Novos projectos literários em curso

Amanhãs que cantam

Este é o novo projecto da Imaginauta, em parceria com a Épica, que já nos trouxe obras como Comandante Serralves, uma obra de ficção científica portuguesa que ultrapassou todas as expectativas e nos presenteou com um conjunto coeso de histórias que decorre numa realidade alternativa interessante – o que tem de peculiar este conjunto? Está carregado de referências bem portuguesas!

Amanhãs que cantam, o novo projecto pretende agregar histórias que decorram numa realidade alternativa em que Portugal ficou sob um regime comunista desde 1968, ano em que Salazar caiu da cadeira. Neste projecto os contos não têm de ser concordantes e podem expressar a sua própria versão deste regime, podendo constituir histórias utópicas ou distópicas.

Interessados? Podem consultar o regulamento na página oficial da Imaginauta.

Concurso nacional de contos de ficção especulativa

Este concurso resulta numa parceria entre o Sc-fi LX, a Imaginauta e a Editorial Divergência e pretende premiar contos de ficção especulativa, ou seja, fantasia, ficção científica ou terror. O concurso tem, associado, um prémio e um acordo de exploração comercial. Para mais detalhes podem consultar a página da Imaginauta sobre o prémio.

 

Antologia de Space Opera “Na imensidão do Universo”

Trata-se de um projecto da Editorial Divergência, uma das poucas editoras portuguesas que tem vindo a apostar na publicação de ficção especulativa de autores nacionais, com obras como Lovesenda de António de Macedo ou Anjos de Carlos Silva, para além das inúmeras antologias.

Para mais detalhes podem consultar a página oficial com o regulamento e informação sobre o que é pretendido.

Antologia de Fantasia Rural “O resto é paisagem!”

Esta antologia resulta de uma parceria com Luís Filipe Silva, conhecido autor de ficção científica português que já organizou outros projectos e que tem representado Portugal nalguns eventos internacionais de ficção especulativa, como a Eurocon.

Para mais detalhes podem consultar a página oficial com o regulamento e informação sobre o que é pretendido.

Base de dados de ficção especulativa Portuguesa

Este projecto distingue-se dos anteriores por não se referir à organização de uma antologia ou por envolver a escrita de contos. Ou melhor. Já envolveu a escrita. Pretende-se criar uma antologia que seja representativa da produção nacional dentro da Ficção Científica, do Fantástico e do Horror.

Para tal criou-se uma base de dados de acesso livre com os contos portugueses já publicados, e criou-se um fórum para facilitar o debate sobre que contos devem ser escolhidos para tal antologia.

Deixo-vos as ligações para cada uma das componentes

El Sueñero – Enrique Breccia

Eis um livro que difere bastante em tom entre os primeiros e os últimos episódios. Talvez porque, como explica o próprio autor, no início, o intuito e a publicação dos primeiros diferente bastante dos últimos. Enquanto o início se destinava a um editor catalão, com espaço e tempo imprecisos, e explorando várias figuras mitológicas, com o corte por parte deste, a obra passa a ser lançada na argentina, com possibilidade para explorar uma componente mais política.

A história começa num futuro em que a humanidade atinge, finalmente a paz. Mas com a paz vem a inércia e os humanos deixam de ter objectivos concretos. Contrata-se, então, um antigo guerreiro para procurar, no espaço e no tempo, outros guerreiros que possam construir uma espécie de circo, um espectáculo de gladiadores, que forneça novo propósito de vida aos cidadãos.

Num barco destinado a todos os portos existentes e por existir, o guerreiro começa com o Minotauro, besta conhecida pela sua ferocidade, que convence a acompanhá-lo. Entre lobisomens e outras figuras da mitologia catalã, assistimos a fantásticas deambulações pelos caminhos dos contos e crenças rurais.

O conjunto de personagens que se reúne no barco é caricato e logo há-de ir parar às guerras civis argentinas onde se exploram as motivações e as personagens históricas da Argentina. Não faltam, também, os toques das crenças populares, com personagens míticas e sonhadoras, monstros reais e surreais.

De aspecto caricato, por vezes sonhador, este El Sueñero é, apesar das oscilações de tom e conteúdo, um conjunto engraçado com bons momentos que entrelaçam o futurismo com o fantástico ou com a história da humanidade.

Novidade: Sintra – Tiago Cruz e Inês Garcia

Sintra é um dos mais recentes lançamentos da Escorpião Azul e terá sessão de apresentação durante o AmadoraBD, no dia 28 de Outubro (para os interessados em assistir, podem consultar a página oficial do evento). Trata-se de uma banda desenhada de terror baseada numa lenda das zonas de Sintra e das Azenhas do mar. Deixo-vos a sinopse, bem como algumas páginas do livro:

Em Sintra nem tudo é o que parece.

Quando um jovem casal de namorados decide acampar na serra de Sintra envolve-se num estranho acidente, acabando por descobrir que não estão sozinhos. Quem habita a misteriosa serra?

Num universo de lenda e criaturas fantásticas que vão colocar Alice e Daniel à no que parece ser a noite mais longa das suas vidas.

 

Rowans Run – Mike Carey, Mike Perkins e Andy Troy

Rowans Run foi encomendado no seguimento do convite feito ao Mike Carey pelo Fórum Fantástico para vir a Portugal. História de volume único, mostrava-se ser um bom candidato para ter alguma coisa do autor em formato de banda desenhada sem ficar presa a uma longa série. Sem ser excelente, apresenta uma história coesa e uma premissa não totalmente nova, sendo que o twist final se adivinha antes de ocorrer, ainda que seja bem explorado.

A história inicia-se com uma jovem americana, Katie, que procura ter umas férias diferentes. Para tal propõe-se a trocar de casa com outra jovem inglesa, numa típica zona rural. O acordo parece satisfazer a ambas as partes e Katie está ansiosa por partir para um país da Europa onde poderá explorar a história do velho continente.

Fascinada pela casa, o primeiro dia de Katie decorre com altos e baixos. A rápida saída que a leva a um bar atrai um pervertido mas, em compensação, é acompanhada por um jovem polícia com quem se envolve. Já a noite na casa, também parece afectá-la, com vislumbre de algumas sombras pouco prováveis.

Entre fantasmas e histórias conturbadas da casa, percebe que a família que habitava naquela casa era comummente atacada. A jovem inglesa, em criança, tinha sido alvo de um ataque violento que deixou a irmã em coma e o casal acabou por morrer num estranho acidente. Contra as indicações deixadas explora o quarto principal, achando que os ataques são direccionados e que não será o alvo principal.

A narrativa possui alguns elementos que pretendem fazer-nos distrair do enredo principal, talvez como forma de arranjar várias explicações para os acontecimentos. No entanto, as pistas que deixa fizeram-me perceber a razão cedo demais. Com alguns elementos sobrenaturais interessantes, é uma história que contrasta monstros reais com criaturas pouco palpáveis, mostrando que o horror nem sempre se encontra no desconhecido.

Resumo de leituras – Outubro de 2017 (3)

161 – A Dança das Andorinhas – Zeina Abirached – Numa cidade dividida por um muro e por uma guerra, sair à rua para visitar um vizinho é uma pequena aventura mortal. Os sobreviventes que resistem na cidade agrupam-se em pequenos serões quase familiares enquanto os bombardeamentos e as más notícias continuam a chegar;

162 – Lágrimas na chuva – Rosa Montero – Livro de ficção científica que me passou despercebido aquando do lançamento, revelou uma extraordinária história futurista com humanos replicados de curta duração, alienígenas (alguns refugiados, outros nem tanto) e colónias fora da terra com legislação própria. Um cenário excelente para explorar preconceitos, racismo e manobras de manipulação de opinião pública;

163 – Clockwerx – Vários Graficamente excelente, possui algumas lacunas narrativas. A história é algo linear, mas o volume compensa pelos magníficos robots de aspecto retro no ambiente soturno de uma Londres há muito extinta;

164 – Cage – Azzarello, Corben e Villarrubia – A dureza das ruas nada é para o nosso herói ainda mais duro. Resistente às balas é mais susceptível aos murros e mostra numa história curta como se podem fazer más escolhas nos bairros mais pobres.

Resumo de leituras – Outubro de 2017 (2)

157 – A Súbita Aparição de Hope Arden – Claire North – O livro centra-se numa jovem que é facilmente esquecida por todos os que interagem com ela. Sem possibilidade de reter um trabalho ou qualquer tipo de biscate, resta-lhe a carreira de ladra. Apesar desta componente interessante, é no aplicativo que investiga que está a chama da história – um aplicativo que responde à aspiração de ser perfeito com dicas de compras e corte de cabelo que evolui para tratamentos estéticos e não só!

158 – I Am Legion – Nury e Cassaday – Uma banda desenhada coesa e pausada em que não faltam os episódios de acção, passada na Roménia ocupada pelos nazis durante a Segunda Guerra Mundial. Mostrando ambos os lados do conflito, integra a figura tradicional do vampiro nas conspirações vigentes;

159 – O Rei Macaco – Manara e Pisu – Visualmente brutal conta a história de um macaco que não se sente concretizado com o paraíso em que reina. Procura a imortalidade e procura concretização em algo mais, mostrando-se irrequieto e indisciplinado. Nas suas ausências o reino vai sofrendo transformações, trazidas pela religião, pela tecnologia ou pela política;

160 – Locke & Key – Small World – Joe Hill e Gabriel Rodriguez – Uma muito pequena aventura passada na casa das chaves que parece destinar-se a um público mais juvenil. A família que guarda a casa carrega a grande responsabilidade de controlar as chaves, e no aniversário de uma das meninas é-lhe dada a possibilidade de brincar com a casa de bonecas, uma miniatura que reflecte fielmente o que se passa em toda a casa real e que permite interacção directa com os objectos ou com as pessoas.

Assim foi: Fórum Fantástico – as escolhas do ano

 

A minha selecção era um pouco mais alargada, abrangendo obras portuguesas como Lovesenda, Anjos e As nuvens de Hamburgo. Havendo sobreposição com escolhas de outras pessoas (e sabendo que iriam ser muito bem tratadas) retirei da minha secção.

Eis ligações para opiniões mais detalhadas dos livros escolhidos. Infelizmente o João Barreiros não tem blogue próprio (apesar de ter começado a transcrever algumas opiniões para um blogue próprio que deixei de ter tempo de manter).

 

Assim foi: Fórum Fantástico 2017

As diferenças

O Fórum Fantástico cresceu, este ano, de forma bastante positiva! Por um lado notou-se a forte aposta em workshops, o que possibilitou integrar camadas mais jovens e manter um programa mais dinâmico. A par com a usual (e fantástica) impressão a 3D organizada pelo Artur Coelho, houve espaço para desenvolver a imaginação dos mais pequenos, construir Zepellins e armaduras, ou para aprender um pouco mais de ilustração com Ricardo Venâncio.

Por outro, é de realçar a maior ocupação do espaço da Biblioteca Orlando Ribeiro que deu nova vida ao espaço – era impossível não reparar na tenda que ocupava parte do pátio com uma pequena feira do livro, onde se viam exemplares de livros de ficção científica e fantasia, sem faltarem os da autoria de Mike Carey, o escritor convidado deste ano. Nesta pequena feira do livro exterior encontravam-se a Leituria e a Dr. Kartoon.

Mas não foi só com a feira do livro que houve uma maior ocupação do espaço. O bom tempo permitiu a existência de bancas de produtos diversos, com especial destaque para o Steampunk (ou não estivesse a decorrer a EuroSteamCon integrada no Fórum Fantástico), bem como de mesas e cadeiras no exterior que permitiram usufruir do bom tempo. O terraço, bem como outras salas da biblioteca foram ocupadas, permitindo a apresentação de jogos de tabuleiro (com participação da Morapiaf) e a exibição de pranchas de Ricardo Venâncio.

E as diferenças não acabaram por aqui – a existência de um bar aberto durante todo o evento facilitou a permanência no Fórum Fantástico pois em anos anteriores era usual ter-se de deixar o recinto para comer alguma coisa. O menu, fantástico, possuía várias alusões ao evento e a comida fornecida era de boa qualidade (pela Cacaoati).

Mike e Linda Carey

Mike Carey produziu mais de 200 comics, vários livros e guiões para cinema. Com a adaptação para cinema de The Girl with all the gifts tem-se tornado cada vez mais requisitado. Por sua vez, Linda Carey escreveu também alguns livros (alguns sob pseudónimo). O destaque para a imensa obra, principalmente a de Mike Carey, serve para contrastar com o espírito que ambos demonstraram, sem prepotências ou projecções de importância, atenciosos e simpáticos durante todo o evento.

Na sexta-feira Mike Carey, conjuntamente com Filipe Melo e José Hartvig de Freitas, falou da larga experiência na produção de comics, da forma como trabalha com diversos desenhadores e da sua própria evolução e adaptação. Destacou-se a produção da série Unwritten, ideia que surgiu em cooperação com Peter Gross, com o qual já se habituou a desenhar. Foi uma palestra interessante e bem disposta.

No Sábado decorreu a conversa com ambos, Mike e Linda Carey, moderada por Rogério Ribeiro, mais voltada para os restantes livros (fora do formato da banda desenhada) onde se falou intensivamente do The Girl with all the gifts, que foi escrito em simultâneo com a adaptação, para cinema, da mesma história. Ambos os autores demonstraram uma queda para pequenos elementos subversivos nas suas histórias.

As restantes palestras de sexta

E com esta nomenclatura não pretendia referir menor prestígio das restantes palestras, mas sim destacar as que envolveram o autor convidado.

15:30 – Sessão Oficial de Abertura do Fórum Fantástico 2017

O Fórum iniciou-se na sexta (para mim, que não pude ir aos worksops) com uma sessão de apresentação de João Morales e Rogério Ribeiro onde expuseram algumas das diferenças deste ano e destacaram algumas sessões e workshops.

16:00 – Sessão “A Ficção Científica: Espelho de ansiedades políticas e pessoais”, com Jorge Martins Rosa, Maria do Rosário Monteiro, Daniel Cardoso e Aline Ferreira

Nesta sessão referiram-se várias obras e respectivas projecções das ansiedades sociais, não só em relação à evolução tecnológica e respectiva perda dos papéis tradicionais (com especial referência à mulher grávida e aos úteros artificiais), como a novos modelos sociais.

16:45 – Sessão “O lugar do Fantástico na Arte Contemporânea”, com Carlos Vidal, Henrique Costa e Opiarte – Núcleo de Ilustração e BD da FBAUL

A sessão apresentou a Opiarte enquanto espaço que permite, a alguns artistas, explorarem a vertente fantástica e de ficção científica nos seus trabalhos, espaço que visou responder a uma necessidade sentida pelos alunos da faculdade. Durante a sessão mostraram-se trabalhos produzidos neste núcleo, alguns dos quais se destacam pela qualidade.

17:45 – Sessão “Narrativa em Videojogos”, com Nelson Zagalo, Ricardo Correia e João Campos

(Cheguei no final)

As restantes palestras de sábado

14:30 – Sessão “Identidades autorais”, com Ana Luz, Joel Gomes e Pedro Cipriano

Os autores aproveitaram o espaço para falar sobre o seu percurso enquanto escritores, desde influências a desenvolvimento de método (destacando-se a referência de Ana Luz ao conto O Teste de João Barreiros), mostrando os livros em que já participaram, bem como os projectos futuros em que se encontram envolvidos.

16:00 – Lançamento “Almanaque Steampunk” (Editorial Divergência)

Cada EuroSteamCon costuma ser acompanhada pela publicação de um Almanaque Steampunk. O deste ano foi produzido em tempo recordo com a colaboração da Editorial Divergência. Ainda não tive oportunidade de ler, mas a publicação é curiosa, bastante atractiva visualmente, com conteúdos diversos e que promete bastante diversão para o leitor.

17:45 – Sessão “Prémio Adamastor”, com João Barreiros e Luís Filipe Silva

O prémio Adamastor este ano foi atribuído a João Barreiros e Luís Filipe Silva, dois dos poucos autores de ficção científica portuguesa que se têm destacado na divulgação do género dentro e fora do país. De realçar as várias antologias que João Barreiros organizou recentemente, bem como as colecções que organizou enquanto editor. Por seu lado, Luís Filipe Silva tem participado em diversas Con’s onde fala da ficção especulativa portuguesa, divulgando o que se fez em Portugal há várias décadas e o que se continua fazendo.

18:00 – Sessão “Dormir com Lisboa”, com Fausta Cardoso Pereira

Premiado e publicado na Galiza pela Urco Editora, Dormir com Lisboa é um romance de ficção especulativa que decorre na capital portuguesa, partindo da premissa de desaparecimento injustificável de várias pessoas. A passagem lida por João Morales denota um humor peculiar, com caricaturas de personagens e situações insólitas.

18:30 – Lançamento “Apocryphus #2”, com Miguel Jorge

Este projecto de banda desenhada português apresentou, no primeiro volume, uma qualidade gráfica excepcional, com elevado cuidado no tipo de papel utilizado e uma selecção cuidada de autores. À semelhança do primeiro volume, também o segundo foi publicado no Fórum, com a presença de tantos autores que por pouco transbordavam do palco.

Restantes palestras de Domingo

Infelizmente, Domingo apenas pude assistir à palestra do João Morales, Novas Metamorfoses Musicais, para além de participar em As Escolhas do ano com João Barreiros e Artur Coelho (sobre a qual dedicarei uma entrada específica para publicar as escolhas de cada um, como é usual).

A sessão de João Morales demonstrou o usual bom humor, com óptimas escolhas musicais onde se cruzam estilos e épocas, novas conjugações de musicas conhecidas em que destaco as seguintes:

(Venus in Furs: Versão portuguesa em Uma Outra História)

No final, há a destacar que o Fórum Fantástico é um evento TOTALMENTE gratuito, onde, todos os anos, várias pessoas se organizam para proporcionar, ao público, três dias de extrema diversão geek!

Eventos: Fórum Fantástico – segundo dia

O programa de Sábado é bastante marcado pela vertente Steampunk (não estivesse a decorrer o EuroSteamCon no mesmo espaço) destacando-se os workshops de criação de Zeppelins ou de criação de armaduras e props, bem como duelos de chá e o lançamento do Almanaque Steampunk deste ano.

A parte da tarde é, ainda, marcada pela conversa I See Dead People entre Mike Carey e Linda Carey, bem como pelo lançamento do segundo volume de Apocryphus, dedicado ao crime – um livro com excelente aspecto visual que ainda não tive oportunidade de ler, mas que espero poder detalhar nos próximos dias. Estou, também, curiosa, quanto à apresentação de Dormir com Lisboa de Fausta Cardoso Pereira. Aproveito, para vos deixar algumas páginas de Apocryphus:

 

 

Eventos: Mike Carey no Fórum Fantástico

Autor de ficção científica e banda desenhada, Mike Carey escreve, também, guiões para filmes. No formato da banda desenhada a sua obra é imensa, destacando-se a participação na Marvel (com X: Men Legacy ou Ultimate Fantastic Four) ou na Vertigo (Lucifer, Hellblazer ou The Unwritten). No formato de romance de ficção científica destaca-se The Girl with all the gifts, publicado em português como A Rapariga que sabia demais pela Nuvem de tinta).

Mike Carey vai estar presente no Fórum Fantástico, estando previstas duas sessões com o autor, uma sobre comics no dia 29 de Setembro:

18:30 – Sessão “Talking about comics…”, com Mike Carey, José Hartvig de Freitas e Filipe Melo

e outra no dia 30 de Setembro:

16:30 – Sessão “I See Dead People!”, com Mike Carey e Linda Carey

A sessão de autógrafos decorre às 17h15 no Sábado (30 de Setembro).

I am Legion – Fabien Nury e John Cassaday

I am Legion é uma banda desenhada francesa (Je suis Légion) que decorre durante a Segunda Guerra Mundial na Roménia, e nos remete para o monstro nacional, o vampiro. Neste caso o vampiro é uma jovem rapariga em estudo pelos nazis que pensam utilizá-la como arma de guerra.

Encarcerada, fazem-na comandar vários soldados em simultâneo para provar a perfeita coordenação que é atingida quando uma só mente desenha uma estratégia e não existem hesitações. Será esta a arma perfeita de que Hitler necessita?

Enquanto assistimos às experiências desenvolvem-se algumas conspirações, algumas do lado dos nazis, outras do lado da resistência romena em que se envolvem, até, alguns transformados, alguns vampiros com interesses próprios.

De desenhos que oscilam entre grande detalhe (como acima) e pouco detalhe (para cenas focadas na acção), I Am Legion constrói-se lentamente em várias frentes que se vão cruzar nos momentos de maior tensão. Acima da dualidade nazi / aliado encontram-se os interesses próprios e serão estes que, por diversas vezes, fazem com que as estratégias não sigam claros caminhos para o sucesso.

Negro e pausado, I Am Legion transparece um ambiente de hostilidade, entre o soturno e o secreto que aproveita as lendas locais romenas para as cruzar com as experiências nazis, recordando um pouco os filmes de horror que cruzam nazis com zombies. Neste caso os sem alma não são visíveis a olho nu, são fantoches controlados de longe que agem quase normalmente.

 

Locke & Key – Small World – Joe Hill e Gabriel Rodriguez

Small world e small book! Este pequeno volume encontra-se carregado de extras  mas a história em si ocupa apenas umas 30 páginas, sendo uma pequena aventura passada na casa das chaves. A família que ocupa a casa carrega consigo a responsabilidade de as guardar e garantir que não são usadas erradamente.

Para quem não conhece a série principal, Locke & Key é uma série de seis volumes que decorre na cidade de Lovecraft e que tem a casa das chaves como palco principal. Cada chave prende um poder sobrenatural específico e estes poderes são tão cobiçados que, em torno das crianças da casa (as únicas que podem visualizar e utilizar os poderes) começam a ocorrer acidentes e mortes.

Esta pequena história utiliza a mesma cidade e a mesma casa, mas num passado diferente, apresentando uma família responsável pelas chaves. O envolvimento não é exclusivo de crianças, mas são sobretudo elas que aqui se mostram interagindo. Mais juvenil que a série principal, parte de uma casa de bonecas que representa a casa real e que permite interacção directa com qualquer parte da casa ou pessoa. Depois do uso irresponsável da casa de bonecas, todos os elementos da família se encontram em perigo.

Este volume possui cerca de 30 páginas de história e muitas mais de extra, com entrevistas sobre a série principal, bem como esboços e estudos sobre a história que aqui se apresenta. Ainda que seja uma história engraçada possui um tom menos série, mais juvenil que a faz perder capacidade de envolver.

Volumes da série principal

A arte de caçar destinos – Alberto S. Santos

A arte de caçar reúne alguns contos sobrenaturais em cenário português da autoria de Alberto S. Santos. Com temática e exposição diferente, de tom díspar entre histórias, trata-se de um conjunto por vezes confuso e pouco coeso ainda que possua alguns bons contos, de estrutura mais clássica, aos quais não falta uma mensagem moral.

O livro começa com Correr o Fado, o pior conto do conjunto, para mim, tanto pela escrita demasiado floreada para o contexto rural que apresenta, como pela percepção que expõe sobre as mulheres. Talvez esta percepção seja justificada pela época em que se situa, sendo um dos poucos contos que se mostra, quase todo, em primeira pessoa, mas as pequenas notas que possui tornam a leitura incómoda.

Já aprendi que faz parte do espírito das mulheres esconderem as suas verdadeiras intenções atrás de atos, por vezes, violentos. Mas um homem não pode levar a peito tais reacções, antes encará-las como um dos passos para se alcançar o limbo das delícias que só elas nos sabem dar.(…)

Brígida interessava-me mesmo para fins mais sérios, aqueles que acontecem quando nos lembramos vezes de mais de uma mulher. E não apenas porque, como homens que somos, temos certas e determinadas necessidades que só os másculos varões sabem explicar e as mulheres nunca entendem.

O conto roda em torno de uma aldeia em que os habitantes estão assustados por acharem que há quem corra o fado todas as noites. Já O Génio do Candil é um conto sem estas observações, de estrutura mais clássica em que um jovem, órfão de pai e mãe, deixado à porta da igreja, vê os dias calmos terminarem quando o seu protector, o padre, falece e o sucessor, instigado por sentimentos pouco nobres, o expulsa. Albergado por um homem pobre, descobre um dia um candil com um papel em árabe, papel que o fará viajar e conhecer a mulher que ama. De propósito moral mas bem construído, gostei desta pequena história que cria empatia para com a personagem principal.

Em O Dono do Mastro um homem vê-se caído em desgraça por não respeitar as tradições, tentando, numa primeira volta, culpar outros pelo seu infortúnio. Por sua vez, Maria Carriça centra-se numa jovem, também órfã de pai e mãe que tenta a sorte com o dote dado por selecção e sorteio em honra do Santo local. Uma história corrente na época de quem, sem nada, se agarrava às poucas esperanças para construir uma vida mais decente.

Em A Sombra da Deusa uma caçada termina em desgraça, fruto de uma antiga maldição, gerada pelo conspurcar das deusas locais, cujo poder parecer permanecer após longos séculos. Já em A Filha da Viúva uma jovem cai em desgraça por se apaixonar por um jovem abastado. Filha de uma viúva que todos julgam bruxa, é tomada, também por bruxa perante a Inquisição.

Finalmente, Onde o rio acaba é uma história diferente destas, decorrendo num tempo mais actual e apresentando destinos adiados que finalmente se concretizando contra todas as probabilidades, com vidas passadas a influenciar a actual existência.

Com bases históricas que justificam grande parte dos contos, A arte de caçar destinos contém alguns contos engraçados que se focam na mitologia local, com um alto teor sobrenatural. Em vários se apresentam as raízes pagãs de muitas tradições cristãs, sejam cerimónias ou procissões, mostrando que os hábitos locais permanecem os mesmos durante séculos, transformados à luz de novas crenças.

Evento: Apresentação Os Monstros que nos Habitam

Os Monstros que nos Habitam é uma antologia de contos sobrenaturais lançada pela Editorial Divergência. O lançamento ocorreu há uns meses na fabulosa Biblioteca de São Lázaro em Lisboa, com presença de alguns dos autores que assinaram os exemplares.

A antologia será apresenta na Biblioteca de Arruda-dos-vinhos, no dia 23 de Setembro, enquadrando-se esta apresentação na comemoração do 28º aniversário da Biblioteca Municipal Irene Lisboa. Podem consultar mais detalhes sobre o evento na página oficial da editora.

Resumo de leituras – Setembro de 2017 (3)

137 – Iraq + 100 – Vários autores – Sem grande tradição no género, foram convidados vários autores para perspectivarem o futuro do país. O resultado é diverso, com altos e baixos. Ainda que a qualidade não seja grande ao longo de todos os contos, a verdade é que vamos descobrindo excelentes e inesquecíveis contribuições;

138 – Valerian Vol.4 – O Embaixador das Sombras / Em terras fictícias – O quarto volume apresenta duas histórias que me parecem de qualidade distinta. A primeira expressa toda a variedade e originalidade que já espero da série enquanto na segunda se simulam várias viagens no tempo numa sucessão de rápidas missões em que Valerian é clonado e enviado;

139 – One Punch Man. Vol. 1 – One e Yusuke Murata – Não estou habituada a ler este género, mas achei este volume fabuloso. O nosso herói é meio deprimido, principalmente pela facilidade com que acaba com os monstros, num só murro. Com uma excelente qualidade gráfica, por vezes em desenhos detalhados, por vezes em imagens mais estrondosas, apresenta um herói pouco típico em episódios ligeiramente cómicos pelo tom;

140 – Os Ignorantes – Étienne Davodeau – Dois homens trocam paixões. Um expressa a paixão pelas vinhas e pela produção de vinho ensinando ao autor da banda desenhada todos os detalhes que rodeiam o seu quotidiano. Por sua vez, o autor mostra obras de banda desenhada diversas, entre o francobelga e o comic americano, obtendo respostas pouco esperadas para algumas das obras.

Eventos: It’s Alive! Maratona de Escrita Fora de Horas – MOTELX 2017

Vai decorrer, durante o MotelX, no dia 09 de Setembro uma maratona de escrita, trazida pelo Motelx em cooperação com a Imaginauta, inspirados no chamado “Ano sem Verão”, a noite que terá originado Frankenstein de Mary Shelley ou Vampyre de Polidori. À semelhança desta noite o evento desafia os participantes a escrever um conto de terror em apenas uma noite.

Para além do desafio os participantes terão oportunidade de conhecer convidados especiais e estabelecer novos contactos como assistir a palestras de especialistas em terror onde se irá falar da relação entre a sociedade e os monstros criados pela ficção. O programa do evento encontra-se abaixo. Para mais detalhes podem consultar a página no facebook. 


20h00-21h00: Palestras sobre temas ligados ao terror pelo Prof. José Duarte e Diogo Almeida

21h00-22h00: Sessão de Speed Meeting com vários convidados, entre eles Kim Newman, Rui Cardoso Martins, Filipe Homem Fonseca, Jerónimo Rocha e Nuria Leon Bernardo

22h00-00h00: Maratona de escrita

00h00-00h15: Intervalo com Slam Poetry por Filipa Borges, Miguel Antunes e Ricardo Blayer

00h15-02h00: Maratona de escrita

 

Halt-5 – Vários autores

Este é o quinto volume de H-Alt, uma revista que cria parcerias entre narradores e desenhadores para, juntos conseguirem criar histórias de melhor qualidade, tanto a nível visual como narrativo.

Ainda que não seja dos meus volumes favoritos, H-Alt continua a mostrar-se como uma boa compilação de histórias, com algumas re-edições e traduções, numa combinação agradável e interessante, onde se exploram, sobretudo, premissas de ficção especulativa, seja ficção científica, fantasia ou terror.

 

Eventos: Ciclo Killer B’s – 5ª Sessão “Attack of the Giant Leeches”

No seguimento do ciclo de cinema Killer B’s, vai haver uma sessão de cinema do Attack of the Giant Leeches de Bernard L. Kowalski no Clara Clara. Este ciclo apresenta clássicos de terror e de ficção científica no universo da série B norte-americana.

Sobre o filme desta semana, eis mais algum detalhe:

Clássico exemplo da sci-fi série B “creature feature” que respondia aos medos da guerra-fria, produzido por Gene Corman e lançado pela American International Pictures numa double bill com “A Bucket of Blood” (de Roger Corman, irmão de Gene). Uma das vítimas das sanguessugas que dão título ao filme é Yvette Vickers, coelhinha da Playboy no ano de produção. “Híbrido ridículo de monstros e white trash”, disse o crítico Leonald Maltin num dia em que deixou o sentido de humor esquecido em casa.

Para os interessados na sessão podem consultar a página oficial do evento no facebook.

Evento: Lançamento Os Melhores Contos de Edgar Poe com apresentação de Filipe Melo

Existem inúmeras publicações portuguesas com contos de Edgar Allan Poe mas, que eu saiba, nenhuma que se aproxime à promessa desta edição, ilustrada por 28 artistas nacionais! Sim, estou curiosa para ver o interior do livro!

A cereja em cima do bolo é esta apresentação que irá decorrer durante o MotelX, no dia 07 de Setembro pelas 19h00 – e quem vai apresentar? Filipe Melo! O evento promete! Não só pela edição em si, mas também por quem vai apresentar! Infelizmente não vou poder ir, mas espero que haja vídeo do evento ou muitas fotos para apreciar mais tarde!

Fireside Magazine 44

Com o objectivo primordial de publicar boas histórias esta é uma revista que apoio através do programa Patreon, ainda que me pareça relativamente fraca em conteúdo. O primeiro conto é a típica história de alguém que se colocou numa situação impossível de sobreviver e apresenta os pensamentos durante estes últimos momentos. Um conto que explora sobretudo a apresentação de sentimentos e perspectivas, mas sem grande objectivo ou conclusão.

Segue-se aquele que é o melhor conto deste número, How to sync your spouse de Russell Nichols, uma história steampunk em que os dois elementos de um casal vivem sem sincronismo e equacionam sintonizar os seus corações de corda para poderem viver em conjunto em pleno.

Em Crow’s Eye de Sarah Hollowell uma jovem apresenta, desde cedo, uma aversão pelo lago. Neste mundo carregado de magia a jovem percebe que algo se esconde e espreita no lago, algo que tentará marcar o seu destino. Com elementos interessantes é, nalguns momentos, uma história confusa que tenta apelar aos sentimentos para se recompor.

A última história, mais curta, Independent superior de Chris Butera é um conto engraçado em que um componente que tem como principal função ser um assistente pessoal tem um relacionamento especial, de fascínio e adoração para com o seu host.

Sem atingirem um nível de profissionalismo de publicações mais conhecidas, estas revistas fornecem um meio para impulsionar o surgir de novos autores, pagando e publicando por histórias que poderão não estar tão maduras mas onde é possível expor e ter percepção da qualidade dos contos publicados.