Locke & Key – Small World – Joe Hill e Gabriel Rodriguez

Small world e small book! Este pequeno volume encontra-se carregado de extras  mas a história em si ocupa apenas umas 30 páginas, sendo uma pequena aventura passada na casa das chaves. A família que ocupa a casa carrega consigo a responsabilidade de as guardar e garantir que não são usadas erradamente.

Para quem não conhece a série principal, Locke & Key é uma série de seis volumes que decorre na cidade de Lovecraft e que tem a casa das chaves como palco principal. Cada chave prende um poder sobrenatural específico e estes poderes são tão cobiçados que, em torno das crianças da casa (as únicas que podem visualizar e utilizar os poderes) começam a ocorrer acidentes e mortes.

Esta pequena história utiliza a mesma cidade e a mesma casa, mas num passado diferente, apresentando uma família responsável pelas chaves. O envolvimento não é exclusivo de crianças, mas são sobretudo elas que aqui se mostram interagindo. Mais juvenil que a série principal, parte de uma casa de bonecas que representa a casa real e que permite interacção directa com qualquer parte da casa ou pessoa. Depois do uso irresponsável da casa de bonecas, todos os elementos da família se encontram em perigo.

Este volume possui cerca de 30 páginas de história e muitas mais de extra, com entrevistas sobre a série principal, bem como esboços e estudos sobre a história que aqui se apresenta. Ainda que seja uma história engraçada possui um tom menos série, mais juvenil que a faz perder capacidade de envolver.

Volumes da série principal

A arte de caçar destinos – Alberto S. Santos

A arte de caçar reúne alguns contos sobrenaturais em cenário português da autoria de Alberto S. Santos. Com temática e exposição diferente, de tom díspar entre histórias, trata-se de um conjunto por vezes confuso e pouco coeso ainda que possua alguns bons contos, de estrutura mais clássica, aos quais não falta uma mensagem moral.

O livro começa com Correr o Fado, o pior conto do conjunto, para mim, tanto pela escrita demasiado floreada para o contexto rural que apresenta, como pela percepção que expõe sobre as mulheres. Talvez esta percepção seja justificada pela época em que se situa, sendo um dos poucos contos que se mostra, quase todo, em primeira pessoa, mas as pequenas notas que possui tornam a leitura incómoda.

Já aprendi que faz parte do espírito das mulheres esconderem as suas verdadeiras intenções atrás de atos, por vezes, violentos. Mas um homem não pode levar a peito tais reacções, antes encará-las como um dos passos para se alcançar o limbo das delícias que só elas nos sabem dar.(…)

Brígida interessava-me mesmo para fins mais sérios, aqueles que acontecem quando nos lembramos vezes de mais de uma mulher. E não apenas porque, como homens que somos, temos certas e determinadas necessidades que só os másculos varões sabem explicar e as mulheres nunca entendem.

O conto roda em torno de uma aldeia em que os habitantes estão assustados por acharem que há quem corra o fado todas as noites. Já O Génio do Candil é um conto sem estas observações, de estrutura mais clássica em que um jovem, órfão de pai e mãe, deixado à porta da igreja, vê os dias calmos terminarem quando o seu protector, o padre, falece e o sucessor, instigado por sentimentos pouco nobres, o expulsa. Albergado por um homem pobre, descobre um dia um candil com um papel em árabe, papel que o fará viajar e conhecer a mulher que ama. De propósito moral mas bem construído, gostei desta pequena história que cria empatia para com a personagem principal.

Em O Dono do Mastro um homem vê-se caído em desgraça por não respeitar as tradições, tentando, numa primeira volta, culpar outros pelo seu infortúnio. Por sua vez, Maria Carriça centra-se numa jovem, também órfã de pai e mãe que tenta a sorte com o dote dado por selecção e sorteio em honra do Santo local. Uma história corrente na época de quem, sem nada, se agarrava às poucas esperanças para construir uma vida mais decente.

Em A Sombra da Deusa uma caçada termina em desgraça, fruto de uma antiga maldição, gerada pelo conspurcar das deusas locais, cujo poder parecer permanecer após longos séculos. Já em A Filha da Viúva uma jovem cai em desgraça por se apaixonar por um jovem abastado. Filha de uma viúva que todos julgam bruxa, é tomada, também por bruxa perante a Inquisição.

Finalmente, Onde o rio acaba é uma história diferente destas, decorrendo num tempo mais actual e apresentando destinos adiados que finalmente se concretizando contra todas as probabilidades, com vidas passadas a influenciar a actual existência.

Com bases históricas que justificam grande parte dos contos, A arte de caçar destinos contém alguns contos engraçados que se focam na mitologia local, com um alto teor sobrenatural. Em vários se apresentam as raízes pagãs de muitas tradições cristãs, sejam cerimónias ou procissões, mostrando que os hábitos locais permanecem os mesmos durante séculos, transformados à luz de novas crenças.

Evento: Apresentação Os Monstros que nos Habitam

Os Monstros que nos Habitam é uma antologia de contos sobrenaturais lançada pela Editorial Divergência. O lançamento ocorreu há uns meses na fabulosa Biblioteca de São Lázaro em Lisboa, com presença de alguns dos autores que assinaram os exemplares.

A antologia será apresenta na Biblioteca de Arruda-dos-vinhos, no dia 23 de Setembro, enquadrando-se esta apresentação na comemoração do 28º aniversário da Biblioteca Municipal Irene Lisboa. Podem consultar mais detalhes sobre o evento na página oficial da editora.

Resumo de leituras – Setembro de 2017 (3)

137 – Iraq + 100 – Vários autores – Sem grande tradição no género, foram convidados vários autores para perspectivarem o futuro do país. O resultado é diverso, com altos e baixos. Ainda que a qualidade não seja grande ao longo de todos os contos, a verdade é que vamos descobrindo excelentes e inesquecíveis contribuições;

138 – Valerian Vol.4 – O Embaixador das Sombras / Em terras fictícias – O quarto volume apresenta duas histórias que me parecem de qualidade distinta. A primeira expressa toda a variedade e originalidade que já espero da série enquanto na segunda se simulam várias viagens no tempo numa sucessão de rápidas missões em que Valerian é clonado e enviado;

139 – One Punch Man. Vol. 1 – One e Yusuke Murata – Não estou habituada a ler este género, mas achei este volume fabuloso. O nosso herói é meio deprimido, principalmente pela facilidade com que acaba com os monstros, num só murro. Com uma excelente qualidade gráfica, por vezes em desenhos detalhados, por vezes em imagens mais estrondosas, apresenta um herói pouco típico em episódios ligeiramente cómicos pelo tom;

140 – Os Ignorantes – Étienne Davodeau – Dois homens trocam paixões. Um expressa a paixão pelas vinhas e pela produção de vinho ensinando ao autor da banda desenhada todos os detalhes que rodeiam o seu quotidiano. Por sua vez, o autor mostra obras de banda desenhada diversas, entre o francobelga e o comic americano, obtendo respostas pouco esperadas para algumas das obras.

Eventos: It’s Alive! Maratona de Escrita Fora de Horas – MOTELX 2017

Vai decorrer, durante o MotelX, no dia 09 de Setembro uma maratona de escrita, trazida pelo Motelx em cooperação com a Imaginauta, inspirados no chamado “Ano sem Verão”, a noite que terá originado Frankenstein de Mary Shelley ou Vampyre de Polidori. À semelhança desta noite o evento desafia os participantes a escrever um conto de terror em apenas uma noite.

Para além do desafio os participantes terão oportunidade de conhecer convidados especiais e estabelecer novos contactos como assistir a palestras de especialistas em terror onde se irá falar da relação entre a sociedade e os monstros criados pela ficção. O programa do evento encontra-se abaixo. Para mais detalhes podem consultar a página no facebook. 


20h00-21h00: Palestras sobre temas ligados ao terror pelo Prof. José Duarte e Diogo Almeida

21h00-22h00: Sessão de Speed Meeting com vários convidados, entre eles Kim Newman, Rui Cardoso Martins, Filipe Homem Fonseca, Jerónimo Rocha e Nuria Leon Bernardo

22h00-00h00: Maratona de escrita

00h00-00h15: Intervalo com Slam Poetry por Filipa Borges, Miguel Antunes e Ricardo Blayer

00h15-02h00: Maratona de escrita

 

Halt-5 – Vários autores

Este é o quinto volume de H-Alt, uma revista que cria parcerias entre narradores e desenhadores para, juntos conseguirem criar histórias de melhor qualidade, tanto a nível visual como narrativo.

Ainda que não seja dos meus volumes favoritos, H-Alt continua a mostrar-se como uma boa compilação de histórias, com algumas re-edições e traduções, numa combinação agradável e interessante, onde se exploram, sobretudo, premissas de ficção especulativa, seja ficção científica, fantasia ou terror.

 

Eventos: Ciclo Killer B’s – 5ª Sessão “Attack of the Giant Leeches”

No seguimento do ciclo de cinema Killer B’s, vai haver uma sessão de cinema do Attack of the Giant Leeches de Bernard L. Kowalski no Clara Clara. Este ciclo apresenta clássicos de terror e de ficção científica no universo da série B norte-americana.

Sobre o filme desta semana, eis mais algum detalhe:

Clássico exemplo da sci-fi série B “creature feature” que respondia aos medos da guerra-fria, produzido por Gene Corman e lançado pela American International Pictures numa double bill com “A Bucket of Blood” (de Roger Corman, irmão de Gene). Uma das vítimas das sanguessugas que dão título ao filme é Yvette Vickers, coelhinha da Playboy no ano de produção. “Híbrido ridículo de monstros e white trash”, disse o crítico Leonald Maltin num dia em que deixou o sentido de humor esquecido em casa.

Para os interessados na sessão podem consultar a página oficial do evento no facebook.

Evento: Lançamento Os Melhores Contos de Edgar Poe com apresentação de Filipe Melo

Existem inúmeras publicações portuguesas com contos de Edgar Allan Poe mas, que eu saiba, nenhuma que se aproxime à promessa desta edição, ilustrada por 28 artistas nacionais! Sim, estou curiosa para ver o interior do livro!

A cereja em cima do bolo é esta apresentação que irá decorrer durante o MotelX, no dia 07 de Setembro pelas 19h00 – e quem vai apresentar? Filipe Melo! O evento promete! Não só pela edição em si, mas também por quem vai apresentar! Infelizmente não vou poder ir, mas espero que haja vídeo do evento ou muitas fotos para apreciar mais tarde!

Fireside Magazine 44

Com o objectivo primordial de publicar boas histórias esta é uma revista que apoio através do programa Patreon, ainda que me pareça relativamente fraca em conteúdo. O primeiro conto é a típica história de alguém que se colocou numa situação impossível de sobreviver e apresenta os pensamentos durante estes últimos momentos. Um conto que explora sobretudo a apresentação de sentimentos e perspectivas, mas sem grande objectivo ou conclusão.

Segue-se aquele que é o melhor conto deste número, How to sync your spouse de Russell Nichols, uma história steampunk em que os dois elementos de um casal vivem sem sincronismo e equacionam sintonizar os seus corações de corda para poderem viver em conjunto em pleno.

Em Crow’s Eye de Sarah Hollowell uma jovem apresenta, desde cedo, uma aversão pelo lago. Neste mundo carregado de magia a jovem percebe que algo se esconde e espreita no lago, algo que tentará marcar o seu destino. Com elementos interessantes é, nalguns momentos, uma história confusa que tenta apelar aos sentimentos para se recompor.

A última história, mais curta, Independent superior de Chris Butera é um conto engraçado em que um componente que tem como principal função ser um assistente pessoal tem um relacionamento especial, de fascínio e adoração para com o seu host.

Sem atingirem um nível de profissionalismo de publicações mais conhecidas, estas revistas fornecem um meio para impulsionar o surgir de novos autores, pagando e publicando por histórias que poderão não estar tão maduras mas onde é possível expor e ter percepção da qualidade dos contos publicados.

Walking Monsters + Dawn of The Dead ao Ar Livre – Warm-Up 2017

Enquanto o MotelX propriamente dito não chega, continuam as sessões de aquecimento, desta vez como sessão gratuita de Dawn of the Dead de Romero no Largo de São Carlos. Para mais informações sobre o evento, podem consultar a página oficial.

Eventos: O Estranho Mundo do Terror Latino – Warm-Up MOTELX 2017

Decorre a partir de amanhã a Warm up para o MotelX de 2017. Tratam-se de sessões de cinema de terror latino na cinemateca entre o dia 01 e 04 de Setembro. As sessões têm o preço de 3,20 e incluem os filmes À meia noite levarei sua alma de M. Félix Ribeiro, El Vampiro de Fernando Méndez, Quien puede matar a un niño? de Narcico Ibañez Serrador. Para mais informações sobre as sessões podem consultar a página oficial do evento. Continuar a ler

Destaque: Bruxas – Scott Snyder e Jock

Li este livro em edição inglesa há ano e meio e continuo a dizer que é das melhores bandas desenhadas que li recentemente no género horror (só ultrapassada, talvez, pela Harrow County). Utilizando um cenário rural, o ambiente de floresta soturna, negra e pouco convidativa, apresenta bruxas ancestrais que se escondem, cegas, aguardando a sua vez para conceder desejos – mas com um elevado preço.

Interessante quer pela perspectiva visual quer pela perspectiva narrativa, Bruxas é uma história que se conta bem num único volume e que marca o leitor. Não é um género de terror extremamente violento, mas as poucas cenas de violência que possui são bastante fortes.

Esta edição portuguesa, lançada pela G Floy, apresenta-se em capa dura e formato maior do que é habitual (18×28,50, um formato deluxe. Deixo-vos a sinopse oficial bem como imagens do interior:

Quando a família Rooks se muda para a remota vila rural de Litchfield para escapar a um trauma que os assombra, esperam poder recomeçar uma vida nova. Mas algo maligno e antigo esconde-se na floresta para além da vila, algo que os espera… e que os observa. Algo faminto.

Scott Snyder é um dos grandes argumentistas de comics actuais, e atingiu um estatuto  importante na DC, já que se tornou no principal escritor do Batman. Mas muita da carreira inicial de Scott Snyder nasceu debaixo de um signo diferente: o terror. Como nos conta neste volume, a sua paixão pelo terror começou num campo de férias quando tinha 9 anos, durante uma leitura de um conto de Stephen King. Os seus primeiros trabalhos publicados foram numa antologia de contos seus, Voodoo Heart; pouco depois o próprio King seleccionaria duas dessas histórias para uma antologia que editou, e mais tarde Snyder começou a escrever comics. O primeiro título com o qual atingiu grande visibilidade foi American Vampire, que escreveu para a Vertigo (com a ajuda de Stephen King nos primeiros números). e que lhe valeu um Eisner e um Harvey. Embora muita da sua carreira tenha sido desenvolvida na DC, incluindo outra série de terror na Vertigo, The Wake, assinou entretanto algumas séries na Image, entre as quais este Wytches.

Jock é um artista britânico que se tem distinguido pelo seu estilo muito distintivo. Tal como muitos dos seus compatriotas, começou a sua carreira na revista 2000AD, mas passou depois para o mercado americano pela mão do argumentista Andy Diggle (com quem tinha trabalhado na 2000AD), com a série The Losers e Arqueiro Verde: Ano Um (estea último editado em Portugal pela Levoir). Trabalhou pela primeira vez com Scott Snyder numa história do Batman que este escreveu para a revista Detective Comics, o que levou depois Snyder a escolhê-lo para Bruxas/Wytches.

Embora Snyder e Jock tenham prometido mais histórias passadas neste universo aterrador de Wytches, este álbum é inteiramente auto-conclusivo e inclui os extras todos da edição americana: cartas e textos de apoio de Snyder, esboços e estudos de cores vários de Jock e do colorista Matt Hollingsworth.

Resumo de leituras – Agosto de 2017 (6)

 

125 – One week in the library – W. Maxwell Prince, John Amor, Kathryn Layno – Banda desenhada de carácter experimental, aproveita a premissa para explorar diferentes técnicas narrativas, cruzando histórias de várias formas. A história principal decorre numa biblioteca, onde um homem vai conhecendo os livros e as personagens que neles habitam;

126 – O Incrível Hulk – Gritos silenciosos – Peter David e Dale Keown – A personagem psicologicamente complexa que é Hulk (e atormentada) ganha aqui um novo vector com uma nova personalidade. O monstro verde e forte permanece fechado, enquanto Banner intercala a utilização física do corpo com um monstro verde, menos forte mas com alguma inteligência;

127 – Invisible Planets – Vários autores – Uma compilação de diferentes contos chineses que pretende apresentar o que de melhor se faz nos géneros da ficção especulativa na China. O conjunto é bastante acima da média, possuindo histórias excelentes;

128 – East of west – vol.3 – Hickman, Dragotta e Martin – O terceiro volume desenvolve as linhas narrativas já existentes nos volumes anteriores sem apresentar grandes novidades. Com excelentes momentos do ponto de vista gráfico, não é, do ponto de vista da  história, dos melhores volumes, sem grandes revelações, nem grandes momentos de tensão, apesar da violência justificada como continuação do que já conhecemos.

Drifter – Vol. 3 – Ivan Brandon e Nic Klein

Já o disse e continuo a dizer – esta série é graficamente esplendorosa. Apresentando diferentes planos, algumas paisagens estranhas mas espectaculares e alienígenas misteriosos que parecem partilhar uma consciência comum, Drifter é, cada vez mais uma incógnita. Os episódios não se apresentam por ordem cronológica e ficamos com a sensação de que poderá existir alguma sobreposição de realidades.

A acção decorre num planeta mineiro. Seres humanos e alienígenas humanóides trabalham nas minas numa pequena cidade que recorda o Faroeste. Num bar soturno afogam-se as mágoas e estoiram as tensões, algumas com graves consequências. Pelo meio sabemos que a nave de uma das personagens principais se despenhou neste planeta e, a partir daqui, tudo se confunde, havendo várias pistas que nos fazem perceber que a continuidade espaço-tempo não é totalmente linear.

Este volume centra-se no estoirar das tensões entre os humanos e os alinígenas, tensões que parecem dever-se à diferença de perspectiva e de mentalidade. Os alienígenas agem em comunidade, como que tendo uma consciência comum, o que os torna estranhos aos seres humanos com que contactam. A tensão finalmente estoira, resultando numa carnificina de parte a parte. Entre estes fortes episódios confirmamos que a descontinuidade dos episódios está relacionada com a nave que despenhou. De que forma? É algo que só vai ser descoberto nos próximos volumes.

Pouco centrado nas personagens, apresentando incógnita atrás de incógnita, Drifter promete uma grande revelação nos próximos episódios, revelação que já começa a tardar, mas que se começa a compor, apesar de adiada pelo confronto em que se centra este volume. Até agora a série destaca-se pela grande qualidade visual mas falta, ainda, perceber, se o puzzle narrativo está à altura de tornar o conjunto numa série excelente, ou se será uma grande desilusão.

One week in the library – W. Maxwell Prince, John Amor e Kathryn Layno

A premissa deste livro não poderia ser melhor – a história de um homem isolado numa biblioteca, sem saída, e que vai conversando com as várias personagens que lhe aparecem, vive algumas histórias ou lê outras, num entrelaçar onde reconhecemos títulos muito conhecidos.

Sem ser graficamente excepcional, mas ainda assim apresentável, One week in the Library cruza a banda desenhada com outros meios recorrendo a texto corrido, gráficos e poesia para intercalar as várias histórias, e alterna entre diferentes estilos narrativos ao longo das sete histórias (uma para cada dia da semana).

As histórias são quase todas negras, ou pelo menos perturbadoras. O livro abre com a história de um homem, avassalado pelas probabilidades da vida e da morte e prossegue com a presença de Pinóquio na biblioteca, onde se dá por outro nome. Traumatizado pelos eventos recentes, conta a história em que se revelou um cobarde. Entre dragões, fantasmas e ursos, o bibliotecário ultrapassa algumas dimensões até ao final, aberto, mas adequado para a eterna busca de mais histórias.

Designado como um trabalho experimental é uma leitura fascinante para quem gosta de livros sobre livros, ou de livros onde várias outras histórias ganham vida – as vias pelas quais isto acontece são múltiplas e o autor parece explorar todas as vias em que tal possa acontecer, com bastante sucesso.

Destaque: Os Melhores contos de Edgar Allan Poe

E dizem vocês, mais uma edição de Edgar Allan Poe? Mas é que esta é especial, com cada uma das 28 histórias ilustrada por um artista nacional diferente. Trata-se de uma edição de luxo em capa dura! Deixo-vos a sinopse:

As histórias que deixou para trás mostram como o seu génio literário não
se detinha perante nada. Abriu novos caminhos de ficção e tornou-se
assim pai de histórias de detetives, pioneiro na ficção científica, um
mestre do suspense e horror.

Reconhecido como uma das vozes mais influentes e inspiradoras do século XIX, a presente edição especial convida-o a apreciar 28 dos melhores contos do autor ilustrados por artistas nacionais, dando a conhecer o legado de Edgar Allan Poe a novas gerações.

Destaque: A arte de Caçar Destinos – Alberto S. Santos

Pela Porto Editora chegou-nos, este mês, A Arte de Caçar Destinos:

Reconhecido pelos seus romances históricos de grande sucesso – de que são exemplo A Escrava de Córdova ou O Segredo de Compostela – o autor trilha novos caminhos em A Arte De Caçar Destinos. Dos lugares longínquos e costumes exóticas retratados em obras anteriores, as tradições e práticas mágico-religiosas de Portugal (mais concretamente, do norte do país) são o foco das misteriosas histórias deste livro. Nestes sete contos, em que o sobrenatural se insinua, vive o património da memória das festas ligadas aos ciclos agrários, dos rituais profanos conquistados pelas religiões instituídas, da essência da alma portuguesa e do imaginário coletivo.

Assim foi: Sci-fi LX 2017

Este ano o Sci-fi LX iniciou-se com a sessão Enredos Inacreditáveis dada pelo João Barreiros e por mim onde apresentámos enredos de livros reais e ficcionais. Deixo-vos a apresentação para poderem ter a lista de livros referidos:

De seguida, claro que tive de assistir à apresentação do livro do Carlos Silva, Anjos, o vencedor do prémio Divergência. Para além do livro o autor tem já dois contos publicados na revista Bang! (um deles na que foi lançada há poucos dias para as fnac’s de todos os países) e em várias outras antologias de Ficção Especulativa. O autor espera dedicar-se um pouco mais ao género fantástico nas suas próprias obras e pretende continuar a escrever em português.

Infelizmente (por sobreposição com outros eventos) não pude assistir a tudo o que gostaria (a sessão Alimentopia de Luís Filipe Silva parecia interessante, bem como Ciência e Sci-fi de Rui Agostinho) mas deu para ter uma ideia dos vários espaços de jogos e actividades (para todas as idades). O meu dia fechou com um divertido torneio de Pandemic (no qual levámos uma memorável tareia).

O Sci-fi LX continua a proporcionar um fim de semana geek diverso em vertentes dentro do género (jogos de tabuleiro, jogos de computador, livros, banda desenhada) com muita diversão para diferentes públicos.

Outras opiniões

Lugar Maldito – André Oliveira e João Sequeira

Um livro de banda desenhada que tenha como narrador André Oliveira tem logo vantagem para ser um livro de sucesso. Não é excepção este Lugar Maldito, uma história de terror actual centrada numa casa amaldiçoada no meio do bosque, rodeada por sombras assustadores.

Local de refúgio de um jovem casal que fugiu para se unir, a pressão emocional da fuga exacerba-se com a existência num local pouco hospitaleiro. Perseguidos pelas autoridades e observados por sombras que se movem, não é de estranhar que o relacionamento entre os dois se contamine e se degrade progressivamente.

A juntar à pressão da fuga, a própria casa tem uma história negra que lentamente se faz sentir não só nos que rodeiam o casal, como em Samuel que sente ciúmes do irmão e incompreensão da namorada e que se deixa consumir pela raiva galopante.

Lugar Maldito foi publicado pela Polvo.

Fatale – Vol. 5 – Ed Brubaker e Sean Phillips

Negro e lovecraftiano, Fatale é uma daquelas séries extraordinárias em que só nos apercebemos da dimensão no segundo ou terceiro volume. O primeiro intrigou-me mas não o suficiente, no seu tom pausado que fazia antever a existência de alguns mistérios, sem me mostrar o quão profundo eram.

Os volumes seguintes mostraram a existência de eventos cíclicos, inevitáveis, que ocorriam em torno de uma mulher fatal, uma mulher de palavra inquestionável por todos os homens que permanece inalterável ao longo dos anos e é perseguida por uma poderosa seita.

O poder desta mulher corrompe o que a rodeia, e se no início apenas se denota o fascínio masculino, depressa se torna obsessão violenta para com a própria ou percepcionados rivais. De catástrofe em catástrofe vamos acompanhando os eventos, e percebendo que a quebra do ciclo se aproxima.

De uma dupla quase perfeita, Ed Brubaker e Sean Phillips, esta série fecha com um final simples mas movimentado, materializando a tensão violenta que se acumulava desde o início mostrando que a presa também pode ser a predadora. A série Fatale foi publicada em Portugal pela G Floy.

Restantes volumes