouco conhecido. António de Macedo era uma figura acarinhada do meio literário depois de ter deixado o cinema ao ser marginalizado e remetido ao esquecimento (talvez por não se enquadrar no que outros achavam que deveria ser o cinema português – podem ver o documentário Nos interstícios da realidade para mais informação).

Conhecedor tanto da história do fantástico português como da História Medieval portuguesa, escreveu este livro de frases sublimes que necessitam de uma atenta leitura onde o fantástico medieval se torna palpável aos nobres abrutalhados que não possuem o usual glamour romântico usualmente atribuído noutras obras. Infelizmente esta edição é limitada a 100 exemplares, fruto do  lançamento por uma pequena, mas esforçada editora nacional.

Menções honrosas:

 

 

 

 

 

 

 

Ficção científica – A súbita aparição de Hope Arden surpreendeu pelo conceito utilizando duas ideias entrelaçadas para concretizar um romance original, com uma personagem esquecível por todos e uma app que indica o caminho para a perfeição. Os três estigmas de Palmer Eldritch teria atingido o lugar de melhor ficção científica não fosse uma releitura. Por sua vez, Babel-17 foi outra das grandes leituras do ano ao se centrar nas possibilidades da linguagem para produzir uma guerra. E, claro, Normal de Warren Ellis com o seu abismo tecnológico, não pode ficar esquecido.

 

 

 

 

 

 

 

AntologiasNeutron Star de Larry Niven é um conjunto divertido carregado de estranhas mas interessantes espécies alienígenas e centrado num ser humano aventureiro que acaba por aceitar perigosas missões em troco de umas descargas de adrenalina e alguns trocos. Já Invisible Planets é uma antologia de contos de ficção científica chineses que possui alguns contos excepcionais e memoráveis!

 

 

 

 

 

 

 

Não ficçãoHistória natural da estupidez é memorável pelos exemplos de estupidez descritos. Que a humanidade tem uma capacidade incrível para realizar actos estúpidos já sabíamos mas a compilação apresenta casos sublimes! Por sua vez Desobediência Civil é um discurso genial de crítica à sociedade ocidental conseguindo, simultaneamente, ser subversivo e enaltecer a democracia.

 

 

 

 

 

 

 

Fantasia – Aliette de Bodard tem-se distinguido por apresentar ficção especulativa com elementos pouco ocidentais que conferem um ambiente exótico às suas histórias. Neste caso, The house of shattered wings é o primeiro livro de uma fantasia fantástica que apresenta uma cidade europeia após um apocalipse que fez colapsar a sociedade – existem seres mágicos, anjos caídos sem memórias, que constroem facções protegendo quem lhes interessa com motivos altruístas. As casas jogam um longo jogo de influências onde não é raro morrerem peões. Wintersmith é mais um livro de Discworld, destinado, neste caso a um público mais juvenil, com uma jovem mas cómica e decidida bruxa.

 

 

 

 

 

 

 

Ficção nacional – Em Diálogo das compensadas assistimos a uma paródia da nossa sociedade em que se opõe a adoração dos reality shows com uma vida mais pausada e dedicada à introspecção. As freiras constroem peças de computador que todos os fabricantes querem e cabe a um jovem director convencê-las a manter-se como cliente. Por sua vez, A Instalação do Medo é um episódio genial que deixa antever uma sociedade distópica onde os cidadãos são controlados – o próximo passo para esse controlo é a implementação do medo em todas as casas. Bastante diferente, em tom e tema, é As nuvens de Hamburgo uma história com elementos fantásticos onde o passado se materializa no presente (ou o presente no passado) mas sempre em torno de uma rapariga que desconhecia ter tais capacidades.

 

 

 

 

 

 

Ficção históricaO labirinto dos espíritos foi uma das primeiras leituras do ano e fechou a tetralogia passada na cidade de Barcelona. Apesar de ter gostado bastante deste volume peca por se alongar demasiado em episódios desnecessários, alguns que pretendem dar apenas uma noção de ambiente – elemento agradável mas que achei que era excessivo neste volume. Por sua vez, Crónica do Rei Pasmado é um retrato irónico que apresenta a hipocrisia da corte em que todos pecam, mas todos tentam evitar que o Rei veja nua a Rainha.

Perspectivas para o próximo ano

Aproximam-se mudanças. E novos projectos. Espero. Sem indicar prazos nem certezas, prevejo uma diversificação de formatos que ainda não sei em que moldes irá decorrer. E possivelmente passarei a ter espaço para jogos de tabuleiro e concertos.

Melhores leituras de anos anteriores


– 2016

2015

2014

2011

2010

2009

2008

2007

2006

Sintra – Tiago Cruz e Inês Garcia

Quem já passou por Sintra à noite, naquelas estradas interiores, percebe que é um local que inspira respeito. A névoa ergue-se naqueles bosques sem luz nem presença de civilização, um ambiente húmido e escuro que faz surgir os medos mais primitivos. É neste ambiente, onde a orientação se perde e o vapor da respiração se une facilmente à neblina, que decorre Sintra, uma história de horror.

Aproveitando o ambiente carregado de sombras e de barulhos pouco reconhecíveis, Sintra segue um casal que teve a infeliz ideia de acampar neste local. Não chegam a acampar. O acidente de carro que sofrem separa-os e coloca-os a uma boa distância do local inicial de uma forma pouco lógica que serve para fazer crescer os receios iniciais.

Daniel encontra uma jovem que o ajuda e o leva a casa. Na casa, onde apenas vivem mulheres, pede ajuda, mas a cada pedido surge um impedimento diferente, numa estratégia de engodo e distracção.

Já Alice deambula, estranhando o seu afastamento do local do acidente, e procurando Daniel. Atordoada, encontra um velhote que lhe conta uma estranha história de separação familiar.

Sendo Sintra um cenário de terror plausível, esta história aproveita o ambiente para apresentar uma história com elementos de terror tradicionais: a separação espaço-temporal que se afasta da realidade que conhecemos, as belas donzelas que tentam afastar o cavalheiro honrado da sua amada, a transformação em monstros horrendos, autênticos demónios.

Sintra conta uma história de terror! E a componente exclamativa deriva da parte de contar. Sintra não se perde em deambulações filosóficas e apresenta um conto competente, com alguns clichés do género (o problema dos clichés é que funcionam) que consegue criar tensão e escalar o horror para além dos detalhes iniciais.

Sintra foi publicado pela Escorpião Azul.

Resumo de leituras – Dezembro de 2017 (2)

249 – Reborn – Book One – Mark Millar, Greg Capullo, Jonathan Glapion e Fco Plascencia – Depois da morte existe uma nova vida, mas nada que se equipare ao previsto por nenhuma religião, facto capaz de destruir psicologicamente algumas pessoas. Nesta outra vida quem foi bom prossegue em cenários idílicos em comunhão com a Natureza, numa civilização pouco desenvolvida tecnologicamente. Quem foi mau assume uma aparência mais maléfica e vive em zonas de aspecto infernoso;

250 – Sintra – Tiago Cruz e Inês Garcia – Uma banda desenhada que aproveita uma lenda local para tecer uma história de horror onde diferentes planos de existência se cruzam;

251 – Planetary – Book One – Warren Ellis e John Cassady – O primeiro volume começa com a nova contratação para o grupo, Elijah Snow, um homem com poderes relacionados com o frio. O grupo anda pelo mundo a coleccionar segredos sobre vários eventos, principalmente aqueles relacionados com poderes ou interligação de dimensões;

252 – Relatório Minoritário e outros contos – Philip K. Dick – Um estrondoso conjunto de contos onde se explora a fiabilidade da realidade que nos rodeia, e a inteligência artificial que, pela sua programação, está destinada a ciclos intermináveis que aumentam de consequências a cada iteração;

253 – Os Vingadores – Vol.7 e Vol.8 – Continua a batalha entre super-heróis que têm posições opostas quanto à capacidade de previsão de uma catástrofe. Um futuro criminoso que seja preso antes de concretizar um crime é inocente ou culpado? Engraçado que na leitura anterior encontrei premissa semelhante (Relatório Minoritário).