Assim foi: Amadora BD

Tenho visto várias críticas negativas. E com razão. O programa é divulgado em cima da hora (com pontos incompletos) não permitindo organizar a(s) visita(s) e que livros levar para serem assinados, as exposições nem sempre estão disponíveis nos primeiros dias do evento, muitas são demasiado focadas no passado e pouco no que se faz actualmente.

Ainda assim, continuo a achar que é um evento que vale a pena, principalmente quando olho para o preço do bilhete. E têm existido algumas (pequenas) diferenças. O espaço para os autores assinarem já não é na garagem, escura e algo claustrofóbica, mas num espaço que coloca os autores num lugar mais aprazível para os leitores aguardarem a sua vez. A parte superior afasta-se mais do aspecto de ginásio ou de armazém com que me deparei nalguns anos e o espaço da garagem parece melhor aproveitado. O auditório tem uma disposição mais confortável e foi possível usufruir do evento mesmo estando de canadianas (com foi o meu caso este ano), algo que reparei não ser totalmente possível noutros anos. Só posso, claro, falar, comparando os anos em que fui e confesso que não puderam ser muitos.

Autógrafos

Posto isto, esta entrada resume duas visitas ao evento. A primeira no dia 04 em que cheguei a meio da tarde e me dediquei a explorar as exposições, e a segunda no dia 12 em que cheguei após o almoço e mais focada nos autógrafos que pretendia recolher. No dia 04 pude aproveitar apenas para assinar um livro de Marcello Quintanilha.

Já no dia 12, estranhei a pouca fila para John Layman, o autor de Tony Chu, que talvez se devesse à hora – a série é das minhas favoritas da Image e encontra-se actualmente a ser publicada em Portugal pela G Floy; e aproveitei para assinar alguns livros.

Já no caso de Grazia La Padula, cheguei mesmo em cima da hora em que se formou a fila para os autógrafos – felizmente! Porque tornou-se demasiado grande em pouco tempo. O peso excessivo dos livros para estes dois autores fez com que não tivesse conseguido, neste dia, pegar mais autógrafos.

O que gostei menos? Só soube da presença de alguns autores / eventos em cima da hora e o controlo do fim das filas ser descarregado em cima de quem já estava na fila “É o último – veja se mais ninguém se põe atrás de si”.

Exposições

Tendo só ido no segundo fim de semana, tive a possibilidade de ver todas as exposições já montadas (como já começa a ser usual, as exposições não estão todas disponíveis nos primeiros dias do evento). A área disponível no pavilhão principal tinha o inconveniente de ter cruzamentos estranhos com espelhos que dificultaram a navegação e perceber se já tinhas enveredado por aquele caminho antes.

Em Contar o Mundo – A reportagem em banda desenhada mostravam-se alguns eventos comparando a perspectiva jornalística e o respectivo retrato numa página de banda desenhada, seja na perspectiva de uma personagem, seja numa perspectiva mais neutra. Mostraram-se alguns trabalhos de banda desenhada que são peças não ficcionais e realistas, como biografias ou reportagens neste formato, mas também alguns trabalhos com componente ficcional onde se demonstram eventos reais.

Uma exposição interessante, mais coesa nalgumas partes que noutras, que realçava o papel da banda desenhada enquanto meio de transmissão, não só de histórias, mas de eventos reais.

Para além desta, destacaria, claro, as de Will Eisner e Jack Kirby, com Tormenta a destacar-se inesperadamente pelo efeito visual da sala (durante o tempo em que lá estive não houve visitante que não se tivesse fotografado com o boneco), e Revisão a reconhecer trabalhos antigos mas interessantes que assim voltam a estar disponíveis a novos leitores. A ala onde se destacam os autores portugueses com obra publicada no estrangeiro também era das mais interessantes (e das poucas com suporte audio visual para dar a conhecer algo mais dos autores).

 

Novidade: Europeana – uma breve história do século XX

Ainda que não me pareça englobar-se no tipo de livros que normalmente leio, eis um lançamento da Antígona que me parece interessante (mais que não seja porque o cúmulo da estupidez humana consegue ser sempre fascinante):

Saudado pela crítica como um passeio (im)pertinente e inconformista pelo século passado, Europeana (2001) tem por propósito dar-nos uma amostra da invariável estupidez humana ao longo de cem anos. Tempo de panaceias universais, de alianças entre a tecnologia e o mal e de histeria colectiva, o século xx de Europeana, à luz das estatísticas de um narrador frenético, converte-se num negro burlesco, numa grotesca enumeração de tirar o fôlego, em que coexistem a revolução bolchevique, barbies e a cientologia. No fim, fica a pergunta: terá este bárbaro século realmente terminado? Na senda de Bouvard e Pécuchet, de Flaubert, da falsa ingenuidade de Cândido, de Voltaire, e num estilo à Kurt Vonnegut, Europeana realça a vacuidade dos lugares-comuns e dos estereótipos e o autoritarismo dos discursos do saber, para melhor os combater.

 

 

Novos projectos literários em curso

Amanhãs que cantam

Este é o novo projecto da Imaginauta, em parceria com a Épica, que já nos trouxe obras como Comandante Serralves, uma obra de ficção científica portuguesa que ultrapassou todas as expectativas e nos presenteou com um conjunto coeso de histórias que decorre numa realidade alternativa interessante – o que tem de peculiar este conjunto? Está carregado de referências bem portuguesas!

Amanhãs que cantam, o novo projecto pretende agregar histórias que decorram numa realidade alternativa em que Portugal ficou sob um regime comunista desde 1968, ano em que Salazar caiu da cadeira. Neste projecto os contos não têm de ser concordantes e podem expressar a sua própria versão deste regime, podendo constituir histórias utópicas ou distópicas.

Interessados? Podem consultar o regulamento na página oficial da Imaginauta.

Concurso nacional de contos de ficção especulativa

Este concurso resulta numa parceria entre o Sc-fi LX, a Imaginauta e a Editorial Divergência e pretende premiar contos de ficção especulativa, ou seja, fantasia, ficção científica ou terror. O concurso tem, associado, um prémio e um acordo de exploração comercial. Para mais detalhes podem consultar a página da Imaginauta sobre o prémio.

 

Antologia de Space Opera “Na imensidão do Universo”

Trata-se de um projecto da Editorial Divergência, uma das poucas editoras portuguesas que tem vindo a apostar na publicação de ficção especulativa de autores nacionais, com obras como Lovesenda de António de Macedo ou Anjos de Carlos Silva, para além das inúmeras antologias.

Para mais detalhes podem consultar a página oficial com o regulamento e informação sobre o que é pretendido.

Antologia de Fantasia Rural “O resto é paisagem!”

Esta antologia resulta de uma parceria com Luís Filipe Silva, conhecido autor de ficção científica português que já organizou outros projectos e que tem representado Portugal nalguns eventos internacionais de ficção especulativa, como a Eurocon.

Para mais detalhes podem consultar a página oficial com o regulamento e informação sobre o que é pretendido.

Base de dados de ficção especulativa Portuguesa

Este projecto distingue-se dos anteriores por não se referir à organização de uma antologia ou por envolver a escrita de contos. Ou melhor. Já envolveu a escrita. Pretende-se criar uma antologia que seja representativa da produção nacional dentro da Ficção Científica, do Fantástico e do Horror.

Para tal criou-se uma base de dados de acesso livre com os contos portugueses já publicados, e criou-se um fórum para facilitar o debate sobre que contos devem ser escolhidos para tal antologia.

Deixo-vos as ligações para cada uma das componentes

Resumo de leituras – Outubro de 2017 (10)

 

195 – Normal – Warren Ellis – Um genial e curto romance onde se antecipa a evolução da tecnologia ao extremo – um extremo que é perspectivado por alguns, levando-os a uma quase loucura. A visão do abismo é o motivo para que vários cérebros estejam internados num género de hospício. O mesmo hospício onde ocorre um estranho rapto em que, no lugar do raptado, se encontram centenas de insectos;

196 – Os Vingadores – Vol.4 – Ataque a Pleasent Hill:Omega – A vila secreta construída para conter vilões dificilmente se irá manter. Se por um lado se trata de um projecto proibido, por outro, os vilões começam a libertar-se das novas memórias construídas e a recordar-se de quem eram anteriormente;

197 – A Balada do Mar Salgado – Hugo Pratt – Eis uma longa aventura de Corto Maltese, em que este demonstra algumas das suas várias facetas. Um cavalheiro que nem sempre quer tomar responsabilidades, um pirata honrado, um aventureiro desmedido e inteligente que se deixa enrolar apenas para ver até onde pretendem enganá-lo;

198 – Crónica do Rei Pasmado – Gonzalo Torrente Ballester – Quando o rei expressa desejo de ver a rainha nua inicia uma revolução na corte e no clero. Visto como um desejo que vai contra os bons costumes, este desejo é antagonizado pelo clero que crê, na sua concretização, tratar-se de uma quebra que tratará a fúria de Deus e o descontrolo moral do povo. Ainda que a decadência seja corrente na corte, quase todos se juntam a favor dos planos do clero – por medo de Deus ou da Inquisição?

199 – A Ira de Hypsis / A Grande Fronteira – Vol.7 Valerian – Christin Mézières – Este volume contém duas histórias. A primeira explica parcialmente o desaparecimento da Terra que irá levar os nossos heróis a deambular entre aventuras sem rumo dirigido pela organização que os formou. A segunda mostra como outro agente humano consegue poderes para poder regressar às suas origens;

200 – Os Vingadores – Vol.5 – O Homem que caiu na Terra / Assuntos de Família – Um amigo que se julgava há muito morto regressa sob outra forma. Será que realmente é o homem que diz ser, ou uma sombra, uma projecção falseada de algo que se pretende camuflar entre os Vingadores?

El Sueñero – Enrique Breccia

Eis um livro que difere bastante em tom entre os primeiros e os últimos episódios. Talvez porque, como explica o próprio autor, no início, o intuito e a publicação dos primeiros diferente bastante dos últimos. Enquanto o início se destinava a um editor catalão, com espaço e tempo imprecisos, e explorando várias figuras mitológicas, com o corte por parte deste, a obra passa a ser lançada na argentina, com possibilidade para explorar uma componente mais política.

A história começa num futuro em que a humanidade atinge, finalmente a paz. Mas com a paz vem a inércia e os humanos deixam de ter objectivos concretos. Contrata-se, então, um antigo guerreiro para procurar, no espaço e no tempo, outros guerreiros que possam construir uma espécie de circo, um espectáculo de gladiadores, que forneça novo propósito de vida aos cidadãos.

Num barco destinado a todos os portos existentes e por existir, o guerreiro começa com o Minotauro, besta conhecida pela sua ferocidade, que convence a acompanhá-lo. Entre lobisomens e outras figuras da mitologia catalã, assistimos a fantásticas deambulações pelos caminhos dos contos e crenças rurais.

O conjunto de personagens que se reúne no barco é caricato e logo há-de ir parar às guerras civis argentinas onde se exploram as motivações e as personagens históricas da Argentina. Não faltam, também, os toques das crenças populares, com personagens míticas e sonhadoras, monstros reais e surreais.

De aspecto caricato, por vezes sonhador, este El Sueñero é, apesar das oscilações de tom e conteúdo, um conjunto engraçado com bons momentos que entrelaçam o futurismo com o fantástico ou com a história da humanidade.

The Marvellous (but authentic adventures of Captain Corcoran) – Alfred Assollant

Apresentado como um livro de aventuras para os mais novos, escrito em 1867, estas aventuras relembraram, pela sinopse, histórias como As minas do Rei Salomão ou aventuras de exploração vernianas num contexto colonial. Talvez por ter lido estes quando era muito mais nova, considero que The Marvellous (but authentic) adventures of Captain Corcoran é um livro demasiado datado, carregado de tiradas racistas (que são incluídas como sendo óbvias), preconceitos de género e de cultura que tornam a leitura, por vezes, desagradável.

“What’s the purpose of that man up front” asked the Captain, “the one who is pratically sitting on the ears of the elephant?”

“He’s the lead ridder” replied Holkar. “Only he can get the animal to listen and obey”.

“And the other one?” (…)

“My dear guest, he’s the one who will be eaten”.

“Eaten by whom? I’m not hungry, and I don’t imagine that’s the kind of food you would order for me, would you?”

“Eaten by the tiger, Captain”. (..) That’s just an english custom that we have adopted. And it’s an excellent one as you shall see. The English noticed that one often meets in our forests an animal which didn’t expect – a tiger, for exempla, or a jaguar or a panther. Now, all these animals that get up early in the morning like us, that get hungry like us, and that live by hunting, and that have no other means of existence – well they often wait for a traveller on the corner of a path, in the hope of a breakfast. Moreover, since they don’t like do attack a human whose face they can see, they almost always jump on you from behind, at the moment you least expect it, and carry you off into the jungle to eat at their leisure.

Now the english are very sensitive, very prudent – true gentleman, who regard their skin as more precious in the eyes of the Eternal Being than those of all other humans beings. (…) If by chance some misfortune should occur, it would not be right if a gentleman were exposed to the possibility of being eaten rather than the poor devil. And, after all, Divine Providence has created poor devils so that they can be eaten in the place of gentleman”.

Ainda que possamos considerar estas passagens como fruto do tempo em que o livro foi escrito, as personagens são algo lineares nas suas características. O Capitão Corcoran é o típico herói, frontal e forte, que, com astúcia, consegue salvar todos, enaltecendo as características genéricas dos franceses em relação aos ingleses, retratados como cobardes e traiçoeiros.

Possuindo algumas boas críticas aos avanços coloniais, denunciando a forma como se convenceram príncipes locais a cooperar, aumento impostos às populações para responder às necessidades dos colonizadores, possui histórias pouco realistas e demasiado simplistas, onde se destaca, como ponto positivo, o animal que acompanha sempre o Capitão – um tigre esfomeado que o protege a todo o custo e em todas as circunstâncias.

O resultado é um livro estranho. É possível simpatizar com a personagem principal nalguns momentos, que se mostra corajoso e correcto para com os locais quando tem oportunidade de os liderar, mas as constantes referências a preconceitos de nacionalidade, género e raça dificultam a leitura e levantaram-me alguns cabelos.

Crónica do Rei Pasmado – Gonzalo Torrente Ballester

Crónica do Rei Pasmado é uma divertida sátira às cortes reais, apresentando-nos, mais especificamente, a de Filipe IV, mostrando um rei jovem, mais obediente do que exercitando vontades, subjugado pelo protocolo e pela igreja, Quando, depois de uma noite com uma famosa prostituta, expressa a vontade de ver a rainha nua, gera-se o caos na corte, no clero e no país. E não é por falta de vontade da rainha em cumprir esse desejo.

Rapidamente se convocam várias reuniões entre teólogos, inquisidores e outros membros do clero, para decidir as consequências que tal acção, por parte do rei, terá no destino do país e na moral do povo. Não é de todo estranhar que, da parte deste grupo, se decida que o Rei não pode ver a Rainha nua, iniciando-se uma série de conspirações que visam impedir as mútuas visitas nocturnas – fechando, até, todas as portas que dão acesso à rainha, ou provocando (sob aparência de acidente) a morte do benévolo confessor do Rei.

Diz Vossa Mercê a Graça do Senhor? Acha que a Graça do Senhor se manifesta no coito? Ou na contemplação desses horríveis penduricalhos das fêmeas que se chamam peitos? Ou prefere que a contemplação se verifique pelas costas, evidentemente contranatura? Refiro-me, como é óbvio, à contemplação das nádegas.

Pasmado com o corpo da prostituta, antecipando a visão do corpo da mulher com quem casou, o Rei é, ainda, um frouxo demasiado inocente que só pelo pajem se apercebe das intenções dúbias dos que o rodeiam. Instigado por um misterioso Conde, e ajudado pelo pajem, lá se tecem planos para fazer a vontade do rei, percebida a parvoíce que é pensar que o futuro do país depende de tal acto.

O padre Villaescusa voltou-se para ele com fúria.
E Vossa Paternidade não as obrigou a vestirem-se? Não era essa a primeira missão do seu ministério?
Eu, Padre, ensinei-lhes que o filho de Deus tinha morrido por todos os homens, também por eles, e que os esperava no paraíso.
Um paraíso para gente nua?
Não sabemos como estarão no paraíso aqueles que o merecem, mas suspeito que nao terão levado as suas roupas consigo.

Em tom cómico e audaz, revelando as preocupações vãs de um conjunto desocupado de homens que retira de tudo grandes sentidos e efeitos no Reino, apresenta a hipocrisia de uma corte em que todos pecam mas se devem manter as aparências perante os restantes membros e, sobretudo, perante a Igreja, não vá a instalar-se novo auto de fé.

Leitura rápida e divertida, Crónica do Rei Pasmado começa com uma introdução de Daniel Sampaio onde nos apresenta outros livros do autor! Infelizmente estes outros não parecem estar publicados em português.

Li depois Fragmentos de Apocalipse (1977), romance poliédrico em que um escritor nos apresenta sucessivas versões do livro que está a escrever e nos conduz por um labirinto de alternativas e mudanças de rumo, relacionadas com a experiência íntima do processo literário. (…)

Na obra póstumas, Doménica (1999), Ballester conduz-nos num mundo de fantasia, cheio de bruxas, gigantes e cavaleiros, onde um príncipe é conduzido pela mão de uma rapariga inquieta: um texto curto para todas as idades, como é costume referir.

Crónica do Rei Pasmado foi publicado na colecção Essencial / Livros RTP.

Resumo de leituras – Outubro de 2017 (8)

183 – Kingsman – Serviço secreto – Mark Millar, Dave Gibbons e Matthew Vaughn – Nem todos os agentes secretos têm uma origem aristocrática. A história apresenta um jovem numa existência problemática, um bairro carregado de vícios e vazio de possibilidades que dita o destino criminoso de quase todos os que nele habitam. Felizmente para este jovem o tio é um grande agente secreto que tentará levar o sobrinho a seguir-lhe as pisadas por um caminho demasiado árduo;

184 – Tony Chu Vol.7 – John Layman e Rob Guillory – O sétimo volume mostra um Chu mais determinado e focado, enquanto os casos exploram as possibilidades dos vários poderes envolvendo comida. Menos centrado em Chu, é um volume nojentamente divertido carregado de peripécias mirabolantes;

185 – Strange Fruit – J.G. Jones e Mark Waid – Uma história que aproveita um período marcante da história americana em que a população afro-americana, apesar de livre, continua a ser vista como propriedade, trabalhadores inferiores que podem ser comandados e dispostos como gado. O período das cheias intensificou as tensões existentes, mas neste volume cria-se um herói que vira a calamidade eminente;

186 – As Bruxas – Stacy Schiff – Uma reconstrução interessante em torno dos acontecimentos que envolveram Salem e o surgir de um sem fim de bruxas no meio de uma comunidade que seria tão religiosa. Tédio, falta de atenção, possibilidade de não trabalhar – as acusações partem de um pequeno grupo de raparigas que se dizem embruxadas e que vão acusando vários elementos da comunidade. Começam com os alvos fáceis e vão aumentando de importância as suas vítimas;

187 – Tio Patinhas 2 – O segundo volume de Tio Patinhas possui uma série de aventuras, diversas, carregando fortes componentes de ciência e mistério, mas nem sempre centradas na personagem que dá nome ao volume;

188 – Um gladiador só morre uma vez – Steven Saylor – Há mais de uma década li todos os livros publicados, em português, da série Sub-Rosa. Com este volume volto à mesma Roma, com uma série de pequenos mistérios, alguns de fácil solução, em que Gordiano se apresenta não só como o Descobridor, mas como um homem responsável e dedicado à família.

Um gladiador só morre uma vez – Steven Saylor

Há muitos anos que não lia um livro de Steven Saylor mas recordava-me com algum carinho da personagem principal, um investigador romano, Gordiano, que gradualmente se vê casado com a sua anterior escrava egípcia, pai adoptivo de um menino mudo (mas perspicaz) e pai biológico de outras duas crianças.

Ao longo da série Roma Sub-Rosa o autor vai desenvolvendo a personagem, fazendo-a evoluir ao longo de décadas, cada vez mais velho e cansado, mas mais inteligente, apesar de cair nalgumas esparrelas por conta das suas boas intenções. A dinâmica entre ele e a ex-escrava é interessante, bem como a perspectiva que nos dá da sociedade romana, na qual investiga crimes e desaparecimentos difíceis.

Ao contrário dos restantes livros em que se explora um único mistério, este é um livro de contos, um livro de pequenos casos resolvidos mais rapidamente, alguns mistérios que se conseguem resolver facilmente pelo leitor, outros mais obscuros e, até, divertidos. Como investigador Gordiano vai conhecendo algumas personagens importantes ainda que, como cidadão de classe baixa, não tenha sempre um reconhecimento de igual para igual.

Os mistérios, mortes, desaparecimentos e conspirações, são as justificações para explorar partes importantes da história do Império Romano, desde a revolta dos gladiadores, às perigosas incursões de Sertório, sem faltarem as múltiplas menções a Cícero, uma personagem controversa e de rápida ascensão política.

Um Gladiador Só Morre uma Vez é uma leitura interessante e leve, que explora de forma diferente a personagem de Gordiano, proporcionando vários episódios engraçados para quem já conhece as personagens. Para quem não conhece poderá revelar-se demasiado simplista.

Um Gladiador só morre uma vez foi publicado pela Bertrand Editora.

Corto Maltese – A Juventude – Hugo Pratt

Nesta história Corto Maltese é quase apenas um nome, uma referência a alguém movimentado e aventureiro, repetida por um amigo. Aliás, a maioria da história centra-se na guerra entre a Rússia e o Japão, no ano de 1905, colocando Rasputine e Jack London em contacto, e utilizando a referência a Corto Maltese como sendo alguém que poderia ajudar Rasputine a escapar-se.

As primeiras páginas são de introdução com belíssimas fotografias que captam o ambiente do local onde decorre a história e nos apresentam os locais por onde Jack London poderia ter passado, e de que forma poderia ter conhecido Rasputine.

O clima é de tensão e mesmo com o cessar fogo algumas balas continuam a ser disparadas indevidamente. É no meio desta confusão que Rasputine vê uma possibilidade de escapar, envergando um uniforme indevido e tentando assim fugir para outro local.

Mostrando o seu carácter oscilante e maldoso, Rasputine contrasta com Jack London, uma figura que aqui se mostra corajosa se bem que desconhecedora dos costumes japoneses, incorrendo, assim, em graves ofensas. O caminho destes dois homens cruza-se, nesta história, tendo como saída a figura de Corto Maltese.

Cruzando factos com ficção para realçar o espírito explorador de Corto Maltese, aqui ainda jovem, este A Juventude é uma história curta que não responde totalmente à expectativa de uma história do herói – e compreende-se. Esta história terá sido um trabalho encomendado sendo aqui Corto Maltese mais acessório do que central.

A Juventude foi publicado pela Asa.

Resumo de leituras – Outubro de 2017 (5)

169 – Crossroads – João Ramalho Santos, João Miguel Lameiras e José Carlos Fernandes – uma sucessão de histórias envolvendo carros, reunidas das mais diversas formas, seja a transcrição de emissões de rádio, sejam notícias de jornais;

170 – Magia de Papel – Charlie N. Holmberg – Uma ideia engraçada mas mal aproveitada numa personagem principal fraca e pouco credível. A narrativa, demasiado linear centra-se em menos de meia dúzia de personagens fazendo com que a história pareça não ter suporte;

171 – The Marvellous (but Authentic) Adventures of Captain Corcoran – Alfred Assollant – um volume de aventuras coloniais que contrasta franceses contra ingleses, conferindo aos ingleses todas as características negativas (corrupção e cobardia) e aos franceses todas as positivas. Pelo meio temos os indígenas, corajosos mas simples que são envolvidos por esta sede de conquista. Simples na forma como apresenta as personagens, consegue ter algumas tiradas preconceituosas que, mesmo sendo fruto da época em que foi escrito, tornam a leitura menos agradável;

172 – O Árabe do futuro – Vol.1 – Riad Sattouf -De mãe francesa e pai árabe, Riad conta, pela sua própria perspectiva, os anos de criança que passou entre o ocidente e o oriente. A perspectiva de criança pode ser simples mas os episódios que captou não o são, deixando antever diferenças culturais e constrangimentos familiares.

Novidade: Astérix e a Transitálica

Sai, este mês, um novo álbum de Astérix pela dupla Jean-Yves Ferri e Didier Conrad em que se explora a restante península itálica, demonstrando que nem todos os habitantes são romanos, e que nem todos estão de acordo com o domínio de Roma.

Este volume será lançado, em simultâneo, em 20 línguas, sendo que a edição portuguesa estará a cargo da Asa, como já é habitual. Deixo-vos a capa e a sinopse.

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Para afirmar o prestígio de Roma e a unidade dos povos da península itálica,
Júlio César aprova a organização de uma corrida aberta a todos os povos do
Mundo Conhecido, a fim de mostrar de forma esplendorosa a excelência das
vias romanas.

Aos organizadores do evento, César impõe uma condição sine qua non: a
equipa romana tem IMPERATIVAMENTE de cortar a meta em primeiro lugar
(ao que parece, naquela época o desporto, a política e o espetáculo já estavam
intimamente ligados…)! Com o que César não contava era com a inscrição na
corrida dos nossos dois campeões gauleses, que ameaçam deitar por terra os
seus sonhos de grandeza…

 

 

O Árabe do Futuro – Vol. 1 – Riad Sattouf

Contado pela perspectiva do autor enquanto criança (supostamente, pelo menos) mostra um menino de cabelos alourados que causa fascínio nos países do médio oriente. Filho de um sírio com uma francesa, muda frequentemente de país, conhecendo os familiares de ambos os lados e apresentando os contrastes de comportamento, postura e afecto.

A primeira viagem leva-os à Líbia onde o pai aceitou um cargo como professor assistente, uma posição em que é pago em dólares. Encontram um país de traços comunistas, sem aquisição de propriedade onde a mãe não consegue manter o cargo na rádio.

Após uma curta estadia em França, a família desloca-se para a Síria, perto da vila onde o pai terá nascido. Aqui a situação familiar é complexa. O tio, obtuso e ganancioso, terá vendido as terras do pai por achar que este já não iria necessitar delas e, em troca, deixa-os usar uma das casas. Tal troca torna-se razão para os primos implicarem com o autor enquanto criança, mostrando ressentimento para com o alojamento.

O pai é um homem contraditório, de contrastes culturais e de crença, que vai adaptando às necessidades. Algo déspota em relação à sua família, mostra-se estranhamente infantil para com a mãe e submisso em relação ao irmão mais velho. No início mostra-se um revolucionário que acha que a sociedade árabe deve mudar mas, com o tempo, revela-se menos anarquista.

Diferente dos restantes membros da família pelas suas características ocidentais, Riad é ostracizado pelo primos, estranha a cultura e a forma diferente de se falar o árabe na Síria, não chegando a ir à escola, apesar das tentativas do pai – tentativas que a mãe enfrenta duramente quando se apercebe da maldade, normal naquele meio, para com um cão.

Caricato no tom, especial pela perspectiva de criança, O Árabe do Futuro mostra o contraste de culturas que é absorvido pela criança,realçando as discrepâncias lógicas que parecem existir no pai consoante as circunstâncias em que se encontra. Revelando uma capacidade precoce para o desenho, a criança vai-se adaptando ao que a rodeia.

Os três volumes de O Árabe do Futuro foram lançados em Portugal pela Teorema.

Strange fruit – J.G. Jones e Mark Waid

Strange fruit é o título de uma das canções mais arrepiantes de sempre. Arrepiante porque na aparente estranheza do título escondem-se horrorosos episódios da história americana. A letra foi escrita por um professor judeu como protesto contra o racismo americano, que na época, dava origem inúmeros linchamentos, referindo-se “frutas estranhas” aos corpos de homens afro-americanos que ficavam pendurados nas árvores. O poema foi adaptado para música com a voz de Billie Holiday.

Southern trees bear strange fruit
Blood on the leaves and blood at the root
Black bodies swinging in the southern breeze
Strange fruit hanging from the poplar trees
Pastoral scene of the gallant south
The bulging eyes and the twisted mouth
Scent of magnolias, sweet and fresh
Then the sudden smell of burning flesh
Here is fruit for the crows to pluck
For the rain to gather, for the wind to suck
For the sun to rot, for the trees to drop
Here is a strange and bitter crop

Canção emblemática no género, dá título a esta banda desenhada onde se apresenta a mesma época e se demonstra a atitude territorial para com a população de origem africana. O ano escolhido é 1927, ano em que ocorreu uma gigantesca inundação em Mississippi, conhecida como a maior de que há registo. Esta catástrofe desalojou duas centenas de milhar de afro-americanos, que tiveram de permanecer durante muito tempo em campos provisórios. Estas condições precárias foram um forte factor na migração para o Norte do país onde poderiam ter outro tipo de empregos.

É sem dúvida uma época conturbada, carregada de tensões, que pede por um herói, alguém que possa aliviar o clima e impor respeito pela população afro-americana – os poucos heróis reais não são suficientes para impedir os linchamentos, as prisões injustas e os maus tratos recorrentes. Com o aproximar de uma catástrofe aumenta a raiva para com os afro-americanos que servem para expiar ansiedades.

Assim, do nada, num episódio crítico, surge um homem de pele escura, um colosso mudo mas inteligente, aparentemente apático e resistente às balas que salva um afro-americano de um enforcamento certo. A sua presença é tida como ameaçadora e é perseguido mas sem grande efeito, ou não se revelasse invencível, não agindo a não ser quando se torna necessário salvar alguém.

Realçando o clima de tensão e anulado os episódios mais violentos, Strange Fruit demonstra como algumas catástrofes poderiam ser minimizadas com recurso a estudos, destacando o pouco (ou nenhum) acesso que as populações afro-americanas tinham a livros, mesmo nas bibliotecas. Ainda que esta população estive liberta da oficial condição de escravo, estava presa pela falta de cultura e de oportunidades de trabalho, forçados a trabalhos pouco remunerados, vistos com ressentimento, e que causam episódios de raiva e vingança sempre que não seguem as instruções de algum homem branco. Em suma, um bode expiatório perfeito para frustrações.

Apesar de não ter gostado totalmente da forma como é usado o herói que se materializa, a história apresenta uma perspectiva próxima das tensões existentes retratando uma estação crítica, o que exacerbou reacções. Do ponto de vista gráfico é interessante e expressivo, realçando emoções e interacções.

Os trilhos do acaso – Paco Roca

A Guerra Civil Espanhola é um tema sensível. Não só separou Espanha (separou e continuou como ressentimento, motivo de separação no país pouco homogéneo) como famílias e vizinhos. Sobre os efeitos da Guerra Civil Espanhola existem, actualmente, diversos relatos, mas pouco se fala nos refugiados espanhóis que conseguiram escapar num barco, recusados por vários portos, tratados como indigentes e escorraçados pela sua cor política, vista como um perigo maior do que o fascismo.

Miguel Ruiz encontra-se em França. Tendo sobrevivido à situação de refugiado, trabalhador no deserto, acabou por participar na Segunda Guerra Mundial, integrando uma unidade militar composta por espanhóis republicanos. Eis um passado que os seus actuais conhecidos não suspeitam, vendo nele apenas um velhote, até ao momento em que um jovem aparece em busca de detalhes para uma história.

O velhote recusa, ao princípio, reticente em partilhar as memórias há muito enterradas. Persistente, o jovem não desiste e consegue que lhe sejam contados os mais mirabolantes momentos, elementos específicos de uma dolorosa história de guerra, mas sobretudo de resistência ao Fascismo – uma história enterrada pelo tempo e pela vontade de esquecer as atitudes incorrectas que foram tomadas para com este grupo de espanhóis.

Se, noutras histórias do autor, o lado humano e sentimental constitui premissa, poderíamos, talvez, esperar que numa história de guerra tal não se notasse. A verdade é que Paco Roca é perito em expressar as singularidades do comportamento, definindo personalidades em poucas vinhetas, captando expressões e gestos que marcam e tornam as personagens palpáveis.

As reacções do velhote ganham vida numa curta sucessão de quadrados e rapidamente sentimos que conhecemos e percebemos um pouco mais deste homem. Mas não só. Até as pessoas que o rodeiam e que fazem parte do seu quotidiano são retratadas de forma única, captando-se pequenos episódios que revelam o tipo de relacionamento que os protagonistas têm.

Os trilhos do acaso pode ser a história encoberta de uma guerra, mas, mais do que isso, é a história de um homem (ou da possibilidade de um homem), um herói que se reduziu à quase inexistência no seguimento de alguns constrangimentos pessoais e cuja história foi apagada por vergonha.

Os Trilhos do Acaso foi publicado em dois volumes na colecção Novela Gráfica publicada pela Levoir em parceria com o jornal Público.

Novidade: Emal – Quando a Guerra Fria Aqueceu – Miguel Santos

Eis novo título da Escorpião Azul que parece interessante, que decorre numa realidade alternativa. Deixo-vos a sinopse e algumas páginas:

A Guerra Fria aqueceu e as super-potências devastaram o hemisfério norte com fogo nuclear. O 25 de Abril nunca aconteceu.

Milhares de refugiados fogem das ruínas de Portugal para o Ultramar, onde novos senhores da guerra competem com os últimos resquícios do Império. E esta é a história de um homem determinado a encontrar um sentido para tudo isto.

 

Bruxas – Stacy Schiff

O que dizer de um período da história em que a comunidade parece ter sido acossada por uma praga de bruxas? Em Bruxas Stacy Schiff apresenta um extenso trabalho de investigação, reunindo diários e os poucos documentos que não foram eliminados, e colmatando as falhas que aparecem.

O pastor principal da vila descobriu que era parente de nada menos do que vinte bruxas. Fantasmas fugiram do túmulo para entrar e sair do tribunal, enervando mais gente do que as próprias bruxas.

Em 1692 uma rapariga começou a contorcer-se e a gritar. A ela juntaram-se outras, com os mesmos sintomas, que se diziam embruxadas, apontando dedos acusatórios. Se as vozes de mulheres são de menor importância nesta época, as de jovens raparigas ainda mais. Mas com estes sintomas e acusações ganham atenção, sobretudo masculina, enquanto arranjam motivo para se dedicarem ao ócio.

As mulheres são as vilãs nos contos de fadas – o que é que estamos a dizer quando colocamos entre as pernas o próprio símbolo dos afazeres domésticos comezinhos e levantamos voo, desafiando os limites da comunidade e a lei da gravidade? -, mas esses contos são igualmente o território da juventude. Salem encontra-se, a todos os níveis, ligada à adolescência, essa idade imoderada em que, vulneráveis e invencíveis, saltitamos alegremente ao longo da fronteira entre o racional e o irracional, em que aumenta o interesse tanto pelo espiritual como pelo sobrenatural.

Claro que a autora não parte directamente para estas conclusões. As próprias embruxadas, anos mais tarde, hão-de confessar o tédio ou a revolta para com os patrões, que as levou a estes sintomas. Até porque a mente das populações era, naquela altura, fortemente influenciável. Era mais fácil atribuir a uma bruxa um azar do que ao acaso – ganhava-se propósito e uma causa concreta para as desgraças.

A bruxaria resolvia as pontas soltas, explicava o arbitrário, o fantasmagórico e o inamistoso. Como Samuel Parris estava a descobrir, deflectia o julgamento divino e dissolvia a responsabilidade pessoal. O diabo não só oferecia um feriado à razão, como se exprimia com clareza: não obstante toda a sua perversidade, os motivos faziam sentido. Ninguém perguntava o que se tinha feito para merecer o seu desfavor, preferível à censura, ou à indiferença celeste. E quando se procuravam maquinações diabólicas, estas tornavam-se rapidamente visíveis. Entre responsabilizações flagrantes, a bruxaria resolvia impasses lógicos. Ratificava ressentimentos, neutralizava desfeitas, aliviava ansiedades. Oferecia uma explicação hermética quando, literalmente, o diabo começava a andar à solta.

 

Um grupo de mulheres jovens e desprovidas de direitos desencadeou a crise, revelando forças que ninguém conseguia conter e que ainda hoje nos perturbam. O que poderá, ou não, ter algo a ver com o motivo pelo qual transformámos uma história de mulheres em perigo numa outra sobre mulheres perigosas.

O mesmo se podia dizer para sonhos e imaginações nocturnas. Era comum a ideia de que uma mulher se materializava no leito do vizinho, atormentando-o, ou, sob a forma de um animal invadia espaços alheios para fazer diabruras e rapidamente se escapar. As primeiras acusadas de bruxaria eram mulheres que estavam à margem da sociedade, seja pela sua condição de extrema pobreza, seja por se encontrarem caídas em desgraça, viúvas a quem fora negada a herança.

É interessante que as mulheres espectrais frequentemente importunassem os homens nas suas camas em 1692, quando no mundo visível o oposto acontecia com alguma frequência.

Se, inicialmente, se começou por acusar mulheres que estavam à margem da sociedade, rapidamente as culpas passaram a contemplar mulheres que teriam, no seu passado, algum detalhe suspeito, uma falha do ponto de vista moral como uma gravidez fora do casamento, uma atitude pouco conformada e pacífica, ou alguma inteligência e sagacidade. Mas nem aqui ficou definido o limite, chegando-se a acusar, de bruxaria, mulheres que não tinham qualquer falha perante a família ou comunidade.

Numa sociedade pequena onde todos espiavam todos e assim acreditavam que se poderiam manter mais coesos e puros, qualquer comportamento inocente poderia ser facilmente transformado em atitude desviante, um indício de bruxaria. Um mero gesto, um mero olhar aos quais se confere um propósito poderia servir como prova para uma acusação. Mesmo quando estes tivessem origem na imaginação do seu observador.

Acusação após acusação, interrogatório após interrogatório, os acusados eram forçados a nomear cúmplices. As mulheres, principalmente, pouco crentes na validade dos seus pensamentos e, até, das suas memórias, acabavam por confessar voos em vassouras, ritos nocturnos em pastos, missas satânicas e assinaturas em livros que indicariam a venda da sua alma ao serviço do diabo. Não deixa de ser irónico confrontar a forma como se validavam as queixas das embruxadas em relação ao forçar de confissões por parte de mulheres que não teriam mácula moral, ou de confissões por parte de homens estabelecidos na comunidade.

E, pela primeira vez na Nova Inglaterra, as vozes femininas reveleram-se tão autoritárias que o depoimento espectral de duas esposas falecidas havia de prevalecer em tribunal contra um pastor eloquente e educado em Harvard.

O sucesso económico, contra todas as probabilidades, de uns acaba por fazê-los vítimas viáveis de acusação. Os feitos hercúleos ao enfrentar índios e ao desempenhar tarefas diárias são assumidos como provas de bruxaria, acabando por se condenar um homem proeminente, sobrevivente a vários ataques, que teria tido um papel importante na igual sobrevivência da sua pequena comunidade.

O facto de ninguém saber exactamente como uma bruxa exercia o seu mister também ajudava: a curiosidade da Hale era compreensível. Em parte bíblica, em parte folclórica, vagamente sueca e mesmo vagamente índia, uma bruxa era alguém que em julho beliscava e estrangulava, mas em agosto já derrubava reinos.

A imprecisão na definição do que era uma bruxa, um feiticeiro ou um bruxedo facilitavam as acusações. Referiam-se fantasmas, acreditava-se no efeito que o olhar do acusado tinha nos episódios de histeria demonstrados pelas jovens – elementos que alimentava a ânsia de um expurgo pelos juízes que pareciam desenterrar uma epidemia. A cada nova acusação surgiam novos suspeitos que prontamente eram interrogados. Se não confessassem nos primeiros dias, a dura permanência na prisão decerto trataria de avivar a memória para culpas e para detalhes de episódios fantásticos.

Numa sociedade que tenta lutar contra todos os vícios anulando o máximo de feriados e de festas, mantendo o maior foco possível no trabalho, e fomentando o espiar de todos, parece surgir o maior surto de todos os tempos, ironia que não passou despercebida a outras comunidades.

Com menos exactidão, mas com grande satisfação, os inimigos dos Puritanos deliciavam-se com aquele frenesi. Eles estavam a «enforcar-se uns aos outros» exactamente pelo mesmo crime – haviam de referir dois comerciantes quacres (…) do qual gostavam de acusar a sua seita de alegados adoradores do diabo. (…) A caça às bruxas parecia encorajar as gentes a comportarem-se como as próprias criaturas – católicos, franceses, bruxos – que abominavam.

Fruto do tédio dos dias iguais, sem diversão ou descanso, fruto de uma imaginação fértil alimentada pelo extremo fervor religioso, a caça às bruxas pareceu lógica aos juízes que presidiram aos julgamentos. Com o tempo, alguns deles, perceberiam que o melhor que fariam era apagar estes episódios da história.

O facto de as raparigas viverem num género de lugar pequeno e confinando que sempre proporciona um bom pano de fundo para o teatro (e para um bom romance de detectives) também terá contribuído: era menos frequente as acusações de bruxaria terem origem em locais urbanos.

Resultando numa histeria em massa, uma urgência em extinguir o mal e justificar todos os azares que ocorriam na vila, os julgamentos tornar-se-iam famosos apesar de todas as tentativas em eliminar registos da sua ocorrência. Utilizados para relatos fantásticos e peças de horror, são frequentemente referidos na literatura ou no cinema, sem esquecer a música, desde o folk à ópera.

Stacy Schiff realiza um extenso trabalho de agregação de informação, interligando-a e realçando o absurdo da forma como os procedimentos foram realizados nos julgamentos. As mesmas provas serviam para acusar e para ilibar e afirmações de inocência acabavam por ser mais prejudiciais do que confissões de culpa.

As Bruxas foi publicado pela Marcador.

O lar da senhora Peregrine para crianças peculiares – Ransom Riggs

O Lar da Senhora Peregrine para crianças peculiares é um livro destinado a um público mais juvenil mas nem por isso totalmente condescendente ou linear, ainda que possua algumas coincidências pouco prováveis e uma história algo afunilada na personagem principal.

Se há algo que importa destacar neste livro é o aspecto gráfico, com páginas separadoras e fotografias que lembram as décadas passadas do século XX, com as suas fotografias falseadas mostrando falsos prodígios. Todas as fotografias mostradas são verdadeiras, recolhidas pelo autor em vendas de garagem.

A história centra-se num rapaz, Jacob, que cresceu a ouvir as histórias mirabolantes do avô, um rapaz que sobreviveu à família, exterminada nos campos nazis. Após a fuga terá sido acolhido numa casa com outras crianças, crianças que teriam dons extraordinários. As histórias germinam na sua mente mas quando começa a ser gozado pelos colegas de escola acumula alguma raiva por ter acreditado em contos de fadas, acusando o avô de o ter contaminado com tais ideias.

Só aquando da morte do avô em circunstâncias estranhas é que percebe que alguma parte da história poderá ser verdade e, entre pais e psicólogo, lá consegue viajar à ilha remota onde se situaria a tal casa, conjuntamente com o pai que pretende iniciar outro livro sobre aves.

A vila inóspita que se situa na ilha tem poucas condições para turistas ou viajantes e sente-se uma aura de agressividade passiva, uma mentalidade rude aguçada pela necessidade e pela dura sobrevivência aos bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial.

Desolado, quase a desistir entre os destroços da casa que terá acolhido o avô, Jacob descobre finalmente pistas sobre algo mais – e um caminho secreto que o leva a um vórtice no tempo onde os colegas prodigiosos do avô persistirão, a cargo da Senhora Peregrine.

Mas nem tudo são boas notícias. Os monstros também andam à procura das crianças, mas com o intuito de as consumir. Jacob descobre que, também ele, tem uma capacidade que o distingue e um papel a desempenhar nesta batalha.

 

O Lar da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares é um livro cuja leitura escorrega facilmente. Com algumas coincidências excessivas que quase tornam o desenrolar dos acontecimentos desconfortável, apresenta uma história engraçada com detalhes imaginativos, destacando-se a utilização das fotos antigas para imaginar poderes para cada uma das crianças.

A interacção entre as crianças é engraçada e realista, mostrando picardias e dominâncias, um aproveitamento exibicionista dos poderes como num circo. É, desta forma, um livro aconselhável a um público mais jovem, não totalmente condescendente e interessante, com detalhes originais e envolventes.

O Lar da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares foi publicado em Portugal pela Contraponto.

Assim foi: Fórum Fantástico 2017

As diferenças

O Fórum Fantástico cresceu, este ano, de forma bastante positiva! Por um lado notou-se a forte aposta em workshops, o que possibilitou integrar camadas mais jovens e manter um programa mais dinâmico. A par com a usual (e fantástica) impressão a 3D organizada pelo Artur Coelho, houve espaço para desenvolver a imaginação dos mais pequenos, construir Zepellins e armaduras, ou para aprender um pouco mais de ilustração com Ricardo Venâncio.

Por outro, é de realçar a maior ocupação do espaço da Biblioteca Orlando Ribeiro que deu nova vida ao espaço – era impossível não reparar na tenda que ocupava parte do pátio com uma pequena feira do livro, onde se viam exemplares de livros de ficção científica e fantasia, sem faltarem os da autoria de Mike Carey, o escritor convidado deste ano. Nesta pequena feira do livro exterior encontravam-se a Leituria e a Dr. Kartoon.

Mas não foi só com a feira do livro que houve uma maior ocupação do espaço. O bom tempo permitiu a existência de bancas de produtos diversos, com especial destaque para o Steampunk (ou não estivesse a decorrer a EuroSteamCon integrada no Fórum Fantástico), bem como de mesas e cadeiras no exterior que permitiram usufruir do bom tempo. O terraço, bem como outras salas da biblioteca foram ocupadas, permitindo a apresentação de jogos de tabuleiro (com participação da Morapiaf) e a exibição de pranchas de Ricardo Venâncio.

E as diferenças não acabaram por aqui – a existência de um bar aberto durante todo o evento facilitou a permanência no Fórum Fantástico pois em anos anteriores era usual ter-se de deixar o recinto para comer alguma coisa. O menu, fantástico, possuía várias alusões ao evento e a comida fornecida era de boa qualidade (pela Cacaoati).

Mike e Linda Carey

Mike Carey produziu mais de 200 comics, vários livros e guiões para cinema. Com a adaptação para cinema de The Girl with all the gifts tem-se tornado cada vez mais requisitado. Por sua vez, Linda Carey escreveu também alguns livros (alguns sob pseudónimo). O destaque para a imensa obra, principalmente a de Mike Carey, serve para contrastar com o espírito que ambos demonstraram, sem prepotências ou projecções de importância, atenciosos e simpáticos durante todo o evento.

Na sexta-feira Mike Carey, conjuntamente com Filipe Melo e José Hartvig de Freitas, falou da larga experiência na produção de comics, da forma como trabalha com diversos desenhadores e da sua própria evolução e adaptação. Destacou-se a produção da série Unwritten, ideia que surgiu em cooperação com Peter Gross, com o qual já se habituou a desenhar. Foi uma palestra interessante e bem disposta.

No Sábado decorreu a conversa com ambos, Mike e Linda Carey, moderada por Rogério Ribeiro, mais voltada para os restantes livros (fora do formato da banda desenhada) onde se falou intensivamente do The Girl with all the gifts, que foi escrito em simultâneo com a adaptação, para cinema, da mesma história. Ambos os autores demonstraram uma queda para pequenos elementos subversivos nas suas histórias.

As restantes palestras de sexta

E com esta nomenclatura não pretendia referir menor prestígio das restantes palestras, mas sim destacar as que envolveram o autor convidado.

15:30 – Sessão Oficial de Abertura do Fórum Fantástico 2017

O Fórum iniciou-se na sexta (para mim, que não pude ir aos worksops) com uma sessão de apresentação de João Morales e Rogério Ribeiro onde expuseram algumas das diferenças deste ano e destacaram algumas sessões e workshops.

16:00 – Sessão “A Ficção Científica: Espelho de ansiedades políticas e pessoais”, com Jorge Martins Rosa, Maria do Rosário Monteiro, Daniel Cardoso e Aline Ferreira

Nesta sessão referiram-se várias obras e respectivas projecções das ansiedades sociais, não só em relação à evolução tecnológica e respectiva perda dos papéis tradicionais (com especial referência à mulher grávida e aos úteros artificiais), como a novos modelos sociais.

16:45 – Sessão “O lugar do Fantástico na Arte Contemporânea”, com Carlos Vidal, Henrique Costa e Opiarte – Núcleo de Ilustração e BD da FBAUL

A sessão apresentou a Opiarte enquanto espaço que permite, a alguns artistas, explorarem a vertente fantástica e de ficção científica nos seus trabalhos, espaço que visou responder a uma necessidade sentida pelos alunos da faculdade. Durante a sessão mostraram-se trabalhos produzidos neste núcleo, alguns dos quais se destacam pela qualidade.

17:45 – Sessão “Narrativa em Videojogos”, com Nelson Zagalo, Ricardo Correia e João Campos

(Cheguei no final)

As restantes palestras de sábado

14:30 – Sessão “Identidades autorais”, com Ana Luz, Joel Gomes e Pedro Cipriano

Os autores aproveitaram o espaço para falar sobre o seu percurso enquanto escritores, desde influências a desenvolvimento de método (destacando-se a referência de Ana Luz ao conto O Teste de João Barreiros), mostrando os livros em que já participaram, bem como os projectos futuros em que se encontram envolvidos.

16:00 – Lançamento “Almanaque Steampunk” (Editorial Divergência)

Cada EuroSteamCon costuma ser acompanhada pela publicação de um Almanaque Steampunk. O deste ano foi produzido em tempo recordo com a colaboração da Editorial Divergência. Ainda não tive oportunidade de ler, mas a publicação é curiosa, bastante atractiva visualmente, com conteúdos diversos e que promete bastante diversão para o leitor.

17:45 – Sessão “Prémio Adamastor”, com João Barreiros e Luís Filipe Silva

O prémio Adamastor este ano foi atribuído a João Barreiros e Luís Filipe Silva, dois dos poucos autores de ficção científica portuguesa que se têm destacado na divulgação do género dentro e fora do país. De realçar as várias antologias que João Barreiros organizou recentemente, bem como as colecções que organizou enquanto editor. Por seu lado, Luís Filipe Silva tem participado em diversas Con’s onde fala da ficção especulativa portuguesa, divulgando o que se fez em Portugal há várias décadas e o que se continua fazendo.

18:00 – Sessão “Dormir com Lisboa”, com Fausta Cardoso Pereira

Premiado e publicado na Galiza pela Urco Editora, Dormir com Lisboa é um romance de ficção especulativa que decorre na capital portuguesa, partindo da premissa de desaparecimento injustificável de várias pessoas. A passagem lida por João Morales denota um humor peculiar, com caricaturas de personagens e situações insólitas.

18:30 – Lançamento “Apocryphus #2”, com Miguel Jorge

Este projecto de banda desenhada português apresentou, no primeiro volume, uma qualidade gráfica excepcional, com elevado cuidado no tipo de papel utilizado e uma selecção cuidada de autores. À semelhança do primeiro volume, também o segundo foi publicado no Fórum, com a presença de tantos autores que por pouco transbordavam do palco.

Restantes palestras de Domingo

Infelizmente, Domingo apenas pude assistir à palestra do João Morales, Novas Metamorfoses Musicais, para além de participar em As Escolhas do ano com João Barreiros e Artur Coelho (sobre a qual dedicarei uma entrada específica para publicar as escolhas de cada um, como é usual).

A sessão de João Morales demonstrou o usual bom humor, com óptimas escolhas musicais onde se cruzam estilos e épocas, novas conjugações de musicas conhecidas em que destaco as seguintes:

(Venus in Furs: Versão portuguesa em Uma Outra História)

No final, há a destacar que o Fórum Fantástico é um evento TOTALMENTE gratuito, onde, todos os anos, várias pessoas se organizam para proporcionar, ao público, três dias de extrema diversão geek!

Resumo de leituras – Setembro de 2017 (5)

145 – A Biblioteca à noite – Alberto Manguel – Um livro apaixonante sobre bibliotecas e a sua dinâmica. Discorrendo sobre as várias bibliotecas, seja do ponto de vista de conteúdo, organização, disponibilidade (pública ou privada), Alberto Manguel constrói um livro fantástico para quem gosta de livros e de os ter organizados em prateleiras;

146 – Valerian Vol. 5 – Os Heróis do Equinócio / Metro de Châtelet – Direcção Cassiopeia – Christin Mézières – Duas histórias de Valerian bastante diferentes, a primeira pega num conceito romantizado de guerreiro que será imortalizado na regeneração de uma civilização, enquanto a segunda se centra em projecções monstruosas de origem desconhecida;

147 – Corto Maltese: A Juventude – Hugo Pratt – Um volume que nos apresenta a personagem enquanto jovem, dando-lhe um papel quase secundário – por diversas vezes referido, mas aparecendo apenas no final, a história dá especial destaque a um encontro entre Raspustine e Jack London, cruzando factos com ficção para dar realce ao surgir do espírito explorador de Corto Maltese;

148 – As melhores histórias de Donald & Patinhas – Don Rosa – Um conjunto de histórias mais compostas da Disney onde se exploram grandes tesouros perdidos, como a Biblioteca de Alexandria. Viajando pelo mundo, explorando o fundo dos mares ou as catacumbas de uma civilização perdida, estas histórias de traço mais detalhado do que vemos na maioria das histórias Disney, apresenta pequenas aventuras mirabolantes.