Assim foi: Contacto 2019

O Contacto, organizado pela Imaginauta, começou em 2018 no Palácio Baldaya em Benfica. Dedicado à ficção científica e fantástico, é um evento que se destaca por ter, para além de palestras e um espaço dedicado à literatura, muitas outras actividades apropriadas para todas as idades – lutas de sabres de luz, aulas de magia influenciadas pelo mundo do Harry Potter, exposições, jogos de tabuleiro, steampunk e muito mais.

Lançamentos

A minha perspectiva do evento é mais literária, destacando os eventos de lançamento que foram decorrendo. O primeiro a que assisti foi o lançamento do novo livro em português de Bruno Martins Soares, As Crónicas de Byllard Iddo – um lançamento em que o autor falou do livro e do interesse nos mundos que cria.

Já no Sábado, ainda presenciar um pouco do lançamento do livro de Nuno Duarte, O outro lado de Z, onde o autor Nuno Duarte falou do mundo fantástico de este livro e de outros. Seguiu-se o lançamento da antologia Winepunk onde participei (no lançamento, não na antologia). A antologia destaca-se por ser uma realidade alternativa que tem por base a história de Portugal, mais propriamente o Reino do Norte que, no meio das convulsões, surgiu no Norte de Portugal mas que apenas durou 3 semanas. E se tivesse durado 3 anos? Após ter iniciado o lançamento, o Rogério Ribeiro falou um pouco da forma como geraram a base antes de enviarem o desafio aos autores, Pedro Cipriano falou da produção que se seguiu por parte da editora, e os dois autores presentes (João Barreiros e João Ventura) falaram do seu processo criativo neste mundo fictício.

O último lançamento a que pude assistir foi o lançamento de Amadis de Gaula por Nuno Júdice, em que o autor falou da incerteza da autoria do livro, da forma como influenciou e é referido em obras posteriores, mostrando um exemplar com vários séculos de existência.

Banda desenhada

Para além do lançamento de O outro lado de Z, o Contacto reservou espaço na agenda para que pudessemos conhecer um pouco melhor outros autores de banda desenhada, como Joana Afonso, Henrique Gandum, Fábio Veras e Luís Zhang (autores de Filhos do Rato).

Ainda, no Lagar (zona central do edifício) estiveram alguns artistas a projectar enquanto desenhavam: FIL e Miguel Santos (da Associação Tentáculo) bem como Diogo Mané.

Ponto de encontro

Este tipo de eventos fantásticos e de ficção científica costumam ser ponto de encontro entre autores e editores, levando à criação de vários projectos. Neste caso o evento ajudou nestes encontros, disponibilizando uma sala para estes pudessem decorrer de forma mais oficial. Destacam-se dois encontros, um para a geração de um portal português de ficção científica e fantástico e outro para o encontro de autores de ficção científica e fantástico onde vários autores trocaram experiências.

Outros detalhes

Durante o evento decorreu uma taberna medieval e uma feira do livro que apresentava bancas das mais conhecidas editoras de ficção científica e fantástico – desde a Saída de Emergência com a colecção Bang!, à Europa-América com a colecção de livros de bolso de ficção científica, passando pela Imaginauta e pela Editorial Divergência entre outras.

Para além das exposições encontrávamos salas temáticas: Steampunk, Harry Potter e Star Wars, mais voltadas para o público jovem; bem como uma pequena oferta de jogos de tabuleiro.

Novidade: Companhia Silenciosa – Laura Purcell

A TOPSELLER anuncia para o mês de Abril um terror victoriano:

Tendo enviuvado recentemente, Elsie muda-se para a antiga propriedade do marido, a isolada e decrépita The Bridge, para poder descansar durante a gravidez e superar o luto.

Rodeada por criados ressentidos e aldeões que rejeitam a nova herdeira, Elsie tem apenas como companhia a tímida Sarah, prima do seu marido. Ou ela assim pensava. Dentro da grande mansão, descobre um quarto fechado a sete chaves, cujo interior abriga um diário com a obscura história de família e uma figura em madeira absolutamente perturbadora? e muito parecida com Elsie.

Na casa, todos têm medo da figura pintada, à exceção de Elsie? Até que ela própria começa a sentir aqueles olhos a seguirem-na para todo o lado. Inspirado no imaginário de Shirley Jackson e Susan Hill, este é um romance de terror vitoriano que evoca um medo inquietante em relação às presenças fantasmagóricas que espreitam nas sombras?

 

 

 

Novidade: Druuna 3 – Paolo E. Serpieri

A Arte de Autor anuncia o lançamento de novo volume de Druuna e pretende publicar a série completa em 2020:

Saída de um estranho sonho em companhia do seu amante Shastar, Druuna é convocada pelo comandante da nave. O «mal» existe a bordo, e é ela que tem de encontrar a fórmula do soro capaz de conter o flagelo. Druuna parte então para uma nova viagem cerebral ao coração da cidade de onde é originária. Aí reencontrará sem dúvida Shastar, mas também o seu gnomo salvador e o doutor Ottonegger, que lhe revelará o ingrediente necessário ao remédio que ela procura, uma flor misteriosa: a Mandrágora…

Druuna, série de referência da banda desenhada erótica dos anos 1980, é reeditada na Arte de Autor! Este terceiro álbum reúne Mandrágora e Aphrodisia, os episódios 5 e 6 da saga. Cada álbum desta nova é enriquecido por um caderno gráfico.

Dylan Dog – O velho que lê – Celoni, Sclavi e Stano

Depois da passagem do filme Dellamorte Dellamore no Nimas (nas sessões de culto de Filipe Melo) e de algumas publicações ocasionais da Levoir (integradas em colecções mais genéricas) eis que a G Floy avança com uma nova colecção que se inicia com um novo volume de Dylan, lançado com a presença do autor, Celoni, no Coimbra BD e na Kingpin Books.

Este volume, de título O Velho que Lê, apresenta duas histórias que nos levam a deambulações filosóficas para além dos usuais contornos sobrenaturais. Na primeira, que dá título ao volume, Dylan Dog é chamado a resolver o desaprecimento de um velhote conhecido por estar sempre a ler.

A pesquisa do desaparecimento leva Dylan Dog a explorar uma realidade imaginária carregada de receios sinistros baseados na vida do velhote – alguns elementos assustadores, outros simplesmente curiosos que, juntos, o levam a resolver o caso.

Bastante movimentada, esta primeira história integra elementos fantásticos e sobrenaturais bem como referências literárias, encaixando bem com a segunda história do volume, mais curta, onde se joga com a memória numa pequena vila onde Dylan Dog se encontra com a namorada.

Destacando-se pela qualidade gráfica, este primeiro volume de colecção Aleph constitui uma leitura de grande acção, adequada a quem gosta de narrativas que cruzem elementos de horror e fantástico, explorando uma personagem que obteve grande sucesso em Itália mas que, no mercado português, tem apenas agora as primeiras publicações.

Dylan Dog – O Velho que Lê foi publicado em Portugal pela G Floy.

Novidades fantásticas em Portugal (Março de 2019)

Enquanto se aproxima o Festival Contacto carregado de actividades para todas as idades e todos os gostos fantásticos e de ficção científica (e gratuito), vamos conhecendo alguns dos lançamentos nacionais que nos esperam: Bruno Martins Soares regressa ao mercado português pela Editorial Divergência com As Crónicas de Byllard Iddo (podem ouvir a entrevista com o autor para saber mais sobre o livro), a antologia Winepunk tem o seu lançamento a sul do país (recomendadíssimo), e a próprio Imaginauta (organizadora do evento) aproveita para lançar Amadis de Gaula.

Aproveito, também, para divulgar que se encontra na fase de projecto, a possibilidade de criar um Portal de Ficção Científica e Fantasia que terá por objectivo a divulgação do trabalho que se desenvolve neste género em Portugal. Esta reunião será promovida por mim e estará aberta a todos os interessados que queiram participar (seja activamente na construção do portal, seja com ideias ou sugestões). A reunião irá decorrer durante o Contacto, no dia 06 de Abril, a partir das 11h.

Já sabemos que não vai decorrer Festival Bang! em 2019, mas o Fórum Fantástico já divulgou as suas datas para este ano (11 a 13 de Outubro) e sabemos que irá decorrer Festival Vapor, com a Editorial Divergência a abrir submissões para um Almanaque Steampunk (ver mais detalhe na página da própria editora). Estão, também, abertas as subscrições para uma nova antologia de Fantasia urbana de título Os Medos da Cidade (ver mais detalhe).

Detectámos também (graças ao Jorge Candeias e à Imaginauta) a existência de um novo programa dedicado à ficção científica e fantástico (quantos mais formos, melhor) denominado Em Busca da Fantaciência. Ainda,  o João Barreiros publicou novo conto na revista Fluir o outro, que está disponível online.

Por último, a Colecção Livro B está de volta pela E-Primatur, prometendo livros que integrarão o Plano Nacional de Leitura (espero que este detalhe torne a colecção sustentável para que se possa manter).

 

Novidade: Harrow County Vol. 5 – Cullen Bunn,Tyler Crook e Carla Speed McNeil

A G Floy anuncia um novo volume da série Harrow County, uma série de banda desenhada de horror que tem surpreendido, sucessivamente, pela positiva:

O Abandonado, aquela figura enorme, ameaçadora, com os seus olhos amarelos e inquietantes, raramente sai da sua cabana escondida nas profundezas dos bosques do Condado de Harrow. Mas não foi sempre assim. E, quando um grupo de caçadores forasteiros chega a Harrow County em busca de caça grossa, vão encontrar algo muito para além do que imaginavam. E Emmy vai continuar a conhecer mais visitantes vindos do exterior, e a descobrir mais segredos do seu passado e das suas raízes, no volume que marca o início da recta final da série.

Este volume reúne os números #17-20 de Harrow County, o estranho e inquietante conto de fadas southern gothic, criado pelo escritor Cullen Bunn e assombrosamente desenhado e pintado pelo artista Tyler Crook.

A artista convidada neste volume, Carla Speed McNeil (que já anteriormente tinha participado na série) é bem conhecida dos meios da banda desenhada mais indy nos Estados Unidos. A sua série Finder é considerada uma das mais originais e inovadores séries de ficção-científica dos comics, uma série que ela começou por auto-editar, antes de encontrar um lugar e uma edição integral na Dark Horse. McNeil já foi nomeada para inúmeros prémios Eisner, e venceu o Russ Manning Award (que distingue um artista em início de carreira) e vários Ignatz Awards (que distinguem edições de autor e pequenas editoras). Em 2011 venceu também o prestigiado Los Angeles Times Book Prize, que distingue o melhor livro do ano (neste caso, na categoria de Melhor Romance Gráfico, para o seu livro Finder: Voice).

 

Cullen Bunn é um autor de comics americanos, bem conhecido pelas histórias que escreveu para a Marvel, em particular as suas mini-séries de Deadpool (cujo primeiro volume a G.Floy já editou). É também um conhecido romancista de histórias de terror, e autor de inúmeras séries de comics independentes. Tyler Crook trabalhou durante anos na indústria de videojogos, até ao lançamento, em 2011, de Petrograd, uma novela gráfica escrita por Phillip Gelatt, que marcou a sua estreia na BD. Crook venceu também um Russ Manning Award, um prémio atribuído durante os Eisners, e que premeia o trabalho de um estreante no mundo da BD.

Originalmente prevista para seis volumes, o sucesso da série levou a que fosse prolongada para um total de oito. O volume 5 inclui também um extenso dossier sobre o processo de colorização da série pelos coloristas deste volume, Jenn Manley Lee e o próprio Tyler Crook.

 

Injection – Vol. 3 – Ellis, Shalvey e Bellaire

Se o primeiro volume apresenta várias vertentes desta realidade semi futurista, semi apocalíptica e semi distópica, e o segundo volume apresenta um lado mais racional, calculista e lógico das investigações em torno da I.A., o terceiro alterna com um tom mais movimentado e agressivo, dando força a toda a componente fabulástica que já me tinha fascinado no primeiro volume.

Neste volume o cenário desloca-se para a Cornuália, mais especificamente nas imediações de um círculo de pedra descoberto há pouco tempo – um momento onde também é descoberto um corpo recente, e que desperta atenção suficiente para que a uma das pessoas da equipa que construiu a I.A. se desloque ao local.

O cenário não desilude e, entre personagens suspeitas, fechadas e desconfiadas, encontramos muito mais do que seria de esperar num local de importância arqueológica, revelando-se fortes elementos sobrenaturais que provocam estranhos e horripilantes cenários.

Este terceiro volume possui bastante mais acção e menos introspecção do que o segundo, colocando fortes elementos sobrenaturais e misturando-os com as fábulas célticas, tal como tinhamos visto rapidamente no primeiro. A I.A. criada pelos humanos tem uma forma muito distinta de pensar e continua a tentar alargar-se para outras realidades, construindo-as ou alterando-as – é uma força com lógica própria que pode ser intuída pelos seus criadores, mas não prevista, o que lhe confere uma aura de inquietação e horror.

Este volume possui uma história estanque, dando pistas para a história global que tem sido exposta ao longo destes três volumes – ainda estao a ser expostas as peças do puzzle, peças que vão sendo mostradas de ângulos bastante diferentes e que seguem as perspectivas peculiares de cada investigador que contribuíu para a construção da inteligência artificial.

Resumo de Leituras: Fevereiro de 2019 (2)

13 – Y: O Último Homem – Vol. 7 – Bonecas de Papel – Yorick chega finalmente à Austrália e descobre pistas da sua namorada – mas esta há muito que deixou o continente e foi para Paris. Paralelamente, uma jornalista tenta divulgar a existência de Yorick e não olha a fins para o fazer;

14 – Injection – Vol.3 – Ellis, Shalvey e Bellaire – Um local histórico torna-se o cenário de um horrendo crime revelando-se, também, um local de grandes forças sobrenaturais. Se, no volume anterior, se tinha investido na lógica para perceber a IA, neste volume seguem-se caminhos menos óbvios mas mais macabros;

15 – Jessica Jones – Vol.1 – Sem Limites – Bendis, Gaydos e Hollingsworth – A heroína sai da prisão e é envolvida por uma organização que pretende acabar com os super heróis – precisando, para tal, de Jessica para conhecer os seus segredos;

16 – Y: O Último Homem – Vol. 8 – Dragões de Kimono – Neste oitavo volume a busca pelo macaco capuchinho de Yorick leva-os ao Japão, onde encontram uma máfia conduzida por uma cantora pop americana!

Resumo de Leituras: Fevereiro de 2018 (1)

 

9 – Ms. Marvel – Vol. 2 – G. Wollow Vwilson e Adrian Alphona – Neste segundo volume de Ms. Marvel a heroína continua a distinguir-se pela sua diferente ascendência e pelas batalhas que escolhe, reparando no desaparecimento de elementos da sociedade que ninguém se preocupa em investigar. Com elementos divertidos e leves, é uma banda desenhada interessante, com alguma acção;

10 – Circe – Madeline Miller – A autora pega em Circe e romantiza a vida desta divindade, tornando-a numa personagem com dimensão, em que os elementos que a caracterizam são justificados, dando noção de coerência entre os vários mitos em que aparece;

11 – Injection Vol.2 – Warren Ellis, Sharlvey e Bellaire – O segundo volume centra-se na investigação de duas mortes para apresentar uma outra perspectiva sobre a peculiar Inteligência Artificial que tem uma forma própria de aprender e de manipular os seres humanos. A história possui detalhes grotescos (como seria de esperar de Warren Ellis), de horror fantástico e de ficção científica, numa mistura inquietante;

12 – Os crimes dos viúvos negros – Isaac Asimov – O famoso autor de ficção científica escreveu, também, algumas histórias no género de crime. Neste volume reúnem-se aquelas que decorrem com os Viúvos Negros, um clube de homens que não permite, nos seus serões, mulheres. Cada membro vai organizando um serão diferente, podendo convidar alguém que possa suscitar interesse – mas ao longo dos serões aqui relatados os convidados apresentam crimes para os quais não tinham solução, mas que o empregado de mesa do clube resolve com astúcia e humildade após o questionamento dos membros do clube.

Humanus – Vários autores

Humanus é uma antologia de banda desenhada publicada pela Escorpião Azul que possui tanta diversidade nas suas histórias quantos os livros publicados pela editora, resultando de um convite a todos os seus autores (e mais alguns) para construirem novas e curtas histórias.

O volume abre com uma belíssima história de Rui Lacas que apresenta o confronto de criaturas antigas com a humanidade, passando para uma história de fantasia e ficção científica de Miguel Santos (conhecido por Ermal). A partir daqui vamos lendo todo o género de histórias em todo o género de estilos – futuristas como João Monteiro, distópicas como João Vasconcelos, cómicas como Álvaro ou Derradé, poéticas como a da dupla de Inês Garcia e Tiago Cruz.

Com 270 páginas e mais de 30 histórias, Humanus apresenta histórias de todos os géneros, podendo ser um óptima forma de introduzir os autores que tem em catálogo ou de os rever, para quem já os conhece. O resultado é um excelente conjunto de pequenas curtas de banda desenhada de autores que publicam no mercado português!

A evolução da ficção especulativa em Portugal – uma perspectiva pessoal

Quem anda há mais décadas no meio fala de uma época longínquoa em que se traziam, com bastante regularidade, os autores mais importantes do género a Portugal. Fala, também, de uma quantidade absurda de livros publicados que englobava clássicos e novidades. Como exemplo desta época dourada, ficaram as extensas colecções de livros de bolso, Argonauta, Caminho ou Europa-América.

Pois bem, nessa época, eu não conhecia nada disso, pelo que não tenho uma perspectiva tão catastrófica quanto aos tempos actuais. O pico do género que conheço tinha alguma publicação regular (com as colecções Europa-América há 20 anos ou a da Presença). Mas foi há uns 15 anos que tive finalmente acesso regular à internet e me apercebi que existiam outros leitores dos géneros da ficção especulativa, ficção científica, fantasia e horror. Existiam, até, autores portugueses! E, espante-se, existiam novas editoras a publicar livros clássicos, a produzir antologias, e autores portugueses com boas obras que nada ficavam a dever às estrangeiras.

Falava-se de ficção científica e fantasia. Mas sobretudo em fórums (Filhos de Athena e Scifi freaks com os respectivos canais IRC) onde conheci algumas das pessoas que ainda hoje são referências no género. A Saída de Emergência estava a dar os primeiros passos, com livros como À Boleia pela Galáxia, Elric ou a Invenção de Leonardo de Paul McAuley. A Safaa Dib ainda não pertencia à editora mas organizava, com o Rogério Ribeiro, o Fórum Fantástico. Tanto a Gailivro, como a Editorial Presença publicavam, regularmente nos géneros da ficção especulativa, onde se destacavam vários autores portugueses (João Barreiros, Luís Filipe Silva, Filipe Faria, Ricardo Pinto, Sandra Carvalho, Inês Botelho). Existia, ainda, uma pequena editora que lançou poucos livros, em edições de pequena tiragem, mas de grande qualidade – A Livros de Areia.

Então, quais têm sido as grandes mudanças no género em Portugal  na publicação? Bem, a maioria destas grandes editoras quase que deixaram de publicar no género. Quer autores portugueses, quer autores estrangeiros. E quando o fazem raramente indicam o género a que os livros pertencem. Ficam-se pela etiqueta de ficção, e algumas descrições mais filosóficas sobre o conteúdo. A Saída de Emergência tem publicado bons livros, mas são escolhas mais conservadoras e menos arriscadas. Já as restantes, fugiram totalmente da ficção científica explícita, publicam alguma fantasia solta e quase nada de horror. Mais recentemente, a Topseller tem-se distinguido com boas leituras de autores menos conhecidos em Portugal e nem sempre ligados à indústria cinematográfica.

A publicação de autores portugueses tem sido feita, sobretudo, por pequenas editoras. Destacam-se as edições de autor, a Imaginauta e a Editorial Divergência. Existe, sobretudo nestas duas editoras, um esforço em publicar romances e contos em antologias, mas não existe nenhuma publicação regular em formato revista para além da Bang!. As fanzines praticamente desapareceram. Já a crítica literária de ficção especulativa é quase inexistente nos meios oficiais – a crítica centra-se sobretudo em livros políticos, obras sem grande componente narrativa, mais filosófica e introspectiva. Restam os blogues. Restam os comentários em grupos de facebook. O que não é mau, mas não é comparável em termos de exposição.

 

Então e os eventos?

Nesta componente acho que estamos a evoluir a passos largos. O Fórum Fantástico persiste, conseguindo melhorar a cada ano, e têm surgido outros eventos interessantes no género. O Sci-fi LX tem decorrido no IST. A Saída de Emergência tem organizado o seu próprio evento fantástico (com uma grande adesão de leitores), o Festival Bang!. Surgiu a Comic Con no Porto que passou este ano para Lisboa (com todos os seus defeitos e vantagens, mas é mais um meio para os que gostam do género). O Contacto organizou-se pela primeira vez o ano passado e promete regressar agora em 2019! Estes novos eventos não se centram apenas nos livros, mas também em todas as outras vertentes, com o intuito de juntar fãs e proporcionar bons momentos.

Prémios literários

Ainda que a publicação seja, sobretudo, em pequenas edições, existem alguns prémios para incentivar novos autores. Mesmo que não exista propriamente uma indústria onde possam crescer (pelo menos não comparável à que existe nos mercados anglosaxónico ou francófono). O Prémio Bang! organizado em parceria com a FNAC possibilita a publicação de contos na revista Bang!, o prémio António de Macedo possibilita a publicação de um livro pela Editorial Divergência (para além de conceder um prémio monetário) e o Prémio Ataegina premeia um conto, mas não confere, ainda, possibilidade de publicaçao. Também durante o Fórum Fantástico são atribuídos prémios para diversas categorias – os Prémios Adamastor. Lá fora, Rui Zink venceu o prémio Utopiales com uma distopia.

E a projecção dos autores portugueses para o estrangeiro?

Era baixa e continua a ser baixa. Entre 2001 e 2006 o Luís Rodrigues participou (e mais tarde assumiu) a publicação de Fantastic Metropolis e em 2007 João Barreiros teve um conto publicado numa antologia estrangeira em 2007 (The SFWA European Hall of Fame). Mais recentemente, Dormir com Lisboa de Fausta Cardoso Pereira venceu um prémio galego e foi publicado em Espanha, Mário de Seabra Coelho teve dois contos publicados em revistas anglosaxónicas e foi um conto deste autor que a Imaginauta escolheu para levar a uma convenção internacional para dar a conhecer algo do que se produz em Portugal.

Os próximos anos

Enquanto algumas iniciativas recuperam livros quase esquecidos de autores portugueses de ficção científica (como o Projecto Adamastor), planeia-se uma continuação dos eventos para os próximos anos (se bem que se denota que alguns irão, decerto, sofrer reestruturações). A Imaginauta e Editorial Divergência já prometeram que o próximo ano trará duas mãos cheias de novos livros de autores portugueses.

O que falta?

1. Uma crítica consistente que consiga chegar a novos leitores. Novos leitores trarão, sem dúvida, um maior investimento no género e a possibilidade de fazer crescer a qualidade e a quantidade de publicações. O Candeias tem feito um óptimo trabalho na agregação de comentários a livros de ficção especulativa, mas falta algo que faça chegar os livros a um público maior.

2. Publicações regulares sobre o género que informem e envolvam novos leitores. A Bang! é uma excelente revista, mas não pode continuar a ser a única. Por outro lado, a diversidade de editoras que publicam autores portugueses também é baixa e não favorece o surgir de novos autores (apesar dos esforços das pequenas editoras nacionais).

Notas finais – esta perspectiva baseia-se, sobretudo, nas pessoas que fazem parte do fandom, as que têm como interesse uma das vertentes da ficção especulativa. Ficam de fora as publicações por Vanity Press.

As melhores leituras de 2018 – Banda desenhada

À semelhança do que fiz com as restantes leituras de 2018, eis uma listagem dos melhores livros de banda desenhada que tive oportunidade de ler este ano! Entre os 220 livros que li em 2018 entre 2/3 e 3/4 é de banda desenhada, pelo que muitos livros excelentes terão de ficar de fora! Irei começar com as melhores leituras nacionais!

Obras portuguesas

Melhor banda desenhada de ficção científica

 

 

 

 

 

 

 

A escolha de um destes estava tão difícil que optei por seleccionar ambos. Ambos são bastante irónicos na forma como abordam as transformações em curso na nossa sociedade. No caso de Futuroscópio de Miguel Montenegro encontramos vários contos que abordam aspectos diferentes, exagerados, levados ao extremo, numa caricatura aos movimentos sociais. O futuro não é risonho, apesar de haver uma aparente felicidade dos cidadãos (da ignorância vem a felicidade) – é um beco sem saída sem evolução, uma regressão da humanidade que deixa, como legado, a tecnologia avançada, mas que não poderia ser criada pelos humanos que com ela coexistem.

Já em Watchers de Luís Louro seguimos, numa realidade futura, um grupo de jovens denominados watchers que usam a tecnologia para criar canais que expõem o mundo que os rodeia. Sem filtros, sem análises nem contextos, as filmagens são divulgadas para todos os que as quiserem ver. Começando com episódios fofinhos e caricatos, a busca de mais seguidores e de mais reacções nas redes sociais depressa leva a que sejam filmadas situações mais inusitadas, ridículas, perigosas e violentas. Até onde se vai pela busca de seguidores?

Comentário mais detalhado:

Futuroscópio – Miguel Montenegro;

Watchers – Luís Louro. 

Melhor banda desenhada de fantasia – Zahna – Joana Afonso

Zahna possui o estilo característico de Joana Afonso, um estilo que se destaca na transmissão de emoções e sentimentos e que conferem traços de caricatura às suas personagens. A protagonista é uma mulher guerreira, rabugenta mas leal às suas responsabilidades, que se vê literalmente com uma maldição sob a cabeça! Leitura divertida, Zahna deturpa ligeiramente os clichés da fantasia para apresentar uma história engraçada.

Comentário mais detalhado

Melhor banda desenhada cómica – Conversas com os putos e os pais deles – Álvaro

À semelhança do volume anterior, Álvaro reúne neste Conversas com os putos e com os pais deles, uma série de conversas com os seus alunos e os respectivos pais. Se as conversas com os jovens se encontram entre o absurdo e o quase impossível de tao idiotas, as conversas com os seus pais ainda são piores.

Comentário mais detalhado.

Melhor narrativa de ficção – Olimpo Tropical – André Diniz e Laudo Ferreira

Quem é o vilão? O traficante ou a polícia corrupta? Em Olimpo Tropical retrata-se a realidade da favela onde os estudos são largados cedo por falta de sucesso, a favor das ocupações de mais fácil dinheiro, quase sempre relacionadas com o tráfego de droga e a criminalidade. Quem manda é quem se mostra mais destemido, quase louco, na sua capacidade de se fazer temer pelos outros. Visualmente expressivo, exagerado em expressões e traços físicos, Olimpo Tropical é um trabalho excelente que é capaz de cativar o leitor, fazendo-nos perceber a realidade inevitável das favelas que engole os seus moradores num ciclo interminável – quem tenta arranjar um emprego fora da favela é descriminado ou ganha tão pouco que se torna impossível sustentar uma família.

Comentário mais detalhado

Obras de autores estrangeiros

Melhor banda desenhada de super-herói – Ms. Marvel – G. Willow Wilson e Adrian Alphona

Ms. Marvel não é uma heroína comum – muçulmana, distingue-se fisicamente do aspecto tradicional das heroínas enquanto altas e louras; e culturalmente pelas suas origens pouco ocidentais. O resultado é uma heroína que se preocupa com os comuns cidadãos e que apresenta conflitos pessoais diferentes do que é habitual. Este volume apresenta como surgiu Ms.Marvel, dando grande foco à componente pessoal, ainda que não faltem os característicos episódios de acção.

Comentário mais detalhado.

Menção honrosa – Michael Chabon’s The Escapists

No seguimento de uma tradição ficcional de livros sobre livros que não existem, a história centra-se num rapaz fascinado pelos livros de banda desenhada do falecido pai. Estes livros de banda desenhada centravam-se num herói há muito esquecido que o jovem tenta recuperar. Para tal compra os direitos do super-herói e tenta montar uma pequena gráfica para produzir novas aventuras!

A história vai intercalando episódios da vida deste rapaz, com episódios da velha banda desenhada e episódios da nova. São três histórias que ecoam umas nas outras, enquanto a ficção se imiscui na realidade, e a realidade se traduz numa nova ficção, sendo que o próprio autor entra neste jogo e constrói uma excelente homenagem ao livro de Michael Chabon.

Comentário mais detalhado.

Menção honrosa – Batman – O príncipe das trevas – Marini

O príncipe encantado das trevas alterna o foco entre dois casais peculiares – o de Batman com a Catwoman, e o de Joker com Harley Quinn, mostrando dois relacionamentos disfuncionais, cada um da sua forma. Lançado em dois volumes de formato maior do que é habitual, esta história destaca-se pelo belíssimo aspecto gráfico, em que Marini é narrador e desenhador. A linha narrativa tem vários pontos previsíveis com vários clichés, mas a leitura consegue captar o leitor e dar-nos a sensação final de termos assistido a um filme.

Comentário mais detalhado.

Melhor adaptação – Afirma Pereira – Pierre-Henry Gomont

Afirma Pereira é o despertar da consciência política de um homem que, até então tinha vivido demasiado voltado para si mesmo e preso no passado. Neste acordar, quase forçado por novas empatias, não se consegue remediar totalmente pela anterior apatia, mas tenta, enfrentando as consequências. Depois de anos preso às memórias de um passado distante, Pereira começa a reconhecer as pequenas notas políticas no que o rodeia, tanto no jornal, como nas ruas em que dantes passava como inocente. Reconhece, também, que o enfrentar desta situação tem um custo elevado.

Comentário mais detalhado.

Menção honrosa – O jogador de xadrez – David Sala

O tema da história é simples e roda em torno de um jogador de xadrez. Mas se esperamos que a história se centre no maior jogador de xadrez, um imbatível mas inculto jovem que vence qualquer jogo, somos rapidamente desenganados. No barco em que viaja encontram-se vários homens curiosos pela presença do campeão, não sendo, assim, de estranhar, que organizem um jogo de xadrez em que todos, em conjunto, enfrentam o campeão.

Após as primeiras jogadas, destaca-se, entre o grupo de amadores, um homem cujo intelecto parece competir com o do campeão, referindo jogadas que deixam o campeão surpreso. Este homem misterioso não só esconde um enorme talento no xadrez, como um passado pesado que liga a prática xadrez a eventos psicologicamente marcantes. Utilizando elementos artísticos de pintores famosos do fim do século XIX ou início do XX (que a sinopse da editora identifica como Klimt ou Schiele) a história é tudo menos linear ou, até, aborrecida. A tensão que se cria ao longo do jogo de xadrez transporta o jogo para outra dimensão e o foco deixa de estar nas jogadas, confrontando-se a curta história do campeão, com a traumática história de um anónimo que se lhe iguala.

Comentário mais detalhado.

Melhor banda desenhada história – O Comboio dos órfãos – Vol.2 – Philippe Charlot e Xavier Fourquemin

Esta série centra-se nas crianças que foram deslocadas das grandes cidades para serem adoptadas ao longo dos Estados Unidos, nos anos 20. Mas nem todos os que recebem estas crianças têm boas intenções, e algumas crianças são usadas como trabalhadores, ou são levadas a casar prematuramente. Para além do bom aspecto visual, a série destaca-se por conseguir apresentar uma situação trágica mas, ao mesmo tempo, dar-lhe pequenos detalhes cómicos entre os diálogos infantis. Esta mistura resulta numa excelente leitura – uma das favoritas de 2019.

Comentário mais detalhado.

Menção honrosa – Marcha para a morte – Shigeru Mizuki

Marcha para a Morte é um livro sobre a Guerra. Mas acima de tudo, um livro que nos mostra o quão absurda é a guerra, desperdiçando a vida dos soldados por estratégias mal definidas, levando adolescentes imberbes a enfrentar outros imberbes adolescentes, uma constante falta de consideração pela vida – e para quê? Aproveitando a sua própria experiência na guerra, Mizuki traça um retrato crítico, de elevada tensão, onde os momentos trágicos são acompanhados por tiradas de humor negro que dão nova perspectiva aos acontecimentos.

Comentário mais detalhado.

Melhor banda desenhada de ficção científica – Descender – Jeff Lemire e Dustin Nguyen

Existem várias séries de ficção científica e fantasia em curso, publicadas principalmente pela Image mas Descender continua a ser, para mim, uma das melhores. Por um lado, a temática corresponde ao meu género favorito (a ficção científica) mostrando um Rise of the machines num futuro distante. Por outro, a história consegue a proeza de mostrar várias linhas narrativas que se vão cruzando e dando diferentes pontos de vista aos acontecimentos. Por último, o estilo gráfico de Dustin Nguyen adequa-se totalmente à história e torna as páginas fascinantes.

Comentário mais detalhado.

Menção honrosa – Imperatriz – Vol.1 – Mark Millar e Stuart Immonen

Visualmente fabuloso, este Imperatriz parecia, nas primeiras páginas, trazer uma história quase cliché, com a mulher de um homem poderoso mas violento, a fugir pela galáxia com os filhos. Toda a história nos leva a pensar numa determinada situação passada que não se verifica acabando por nos surpeender. Do ponto de vista gráfico, os autores aproveitam a possível diversidade de planetas para contrastar cidades sobrepopuladas e futuristas com desertos gelados e desolados. O resultado é movimentado e visualmente fabuloso!

Comentário mais detalhado.

Menção honrosa – Ciudad – Giménez e Barreiro

Com algumas semelhanças a Parque Chas, Ciudad centra-se numa cidade sem tempo, uma espécie de buraco negro onde vão parar habittantes de todos os tempos e lugares – imensa e diversa, uma cidade sem fim nem saída. A cidade não é contínua, nem no espaço, nem no tempo, e a dupla de exploradores experimenta o passado e o futuro, ambos traumatizantes, não percebendo as diferenças na duração da noite e do dia entre as diferentes partes da cidade. Cruzando outras ficções com esta narrativa (não só pela apresentação de monstros, como pelo surgir da figura Eternauta, e por referências indirectas a outras obras) Ciudad funde vários elementos para se transformar numa longa e rica viagem.

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Melhor narrativa ficcional – Essex county – Jeff Lemire

Este volume reúne três histórias diferentes que se interligam e que decorrem em Essex County  – o ambiente é frio e inóspito, e os relacionamentos humanos mostram-se difíceis. A razão de tal dificuldade deriva de uma série de segredos familiares e desgraças passadas que o autor vai desenvolver em várias linhas narrativas. As personagens ultrapassam a ficção e passam a ser pessoas com passado e densidades – pessoas que se encontram e desencontram tal como o leitor.

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Menção honrosa – O cão que guarda as estrelas – Takashi Murakami

Neste pequeno livro aproveita-se a figura do animal de estimação, neste caso um cão, como forma de explorar a complexidade dos relacionamentos (e a sua evolução). O cão oferece uma visão simples, mas através dele vamos interpretando os sinais de algo diferente, como o afastamento do casal, em que, ao invés de apoio mútuo, encontramos sacrifício e apoio de uma das partes, mas, da outra, egoísmo e quebra completa. O animal de estimação acaba por se tornar o único ponto de consolo e de amizade, o único relacionamento que se mantém, e que serve de consolo para o homem que se vê fora da própria casa e da própria vida.

Com uma pequena aura de tragicidade (já conhecemos o final da dupla desde o início) e passando o sentimento de destino que se irá cumprir, a história coloca-nos a tentar perceber o percurso das duas personagens. O animal fornece uma perspectiva interessante, com elementos que ele não compreende, mas que o leitor percebe.

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As melhores leituras de outros anos

Resumos / melhores de 2018

As melhores leituras de 2018

Este ano fiquei-me por cerca de 220 leituras (em oposição às 270 do ano passado) em que  cerca de 3/4 são de banda desenhada. Deste um quarto, eis quais as melhores leituras – para a banda desenhada hei-de fazer um best of próprio (lista de livros lidos).

Obras portuguesas

Melhor colectânea – Os Monociclistas / Seis Drones – António Ladeira

 

 

 

 

 

 

 

Neste caso não é uma, mas duas, do mesmo autor e semelhantes em forma. As duas colectãneas reúnem histórias distópicas e futuristas onde o autor usa a projecção de exageros tecnológicos para construir sátiras de ficção científica onde se analisa a sociedade actual e os seus possíveis desenvolvimentos. Nalguns contos a segurança é uma obsessão justificando câmaras de vigilância e métodos de interrogação bastante agressivos, noutros desenvolvem-se tecnologias ao seu extremo, seja por comodidade, seja por vantagem económica. São dois bons conjuntos de histórias, bem construídos e inteligentes que nos fazem pensar nos caminhos que a sociedade actual deve evitar para o futuro.

Comentário mais detalhado aos livros:

Colectâneas – Menções honrosas

Tudo isto existe – João Ventura

Este ano foi bom em colectâneas. A prová-lo temos, também, esta de João Ventura, um conjunto extraordinário de histórias carregadas de imaginação. Algumas pegam em elementos triviais do quotidiano e apresentam-nos sob uma nova luz, jogando com palavras e conceitos e dando vida ao inimaginável. São, na sua maioria, histórias curtas de composição elegante que usam o mínimo de palavras, numa optimização refrescante que obrigam a que se esteja atento a cada passagem.

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Melhor antologia – Lisboa Oculta – Guia Turístico

Esta antologia já anda a ser falada há algum tempo mas viu finalmente a luz do dia em 2018. Apresentando vários locais de Lisboa sob uma luz fantástica, Lisboa Oculta reúne histórias de vários autores numa edição bilingue que se destaca, não só pela qualidade das histórias, mas também pela composição gráfica em que cada conto possui elementos visuais apropriados.

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Menção honrosaComandante Serralves – Expansão

Não é segredo que gostei bastante da primeira antologia Serralves pelos elementos lusitanos que encontramos. Se tinha achado que o primeiro volume não era constante em qualidade, neste segundo as histórias são todas boas e apresentam aspectos diferentes desta realidade futura em que um Império pretende eliminar as diferenças culturais como forma de unir a humanidade contra um inimigo comum. Neste seguimento, existe, claro, um grupo de resistentes com elementos bem portugueses – a nave da resistência chama-se Maria e os seus tripulantes são desenrascados!

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Melhor obra de ficção científica – Crazy Equóides – João Barreiros

Escrito para uma antologia erótica de ficção científica e fantástico que não foi publicada, Crazy Equóides consegue a proeza de usar a sexualidade como premissa sem resvalar para caminhos demasiado obscuros, apresentando uma das suas habituais histórias duras, carregadas de máximo prejuízo, sem perder a coerência narrativa e contendo pequenas reviravoltas que nos mantém interessados. É um livro obrigatório para quem gosta de ficção científica, mas que pode ser mal recebido por pessoas mais sensíveis.

Melhor obra de fantasia – Dormir com Lisboa – Fausta Cardoso Pereira

Publicado no seguimento do prémio Antón Risco, Dormir com Lisboa começa com várias pessoas a desaparecerem por entre efémeros buracos no chão da cidade. Rapidamente desaparecidas sem deixar rasto, levam ao pânico da população e das autoridades que se reúnem para tentar controlar a catástrofe que não parece mostrar padrão ou intenções de parar. Em Dormir com Lisboa a cidade é a protagonista, o elemento que faz mover o enredo, o palco da história, a personagem que se expressa de formas misteriosas nem sempre perceptíveis pelos seus habitantes – a personagem que tem várias faces e se mostra sob diferentes perspectivas, tantas quantas a sua história e diversidade cultural lhe permitem.

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Melhor Conto – O Farol Intergaláctico – João Pedro Oliveira

Não podia fechar este apanhado de melhores leituras de autores portugueses sem referir este conto publicado pela colecção Barbante. Publicado neste pequeno formato, apresenta um jovem que, tendo viajado pelas estrelas umas semanas, visita um amigo e encontra-o velhote mostrando a relatividade provocada pelas viagens intergalácticas. O tema não é novo, mas é tratado de forma envolvente provocando uma certa nostalgia no leitor.

Obras de autores estrangeiros

Melhor colectânea – O corpo dela e outras partes – Carmen Maria Machado

O corpo dela e outras partes de Carmen Maria Machado reúne várias histórias com elementos de ficção especulativa (horror, ficção científica e fantástico) mas o que surpreende é a forma como entrelaça a sexualidade das suas personagens. Encontramos heterossexuais, homossexuais ou bissexuais em semelhante proporção, em contextos quase banais, sendo que o que se distingue do banal são os elementos fantásticos. O resultado constitui uma abordagem interessante à diversidade dentro do género, construindo boas histórias independentemente desta componente.

Menção honrosa – How to fracture a fairy tale – Jane Yolen

Jane Yolen não é nova nestas andanças de refazer contos de fadas e nesta colectânea reúne o resultado de vários contos refeitos – ora para apresentarem uma perspectiva de uma personagem pouco usual (como a de uma ponte que serve de abrigo a um troll), ora para fazer o leitor se questionar sobre o motivo pelo qual um príncipe quereria beijar uma princesa morta num caixão de vidro.

Melhor antologia – Fungi

Comecei a ler esta antologia em formato digital há uns anos, mas só recentemente, com a aquisição do volume físico é que terminei a leitura. A antologia não tem uma qualidade constante, até porque parece ter-se preocupado mais em apresentar vários formatos diferentes de história (alguns deles experimentais) do que em apresentar boas narrativas, mas possui excelentes contos, como o de Jeff Vandermeer (que decorre na realidade de Ambergris), ou o de Jane Hertenstein com cogumelos que representam um estilo de vida, ou o de Molly Tanzer e Jesse Bullington onde se constrói um mundo felino marcado por uma praga provocado por fungos.

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Melhor obra de ficção científica – Amatka – Karin Tidbeck

Amatka destacou-se pela forma como usa a sua premissa peculiar para apresentar uma distopia de leitura perturbadora. Em Amatka nada é realmente o que parece, sendo que é necessário recordar, todos os dias, os objectos, do que eles são, num processo chamado marcação. E nada de errar na descrição, ou o objecto pode transformar-se noutra coisas qualquer. Não é, assim, de estranhar, que a sanidade mental dos habitantes deste mundo esteja por um fio, sendo mantida por uma série de procedimentos obrigatórios, dos quais fazem parte a denúncia de alguém que não marque bem os objectos pelos quais é responsável.

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Menção honrosa – Os humanos – Matt Haig

Os Humanos é uma obra cómica que usa a presença de um alienígena entre humanos para tecer uma série de piadas sobre a nossa sociedade e a forma como nos relacionamos. Não pretendendo ser séria, consegue ter vários episódios e tiradas que nos fazem pensar nos motivos para agirmos como agimos.

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Melhor obra de horror – A maldição de Hill House – Shirley Jackson

Não é a minha obra favorita de Shirley Jackson, quando comparada com Sempre vivemos no castelo ou The Lottery mas é uma excelente leitura por conseguir transmitir grande urgência e suspense sem apresentar elementos explícitos de terror. É sim, uma história que questiona as capacidades psicológicas e emocionais das personagens e que joga com a percepção do leitor.

Melhor obra de fantasia – The tangled lands – Paolo Bacigalupi e Tobias S. Buckell

Este ano não tive grande oportunidade para ler muitos livros de fantasia, mas este destaca-se pela forma como usa a magia. Sim, neste mundo a magia existe e pode ser usada para múltiplos fins. Mas o seu uso tem consequências – o crescimento de uma espécie de erva daninha que adormece e mata os humanos em que toca. O crescimento desta erva é de tal forma forte que destrói cidades inteiras e origina refugiados. Partindo desta premissa os dois autores tecem quatro bons episódios que se passam neste mundo.

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Melhor conto – The Martian in the Wood – Stephen Baxter

Este conto aproveita a realidade criada em A Guerra dos Mundos para apresentar uma história que decorre algum tempo após o desaparecimento de várias pessoas. Neste contexto uma rapariga volta à casa dos pais desaparecidos, encontrando um irmão semi ausente que prefere explorar a floresta – uma floresta onde ocorrem estranhos fenómenos, e em torno da qual começam a aparecer animais mortos pendurados nos ramos das árvores. Um dia, a rapariga decide perseguir o irmão e encontra uma comunidade de hominídeos que dificilmente consegue explicar.

O fecho do ano de 2018

O Rascunhos em 2018

A ficção especulativa em Portugal

Melhores leituras de outros anos

2017

– 2016

2015

2014

2011

2010

2009

2008

2007

2006

 

 

Retrospectiva 2018 – O Rascunhos

2018 no Rascunhos

Ultrapassando as 82 000 visualizações, este ano trouxe grandes novidades. Algumas programadas, outras inesperadas ainda que, por vários motivos pessoais, o número de leituras e de artigos tenha sido menor do que em 2017 (no caso dos livros lidos, foram 220 contra os 270 do ano anterior). Se tenho por objectivo a médio prazo aumentar a leitura noutros idiomas que não o inglês ou o português, ainda não foi este ano que o consegui.

Tal como tem sido habitual nota-se uma grande procura pelas obras que estão no Plano Nacional de Leitura mas eis um destaque para as entradas de 2018 para tiveram maior número de visualizações: A maldição de Hill House de Shirley Jackson, O Corpo dela e Outras Partes de Carmen Maria Machado, e Borne de Jeff Vandermeer. Na banda desenhada, O Ateneu de Marcello Quintanilha,  Beowulf de Santiago Garcia e David Rubín. e The Fade Out de Ed Brubaker e Sean Phillips foram os mais vistos. De destacar, também, Comer / Beber de Filipe Melo e Juan Cavia, entrada que foi publicada no final de 2017 mas que atingiu o topo de visualizações em 2018.

Este ano o Rascunhos cresceu em diversas direcções:

– Programa na Voz Online (rádio);

– Participação em eventos nacionais;

– Jogos de Tabuleiro.

O programa na Rádio Voz Online contou com 23 episódios, (também disponíveis na Mixcloud) onde aconselhei leituras e jogos de tabuleiro, ou onde entrevistei autores, editores e organizadores de eventos, centrando-me sobretudo na banda desenhada e na ficção científica.

As participações em eventos aumentaram este ano. A participação no Fórum Fantástico para as Leituras do Ano repetiu-se e ainda estive numa mesa sobre Podcasts literários. No Festival Bang! estive com a Inês Botelho a falar sobre o papel da mulher no fantástico e no Sci-fi LX falei de naves na ficção científica portuguesa e de robots literários com João Barreiros. No Literal (em Alenquer) falámos do futuro da ficção científica em Portugal. Na área da banda desenhada estive à conversa com Daniel Henriques na Comic Con e apresentei o Rascunhos na Tertúlia BD de Lisboa.

Para além de participar novamente como júri no concurso de mini conto da Saída de Emergência com a FNAC, participei no júri para os Galardões Comic Con. Este ano viu ainda a publicação de Quem chama pelo senhor Aventura?, o livro escolhido para a primeira edição do prémio Divergência (no qual participei no júri).

Conforme previsto o ano passado, concretizou-se o espaço para jogos de tabuleiro (com uma rubrica mais ou menos quinzenal, aos Sábados, onde falo de jogos e de experiências envolvendo jogos) e estabeleceram-se parcerias nessa área.

Perspectivas para o próximo ano

O ano passado previa começar a falar de música, mas ainda não se concretizou um espaço para esta componente. Espero começar, lentamente, a apresentar algo nesta secção. Em termos de programa de rádio já tenho alguns convidados previstos pelo que espero recomeçar logo em Janeiro.

E para o ano? Bem, participei na edição de uma antologia de Space Opera portuguesa, a sair em 2019 pela Editorial Divergência (tenho a dizer que fiquei muito surpreendida com a qualidade das participações) e tenho planos para lançar um novo projecto no primeiro trimestre.

A ficção especulativa em Portugal – 2018

Se tinha sentido alguma evolução na ficção especulativa ao longo dos mais recentes anos, já este ano de 2018 achei que foi mais um ano de consolidação do que de crescimento. Algumas iniciativas terminaram (ou diminuiram em frequência) enquanto outras se iniciaram. Eis um apanhado dos eventos e dos lançamentos de ficção especulativa em 2018.

Eventos

2018 foi o ano em que terminaram os eventos regulares dos Devoradores de Livros. Os encontros decorriam mensalmente numa livraria e iniciaram-se na Leituria. Mais recentemente, passaram para a Tigre de Papel. De ocorrência mensal, estes encontros traziam um convidado com o qual decorria uma conversa na livraria até um pequeno jantar de convívio. Esperemos que outra iniciativa semelhante se siga.

Em termos de lançamentos de autores nacionais 2018 começou, tal como 2017, com um livro de João Barreiros, desta vez um livro a solo, Crazy Equóides. Este livro, publicado pela Imaginauta, começou como uma história para uma antologia erótica de ficção científica e fantástico. Não se realizando a antologia, a história acabou por ser publicada em livro isolado pela Imaginauta. O lançamento decorreu num cenário bem burlesco! (para os interessados, eis vídeos do evento).

Abril foi marcado pelo Festival Contacto, um novo evento de ficção científica e fantástico que se traduziu numa tarde bem passada para participantes de todas as idades. O evento possuiu componentes literárias, mas também uma escape room, jogos de tabuleiro e lutas de sabres de luz que deliciaram os mais novos. Não faltaram as salas de magia nem as bancas de livros e não faltou o apoio logístico (como bar e esplanada). Foi uma tarde recheada que poderá se repetir em 2018.

Na vertente de horror, o Sustos às sextas que se costumava alongar por 5 ou 6 sessões de periodicidade mensal, decorreu em 2018 apenas uma vez (sendo que não pude comparecer). Outro evento que voltou a ocorrer, mas julgo que com menor adesão, foi o Sci-fi LX – decerto por causa das obras que decorriam no pavilhão e que bloquearam a usual distribuição de participantes, convidados e bancas.

A Comic Con decorreu pela primeira vez em Lisboa e tive oportunidade de ir pela primeira vez. É um evento que dedica vários espaços a várias vertentes da cultura pop, ainda que nalgumas tenha condições insuficientes. Para nós foi um dia bem passado, mas cansativo, onde tive oportunidade de conhecer alguns autores de banda desenhada e ficção especulativa.

Já o Fórum Fantástico, este ano, alongou-se temporalmente e estendeu os seus tentáculos aos eventos EuroSteamCon e ao dia 5 de Outubro, com República Irreal e Fantástica (onde se falaram de realidades alternativas). O evento principal decorreu nos três dias habituais na Biblioteca Orlando Ribeiro e trouxe, como já é usual, o que de melhor de faz na ficção especulativa portuguesa. Este ano trouxe não um, mas dois convidados internacionais: Gillian Redfearn e Chris Wooding.

O Festival Bang! é outro dos eventos que marcou o ano, sendo já a segunda edição. O evento atrai muitos leitores e explora diversos interesses tendo um espaço para jogos de tabuleiro, magia (Harry Potter) e lutas de sabres de luz. Teve como convidada internacional Robin Hobb e foi dos eventos de ficção especulativa com mais público.

Logo no fim de semana a seguir ao Festival Bang! decorrer o Literal, um evento literário em Alenquer que, este ano, se dedicou à ficção especulativa. Entre os convidados estiveram João Barreiros, Luís Filipe Silva, Inês Botelho, Madalena Nogueira Santos. No mesmo fim de semana decorreu o ComCeptCON 2018, um evento ligado à Comunidade Céptica Portuguesa que tem como objectivo informar, de forma isenta, com base em conhecimentos científicos actuais.

De teor mais académico, Mensageiros das Estrelas decorreu, como é usual na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e trouxe como convidado, Mike Carey! Por sua vez, Margaret Atwood esteve em Portugal por ocasião do Fórum do Futuro. O ano terminou com o lançamento de Quem chama pelo senhor Aventura?, o livro escolhido para o prémio Editorial Divergência.

Lançamentos

Não vou fazer uma lista exaustiva de lançamentos – apenas realçar os que considero mais importantes. Começo com os lançamentos nacionais:

E continuo com os internacionais:

E os vossos? Que lançamentos de autores nacionais destacariam?

Resumos de outros anos

The Wake – Scott Snyder e Sean Murphy

Em The Wake os humanos entram em guerra com uma espécie sapiente – uma espécie que se cruza com a humana de diversas formas, ainda que a memória de tais episódios não esteja presente.  O livro começa com a contratação de uma especialista em sons de cetáceos que viu a sua carreira colapsar pela entidade patronal. Com a carreira perdeu a guarda do filho pelo que quando a abordam com um novo projecto, prometendo resolver alguns dos seus problemas pessoais, a especialista aceite prontamente.

O que a espera não é uma baleia. Antes um ser quase humano, uma espécie de sereia bastante agressiva que emite fortes sons e é capaz de envenenar e hipnotizar humanos. O estudo do espécime capturado rapidamente se torna numa invasão destes seres que consegue subir o nível das águas de forma extraordinária, e assim eliminar grande parte da área habitada pelos humanos.

Dois séculos depois apresenta-se a nova realidade. Os humanos persistem nas poucas áreas não alagadas, em guerra com esta espécie marinha, sob uma espécie de ditadura que impede a livre comunicação e deslocação. Entre os sobreviventes existe o mito de um mundo humano debaixo das águas, um mundo que resiste aos invasores e que alguns procuram insistentemente.

Vencedor de um Eisner em 2014, esperava mais do ponto de vista narrativo deste volume. Se a primeira parte é coesa, decorrendo como uma história de terror que explora bem a criação de tensão; a segunda parte parece perder-se num futuro em que existem várias linhas narrativas possíveis (um regime totalitário, um mito que pede para ser explorado e um inimigo que justifica alguns dos acontecimentos) mas que acaba por não investir devidamente em nenhuma delas.

Visualmente competente e com um estilo apropriado aos momentos de terror marítimo, The Wake começa bem, mas desilude nos confusos episódios finais, entre ditaduras, piratas, e pistas para uma teoria que explique a razão do confronto com os humanos – razão esta que acaba por ficar em aberto, ainda que se revelem alguns detalhes da origem e ligação entre ambas.

Resumo de Leituras – Dezembro de 2018 (1)

 

204 – Princípio de Karenina – Afonso Cruz – Com menos elementos fantásticos do que é usual em Afonso Cruz, Princípio de Karenina é, também, o seu livro mais linear, contendo uma história contada pela primeira pessoa, um homem que conta a sua vida à filha, sob a forma de carta, mostrando como alguém pode viver toda a vida com medo do exterior;

205 – O Comboio dos Órfãos – Tomo 2Philippe Charlot e Xavier Fourquemin – Cada volume contém duas histórias. Neste segundo tomo detalha-se a vida de Lisa e Joey, mostrando como os interesses de quem adoptou as crianças nem sempre eram os melhores. Ambos fogem das suas novas famílias adoptivas em busca do irmão perdido de Joey;

206 – Injection Vol.1Ellis, Shalvey e Bellaire – A existir uma inteligência artificial, porque pensaria como nós? Na realidade descrita em Injection o mundo das lendas cruza-se com o real criando zonas de circulação impossível. Enquanto alguns tentam terminar com estes pesadelos vivos, outros tentam afastar-se das obrigações que os esperam;

207 – Os segredos de Loulé – João Miguel Lameiras e João Ramalho-Santos – Num futuro distante a humanidade regressa ao planeta Terra para pesquisar sobre o seu passado. Ao regressar encontra um arquivista que se mantém vivo após séculos, graças a elevada tecnologia, e que conta a história de Loulé ao longo dos séculos.

Rascunhos na Voz Online – Inês Garcia e Tiago Cruz

 

Os autores de Sintra, Inês Garcia e Tiago Cruz, falaram dos seus projectos na banda desenhada, bem como das suas principais influências e à forma como trabalham a imaginação para produzirem histórias de horror fantástico. Sintra foi publicado pela Escorpião Azul. Deixo-vos a ligação para o programa.

O Feminino no Fantástico

Antologia de contos de ficção científica e fantástico onde o corpo da mulher tem papel fundamental

Desde o passado Fórum Bang! (no qual participei, com a Inês Botelho, numa palestra sobre a mulher na ficção especulativa) que ando com vontade de espelhar alguns pensamentos na forma escrita. Sim, a representação da mulher tem-se alterado nos últimos anos. Porquê? Será a moda do politicamente correcto? Bem, mais do que uma moda, a minha percepção é que resulta da pressão do próprio público, farto do mesmo.

 

 

 

 

 

 

 

Porque digo isto? Bem, dou-vos como exemplo bastante óbvio as nomeações para os prémios Hugo. Para quem não está a par, aqui há uns anos surgiu um grupo de escritores de ficção científica revoltado com o afastamento dos protagonistas ou escritores tradicionais, brancos hetero. Estavam a ser nomeados, e premiados, sucessivamente, autores diferentes deste padrão original.

 

 

 

 

 

 

 

Este grupo de autores, designado como Sad Puppies, não só fizeram campanha pela ficção científica de homens para homens (ocidentais e hetero, claro) como tentaram concentrar votos em obras específicas. O resultado? Conseguiram algumas nomeações mas não o prémio, existindo algumas categorias em que o resultado foi até “sem premiado”. Pelo meio ainda houve uma nomeação curiosa a Chuck Tingle, um autor de pornografia homossexual de ficção científica, que aproveitou para parodiar o destaque, numa obra curiosa.

 

 

 

 

 

 

 

Bem, julgo que a resposta do público a este movimento demonstra que a verdadeira pressão sobre a indústria literária não é tanto pelo politicamente correcto, mas pela vontade, do público, em ver diversidade nas personagens, e ler obras que representem pessoas e não os típicos estereotipos de heróis, há muito ultrapassados. Personagens que se parecem com pessoas, densas, variáveis e, sobretudo, representativas da realidade que nos rodeia. Representativas da diversidade.

 

 

 

 

 

 

 

Não estou a falar, portanto, só de uma representação diferente do feminino, mas, também, uma diferente representação do masculino. Trata-se de criar histórias mais equilibradas em termos de papéis – nem as personagens femininas têm de ser ridiculamente fortes e destemidas para poderem ser protagonistas, abdicando de sentimentos para poderem ser tomadas a serio; nem as personagens masculinas têm de ser a personificação da certeza e da autoridade, podendo ser apenas pessoas com as suas dúvidas, incertezas e sentimentos.

 

 

 

 

 

 

 

Claro, que na componente feminina, outras questões de levantam. O uso do corpo como elemento para apimentar uma história (neste detalhe já existem exemplos que usam o corpo feminino e masculino) ou o consentimento no uso desse corpo. Não é, totalmente de estranhar que as histórias tradicionais, como as da Disney, os contos de fadas (sobretudo as mais recentes versões Disney), de princesas indefesas e passivas, tenham de ser revistos. Habituámo-nos a aceitar, sem questionar, os papéis que são concedidos às mulheres.

 

 

 

 

 

 

 

Detalhando. Se pensarmos bem, que tipo de homem encontra uma mulher, morta ou inconsciente, no meio de uma floresta e a beija? Que papel tem a mulher na escolha do seu parceiro , se se pressupõe que o príncipe que a salva a possui – sem se conhecerem previamente, a princesa passa de cativeiro a cativeiro. Numa gaiola dourada, claro. Mas nem por isso menos questionável. Que tipo de mensagem passa uma história onde um príncipe não reconhece a mulher pela qual se apaixonou e a procura pela medida de um sapato?

 

 

 

 

 

 

 

Sim, estas histórias reflectem a época em que foram construídas. Mas pouca ou nada se tem feito para as adaptar à realidade que nos rodeia. Quantas características ditas femininas não resultarão das expectativas que nos rodeiam? E o mesmo se pode dizer dos rapazes que não podem expressar sensibilidade ou sentimentos sem serem gozados. As personagens têm de evoluir – e não só as femininas. Deixo-vos com esta provocação. E, espero, algo para pensar. E debater.