Eventos: Sessões de Culto – As Escolhas de Filipe Melo – The Fearless Vampire Killers

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A quarta sessão de culto com as escolhas de Filipe Melo já tem data marcada para dia 18 de Janeiro, pelas 21h30, no Nimas. Deixo-vos a informação disponibilizada sobre o evento, bem como a ligação para a página oficial:

Um sábio professor e o seu limitado aprendiz são aprisionados por vampiros num castelo misterioso da Transilvânia quando tentam salvar uma dama em apuros.

Realizado por Roman Polanski em 1967, este clássico das comédias de terror é uma paródia vampiresca, e apesar de não ter sido um grande sucesso de bilheteira quando estreou, “The Fearless Vampire Killers” tornou-se ao longo dos anos um objecto de culto, além de transformar a actriz Sharon Tate numa estrela.

 

Eventos: Sustos às sextas 2017

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Finalmente está divulgado o programa da terceira temporada de Sustos às sextas que começa num dia muito propício, a próxima sexta feira 13 em Janeiro. Entre música, cinema, entrevista, espectáculos este ano cada sessão é marcada por um espaço de sugestões literárias que começa com João Barreiros. De destacar, também, o painel de Ficção científica e horror para dia 19 de Maio. Marquem na agenda!

 

 

Eventos: Comunidade de Leitores Culturgest – Entre dois Mundos

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A comunidade de leitores da Culturgest inclui, na sua programação, a literatura de horror, incidindo, durante o mês de Janeiro, no excelente Santuário de Andrew Michael Hurley, publicado recentemente em Portugal pela Bertrand. O evento carece de pré-inscrição que podem fazer conforme indicado na página oficial. Abaixo o texto que acompanha o anúncio bem como a programação para os próximos meses:

O estranho, o fantástico, o bizarro poderão estar afastados do nosso quotidiano, neste mundo pragmático e realista em que (quase) todos vivemos. Considerado como uma categoria bem definida, principalmente no Cinema, o Terror, embora muito popular, está normalmente contido dentro das fronteiras de um género específico que, em Literatura, remete para o que foi cunhado de “gótico”. Mas os nossos sentidos não desdenham de um bom calafrio, de um susto inesperado que façam emergir a nossa atávica ligação ao “folclore” (folk-lore). Embora os fantasmas e outras aparições funestas tenham sido maioritariamente relegadas para os jogos de computador e para as séries televisivas, a história da Literatura, principalmente a partir do Romantismo, continua a explorar um certo tipo de imaginário, aquilo a que Sigmund Freud chamou de “unheimlich“, ou seja, o que não é familiar, o que se encontra “entre dois mundos”, entre a luz e a sombra, entre o racional e o irracional, entre o que é explicável e o que é inexplicável. Neste ciclo de leituras, tentaremos perceber em que espaço nos movimentamos quando deparamos com situações tão estranhas como o fanatismo religioso no recente romance de Hurley, as perturbações da infância e adolescência em James, a estranheza de “ser diferente” na sulista O’Connor, os truques mágicos e satíricos de Sena, a hilariante e elegante paródia fantasmagórica de Wilde ou o exemplo do “gótico” sofisticado de Brontë. Um ciclo que não é uma viagem no comboio fantasma mas que promete brumas, catacumbas, ranger de portas, correntes de ar maléficas, aparições, donzelas em perigo e um ou outro arrepio de desconforto.

Helena Vasconcelos

Programação

12 de janeiro – Santuário, Andrew Michael Hurley, ed. Bertrand

26 de janeiro – O Aperto do Parafuso (ou O Calafrio, ed. Europa-América),
Henry James, ed. Sistema Solar

9 de fevereiro – O Físico Prodigioso, Jorge de Sena, Guimarães editora

23 de fevereiro – O Céu é dos Violentos, Flannery O’Connor, ed. Relógio D’Água

9 de março – O Fantasma de Canterville, Oscar Wilde, Porto Editora

23 de março – Jane Eyre, Charlotte Brontë, ed. Relógio D’Água

Literatura aqui – O Medo

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O último episódio do Literatura Aqui centrou-se no Medo com a literatura de horror. Safaa Dib, editora da Saída de Emergência, foi a convidada principal, dando um enquadramento do género e apresentando as obras mais notórias do género que têm sido lançadas em Portugal. Para além dos vários poemas sobre o medo que vão apresentando ao longo do programa é de destacar o excelente excerto de Murar o Medo de Mia Couto «Há quem tenha medo que o medo acabe».

Foi assim a guerra das trincheiras – Tardi

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Na guerra não existem heróis. Mas existem homens. A maioria demasiado jovens para conhecer o mundo, homens impossibilitados de pensar por si mesmos, peões descartáveis levados a uma luta sem sentido contra outros homens que, tal como eles, o que querem é voltar às famílias e ao aconchego do lar.

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Nas trincheiras, o cenário parece saído de um filme de terror. Não existem as mínimas condições de higiene e não bastava a proliferação de piolhos, ratazanas e doenças várias, como os cadáveres em putrefação se misturam com a lama criando um cheiro característico nauseabundo.

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Sair da trincheira é meio caminho andado para se tropeçar num cadáver e enterrar, sem querer, as mãos em entranhas em decomposição, na melhor das hipóteses. A pior é levar um tiro e agonizar durante horas até à morte, sem que ninguém se atreva a sair do esconderijo para lhe poupar o sofrimento ou o trazer para uma enfermaria.

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Para além das doenças, dos parasitas e do inimigo, os soldados têm ainda de contar com os seus. É que tão depressa morrem sob um tiro ou de uma infecção, como dos canhões mal calibrados do seu lado da barricada, dos tiros dos polícias que deveriam ajudar na retirada ou dos próprios colegas sob ordens de comandantes que visam assim ditar o exemplo para quem não aguenta a posição pretendida.

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Entre estes horrores há, ainda, quem consiga sonhar com uma vida após a guerra, com um retornar à noiva para constituírem família, ou um simples retomar da vida quotidiana, banal e sem grandes perigos.

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De relato em relato, Tardi vai mostrando a dura realidade da guerra, uma realidade que ninguém quer recordar e que apenas aqueles que não a viveram directamente nas trincheiras podem romantizar e transformar em missão consciente, sã e heroica.

Senegalês, os teus antepassados gauleses estão orgulhosos de ti. Passas frio e morres, pela França. Abundam os rumores absurdos sobre ti, por isso mantém-te longe da mulher do homem branco. O homenzinho branco que explora as vossas terras e vos espanca. Dirão que vieste entusiasta e feliz para que te estoirassem as tripas, uma “criança grande” grata por poder ajudar aquele que, para teu próprio bem te impôs a sua religião, a sua bebida e a sua tuberculose.

Mas Foi Assim a Guerra das Trincheiras não é só o apresentar de sucessivos relatos de guerra. Entre os episódios em que se apresentam os soldados apenas como homens assustados, destaca-se a perspectiva de uma situação ridícula, que nos parece, a nós leitores no conforto das nossas casas, demasiado estranha, afastada,  quase impossível pela combinação dos detalhes fortes que são encarados com a aparente normalidade por quem teve de se adaptar para sobreviver.

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A par com os relatos encontramos algumas considerações críticas, verdadeiras e doridas que destacam o ridículo da situação que envolveu uma série de países e nacionalidades que pouco tinham a ver com o conflito. No seguimento da guerra massacraram-se pelotões inteiros, populações apanhadas no meio dos dois exércitos, sem dó para mulheres ou crianças, mortes que marcaram de forma mais pesada os soldados em comparação com o inimigo, demonizado e alienado da sua existência humana.

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Este volume que nos apresenta um retrato demasiado pungente da guerra foi publicado na colecção da Levoir, em parceria com o jornal Público, na colecção de Novelas Gráficas.

Retrospectiva 2016 – Banda Desenhada

Este foi o ano em que li mais banda desenhada, com 146 volumes lidos, aproveitando para ler em francês, para além do usual inglês e português. Este maior foco deve-se sobretudo à expansão das publicações no mercado nacional, em que destaco os lançamentos da G Floy e da Levoir, bem como à disponibilização, através do NetGalley, de vários volumes da Image que me despertaram para algumas novas séries.

Banda desenhada Portuguesa

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A melhor leitura – Vampiros – Filipe Melo e Juan Cavia – Depois de Dog Mendonça e Pizzaboy, Filipe Melo e Juan Cavia abraçaram um desafio de temática mais séria, retratando uma das mais duras realidades portuguesas, a Guerra Colonial, principalmente na Guiné. Em terreno de difícil controlo como são as florestas, a guerra é, sobretudo, psicológica, por conta das emboscadas permanentes que incutem o terror pela expectativa sempre presente de algo repentino e definitivo. Captando o ambiente incerto, o nervosismo que se transformar em paranoia, o desenvolvimento de uma aparente insensibilidade às desgraçadas, Vampiros não apresenta heróis, mas homens que ficarão para sempre marcados pela Guerra.

Menções honrosas – Para quem não conheceu o conteúdo da revista, como eu, Revisão revelou-se uma boa surpresa, diversa em conteúdos e estilos, mas com muitas histórias inteligentes de excelente visual. Contendo, também, algum conteúdo com carácter experimental, é uma leitura aconselhável a quem gosta de banda desenhada e desconhece o que foi produzido neste período. A Demanda do G (Geral & Derradé) foi uma revelação bem humorada, carregada de espírito cómico onde se destaca a estrutura peculiar, uma demanda mirabolante e divertida, acompanhada por tiras em voz-off que tecem comentários a propósito da acção principal. Por sua vez, Milagreiro com narrativa de André Oliveira centra-se numa entidade secreta composta por agentes sem vida própria que têm por missão criar pequenos milagres para perpetuar a fé. Ao longo da história o desenho de vários artistas vai sendo intercalado, dando um carácter muito próprio ao conjunto. Ainda, Apocryphus revela uma excelente qualidade gráfica cruzando o trabalho de vários autores sob o tema fantástico numa edição de aspecto cuidado;

Banda desenhada de horror

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A melhor leitura Harrow county de Cullen Bunn e Tyler Crook (volum 1)- Desde que comecei a ver esta série em todos os topos de ficção de horror que senti curiosidade para lhe pegar. O primeiro volume foi publicado recentemente por cá e esteve à altura das expectativas. Utilizando o poder da magia antiga, das bruxas rurais que se envolvem com criaturas sobrenaturais, Harrow county mostra como nem sempre os monstros são os que aparentam;

Menções honrosas – Começando pelo fantástico Wytches (de  Snyder, Jock, Hollingsworth e Robins) com criaturas sobrenaturais e milenares como bruxas, num cenário rural de bosques sombrios e passando pela serie lovecraftiana Locke & Key de Joe Hill Gabriel Rodriguez, onde uma série de chaves moldadas com demónios não corporizados possuem faculdades imagináveis mas só podem ser utilizadas por um preço demasiado elevado, o destaque vai também para a série Fatale de Ed Brubaker e Sean Philips, outra série de influência lovecraftiana que segue uma femme fatale com a capacidade de se fazer obedecer por todos os homens, capacidade que distribui a desgraçada por onde passa, com violência desmedida e irracional.

Banda desenhada fantástica

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A melhor leitura – The Autumnlands de Kurt Busiek e Benjamin Dewey – Com imagens de bom detalhe que originam páginas de aspecto arrasador, a história decorre numa realidade onde várias espécies de animais coexistem numa única cidade, apresentando uma civilização de contornos medievais centrada nas artes mágicas. A magia está, no entanto, a desaparecer, ameaçando a vida das populações urbanas, que assim ficariam desprotegidas à rapina pelas restantes espécies. Num acto de desespero convocam, por artes mágicas, um antigo e mítico herói. O que surge é um homem, quase nú, incapaz de realizar magia, mas capaz de utilizar meios científicos para desenvolver formas de luta.

Menções honrosasI Hate Fairyland de Skottie Young é um dos livros mais hilariantes que li este ano. Quem nunca leu uma história que tem como principal personagem uma criança que “cai ” num reino mágico onde tem uma importante missão a cumprir? Neste caso Gertrude vai parar ao reino das fadas, fofinho, amoroso e carregado de músicas animadas e doces. O que parece ser o sonho de qualquer criança transforma-se, 27 anos sem conseguir resolver charadas, num pesadelo e Gertrude transforma-se numa psicopata implacável que mata e come qualquer um que aparecer no seu caminho. Tudo num ambiente fofinho, queriducho e amoroso. Sharaz-De de Toppi fascinou-me pelo visual, diferente do usual, com cada página a constituir uma obra de arte, carregado de texturas diferentes para melhor diferenciar o preto e branco das páginas. De destacar, também, o ambiente e a lógica pouco ocidentais que contribuem para transformar estas histórias numa boa leitura.

Banda desenhada de ficção científica

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A melhor leitura – Trees de Warren Ellis e Jason Howard – Os alienígenas chegaram à Terra, mas não iniciaram nenhuma tentativa de interação. As enormes estruturas cilíndricas esmagaram tudo o que se encontrava no caminho da aterragem provocando diversas catástrofes, algumas em cidades com grande densidade populacional. O terror dos primeiros momentos dá lugar ao nervosismo da incerteza, e as populações que permanecem perto das estruturas apresentam sintomas de elevado stress psicológico. Graficamente brutal, alternando cores conforme o intercalar de locais, Trees consegue combinar uma boa premissa para qualquer história de ficção científica com a excelente qualidade do desenho;

Menções honrosasFragmentos da enciclopédia délfica de Miguelanxo Prado foi o meu primeiro contacto com o trabalho do autor e despertou-me interesse pelas semelhanças para com A Guerra da Elevação da David Brin, com a espécie humana a desenvolver a inteligência de outras espécies da terra, mas continuando a tratá-las como escravos, seres de segunda categoria. Miguelanxo Prado utiliza este contexto para estabelecer um paralelismo com a espécie humana, em episódios de constante crítica social.  Descender de Jeff Lemire e Dustin Nguyen recorda-me um cruzamento de A.I. com Battlestar Galactica retratando um robot, Jim, com aparência de criança que é recebido numa família como um verdadeiro filho. Aquando da revolta dos robots, Jim encontrava-se desligado e não participou. Anos mais tarde, quando acorda, sente falta da sua família e tenta procurá-los, apesar de perseguido por diversas entidades. Parque Chas de Eduardo Barreiro e Eduardo Risso decorre num bairro residencial que tem assistido, ao longo dos anos, a diversos fenómenos inexplicáveis. O autor projectado como personagem na própria história, assiste a alguns e começa a investigar por conta própria o que se poderá estar a passar aqui. Quando se apaixona por uma femme fatale sabemos que se envolverá mais do que pretendia numa aventura mirabolante por várias realidades onde se cruza com várias personagens ficcionais.

Banda desenhada Histórica

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A melhor leitura – Foi assim a guerra das trincheiras de Tarti – Esqueçam a visão romântica de jovens heróis, guerreiros, cheios de vontade de combater e de perder a vida pela nação. A vida nas trincheiras é suja e pestilenta, os soldados inimigos são apenas um dos perigos e os jovens levados para uma guerra em que não se revêm acabam por se dessensibilizar para os horrores a que assistem a cada hora de permanência na linha da frente. A par com este retrato pungente, Tarti compõem tiradas críticas bem colocadas, sobre a situação dos soldados, sobre as populações que acabam por perecer com a guerra e sobre os colonizados que aqui acabam sem saber muito bem como nem porquê.

Menções honrosasDemocracia de Alecos Papadatos, Abraham Kawa e Annie Di Donna decorre na Antiga Grécia e visa mostrar como se desenvolveu o modelo que conhecemos como Democracia. Baseado em factos históricos e preenchido com suposições é uma abordagem interessante que se preocupa em criar e desenvolver personagens para fazer desenrolar os acontecimentos. Por sua vez, O Comboio dos órfãos de Philippe Charlot, Xavier Fourquemin e Scarlett Smulkowski é a história verídica das crianças que viviam nas ruas das cidades. Órfãos, ou não, a quantidade de crianças atingiu tal ordem que se criaram instituições para distribuir por famílias de todos os Estados Unidos da América, sem qualquer registo, e separando irmãos. Décadas depois, alguns procuram saber algo mais sobre as suas origens, investigação difícil nestas circunstâncias.

Outras bandas desenhadas

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A melhor leitura – Ardalén de Miguelanxo Prado – Apesar de ter gostado imenso de tudo o que li de Miguelanxo Prado (Presas fáceis é uma mordaz crítica à forma como foram geridas as crises bancárias com pagamentos milionários para os responsáveis e desaparecimento das poupanças de milhares de pessoas poupadas da classe média, Crónicas Incongruentes um conjunto de episódios satíricos da sociedade onde são exageradas situações comuns criando-se um desassossego cómico mas desconcertante no leitor), Ardalén foi o álbum de que gostei mais. Apresentando uma história contínua, explora a memória e os relacionamentos, as saudades e as experiências de vida pelos encontros de uma jovem com um velhote que se desloca a uma vila no interior em busca de alguma memória do avô.

A ficção especulativa em Portugal – 2016

Se o ano 2016 foi catastrófico em diversas áreas, na ficção especulativa, não sendo extraordinário, foi um ano muito razoável, ultrapassando o ritmo de 2015 e abrindo portas para um 2017 que promete.

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Tivemos poucas visitas estrangeiras, quando comparamos com 2015 (marcado pela presença de David Brin na Leituria e por Lauren Beukes e Fábio Fernandes em Outras Literaturas entre muitos outros) mas a presença de Brandon Sanderson em Portugal, vindo da Eurocon em Barcelona foi um sucesso que levou muitos à FNAC, bem como a de Carlos Ruíz Záfon na Academia das Ciências. Com menor assistência mas, para mim, de maior destaque foi a vinda de Zoran Zivkovic para o lançamento de O Livro. De nota, a presença de Ken MacLeod nos Mensageiros das Estrelas, evento mais académico dedicado à Ficção Especulativa.

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Olhando para os eventos regulares, Os Sustos às sextas tiveram uma segunda época de sucesso e estão já a preparar a terceira onde alguns detalhes mais literários aguardam o anúncio oficial. Resta-nos aguardar impacientemente! Também este ano o Scifi-LX pareceu mais consolidado voltando ao Pavilhão Central do IST com robots, jogos, livros, palestras e várias outras coisas muito geeks. O Fórum Fantástico também retornou ao espaço habitual, em Telheiras, com os usuais três dias carregados de eventos fantásticos – e já há datas para a edição de 2017 ( 29 de Setembro a 01 de Outubro). De temática não especulativa, Recordar os Esquecidos escorrega de vez em quando na ficção científica e na fantasia, destacando-se pelas tardes bem passadas no Saldanha, revendo livros e autores.

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Mas 2016 também foi marcado pelo aparecimento dos Devoradores de Livros, uma tertúlia mensal que termina em jantar, que decorre na Leituria e onde se fala sobretudo de livros de ficção especulativa, mas não só. Ainda em solo nacional, João Barreiros apresentou Viagem ao retrofuturo, e deu-se especial destaque a António de Macedo, com o filme O Segredo das Pedras Vivas no MotelX, e o divertidíssimo documentário sobre a sua obra, Nos interstícios da Realidade. Ainda na Península Ibérica, mas fora de Portugal, é de destacar a forte presença portuguesa na Eurocon de Barcelona, associada ao evento Scifi-Lx e à Editorial Divergência, com Luís Filipe Silva a marcar presença em vários painéis.

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A nível de publicações de ficção especulativa nacional, também não foi um mau ano, com o lançamento de Terrarium na Comic Con (mas apenas disponível nas livrarias a partir de 27 de Janeiro), de Galxmente de Luís Filipe Silva (nova edição), A Provocadora Realidade dos Mundos Imaginários de António de Macedo, Os Marcianos somos nós de Nuno Galopim, e da primeira antologia Cyberpunk portuguesa, Proxy, pela Editorial Divergência. Em caminhos mais internacionais, foi publicado um conto de um autor português, Mário de Seabra Coelho, na Strange Horizons!

Sem estranhar, a publicação de livros estrangeiros continua escassa e camuflada em etiquetas genéricas e pouco alusivas à ficção especulativa. Eis os que achei mais relevantes:

Sobre o ano de 2015, podem consultar a entrada equivalente, A ficção especulativa em Portugal – 2015.

À espera de … (lançamentos internacionais)

Ao contrário do mercado português, a maioria dos lançamentos começa a ser publicitada largos meses antes do lançamento, por vezes quando o livro ainda nem sequer está terminado. Deixo-vos, assim, alguns dos livros que já estão anunciados e cuja data de lançamento já estou a seguir.

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Locke & Key de Joe Hill e Gabriel Rodriguez é das mais fantásticas séries de horror de todos os tempos. Joe Hill, filho de Stephen King, é conhecido pela sua obra escrita e nesta parceria com Gabriel Rodriguez criou uma série presente em qualquer lista de boa desenhada de horror. Apesar da série de 6 volumes estar terminada, em Janeiro será lançado Small World, uma história autónoma que decorre no mesmo mundo ficcional e muito material extra, uma edição que parece sobretudo para coleccionadores:

hree years after wrapping up their award-winning, best-selling Locke & Key saga, the team that built Keyhouse returns to Lovecraft, Massachusetts with a new tale of terror and suspense! An impossible birthday gift for two little girls unexpectedly throws open a door to a monster on eight legs!

This deluxe hardcover edition contains the new 24-page story and adds pages from various drafts of Joe Hill’s scripts, from the earliest hand-written pages to the various revisions; process pages from Gabriel Rodriguez; a special pinup from Brian Coldrick, and more!

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Desconheço outros trabalhos dos autores, mas pegando na história épica do herói que batalha Grendel (a propósito, aconselho a leitura da história contada da perspectiva do monstro, publicada cá pela Saída de Emergência), este volume parece prometer um bom trabalho, pelo menos do ponto de vista gráfico:

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Existem organizadores de antologias cujo trabalho se destaca e John Joseph Adams é um deles. Todas as antologias que organiza possuem histórias excelentes e uma qualidade média acima do razoável, histórias concretas com princípio, meio e fim, que ultrapassam o objectivo do conceptual e nos apresentam uma boa narrativa. Esta antologia promete muita acção num enquadramento menos forte a nível científico, com autores como Alan Dean Foster, Charlie Jane Anders ou Kameron Hurley.

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Depois de Norse mythology, Neil Gaiman lança esta adaptação para Banda Desenhada de um clássico gótico:

Somewhere in the night, a raven caws, an author’s pen scratches, and thunder claps. The author wants to write nonfiction: stories about frail women in white nightgowns, mysterious bumps in the night, and the undead rising to collect old debts. But he keeps getting interrupted by the everyday annoyances of talking ravens, duels to the death, and his sinister butler.

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Simultaneamente amaldiçoando pela paragem de Abarat e saltando de alegria por nova história de Cliver Barker, eis Infernal Parade, uma novela onde o autor parece ter recuperado o espírito negro dos seus livros:

From the beginning of his distinguished career, Clive Barker has been the great visionary artist of contemporary dark fantasy, a form that Barker himself has termed “the Fantastique.” Through his many novels, stories, paintings and films, he had presented us with unforgettable images of the monstrous and the sacred, the beautiful and the grotesque. His body of work constitutes a great and varied contribution to modern popular culture.

This astonishing novella, Infernal Parade, perfectly encapsulates Barker’s unique abilities. Like the earlier Tortured Souls, an account of bizarre—and agonizing—transformations, Infernal Parade is tightly focused, intensely imagined, and utterly unlike anything else you will ever read. It begins with the tale of a convicted criminal, Tom Requiem, who returns from the brink of death to restore both fear and a touch of awe to a complacent world. Tom becomes the leader of the eponymous “parade,” which ranges from the familiar precincts of North Dakota to the mythical city of Karantica. Golems, vengeful humans both living and dead, and assorted impossible creatures parade across these pages. The result is a series of highly compressed, interrelated narratives that are memorable, disturbing, and impossible to set aside.

Infernal Parade is quintessential Barker: witty, elegantly composed, filled with dark and often savage wonders. It proves once again that, in Barker’s hands, the Fantastique is not only alive and well, but flourishing. This is vital, visionary fiction by a modern master of the form.

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Apesar de se basear num mundo criado noutras séries, Empire Games é o primeiro volume de uma nova série de Charles Stross de realidades alternativas e viagens por mundos paralelos. Uma série sobre a qual tenho grande curiosidade, principalmente depois de ter visto o autor na Eurocon, de espírito sagaz e cómico:

Charles Stross builds a new series with Empire Games. Expanding on the world he created in the Family Trade series, a new generation of paratime travellers walk between parallel universes. The year is 2020. It’s seventeen years since the Revolution overthrew the last king of the New British Empire, and the newly-reconstituted North American Commonwealth is developing rapidly, on course to defeat the French and bring democracy to a troubled world. But Miriam Burgeson, commissioner in charge of the shadowy Ministry of Intertemporal Research and Intelligence―the paratime espionage agency tasked with catalyzing the Commonwealth’s great leap forward―has a problem. For years, she’s warned everyone: “The Americans are coming.” Now their drones arrive in the middle of a succession crisis.

In another timeline, the U.S. has recruited Miriam’s own estranged daughter to spy across timelines in order to bring down any remaining world-walkers who might threaten national security.

Two nuclear superpowers are set on a collision course. Two increasingly desperate paratime espionage agencies try to find a solution to the first contact problem that doesn’t result in a nuclear holocaust. And two women―a mother and her long-lost daughter―are about to find themselves on opposite sides of the confrontation.

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Mais conhecido por O Último Unicórnio, Peter Beagle escreveu muita fantasia de premissa menos medieval que, mantendo um tom clássico na estrutura, contem elementos estranhos mas fascinantes. In Calabria será o próximo livro do autor, com data marcada para Fevereiro:

Claudio Bianchi has lived alone for many years on a hillside in Southern Italy’s scenic Calabria. Set in his ways and suspicious of outsiders, Claudio has always resisted change, preferring farming and writing poetry. But one chilly morning, as though from a dream, an impossible visitor appears at the farm. When Claudio comes to her aid, an act of kindness throws his world into chaos. Suddenly he must stave off inquisitive onlookers, invasive media, and even more sinister influences.

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Apesar de desconhecer o autor, a premissa desta história é suficiente para a colocar como possível aquisição para os próximos tempos:

What if you could live multiple lives simultaneously, have constant, perfect companionship, and never die? That’s the promise of Join, a revolutionary technology that allows small groups of minds to unite, forming a single consciousness that experiences the world through multiple bodies. But as two best friends discover, the light of that miracle may be blinding the world to its horrors.

Chance and Leap are jolted out of their professional routines by a terrifying stranger—a remorseless killer who freely manipulates the networks that regulate life in the post-Join world. Their quest for answers—and survival—brings them from the networks and spire communities they’ve known to the scarred heart of an environmentally ravaged North American continent and an underground community of the “ferals” left behind by the rush of technology.

In the storytelling tradition of classic speculative fiction from writers like David Mitchell and Michael Chabon, Join offers a pulse-pounding story that poses the largest possible questions: How long can human life be sustained on our planet in the face of environmental catastrophe? What does it mean to be human, and what happens when humanity takes the next step in its evolution? If the individual mind becomes obsolete, what have we lost and gained, and what is still worth fighting for?

Últimas aquisições

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Há alguns meses que não fazia um post destes (tirando um para a Eurocon que tinha por objectivo destacar a realização do evento) pelo que aqui vai um pequeno apanhado de algumas das aquisições mais recentes e mais interessantes.

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Não bastasse ser um livro de Margaret Atwood (a autora de The Handmaid’s Tale ou O Ano do Dilúvio), Hag-seed aparece em quase todas as listas de melhores livros do ano, principalmente nas mais relevantes:

‘It’s got a thunderstorm in it. And revenge. Definitely revenge.’ Felix is at the top of his game as Artistic Director of the Makeshiweg Theatre Festival. His productions have amazed and confounded. Now he’s staging a Tempest like no other: not only will it boost his reputation, it will heal emotional wounds. Or that was the plan. Instead, after an act of unforeseen treachery, Felix is living in exile in a backwoods hovel, haunted by memories of his beloved lost daughter, Miranda. And also brewing revenge. After twelve years, revenge finally arrives in the shape of a theatre course at a nearby prison. Here, Felix and his inmate actors will put on his Tempest and snare the traitors who destroyed him. It’s magic! But will it remake Felix as his enemies fall? Margaret Atwood’s novel take on Shakespeare’s play of enchantment, revenge and second chances leads us on an interactive, illusion-ridden journey filled with new surprises and wonders of its own

O segundo, Counter-clock World é um dos livros de Philip K. Dick que ainda não li e para o qual fui chamada a atenção depois de ter lido um conto engraçado na Smokopolitan com uma premissa que será semelhante. Nesta realidade o tempo anda para trás. Acordamos cada vez mais novos, os idosos restabelecem a memória e as capacidades, os mortos levantam-se do cemitério e retornam às suas famílias, as pessoas que tão bem conhecemos tornam-se progressivamente estranhos:

In the counter-clock world time runs backwards. People are born in their graves, dug up when they can start speaking, and are reintroduced into society where they grow younger before returning to the womb to be unborn. The Hobart Phase has been reversing time since 1986 and nothing has quite been the same since.

The Library is the most powerful and most feared organization in the world, responsible for the eradication of records from history for events which have no longer happened. Anarch Peak, a black religious leader, is due to be old-born and the Library wants him dead. With a feud already developing in religious communities throughout the world, Seb Hermes is sent to retrieve Anarch from his captors. He must suceeed before tensions trigger an all-out religious war.

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Este clássico fantástico, Jurgen de James Branch Cabell, o mesmo autor de Hamlet tinha um tio, é um dos mais recentes lançamentos da E-Primatur, em edição ilustrada:

Jurgen é um cavaleiro que parte em busca do “amor cortês”, o amor idílico. As suas aventurtas por reinos mágicos e misteriosos encontrando pelo caminho os mais excentricos personagens e acabando, muitas vezes, nos leitos de mil damas – da Rainha Guinevere à mulher do Diabo – são uma entrincada alegoria aos tempos modernos e à América mas podem, igualmente, ser lidas como um romance de aventuras, uma fantasia, uma obra política ou um tour-de-force literário cheio de referências mais ou menos claras aos grandes clássicos da literatura universal e a obras menores mas de igual forma relevantes.

Jurgen foi alvo do primeiro e mediático processo de obscenidade que ocupou as primeiras páginas dos jornais norte americanos entre 1919 e 1922.

Ao lado encontra-se o mais recente lançamento de Carlos Ruiz Záfon, o livro que vai fechar a tetralogia O Cemitério dos Livros Esquecidos e que teve direito a grande lançamento com presença do autor na semana passada. Para quem não conhece, apesar de se tratar de uma mesma série, os livros podem ser lidos isoladamente, contendo histórias que decorrem em Barcelona, em torno de livrarias e livros, mas com especial ênfase numa enorme biblioteca que conteria as últimas cópias de qualquer livro.

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Apesar de terem sido comprados em Portugal (na FNAC Chiado e no El Cortê Inglês, respectivamente), estes dois ainda derivam da viagem de Barcelona. O primeiro é um livro curioso que tem publicação prevista em Portugal para o primeiro trimestre de 2017, um livro de Bolaño mas que toca no tema da ficção científica, e o segundo foi diversas vezes referido como sendo o melhor livro do Piñol, conhecido autor espanhol de fantástico, ainda que haja quem prefira Pandora el Congo.

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Pode parecer incrível mas não, nunca li o Memorial do Convento. Felizmente não foi leitura obrigatória (é que por mais que goste de ler, a perspectiva de ter de ler determinado livro em determinada época nunca me foi muito agradável). Com o lançamento desta edição especial da Guerra e Paz, aproveitei. Para além da capa dura a edição possui ilustrações de João Abel Manta que lhe dão muito bom aspecto. Veremos como é a leitura.

The Underground Railroad de Colson Whitehead é um dos livros mais falados deste ano, tendo-se tornado um best seller e encontra-se, também, nas principais listas de melhores livros do ano:

Cora is a slave on a cotton plantation in Georgia. All the slaves lead a hellish existence, but Cora has it worse than most; she is an outcast even among her fellow Africans and she is approaching womanhood, where it is clear even greater pain awaits. When Caesar, a slave recently arrived from Virginia, tells her about the Underground Railroad, they take the perilous decision to escape to the North. In Whitehead’s razor-sharp imagining of the antebellum South, the Underground Railroad has assumed a physical form: a dilapidated box car pulled along subterranean tracks by a steam locomotive, picking up fugitives wherever it can. Cora and Caesar’s first stop is South Carolina, in a city that initially seems like a haven. But its placid surface masks an infernal scheme designed for its unknowing black inhabitants. And even worse: Ridgeway, the relentless slave catcher sent to find Cora, is close on their heels. Forced to flee again, Cora embarks on a harrowing flight, state by state, seeking true freedom. At each stop on her journey, Cora encounters a different world. As Whitehead brilliantly recreates the unique terrors for black people in the pre-Civil War era, his narrative seamlessly weaves the saga of America, from the brutal importation of Africans to the unfulfilled promises of the present day. The Underground Railroad is at once the story of one woman’s ferocious will to escape the horrors of bondage and a shatteringly powerful meditation on history.

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Autor de obras tão conhecidas quanto Transmetropolitan, Warren Ellis lançou recentemente esta série de ficção científica:

All over the world. And they did nothing, standing on the surface of the Earth like trees, exerting their silent pressure on the world, as if there were no-one here and nothing under foot. Ten years since we learned that there is intelligent life in the universe, but that they did not recognize us as intelligent or alive. Trees, a new science fiction graphic novel by Warren Ellis (Transmetropolitan, Red) and Jason Howard (Super Dinoasaur, Astounding Wolf-Man) looks at a near-future world where life goes on in the shadows of the Trees: in China, where a young painter arrives in the “special cultural zone” of a city under a Tree; in Italy, where a young woman under the menacing protection of a fascist gang meets an old man who wants to teach her terrible skills; and in Svalbard, where a research team is discovering, by accident, that the Trees may not be dormant after all, and the awful threat they truly represent.

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Finalmente, o volume da esquerda parece uma história caricata e engraçada, sem falas, mas expressiva, que contrasta com o aspecto duro e pesado de um dos mais recentes lançamentos da Dark Horse.

Dark tales – Shirley Jackson

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We have always lived in the castle, publicado cá na Cavalo de Ferro como Sempre vivemos no castelo, pode ser um dos livros mais conhecidos de Shirley Jackson, mas foi com o seu conto The Lottery que me surpreendi pela sua capacidade em criar histórias curtas, pungentes, que, sem grande estardalhaço, criam um ambiente perfeito para a desgraça.

Esta capacidade, levada ao extremo no The Lottery (que se tornou a minha história distópica favorita) encontra-se presente, também, nestes contos negros, extraordinário. O impacto no leitor funciona sobretudo pela criação de um ambiente soturno, pelo arrastar de um desenlace que já suspeitamos, enquanto se forma um final inevitável, mas nem por isso com menos impacto.

She knew that if she asked her husband to take her to a movie, or out for a ride, or to play gin rummy, he would smile at her and agree; he was always willing to do things to please her, still, after ten years of marriage. An odd thought crossed her mind: she would pick up the heavy glass ashtray and smash her husband over the head with it.

Recorrendo escassas vezes ao fantástico ou ao sobrenatural, mas algumas às premonições, aos sonhos, aos vislumbres e àquelas sensações estranhas que, por vezes, nos passam pela mente de que algo está errado, Shirley Jackson tece, neste conjunto, várias histórias inquietantes.

O tom, pausado, alerta o leitor para todos os detalhes que se poderão tornar importantes no descobrir do verdadeiro terror por detrás de acções e ideias aparentemente simples, mas que escondem algo de uma forma tão clássica, quanto o título do primeiro conto que abre o conjunto: The possibility of evil.

Os livros da Comic Con – e outras coisas

Depois de ter tentado, durante a semana inteira, preparar esta pequena compilação, eis algum tempo para tal. O objectivo? Destacar alguns dos livros que serão lançados durante o evento!

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O livro de ficção científica da autoria de João Barreiros e Luís Filipe Silva vai ter, finalmente, nova edição. O livro será lançado na Comic Con, no dia 10 de Dezembro pelas 14h30. Esta nova edição foi revista e actualizada, possuindo novos trechos de texto. Este foi o evento que quase, quase me convenceu a ir à Comic Con, mas infelizmente já era muito em cima da hora para me conseguir organizar.

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Anunciado no Fórum Fantástico de 2016, Apocryphus é uma antologia de Banda Desenhada com periodicidade anual. O primeiro volume tem como tema a Fantasia e reúne o trabalho de Nuno Amaral Jorge, Inocência Dias, Mariana Flores, Rui Gamito, Miguel Jorge, Miguel Montenegro, Pedro Potier e João Raz. A capa é de Carlos Amaral com design de Pedro Daniel.

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Estes são os mais recentes lançamentos da G Floy para apresentação na Comic Con: Loki de Roberto Rodi e Esad Ribic, Outcast (vol.1) de Kirkman e Azaceta, e Velvet (vol.2) de Ed. Brubaker e Steve Epting. De realçar que Esad Ribic estará presente para assinar os livros.

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Os Vampiros acabou de ser o álbum vencedor do Galardão Anual Comic Con BD. Os autores, Filipe Melo e Juan Cavia irão participar todos os dias em sessões de autógrafos. Ainda não leram? Como não? Um pouco fora dentro da temática dos livros, aproveito para realçar o Painel Gremlis com Zach Galligan. Recordo que ontem (quarta-feira) decorreu uma sessão de cinema do file, com a presença de Galligan, à conversa com Filipe Melo e foi um serão excelente, repleto de histórias divertidas. O actor mostrou um bom humor exemplar e Filipe Melo soube puxar por ele para nos proporcionar um grande momento!

Destaque: Baudolino – Umberto Eco

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Baudolino  é um dos meus livros favoritos de Umberto Eco. Revelando o extenso conhecimento do autor sobre a Época Medieval com episódios mirabolantes em que a farsa tem lugar principal, Baudolino foca-se sobretudo no Reino de Prestes João e nas relíquias religiosas para cruzar velhas e novas mentiras.

Apesar de não ser um novo livro no mercado português (a que tenho em casa é da Difel), é de saudar o retorno às livrarias de Baudolino, agora pela Gradiva:

Uma viagem fascinante que leva o leitor a 1204, a uma Constantinopla saqueada e incendia¬da pelos cavaleiros da quarta cruzada. Entre o caos e a carnificina, destaca-se Baudolino. Ain¬da menino, o seu caminho cruza-se com o do imperador Frederico Barbarroxa, que o adopta e o envia para a universidade em Paris. Aí, faz amigos destemidos e aventureiros como ele, com quem parte em busca do reino do Preste João. História e ficção cruzam-se num relato intenso de aventuras. Umberto Eco no seu melhor.

Últimas aquisições – O espólio da Eurocon…

Entre livros gratuitos, ofertas e aquisições ao preço da chuva (bem, houve dias em que a chuva me ficou mais cara, que os guarda-chuvas não são baratos), a Eurocon ia-me desgraçando as costas com o peso das malas.

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Portanto, nesta foto confusa encontram-se os zines gratuitos que foram sendo apanhados pelas várias bancas. Logo a encabeçar a Smokopolitan, uma revista de ficção especulativa polaca que foi traduzida para inglês tendo em vista a divulgação na Eurocon. A revista foi distribuída gratuitamente durante o evento e tem, para além de artigos sobre o género na Polónia, seis contos.

Também a Andromeda Science Fiction Magazine of SFCD produziu uma edição especial, para a LONCON 3 que distribuiu agora na Eurocon. Para além de publicitar a U-CON fala sobretudo da ficção científica na Alemanha, destacando os prémios e os livros mais marcantes no género. Menos perceptível, mas visualmente fantásticas, são as revistas gregas, escritas em grego.

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Se se questionasse alguém sobre que autores espanhóis devíamos ler, a resposta era quase sempre uma – Emilio Bueso. Não é assim de estranhar que tenha trazido dois livros desse autor. Para além deste, era impossível não deixar de trazer Barcelona Tales, lançado durante o evento, e Róndola de Sófia Rhei, uma das escritoras envolvidas na organização do evento. Para além destes encontram, também, uma antologia de contos argentinos em que se destaca a grande relação com a morte e os mortos.

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Não pretendia comprar livros em inglês nesta minha viagem, mas como resistir a uma passagem pela banca da Gigamesh e encontrar livros gratuitos ou a 0,50€? E não fosse já ter as malas feitas e demasiado peso para trazer no avião e tinha de lá saído com um carrinho de mão!

 

Resumo de Leituras – Novembro de 2016 (5)

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229 – The Walkind Dead Vol.2 – Kirkman, Adlard e Rathburn – Este segundo volume continua a mostrar que a humanidade está destinada ao pior – não bastava o mundo estar povoado de monstros e os seres humanos ainda se colam a mesquinhices para manter os seus mundos psicológicos intactos em detrimento dos restantes;

230 – Jessica Jones Vol.2 – Bendis e Gaydos – Apesar de apresentar belíssimas páginas com um visual bastante interessante, a disposição e o aspecto continua a não ser um dos pontos fortes desta banda desenhada, elemento mais que compensado pela história e pela personagem central de carácter peculiar;

231 – El Gran Tratado de La Caca – Martin Piñol – Este tratado cómico centra-se numa função fisiológica indispensável a qualquer ser vivo. Cruzando a evolução das civilizações com a dos lavabos e referindo os impactos que tem na propagação de epidemias, este tratado parte dos aspectos mais biológicos para apresentar detalhes mais sociais ou, até, linguísticos;

232 – A Célebre rã saltadora do Condado de Calaveras / Rikiki-tikki-tam – Este volume da colecção Livros Amarelos pela Guerra e Paz agrega dois contos centrados em animais por dois dos mais célebres autores de língua inglesa do final do século XIX, início do século XX. Ambos os contos foram bem recebidos pelo público se bem que, no caso do segundo, o conto libertou a mente para algumas estranhas interpretações colonialistas.

Destaque: O Dicionário do Diabo – Ambrose Bierce

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Publicado em 2006 pela Tinta-da-China e agora pela Sistema Solar (será esta uma tendência para a publicação em anos terminados em 6?), O Dicionário do Diabo de Ambrose Bierce apresenta-se sob o formato de Dicionário, sendo que, em cada entrada se subverte o conceito original numa explicação irónica:

Cínico, s.m. Escroque que por uma visão deficiente vê as coisas tal como são e não como deveriam ser. Por esse motivo os Citas tinham por hábito arrancar os olhos aos cínicos a fim de lhes melhorar a visão.

Conservador, adj. É o que se diz do estadista cioso de manter os males existentes, por oposição ao liberal, que deseja substituí-los por outros.

Egoísta, s.m. Pessoa de mau gosto, mais interessada em si mesma do que em mim.

Mansidão, s.f. Incomum paciência na planificação de uma vingança.

Religião, s.f. Filha da esperança e do medo que vive explicando à ignorância a natureza do incognoscível.

The Walking Dead Vol.2 – Kirkman, Adlard e Rathburn

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Depois do violento acordar para o cenário apocalíptico apresentado no primeiro volume, o grupo de sobreviventes procura comida saudável e abrigo mais estável do que uma caravana. Quando chegam a uma vila com cerca que lhes parece agradável, julgam ter encontrado, finalmente, um local para relaxar.

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Para além dos poucos zombies que encontram numa primeira ronda a casa que exploram está carregada de comida e aproveitam-na para passar a primeira noite descansada e dar azo às paixões, contidas na apertada convivência da caravana. A manhã seguinte inicia-se carregada de esperança com a exploração da restante vila.

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Começando com um episódio de esperança e quase normalidade, não fosse a falta de comida e de proteção, era totalmente esperada a quebra da calma com a descoberta de um volume incontrolável de zombies na vila que exploram – totalmente esperada mas nem por isso menos brutal.

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Mas não é só os zombies que devem ser temidos. O filho de Rick sofre um grave acidente de caça, atingido por um homem desconhecido que julgou tratar-se de um zombie. Neste seguimento leva-o para a quinta, onde reside o pai veterinário, que poderá fazer alguma coisa pela criança. Aqui encontram novo período de calma, rodeados por comida, mas o ambiente torna a carregar-se de tensão quando descobrem que no celeiro se encontram dezenas de zombies, os vizinhos e familiares transformados.

Rodeados de monstros, este segundo volume continua a explorar a extinção da humanidade, não só pelo progressivo desaparecimento de seres humanos, mas porque os espécimes que persistem se apegam a ideias mesquinhas ao invés de unirem forças, em episódios de resultados trágicos e traumático.

Em Portugal The Walking Dead é publicado pela Devir.

Outros volumes da série The Walking Dead

Resumo de Leituras – Novembro de 2016 (4)

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225 – Barcelona Tales – Vários autores – No seguimento da Eurocon Barcelona, Ian Whates organizou uma antologia de contos que decorrem sobretudo nessa cidade juntando autores europeus de vários nacionalidades. Apesar de variável em qualidade e estilo (como é de esperar em qualquer antologia) possui ficção representativa e abre portas para a restante ficção de vários dos participantes;

226 – As aventuras do Barão Wrangel – José Carlos Fernandes – Carregado de acção nem sempre lógica, as aventuras do Barão sucedem-se como as aventuras de alguém que, depois de participar numa teoria da conspiração que não compreende totalmente, é incapaz de se afastar de novas loucuras;

227 – Cântico dos cânticos / Manual de civilidade para meninas – Os dois textos podem parecer antagónicos à primeira vista mas a sua antítese não está onde pensamos. É que o primeiro, uma ode aparentemente elevada ao amor poderá expressar desejos bastante mais sórdidos do que se pensa, e o segundo, carregado de frases ordinárias e conselhos pícaros é uma crítica social à forma como são tratadas as questões relacionadas com o sexo e o amor;

228 – Erzébet – Nunsky – A conhecida condessa é aqui retratada como a nobre sanguinária que espremia belas jovens para se banhar no seu sangue, como forma de se manter eternamente jovem. O truque permitirá que mantenha uma aparência agradável mas terá outras consequências.

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Barcelona Tales é uma colectânea de contos organizada por Ian Whates e lançada durante a Eurocon Barcelona. O objectivo desta colectânea será promover os autores de ficção científica espanhola, sendo que para tal Ian Whates intercalou conhecidos autores anglo-saxónicos e espanhóis de modo a que a introdução do livro seja mais fácil no mercado.

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Imagem das ilustrações no interior

Ainda que o nível de qualidade seja elevado, como seria de esperar, dificilmente os contos agradam em igual medida, havendo histórias mais complexas e fantásticas, bem como algumas demasiado lineares. De especial interesse são aquelas que nos introduzem os mundos ficcionais em que os autores costumam publicar, dando uma ideia do que encontrar nas restantes obras.

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Neste sentido gostei especialmente da história de Dave Hutchinson, autor da série Europe (Europe in Autumn, Europe at Midnight, Europe in Winter) que retrata um mundo pouco distante no futuro, de fronteiras voláteis, em que as corporações continuam a conseguir algum controlo através de estratégias financeiras. É neste cenário que decorre uma história carregada de acção em que se comercializam relíquias religiosas.

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Por sua vez, Rodolfo Martinez, autor de A Sabedoria dos Mortos (publicado em Portugal pela Saída de Emergência), reconstroi a cidade de Barcelona bem como os seus habitantes, em A Tale of No City, um conto interessante que deixa muito por revelar. Já o conto de Ian Watson, Heinrich Himmler in the Barcelona Hallucionation Cell, demonstra uma Espanha em parceria com os nazis, tendo como cenário a cidade de Barcelona em que alguns militares alemães se encontram com o objectivo de estabilizar a ocupação.

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Em Equi Maledicti Sarah Singleton expõe um astucioso e divertido conto de horror onde a esperteza, própria do comerciante, lhe sai cara. Bem diferente é The Dance of the Hippacotora de Claude Lalumiére que nos apresenta um monstro em cenário urbano, que actua recorrentemente em La Rambla.

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Se What Hungers in the Dark de Aliette de Bodard, uma história mais poética do que é usual da autora, que transforma a cidade numa criatura viva e esfomeada, Barcelona / My Love de Elia Barceló confere à cidade um tom romântico e nostálgico, característica de uma despedida que se tenta adiar. De Aliette de Bodard encontra-se publicado um conto na revista Bang!, Imersão,  e de Elia Barceló encontra-se publicado o livro O Segredo do Ourives.

Outcast Vol.3 – Kirkman & Azaceta

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Estando a ler esta série em simultâneo com a The Walking Dead, do mesmo autor, e tendo sido ambas adaptadas para série televisiva, é impossível não fazer algumas comparações, no sentido de tentar perceber porque, não tendo visto nenhuma das séries, The Walking Dead é tão mais aprazível.

As diferenças são muitas, ainda que ache a premissa inicial semelhante – entre os seres humanos muitos já não o são, transformando-se em monstros. Se no caso de The Walking Dead a transformação é visível e de tal forma vincada que permite a total desumanização das criaturas, em Outcast os seres humanos continuam a ser capazes de executar as tarefas rotineiras de sempre, não tentam morder ninguém e conseguem manter conversas quase civilizadas. A transformação neste caso é interna e a sua pouca visibilidade faz com que os amigos e familiares neguem, sempre que possível, as evidências.

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Se The Walking Dead é carregada de momentos de acção onde a esperança de uma vivência mais relaxada contrasta com os episódios catastróficos de chacina emocionalmente pesada, em Outcast o tom é constantemente deprimente, com pouca mudança de cenário. Por outro lado, a demasiada centralização numa personagem que se mostrou, até agora, um herói psicologicamente afectado e por isso ineficaz, não ajuda a criar empatia para com o que lhe vai acontecendo.

Mantendo a comparação, se em The Walkind Dead a história avança em círculos, repetindo uma fórmula de tensão acumulada que já sabemos como termina mas mesmo assim queremos acompanhar, Outcast avança de forma mais ou menos linear, tentando manter esta repetição de acontecimentos com os rituais de exorcismo mas sem conseguir criar a expectativa que seria necessária pois os momentos que intercalam os rituais são preenchidos com depressão.

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Com todas estas comparações quase depreciativas, onde fica Outcast? Fica, para mim, no limite do aceitável. Passo a explicar. O ritmo continua lento, com uma narrativa quase linear onde as revelações surgem a conta gotas e mantém o leitor sempre na expectativa de saber o que afinal está por detrás da epidemia de possessões.

Este terceiro volume conseguiu, finalmente, fazer aparecer algumas personagens secundárias e dar-lhes algum interesse, mostrando um pouco mais do que se passa do outro lado da barricada e dando-nos algo para nos ligarmos emocionalmente – mas não ao suposto herói.

Outros volumes de Outcast

 

The Thief of Broken Toys – Tim Lebbon

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Autor bastante conceituado no mundo do Horror e vencedor de vários prémios pela ficção literária que tem produzido, Tim Lebbon é um nome que cria grandes expectativas no género. Quando vi este volume, a 50 cêntimos na Eurocon (cortesia da Livraria Gigamesh) não pensei duas vezes e nesse mesmo dia li-o na viagem.

O que encontrei é uma boa história que usa terrores mundanos para iniciar a narrativa e alguns elementos sobrenaturais para a desenvolver, mas num seguimento que achei algo previsível. Ainda que, nalguns casos, o ser previsível faça parte do horror, em The Thief of Broken Toys não achei que tivesse funcionado bem.

O livro começa com o sentimento de perda de um filho. Após a morte da criança os pais separaram-se e parecem incapazes de avançar. Ainda mais estagnado está o pai que, permanecendo na mesma casa onde viviam como família, visualiza os brinquedos partidos que tinha prometido arranjar um dia, mas para os quais nunca arranjou tempo suficiente.

Um dia, durante as deambulações que realiza perto dos penhascos, encontra um velhote que lhe rouba um dos brinquedos estragados – apenas para o devolver arranjado. Brinquedo após brinquedo o homem vai curando a dor da perda e aceitando-a. Mas, como seria de prever, o arranjo tem um preço e quer aceite, quer não, as consequências serão pesadas.

Interessante do ponto de vista narrativo e da forma como explora a dor da perda para criar temor, desembaraçou-se de forma demasiado abrupta da história quebrando o momento de expectativa num episódio que não corresponde ao ritmo apresentado até esse ponto.