Capitão América Branco – Jeph Loeb e Tim Sale

Puro, quase ingénuo e forte, o Capitão América aqui apresentado é um herói correcto que prefere optar por restringir e prender o inimigo do que enveredar por chacinas sem sentido, mesmo no contexto de uma Segunda Guerra Mundial. Aqui tem um companheiro, um sidekick bastante jovem, quase uma criança que, estando no cenário de Guerra o convence a acompanhá-lo nas missões.

Visualmente interessante, este volume apresenta-nos a nostalgia e o remorso do Capitão América perante a sua incapacidade em salvar o rapaz que pôs em risco ao aceitá-lo como companhia. Atravessando o mar (onde é salvo pelo rapaz) a missão decorre em França onde enfrentam um dos vilões que se encontra a cargo de Hitler, o Caveira Vermelha.

A par com os agentes franceses que persistem à invasão, Capitão América apresenta-se pouco sagaz, antes uma personagem de intenções puras e acções correctas, características que, numa Guerra, raramente dão os frutos devidos. Com o rapaz estabelece uma parceria, uma amizade profunda que sente trair pelas circunstâncias que se apresentam bastante diferentes do que a história nos faz supor.

Capitão América Branco foi publicado em Portugal pela G Floy.

A Leoa – Anne-Caroline Pandolfo e Terkel Risbjerg

A Leoa é a história de uma mulher que ultrapassou as convenções do seu próprio tempo, Karen Blixen. A autora do romance auto  biográfico Out of Africa (em português, África Minha, adaptado para cinema com sucesso) nasceu decididamente no século errado. Ou no género errado para a época.

O seu espírito curioso e aventureiro não tinha lugar como mulher na sociedade religiosa e conservadora do início do século XX em que apenas os rapazes iam à escola, e as raparigas ficavam em casa a aprender a bíblia e talvez um outro idioma, neste caso o inglês. Irreverente, consegue escapar-se de casa para uma escola de belas-artes, mas também aqui o lugar das mulheres é distante do dos homens, com menos possibilidades e oportunidades.

O casamento parece a opção perfeita. Com o barão sueco Blixen-Finecke muda-se para África, para uma quinta onde pretendem produzir café, enquanto partilham aventuras em esplendorosos safaris. O casamento revela-se, no entanto, uma má escolha. O barão transmite-lhe sífilis, no seguimento de vários encontros com raparigas locais. Assim Karen Blixen separa-se do marido mas mantém-se à frente da herdade.

Apesar de ser uma gestora capaz, o solo da herdade não é propício à produção de café, e a ida para África que a tinha libertado para aventuras em novos territórios, longe da mentalidade retrógrada da família, é também o evento que a deixa, mais tarde, sem nada, dependente dos familiares quando tem de regressar à Europa – triste consequência do papel de mulher, sem real formação que possa utilizar.

Com ela ficam os ecos de África e dos povos africanos, uma forma diferente de ver o mundo que a marca e que irá transparecer nos livros que se decide a escrever, como forma de explorar a criatividade que acumula. É graças a estes livros que se transforma numa mulher de sucesso, que usa para deixar um legado de conservação da Natureza.

Explorando a influência de personagens ficcionais na vida de Karen Blixen como forma de justificar a sua irreverência, A Leoa é a história apaixonante de uma pessoa que parece perdida na sua própria vida até ao momento em que o que viveu se consegue concretizar num projecto de sucesso. Em Portugal A Leoa foi publicado pela G Floy.

The new voices of fantasy – Vários autores

O mercado anglo-saxónico de ficção especulativa vai-se renovando, seguindo novas tendências, estilos e culturas, gerando cruzamentos impensáveis entre géneros em contos que reflectem as preocupações do seu próprio tempo. Ao longo dos anos vão surgindo novos autores que começam a ser conhecidos pelos contos destacados por prémios ou em antologias de melhores do ano. Este volume pretende reunir algumas histórias destes novos autores e destacá-los como promissores para os próximos tempos.

A antologia começa com um conto de Alyssa Wong, a quarta história publicada da autora, com a qual venceu o Nebula e o World Fantasy Award (a mesma história que foi, também, nomeada para um Shirley Jackson, um Bram Stoker e um Locus Award). Claro que prémios e nomeações não são garantia de boas histórias, mas este conto, Hungry Daughters of Starving Mothers contém detalhes de horror e fantástico num cenário actual onde a corrupção alastra, resultado do consumo imediato e da fome interminável.

Selkie stories are for losers é a história seguinte da autoria de Sofia Samatar, uma autora que não é propriamente uma voz emergente, antes uma autora já reconhecida no género com histórias como A Stranger in Olondria que venceu vários prémios. Cruzando lendas diversas sobre mulheres que se mantém entre os humanos até ao momento em que alguém encontra a sua antiga pele (ou descobre que são algo mais do que parecem), esta história quase banal consegue surpreender pela estrutura e desenvolvimento.

Depois de tornados apaixonados por raparigas (em Tornado’s Siren de Brooke Bolander que apenas possui como elemento distintivo o tornado capaz de sentimento) encontramos Left the century to sit unmoved de Sarah Pinsker que nos traz um fenómeno local, um lago que faz desaparecer totalmente algumas pessoas sem critério específico – mesmo depois de drenado o lago apenas se encontram os objectos e roupas da pessoa.

Max Gladstone também não é propriamente um autor desconhecido, escrevendo sobretudo fantasia urbana. Em A Kiss With Teeth não foge ao género mas apresenta uma das melhores histórias do conjunto, com um tom levemente cómico sobre as preocupações de um pai que vê o seu filho ter más notas. Como pai tenta perceber o que se passa, mas a sua própria natureza torna difícil ajudar sem dicas da professora, a presa perfeita. Ah. É que o pai é um vampiro reformado que tenta passar por humano, simulando os nosso gestos e forma de andar.

Em The Cartographer Wasps and the Anarchist Bees de E. Lily Yu explora-se uma premissa que não é totalmente nova. Recordo que em The Bees de Laline Paull já se apresentava a vida numa colmeia apresentando aspectos sociais da hierarquia e como esta poderia ser subvertida por um único elemento. Confrontando as abelhas com as vespas possuidoras de uma tecnologia mais avançada este conto de E. Lily Yu consegue ser um relato apaixonante sem necessitar de se centrar num único elemento, e comparar vários sistemas de sociedade.
A. C. Wise traz-nos outro dos melhores contos do conjunto, um guia cómico de como a bruxa pode arranjar uma casa. Começando com as formas aborrecidas como aquisição e ocupação, passa por nos apresentar como se pode domar uma casa ou fazer crescer uma, expressando para cada método os cuidados a ter (os humanos podem não gostar muito de ter uma bruxa dentro de casa e podem tentar queimá-la, por exemplo, ou a casa pode pregar partidas a quem a tenta influenciar).
Depois de Hauting o Apollo A7LB (um conto que já conhecia da excelente colectânea do autor Hannu Rajaniemi), segue-se uma história irónica de Chris Tarry, Here be dragons, onde dois homens simulam a existência de dragões para extorquírem dinheiro das vilas mostrando depois entranhas de vários animais como prova de uma chacina. Um dia esta trapaça pode voltar-se contra os supostos salvadores – de mais formas do que o leitor imagina.
Mais juvenil, mas enternecedora pela forma inocente e desiludida como nos apresenta o amor de um pato por uma rocha, The Duck de Ben Loory é um dos contos que vale a pena ler, nem que seja para ver a forma como transforma este premissa simples e aparentemente idiota numa boa história.
Publicado no The New Yorker, The Philosophers de Adam Ehrlich Sachs traz uma história demente de problemas genéticos hereditários que supostamente não trariam problemas psicológicos. Geração após geração, os homens desta família perdem na idade adulta todos os movimentos e passam a comunicar com os restantes recorrendo ao piscar de olhos com o intuito de transmitir as próximas palavras do seu livro. Arrepiante, claustrofóbico e assustador pela degradação, é um bom conto que vai elevando a premissa ao extremo absurdo .
Esta colectânea termina com uma novela mais longa, The Pauper Prince and the Eucalyptus Jinn, de Usman T. Malik, que se centra na problemática da emigração e da integração cultural sob uma fábula contada pelo avô (talvez demente) que recorda interacções com princesas e génios e que foi mudando de país em país até atingir determinados objectivos. Demonstrando como existe sempre muito para revelar da vida dos nossos antepassados, segredos dolorosos que ficaram enterrados, feitos que se silenciaram pelas circunstâncias, esta é uma novela excelente.
Ainda que não tenha apreciado todos os contos de igual forma, até porque os estilos e géneros são muito diversos, esta colectânea possui uma qualidade narrativa bastante elevada. Nem todas as histórias apresentam elementos que se destaquem pela originalidade, mas todos se encontram bem escritos e estruturados. São, na sua maioria, contos que possuem o necessário para envolver, mas sem excesso de detalhes que quebrem o ritmo ou desbalanceiem a história. Para os interessados em se actualizar para o que tem sido publicado recentemente, eis uma boa aposta.
(esta colectânea foi fornecida pela editora via NetGalley)

História Natural da Estupidez – Paul Tabori

A sinopse deste livro começa por nos apresentar uma lista de sinónimos, verbos, nomes e adjectivos relacionados com a estupidez – “Haverá sintoma mais decisivo que o facto de este livro dedicar seis colunas aos sinónimos, verbos, nome e adjectivos relacionados com a estupidez, quando os referentes à sensatez mal chegam a ocupar uma coluna?”.

Sujeito que era tão estúpido que apagava a vela a fim de não ser incomodado pelas pulgas que o mordiam. (…) Burton focou uma das características mais importantes da estupidez ; a apagar da vela – o evitar a luz – o confundir causa e efeito.

O início auspicia e o resto cumpre. Entre notas culturais, históricas, sociais, científicas e religiosas, as páginas estão carregadas de detalhes e factos inusitados, episódios e pensamentos tão idiotas que até ferem a alma. Por esse motivo aconselho a leitura em modo lento, para que se possa saborear cada detalhe.

A estupidez é essencialmente medo – Diz o Dr. Feldmann -, medo de nos expormos às críticas, quer de outrem, quer de nós próprios.

E para isso constrói-se uma visão não confirmada do que nos rodeia, visão através da qual se determinam certezas e preconceitos, e se manipulam populações:

O que habitualmente se designa por preconceito “racial” não passa, de facto, de mera resposta colectiva a ameaças de perdas ou a perdas reais; resposta que não é inata, mas, sim, alimentada pela tradição e por impressões recentes de prejuízos sofridos há pouco.

Mas se as diferenças culturais dão origem à estupidez, também o surgir da economia está carregado de detalhes sumarentos e deliciosos, como o estabelecimento do sistema monetário na ilha de Iape, sem metais, que acabou por fazer moeda a partir de uma pedra. Dado o seu peso, a transferência de propriedade nem sempre era acompanhada por uma transferência de localização, sendo que muitas vezes permaneciam na propriedade original, disponíveis para que os novos donos as visitassem regularmente.

O homem medieval considerou a primeira transacção bancária um acto de feitiçaria; os mistérios do capital perturbavam-no como se se tratasse de fenómenos de perigosa alquimia.

Eis uma afirmação que compreendo completamente. Não sou homem, nem medieval e algumas transacções bancárias também me parece um acto de feitiçaria. Negra. Da economia e das transacções bancárias rapidamente se passa à corrida do ouro e aos alquimistas, burlões que faziam das vãs esperanças dos lordes o seu ganha pão, prometendo a criação do ouro a partir de outras substâncias.

Nunca soberano algum curou de saber qual o motivo por que o alquimista, em vez de fabricar ouro em seu exclusivo proveito, punha tão grande segredo ao serviço de uma cabeça coroada.

O ouro, essa substância valiosa, era, até, utilizada em medicamentos julgando-se ter um efeito quase milagroso:

Misturavam limalha de ouro na alimentação das galinhas e, assim, faziam com que a ave suportasse toda a despesa dos danos físicos: logo que as «virtudes» do ouro tivessem sido absorvidas, matava-se a galinha e servia-se o cadáver ao doente. Esta carne era considerada remédio tão eficaz como qualquer outra preparação de ouro. (…) Por esse motivo enclausurava-se a galinha numa gaiola, a fim de evitar que a ave, na sua prodigalidade, desperdiçasse o metal precioso sobre as flores dos campos.

Não é só pelo ouro que surge a estupidez. A soberba de querer demonstrar uma linhagem perfeita levou muitos nobres a encomendar árvores genealógicas onde se revelariam ligações a personagens da bíblia, ou a figuras mitológicas como a Sereia Melusina (figura de uma lenda muito semelhante à Dama Pé de Cabra).  É esta mesma vontade de demonstrar superioridade que leva à criação de títulos nobres, alguns bastante idiotas:

Ao chefe de serviço de padaria cabia ainda o título de conde da limonada, o que, temos de convir, não soava lá muito bem. Outro fidalgo haitiano alardeava o nome de duque da Marmelada. A leitura dos títulos da nova aristocracia revela outras preferências curiosas: Duque das faces vermelhas, Duque do Posto Avançado, Conde da Corrente Torrencial, Conde Terrier Vermelho, Barão da Seringa, Barão do Buraco Sujo, Conde Número dois.

Ou de regras de etiquetas tão complexas que prejudicam a própria sobrevivência:

Filipe III morreu queimado na lareira porque os cortesãos não conseguiram encontrar, com a rapidez exigida, o funcionário encarregado de deslocar a poltrona do rei.

No seguimento das regras idiotas, claro que não se pode ultrapassar o tema da estupidez sem tocar na burocracia:

Não se pode negar que os funcionários públicos sejam seres humanos e ninguém, até hoje, conseguiu provar o contrário. (..) Mas, em qualquer época e em qualquer clima, uma vez de posse de uma secretária e de um ficheiro, acontece-lhes algo de misterioso e perturbador: o espírito é substituído pela letra, os precedentes expulsam a iniciativa e os regulamentos triunfam da clemência e da compreensão. (…) Os organismos oficiais são o campo de cultura da estupidez, da mesma forma que os pântanos no caso, igualmente pernicioso, dos mosquitos. A doença é inevitável: até o funcionário público mais inteligente sucumbe à infecção.

A burocracia, que tem a capacidade de complicar o que é simples, consegue até produzir fórmulas para o pagamento de funerais:

Basta só isto para não nos espantarmos com o facto de, em França, a natalidade aumentar e o número de óbitos diminuir. As pessoas até sentem receio de morrer.

Entre pombos que não podem pousar em telhados ou mulheres que não têm de suportar maridos que fumem cachimbo no leito matrimonial, a legislação é asnática, carregada de exemplos idiotas e impossíveis de cumprir.

Já a medicina praticada na Época Medieval é algo para se fugir, sendo que se apresentam inúmeros detalhes que, à luz de hoje, parecem o cruzamento de episódios de Monty Phython com cenas de horror:

Compreende-se, desta forma, o motivo por que os pacientes tratados com o «ungento da guerra» melhoravam em virtude de nenhum médico lhes tocar nas feridas», deixando que a Natureza levasse a cabo os seus processos curativos sem interferência do homem.

História Natural da Estupidez consegue, assim, apresentar vários exemplos de estupidez, ao longo de todo o espectro da sociedade, actual e história, percebendo-se, até, porque continuará a ser um sintoma da espécie humana:

A estupidez dói, de facto; simplesmente, é raro que incomode o estúpido.

Destaque e evento: O Homem que Passeia – Jiro Taniguchi

Do mesmo autor de O Diário do meu pai e Terra de Sonhos (publicados nas duas colecções Novelas Gráficas pela Levoir em parceria com o jornal Público) é agora lançado O Homem que Passeia pela Devir, no dia 24 de Junho pelas 17h30 na Festa do Japão. Deixo-vos a sinopse bem como algumas páginas:

Um homem contempla os subúrbios da sua cidade. Caminhando devagar, escuta e cheira. Para e observa.

É impossível não nos sentirmos alheios e indiferentes ao mundo, em    contraste com este olhar puro. Passeando por estas páginas reaprendemos a olhar, talvez a viver, mais atentos às pequenas coisas.

Resumo de Leituras: Junho de 2017 (1)

69 – Velvet Vol.2 -Brubaker, Eptin e Breitweiser – O segundo volume continua no mesmo registo, apresentando uma espia de grandes capacidades que, por conta do seu papel temporário como secretária, é menosprezada por quem a persegue. Ou será que, finalmente, encontra alguém ao mesmo nível que a consegue capturar?

70 – The Long Way to a small, angry planet – Becky ChambersUma Space Opera leve e divertida que consegue apresentar algumas temas interessantes como a discriminação racial ou a identidade de género apresentando várias sociedades alienígenas possíveis com diferentes modelos;

71 – Retratos de jovens senhoras, cavalheiros e casais – Charles Dickens e Edward Caswall – Como o nome indica este pequeno volume apresenta estereótipos de comportamento em sociedade, principalmente de jovens em idade casadoira ou modelos típicos de casais. .

72 – História do Espelho -Sabine Melchior-Bonnet  Aproveitando o reflexo da imagem humana, este pequeno livro de história apresenta várias perspectivas interessantes, desde económica e social, até religiosa e filosófica.

The Handmaiden / A Criada

Eis um tremendo embuste.

A Criada é, acima de tudo, um tremendo engano, uma história carregada de percepções imediatas que envolve, não só as próprias personagens, como o público, e assim nos leva a todos por uma narrativa aparentemente simples com um pequeno toque final inesperado. Só que o final não é assim tão final e somos levados por novas perspectivas que nos mostram que existem muito mais por detrás da subversão explícita de uns e da inocência apagada de outros.

A história começa por nos ludibriar com magníficos cenários de contraste ocidental / oriental onde co-existem as duas arquitecturas, ambas meras representações simbólicas, aspirações frustradas de quem se quer mostrar o que não é. A par com o fascínio visual são-nos apresentadas as personagens banais e quase estereotipadas de uma história de caça fortunas: uma jovem que detém uma extensa fortuna permanece refém do tio, viúvo, que aguarda o momento propício para se casar e deter a riqueza. Não podendo, por enquanto, unir-se à jovem, educa-a duramente num mundo de medo e perversão, usando-a para leitura de histórias eróticas ou pornográficas a ricos senhores aos quais pretende vender os antigos manuscritos lidos – encenações onde quem pretende enganar se revela presa fácil de enganos.

Tomando conhecimento da existência desta donzela, rica e isolada, um jovem trapaceiro vê na situação uma presa fácil e monta o que espera ser um golpe fácil – seduzir a jovem a fugir e a casar-se com ele. Para tal recorre a parceiros de outros truques, levando uma ladra profissional, seduzida pela possibilidade de riqueza, a assumir o lugar de aia, com o intuito de aspirar a suspiros à sua proximidade.

Parece simples? Pois parece. Mas a meio percebemos que os principais ludibriados fomos nós. Seduzidos pela usual fatalidade do destino, pelo jogo de percepções fáceis e fascinados pela envolvência que provoca vermos os outros a serem enganados, somos nós que caímos no jogo e assumimos uma perspectiva demasiado linear.  Até porque se a história fosse apenas esta perspectiva teria sido bastante agradável.

Quando se apresentam novas camadas de compreensão à já percepcionada exploração pervertida de impulsos, com momentos intensos de logro e corrupção, o filme torna-se avassalador – o que é realmente importante apaga tudo o resto e mostra-nos como somos presas fáceis da percepção imediata.

Destaque: História natural da estupidez – Paul Tabori

Já se encontra à venda mais eis um livro que me parece interessante pela premissa e pela respectiva sinopse!

Um dos grandes clássicos do ensaio do século XX, divertido e profundo. «A Estupidez é a mais mortífera arma ao alcance do ser humano; a epidemia mais devastadora; o luxo mais dispendioso.» A «História Natural da Estupidez» é uma excelente reflexão acerca dessa característica infindável e inefável da raça humana que é a estupidez. O livro está repleto exemplos históricos que marcaram a evolução da estupidez desde a Antiguidade até aos tempos de hoje. A burocracia, o servilismo, a dúvida e a rigidez das leis são alguns dos temas incluídos nos capítulos do livro. Uma deliciosa panorâmica com um fundo histórico-filosófico riquíssimo e ao mesmo tempo uma reflexão para a vida! Uma versão desta obra foi publicada em Portugal pela Portugália nos anos 60 sob o título «A Ciência Natural da Estupidez» e vendeu mais de 12 tiragens. Esse volume, contudo, tinha cerca de 2/3 do original tendo sido censurado. Esta é a primeira edição integral em língua portuguesa.

 

Resumo de Leituras – Março de 2017 (2)

57 – O Submarino David – Os Túnicas Azuis – Willy Lambil e Raoul Cauvin – Se num volume anterior assistimos à utilização, na Guerra da Secessão, dos primeiros navios couraçados, neste volume acompanhamos a utilização do CSS David, já considerado um submarino;

58 – Agnar, o Bisavô – A Casta dos Metabarões – Jodorowsky e Gimenez – Este foi lido na biblioteca enquanto aguardava a sessão de lançamento de Lovesenda da autoria de António de Macedo. Este volume continua a apresentar a história dos antepassados do Metabarão demonstrando que se trata de uma linhagem forte que apenas poderia resultar na produção de um super guerreiro;

59 – My work is not yet done – Thomas Ligotti – O conhecido autor de terror apresenta um trio de histórias de terror corporativo onde se apresentam as intensas e corrosivas relações entre chefes de departamento. Nalguns episódios o ar é tão pesado que se apresenta como nevoeiro, impossibilitando o normal andar dos empregados. Claro que sendo Thomas Ligotti não se trata, apenas de terror de ambiente – esperem algumas partes mais gore  brutais com elementos sobrenaturais;

60 – Histórias de outro Mundo – Vários autores  – Antologia de histórias de banda desenhada de ficção científica, possui bons momentos e boas histórias, algumas com pitada de humor e ironia.

Os azuis a preto e branco – Os túnicas azuis vol.4 – Willy Lambil e Raoul Cauvin

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No quarto volume de Os Túnicas Azuis voltamos à Guerra da Secessão com a conhecida e cómica dupla. Este volume aproveita para explorar a personagem histórica Mathew B. Brady, um fotógrafo que, durante a guerra, e a mando de Lincoln, captava imagens de guerra.

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Depois de um primeiro encontro, pouco auspicioso (pelo menos para Chesterfield), a dupla é obrigada a acompanhar o fotógrafo que se arrisca a exercer a sua actividade nos piores locais da batalha.

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Não é com surpresa que Brady se lesiona, cabendo a Blutch tentar substitui-lo e registar os episódios bélicos. Aproveitando esta nova actividade para fugir da cavalaria (até que enfim!) torna-se um fotógrafo famoso.

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Este volume aproveita assim a dupla cómica para nos apresentar o trabalho de Brady ao longo da Guerra, através do qual aproximou a realidade das batalhas das populações ao publicar as fotos nos jornais.

A colecção Os Túnicas Azuis foi publicada pela Asa em parceria com o Público.

Resumo de Leituras – Fevereiro de 2017 (7)

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49 – Terra de Sonhos – Jiro Taniguchi – Este volume reúne duas histórias bastante distintas, uma primeira, mais longa em que assistimos aos últimos dias de um cão, um animal doméstico muito bem tratado que aguenta o sofrimento da velhice por longos dias, a que se segue a adopção de uma gata prenha que vem preencher o espaço deixado. A segunda é uma história sobre a exploração e o ultrapassar de barreiras físicas e mentais;

50 – Black Face – Túnicas azuis Vol. 9Willy Lambil e Raoul Cauvin – A série continua a explorar a guerra da Secessão aproveitando, neste caso, para explorar o tema da escravatura, um pretexto para fazer uma guerra de ambição e de busca por lucros, que pouco tem a ver com o trabalho escravo;

51 – Histórias de Vigaristas e canalhasOrganizada por George R. R. Martin e Gardner Dozois, a antologia reúne várias histórias fantásticas protagonizadas por vilões em diversos cenários e premissas mirabolantes e imaginativas;

52 – Drifter – Vol.2 – Ivan Brandon e Nick Klein – Tal como no primeiro, a história não é linear e directa. Vamos observando o desenrolar de acontecimentos como meros espectadores, com pouco enquadramento ou compreensão e temos de ir construindo a história, com pistas espalhadas ao longo das várias narrativas.

Destaque: Novas edições

Não são só os novos livros que devem ser destacados, mas também aqueles que se recuperam no mercado para não caírem em esquecimento. Eis alguns que serão lançados novamente nos próximos tempos:

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Um dos grandes livros de Italo Calvino, As Cidades Invisíveis, terá nova edição na colecção RTP, em capa dura e preço acessível. Este clássico da literatura fantástica apresenta várias cidades ficcionais descritas por Marco Polo ao Imperador Kublai Khan. Nomeado para o prémio Nebula, o livro já serviu de inspiração para uma Opera. Eis a sinopse:

A este imperador melancólico, que percebeu que o seu poder ilimitado conta pouco num mundo que caminha em direção à ruína, um viajante visionário fala de cidades impossíveis, por exemplo, uma cidade microscópica que se expande, se expande até que termina formada por muitas cidades concêntricas em expansão, uma cidade teia de aranha suspensa sobre um abismo, ou uma cidade bidimensional como Moriana. […] Creio que o livro não evoca apenas uma ideia atemporal de cidade, mas que desenvolve, ora implícita ora explicitamente, uma discussão sobre a cidade moderna. […] Penso ter escrito algo como um último poema de amor às cidades, quando é cada vez mais difícil vivê-las como cidades.» Italo Calvino «Ao projetar a sua própria voz nos relatos de cidades que pontuam o diálogo entre Marco Polo e Kublai Kan, Calvino reencontra essa capacidade dos antigos construtores de fábulas, e sabe transmitir o prazer que aquele que conta tem de suscitar no ouvinte, que é o próprio leitor.» Nuno Júdice Prefaciado por Nuno Júdice.

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Adaptado para cinema, O Prestígio é a história fantástica da rivalidade tempestuosa entre dois mágicos:

Uma história de segredos obsessivos e curiosidades insaciáveis. Londres, 1878. Dois jovens mágicos cruzam caminhos enquanto actuam em luxuosas salas de espectáculo vitorianas. E cedo nasce um feudo cruel que irá assombrar as suas vidas, levadas ao extremo pelo mistério de uma espantosa ilusão que ambos fazem em palco. A rivalidade instiga-os a atingir o pico das respectivas carreiras, mas com consequências terríveis. Na busca de um truque que conduza à ruína do rival, escolhem o caminho da ciência mais negra. O sangue será derramado, mas não será suficiente. No fim, o legado dos mágicos irá passar para as futuras gerações e serão os descendentes a ter de desvendar a teia de loucura que envolve estranhos actos de magia…

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Publicado há algum tempo no mercado português, retorna pela G Floy:

Há dois lados para cada história, e agora chegou a altura de ouvir o lado de Loki: o filho preterido de Odin vai contar a história toda do seu ponto de vista, a sua sede insaciável de poder, os seus sentimentos ambíguos para com Sif, a sua antipatia para com Balder, e o seu imenso ressentimento contra o seu irmão mais velho, Thor. Com a excepcional arte de Esad Ribic, um dos maiores artistas da Marvel, e argumento do romancista Robert Rodi, esta história auto-contida vai mostrar-nos Asgard como nunca a tínhamos visto! Loki tornou-se finalmente soberano de Asgard, e Odin foi colocado a ferros, tal como todos aqueles que batalharam em seu nome. No entanto, Loki vê-se cercado de antigos aliados e interesses vários, todos em busca de recompensa pela ajuda prestada na sua ascensão. E Hela, deusa do Reino dos Mortos, empurra-o para completar o seu triunfo com a execução de Thor. Loki terá de ponderar se a sua existência fará algum sentido sem o seu meio-irmão…

Sobre Loki deixo-vos, também, algumas páginas disponibilizadas pela editora:

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Terra de Sonhos – Jiro Taniguchi

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Apesar de ter adorado  de O diário do meu pai, a temática levou-me a adiar a leitura deste Terra de Sonhos não sabendo que o que encontraria é bastante diferente. Foi a morte recente do autor que me levou ao livro e o que encontrei foi uma história fascinante sobre animais domésticos.

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O livro começa com Ter um cão, a história de um casal que vê desvanecer o companheiro de quinze anos. Cada vez mais fraco, arranjam esquemas para o conseguirem levar a passear, o momento alto do dia. Mas as pernas estão cada vez mais fracas, o apetite cada vez menor, e, recordando os bons momentos que passaram, o casal faz de tudo para aliviar a resistência que o cão revela durante as últimas semanas.

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Estes últimos momentos fazem-nos jurar nunca mais voltar a ter um animal de estimação, mas uma gata persa que não encontra lar resigna-os a aceitar novamente uma terceira companhia. A gata persa afinal está grávida e ao invés de uma gata acabam por ficar com 3 gatos em casa, a companhia perfeita para a sobrinha que vem passar o Verão com eles.

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A sobrinha, órfã de pai, refugia-se na casa dos tios com receio das mudanças que existirão em casa. A mãe pretende-se casar novamente e a jovem olha com desconfiança para o futuro padrasto. Entre a companhia dos gatos e a paixão do basebol que partilha com o tio, aprecia os momentos de fuga e de paz, que lhe permitirão enfrentar o que está para vir.

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A esta combinação de história que segue o quotidiano do casal e dos seus animais de estimação, segue-se uma história de exploração e aventura, de viagem, conquista e paixão. Um homem vai deixar o escalar das montanhas por uma promessa à esposa grávida e aproveita a última viagem sem saber que será quase a sua desgraça. Quando regressa cumpre o prometido, mas permanece irrequieto, optando por gastar as energias com outras actividades físicas que o poderão levar a esquecer as montanhas.

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A primeira história pode ter o que se pode considerar uma narrativa comum, mas nem por isso menos especial. Os animais que partilham o espaço connosco acabam por fazer parte do nosso quotidiano e por nos influenciar de formas que não imaginamos. De extrema sensibilidade, a primeira história é uma narrativa sentida que revela um enorme amor pelos animais de estimação.

Na segunda assistimos à tentativa de conquista e reconquista, ao desafio constante do que é selvagem e com o qual os homens se identificam, na possibilidade de explorar e ultrapassar barreiras.

Terra de Sonhos foi publicado pela Levoir na colecção Novelas Gráficas, lançada em parceria com o Público.

Outros livros do autor

Resumo de Leituras – Fevereiro de 2017 (6)

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45 – 47 – Os Túnicas Azuis – Vol. 5, 6 e 7 – Willy Lambil e Raoul Cauvin – A série continua a apresentar uma fórmula que funciona facilmente, centrando-se no relacionamento caricato entre as duas personagens principais para nos levar por cenários e factos históricos em torno da Guerra da Secessão. Neste três volumes acompanhamos a dupla ao México, cuja fronteira ultrapassam para fugir ao inimigo. Do outro lado encontram grupos de bandidos e populações submissas a estes, bem como uma estranha religiosidade. Noutro livro os soldados lesionados são encaminhados para uma vila que suporta o outro lado e ao invés de um acolhimento que lhes permita restabelecer a vila torna-se o cenário de uma pequena batalha. Finalmente, em Bronco Benny a dupla é enviada em missão para obter novos cavalos – uma missão mirabolante, carregada de imprevistos;

48 – Um jogo de ti – Sandman Vol. 5 – Neil Gaiman – Shawn McManus, Colleen Doran, Bryan Talbot, George Pratt, Stan Woch e Dick Giordano –  A terra dos sonhos não é tão estanque quanto poderíamos imaginar e por vezes escorre para a nossa realidade. Aqui acompanhamos Barbie e uma amiga da cidade. Barbie já não sonha, mas os seus antigos sonhos infantis vêm ter com ela numa sucessão de pesadelos reais.

Histórias de vigaristas e canalhas – Vários autores

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À semelhança de Histórias de Aventureiros e Patifes, Histórias de Vigaristas e Canalhas reúne contos de conhecidos autores de ficção científica e fantasia onde os protagonistas são ladrões, aldrabões ou trapaceiros. O ângulo de acção de todos é sempre, ou quase sempre, o de arranjar uma forma de lucrarem com a situação em que se encontram, arranjando esquemas mirabolantes e arriscados para enganarem os que os rodeiam.

A selecção foi feita pelos famosos Gardner Dozois e George R. R. Martin e inclui autores tão conhecidos como Joe Abercrombie (com vários livros publicados em Portugal pela 1001 Mundos), Steven Saylor (mais voltado para a ficção histórica com a famosa série Roma Sub-Rosa), Michael Swanwick (do qual foi publicado O Verdadeiro Dr. Fausto pela Saída de Emergência) ou Cherie Priest (ainda não publicada em Portugal mas muito conhecida pelo Steampunk).

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A antologia começa com Está difícil para todos, um conto de Joe Abercrombie que reflecte bem o espírito da restante ficção do autor onde as personagens, apesar de não totalmente más, se mostram implacáveis, escolhendo o único caminho que conhecem, o da criminalidade. Neste caso um estranho pacote é roubado sucessivamente por várias pessoas que escondem outros interesses (para além dos monetários). Um conto movimentado onde vamos conhecendo criminosos de vários tipos e capacidades.

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Em Heavy Metal, de Cherie Priest, forças muito antigas ocupam descampados e um peso pesado investiga o peculiar desaparecimento de dois jovens. A sobrevivente acredita que estes estarão mortos, mas a cena que descreve é, no mínimo, surreal. Envolvendo forças sobrenaturais e confrontos mágicos, é um conto com um desenvolvimento inesperado.

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O conto seguinte é de Carrie Vaughn, conhecida autora de fantasia sobrenatural, uma best-seller no género. O conto decorre num bar escondido onde duas senhoras esperam para fazer negócio. O que as traz não sabemos, mas logo percebemos que, no bar, o clima é de calma apenas aparente. Entre as várias personagens pouco humanas e de grandes poderes, o jogo ilegal decorre prometendo uma explosão a qualquer momento.

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Vencedor do World Fantasy Award e do John W. Campbell Memorial Award, Bradley Denton é um nome que não me recordo de ter lido anteriormente. O conto que aqui se encontra é uma reviravolta divertida onde ladrão que engana ladrão tem cem anos de perdão. Bem, não tem, mas pelo menos o aproveitar de um esquema em curso para roubar ladrões descuidados e inexperientes é quase como ver o Karma em acção – e é divertido.

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Diamantes de Tequila, de Walter Jon Williams, centra-se num actor com um passado sombrio. As filmagens do mais recente projecto em que se encontra envolvido decorrem no México. De figura pouco atraente, ganha sobretudo papéis de vilão. A par com a sua figura, tem, para maior publicidade, um falso romance com a grande actriz do elenco. As filmagens em cenário paradisíaco começam a correr mal quando encontra a falsa namorada morta no seu quarto, o resultado de um esquema químico que pode por em causa o negócio das drogas e das indústrias farmacêuticas.

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Do autor da trilogia fantástica iniciada com A Missão de Sabriel, Um carregamento de Marfins grupos diferentes de ladrões sobrepõem-se na sua missão nocturna, mas acabam por juntar forças para defrontar uma figura divina, imensa e raivosa.

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O conto de Matthew Hughes, A Estalagem das Sete Dádivas, é um dos melhores do conjunto, acompanhando um ladrão solitário e trapaceiro que, ao ouvir os gritos de socorro de um homem, capturado por seres fortes, canibais e horrendos, decide aguardar para que se afastem e poder recolher os objectos que o homem terá deixado. O que não conta é que entre estes objectos está um pequeno Deus encerrado numa pequena figura e que, ao tocar-lhe ficará possuído e obrigado a ir salvar o homem. Sempre em busca do melhor ângulo, acaba por arranjar um pequeno acordo com a divindade que se tornará bastante proveitoso.

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Steven Saylor é bastante conhecido pela série sub-rosa, uma série de ficção histórica que decorre na Roma Antiga, centrada num investigador maduro, Gordiano, de bom coração e casado (se tal se podia dizer para a época) com a escrava. Em Invisíveis em Tiro Gordiano é apenas um rapaz que acompanha o seu tutor, Antípatro. Na viagem que os dois realizam Antípatro tem objectivos obscuros que não contou a Gordiano, pretendendo adquirir uns antigos livros de sabedoria que conterão fórmulas para tudo e mais alguma coisa. Inclusivé, para a invisibilidade.

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Tawny Petticoats é o conto de Michael Swanwick onde dois trapaceiros de profissão procuram uma rapariga para pôr em curso os seus esquemas. Ao invés de uma jovem inocente ou ingénua encontram uma colega de profissão que alinha no golpe. Os visados não são boas pessoas. Um deles comanda os zombies da cidade, e outra as prostitutas. Os zombies não são os comuns mortos-vivos, mas seres humanos que, tendo contraindo dívida, ingerem uma poção que os fará desligar o cérebro e obedecer cegamente, para assim poderem pagar o que devem.

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O conto seguinte é de Lisa Tuttle, uma das autoras do genial Windhaven, O Curioso Caso das Esposas Mortas. Neste conto uma detective recebe um estranho caso em que uma menina, criança, acredita ter visto a falecida irmã, caminhando e respirando, no cemitério onde terá sido enterrado. Não crendo que a jovem está viva, mas percebendo que a história tem algo de estranho, a detective aceita o caso. O que encontra é um caso mirabolante de farsas e enganos.

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O último conto da antologia, O significado do Amor, apresenta o salvamento de uma jovem vendida pelo pai para trabalhar. Quem a salva não a conhece verdadeiramente mas foi compelido por a ter visto sob determinada luz – amor à primeira vista. Um trapaceiro profissional ajuda assim o amigo a salvar a jovem, recorrendo a esquemas mirabolantes em que envolve um antigo e perigoso militar.

O conjunto de histórias aqui reunido é sobretudo divertido, com desenvolvimentos inesperados e rocambolescos, aventuras onde os ladrões até se dão bem no meio de azares e tropelias. Os tons e os estilos são variados mas todos possuem a componente interessante de não terem como protagonistas os heróis típicos de honra e espada, mas antes pessoas de moral dúbia que recorrem a esquemas para darem volta às mais complicadas situações e ainda saírem a ganhar.

Histórias de vigaristas e canalhas foi publicado pela Saída de Emergência.

Os Azuis da Marinha – Vol.3 Os Túnicas Azuis – Willy Lambil e Raoul Cauvin

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Que a dupla constituída pelo cabo Blutch e pelo sargento Chesterfield é insuportável, já tínhamos percebido nas histórias anteriores. Que fossem tão insuportáveis que acabassem sucessivamente transferidos de unidade em unidade é que não esperávamos.

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Na marinha os dois têm o privilégio de assistir e de se envolverem nas primeiras batalhas contra o USS Monitor, o primeiro navio couraçado, um género de submarino que destroçava qualquer navio inimigo. Terror dos mares, irá defrontar o CSS Virgina numa batalha que se tornará épica.

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Aproveitando a picardia existente entre as várias unidades (cavalaria, infantaria, artilharia e marinha) bem como o relacionamento dos dois personagens, a história move-se de componente em componente da batalha, concedendo uma perspectiva cómica em tornos dos factos históricos que apresenta.

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Leve e divertido, este terceiro volume volta a cumprir a função de, numa pequena história, relaxar e entreter, apesar do contexto que aqui é muito aliviado pela forma como se apresenta.

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A série Túnicas Azuis está a ser publicada pela parceria da Asa com o jornal Público.

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Resumo de Leituras – Fevereiro de 2017 (5)

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41 – 43 – Os túnicas azuis – Vol. 2, 3 e 4 – A série Os túnicas azuis que tem saído regularmente através de uma parceria da Asa com o jornal Público apresenta a Guerra da Secessão de uma forma leve e descontraída, utilizando a interacção tempestuosa (mas amistosa) entre um cabo e o seu sargento para dar as componentes cómicas de que precisa. Apesar de apresentar uma sucessão de episódios engraçados e leves, a série aproveita para apresentar alguns factos históricos interessantes e relevantes;

44 – Matiné – Marcelo Costa e Magno Costa -Uma boa homenagem aos filmes negros de acção constante onde as personagem de mau carácter parecem dominar, mas a presença de um justiceiro desenvolto e incorruptível consegue reverter algum do mal que se espalha. Destacando-se o trabalho gráfico e narrativo, Matiné é um livro demasiado pequeno que cruza três histórias curtas no mesmo estilo tempestuoso.

H-Alt – 3 – Diversos autores

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Cada vez maior, cada vez reunindo o talento de autores mais diversos e mais diferentes, a terceira revista da H-Alt possui histórias que se enquadram na ficção científica, na fantasia e no horror.

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O volume abre com uma história de bruxarias e destinos onde as intenções divergem bastante do esperado e prossegue para a exploração do desespero com a venda de um fármaco milagroso. Novamente as intenções divergem e o resultado é, no mínimo, irónico.

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Depois dos alienígenas que caminham quase invisíveis entre nós segue-se uma irónica história de Arthur Cordeiro que apresenta, para além do bom visual, uma boa narrativa. De seguida, voltamos a encontrar alienígenas – o espaço pode ser um local medonho mas quem fica assustado com o que encontra são os visitantes, numa história curta, amorosa e engraçada.

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Depois das espectaculares imagens do autor da capa, voltamos a encontrar alienígenas que tecem um plano para, com o mínimo esforço, conseguirem o que pretendem da humanidade, e viagens intergalácticas onde se usam teorias sobre a matéria negra para se escapar a um fim quase inevitável.

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Cruzando diversos géneros, estilos narrativos e abordagens visuais, H-Alt volta a trazer boas histórias curtas onde se destaca a componente gráfica mostrando que a maioria das parcerias atinge um resultado com um nível acima da média.

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