Quando Nietzche chorou foi um dos dois livros de Irvin D. Yalom a ser publicado pela editora Saída de Emergência, duas vezes: uma em edição normal em 2005, e outra através da recentemente criada chancela Camões & Companhia.
Josef Breuer é a personagem principal do livro, um médico que se preocupa não só com as doenças físicas dos pacientes, mas também com as psicológicas. Nascido em Viena, no ano de 1842, Breuer terá sido um dos fundadores da psicanálise, ao aliviar os sintomas de depressão e hipocondria (descrita na época como histeria), de uma paciente, através da recordação de experiências traumatizantes, usando como métodos a hipnose e a conversa (para a altura, uma inovação). No entanto, Breuer vê-se obrigado a terminar abruptamente o tratamento desta paciente quando esta o seduz e imagina partos de um filho com o médico.
Irvin D. Yalom aproveitou os factos verídicos da vida de Breuer para desenvolver em romance em que este médico seria o único europeu capaz de ajudar o filósofo Friederich Nietzsche, acossado por fortes enxaquecas que provavelmente terão uma base mais psicológica que física. Interpelado por uma jovem desinibida por quem Nietzsche teve um desgosto amoroso, Breuer explora a terapia da conversa com o paciente, ao mesmo tempo que é frequentemente acossado por recordações da paciente anterior.
Mas ainda que Nietzsche procure alívio para as fortes enxaquecas, desconfia de qualquer acção altruísta, acreditando que todos os seres humanos têm uma razão egoísta em todos os seus actos. Desta forma, é a grande custo que Breuer consegue manipular Nietzsche a colaborar, em consultas onde exploram, ambos, os seus medos e limitações: Nietzsche parece incapaz de se relacionar com os restantes seres humanos levando uma vida de eremita sem poiso fixo; Breuer é um brilhante médico limitado academicamente pela sua origem judaica e pessoalmente pela família constituída há já vários anos, tendo acumulado várias responsabilidades e funções.
Esta é uma história que se debruça sobre diversos aspectos interessantes pela temática que desenvolve, desde o aparecimento do conceito de sub-consciente, às ideias que terão resultado em Assim Falou Zaratustra, ou às ideias que terão ajudado ao desenvolvimento da psicanálise. Ainda que a temática seja interessante toma, por vezes, o papel principal da história, que parece assemelhar-se a um (interessante) exercício de uma ideia ou possibilidade: as duas fortes personagens constituem, no limite, dois estereótipos contraditórios, que se confrontam, e evoluem emocional e psicologicamente.
