Os azuis a preto e branco – Os túnicas azuis vol.4 – Willy Lambil e Raoul Cauvin

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No quarto volume de Os Túnicas Azuis voltamos à Guerra da Secessão com a conhecida e cómica dupla. Este volume aproveita para explorar a personagem histórica Mathew B. Brady, um fotógrafo que, durante a guerra, e a mando de Lincoln, captava imagens de guerra.

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Depois de um primeiro encontro, pouco auspicioso (pelo menos para Chesterfield), a dupla é obrigada a acompanhar o fotógrafo que se arrisca a exercer a sua actividade nos piores locais da batalha.

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Não é com surpresa que Brady se lesiona, cabendo a Blutch tentar substitui-lo e registar os episódios bélicos. Aproveitando esta nova actividade para fugir da cavalaria (até que enfim!) torna-se um fotógrafo famoso.

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Este volume aproveita assim a dupla cómica para nos apresentar o trabalho de Brady ao longo da Guerra, através do qual aproximou a realidade das batalhas das populações ao publicar as fotos nos jornais.

A colecção Os Túnicas Azuis foi publicada pela Asa em parceria com o Público.

Resumo de Leituras – Fevereiro de 2017 (7)

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49 – Terra de Sonhos – Jiro Taniguchi – Este volume reúne duas histórias bastante distintas, uma primeira, mais longa em que assistimos aos últimos dias de um cão, um animal doméstico muito bem tratado que aguenta o sofrimento da velhice por longos dias, a que se segue a adopção de uma gata prenha que vem preencher o espaço deixado. A segunda é uma história sobre a exploração e o ultrapassar de barreiras físicas e mentais;

50 – Black Face – Túnicas azuis Vol. 9Willy Lambil e Raoul Cauvin – A série continua a explorar a guerra da Secessão aproveitando, neste caso, para explorar o tema da escravatura, um pretexto para fazer uma guerra de ambição e de busca por lucros, que pouco tem a ver com o trabalho escravo;

51 – Histórias de Vigaristas e canalhasOrganizada por George R. R. Martin e Gardner Dozois, a antologia reúne várias histórias fantásticas protagonizadas por vilões em diversos cenários e premissas mirabolantes e imaginativas;

52 – Drifter – Vol.2 – Ivan Brandon e Nick Klein – Tal como no primeiro, a história não é linear e directa. Vamos observando o desenrolar de acontecimentos como meros espectadores, com pouco enquadramento ou compreensão e temos de ir construindo a história, com pistas espalhadas ao longo das várias narrativas.

Destaque: Novas edições

Não são só os novos livros que devem ser destacados, mas também aqueles que se recuperam no mercado para não caírem em esquecimento. Eis alguns que serão lançados novamente nos próximos tempos:

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Um dos grandes livros de Italo Calvino, As Cidades Invisíveis, terá nova edição na colecção RTP, em capa dura e preço acessível. Este clássico da literatura fantástica apresenta várias cidades ficcionais descritas por Marco Polo ao Imperador Kublai Khan. Nomeado para o prémio Nebula, o livro já serviu de inspiração para uma Opera. Eis a sinopse:

A este imperador melancólico, que percebeu que o seu poder ilimitado conta pouco num mundo que caminha em direção à ruína, um viajante visionário fala de cidades impossíveis, por exemplo, uma cidade microscópica que se expande, se expande até que termina formada por muitas cidades concêntricas em expansão, uma cidade teia de aranha suspensa sobre um abismo, ou uma cidade bidimensional como Moriana. […] Creio que o livro não evoca apenas uma ideia atemporal de cidade, mas que desenvolve, ora implícita ora explicitamente, uma discussão sobre a cidade moderna. […] Penso ter escrito algo como um último poema de amor às cidades, quando é cada vez mais difícil vivê-las como cidades.» Italo Calvino «Ao projetar a sua própria voz nos relatos de cidades que pontuam o diálogo entre Marco Polo e Kublai Kan, Calvino reencontra essa capacidade dos antigos construtores de fábulas, e sabe transmitir o prazer que aquele que conta tem de suscitar no ouvinte, que é o próprio leitor.» Nuno Júdice Prefaciado por Nuno Júdice.

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Adaptado para cinema, O Prestígio é a história fantástica da rivalidade tempestuosa entre dois mágicos:

Uma história de segredos obsessivos e curiosidades insaciáveis. Londres, 1878. Dois jovens mágicos cruzam caminhos enquanto actuam em luxuosas salas de espectáculo vitorianas. E cedo nasce um feudo cruel que irá assombrar as suas vidas, levadas ao extremo pelo mistério de uma espantosa ilusão que ambos fazem em palco. A rivalidade instiga-os a atingir o pico das respectivas carreiras, mas com consequências terríveis. Na busca de um truque que conduza à ruína do rival, escolhem o caminho da ciência mais negra. O sangue será derramado, mas não será suficiente. No fim, o legado dos mágicos irá passar para as futuras gerações e serão os descendentes a ter de desvendar a teia de loucura que envolve estranhos actos de magia…

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Publicado há algum tempo no mercado português, retorna pela G Floy:

Há dois lados para cada história, e agora chegou a altura de ouvir o lado de Loki: o filho preterido de Odin vai contar a história toda do seu ponto de vista, a sua sede insaciável de poder, os seus sentimentos ambíguos para com Sif, a sua antipatia para com Balder, e o seu imenso ressentimento contra o seu irmão mais velho, Thor. Com a excepcional arte de Esad Ribic, um dos maiores artistas da Marvel, e argumento do romancista Robert Rodi, esta história auto-contida vai mostrar-nos Asgard como nunca a tínhamos visto! Loki tornou-se finalmente soberano de Asgard, e Odin foi colocado a ferros, tal como todos aqueles que batalharam em seu nome. No entanto, Loki vê-se cercado de antigos aliados e interesses vários, todos em busca de recompensa pela ajuda prestada na sua ascensão. E Hela, deusa do Reino dos Mortos, empurra-o para completar o seu triunfo com a execução de Thor. Loki terá de ponderar se a sua existência fará algum sentido sem o seu meio-irmão…

Sobre Loki deixo-vos, também, algumas páginas disponibilizadas pela editora:

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Terra de Sonhos – Jiro Taniguchi

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Apesar de ter adorado  de O diário do meu pai, a temática levou-me a adiar a leitura deste Terra de Sonhos não sabendo que o que encontraria é bastante diferente. Foi a morte recente do autor que me levou ao livro e o que encontrei foi uma história fascinante sobre animais domésticos.

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O livro começa com Ter um cão, a história de um casal que vê desvanecer o companheiro de quinze anos. Cada vez mais fraco, arranjam esquemas para o conseguirem levar a passear, o momento alto do dia. Mas as pernas estão cada vez mais fracas, o apetite cada vez menor, e, recordando os bons momentos que passaram, o casal faz de tudo para aliviar a resistência que o cão revela durante as últimas semanas.

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Estes últimos momentos fazem-nos jurar nunca mais voltar a ter um animal de estimação, mas uma gata persa que não encontra lar resigna-os a aceitar novamente uma terceira companhia. A gata persa afinal está grávida e ao invés de uma gata acabam por ficar com 3 gatos em casa, a companhia perfeita para a sobrinha que vem passar o Verão com eles.

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A sobrinha, órfã de pai, refugia-se na casa dos tios com receio das mudanças que existirão em casa. A mãe pretende-se casar novamente e a jovem olha com desconfiança para o futuro padrasto. Entre a companhia dos gatos e a paixão do basebol que partilha com o tio, aprecia os momentos de fuga e de paz, que lhe permitirão enfrentar o que está para vir.

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A esta combinação de história que segue o quotidiano do casal e dos seus animais de estimação, segue-se uma história de exploração e aventura, de viagem, conquista e paixão. Um homem vai deixar o escalar das montanhas por uma promessa à esposa grávida e aproveita a última viagem sem saber que será quase a sua desgraça. Quando regressa cumpre o prometido, mas permanece irrequieto, optando por gastar as energias com outras actividades físicas que o poderão levar a esquecer as montanhas.

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A primeira história pode ter o que se pode considerar uma narrativa comum, mas nem por isso menos especial. Os animais que partilham o espaço connosco acabam por fazer parte do nosso quotidiano e por nos influenciar de formas que não imaginamos. De extrema sensibilidade, a primeira história é uma narrativa sentida que revela um enorme amor pelos animais de estimação.

Na segunda assistimos à tentativa de conquista e reconquista, ao desafio constante do que é selvagem e com o qual os homens se identificam, na possibilidade de explorar e ultrapassar barreiras.

Terra de Sonhos foi publicado pela Levoir na colecção Novelas Gráficas, lançada em parceria com o Público.

Outros livros do autor

Resumo de Leituras – Fevereiro de 2017 (6)

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45 – 47 – Os Túnicas Azuis – Vol. 5, 6 e 7 – Willy Lambil e Raoul Cauvin – A série continua a apresentar uma fórmula que funciona facilmente, centrando-se no relacionamento caricato entre as duas personagens principais para nos levar por cenários e factos históricos em torno da Guerra da Secessão. Neste três volumes acompanhamos a dupla ao México, cuja fronteira ultrapassam para fugir ao inimigo. Do outro lado encontram grupos de bandidos e populações submissas a estes, bem como uma estranha religiosidade. Noutro livro os soldados lesionados são encaminhados para uma vila que suporta o outro lado e ao invés de um acolhimento que lhes permita restabelecer a vila torna-se o cenário de uma pequena batalha. Finalmente, em Bronco Benny a dupla é enviada em missão para obter novos cavalos – uma missão mirabolante, carregada de imprevistos;

48 – Um jogo de ti – Sandman Vol. 5 – Neil Gaiman – Shawn McManus, Colleen Doran, Bryan Talbot, George Pratt, Stan Woch e Dick Giordano –  A terra dos sonhos não é tão estanque quanto poderíamos imaginar e por vezes escorre para a nossa realidade. Aqui acompanhamos Barbie e uma amiga da cidade. Barbie já não sonha, mas os seus antigos sonhos infantis vêm ter com ela numa sucessão de pesadelos reais.

Histórias de vigaristas e canalhas – Vários autores

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À semelhança de Histórias de Aventureiros e Patifes, Histórias de Vigaristas e Canalhas reúne contos de conhecidos autores de ficção científica e fantasia onde os protagonistas são ladrões, aldrabões ou trapaceiros. O ângulo de acção de todos é sempre, ou quase sempre, o de arranjar uma forma de lucrarem com a situação em que se encontram, arranjando esquemas mirabolantes e arriscados para enganarem os que os rodeiam.

A selecção foi feita pelos famosos Gardner Dozois e George R. R. Martin e inclui autores tão conhecidos como Joe Abercrombie (com vários livros publicados em Portugal pela 1001 Mundos), Steven Saylor (mais voltado para a ficção histórica com a famosa série Roma Sub-Rosa), Michael Swanwick (do qual foi publicado O Verdadeiro Dr. Fausto pela Saída de Emergência) ou Cherie Priest (ainda não publicada em Portugal mas muito conhecida pelo Steampunk).

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A antologia começa com Está difícil para todos, um conto de Joe Abercrombie que reflecte bem o espírito da restante ficção do autor onde as personagens, apesar de não totalmente más, se mostram implacáveis, escolhendo o único caminho que conhecem, o da criminalidade. Neste caso um estranho pacote é roubado sucessivamente por várias pessoas que escondem outros interesses (para além dos monetários). Um conto movimentado onde vamos conhecendo criminosos de vários tipos e capacidades.

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Em Heavy Metal, de Cherie Priest, forças muito antigas ocupam descampados e um peso pesado investiga o peculiar desaparecimento de dois jovens. A sobrevivente acredita que estes estarão mortos, mas a cena que descreve é, no mínimo, surreal. Envolvendo forças sobrenaturais e confrontos mágicos, é um conto com um desenvolvimento inesperado.

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O conto seguinte é de Carrie Vaughn, conhecida autora de fantasia sobrenatural, uma best-seller no género. O conto decorre num bar escondido onde duas senhoras esperam para fazer negócio. O que as traz não sabemos, mas logo percebemos que, no bar, o clima é de calma apenas aparente. Entre as várias personagens pouco humanas e de grandes poderes, o jogo ilegal decorre prometendo uma explosão a qualquer momento.

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Vencedor do World Fantasy Award e do John W. Campbell Memorial Award, Bradley Denton é um nome que não me recordo de ter lido anteriormente. O conto que aqui se encontra é uma reviravolta divertida onde ladrão que engana ladrão tem cem anos de perdão. Bem, não tem, mas pelo menos o aproveitar de um esquema em curso para roubar ladrões descuidados e inexperientes é quase como ver o Karma em acção – e é divertido.

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Diamantes de Tequila, de Walter Jon Williams, centra-se num actor com um passado sombrio. As filmagens do mais recente projecto em que se encontra envolvido decorrem no México. De figura pouco atraente, ganha sobretudo papéis de vilão. A par com a sua figura, tem, para maior publicidade, um falso romance com a grande actriz do elenco. As filmagens em cenário paradisíaco começam a correr mal quando encontra a falsa namorada morta no seu quarto, o resultado de um esquema químico que pode por em causa o negócio das drogas e das indústrias farmacêuticas.

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Do autor da trilogia fantástica iniciada com A Missão de Sabriel, Um carregamento de Marfins grupos diferentes de ladrões sobrepõem-se na sua missão nocturna, mas acabam por juntar forças para defrontar uma figura divina, imensa e raivosa.

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O conto de Matthew Hughes, A Estalagem das Sete Dádivas, é um dos melhores do conjunto, acompanhando um ladrão solitário e trapaceiro que, ao ouvir os gritos de socorro de um homem, capturado por seres fortes, canibais e horrendos, decide aguardar para que se afastem e poder recolher os objectos que o homem terá deixado. O que não conta é que entre estes objectos está um pequeno Deus encerrado numa pequena figura e que, ao tocar-lhe ficará possuído e obrigado a ir salvar o homem. Sempre em busca do melhor ângulo, acaba por arranjar um pequeno acordo com a divindade que se tornará bastante proveitoso.

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Steven Saylor é bastante conhecido pela série sub-rosa, uma série de ficção histórica que decorre na Roma Antiga, centrada num investigador maduro, Gordiano, de bom coração e casado (se tal se podia dizer para a época) com a escrava. Em Invisíveis em Tiro Gordiano é apenas um rapaz que acompanha o seu tutor, Antípatro. Na viagem que os dois realizam Antípatro tem objectivos obscuros que não contou a Gordiano, pretendendo adquirir uns antigos livros de sabedoria que conterão fórmulas para tudo e mais alguma coisa. Inclusivé, para a invisibilidade.

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Tawny Petticoats é o conto de Michael Swanwick onde dois trapaceiros de profissão procuram uma rapariga para pôr em curso os seus esquemas. Ao invés de uma jovem inocente ou ingénua encontram uma colega de profissão que alinha no golpe. Os visados não são boas pessoas. Um deles comanda os zombies da cidade, e outra as prostitutas. Os zombies não são os comuns mortos-vivos, mas seres humanos que, tendo contraindo dívida, ingerem uma poção que os fará desligar o cérebro e obedecer cegamente, para assim poderem pagar o que devem.

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O conto seguinte é de Lisa Tuttle, uma das autoras do genial Windhaven, O Curioso Caso das Esposas Mortas. Neste conto uma detective recebe um estranho caso em que uma menina, criança, acredita ter visto a falecida irmã, caminhando e respirando, no cemitério onde terá sido enterrado. Não crendo que a jovem está viva, mas percebendo que a história tem algo de estranho, a detective aceita o caso. O que encontra é um caso mirabolante de farsas e enganos.

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O último conto da antologia, O significado do Amor, apresenta o salvamento de uma jovem vendida pelo pai para trabalhar. Quem a salva não a conhece verdadeiramente mas foi compelido por a ter visto sob determinada luz – amor à primeira vista. Um trapaceiro profissional ajuda assim o amigo a salvar a jovem, recorrendo a esquemas mirabolantes em que envolve um antigo e perigoso militar.

O conjunto de histórias aqui reunido é sobretudo divertido, com desenvolvimentos inesperados e rocambolescos, aventuras onde os ladrões até se dão bem no meio de azares e tropelias. Os tons e os estilos são variados mas todos possuem a componente interessante de não terem como protagonistas os heróis típicos de honra e espada, mas antes pessoas de moral dúbia que recorrem a esquemas para darem volta às mais complicadas situações e ainda saírem a ganhar.

Histórias de vigaristas e canalhas foi publicado pela Saída de Emergência.

Os Azuis da Marinha – Vol.3 Os Túnicas Azuis – Willy Lambil e Raoul Cauvin

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Que a dupla constituída pelo cabo Blutch e pelo sargento Chesterfield é insuportável, já tínhamos percebido nas histórias anteriores. Que fossem tão insuportáveis que acabassem sucessivamente transferidos de unidade em unidade é que não esperávamos.

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Na marinha os dois têm o privilégio de assistir e de se envolverem nas primeiras batalhas contra o USS Monitor, o primeiro navio couraçado, um género de submarino que destroçava qualquer navio inimigo. Terror dos mares, irá defrontar o CSS Virgina numa batalha que se tornará épica.

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Aproveitando a picardia existente entre as várias unidades (cavalaria, infantaria, artilharia e marinha) bem como o relacionamento dos dois personagens, a história move-se de componente em componente da batalha, concedendo uma perspectiva cómica em tornos dos factos históricos que apresenta.

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Leve e divertido, este terceiro volume volta a cumprir a função de, numa pequena história, relaxar e entreter, apesar do contexto que aqui é muito aliviado pela forma como se apresenta.

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A série Túnicas Azuis está a ser publicada pela parceria da Asa com o jornal Público.

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Resumo de Leituras – Fevereiro de 2017 (5)

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41 – 43 – Os túnicas azuis – Vol. 2, 3 e 4 – A série Os túnicas azuis que tem saído regularmente através de uma parceria da Asa com o jornal Público apresenta a Guerra da Secessão de uma forma leve e descontraída, utilizando a interacção tempestuosa (mas amistosa) entre um cabo e o seu sargento para dar as componentes cómicas de que precisa. Apesar de apresentar uma sucessão de episódios engraçados e leves, a série aproveita para apresentar alguns factos históricos interessantes e relevantes;

44 – Matiné – Marcelo Costa e Magno Costa -Uma boa homenagem aos filmes negros de acção constante onde as personagem de mau carácter parecem dominar, mas a presença de um justiceiro desenvolto e incorruptível consegue reverter algum do mal que se espalha. Destacando-se o trabalho gráfico e narrativo, Matiné é um livro demasiado pequeno que cruza três histórias curtas no mesmo estilo tempestuoso.

H-Alt – 3 – Diversos autores

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Cada vez maior, cada vez reunindo o talento de autores mais diversos e mais diferentes, a terceira revista da H-Alt possui histórias que se enquadram na ficção científica, na fantasia e no horror.

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O volume abre com uma história de bruxarias e destinos onde as intenções divergem bastante do esperado e prossegue para a exploração do desespero com a venda de um fármaco milagroso. Novamente as intenções divergem e o resultado é, no mínimo, irónico.

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Depois dos alienígenas que caminham quase invisíveis entre nós segue-se uma irónica história de Arthur Cordeiro que apresenta, para além do bom visual, uma boa narrativa. De seguida, voltamos a encontrar alienígenas – o espaço pode ser um local medonho mas quem fica assustado com o que encontra são os visitantes, numa história curta, amorosa e engraçada.

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Depois das espectaculares imagens do autor da capa, voltamos a encontrar alienígenas que tecem um plano para, com o mínimo esforço, conseguirem o que pretendem da humanidade, e viagens intergalácticas onde se usam teorias sobre a matéria negra para se escapar a um fim quase inevitável.

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Cruzando diversos géneros, estilos narrativos e abordagens visuais, H-Alt volta a trazer boas histórias curtas onde se destaca a componente gráfica mostrando que a maioria das parcerias atinge um resultado com um nível acima da média.

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Eventos: Devoradores de Livros – Fevereiro

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A tertúlia Devoradores de Livros tem data marcada para o dia 23 de Fevereiro e irá decorrer no lugar habitual, a Leituria em Lisboa. Esta sessão tem como convidado Tomás Múria, o guionista que adaptou o Ministério do Tempo para português.

Para mais detalhes podem consultar a página do evento.

Corto Maltese – Longínquas ilhas do Vento

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Conhecido pelas viagens melancólicas e pelas mais exóticas aventuras, finalmente decidi-me a pegar, pela primeira vez, num livro de Corto Maltese. O que encontrei foi confronto de culturas, um quase eterno problema de memória, uma queda para a aventura e para os confrontos mirabolantes.

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O livro reúne três histórias – Cabeças de cogumelo, Um negócio de “bananas” e Vodu para o senhor presidente, e começa com um bom texto introdutório que inclui notas históricas e culturais, bem como fotos a propósito. Algumas das referências das histórias como as cabeças miniaturas que as tribos sul americanas comercializam são reais, bem como as drogas que usavam para rituais. Todos estes elementos distanciam estas tribos da lógica ocidental conferindo-lhes uma moralidade própria e contribuem para criar o ambiente próprio e necessário para a primeira história.

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Depois de uma primeira história que mistura misticismo selvagem num sonho fantástico onde a memória é volátil e transformante, segue-se uma aventura movimentada e mirabolante onde se sucedem rapidamente episódios de tiro e morte. Recordando as histórias de agentes secretos como o 007 onde as femme fatale inebriam e confundem os homens, Um negócio de “bananas” apresenta uma revolução política numa república das bananas, carregada de corrupção e traição.

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A terceira história é um misto das duas anteriores, em temática e desenvolvimento. Em Vodu para o senhor presidente Corto Maltese vê-se nas Caraíbas. As ilhas tresandam a vodu e a feitiçaria, e uma mulher ocidental encontra-se em julgamento, acusada de utilizar o trabalho dos mortos para seu próprio proveito. Situação estranha que se entrelaça com uma farsa política e uma revolução em que Corto Maltese tem sobretudo um papel acessório. Não falta a misteriosa femme fatalle, distante mas conhecedora de segredos de Corto que o próprio desconhece, não falta a reviravolta mirabolante e esmagadora, nem a estranheza cultural, aqui utilizada de forma bastante diferente.

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Em Corto Maltese o desconhecido não está apenas nos locais onde se encontra, mas também na história e nele próprio. Agindo sobretudo como ferramenta, mais do que perpetuador, demonstra, também, quando necessário, a inteligência para se esgueirar a situações desnecessárias que seriam típicas aventuras de adolescente. Envolto pelos encantos femininos e levando à desgraça algumas das mulheres com as quais se envolve, a figura de Corto Maltese permanece um mistério distante ao longo das três aventuras, uma figura que pouco revela de si próprio, sempre em movimento. O resultado é a nostalgia da descoberta e da viagem onde as amarras se desvanecem e o mundo inteiro é possível.

Corto Maltese foi publicado pela Asa.

A prisão de Robertsonville – Vol. 2 – Os Túnicas Azuis – Willy Lambil e Raould Cauvin

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Capturados pelo inimigo na tenebrosa (e bastante famosa, mas não pelos melhores motivos) prisão de Robertsonville, o Sargento Chesterfield e o Cabo Blutch moem a paciência de qualquer um com as constantes e mirabolantes tentativas para escapar.

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Neste segundo volume assistimos à continuação do relacionamento disfuncional (mas comicamente funcional) entre o Sargento e o Cabo, o primeiro honrado e sempre pronto a partir em batalha, o segundo, cínico e sempre queixoso, esquivando-se à mínima oportunidade.

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A dupla funciona, conferindo às pequenas aventuras os detalhes cómicos de que necessita para conseguir contar e retratar alguns episódios e detalhes históricos da Guerra da Secessão, num ambiente leve e divertido que nos mantém na expectativa para o próximo detalhe rocambolesco.

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Em Portugal a série Os Túnicas Azuis foi recentemente republicada através da parceria da Asa com o jornal Público.

Destino Adiado – Tomos I e II – Gribat

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Publicado na Colecção Grandes Autores de Banda Desenhada este volume duplo de Destino adiado de Gribat conta a história de um rapaz que deserta da guerra, mas, por sorte, é dado como morto – o comboio onde era suposto viajar sofre um aparatoso acidente e os papéis de identidade estavam com um corpo irreconhecível.

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Escondido na vila onde sempre viveu, na casa do seu antigo professor, levado à força pela milícia e tendo, como única companhia a tia que sabe da sua sobrevivência, Julien assiste ao quotidiano da vila num local privilegiado. De uma janela bem posicionada vê, no cemitério, o seu próprio funeral, de outra, vê a sua amada servir numa esplanada e os avanços que outro rapaz tenta fazer sobre ela.

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Apesar de isolado tudo decorre numa pacífica rotina até ao dia em que decide espreitar mais de perto a amada, ruído de ciúmes por ver um carro parado em sua casa. Após uma grande chuvada acorda no celeiro, surpreendendo a jovem que o julgava morto. A partir daqui o dia-a-dia torna-se num lento sonho, entre as visitas da tia, os encontros com a namorada e uma pacífica colaboração com a resistência.

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Escondido mas bem disposto, Julien diverte-se a acompanhar a vida na vila, sem fazer propriamente parte dela. O facto de o julgarem morto permitiu-se fugir à guerra sem represálias mas tem de permanecer no esconderijo a maior parte do dia. As suas curtas saídas raramente são percebidas – e quando o são o mais provável é pensarem tratar-se de uma alucinação de um bêbado.

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Apesar da guerra e dos raros aparecimentos militares, a vila vive num clima relativo de paz, escondendo uma série de actividades ilícitas através das quais se espera resistir e enfrentar a ocupação – nem sempre com grande sucesso.

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Em Destino Adiado a vida é suspensa. Julien aproveita para passar bons momentos com a namorada e com a tia, numa existência sem grandes objectivos ou actividades, um espectador quase inerte e passivo que assiste aos acontecimentos sem se envolver. Uma história que se prende com a inevitabilidade do destino, Destino Adiado é um relato bem disposto de uma época conturbada onde as populações sobreviviam, receosas mas desenrascadas.

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Waltz with Bashir – Ari Folman e David Polonsky

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Ao contrário do que nos diz o nosso cérebro, a memória é algo volátil, em transformação constante, capaz de nos enganar e de nos iludir, capaz de se esconder no nosso inconsciente e de retornar nos momentos menos prováveis. Por vezes este esconder é um mecanismo de defesa, uma forma de nos protegermos a nós próprios, uma forma de mantermos a integridade emocional e de resistir à mudança inevitável que o aceitar dessas memórias traria.

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Um dia um homem resolve contar o pesadelo que o assola, eternamente perseguido pelos cães que matou. Não sabe que o contar do episódio nocturno repetitivo levará, a quem ouve, a ter um flashback da guerra que viveu e da qual nada recordava, iniciando-se uma busca pelos motivos do esquecimento e dos traumáticos acontecimentos ocorridos.

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Entre os vários relatos que busca reconstroem-se ocorrências de um horror quase indescritível, percepções de uma guerra que decorre em cidades e envolve fatalidades civis, pelos olhos de rapazes quase adolescentes que pouco ou nada sabem da vida e muito menos das ordens que receberão.

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Por vezes quase silencioso em relação aos episódios que apresenta, Waltz with Bashir apresenta a realidade pesada e vergonhosa da Guerra no Líbano em 1982, com os massacres que ocorreram durante a guerra. O que o torna peculiar é a perspectiva do soldado que se dissociou das suas próprias memórias, e a perspectiva com que são contados os relatos, pessoal e centrada nos soldados, meros rapazes, peões sem poder de decisão num conflito em que participam mas não controlam.

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Na sua maioria, as imagens destacam a figura do soldado mas nem sempre o integram totalmente no que o rodeia, à semelhança da dissociação que ocorre na sua mente. As cenas de guerra e carnificina confrontam-se com as da cidade por vezes aparentemente pacífica e com as tentativas de vida pessoal destes soldados nas poucas folgas que têm.

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Poderoso pelos cenários que apresenta, vergonhoso como qualquer guerra, Waltz with Bashir contém imagens e perspectiva que não deixam o leitor indiferente, mostrando como a carnificina pode marcar de forma bastante diferente a mente e a realidade de cada um.

Os Túnicas Azuis – Os Cavaleiros do Céu – Willy Lambil e Raoul Cauvin

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A série Os Túnicas Azuis terá sido publicada originalmente pela Edinter e está a ser lançada pela Asa em parceria com o Público, esperando-se o lançamento de quinze volumes. Este primeiro volume apresenta-nos a dupla composta pelo Sargento Chesterfield e pelo cabo Blutch, uma dupla caricata e com tendência para o desastre que consegue escapar ilesa nos mais mirabolantes episódios.

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Tendo como cenário a Guerra da Secessão, Os Cavaleiros do Céu começa por nos indicar que a unidade de cavalaria em que se enquadra a dupla foi quase totalmente dizimada. Sem unidade, são ambos indicados para experimentar o novo balão de ar, a próxima arma de vigilância contra o inimigo. A primeira experiência como cobaias corre melhor do que seria de esperar, e acabam por passar este volume em aventuras de guerra passadas no balão, em episódios de piadas fáceis mas funcionais que distraem o leitor.

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Sempre em posição segura, por oposição à nossa dupla, as chefias hierarquicamente superiores, é que acabam por sofrer sucessivos acidentes que os colocam fora do campo de batalha, culpando o sargento e o cabo que lá se vêem atirados para nova missão impossível.

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Possuindo temperamentos diferentes completam-se e conseguem constituir a dupla cómica. O sargento é um homem mais sério e responsável que contrasta com o espírito irreverente, mirabolante, refilão e irresponsável do cabo. A união de ambos leva-os a ser indicados para missões estranhas e perigosas, nas quais escapam sempre por um triz em cenários cómicos e inventivos.

A série Os Túnicas Azuis está a ser publicada através da parceria Asa / Público.

Resumo de Leituras – Fevereiro de 2017 (3)

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33 – A Feira dos Imortais – Enki Bilal – Aproveitando a mitologia egípcia, apresenta alienígeneas à sua semelhança, com características paralelas, que interagem com os seres humanos numa sociedade futurística e distópica, uma sociedade que necessita urgentemente de uma revolução;

34 – O sono do monstro – Enki Bilal – Tal como A feira dos imortais, esta história foi surpreendente para quem só conhecia os álbums mais recentes, tanto do ponto de vista gráfico, como do ponto de vista de enredo, apresentando várias personagens mais complexas que se envolvem numa trama política a escala mundial;

35 / 36 – Destino adiado – Tomos I e II – Gibrat – Um jovem deserta e tem a sorte dos seus papéis serem encontrados juntos de um cadáver irreconhecível. Dado como morto pelo exército esconde-se na sua vila e ocupa uma casa central que lhe permite acompanhar o dia-a-dia dos que conhece sem se revelar. Apaixonante, romântico, mas mostrando a inevitabilidade do destino, este tomo duplo revelou uma história muito tocante e envolvente.

A Ermida – Rui Lacas

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Este pequeno livro consegue surpreender positivamente de duas formas – por um lado pela história, por outro pelo aspecto gráfico. Tenho a destacar que, ao longo dos anos, tenho criado alguma aversão pela aspecto institucional da Igreja (não é uma questão de crença ou de quem acredita, mas por algumas atitudes hipócritas da instituição e dos seus representantes). Isto tudo para explicar que, apesar desta minha reacção, é impossível não sentir algum carinho e empatia pelo padre, a personagem principal desta pequena história.

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O quotidiano é pacífico e humilde até ao dia em que uns homens de aspecto soturno entregam ao padre uma fortuna em jóias para ele guardar. Receoso, o padre entra em pânico quando estas desaparecem, temendo a presença de um ladrão contra o qual se prepara para se defender.

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Felizmente a ditadura portuguesa está nos últimos dias e com o término do regime vem uma agradável surpresa que o padre aproveita da melhor forma possível, mantendo o tom carinhoso e empático do episódio.

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Esta pequena história, de poucas falas, inspira um enorme simpatia graças à força das expressões e dos modos que as personagens apresentam. Ainda que o tipo de coloração, a uma cor, não seja dos que costumo preferir, o aspecto final resulta muito bem para dar o aspecto e o ambiente pretendidos.

A Ermida de Rui Lacas foi publicado pela Polvo.

Azul – Michel Pastoureau

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Um livro sobre a cor é algo curioso. Ainda para mais porque, neste caso, é sobre a cor, mas sobretudo sobre as diferenças culturais e científicas que levaram à diferente adopção do azul no vestuário e, mais tarde, na arte. Infelizmente a perspectiva é sobretudo ocidental, centrando-se bastante no Império Romano e, mais tarde, na época Medieval.

A cor não é uma coisa em si mesma, e ainda menos um fenómeno relacionado exclusivamente com a visão. Ela é apreendida juntamente com outros parâmetros sensoriais e, por isso, tonalidades e matizes não constituem aspectos essenciais.

Se o azul começou por ser, durante o Império Romano, associada aos povos bárbaros e, por isso, pouco usada ou comentada pelos romanos, durante a Idade Média começa como uma cor sem associação simbólica, por comparação com o vermelho, o preto ou o branco, cores que, associadas a personagens, conferiam automaticamente uma série de características e papéis estereotipados.

Só mais tarde, já adiantada a Idade Média (séculos XI, por exemplo) a cor começaria a ser usada e associada a brasões e bandeiras, ganhando lentamente adesão. O problema da cor continua, no entanto, a ser a dificuldade em arranjar tintas que consigam tingir com sucesso os tecidos. Não apenas nos tecidos. As tintas que existem e que são usadas artisticamente ou são demasiado caras ou instáveis, e por isso pouco usadas.

Cor que é considerada, durante muito tempo, neutra, pode ser usada por qualquer estrato social e económico em conjugação com as que lhes estão destinadas, ganhando maior adesão, vários séculos depois, com a ganga. É tipicamente a cor neutra de quem se quer manter na norma, a cor que não suscita especial relevância psicológica e, talvez por isso, aquela que é escolhida por uma grande maioria como a cor preferida.

Pela temática peculiar, Azul é daqueles livros que me pareceu interessante mas que peguei com receio por achar que se poderia tornar maçudo. Apesar de algumas pequenas repetições o autor disserta intercalando factos e factores, discorrendo com facilidade e vontade o que resulta num texto de leitura fácil e agradável.

Azul foi publicado pela Orfeu Negro.

A Feira dos Imortais – Enki Bilal

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Já muito me tinham falado de uma época anterior de Enki Bilal onde os desenhos eram mais definidos e fantásticos, onde as histórias eram mais imaginativas e a totalidade mais fascinante. Conhecendo apenas os albums mais recentes (e gostando do estilo inóspito, pós-apocalíptico, desesperado e nostálgico) o que encontrei nesta dupla de histórias foi um tom ainda mais estranho e alienígena, uma falta de esperança de ironia forte onde o deserto está dentro dos homens e não no espaço que ocupam.

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Em A Feira dos Imortais os alienígenas são semelhantes a deuses egípcios, em naves que se locomovem a energia petrolífera, um método ultrapassado e que é desdenhado por alguns destes seres de cabeça animal. A postura destes deuses assemelha-se à dos deuses gregos, usando os seres humanos a seu belo prazer para os seus próprio fins.

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Hórus insurge-se contra os restantes deuses e para levar a cabo um plano de troca de poder no governo humano, um caminho que poderá levar ao fim de uma ditadura, resolve devolver à terra um humano exilado numa cápsula com o seu robot, também condenado. Estando em baixas temperaturas o regresso à terra não decorre sem incidentes – ainda demasiado gelado para acordar, o embater de uma perna provoca a sua quebra como se de gelo se tratasse deixando o homem a esvair-se lentamente em sangue.

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O trauma de acordar não se fica por aqui. Para além da presença estranha de um alienígena todo poderoso que resolve apropriar-se da sua mente, descobre que a amada morreu há muito a dar à luz o filho de ambos e que pouco reconhece do mundo que deixou. Possuído pela entidade semi-divina atinge o estatuto de herói concretizando parte do plano da entidade para se insurgir contra o líder humano actual.

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Imaginativo, carregado de detalhes mirabolantes e alusões religiosas, contendo paralelismo com mitologias várias e retratando uma sociedade distópica onde a sociedade se divide entre os ricos e os outros e as mulheres são mantidas em locais fechados onde cumprem o seu papel reprodutor, A Feira dos Imortais apresenta um Bilal carregado de ideias e de detalhes onde não falha a ironia do destino.

Este volume duplo foi publicado numa parceria da Asa com o jornal Público.

Cães da Pradaria – Philippe Foerster e Philippe Berthet

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No final do século XIX o interior americano era um local carregado de misérias, onde a doença e os muitos acidentes marcam a vida de uma maneira irreversível. Órfãos que se vêem arrastados para uma nova realidade, desprotegida, crianças abandonadas por terem origem em amores impossíveis e bandidos que, caindo no mundo o crime por uma sucessão de episódios, conseguem revelar mais humanidade que os supostos justiceiros, cegos pelo fanatismo.

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Em época de doença as crianças sempre foram o elo mais fraco. Dependentes da protecção dos adultos, desprovidas de meios e de autoridade, são muitas vezes o resultado de amores indevidos e acabam por ser abandonadas ou maltratadas. É o caso de um rapaz surdo-mudo que, depois de ter sido abandonado pela mãe, é adoptado, em bebé, por um casal. Não pensem que o casal tinha boas intenções – a vivência do rapaz é marcada por trabalhos pesados e maus tratos. Mas ao menos tinha um tecto.

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A história começa com o relato de Calamity, relato este sob a forma de carta para a filha que terá abandonado por ter condições para a cuidar. Transportando uma série de órfãos numa noite escura, encontra-se com J.B. Bone, um bandido honrado que transporta o caixão do seu companheiro do crime ao longo de vários quilómetros para o enterrar junto da falecida amada.

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No dia seguinte, quando se separam, o rapaz surdo-mudo fica para trás e começa a seguir J.B.Bone. Relutante e desagradado pela presença do rapaz, o bandido tenta dissuadi-lo de o seguir, mas decorridas algumas noites habitua-se à silenciosa presença, com quem conversa sem obter resposta. Mas a sua viagem não há-de ser pacífica. O parceiro de J.B.Bone terá morrido num assalto perpetuado por ambos e, em sua perseguição encontra-se uma expedição de objectivos mistos – impor a justiça e obter a recompensa pela cabeça de Bone.

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A subversão de estereótipos é evidente. O bandido perseguido faz todos os esforços para cumprir a palavra dada ao amigo falecido e acaba por se afeiçoar ao rapaz. Já os homens que o perseguem revelam-se menos honrados, na fronteira da violência que agora podem ultrapassar justificados com a recompensa pela cabeça de Bone. Excepto Salomon, um homem que se julga reger pelas leis de Deus, de moral rígida que pretende apagar as provas da sua fraqueza.

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Apesar do clima duro, Cães da Pradaria revela-se em relato bastante mais emotivo do que esperava, uma reviravolta carregada de esperança depois de atingida a ruptura da tensão crescente de violência, revelando uma realidade que, sendo quase desprovida de possibilidades, ainda contém espaço para um final feliz no meio de tanta desgraça.