Os livros da Comic Con – e outras coisas

Depois de ter tentado, durante a semana inteira, preparar esta pequena compilação, eis algum tempo para tal. O objectivo? Destacar alguns dos livros que serão lançados durante o evento!

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O livro de ficção científica da autoria de João Barreiros e Luís Filipe Silva vai ter, finalmente, nova edição. O livro será lançado na Comic Con, no dia 10 de Dezembro pelas 14h30. Esta nova edição foi revista e actualizada, possuindo novos trechos de texto. Este foi o evento que quase, quase me convenceu a ir à Comic Con, mas infelizmente já era muito em cima da hora para me conseguir organizar.

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Anunciado no Fórum Fantástico de 2016, Apocryphus é uma antologia de Banda Desenhada com periodicidade anual. O primeiro volume tem como tema a Fantasia e reúne o trabalho de Nuno Amaral Jorge, Inocência Dias, Mariana Flores, Rui Gamito, Miguel Jorge, Miguel Montenegro, Pedro Potier e João Raz. A capa é de Carlos Amaral com design de Pedro Daniel.

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Estes são os mais recentes lançamentos da G Floy para apresentação na Comic Con: Loki de Roberto Rodi e Esad Ribic, Outcast (vol.1) de Kirkman e Azaceta, e Velvet (vol.2) de Ed. Brubaker e Steve Epting. De realçar que Esad Ribic estará presente para assinar os livros.

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Os Vampiros acabou de ser o álbum vencedor do Galardão Anual Comic Con BD. Os autores, Filipe Melo e Juan Cavia irão participar todos os dias em sessões de autógrafos. Ainda não leram? Como não? Um pouco fora dentro da temática dos livros, aproveito para realçar o Painel Gremlis com Zach Galligan. Recordo que ontem (quarta-feira) decorreu uma sessão de cinema do file, com a presença de Galligan, à conversa com Filipe Melo e foi um serão excelente, repleto de histórias divertidas. O actor mostrou um bom humor exemplar e Filipe Melo soube puxar por ele para nos proporcionar um grande momento!

Destaque: Baudolino – Umberto Eco

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Baudolino  é um dos meus livros favoritos de Umberto Eco. Revelando o extenso conhecimento do autor sobre a Época Medieval com episódios mirabolantes em que a farsa tem lugar principal, Baudolino foca-se sobretudo no Reino de Prestes João e nas relíquias religiosas para cruzar velhas e novas mentiras.

Apesar de não ser um novo livro no mercado português (a que tenho em casa é da Difel), é de saudar o retorno às livrarias de Baudolino, agora pela Gradiva:

Uma viagem fascinante que leva o leitor a 1204, a uma Constantinopla saqueada e incendia¬da pelos cavaleiros da quarta cruzada. Entre o caos e a carnificina, destaca-se Baudolino. Ain¬da menino, o seu caminho cruza-se com o do imperador Frederico Barbarroxa, que o adopta e o envia para a universidade em Paris. Aí, faz amigos destemidos e aventureiros como ele, com quem parte em busca do reino do Preste João. História e ficção cruzam-se num relato intenso de aventuras. Umberto Eco no seu melhor.

Últimas aquisições – O espólio da Eurocon…

Entre livros gratuitos, ofertas e aquisições ao preço da chuva (bem, houve dias em que a chuva me ficou mais cara, que os guarda-chuvas não são baratos), a Eurocon ia-me desgraçando as costas com o peso das malas.

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Portanto, nesta foto confusa encontram-se os zines gratuitos que foram sendo apanhados pelas várias bancas. Logo a encabeçar a Smokopolitan, uma revista de ficção especulativa polaca que foi traduzida para inglês tendo em vista a divulgação na Eurocon. A revista foi distribuída gratuitamente durante o evento e tem, para além de artigos sobre o género na Polónia, seis contos.

Também a Andromeda Science Fiction Magazine of SFCD produziu uma edição especial, para a LONCON 3 que distribuiu agora na Eurocon. Para além de publicitar a U-CON fala sobretudo da ficção científica na Alemanha, destacando os prémios e os livros mais marcantes no género. Menos perceptível, mas visualmente fantásticas, são as revistas gregas, escritas em grego.

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Se se questionasse alguém sobre que autores espanhóis devíamos ler, a resposta era quase sempre uma – Emilio Bueso. Não é assim de estranhar que tenha trazido dois livros desse autor. Para além deste, era impossível não deixar de trazer Barcelona Tales, lançado durante o evento, e Róndola de Sófia Rhei, uma das escritoras envolvidas na organização do evento. Para além destes encontram, também, uma antologia de contos argentinos em que se destaca a grande relação com a morte e os mortos.

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Não pretendia comprar livros em inglês nesta minha viagem, mas como resistir a uma passagem pela banca da Gigamesh e encontrar livros gratuitos ou a 0,50€? E não fosse já ter as malas feitas e demasiado peso para trazer no avião e tinha de lá saído com um carrinho de mão!

 

Resumo de Leituras – Novembro de 2016 (5)

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229 – The Walkind Dead Vol.2 – Kirkman, Adlard e Rathburn – Este segundo volume continua a mostrar que a humanidade está destinada ao pior – não bastava o mundo estar povoado de monstros e os seres humanos ainda se colam a mesquinhices para manter os seus mundos psicológicos intactos em detrimento dos restantes;

230 – Jessica Jones Vol.2 – Bendis e Gaydos – Apesar de apresentar belíssimas páginas com um visual bastante interessante, a disposição e o aspecto continua a não ser um dos pontos fortes desta banda desenhada, elemento mais que compensado pela história e pela personagem central de carácter peculiar;

231 – El Gran Tratado de La Caca – Martin Piñol – Este tratado cómico centra-se numa função fisiológica indispensável a qualquer ser vivo. Cruzando a evolução das civilizações com a dos lavabos e referindo os impactos que tem na propagação de epidemias, este tratado parte dos aspectos mais biológicos para apresentar detalhes mais sociais ou, até, linguísticos;

232 – A Célebre rã saltadora do Condado de Calaveras / Rikiki-tikki-tam – Este volume da colecção Livros Amarelos pela Guerra e Paz agrega dois contos centrados em animais por dois dos mais célebres autores de língua inglesa do final do século XIX, início do século XX. Ambos os contos foram bem recebidos pelo público se bem que, no caso do segundo, o conto libertou a mente para algumas estranhas interpretações colonialistas.

Destaque: O Dicionário do Diabo – Ambrose Bierce

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Publicado em 2006 pela Tinta-da-China e agora pela Sistema Solar (será esta uma tendência para a publicação em anos terminados em 6?), O Dicionário do Diabo de Ambrose Bierce apresenta-se sob o formato de Dicionário, sendo que, em cada entrada se subverte o conceito original numa explicação irónica:

Cínico, s.m. Escroque que por uma visão deficiente vê as coisas tal como são e não como deveriam ser. Por esse motivo os Citas tinham por hábito arrancar os olhos aos cínicos a fim de lhes melhorar a visão.

Conservador, adj. É o que se diz do estadista cioso de manter os males existentes, por oposição ao liberal, que deseja substituí-los por outros.

Egoísta, s.m. Pessoa de mau gosto, mais interessada em si mesma do que em mim.

Mansidão, s.f. Incomum paciência na planificação de uma vingança.

Religião, s.f. Filha da esperança e do medo que vive explicando à ignorância a natureza do incognoscível.

The Walking Dead Vol.2 – Kirkman, Adlard e Rathburn

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Depois do violento acordar para o cenário apocalíptico apresentado no primeiro volume, o grupo de sobreviventes procura comida saudável e abrigo mais estável do que uma caravana. Quando chegam a uma vila com cerca que lhes parece agradável, julgam ter encontrado, finalmente, um local para relaxar.

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Para além dos poucos zombies que encontram numa primeira ronda a casa que exploram está carregada de comida e aproveitam-na para passar a primeira noite descansada e dar azo às paixões, contidas na apertada convivência da caravana. A manhã seguinte inicia-se carregada de esperança com a exploração da restante vila.

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Começando com um episódio de esperança e quase normalidade, não fosse a falta de comida e de proteção, era totalmente esperada a quebra da calma com a descoberta de um volume incontrolável de zombies na vila que exploram – totalmente esperada mas nem por isso menos brutal.

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Mas não é só os zombies que devem ser temidos. O filho de Rick sofre um grave acidente de caça, atingido por um homem desconhecido que julgou tratar-se de um zombie. Neste seguimento leva-o para a quinta, onde reside o pai veterinário, que poderá fazer alguma coisa pela criança. Aqui encontram novo período de calma, rodeados por comida, mas o ambiente torna a carregar-se de tensão quando descobrem que no celeiro se encontram dezenas de zombies, os vizinhos e familiares transformados.

Rodeados de monstros, este segundo volume continua a explorar a extinção da humanidade, não só pelo progressivo desaparecimento de seres humanos, mas porque os espécimes que persistem se apegam a ideias mesquinhas ao invés de unirem forças, em episódios de resultados trágicos e traumático.

Em Portugal The Walking Dead é publicado pela Devir.

Outros volumes da série The Walking Dead

Resumo de Leituras – Novembro de 2016 (4)

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225 – Barcelona Tales – Vários autores – No seguimento da Eurocon Barcelona, Ian Whates organizou uma antologia de contos que decorrem sobretudo nessa cidade juntando autores europeus de vários nacionalidades. Apesar de variável em qualidade e estilo (como é de esperar em qualquer antologia) possui ficção representativa e abre portas para a restante ficção de vários dos participantes;

226 – As aventuras do Barão Wrangel – José Carlos Fernandes – Carregado de acção nem sempre lógica, as aventuras do Barão sucedem-se como as aventuras de alguém que, depois de participar numa teoria da conspiração que não compreende totalmente, é incapaz de se afastar de novas loucuras;

227 – Cântico dos cânticos / Manual de civilidade para meninas – Os dois textos podem parecer antagónicos à primeira vista mas a sua antítese não está onde pensamos. É que o primeiro, uma ode aparentemente elevada ao amor poderá expressar desejos bastante mais sórdidos do que se pensa, e o segundo, carregado de frases ordinárias e conselhos pícaros é uma crítica social à forma como são tratadas as questões relacionadas com o sexo e o amor;

228 – Erzébet – Nunsky – A conhecida condessa é aqui retratada como a nobre sanguinária que espremia belas jovens para se banhar no seu sangue, como forma de se manter eternamente jovem. O truque permitirá que mantenha uma aparência agradável mas terá outras consequências.

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Barcelona Tales é uma colectânea de contos organizada por Ian Whates e lançada durante a Eurocon Barcelona. O objectivo desta colectânea será promover os autores de ficção científica espanhola, sendo que para tal Ian Whates intercalou conhecidos autores anglo-saxónicos e espanhóis de modo a que a introdução do livro seja mais fácil no mercado.

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Imagem das ilustrações no interior

Ainda que o nível de qualidade seja elevado, como seria de esperar, dificilmente os contos agradam em igual medida, havendo histórias mais complexas e fantásticas, bem como algumas demasiado lineares. De especial interesse são aquelas que nos introduzem os mundos ficcionais em que os autores costumam publicar, dando uma ideia do que encontrar nas restantes obras.

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Neste sentido gostei especialmente da história de Dave Hutchinson, autor da série Europe (Europe in Autumn, Europe at Midnight, Europe in Winter) que retrata um mundo pouco distante no futuro, de fronteiras voláteis, em que as corporações continuam a conseguir algum controlo através de estratégias financeiras. É neste cenário que decorre uma história carregada de acção em que se comercializam relíquias religiosas.

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Por sua vez, Rodolfo Martinez, autor de A Sabedoria dos Mortos (publicado em Portugal pela Saída de Emergência), reconstroi a cidade de Barcelona bem como os seus habitantes, em A Tale of No City, um conto interessante que deixa muito por revelar. Já o conto de Ian Watson, Heinrich Himmler in the Barcelona Hallucionation Cell, demonstra uma Espanha em parceria com os nazis, tendo como cenário a cidade de Barcelona em que alguns militares alemães se encontram com o objectivo de estabilizar a ocupação.

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Em Equi Maledicti Sarah Singleton expõe um astucioso e divertido conto de horror onde a esperteza, própria do comerciante, lhe sai cara. Bem diferente é The Dance of the Hippacotora de Claude Lalumiére que nos apresenta um monstro em cenário urbano, que actua recorrentemente em La Rambla.

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Se What Hungers in the Dark de Aliette de Bodard, uma história mais poética do que é usual da autora, que transforma a cidade numa criatura viva e esfomeada, Barcelona / My Love de Elia Barceló confere à cidade um tom romântico e nostálgico, característica de uma despedida que se tenta adiar. De Aliette de Bodard encontra-se publicado um conto na revista Bang!, Imersão,  e de Elia Barceló encontra-se publicado o livro O Segredo do Ourives.

Outcast Vol.3 – Kirkman & Azaceta

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Estando a ler esta série em simultâneo com a The Walking Dead, do mesmo autor, e tendo sido ambas adaptadas para série televisiva, é impossível não fazer algumas comparações, no sentido de tentar perceber porque, não tendo visto nenhuma das séries, The Walking Dead é tão mais aprazível.

As diferenças são muitas, ainda que ache a premissa inicial semelhante – entre os seres humanos muitos já não o são, transformando-se em monstros. Se no caso de The Walking Dead a transformação é visível e de tal forma vincada que permite a total desumanização das criaturas, em Outcast os seres humanos continuam a ser capazes de executar as tarefas rotineiras de sempre, não tentam morder ninguém e conseguem manter conversas quase civilizadas. A transformação neste caso é interna e a sua pouca visibilidade faz com que os amigos e familiares neguem, sempre que possível, as evidências.

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Se The Walking Dead é carregada de momentos de acção onde a esperança de uma vivência mais relaxada contrasta com os episódios catastróficos de chacina emocionalmente pesada, em Outcast o tom é constantemente deprimente, com pouca mudança de cenário. Por outro lado, a demasiada centralização numa personagem que se mostrou, até agora, um herói psicologicamente afectado e por isso ineficaz, não ajuda a criar empatia para com o que lhe vai acontecendo.

Mantendo a comparação, se em The Walkind Dead a história avança em círculos, repetindo uma fórmula de tensão acumulada que já sabemos como termina mas mesmo assim queremos acompanhar, Outcast avança de forma mais ou menos linear, tentando manter esta repetição de acontecimentos com os rituais de exorcismo mas sem conseguir criar a expectativa que seria necessária pois os momentos que intercalam os rituais são preenchidos com depressão.

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Com todas estas comparações quase depreciativas, onde fica Outcast? Fica, para mim, no limite do aceitável. Passo a explicar. O ritmo continua lento, com uma narrativa quase linear onde as revelações surgem a conta gotas e mantém o leitor sempre na expectativa de saber o que afinal está por detrás da epidemia de possessões.

Este terceiro volume conseguiu, finalmente, fazer aparecer algumas personagens secundárias e dar-lhes algum interesse, mostrando um pouco mais do que se passa do outro lado da barricada e dando-nos algo para nos ligarmos emocionalmente – mas não ao suposto herói.

Outros volumes de Outcast

 

The Thief of Broken Toys – Tim Lebbon

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Autor bastante conceituado no mundo do Horror e vencedor de vários prémios pela ficção literária que tem produzido, Tim Lebbon é um nome que cria grandes expectativas no género. Quando vi este volume, a 50 cêntimos na Eurocon (cortesia da Livraria Gigamesh) não pensei duas vezes e nesse mesmo dia li-o na viagem.

O que encontrei é uma boa história que usa terrores mundanos para iniciar a narrativa e alguns elementos sobrenaturais para a desenvolver, mas num seguimento que achei algo previsível. Ainda que, nalguns casos, o ser previsível faça parte do horror, em The Thief of Broken Toys não achei que tivesse funcionado bem.

O livro começa com o sentimento de perda de um filho. Após a morte da criança os pais separaram-se e parecem incapazes de avançar. Ainda mais estagnado está o pai que, permanecendo na mesma casa onde viviam como família, visualiza os brinquedos partidos que tinha prometido arranjar um dia, mas para os quais nunca arranjou tempo suficiente.

Um dia, durante as deambulações que realiza perto dos penhascos, encontra um velhote que lhe rouba um dos brinquedos estragados – apenas para o devolver arranjado. Brinquedo após brinquedo o homem vai curando a dor da perda e aceitando-a. Mas, como seria de prever, o arranjo tem um preço e quer aceite, quer não, as consequências serão pesadas.

Interessante do ponto de vista narrativo e da forma como explora a dor da perda para criar temor, desembaraçou-se de forma demasiado abrupta da história quebrando o momento de expectativa num episódio que não corresponde ao ritmo apresentado até esse ponto.

Harrow County – Vol.1 – Cullen Bunn e Tyler Crook

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Esqueçam os Chain Saw Massacres, as sangrias, os desmembramentos ao calhas ou os psicopatas com o seu distanciamento social. O horror que funciona melhor comigo é aquele usa elementos naturais e antigos, quase familiares, e que transforma facilmente os monstros em seres mais aprazíveis que os humanos. E os humanos em monstros.

A utilização de elementos naturais e antigos apela ao que de mais primitivo existe no nosso cérebro, usando as reminiscências de uma existência na selva em que connosco conviviam monstros indescritíveis. A utilização as sombras do cenário conhecido, percepcionado como seguro e saudável, e a transformação em buracos sem fundos pela exploração de possibilidades que o cansaço em noites escuras pode recuperar, é o tipo de horror que a nossa mente irá recordar mais tarde.

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Imagem fornecida pela editora G Floy

Por sua vez, a dissociação entre a aparência e a capacidade para agir maleficamente é, também, um aspecto interessante. Se não conseguimos distinguir quem é capaz de actos horrendos a olho nú, como nos poderemos proteger? E se todos forem capaz de actos horrendos bastando, para tal, estarem apavorados? Em Harrow County o medo é, não só a força principal que move a história como o elemento que cativa o leitor.

Estas duas características, a familiaridade do monstro e o cenário primitivo, são fundamentais para transformar Harrow County numa das séries de topo em qualquer lista de banda desenhada de horror, e uma das melhores obras de horror publicadas recentemente em Portugal.

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Harrow County é uma pequena vila que se deparou com as consequências de recorrer às mezinhas de uma bruxa – a energia vital usada para curar alguém tem de provir de algum lado e as consequências fazem-se sentir no gado e nas colheitas. Assustados, decidem tentar matar a bruxa de todas as formas possíveis. Quando finalmente o conseguem, pelo fogo, numa árvore, fica a promessa de um retorno.

Os receios da população ganham corpo quando, mais tarde, na mesma árvore, é descoberta uma criança. Esperançoso de a poder desviar do percurso que julgam óbvio, um homem educa a criança. Atingindo a idade adulta sem nunca ter saído da vila, a jovem Emmy parecia ter contrariado o destino, não fosse assistir a um parto desastroso de uma vaca e curar, inconscientemente o vitelo que deveria estar morto.

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Imagem fornecida pela editora G Floy

A partir deste episódio o medo fervilha na população que se decide a tentar acabar, novamente, com a bruxaria, ainda que, neste caso, não tenha sido demonstrado nenhum sinal de poder maléfico. A jovem Emmy foge e é, nesta fuga, que descobre as capacidades adormecidas e a sua verdadeira natureza com uma sucessão de encontros sobrenaturais que superam todas as expectativas que o leitor possa ter.

Demonstrando que o horror pode ser gerado pelo crescimento do medo e que os monstros nem sempre são aqueles que o aparentam, o primeiro volume de Hallow County explora a temática utilizando elementos primitivos num ambiente rural de grande familiaridade.

Em Portugal Hallow County foi publicado pela G Floy.

I Am Providence – Nick Mamatas

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Nada melhor do que estar numa outra cidade de propósito para uma convenção de ficção científica (Eurocon) e começar a ler um livro cuja premissa é… um assassinato numa convenção lovecraftiana.

O morto é um escritor medíocre de horror que conseguiu irritar muita gente, não só por conta da sua obra, mas pela forma como se relaciona com os restantes. Apesar de estar morto, sem pele na cara, e na morgue, consegue transmitir, ao leitor, alguns dos pensamentos e ideias sobre a sua própria morte – é que nem ele próprio sabe quem foi o culpado.

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Se, numa convenção científica, algumas ideias e piadas geeks já parecem estranhas a quem ouve (piadas sobre “it’s bigger on the inside” por exemplo) imaginem ter dezenas de lovecraftianos a dissertar sobre tendências sexuais, racismo e política nas obras de Lovecraft.

Estes polícias terão um trabalho duro a perceber o que se passou e o que é relevante pois deparam-se frequentemente com acções que, a um comum mortal, parecem contaminadas pela loucura – como andar no meio do mato, à noite, à procura do local onde Lovecraft terá enterrado o gato, Niggerman, ou ter livros cuja capa é a pele de alguém.

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Com algum cuidado na apresentação gráfica (com tentáculos contaminando várias das páginas) I Am Providence apresenta uma história movimentada e engraçada onde o autor utiliza, de forma inteligente, o vocabulário e as actividades próprias de um nicho de fãs que, expostas a quem não pertence ao grupo, ganham uma perspectiva ridícula.

Apesar de não achar que se trate de uma leitura excelente é uma história divertida e carregada de acção, onde os episódios inusitados se sucedem.

Sandkings – George R. R. Martin

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Ainda que se tenha tornado mais conhecido com a adaptação, para série televisiva, de A Guerra dos Tronos, há muitos anos que o nome George R. R. Martin é um nome sonante nos géneros da ficção especulativa. com a história que dá nome ao livro, Sandkings, a vencer os prémios Hugo e Nebula.

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Apesar de ser, efectivamente, a melhor história do conjunto, existem outras histórias aprazíveis nesta colectânea, começando por The Way of Cross and Dragon que é uma crítica perfeita às cruzadas religiosas, denunciando-as pela hipocrisia dos interesses monetários que escondem.

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Reinos de ilusões sem fim ou vermes inteligentes que criam mundos em catacumbas infindáveis, anos de vida perdidos em burlas e desilusões em mundos fantásticos de reminiscências medievais ou entre as estrelas – ao longo das seis histórias que antecedem à novela Sandkings George R. R. Martin vai revelando algumas das características que o tornarão famoso, chacinando sem piedade os sonhos e as vidas das personagens mais relevantes.

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Já a novela Sandkings revela-se uma transposição perfeita dos sonhos megalómanos de um homem sem escrúpulos. Poderoso e exibicionista, Kress gosta de adquirir animais raros, de preferência alienígenas, para os poder mostrar aos amigos em grandes festas. A sua última aquisição é um pequeno mundo fechado em vidro onde quatro comunidades de espécies alienígenas se desenvolvem. Mas não esperem seres semelhantes a formigas – capazes de empatia para com o seu dono, desenvolvem guerras e estratégias enquanto criam complexas cidades.

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A colectânea Sandkings reúne sete histórias do autor: The Way of Cross and Dragons, Bitterblooms, In the House of the Worm, Fast-Friend, The Stone City, Starlady e Sandkings. Alguns destes contos já foram publicados em Portugal:

  • Stone City como A Cidade de Pedra em O Cavaleiro de Westeros & Outras Histórias (Saída de Emergência);
  • Bitterblooms como Flormordentes em O Cavaleiro de Westeros & Outras Histórias (Saída de Emergência);
  • Sandkings como Reis-de-areia em O Cavaleiro de Westeros & Outras Histórias (Saída de Emergência);
  • The Way of Cross and Dragon como O Caminho da Cruz e do Dragão em O Cavaleiro de Westeros & Outras Histórias (Saída de Emergência) e em Contos Imaginários.

Resumo de Leituras – Novembro de 2016 (2)

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217 – Miracleman – Compilando os três primeiros volumes da autoria de Alan Moore, bem como outras histórias mais curtas que produziu com a mesma personagem, Miracleman apresenta a progressão de um herói ao longo de várias décadas, uma progressão em que o homem desaparece e dá lugar ao ser perfeito, mais evoluído e superior, mas, também, cada vez mais distante;

218 – The Flies of Memory – Ian Watson – Após o contacto com uma espécie alienígena que recorda os insectos comunitários (como a abelha ou a formiga) os seres humanos utilizam a tecnologia ainda não compreendida para viajarem pelo espaço tendo em vista a colonização dos restantes planetas do Sistema Solar;

219 – Revisão – Uma excelente surpresa que, comemorando os 40 anos do fim da Visão, recupera uma série de histórias curtas de banda desenhada excelentes, ora pelo aspecto gráfico, ora pelos tiradas ainda pertinentes que proporcionaram bons momentos de leitura;

220 – I Am Providence – Nick Mamatas – Nada melhor do que ir para uma convenção e começar a ler uma história em que se investiga um assassinato que ocorre durante uma convenção Lovecraftiana num enredo complexo e carregado de detalhes estranhos próprios de quem adora uma literatura carregada de tentáculos.

Assim foi: Portugal na Eurocon

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Imagem retirada da página oficial do CCCB

Se tivesse que me mudar para outra cidade europeia decerto mudaria para Barcelona – ruas lindíssimas rodeadas por montes e mar, população de etnia variada e, claro, um sem fim de livrarias enormes, algumas especializadas, outras genéricas, quase todas com obras em vários idiomas (até em português). Saber que a próxima Eurocon seria em Barcelona foi um elemento decisivo para planear uma viagem com dois anos de antecedência. Sim, dois anos. Leram bem.

Para quem não sabe o que é a Eurocon, é uma convenção de ficção científica a nível Europeu que se centra em livros. A convenção decorre todos os anos num local diferente decidido por votação. Para a Eurocon de Barcelona foram anunciados alguns dos autores mais relevantes na ficção científica europeia, como Aliette de Bodard, Johanna Sinisalo, Andrzej Sapkowski, Albert Sánchez Piñol ou Richard Morgan (que esteve em Portugal há uns anos, para o Fórum Fantástico).

Apesar de não ter participado nos anos anteriores, pareceu-me que, devido à proximidade (Barcelona é já ali ao lado), a Eurocon de 2016 se diferenciou por uma forte presença lusa, havendo, para além de uma consistente participação do Luís Filipe Silva em vários painéis, uma banca com divulgação da Ficção Científica em Portugal, obra de André Silva, Tomás Agostinho, Carlos Silva e Pedro Cipriano.

Painéis com participação portuguesa

Atrás han quedado los días de gloria del Imperio – Luís Filipe Silva

SFF in Portugal Nowadays – Luís Filipe Silva, Carlos Silva e eu

Dédalo – Tomás Agostinho

Is there a Southern European SF? – Luís Filipe Silva (e outros autores)

How to promote Euro SF – Luís Filipe Silva (e outros autores)

Atrás han quedado los diás del gloria del Imperio

Não pude assistir a esta mas, felizmente, há gravação.

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Retirado do Twitter oficial da Eurocon

SFF in Portugal Nowadays

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Pati Manning

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Pati Manning

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Pati Manning

Ainda que a sessão tenha decorrido no edifício Pati Manning (lindíssimo, mas menos central no circuito da Eurocon) tivemos direito a público e a gravação (não oficial). Por enquanto aqui ficam os slides apresentados, realçando-se que foi, também, referido António de Macedo tanto pelos filmes que produziu, como pelos livros que tem escrito. Muito ficou por falar e por destacar mas, infelizmente, não havia espaço para tudo.

Is there a Southern European SF?

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Com moderação de Luís Filipe Silva, esta mesa reuniu Anders Bellis, Arrate Hidalgo, Francesco Verso e Claude Lalumiére numa conversa que deu especial destaque à proximidade Mediterrânica e onde Claude Lalumiére, de origem canadiana, falou das mudanças que a sua própria escrita sofreu com a proximidade ao mar. Esta sessão foi gravada:

How to promote Euro SF

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Sessão mais movimentada, marcada por opiniões mais vincadas, em que se destacou o papel dos prémios nacionais para promover a obra de ficção científica em cada um dos países europeus.

Outras presenças portuguesas

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Sci-fi LX a marcar presença na Eurocon com uma banca em que divulgaram vários projectos portugueses

O Sci-Fi Lx, representado por André Silva, Carlos Silva e Tomás Agostinho marcou espaço com uma banca em que apresentou, não só os projectos que lhe estão directamente relacionados, como outros, portugueses, sendo que a disposição do material era dinâmica, modificada ao longo do dia para ir destacando os vários produtos e ideias. Muitas foram as pessoas que pararam, de diferentes nacionalidades e interesses para saber mais sobre o que se faz neste quadrado à beira mar plantado e a boa disposição dos intervenientes rapidamente se tornou contagiante!

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Eurocon 2016 – Souvenir Book – livro distribuído a todos os participantes da Eurocon

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Eurocon 2016 – Souvenir Book – livro distribuído a todos os participantes da Eurocon

O Souvenir Book é um livro de 160 páginas que contém artigos relacionados com a ficção científica europeia. Entre estes artigos encontramos quatro páginas da autoria de Luís Filipe Silva em que se fala da história da ficção científica portuguesa.

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À esquerda Zine produzida durante o evento (http://edm-online.de / http://Hansecon.blogspot.com) e à direita um dos postais distribuídos a todos os participantes com a publicidade à Fénix.

E quase que me esquecia, eis os nomeados portugueses para as várias categorias dos prémios ESFS (na página da Locus podem consultar os vencedores):

  • Best author – João Barreiros
  • Best magazine – Bang!
  • Best artist – Edgar Ascensão
  • Best fanzine – H-Alt
  • Best website – Bibliowiki

E o Encouragement Award português vai para… Rui Ramos!

Por último e, ainda que não esteja bem relacionado com a Eurocon, foi engraçado andar a passear por ruas escuras da zona gótica e descobrir livros portugueses numa montra minúscula !

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The Walking Dead – Vol.1 – Robert Kirkman e Tony Moore

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Sim, tenho passado ao lado da febre da série e vi, apenas, um ou dois episódios soltos em momentos que pouco ou nada tinha para fazer. Talvez comece a ver de uma assentada quando terminar – por enquanto peguei na banda desenhada e tive uma boa surpresa.

A maioria das histórias com zombies apresentam uma sucessão de episódios envolvendo os monstros com pedaços de carne entre os dentes, sem dar tempo para respirar. Não é o caso desta banda desenhada. Não me entendam mal – tem bastantes episódios na melhor tradição dos mortos-vivos mas dá, também, tempo para conhecermos as personagens, nem que seja por apresentar alguns detalhes que as tornam mais humanas, criam empatia com o leitor e, por isso, têm potencial para dar mais impacto a cada perda.

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A personagem principal é Rick, um polícia que, no seguimento de um tiroteio, está em coma num hospital. Quando acorda, o mundo que encontra não é o mesmo – no hospital onde está encontra alguns destes estranhos monstros, incapazes de comunicar que avançam insistentemente de forma assustadora.

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Numa série de episódios mirabolantes e num percurso carregado de coincidências pouco credíveis, Rick encontra a família num acampamento de sobreviventes que vai afastando os poucos mortos-vivos que por ali deambulam – por enquanto. Os encontros são cada vez mais perigosos, uma indicação de que algo mais grave pode acontecer a qualquer momento.

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Ao contrário de alguma ficção sobre zombies, The Walking Dead não explora apenas o monstro enquanto ser sobrenatural, mas a fronteira que se difunde quando o ser humano perde a matriz social que o suporta. Quão importante é a moralidade, quão importante são os princípios quando o mundo se desfez e a família está em risco? Se é fácil chacinar monstros sem consciência aparente, numa realidade sem sociedade onde as perdas se acumulam, quão fácil pode ser matar o outro ser humano, um ser consciente que não chega a ser um verdadeiro vilão?

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Ainda que este seja apenas o primeiro volume da série, a dinâmica entre as personagens e a forma inesperada como se resolveram alguns temas (apesar do início pouco credível em coincidências) levou-me já ao segundo volume e deverei continuar a série.

Em Portugal, a série The Walking Dead está a ser publicada pela Devir.

Algumas novidades para o Amadora BD

O AmadoraBD começou ontem e com a aproximação do evento as editoras têm anunciado algumas das novidades que têm preparado. Eis alguns lançamentos, da G Floy e da Arte de Autor. Nos próximos dias seguir-se-ão mais alguns !

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Várias histórias se cruzam neste volume: Gwendolyn e a Gata Mentirosa arriscam tudo para tentarem encontrar uma cura para A Vontade, enquanto Marko e o Príncipe Robot IV se tornam aliados improváveis na busca dos seus filhos desaparecidos, presos num mundo estranho por terríveis inimigos.

Fantasia e ficção científica – e sexo, política, traição, morte, amor verdadeiro e reality shows – juntam-se como nunca antes neste épico subversivo e provocante do escritor Brian K. Vaughan e da artista Fiona Staples.

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udo o que ela queria, era ter sido super-heroína…

As aventuras da Vingadora que se tornou detective privada continuam em mais dois casos. Jessica Jones viaja para uma pequena cidade do interior, uma cidade cheia de preconceitos e racismo, para investigar a desaparição de uma adolescente que todos acreditam ser uma mutante… mas será mesmo? E, logo depois, a nossa investigadora azarada vai sair num encontro com… o Homem-Formiga?!

Continuam as aventuras da heroína de banda desenhada da Marvel que deu origem à série de TV da NETFLIX com o mesmo nome!

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Anne tem 19 anos, e parte um osso do tornozelo chamado astrágalo, ao saltar a parede da prisão onde está presa por assalto. Salva por Julien, um ladrão como ela, Anne irá esconder-se, sofrer, rebelar-se, voltar a fugir, tanto faz, está loucamente apaixonada por Julien.

Estavam em fuga, livres e totalmente, furiosamente selvagens… E a sociedade autoritária do pós-guerra da França vai fazer-lhes pagar o preço dessa liberdade.

Adaptado do romance de Albertine Sarrazin, O Astrágalo fez descobrir a milhões de leitores o destino de uma jovem mulher escandalosamente livre na França de antes de Maio 68. Desse destino, Albertine Sarrazin conseguiu fazer uma obra-prima, marcada pelo signo de uma liberdade audaciosa, tónica e cheia de humor. O Astrágalo é o primeiro volume de uma autobiografia em três volumes. No ano em que saiu o terceiro, 1967, Albertine Sarrazin morreria numa mesa de operações. Ainda não tinha 30 anos.

“Albertine, a pequena santa dos escritores inconformistas. Pergunto-me se sem ela, eu seria o que sou hoje. O seu mantra juvenil foi aceite de corpo e alma, impregnando o meu espírito juvenil.”
Patti Smith

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Na pequena vila de Harrow County, no Sul dos Estados Unidos, a jovem Emmy sempre soube que a floresta à volta da sua casa estava cheia de fantasmas e monstros. Mas, na véspera do seu décimo oitavo aniversário, ela descobre que está profundamente ligada a essas criaturas – e à própria terra que pisa – de uma maneira que nunca poderia ter imaginado. Aos poucos, sentirá nascer dentro dela os estranhos poderes que a ligam ao passado de Harrow County… estará ela pronta para enfrentar todos os seus mistérios?

Considerada pelo lendário Mike Mignola como a melhor série do ano de 2015, Harrow County conta-nos a viagem iniciática de uma jovem rapariga numa terra imbuída de sobrenatural. Uma história terrível e onírica ao estilo “southern gothic”, criada pelo escritor Cullen Bunn e assombrosamente desenhada e pintada pelo artista Tyler Crook.

“Ao mesmo tempo incrivelmente sedutora e muito perturbadora, esta série é um sucesso brilhante”
Mike Mignola

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Uma obra inédita no nosso mercado. Esta foi a BD que serviu de argumento ao filme “A Vida de Adéle” que no Festival de Cannes de 2013 obteve a Palma de Ouro para o melhor filme. É um livro excepcional, que teve grande sucesso em todos os países onde foi publicado, nomeadamente no Brasil. É também um livro com vários prémios, nomeadamente o do Público no Festival Internacional de BD de Angoulême.

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Druuna está de regresso para desvender as suas origens numa história sem palavras que dá pelo título de Anima. Vinte anos depois de lhe ter dado vida, e 13 anos após a publicação do último álbum, Serpieri regressa ao universo da sua famosa heroína, o qual é um misto de ficção científica e de heroic fantasy, povoado de estranhas criaturas, hostis ou amorosas.
Este tomo 0 é complementado com um caderno de 18 páginas que contem esboços e uma história curta de 7 páginas, inédita, a qual data de 1981.

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O professor Mortimer está farto. Já não suporta ver os outros aproveitarem-se da sua lendária gentileza. Que o seu velho cúmplice Francis Blake se enfie em sua casa,    ainda vá. Que Nasir, o seu fiel servidor, exija um aumento e o pagamento de    horas extraordinárias, aceita-se. Que um bando de delinquentes, que diríamos saídos   do filme Laranja Mecânica, o chateiem, admite-se. Mas quando Blake lhe chama “mole”,   o seu sangue escocês começa a ferver: isto tem de mudar! De regresso a casa, Mortimer prepara um produto revolucionário que o vai transformar num malfeitor  impiedoso e dominador… Por Jove e por Horus! Mas o que é que aconteceu ao nosso  velho amigo Mortimer? Não contente por se transformar fisicamente, qual doutor Jekyll, agora frequenta clubes de strip-tease, aterroriza Olrik e persegue a ambição de dominar o mundo?
Admirador do Estranho Caso do Dr. Jekyll e de Mr Hyde, o romance de Stevenson, o  argumentista Pierre Veys é também um leitor assíduo de Jacobs, tal como Nicolas Barral que tem o prazer de reproduzir, nos mais infimos pormenores, o seu universo gráfico  .

Graveyard Shift – Jay Faerber e Fran Bueno

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Os membros de um pelotão de polícia vêm o seu quotidiano transformado após uma  rusga quase rotineira a um apartamento em que o alvo escapa mesmo depois de levar um tiro certeiro no peito. Um por um são atacados violentamente. No caso de Liam assiste ao assassínio da noiva e escapa por pouco do incêndio que destruiu o apartamento.

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Quando acorda no hospital, já depois do enterro, visita o cemitério e encontra a noiva… viva mas transformada num vampiro dominado pelo líder desta espécie sobrenatural vendo-se a braços com o dilema de manter o relacionamento mas ter de enfrentar os restantes vampiros que a conseguem comandar.

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Correspondendo às características da melhor tradição vampírica, o relacionamento entre Liam e a noiva não é fácil – tanto por questões de horário, como de hábitos de alimentação. Nada que o amor não ultrapasse.

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Cliché? sem dúvida. Com grande incidência nas imagens em primeiro plano com pouco detalhe, o prosseguir da história é previsível, centrado em meia dúzia de episódios de acção cujo rumo conseguimos facilmente antever. Visualmente possui algumas, poucas, páginas interessantes, mas na globalidade não me despertou grande interesse.

Resumo de leituras – Outubro de 2016

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197 – Rugas – Paco Roca – Este fabuloso álbum toca num tema sensível – a velhice. Mas fá-lo de uma forma simultaneamente forte e leve, colocando detalhes que se tornam cómicos apesar do cenário deprimente da decadência sem volta, resultante da degenerescência física e mental. São exactamente os pormenores, a perspectiva mirabolante dos episódios quase desesperados que tornam Rugas um álbum muito especial;

198 – Y: The Last Man – Vol.3 – Vários – A história continua com o declínio da sociedade com o desaparecimento de todos os homens – ou de quase todos os homens. Yorick Brown, o único sobrevivente masculino da humanidade encontra-se a ser discretamente escoltado para um laboratório a fim de o estudarem – enquanto isso descobrem que, se não existem outros sobreviventes na superfície do planeta, poderão existir outros dois num satélite;

199 – Odd e os Gigantes de Gelo – Neil Gaiman – História juvenil engraçada que bebe inspiração das lendas nórdicas em torno dos deuses, aproveitando as suas características imutáveis para nos apresentar uma pequena e engraçada aventura;

200 – The Walkind Dead – Vol.1 – Robert Kirkman e Tony Moore – Sem ter visto a série televisiva, o primeiro volume apresenta o cenário previsível de cenário apocalíptico aos dentes de mortos-vivos ávidos por carne humana. A perspectiva, apesar de comum, é enriquecida pelos laços familiares e amorosos, laços que se sobrepõem, por vezes, ao espírito de sobrevivência;