Mais conhecido em vida pelas ilustrações literárias do que pelos livros, Mervyn Peake deixou poucas obras, mas até ao momento, daquilo que li, excelente. Mr Pye foi a primeira obra em que peguei, uma história de volume único que explora uma personagem quase perfeita e demasiado confiante que se impõe aos que o rodeiam.
Titus é o primeiro volume da série Gormenghast que o autor não terá tido oportunidade de terminar, por se encontrar com Parkinson. Publicado em Portugal pela Saída de Emergência em duas edições, uma na colecção Bang, outra na chancela Camões & Companhia, poderá ser enquadrada no género fantástico.
A história começa com o nascimento de Titus, o próximo conde de Gormenghast, um rapaz de feições estranhas com a cor dos olhos como única característica destoante – fúcsia. O nascimento tem impacto por todo o castelo, de formas diferentes. Para os serviçais é simples, é dia de banquete, enquanto que para o conde, Sepulchrave está assegurada a linhagem e Fuchsia se vê retirada do papel principal como filha do conde. Para Steerpike estão reunidas as condições necessárias para fugir da cozinha onde se encontra como aprendiz de Sweeter. A única indiferente é a própria mãe, mais preocupada em alimentar os pássaros e acariciar os gatos.
Aproveitando o ódio por Sweeter que partilha com o escudeiro do rei, Flay, Steerpike sai das cozinhas e arranja forma de influenciar Fuchsia a apresentá-lo a alguém que possa precisar de algum género de serviços. É desta forma que conhece o médico, com quem aprende a lidar com venenos mas assim que se abrem as possibilidades, escapa-se para servir personagens mais importantes, como as gémeas, as irmãs mais velhas de Sepulchrave.
O dia a dia no castelo é orientado em todos os detalhes pelos rituais centenários, dos quais o conde se refugia sempre que pode na biblioteca, e tanto Fuschia como Titus crescem sem a presença dos progenitores, à guarda da ama velha e rabugenta, influenciados pelo médico e estranhamente por Steerpike, que parece estar em todo o lado espalhando a sua revolta pela tradições e convenções.
Embora seja Titus o título do livro, é Steerpike a personagem principal desta história, um rapaz inteligente que tece sucessivos esquemas para poder ocupar posições mais influentes, alguém que possui a facilidade de se conseguir impor aos outros sem que estes reparem, influenciando negativamente o espírito do castelo. Inicialmente sombrio, o castelo torna-se cada vez mais soturno, de ambiente mais carregado, o que vai conduzindo as tensões e os conflitos a um impasse decisivo: os ódios são alimentados, as revoltas ganham corpo e o crescer das ambições desequilibram a calma ritual do castelo.
Sem grandes aventuras fantásticas, Titus apresenta uma realidade surreal e fechada acompanhando-a após a introdução de um elemento de entropia. O palco é labiríntico, um castelo que foi crescendo a cada sucessor, com áreas isoladas e decadentes, perfeitas para congeminar planos, caracterizadas por um ambiente constante de sombra, quer física pela idade e frieza do local, quer psicológica pela concentração de conflitos e revoltas.
A história requer uma leitua lenta e atenta, carregada de nuances, que vai captando o leitor devagar e apaixonando-o. No final, sente-se a vontade de regressar e rever as personagens que nos habituámos a acompanhar. Uma boa história que irá melhorar no segundo volume, não aconselhável a quem apenas gosta de aventuras rápidas carregadas de acção fácil.

Olá, meu caro, você não saberia me dizer onde posso encontrar este livro para download? Não encontro-o em lugar algum, e como ele não foi lançado aqui no Brasil, não posso adquiri-lo… Agradeço desde já pela atenção.
minha cara*
Perdão, Cristina.
Boa tarde, tanto quanto eu saiba não existe nenhuma versão para download… a única opção que posso sugerir é mesmo a versão inglesa… 🙂