Ainda que os géneros thriller e crime não sejam os meus favoritos, a combinação com os cenários de ficção científica tendem a gerar histórias interessantes e fora da caixa. Os conceitos tecnológicos possibilitam reviravoltas diferentes e surpreendentes. Um exemplo clássico é, claro Minority Report de Philip K. Dick, mas podemos, também pegar na duologia de Adam Roberts (Real-Town Murders e By The Pricking of Her Thumb). Este Murder by Memory pega também num cenário futurista, mas acrescenta outro elemento que tem sido abordado em várias histórias de ficção científica, a memória.

Num futuro distante, a humanidade expande-se pelo Universo – mas as viagens são longas e antes que as naves cheguem a um novo planeta, várias gerações podem decorrer. A solução foi encontrada concedendo um género de eternidade dos viajantes, em que as suas memórias e personalidade são guardadas numa biblioteca digital. Tal permite a que os viajantes ocupem novos corpos, clones dos seus originais. Mas antes da transferência para um novo corpo, podem escolher permanecer em descanso nesta biblioteca de memórias.

Dorothy tinha escolhido permanecer na biblioteca, mas depois de um evento estranho que levou à eliminação de algumas memórias (e, consequentemente, pessoas), o sistema não tem outro remédio senão colocá-la num corpo – não propriamente um clone do seu, mas um corpo que estaria envolvido no incidente. O sistema espera que Dorothy use as suas capacidades de detective para descobrir o que se passou.

Este pequeno livro (cerca de 100 páginas) é uma leitura curta, mas agradável, que mistura crime com ficção científica. A investigação proporciona o vector de acção, fornecendo urgência e tensão. O cenário, sendo estranho para o leitor, vai sendo introduzido através da descrição do que vai acontecendo, em que a personagem cruza as memórias que tinha antes de estar arquivada na Biblioteca, com o que vai visualizado agora neste novo corpo.

Ainda que no centro da história se encontre o mistério criminal, a premissa obriga a explorar os conceitos tecnológicos apresentados e a extrapolar o seu impacto na saúde física e mental dos seres humanos. Apesar de existir a possibilidade de criar um corpo clone para receber as memórias (e a identidade) de uma pessoa, os seres humanos vivem a velhice do seu corpo e só aquando da morte é que se transferem. Tal vivência pode ser traumática, sobretudo quando ocorre degenerescência mental.

Dorothy vê-se num corpo diferente – um corpo que pertence a outra pessoa e que estaria a ser ocupado até recentemente. Este facto provoca estranheza, não só por ter de se habituar mas porque as roupas que a envolvem conterem objectos e pistas para o próprio incidente das memórias. A habituação às novas circunstâncias colocam a personagem numa situação desconfortável, algo que é usado para criar empatia para com a personagem.

Apesar do desconforto, Dorothy é uma personagem desenrascada e com algum sentido de humor, confrontando o seu sobrinho num corpo diferente em tom de brincadeira. O seu espírito analítico e prático traduzem-se em competência racional, principalmente nas conversas que vai tendo com as várias personagens, até desvendar o mistério das memórias apagadas.

O mundo apresentado é futurista, mas subtilmente claustrofóbico. Apesar da longevidade ser possível e da nave ser de grande dimensão, não se deixa de sentir alguma limitação no espaço disponível. Não existe para onde fugir, e percebemos que os humanos que escolhem passar a novos corpos parecem viver numa espiral onde o padrão se repete ao longo de décadas, ainda que, com ligeiras variações. Já os humanos que escolhem manter-se arquivados, estão voluntariamente limitados ao descanso.

Murder by memory é uma história sólida que, apesar de explorar por breves momentos as memórias anteriores de Dorothy, não se perde em episódios mais pessoais ou íntimos. Significa que a história contem quase só o que é necessário para perceber o mistério, e para criar alguma empatia para com a personagem, apresentando uma escrita limpa, e relativamente directa. O resultado é uma leitura acessível e rápida, mas que se torna interessante apesar da sua curta extensão.