Corto Maltese – A Juventude – Hugo Pratt

Nesta história Corto Maltese é quase apenas um nome, uma referência a alguém movimentado e aventureiro, repetida por um amigo. Aliás, a maioria da história centra-se na guerra entre a Rússia e o Japão, no ano de 1905, colocando Rasputine e Jack London em contacto, e utilizando a referência a Corto Maltese como sendo alguém que poderia ajudar Rasputine a escapar-se.

As primeiras páginas são de introdução com belíssimas fotografias que captam o ambiente do local onde decorre a história e nos apresentam os locais por onde Jack London poderia ter passado, e de que forma poderia ter conhecido Rasputine.

O clima é de tensão e mesmo com o cessar fogo algumas balas continuam a ser disparadas indevidamente. É no meio desta confusão que Rasputine vê uma possibilidade de escapar, envergando um uniforme indevido e tentando assim fugir para outro local.

Mostrando o seu carácter oscilante e maldoso, Rasputine contrasta com Jack London, uma figura que aqui se mostra corajosa se bem que desconhecedora dos costumes japoneses, incorrendo, assim, em graves ofensas. O caminho destes dois homens cruza-se, nesta história, tendo como saída a figura de Corto Maltese.

Cruzando factos com ficção para realçar o espírito explorador de Corto Maltese, aqui ainda jovem, este A Juventude é uma história curta que não responde totalmente à expectativa de uma história do herói – e compreende-se. Esta história terá sido um trabalho encomendado sendo aqui Corto Maltese mais acessório do que central.

A Juventude foi publicado pela Asa.

Resumo de leituras – Outubro de 2017 (5)

169 – Crossroads – João Ramalho Santos, João Miguel Lameiras e José Carlos Fernandes – uma sucessão de histórias envolvendo carros, reunidas das mais diversas formas, seja a transcrição de emissões de rádio, sejam notícias de jornais;

170 – Magia de Papel – Charlie N. Holmberg – Uma ideia engraçada mas mal aproveitada numa personagem principal fraca e pouco credível. A narrativa, demasiado linear centra-se em menos de meia dúzia de personagens fazendo com que a história pareça não ter suporte;

171 – The Marvellous (but Authentic) Adventures of Captain Corcoran – Alfred Assollant – um volume de aventuras coloniais que contrasta franceses contra ingleses, conferindo aos ingleses todas as características negativas (corrupção e cobardia) e aos franceses todas as positivas. Pelo meio temos os indígenas, corajosos mas simples que são envolvidos por esta sede de conquista. Simples na forma como apresenta as personagens, consegue ter algumas tiradas preconceituosas que, mesmo sendo fruto da época em que foi escrito, tornam a leitura menos agradável;

172 – O Árabe do futuro – Vol.1 – Riad Sattouf -De mãe francesa e pai árabe, Riad conta, pela sua própria perspectiva, os anos de criança que passou entre o ocidente e o oriente. A perspectiva de criança pode ser simples mas os episódios que captou não o são, deixando antever diferenças culturais e constrangimentos familiares.

Novidade: Astérix e a Transitálica

Sai, este mês, um novo álbum de Astérix pela dupla Jean-Yves Ferri e Didier Conrad em que se explora a restante península itálica, demonstrando que nem todos os habitantes são romanos, e que nem todos estão de acordo com o domínio de Roma.

Este volume será lançado, em simultâneo, em 20 línguas, sendo que a edição portuguesa estará a cargo da Asa, como já é habitual. Deixo-vos a capa e a sinopse.

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Para afirmar o prestígio de Roma e a unidade dos povos da península itálica,
Júlio César aprova a organização de uma corrida aberta a todos os povos do
Mundo Conhecido, a fim de mostrar de forma esplendorosa a excelência das
vias romanas.

Aos organizadores do evento, César impõe uma condição sine qua non: a
equipa romana tem IMPERATIVAMENTE de cortar a meta em primeiro lugar
(ao que parece, naquela época o desporto, a política e o espetáculo já estavam
intimamente ligados…)! Com o que César não contava era com a inscrição na
corrida dos nossos dois campeões gauleses, que ameaçam deitar por terra os
seus sonhos de grandeza…

 

 

O Árabe do Futuro – Vol. 1 – Riad Sattouf

Contado pela perspectiva do autor enquanto criança (supostamente, pelo menos) mostra um menino de cabelos alourados que causa fascínio nos países do médio oriente. Filho de um sírio com uma francesa, muda frequentemente de país, conhecendo os familiares de ambos os lados e apresentando os contrastes de comportamento, postura e afecto.

A primeira viagem leva-os à Líbia onde o pai aceitou um cargo como professor assistente, uma posição em que é pago em dólares. Encontram um país de traços comunistas, sem aquisição de propriedade onde a mãe não consegue manter o cargo na rádio.

Após uma curta estadia em França, a família desloca-se para a Síria, perto da vila onde o pai terá nascido. Aqui a situação familiar é complexa. O tio, obtuso e ganancioso, terá vendido as terras do pai por achar que este já não iria necessitar delas e, em troca, deixa-os usar uma das casas. Tal troca torna-se razão para os primos implicarem com o autor enquanto criança, mostrando ressentimento para com o alojamento.

O pai é um homem contraditório, de contrastes culturais e de crença, que vai adaptando às necessidades. Algo déspota em relação à sua família, mostra-se estranhamente infantil para com a mãe e submisso em relação ao irmão mais velho. No início mostra-se um revolucionário que acha que a sociedade árabe deve mudar mas, com o tempo, revela-se menos anarquista.

Diferente dos restantes membros da família pelas suas características ocidentais, Riad é ostracizado pelo primos, estranha a cultura e a forma diferente de se falar o árabe na Síria, não chegando a ir à escola, apesar das tentativas do pai – tentativas que a mãe enfrenta duramente quando se apercebe da maldade, normal naquele meio, para com um cão.

Caricato no tom, especial pela perspectiva de criança, O Árabe do Futuro mostra o contraste de culturas que é absorvido pela criança,realçando as discrepâncias lógicas que parecem existir no pai consoante as circunstâncias em que se encontra. Revelando uma capacidade precoce para o desenho, a criança vai-se adaptando ao que a rodeia.

Os três volumes de O Árabe do Futuro foram lançados em Portugal pela Teorema.

Strange fruit – J.G. Jones e Mark Waid

Strange fruit é o título de uma das canções mais arrepiantes de sempre. Arrepiante porque na aparente estranheza do título escondem-se horrorosos episódios da história americana. A letra foi escrita por um professor judeu como protesto contra o racismo americano, que na época, dava origem inúmeros linchamentos, referindo-se “frutas estranhas” aos corpos de homens afro-americanos que ficavam pendurados nas árvores. O poema foi adaptado para música com a voz de Billie Holiday.

Southern trees bear strange fruit
Blood on the leaves and blood at the root
Black bodies swinging in the southern breeze
Strange fruit hanging from the poplar trees
Pastoral scene of the gallant south
The bulging eyes and the twisted mouth
Scent of magnolias, sweet and fresh
Then the sudden smell of burning flesh
Here is fruit for the crows to pluck
For the rain to gather, for the wind to suck
For the sun to rot, for the trees to drop
Here is a strange and bitter crop

Canção emblemática no género, dá título a esta banda desenhada onde se apresenta a mesma época e se demonstra a atitude territorial para com a população de origem africana. O ano escolhido é 1927, ano em que ocorreu uma gigantesca inundação em Mississippi, conhecida como a maior de que há registo. Esta catástrofe desalojou duas centenas de milhar de afro-americanos, que tiveram de permanecer durante muito tempo em campos provisórios. Estas condições precárias foram um forte factor na migração para o Norte do país onde poderiam ter outro tipo de empregos.

É sem dúvida uma época conturbada, carregada de tensões, que pede por um herói, alguém que possa aliviar o clima e impor respeito pela população afro-americana – os poucos heróis reais não são suficientes para impedir os linchamentos, as prisões injustas e os maus tratos recorrentes. Com o aproximar de uma catástrofe aumenta a raiva para com os afro-americanos que servem para expiar ansiedades.

Assim, do nada, num episódio crítico, surge um homem de pele escura, um colosso mudo mas inteligente, aparentemente apático e resistente às balas que salva um afro-americano de um enforcamento certo. A sua presença é tida como ameaçadora e é perseguido mas sem grande efeito, ou não se revelasse invencível, não agindo a não ser quando se torna necessário salvar alguém.

Realçando o clima de tensão e anulado os episódios mais violentos, Strange Fruit demonstra como algumas catástrofes poderiam ser minimizadas com recurso a estudos, destacando o pouco (ou nenhum) acesso que as populações afro-americanas tinham a livros, mesmo nas bibliotecas. Ainda que esta população estive liberta da oficial condição de escravo, estava presa pela falta de cultura e de oportunidades de trabalho, forçados a trabalhos pouco remunerados, vistos com ressentimento, e que causam episódios de raiva e vingança sempre que não seguem as instruções de algum homem branco. Em suma, um bode expiatório perfeito para frustrações.

Apesar de não ter gostado totalmente da forma como é usado o herói que se materializa, a história apresenta uma perspectiva próxima das tensões existentes retratando uma estação crítica, o que exacerbou reacções. Do ponto de vista gráfico é interessante e expressivo, realçando emoções e interacções.

Os trilhos do acaso – Paco Roca

A Guerra Civil Espanhola é um tema sensível. Não só separou Espanha (separou e continuou como ressentimento, motivo de separação no país pouco homogéneo) como famílias e vizinhos. Sobre os efeitos da Guerra Civil Espanhola existem, actualmente, diversos relatos, mas pouco se fala nos refugiados espanhóis que conseguiram escapar num barco, recusados por vários portos, tratados como indigentes e escorraçados pela sua cor política, vista como um perigo maior do que o fascismo.

Miguel Ruiz encontra-se em França. Tendo sobrevivido à situação de refugiado, trabalhador no deserto, acabou por participar na Segunda Guerra Mundial, integrando uma unidade militar composta por espanhóis republicanos. Eis um passado que os seus actuais conhecidos não suspeitam, vendo nele apenas um velhote, até ao momento em que um jovem aparece em busca de detalhes para uma história.

O velhote recusa, ao princípio, reticente em partilhar as memórias há muito enterradas. Persistente, o jovem não desiste e consegue que lhe sejam contados os mais mirabolantes momentos, elementos específicos de uma dolorosa história de guerra, mas sobretudo de resistência ao Fascismo – uma história enterrada pelo tempo e pela vontade de esquecer as atitudes incorrectas que foram tomadas para com este grupo de espanhóis.

Se, noutras histórias do autor, o lado humano e sentimental constitui premissa, poderíamos, talvez, esperar que numa história de guerra tal não se notasse. A verdade é que Paco Roca é perito em expressar as singularidades do comportamento, definindo personalidades em poucas vinhetas, captando expressões e gestos que marcam e tornam as personagens palpáveis.

As reacções do velhote ganham vida numa curta sucessão de quadrados e rapidamente sentimos que conhecemos e percebemos um pouco mais deste homem. Mas não só. Até as pessoas que o rodeiam e que fazem parte do seu quotidiano são retratadas de forma única, captando-se pequenos episódios que revelam o tipo de relacionamento que os protagonistas têm.

Os trilhos do acaso pode ser a história encoberta de uma guerra, mas, mais do que isso, é a história de um homem (ou da possibilidade de um homem), um herói que se reduziu à quase inexistência no seguimento de alguns constrangimentos pessoais e cuja história foi apagada por vergonha.

Os Trilhos do Acaso foi publicado em dois volumes na colecção Novela Gráfica publicada pela Levoir em parceria com o jornal Público.

Novidade: Emal – Quando a Guerra Fria Aqueceu – Miguel Santos

Eis novo título da Escorpião Azul que parece interessante, que decorre numa realidade alternativa. Deixo-vos a sinopse e algumas páginas:

A Guerra Fria aqueceu e as super-potências devastaram o hemisfério norte com fogo nuclear. O 25 de Abril nunca aconteceu.

Milhares de refugiados fogem das ruínas de Portugal para o Ultramar, onde novos senhores da guerra competem com os últimos resquícios do Império. E esta é a história de um homem determinado a encontrar um sentido para tudo isto.

 

Bruxas – Stacy Schiff

O que dizer de um período da história em que a comunidade parece ter sido acossada por uma praga de bruxas? Em Bruxas Stacy Schiff apresenta um extenso trabalho de investigação, reunindo diários e os poucos documentos que não foram eliminados, e colmatando as falhas que aparecem.

O pastor principal da vila descobriu que era parente de nada menos do que vinte bruxas. Fantasmas fugiram do túmulo para entrar e sair do tribunal, enervando mais gente do que as próprias bruxas.

Em 1692 uma rapariga começou a contorcer-se e a gritar. A ela juntaram-se outras, com os mesmos sintomas, que se diziam embruxadas, apontando dedos acusatórios. Se as vozes de mulheres são de menor importância nesta época, as de jovens raparigas ainda mais. Mas com estes sintomas e acusações ganham atenção, sobretudo masculina, enquanto arranjam motivo para se dedicarem ao ócio.

As mulheres são as vilãs nos contos de fadas – o que é que estamos a dizer quando colocamos entre as pernas o próprio símbolo dos afazeres domésticos comezinhos e levantamos voo, desafiando os limites da comunidade e a lei da gravidade? -, mas esses contos são igualmente o território da juventude. Salem encontra-se, a todos os níveis, ligada à adolescência, essa idade imoderada em que, vulneráveis e invencíveis, saltitamos alegremente ao longo da fronteira entre o racional e o irracional, em que aumenta o interesse tanto pelo espiritual como pelo sobrenatural.

Claro que a autora não parte directamente para estas conclusões. As próprias embruxadas, anos mais tarde, hão-de confessar o tédio ou a revolta para com os patrões, que as levou a estes sintomas. Até porque a mente das populações era, naquela altura, fortemente influenciável. Era mais fácil atribuir a uma bruxa um azar do que ao acaso – ganhava-se propósito e uma causa concreta para as desgraças.

A bruxaria resolvia as pontas soltas, explicava o arbitrário, o fantasmagórico e o inamistoso. Como Samuel Parris estava a descobrir, deflectia o julgamento divino e dissolvia a responsabilidade pessoal. O diabo não só oferecia um feriado à razão, como se exprimia com clareza: não obstante toda a sua perversidade, os motivos faziam sentido. Ninguém perguntava o que se tinha feito para merecer o seu desfavor, preferível à censura, ou à indiferença celeste. E quando se procuravam maquinações diabólicas, estas tornavam-se rapidamente visíveis. Entre responsabilizações flagrantes, a bruxaria resolvia impasses lógicos. Ratificava ressentimentos, neutralizava desfeitas, aliviava ansiedades. Oferecia uma explicação hermética quando, literalmente, o diabo começava a andar à solta.

 

Um grupo de mulheres jovens e desprovidas de direitos desencadeou a crise, revelando forças que ninguém conseguia conter e que ainda hoje nos perturbam. O que poderá, ou não, ter algo a ver com o motivo pelo qual transformámos uma história de mulheres em perigo numa outra sobre mulheres perigosas.

O mesmo se podia dizer para sonhos e imaginações nocturnas. Era comum a ideia de que uma mulher se materializava no leito do vizinho, atormentando-o, ou, sob a forma de um animal invadia espaços alheios para fazer diabruras e rapidamente se escapar. As primeiras acusadas de bruxaria eram mulheres que estavam à margem da sociedade, seja pela sua condição de extrema pobreza, seja por se encontrarem caídas em desgraça, viúvas a quem fora negada a herança.

É interessante que as mulheres espectrais frequentemente importunassem os homens nas suas camas em 1692, quando no mundo visível o oposto acontecia com alguma frequência.

Se, inicialmente, se começou por acusar mulheres que estavam à margem da sociedade, rapidamente as culpas passaram a contemplar mulheres que teriam, no seu passado, algum detalhe suspeito, uma falha do ponto de vista moral como uma gravidez fora do casamento, uma atitude pouco conformada e pacífica, ou alguma inteligência e sagacidade. Mas nem aqui ficou definido o limite, chegando-se a acusar, de bruxaria, mulheres que não tinham qualquer falha perante a família ou comunidade.

Numa sociedade pequena onde todos espiavam todos e assim acreditavam que se poderiam manter mais coesos e puros, qualquer comportamento inocente poderia ser facilmente transformado em atitude desviante, um indício de bruxaria. Um mero gesto, um mero olhar aos quais se confere um propósito poderia servir como prova para uma acusação. Mesmo quando estes tivessem origem na imaginação do seu observador.

Acusação após acusação, interrogatório após interrogatório, os acusados eram forçados a nomear cúmplices. As mulheres, principalmente, pouco crentes na validade dos seus pensamentos e, até, das suas memórias, acabavam por confessar voos em vassouras, ritos nocturnos em pastos, missas satânicas e assinaturas em livros que indicariam a venda da sua alma ao serviço do diabo. Não deixa de ser irónico confrontar a forma como se validavam as queixas das embruxadas em relação ao forçar de confissões por parte de mulheres que não teriam mácula moral, ou de confissões por parte de homens estabelecidos na comunidade.

E, pela primeira vez na Nova Inglaterra, as vozes femininas reveleram-se tão autoritárias que o depoimento espectral de duas esposas falecidas havia de prevalecer em tribunal contra um pastor eloquente e educado em Harvard.

O sucesso económico, contra todas as probabilidades, de uns acaba por fazê-los vítimas viáveis de acusação. Os feitos hercúleos ao enfrentar índios e ao desempenhar tarefas diárias são assumidos como provas de bruxaria, acabando por se condenar um homem proeminente, sobrevivente a vários ataques, que teria tido um papel importante na igual sobrevivência da sua pequena comunidade.

O facto de ninguém saber exactamente como uma bruxa exercia o seu mister também ajudava: a curiosidade da Hale era compreensível. Em parte bíblica, em parte folclórica, vagamente sueca e mesmo vagamente índia, uma bruxa era alguém que em julho beliscava e estrangulava, mas em agosto já derrubava reinos.

A imprecisão na definição do que era uma bruxa, um feiticeiro ou um bruxedo facilitavam as acusações. Referiam-se fantasmas, acreditava-se no efeito que o olhar do acusado tinha nos episódios de histeria demonstrados pelas jovens – elementos que alimentava a ânsia de um expurgo pelos juízes que pareciam desenterrar uma epidemia. A cada nova acusação surgiam novos suspeitos que prontamente eram interrogados. Se não confessassem nos primeiros dias, a dura permanência na prisão decerto trataria de avivar a memória para culpas e para detalhes de episódios fantásticos.

Numa sociedade que tenta lutar contra todos os vícios anulando o máximo de feriados e de festas, mantendo o maior foco possível no trabalho, e fomentando o espiar de todos, parece surgir o maior surto de todos os tempos, ironia que não passou despercebida a outras comunidades.

Com menos exactidão, mas com grande satisfação, os inimigos dos Puritanos deliciavam-se com aquele frenesi. Eles estavam a «enforcar-se uns aos outros» exactamente pelo mesmo crime – haviam de referir dois comerciantes quacres (…) do qual gostavam de acusar a sua seita de alegados adoradores do diabo. (…) A caça às bruxas parecia encorajar as gentes a comportarem-se como as próprias criaturas – católicos, franceses, bruxos – que abominavam.

Fruto do tédio dos dias iguais, sem diversão ou descanso, fruto de uma imaginação fértil alimentada pelo extremo fervor religioso, a caça às bruxas pareceu lógica aos juízes que presidiram aos julgamentos. Com o tempo, alguns deles, perceberiam que o melhor que fariam era apagar estes episódios da história.

O facto de as raparigas viverem num género de lugar pequeno e confinando que sempre proporciona um bom pano de fundo para o teatro (e para um bom romance de detectives) também terá contribuído: era menos frequente as acusações de bruxaria terem origem em locais urbanos.

Resultando numa histeria em massa, uma urgência em extinguir o mal e justificar todos os azares que ocorriam na vila, os julgamentos tornar-se-iam famosos apesar de todas as tentativas em eliminar registos da sua ocorrência. Utilizados para relatos fantásticos e peças de horror, são frequentemente referidos na literatura ou no cinema, sem esquecer a música, desde o folk à ópera.

Stacy Schiff realiza um extenso trabalho de agregação de informação, interligando-a e realçando o absurdo da forma como os procedimentos foram realizados nos julgamentos. As mesmas provas serviam para acusar e para ilibar e afirmações de inocência acabavam por ser mais prejudiciais do que confissões de culpa.

As Bruxas foi publicado pela Marcador.

O lar da senhora Peregrine para crianças peculiares – Ransom Riggs

O Lar da Senhora Peregrine para crianças peculiares é um livro destinado a um público mais juvenil mas nem por isso totalmente condescendente ou linear, ainda que possua algumas coincidências pouco prováveis e uma história algo afunilada na personagem principal.

Se há algo que importa destacar neste livro é o aspecto gráfico, com páginas separadoras e fotografias que lembram as décadas passadas do século XX, com as suas fotografias falseadas mostrando falsos prodígios. Todas as fotografias mostradas são verdadeiras, recolhidas pelo autor em vendas de garagem.

A história centra-se num rapaz, Jacob, que cresceu a ouvir as histórias mirabolantes do avô, um rapaz que sobreviveu à família, exterminada nos campos nazis. Após a fuga terá sido acolhido numa casa com outras crianças, crianças que teriam dons extraordinários. As histórias germinam na sua mente mas quando começa a ser gozado pelos colegas de escola acumula alguma raiva por ter acreditado em contos de fadas, acusando o avô de o ter contaminado com tais ideias.

Só aquando da morte do avô em circunstâncias estranhas é que percebe que alguma parte da história poderá ser verdade e, entre pais e psicólogo, lá consegue viajar à ilha remota onde se situaria a tal casa, conjuntamente com o pai que pretende iniciar outro livro sobre aves.

A vila inóspita que se situa na ilha tem poucas condições para turistas ou viajantes e sente-se uma aura de agressividade passiva, uma mentalidade rude aguçada pela necessidade e pela dura sobrevivência aos bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial.

Desolado, quase a desistir entre os destroços da casa que terá acolhido o avô, Jacob descobre finalmente pistas sobre algo mais – e um caminho secreto que o leva a um vórtice no tempo onde os colegas prodigiosos do avô persistirão, a cargo da Senhora Peregrine.

Mas nem tudo são boas notícias. Os monstros também andam à procura das crianças, mas com o intuito de as consumir. Jacob descobre que, também ele, tem uma capacidade que o distingue e um papel a desempenhar nesta batalha.

 

O Lar da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares é um livro cuja leitura escorrega facilmente. Com algumas coincidências excessivas que quase tornam o desenrolar dos acontecimentos desconfortável, apresenta uma história engraçada com detalhes imaginativos, destacando-se a utilização das fotos antigas para imaginar poderes para cada uma das crianças.

A interacção entre as crianças é engraçada e realista, mostrando picardias e dominâncias, um aproveitamento exibicionista dos poderes como num circo. É, desta forma, um livro aconselhável a um público mais jovem, não totalmente condescendente e interessante, com detalhes originais e envolventes.

O Lar da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares foi publicado em Portugal pela Contraponto.

Assim foi: Fórum Fantástico 2017

As diferenças

O Fórum Fantástico cresceu, este ano, de forma bastante positiva! Por um lado notou-se a forte aposta em workshops, o que possibilitou integrar camadas mais jovens e manter um programa mais dinâmico. A par com a usual (e fantástica) impressão a 3D organizada pelo Artur Coelho, houve espaço para desenvolver a imaginação dos mais pequenos, construir Zepellins e armaduras, ou para aprender um pouco mais de ilustração com Ricardo Venâncio.

Por outro, é de realçar a maior ocupação do espaço da Biblioteca Orlando Ribeiro que deu nova vida ao espaço – era impossível não reparar na tenda que ocupava parte do pátio com uma pequena feira do livro, onde se viam exemplares de livros de ficção científica e fantasia, sem faltarem os da autoria de Mike Carey, o escritor convidado deste ano. Nesta pequena feira do livro exterior encontravam-se a Leituria e a Dr. Kartoon.

Mas não foi só com a feira do livro que houve uma maior ocupação do espaço. O bom tempo permitiu a existência de bancas de produtos diversos, com especial destaque para o Steampunk (ou não estivesse a decorrer a EuroSteamCon integrada no Fórum Fantástico), bem como de mesas e cadeiras no exterior que permitiram usufruir do bom tempo. O terraço, bem como outras salas da biblioteca foram ocupadas, permitindo a apresentação de jogos de tabuleiro (com participação da Morapiaf) e a exibição de pranchas de Ricardo Venâncio.

E as diferenças não acabaram por aqui – a existência de um bar aberto durante todo o evento facilitou a permanência no Fórum Fantástico pois em anos anteriores era usual ter-se de deixar o recinto para comer alguma coisa. O menu, fantástico, possuía várias alusões ao evento e a comida fornecida era de boa qualidade (pela Cacaoati).

Mike e Linda Carey

Mike Carey produziu mais de 200 comics, vários livros e guiões para cinema. Com a adaptação para cinema de The Girl with all the gifts tem-se tornado cada vez mais requisitado. Por sua vez, Linda Carey escreveu também alguns livros (alguns sob pseudónimo). O destaque para a imensa obra, principalmente a de Mike Carey, serve para contrastar com o espírito que ambos demonstraram, sem prepotências ou projecções de importância, atenciosos e simpáticos durante todo o evento.

Na sexta-feira Mike Carey, conjuntamente com Filipe Melo e José Hartvig de Freitas, falou da larga experiência na produção de comics, da forma como trabalha com diversos desenhadores e da sua própria evolução e adaptação. Destacou-se a produção da série Unwritten, ideia que surgiu em cooperação com Peter Gross, com o qual já se habituou a desenhar. Foi uma palestra interessante e bem disposta.

No Sábado decorreu a conversa com ambos, Mike e Linda Carey, moderada por Rogério Ribeiro, mais voltada para os restantes livros (fora do formato da banda desenhada) onde se falou intensivamente do The Girl with all the gifts, que foi escrito em simultâneo com a adaptação, para cinema, da mesma história. Ambos os autores demonstraram uma queda para pequenos elementos subversivos nas suas histórias.

As restantes palestras de sexta

E com esta nomenclatura não pretendia referir menor prestígio das restantes palestras, mas sim destacar as que envolveram o autor convidado.

15:30 – Sessão Oficial de Abertura do Fórum Fantástico 2017

O Fórum iniciou-se na sexta (para mim, que não pude ir aos worksops) com uma sessão de apresentação de João Morales e Rogério Ribeiro onde expuseram algumas das diferenças deste ano e destacaram algumas sessões e workshops.

16:00 – Sessão “A Ficção Científica: Espelho de ansiedades políticas e pessoais”, com Jorge Martins Rosa, Maria do Rosário Monteiro, Daniel Cardoso e Aline Ferreira

Nesta sessão referiram-se várias obras e respectivas projecções das ansiedades sociais, não só em relação à evolução tecnológica e respectiva perda dos papéis tradicionais (com especial referência à mulher grávida e aos úteros artificiais), como a novos modelos sociais.

16:45 – Sessão “O lugar do Fantástico na Arte Contemporânea”, com Carlos Vidal, Henrique Costa e Opiarte – Núcleo de Ilustração e BD da FBAUL

A sessão apresentou a Opiarte enquanto espaço que permite, a alguns artistas, explorarem a vertente fantástica e de ficção científica nos seus trabalhos, espaço que visou responder a uma necessidade sentida pelos alunos da faculdade. Durante a sessão mostraram-se trabalhos produzidos neste núcleo, alguns dos quais se destacam pela qualidade.

17:45 – Sessão “Narrativa em Videojogos”, com Nelson Zagalo, Ricardo Correia e João Campos

(Cheguei no final)

As restantes palestras de sábado

14:30 – Sessão “Identidades autorais”, com Ana Luz, Joel Gomes e Pedro Cipriano

Os autores aproveitaram o espaço para falar sobre o seu percurso enquanto escritores, desde influências a desenvolvimento de método (destacando-se a referência de Ana Luz ao conto O Teste de João Barreiros), mostrando os livros em que já participaram, bem como os projectos futuros em que se encontram envolvidos.

16:00 – Lançamento “Almanaque Steampunk” (Editorial Divergência)

Cada EuroSteamCon costuma ser acompanhada pela publicação de um Almanaque Steampunk. O deste ano foi produzido em tempo recordo com a colaboração da Editorial Divergência. Ainda não tive oportunidade de ler, mas a publicação é curiosa, bastante atractiva visualmente, com conteúdos diversos e que promete bastante diversão para o leitor.

17:45 – Sessão “Prémio Adamastor”, com João Barreiros e Luís Filipe Silva

O prémio Adamastor este ano foi atribuído a João Barreiros e Luís Filipe Silva, dois dos poucos autores de ficção científica portuguesa que se têm destacado na divulgação do género dentro e fora do país. De realçar as várias antologias que João Barreiros organizou recentemente, bem como as colecções que organizou enquanto editor. Por seu lado, Luís Filipe Silva tem participado em diversas Con’s onde fala da ficção especulativa portuguesa, divulgando o que se fez em Portugal há várias décadas e o que se continua fazendo.

18:00 – Sessão “Dormir com Lisboa”, com Fausta Cardoso Pereira

Premiado e publicado na Galiza pela Urco Editora, Dormir com Lisboa é um romance de ficção especulativa que decorre na capital portuguesa, partindo da premissa de desaparecimento injustificável de várias pessoas. A passagem lida por João Morales denota um humor peculiar, com caricaturas de personagens e situações insólitas.

18:30 – Lançamento “Apocryphus #2”, com Miguel Jorge

Este projecto de banda desenhada português apresentou, no primeiro volume, uma qualidade gráfica excepcional, com elevado cuidado no tipo de papel utilizado e uma selecção cuidada de autores. À semelhança do primeiro volume, também o segundo foi publicado no Fórum, com a presença de tantos autores que por pouco transbordavam do palco.

Restantes palestras de Domingo

Infelizmente, Domingo apenas pude assistir à palestra do João Morales, Novas Metamorfoses Musicais, para além de participar em As Escolhas do ano com João Barreiros e Artur Coelho (sobre a qual dedicarei uma entrada específica para publicar as escolhas de cada um, como é usual).

A sessão de João Morales demonstrou o usual bom humor, com óptimas escolhas musicais onde se cruzam estilos e épocas, novas conjugações de musicas conhecidas em que destaco as seguintes:

(Venus in Furs: Versão portuguesa em Uma Outra História)

No final, há a destacar que o Fórum Fantástico é um evento TOTALMENTE gratuito, onde, todos os anos, várias pessoas se organizam para proporcionar, ao público, três dias de extrema diversão geek!

Resumo de leituras – Setembro de 2017 (5)

145 – A Biblioteca à noite – Alberto Manguel – Um livro apaixonante sobre bibliotecas e a sua dinâmica. Discorrendo sobre as várias bibliotecas, seja do ponto de vista de conteúdo, organização, disponibilidade (pública ou privada), Alberto Manguel constrói um livro fantástico para quem gosta de livros e de os ter organizados em prateleiras;

146 – Valerian Vol. 5 – Os Heróis do Equinócio / Metro de Châtelet – Direcção Cassiopeia – Christin Mézières – Duas histórias de Valerian bastante diferentes, a primeira pega num conceito romantizado de guerreiro que será imortalizado na regeneração de uma civilização, enquanto a segunda se centra em projecções monstruosas de origem desconhecida;

147 – Corto Maltese: A Juventude – Hugo Pratt – Um volume que nos apresenta a personagem enquanto jovem, dando-lhe um papel quase secundário – por diversas vezes referido, mas aparecendo apenas no final, a história dá especial destaque a um encontro entre Raspustine e Jack London, cruzando factos com ficção para dar realce ao surgir do espírito explorador de Corto Maltese;

148 – As melhores histórias de Donald & Patinhas – Don Rosa – Um conjunto de histórias mais compostas da Disney onde se exploram grandes tesouros perdidos, como a Biblioteca de Alexandria. Viajando pelo mundo, explorando o fundo dos mares ou as catacumbas de uma civilização perdida, estas histórias de traço mais detalhado do que vemos na maioria das histórias Disney, apresenta pequenas aventuras mirabolantes.

I am Legion – Fabien Nury e John Cassaday

I am Legion é uma banda desenhada francesa (Je suis Légion) que decorre durante a Segunda Guerra Mundial na Roménia, e nos remete para o monstro nacional, o vampiro. Neste caso o vampiro é uma jovem rapariga em estudo pelos nazis que pensam utilizá-la como arma de guerra.

Encarcerada, fazem-na comandar vários soldados em simultâneo para provar a perfeita coordenação que é atingida quando uma só mente desenha uma estratégia e não existem hesitações. Será esta a arma perfeita de que Hitler necessita?

Enquanto assistimos às experiências desenvolvem-se algumas conspirações, algumas do lado dos nazis, outras do lado da resistência romena em que se envolvem, até, alguns transformados, alguns vampiros com interesses próprios.

De desenhos que oscilam entre grande detalhe (como acima) e pouco detalhe (para cenas focadas na acção), I Am Legion constrói-se lentamente em várias frentes que se vão cruzar nos momentos de maior tensão. Acima da dualidade nazi / aliado encontram-se os interesses próprios e serão estes que, por diversas vezes, fazem com que as estratégias não sigam claros caminhos para o sucesso.

Negro e pausado, I Am Legion transparece um ambiente de hostilidade, entre o soturno e o secreto que aproveita as lendas locais romenas para as cruzar com as experiências nazis, recordando um pouco os filmes de horror que cruzam nazis com zombies. Neste caso os sem alma não são visíveis a olho nu, são fantoches controlados de longe que agem quase normalmente.

 

1602 – Witch hunter Angela – Bennett, Gillen e Hans

O mundo deste volume começou com 1602, um livro de Neil Gaiman que apresenta uma realidade alternativa onde os super-heróis apareceram durante os Descobrimentos, em auge pleno da Inquisição. Julgados como aberrações, demonstrações do poder do diabo ou resultado de bruxarias, os heróis surgem em meio pouco propício e facilmente acabam na fogueira.

Depois de 1602 de Neil Gaiman seguiram-se outras aventuras no mesmo Universo por outros autores, Fantastic Four ou Spider Man, aventuras mais standard num enquadramento diferente. Em Witch hunter Angela o ambiente difere de todos os volumes anteriores, com um ambiente mais negro e denso que contrasta a religiosidade com a magia, conferindo à caçadora de bruxas um aspecto angelical apesar da sua missão.

Entre peças de teatro e apresentações da corte que revelam monstros entre humanos, Angela avança, implacável e impiedosa, percebendo que alguns dos novos monstros não nasceram assim, mas escolheram o seu próprio destino e são, por isso, menos propensos à sua piedade ou simpatia.

Mas até a caçadora tem pontos fracos e será através destes que será testada e corrompida, manipulada apesar da força que demonstra. O poder da magia encontra-se em todo o lado, alimentado pelas preces de quem pouco tem e algo precisa.

Com coloração densa, escura e brilhante, a maioria das páginas contém uma composição arrojada que nem sempre está de acordo com a história que se apresenta, de narrativa mais classicamente fantástica apesar dos toques de super-herói, em que personagens conhecidas como Fury ou os Guardiões da Galáxia.

Ainda que, visualmente, não me tenha agradado (salvo algumas páginas) a história é interessante por cruzar personagens históricas com o Universo Marvel, e por retirar a perspectiva simplista de bom / mau usada nalguns outros volumes. Angela chacina os que já não são humanos sem dó, a serviço de algo em que acredita.

Outros volumes do Universo 1602

A Biblioteca à noite – Alberto Manguel

Livros sobre livros. E que tal livros sobre bibliotecas? Partindo da sua própria biblioteca que está albergada num local com uma fascinante história própria, Alberto Manguel discorre sobre várias bibliotecas, seja do ponto de vista de conteúdo, organização ou democratização.

Claro que não é possível falar de bibliotecas sem falar das desaparecidas e míticas, como a de Alexandria. Mas como esta, existem outras, reunidas em determinados locais para simplesmente serem extintas, de repente, por algum conservador de ideias que vê, nos livros, uma afronta e um perigo.

Utilizadas para manipulação política (o autor descreve casos em que a disponibilização ou maior destaque foi dado a determinadas publicações), como estrutura diferenciadora de classes (numa altura em que o acesso a livros poderia aprofundar diferenças culturais) ou como monumento de prestígio (que homens ricos deixavam não porque valorizassem a cultura, mas porque desejavam ter o seu nome realçado) as bibliotecas, com os respectivos livros, têm marcado culturas e gerações.

Organizadas de determinadas formas (alguns métodos convertem-se em autênticas dores de cabeça), mantendo, por vezes, a nomenclatura dos donos originais, as bibliotecas privadas reflectem os seus donos, pela diversidade e composição das obras, e representam fisicamente associações de ideias:

Os nossos livros decorrem de outros livros, que os mudam ou enriquecem, que lhes atribuem uma cronologia diferente da dos dicionários literários.

A Biblioteca à noite, publicado em Portugal pela Tinta da China é uma leitura fascinante para quem gosta de livros e bibliotecas – carregado de curiosidades e sem se conter em fazer observações políticas e históricas sobre o acesso à cultura. Cruzando diferenças culturais e históricas com a actualidade ocidental, realça o mistério da biblioteca à noite, obscura, carregando todas as possibilidades e todos os livros, os lidos e os não lidos.

Novidade: O Diário de Anne Frank – adaptação banda desenhada

O Diário de Anne Frank foi adaptado para o formato da banda desenhada! A adaptação foi realizada por Ari Folman e David Polonsky e será lançada em Portugal no dia 21 pela Porto Editora. Esta nova edição foi patenteada pela Fundação Anne Frank e pretende ilustrar os 743 dias que Anne Frank viveu escondida, com mais 7 pessoas, num anexo em Amesterdão.

Deixo-vos a sinopse, bem como algumas páginas disponibilizadas pela editora, Porto Editora:

No verão de 1942, com a ocupação nazi da Holanda, Anne Frank e a família são forçados a esconder-se. Durante dois longos anos, vivem com um grupo de outros judeus num pequeno anexo secreto em Amesterdão, temendo diariamente ser descobertos. Anne tinha treze anos quando entrou para o anexo e levou com ela um diário que manteve no decorrer de todo este período, anotando os seus pensamentos mais íntimos, os seus receios e esperanças, e dando conta do dia a dia da vida em reclusão. Em 1947, após o fim da Segunda Guerra Mundial — a que Anne não sobreviveria —, o seu pai publicou este diário, um documento inspirador que é ainda hoje um dos livros mais acarinhados em todo o mundo e uma obra marcante na história do século XX.

Lançada mundialmente em celebração do 70º aniversário de O Diário de Anne Frank, esta é a sua primeira adaptação para banda desenhada, realizada com a autorização da família e tendo por base os textos originais do diário.

As melhores histórias de Donald & Patinhas

Ainda há dias alguém comentou, a propósito de outro livro de aventuras Disney, que estes livros lhe recordavam a infância. Para mim, tal sentimento é desperto especialmente por este grande volume carregado de boas histórias de construção mais clássicas, menos mirabolantes e desenhos mais detalhados e perfeitos.

Depois de uma fascinante árvore genealógica onde se expõem os relacionamentos familiares dos vários patos, começa uma das histórias mais longas do conjunto, Tio Patinhas e o tesouro sob o vidro, em que o Tio Patinhas convida os sobrinhos para procurarem os destroços de um barco. O que não sabe é que a zona que se propõe a explorar é dominada por dois rufiões que tentam, a todo o custo, impedir a progressão da expedição.

Em Donald em Acontece no Arranha-céus patinhas, Donald tenta demonstrar que perdeu o medo das alturas, peripécia que se inicia com sucesso, mas que prossegue com uma série de tropelias. Engraçada e curta, esta história rapidamente dá lugar a Tio Patinhas e os Guardiões da Biblioteca Perdida, onde se procura o destino dos livros que residiam na antiga Biblioteca de Alexandria. De país em país, seguindo a história das conquistas de várias civilizações, é uma das melhores histórias da Disney que li recentemente.

Tio Patinhas e o Solvente Universal centra-se na invenção de um produto capaz de dissolver tudo excepto diamante. Esta aventura leva o Tio Patinhas e respectivos sobrinhos ao centro da Terra, e vai dar bases para as seguintes, Tio Patinhas e o Cavaleiro Negro e Tio Patinhas e o Cavaleiro Negro volta a atacar, onde um milionário tem como hobbie o roubo de coisas impossíveis, fazendo da caixa forte o seu alvo.

Entre estas histórias temos a exploração da temática da redução de pessoas (Tio Patinhas e o incrível forreta miniturizado) que dá espaço aos irmãos Metralha para tentarem um novo golpe. Já em Tio Patinhas e o Tesouro dos Dez Avatares toca-se na temática da exploração da mão de obra barata em países de terceiro mundo, aproveitando os detalhes de outras culturas e respectivas mitologias.

Para além da qualidade gráfica acima da média, este volume reúne boas histórias que introduzem conceitos interessantes, tanto do ponto de vista histórico e cultural como científico, a mentes jovens. Reconhecemos referências a outras obras de ficção numa estrutura clássica, algo circular e coesa, fazendo com que a leitura possa ser apropriada também para adultos que gostem deste tipo de banda desenhada.

Este volume foi publicado pela Goody, a mesma editora que publica as revistas da Disney nas bancas nacionais.

Novidade: Crónica do Rei Pasmado – Gonzalo Torrente Ballester

 

Nunca tive oportunidade de ler Crónica de um Rei Pasmado mas foram tantas as indicações positivas de uma amiga que já andei, há tempos, a tentar comprá-lo. Eis, finalmente, uma nova edição, com preço bem em conta por estar enquadrado nesta colecção. Deixo-vos a sinopse da editora:

Tal como acontecera já em Espanha, a Crónica do Rei Pasmado foi um grande êxito em Portugal. Nada mais natural. É que este «scherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado», como o próprio autor lhe chama, é um livro particularmente saboroso, hábil e irónico, narrado com a mestria e a sabedoria de um escritor como Ballester. A partir do pasmo extasiado do rei ao ver pela primeira vez uma mulher nua, e ao querer ver nua também a rainha, toda uma intriga se tece na corte, metendo nobres, inquisidores, uma afamada meretriz, um jesuíta português, a superiora do convento; toda uma tela de uma obra que bem justifica o qualificativo de pitoresca, num divertimento de primeira água.“ Numa sociedade como a de hoje, onde o erotismo tantas vezes deixou de ter um papel relevante porque a conquista é demasiado fácil, é importante reler estas páginas, onde o humor e a sátira nos encantam

Resumo de leituras – Setembro de 2017 (3)

137 – Iraq + 100 – Vários autores – Sem grande tradição no género, foram convidados vários autores para perspectivarem o futuro do país. O resultado é diverso, com altos e baixos. Ainda que a qualidade não seja grande ao longo de todos os contos, a verdade é que vamos descobrindo excelentes e inesquecíveis contribuições;

138 – Valerian Vol.4 – O Embaixador das Sombras / Em terras fictícias – O quarto volume apresenta duas histórias que me parecem de qualidade distinta. A primeira expressa toda a variedade e originalidade que já espero da série enquanto na segunda se simulam várias viagens no tempo numa sucessão de rápidas missões em que Valerian é clonado e enviado;

139 – One Punch Man. Vol. 1 – One e Yusuke Murata – Não estou habituada a ler este género, mas achei este volume fabuloso. O nosso herói é meio deprimido, principalmente pela facilidade com que acaba com os monstros, num só murro. Com uma excelente qualidade gráfica, por vezes em desenhos detalhados, por vezes em imagens mais estrondosas, apresenta um herói pouco típico em episódios ligeiramente cómicos pelo tom;

140 – Os Ignorantes – Étienne Davodeau – Dois homens trocam paixões. Um expressa a paixão pelas vinhas e pela produção de vinho ensinando ao autor da banda desenhada todos os detalhes que rodeiam o seu quotidiano. Por sua vez, o autor mostra obras de banda desenhada diversas, entre o francobelga e o comic americano, obtendo respostas pouco esperadas para algumas das obras.

Walking Monsters + Dawn of The Dead ao Ar Livre – Warm-Up 2017

Enquanto o MotelX propriamente dito não chega, continuam as sessões de aquecimento, desta vez como sessão gratuita de Dawn of the Dead de Romero no Largo de São Carlos. Para mais informações sobre o evento, podem consultar a página oficial.

Destaque: Revistas Tio Patinhas e Donald

Com o término da revista Comix (que chegou ao número 200 recentemente) a Goody inicia a publicação de três novas revistas, que são publicadas em semanas alternadas, cada uma dedicada a uma personagem diferente, Tio Patinhas, Donald e Mickey.

O primeiro número da revista dedicada ao Tio Patinhas foi lançado no dia 22 de Agosto e o primeiro número da revista dedicada ao Donald no dia 29 de Agosto. Deixo-vos alguma informação sobre cada número bem como as primeiras páginas.