A Chave de Gaudí – Esteban Martin e Andreu Carranza

A Chave Gaudí foi publicado há uns bons anitos (mais de 10) pela Saída de Emergência, mas não o li na altura. Mais recentemente, em El Fantasmas de Gaudí vi, na introdução, uma referência a este livro e a um dos seus escritores, Esteban Martín, onde estaria a teoria de que Gaudí seguiria uma linha de construção mais antiga, que pretendia reproduzir na Terra o que existe no céu.

A Chave Gaudí cruza várias teorias sobre os trabalhos do arquitecto em Barcelona e as suas supostas relações com grupos secretos, reproduzindo perspectivas matemáticas e artísticas para desenvolver estas teorias. Paralelamente acompanhamos uma jovem que se apercebe que a morte do avô poderá não ter sido acidental – tal suspeita é fortalecida quando, nesse dia, é perseguida por brutamontes que atiram nela e no namorado.

Como desenvolver teorias sobre Gaudí sem acabar com um livro chato e académico? Ou com um duvidoso livro de Ficção especulativa? Cruzando as várias teorias com uma história movimentada, onde o perigo eminente justifica os constantes episódios de acção numa fórmula muito explorada por Dan Brown.

Neste romance não falta o casal de apaixonados para sentirmos empatia e torcermos, nem as mortes horrorosas para conceder o sentimento de perigo, nem os vilões que se revelam maus por natureza e não pelas circunstâncias – o mal consciente e propositado que pretende corromper e dominar.

Dentro das limitações da fórmula que pretende transformar a história num page turner, A Chave Gaudí consegue ser competente.  No entanto, a componente mais interessante é exactamente a exposição de teorias que pretendem revelar grupos milenares, secretos que transportam missões tão antigas quanto Cristo, missões que nem os Apóstolos nem outros grupos teriam identificado como necessárias nas palavras deixadas pelo Messias. Ainda, desenvolvem-se teorias matemáticas mostrando que as formas naturais que inspiraram Gaudí apresentam fortes estruturas tri dimensionais pouco usadas pelos restantes arquitectos.

O resultado é uma leitura movimentada e rápida que não me deixou grandes memórias pelas personagens e pelo seu percurso pessoal, mas que contém alguns pontos interessantes que também foram apresentados em El Fantasma de Gaudí (publicado recentemente na colecção Novela Gráfica, publicada pela Levoir em parceria com o jornal Público).

Corto Maltese – Fábula de Veneza – Hugo Pratt

O livro começa com uma pequena introdução onde se discorre sobre uma avô em Veneza que levaria o neto a visitar uma amiga. A casa desta amiga seria uma espécie de labirinto, construído como resultado do cruzamento de várias crenças e mitos, religiões e culturas, numa sucessão de enigmas cabálicos e obscuros  – um lugar mágico que alimenta a imaginação da criança e, mais tarde, do homem.

Neste Fábula de Veneza Corto Maltese explora a cidade em busca de uma pedra rara numa aventura carregada de referências à experiência infantil do autor. A aventura começa com a interrupção de um encontro maçónico, onde Corto Maltese cai do telhado. Entre amigos de interesses diversos (e opostos), vai seguindo as pistas de um enigma impossível deixado por um antigo e louco poeta.

Se outros encontram, nas referências do poema chave, um intrincado obscuro de palavras, Corto desembrulha-as sem grande dificuldade, entrelaçando lendas e culturas, e encontrando, na própria cidade os pontos associados às pistas. A pesquisa é carregada dos usuais sobressaltos – não falta uma aparição de Rasputine, mulheres belíssimas que se revelam vilãs ou conhecidos que enlouquecem por amor ou por dinheiro. Todos estes elementos são comuns a outras histórias de Corto Maltese e voltam a ser usados aqui, eficazmente.

Mais curta que as histórias que li antes deste volume, Fábula de Veneza sabe a pouco, deixando alguns mistérios por resolver e possuindo um final que não me foi totalmente satisfatório. Claro que, sendo Corto Maltese estamos a falar de um volume de qualidade bastante acima da média, que fascina pelas referências históricas e culturais, sobretudo quando toca nas histórias de tesouros perdidos e antigas apostas milionárias entre personalidades divergentes.

A recruta dos azuis – Os túnicas azuis – Willy Lambil e Raoul Cauvin

De tom leve e divertido, Os Túnicas Azuis baseia-se na dinâmica entre duas personagens – um homem que deseja a carreira militar mas que, por medo da mãe, não prosseguia, e um taberneiro que nunca pensou em integrar o exército. Nesta história explica-se como se aproveitou um momento de menor discernimento de ambos para os fazer integrar no exércioto.

Antes de iniciar a sua carreira militar, Chesterfield trabalhava como aprendiz num talho, fugindo dos olhares sedutores da filha do patrão, uma senhora pouco feminina que já tinha passado a idade usual para se casar. Entre o espírito protector da mãe (que vê nos favores da jovem, filha do dono do talho, um futuro promissor) e as histórias de coragem militar contadas pelo pai que se encontra numa cadeira de rodas, Chesterfield sonha secretamente com a farda, mas não ousa demonstrar esse desejo à mãe.

Por sua vez, Blutch tem uma taberna e está contente com esta vida, não aspirando a qualquer outra profissão. Conhece o caso de indecisão de Chesterfield e, após uns quantos copos, uns militares que se encontravam de passagem percebem que esta é uma oportunidade de ouro para captar dois novos recrutas.

Depois de ingressarem, contra vondade, no exército, o progresso até à cavalaria é carregado de sobressaltos e, como já é habitual, vêem-se recorrentemente nas posições mais perigosas e idiotas!

As histórias de Os Túnicas Azuis são curtas e divertidas e esta não é excepção. Aproveitando detalhes históricos bem posicionados (mas sem sobrecarregar a narrativa) e a dinâmica entre as duas personagens consegue divertir o leitor.

A série Os Túnicas Azuis foi publicada pela Asa em parceria com o jornal Público.

Dormir com Lisboa – Fausta Cardoso Pereira

O prémio Antón Risco pretende distinguir obras de literatura fantástica, concedendo-lhes um prémio monetário e a publicação através da editora galega Urco. A primeira edição deste prémio foi realizada em 2015 e a segunda foi ganha por esta obra, Dormir com Lisboa.

Num dia, sem qualquer aviso ou razão, a cidade de Lisboa começa a engolir pessoas. Apenas algumas. Pontualmente. Abrem-se burados no chão que duram o suficiente para fazer desaparecer alguém, mas não mais do que isso. Nada parece unir os alvos de Lisboa. Os locais em que desaparecem são diversos, as idades e costumes também. Alguns moram na cidade, outros apenas lá trabalham, outros, ainda, estão apenas de passagem.

Instala-se o pânico. Que fenômeno estará por detrás dos desaparecimentos? E quem? Reúne-se um grupo de emergência composto por diversas entidades – ministros e presidente da câmara, general e cientistas. Cada um tem a sua própria visão dos acontecimentos e cada um tem ideias muito diferentes de como controlar a situação.

A investigação policial parece não descobrir muito, para além dos factos. Nem motivos, nem causas. Antes de cada desaparecimento ouve-se um estrondo. De seguida, abre-se um buraco e a pessoa desaparece. Alguns não deixam quem dê por falta deles, mas são dados como desaparecidos por quem viu a ocorrência.

Tecendo um fenômeno na cidade, a autora transforma Lisboa na personagem principal, uma personagem presente mas silenciosa que se expressa de formas nem sempre perceptíveis pelos seus habitantes. Cada pessoa tem a sua própria visão da cidade, vendo-a como uma mulher misteriosa que pode fugir facilmente ao poder de um político ou como uma velhota de múltiplos retalhos.

Dormir com Lisboa explora a pluralidade da cidade – a diversidade dos habitantes e dos locais, uma cidade que foi construído ao longo de séculos e que possui restos de todas as suas fases. Não é uma cidade homogénea, mas uma cidade que abriga diferentes habitats, de amores e humores, com locais de lazer e introspecção e com locais frios de passagem apressada.

 

Dormir com Lisboa foi publicado pela Urco Editora.

Resumo de Leituras – Fevereiro de 2018 (3)

 

23 – Ministry of Space – Ellis, Weston e Martin – Visualmente fabuloso, decorre numa realidade alternativa onde a corrida do espaço é vencida pelo Reino Unido graças  a uma reviravolta na obtenção dos segredos militares dos alemães. A partir daqui assistimos à construção de um novo Império, concretização das aspirações superiores dos ingleses;

24 – O ateneu – Quintanilha – De visual bastante diferente do usual no autor, adapta um romance brasileiro que se centra num rapaz que larga as saias da mãe para integrar um colégio interno que tem todos os filhos da elite brasileira. Não esperem amizades e companheirismo, à semelhança dos adultos que espelham, são jovens carregados de vícios que tecem jogos de influências e poder para concretizar as suas intenções;

25 – Torpedo 1936 Vol.1 – Abulí, Bernet – O assassino a soldo concretiza os seus planos de forma dura e vai aproveitando as oportunidades que se lhe apresentam para ganhar mais algum dinheiro. Os seus esquemas nem sempre funcionam, e por vezes altera os seus planos para ganhar momentos de menor remuneração imediata;

26 – Dormir com Lisboa – Fausta Cardoso Pereira – Vencedor do prémio Antón Risco, o livro da autora portuguesa foi publicado numa editora Galega e apresenta-nos as várias facetas de Lisboa numa história de detalhes fantásticos onde alguns trauseuntes vão desaparecendo sem deixar rasto, iniciando-se, assim, uma crise nacional pela busca e necessidade de explicação do fenómeno.

El fantasmas de Gaudí – El Torres e Jesús Alonso Iglesias

Qualquer livro que decorra na cidade de Barcelona e que explore a cidade na sua narrativa é um bom candidato a ser um preferido, por se tratar de uma das minhas cidades favoritas. Neste caso a história centra-se, sobretudo, na obra de Gaudí que se encontra em Barcelona, cruzando significados das obras com intenções em reflectir as constelações numa cidade, enquanto decorre a tentativa de apanhar um assassino em série.

O primeiro corpo foi encontrado na casa Vincens, pendurado, de vísceras de fora. Trata-se de um crime difícil de concretizar, pois percebe-se que a morte ocorreu noutro local, tendo o corpo sido transportado através da cidade, por uma rua movimentada. O inspector que foi chamado a investigar o caso percebe tratar-se de uma tentativa de chamar à atenção mas não acredita na relação com a obra de Gaudí.

Paralelamente, uma jovem salva um homem de ser atropelado e vai parar ao hospital. A partir desse momento será envolvida no enredo, fascinando-se com a obra de Gaudí e visitando as construções na cidade de Barcelona, sem perceber que existe mais do que casualidade nos estranhos episódios que ocorrem à sua volta.

Quando os corpos seguintes começam a aparecer nos restantes edifícios de Gaudí, deixa de ser possível ignorar a relação. Os corpos reflectem alguma da arte dos edifícios e pensa-se que os crimes poderão estar relacionados com a degradação (ou alteração) de alguns dos edifícios e respectivos jardins construídos por Gaudí.

A narrativa é relativamente simples, mas coesa, seguindo os crimes e dando-nos algumas pistas sobre quem estará por detrás dos corpos que se vão encontrando. Sem ser uma história que dê especial relevância ao desenvolvimento de personagens (apesar de as diferentes personagens terem personalidades bem vincadas e perceptíveis) é uma boa história que capta o essencial da cidade e que aproveita o cenário para embelezar as páginas da banda desenhada.

El fantasma de Gaudí aproveita a obra fascinante de Gaudí para (dando uma estocada sobre o actual estado dos edifícios, conservados mas alterados e, talvez, corrompidos no seu enquadramento) tecer uma história que entretém o leitor e deixa uma boa recordação.

Resumo de leituras – Janeiro de 2018

01 – The complete Phonogram – Gillen, McKelvie, Wilson e Cowles – Este volume tem várias semelhanças com The Wicked + The Divine, contendo deuses e figuras com poderes que nascem num cenário urbano. Se no outro se trata do renascer cíclico dos deuses, aqui a fonte é a música, que influencia, adormece e alimenta os detentores dos poderes. Tal como a outra série, esta não faz muito o meu género, não gostando muito da aura decadente dos defeitos humanos inevitáveis que levam recorrentemente ao mesmo erro;

02 – O último reino – Bernard Cornwell – Há algum tempo que não lia nada do autor (ou outras obras de ficção histórica). Trata-se de uma série centrada num lorde inglês que, em criança, presencia a invasão dos Vikings. Mostrando-se lutador e destemido, é adoptado por estes e aprende uma série de técnicas de guerra que o irão ajudar posteriormente;

03 – Metabarons Genesis: Castaka – Alejandro Jodorowsky e Das Pastoras – No seu estilo implacável, eis mais um volume onde se explora a ascendência do Metabarão e a sua ligação com a tecnologia. Guerreiro honrado para quem as acções carregam um peso, o Metabarão tem um ascendente pirata que terá determinado a saído do planeta da sua linhagem;

04 – Mitologia Nórdica – Neil Gaiman – Curto conjunto de histórias mitológicas, onde Neil Gaiman parte dos mitos originais que tanto o fascinaram, para apresentar os Deuses nórdicos como personagens em episódios de valor moral questionável onde a demonstração de esperteza, com interpretações dúbias de pactos, são bastante comuns.

05 – Plutona – Jeff Lemire, Lenox, Bellaire – Com uma premissa que não é totalmente original e explorando a complexidade da adolescência, Plutona consegue apresentar personagens com dimensão própria com as quais é possível sentir empatia. A história vai explorando, ligeiramente, o contexto familiar de cada jovem e assim permitir dar-lhes peso e importância para além do estereotipo fácil;

06 – Fun Home – Alison Bechdel – Em Fun Home entra-se no quotidiano de uma família peculiar pelas recordações de criança da autora que, só com algumas revelações, percebeu o quão peculiar era a família (e a sua infância onde ocorreram viagens à Europa, onde os pais teriam vivido). Mais mais do que o quotidiano de uma família, durante o desenrolar das memórias a autora tenta eternamente estabelecer um contacto mais próximo com um pai, um suposto entendimento e reconciliar com o seu peculiar feitio, como forma de ultrapassar a sua morte.

 

 

Novidade: Torpedo 1936 – Sánchez Abulí e Jordir Bernet

Esta é a grande novidade da Levoir para o arranque de 2018 – o lançamento da série Torpedo 1936! A série será lançada em 5 volumes e capa dura e irá incluir, também, Torpedo 1972 a cores por Eduardo Risso. A série será lançada a partir de 1 de Fevereiro!

A série retrata Nova Iorque na altura da Grande Depressão, uma época violenta onde o crime organizado se expande e centra-se num assassino a soldo e no seu companheiro.

A espada do rei Afonso – Alice Vieira

Confesso que Alice Vieira não era das minhas autoras favoritas mas eis um livro que sempre me intrigou e sobre o qual ouvi falar maravilhas. Comparado à série juvenil Viagens no Tempo de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada (que muito apreciava), A espada do rei Afonso apresenta três irmãos que, sem saberem bem como, vão parar à cidade de Lisboa recém conquistada pelo, ainda não rei, Afonso.

Os seus modos, vestimentas e forma de falar rapidamente os denunciam como sendo estrangeiros, mas, depois de se certificar que não se tratam de espiões, o bobo da corte leva-os a assistir ao discurso do Rei. Tratando-se de crianças são acolhidos por um dos nobres mais importantes e tornam-se amigos da rapariga de que ele toma conta.

A história é inverosímil. Para além da viagem de teor fantástico, a aparente familiaridade com que se dirigem a todos e têm acesso a personalidades importantes como o futuro Rei D. Afonso Henriques torna a história pouco credível – algo que como adulta percebo – mas ainda assim com alguma piada pelo espírito pouco submisso dos três irmãos que apresentam características bastante diferentes e se dirigem a todos com aquele tom castiço de quem pouco teme.

O ponto alto estará na forma como estas personalidades pouco domáveis se envolvem com os restantes, que é aproveitada para entrelaçar factos importantes da História de Portugal, tornando-se assim numa forma fácil de fazer com que os leitores percepcionem alguns dos acontecimentos que levaram à fundação de Portugal – o aval do Papa que tarda em chegar para reconhecer D. Afonso Henriques como rei, os mouros que se vêm combatidos sem dó nem piedade usando-se como desculpa a diferente religião, ou as batalhas mais decisivas e os elementos que contribuíram para o seu desfecho.

Com vocabulário fácil e narrativa de leitura escorregadia, A Espada do Rei Afonso é uma narrativa divertida que sabe desenvolver uma boa dinâmica entre as personagens principais e utilizá-la para explorar factos históricos.

A Espada do Rei Afonso foi publicado pela Caminho.

O Último reino – Bernard Cornwell

Há algum tempo que não lia nada de Bernard Cornwell. Bem, pelas minhas contas, há 12 anos, pelo comentário que fiz no, agora menos movimentado, fórum Bad Books Don’t Exist. Na época li quase tudo o que tinha sido publicado do autor (menos a série Sharpe que não me pareceu tão interessante) e este, por ainda não estar lançada toda a série. Eis que retorno, no seguimento de me terem oferecido a trilogia pelo Natal.

O que encontrei foi mais ou menos o que me recordava. Bernard Cornwell consegue remeter-nos para a época, sem mostrar embelezamentos românticos (esqueçam a frequência de banhos e os bons odores, os cavaleiros daquela época eram essencialmente, feios, porcos e maus), com carnificinas frequentes e dando especial ênfase à componente estratégica, tanto bélica como política.

A personagem principal é um senhor, Uhtred, que, em criança, vê o pai ser morto num escudo contra os vikings. Guerreiros destemidos e provenientes de uma terra mais pobre, os vikings rapidamente conquistam território atrás de território, avançando com rapidez e impondo-se pelo medo. Uhtred é dos poucos que tenta fazer frente a um Chefe Viking que, vendo apenas uma criança com uma arma precária, percebe que o poderá tornar um guerreiro e adopta-o.

Pagãos, adoradores dos vários deuses que compõem a sua mitologia, num género de religião que impõe vários elementos de superstição, os Vikings sentem como fraqueza a religião cristã que atribui a culpa pelos bons momentos (seja o envolvimento com mulheres, sejam os banquetes repletos de iguarias e bebidas) e zombam principalmente dos seus padres, homens feitos que não pegam em armas e falam em milagres que ninguém vê.

Adoptado por um dos principais chefes Vikings mas pertencente à nobreza de Inglaterra, Uhtred encontra-se numa situação privilegiada, o que não escapa a alguns dos jovens que com ele crescem e se decidem a torná-lo inimigo. Felizmente Uhtred é amigo do filho do chefe, um rapaz de saúde fraca, que o acompanha em todos os momentos. Ao longo desta infância marcada pelos Vikings Uhtred forma-se um formidável guerreiro que vai estar dividido entre os dois lados desta violenta guerra.

Centrado numa única personagem que já sabe o desenlace desta parte da sua história e que, por vezes, dá palpites para o que se seguirá, expressando saudade e nostalgia, O Último Reino centra-se na perspectiva Viking, sem esquecer os acontecimentos saxões e a estratégia que montavam para repudiar a invasão. Pelo caminho alguns homens mudam constantemente de lado, tentando sobreviver e enriquecer, ao mesmo tempo que condenam familiares à morte para garantirem a herança pela sua descendência.

Movimentado e sem perspectivas românticas (excepto aquelas conferidas pela personagem em tom de nostalgia) O Último Reino é um relato em primeira pessoa que se preocupa em caracterizar ambos os lados e em analisar as estratégias tomadas por ambos os exércitos nas várias batalhas que apresenta.

A série foi adaptada para série televisiva com o mesmo título (O último reino) pela BBC. O último reino foi publicado em Portugal pela Saída de Emergência.

Outros livros do autor

Mitologia Nórdica – Neil Gaiman

Eis um conjunto de histórias que gostei mas, tratando-se de Neil Gaiman, do qual esperava mais. Neil Gaiman é famoso por conseguir dar personalidade própria às suas personagens e fazer-nos sentir empatia por elas. E ainda que tal aconteça nalgumas destas pequenas histórias, senti-as demasiado simples e lineares, vazias de detalhes que poderiam conferir um maior envolvimento do leitor.

Neste conjunto Neil Gaiman expõe os mitos principais que envolvem Odin, Thor ou Loki, desde o início da humanidade, passando pelo desenvolvimento do seu paraíso e terminando com as profecias do fim do mundo que fazem parte da mitologia nórdica.

Pelo caminho encontramos os enredos que caracterizam Loki como trapaceiro e manhoso, um Deus sempre envolvido em confusões em que, mesmo quando tem boas intenções, acaba por causar mais mal do que bem; ou Thor como um guerreiro forte que resolve quase tudo recorrendo ao seu martelo de cabo tão curto que só pode ser usado por uma das mãos, enquanto as mulheres são secundárias (mantendo as versões originais), utilizadas como moeda de troca para resolver alguma contenda ou utilizadas como forma de picardia entre os Deuses.

Para além dos Deuses existem outras espécies poderosas em magia e capacidades que se encontram noutros reinos. São quase todas vistas negativamente ou com normas (ou falta delas) que as fazem parecer primitivas e violentas. Mas enfim, na sua maioria os Deuses nórdicos não são muito melhores (ou quaisquer outros Deuses de outras mitologias). São frequentes as vinganças ou os planos para enganar elementos das outras espécies, consideradas moralmente inferiores.

Em suma, Mitologia Nórdica é um curto conjunto de histórias mitológicas, onde Neil Gaiman parte dos mitos originais que tanto o fascinaram, para apresentar os Deuses nórdicos como personagens em episódios de valor moral questionável onde a demonstração de esperteza, com interpretações dúbias de pactos, são bastante comuns.

Mitologia Nórdica foi publicado pela Editorial Presença.

Resumo de leituras Dezembro de 2017 (6)

São das últimas leituras de 2017 que não tive oportunidade de rever resumidamente (e por isso contêm a numeração de 2017 e a data de 2017 no título):

272 – Criminal – Volume 2 – Ed Brubaker e Sean Phillips – O segundo volume apresenta, tal como o primeiro, histórias de violência. Mas se no primeiro as personagens viviam na violência e se tentavam afastar resultando numa aproximação fatal, aqui são comuns os planos criminosos e maldosos;

273 – Low Vol.4 – Remender, Tocchini e McCaig – A série continua visualmente estimulante ainda que, em termos narrativos não traga grande novidade com posições semelhantes das personagens e perda de tempo em percursos que pouco parecem trazer ao enredo. Ou assim parece por enquanto;

274 – Supervisões – Philip E. Tetlock e Dan Gardner – Existem seres humanos que, em conjunto, conseguem fornecer previsões com graus de probabilidade bastante acertados e correctos. Tal como num sistema caótico muitas das previsões possuem demasiados factores para poderem ser certeiras mas, com dedicação e pesquisa este grupo de pessoas comuns, mas interessadas em conhecer e perceber alguns acontecimentos, consegue produzir previsões mais certeiras que algumas instituições estatais criadas exclusivamente para tal;

275 – Bidu: Juntos – Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho – Bidu é adoptado por um rapaz. Se Bidu está pouco habituado a estar em casa e a regras de convivência com humanos, o dono também não percebe como se deve fazer respeitar pelo cachorro. Os primeiros tempos são de adaptação de parte a parte e de falhas contínuas que terão de ser limadas;

276 – M is for Magic – Neil Gaiman – Conjunto de contos destinados a um público mais juvenil com temas diversos. Nem todos os contos satisfazem mas o facto de alguns serem excepcionais compensa e eleva a qualidade do conjunto para o muito bom;

277 – The Fade Out – Ed Brubaker e Sean Phillips – a dupla volta a entregar uma grande história negra, de ambiente pesado, mas que decorre desta vez nos grandes estúdios cinematográficos americanos. O ambiente é de corrupção e decadência, com alguns homens poderosos a aproveitarem-se sucessivamente da sua posição

 

 

Retrospectiva 2017 – O Rascunhos em Banda desenhada

Numa contagem desatenta percebo que ultrapassei o número de leituras de banda desenhada do ano passado, rondando quase as 200 leituras, algumas (poucas) em francês ou espanhol, mas sobretudo em inglês e português (este registo passou a ser feito no Goodreads). Considero que este foi um grande ano na publicação da banda desenhada em Portugal, com a colecção de Novela Gráfica publicada pela Levoir em parceria com o jornal Público, a lançar grandes obras que, de outra forma, dificilmente veriam a luz da edição portuguesa, e editoras nacionais a lançarem-se, pela primeira vez, na publicação de banda desenhada.

Banda desenhada portuguesa

 

 

 

 

 

 

 

A melhor leitura – O problema de separar em categorias e ter uma só para a banda desenhada portuguesa é ter de comparar obras bastante diferentes em tom e tema. Eis, portanto, as duas melhores leituras do ano em banda desenhada portuguesa : O Elixir da Eterna Juventude de Fernando Dordio e Osvaldo Medina e Comer Beber de Filipe Melo e Juan Cavia. O primeiro destaca-se pelo tom leve com que integra as músicas de Sérgio Godinho numa aventura divertida e o segundo pela qualidade do desenho e pelos temas, mais sérios, abordados nas duas histórias que compõem o volume que, apesar de curtas, conseguem transmitir o peso dos acontecimentos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas – De Rui Lacas, Ermida é uma história curta mas caricata que inspira um enorme simpatia graças à força das expressões e dos modos que as personagens apresentam. Por sua vez, Hanuram de Ricardo Venâncio é visualmente interessante, tanto pela qualidade do desenho como pela composição, centrando-se num guerreiro que ousou desafiar os deuses ao se proclamar invencível. Totalmente diferente dos anteriores, Ermal de Miguel Santos destaca-se pela criação de uma realidade pós-apocalíptica em que o ocidente foge para território africano, resultando em guerras onde as várias facções tentam explorar interesses diferentes. No final o principal defeito é tratar-se de uma história curta. Finalmente, em tom humorístico, Conversas com os putos de Álvaro apresenta vários episódios cómicos que decorreram enquanto dava explicações.

Banda desenhada de ficção científica

A melhor leitura – Valerian de Christin e Mézières – A série publicada pela Asa em parceria com o jornal Público trouxe um conjunto de aventuras com uma qualidade que não esperava. Referida, por diversas vezes, como tendo influenciado Star Wars (ou mais do que influenciado) possui uma grande diversidade de mundos e de espécies alienígenas que se tornam fascinantes pela coerência que possuem. A dupla de agentes, por sua vez, ora viagem no espaço, ora no tempo, e se, nas primeiras aventuras as histórias são simples e quase clichés, sente-se que, com o avançar dos volumes, a série melhora, utilizando as histórias anteriores como alicerces para as seguintes, e ganha uma dimensão avassaladora.

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas – Pela primeira vez de que me recordo tenho de reclassificar o género de uma série. Autumnlands, que começou por parecer uma série fantástica com elementos extraordinários, assume-se, no segundo volume, como ficção científica, utilizando espécies alienígenas tecnologicamente avançadas para justificar a origem do que se pensava ser magia. Espero que o terceiro volume revele um pouco mais desta dualidade. Por sua vez, Surrogates apresenta um mundo sombrio onde se inventaram corpos artificiais para os quais as pessoas se projectam e com os quais saem à rua, protegendo-se assim de potenciais acidentes e problemas de discriminação (já que o corpo pode não ter qualquer semelhança física com o seu dono). As vantagens são, no entanto, submersas pelas desvantagens, numa sociedade cada vez mais superficial. Outra das grandes descobertas não é uma novidade em termos editoriais, mas trata-se de A feira dos imortais de Bilal, autor do qual apenas conhecia os álbuns mais modernos e só com estes percebi porque tanta gente os repudia.

Banda desenhada de horror

A melhor leitura – Harrow County de Cullen Bunn e Tyler Crook – Depois de um excelente primeiro volume, o segundo mantém o tom negro, e percebemos que a menina com capacidades de bruxa, ao contrário do estereotipo se preocupa com a correcta utilização dos seus poderes, por forma a que exista um equilíbrio de forças. Esta preocupação será exacerbada pela entrada de uma nova personagem, uma irmã gémea que terá os meus poderes mas que não os usa de igual forma.

Banda desenhada fantástica

A melhor leitura – Monstress de Marjorie Liu e Sana TakedaMonstress fascinou pelo aspecto exótico e pela mitologia densa num mundo semelhante ao nosso, com tecnologia semi-medieval, onde existem seres semelhantes aos humanos com características de animais. Estes seres são caçados pelos humanos a mando de feiticeiras que com eles pretendem realizar experiências. Enquanto os supostos monstros são emocionalmente mais humanos do que os humanos e os deuses se escondem, simultaneamente dependentes e poderosos, temos uma espécie inteligente de gatos que se dedica a registar e a passar, de geração em geração, a história deste complexo mundo;

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas – A famosa série Sandman foi finalmente publicada em Portugal numa parceria entre a Levoir e o jornal Público. Ainda não li todos os volumes mas a série, melancólica, centra-se na figura eterna responsável pelos sonhos cruzando as histórias mitológicas de várias civilizações. O resultado é uma história abismal onde Neil Gaiman explora personagens e mitos de forma envolvente. O Rei Macaco, de Manara e Silverio Piso é uma obra visualmente impressionante, onde a figura divina de um macaco usa o seu carácter irrequieto como explorador e parte do paraíso com o intuito de se tornar imortal e assim poder usufruir eternamente do paraíso. Irónico? Bastante. São comuns os comentários políticos e religiosos, bem como as insinuações fálicas ou a observação do decadente comportamento humano. Finalmente, comecei a série East of West, uma série que cruza tecnologia e fantástico apresentando-nos a demanda dos cavaleiros do apocalipse. A Morte busca o filho que está a ser manipulado para provocar o fim da existência.

Banda desenhada histórica

A melhor leitura – Os trilhos do acaso de Paco Roca – Nesta obra publicada em dois volumes o autor explora a guerra civil espanhola numa perspectiva pouco habitual, seguindo um refugiado espanhol – um homem que se viu obrigado a deixar Espanha num barco e que mesmo assim foi sortudo, considerando que a maioria não foi capaz de embarcar. Este homem é, agora, um velhote que ninguém suspeita ter sido um herói de guerra, lutando na Segunda Guerra Mundial. O que é peculiar não é só a personagem, mas a forma como Paco Roca cria empatia e explora a história mais pelo lado humano do que pela terror da guerra.

Menções honrosas – Também Destino Adiado de Gibrat tem como palco a guerra mas, desta vez, centra-se num jovem que desertou e que, por sorte, foi dado como morto. A partir daqui consegue esconder-se na vila de origem, passando os dias sem poder ser visto, mas numa casa que lhe permite observar o quotidiano de todos.

Antologia

A melhor leituraSilêncio – Das várias antologias de contos de banda desenhada que li este ano a que mais me impressionou foi o segundo volume The Lisbon Studio com o título Silêncio. Neste volume reúne-se o trabalho de vários autores portugueses que pertencem ao mesmo estúdio e se organizaram para entregar histórias curtas centradas no mesmo tema. Este é o segundo volume da série em torno do estúdio, sendo que achei que o trabalho apresentado neste ainda conseguia ser de melhor qualidade do que no primeiro volume. Os temas são diversos bem como o estilo, entregando-se boas histórias curtas.

Menções honrosas – Flight Esta é, no mínimo, uma antologia de banda desenhada competente. Todas transmitem alguma narrativa, ainda que nalgumas se perceba que esse não é o foco (são poucas), e todas são visualmente agradáveis (no mínimo), bastantes com detalhes caricatos que transmitem simpatia ao leitor. Ainda que Flight não devesse ser um tema, mas apenas o título do volume, várias das histórias têm o voo como premissa.

Registo autobiográfico

 

A melhor leitura – Tempos Amargos de Étienne Schréder – O autor apresenta os seus piores momentos de degradação originados pelo vício do vinho. Sem conseguir terminar os estudos pretendidos, pai demasiado cedo e trabalhando numa prisão, Étienne Schréder afunda-se cada vez mais na bebedeira como possibilidade de fuga da vida que leva. Aqui expõe-se (mas tem cuidado em não expor os outros) e demonstra os anos de escuridão.

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas – Em Histórias do bairro o autor mostra a sua infância e, até, adolescência num bairro problemático de onde é difícil escapar. Cedo os habitantes se envolvem em actividades ilícitas que são tão comuns que quase são tomadas por normais. Mas é a capacidade de desenhar e de querer fazer algo com essa capacidade que lhe concede a porta de saída deste mundo. Em Os Ignorantes dois homens trocam paixões com o autor a mostrar a banda desenhada a um produtor de vinho, e o produtor de vinho a demonstrar as fases e segredos da sua profissão.

Outras

A melhor leitura – NonNonBa de Shigeru Mizuki – Um rapaz endiabrado mas de bom coração entrelaça o sobrenatural em todos os momentos da sua vida, fazendo com que criaturas diferentes sejam vistas como a causa para os eventos que os rodeiam. Este rapaz encontra-se no Japão rural, fazendo com que percepcionemos a pobreza deste ambiente, afastado das maravilhas da cidade. Para além deste retrato, que é um factor de peso para ter gostado tanto deste livro, outro elemento importante é o caricato das personagens que nos envolve e cativa, contrastando com os cenários detalhados, bem como a forma como transforma episódios quase banais em grandes aventuras sobrenaturais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas Daytripper foi uma excelente surpresa, explorando a vida como uma série de pequenas fugas a eventos terminais numa história inspiradora e envolvente. Já The Fade Out destacou-se pela temática, com a apresentação de um crime nos bastidores do cinema de Hollywood dos anos 40 num ambiente negro e decadente. Da mesma dupla criativa, Criminal segue a vida de uma série de pessoas que retornam, voluntaria ou involuntariamente a vida do crime. Southern Bastards retrata  o interior americano onde o equilíbrio de forças é controlado pelo maior criminoso local que mantém debaixo de olho até a polícia. Num tom totalmente diferente, Jardim de Inverno é um relato delicioso e expressivo que apresenta a existência cinzenta de um rapaz na cidade.

A Melhor leitura – Tony Chu de John Layman e Rob Guillory A série centra-se em poderes associados à comida e, partindo de Tony Chu, um agente enfezado que percepciona a vida de tudo aquilo que come, tem conseguido centrar-se noutras personagens e manter o interesse do leitor com elementos cada vez mais estranhos.

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas – É impossível não falar de série de banda desenhada e deixar de fora Saga. Ainda que, nos últimos volumes, sinta que faltam elementos inovadores e que a narrativa está “apenas” a colocar as personagens no local que deseja para poder desenrolar um final, continua a ser uma série interessante e mirabolante, com elementos leves e trágicos, uma piada às séries de ficção científica e fantasia mais conhecidas. Finalmente, estou na leitura da série Fables que tem altos e baixos. Os últimos volumes (13 e 14) que li destacam-se visualmente, com belíssimas composições (que merecia uma melhor qualidade do papel em que é impresso, mas essa é a mesma discussão de sempre em relação à banda desenhada da Vertigo).

Outras retrospectivas

A ficção especulativa em Portugal – 2017

2016 foi, comparativamente a 2017, um ano muito bom. 2017 conseguiu manter alguns dos eventos, mas esmoreceu nas visitas estrangeiras. Veremos o que vem com 2018.

O ano começou em grande, com os eventos de lançamento de Terrarium (de Luís Filipe Silva e João Barreiros), sessão de Sustos às sextas, Devoradores de Livros, Comunidade de Leitores Culturgest e filme de culto de Filipe Melo.

Depois da apresentação inicial da Comic Con (ainda em 2016) decorreu uma sessão na Leituria, integrada nos Devoradores de Livros, e uma na FNAC com a presença de Rui Zink. As sessões foram divertidas e bem humoradas com as usuais boas tiradas do Tio Barreiros que podem ser ouvidas na entrevista sobre o livro.

O evento Devoradores de Livros sofreu uma pausa em 2017 mas já tem sessão para Janeiro de 2018 agendada!

Por sua vez, os Sustos às Sextas de 2017 também garantiu momentos interessantes, com exposições, contos ou marionetas, tendo aberto, este ano, espaço para sugestões de leitura! Infelizmente o evento não retorna em 2018, mas esperemos que não seja o fim de um dos poucos eventos dedicados ao Terror em Portugal que não cai e se baseia apenas no Gore.

O ano começou, também, com a ida à Comunidade de Leitores Culturgest (entre dois mundos) a dia 12 de Janeiro para a sessão de Santuário de Andrew Michael Hurley, mas desgostei tanto da sessão que foi a primeira e a única.

Destas sessões de culto organizadas por Filipe Melo (que infelizmente já não se verificam em 2018) fizeram parte filmes como Dellamorte Dellamore ou Fearless Vampire Killers e vieram convidados como Greg Sestero (actor no filme The Room) ou Lloyd Kaufman (TROMA). Este foi um dos eventos que marcou o ano e que nos fazia antecipar a ida mensal ao cinema pelo excelente clima que se verificava na sala.

Também o evento Recordar os Esquecidos parou em 2017, tendo sido efectuadas 29 sessões com a moderação de João Morales. A última sessão teve como convidados alguns editores ao invés dos usuais escritores: Guilhermina Gones (Círculo de Leitores e Temas e Debates), João Rodrigues (Sextante editora), Maria Afonso (Antígona) e Hugo Xavier (E-Primatur). Ao longo destas sessões foram várias as indicações que me fizeram ler algumas obras pouco prováveis.

Na  biblioteca de São Lázaro decorreram dois lançamentos da Editorial Divergência, o primeiro do livro Lovesenda de António de Macedo onde tive oportunidade de falar um pouco sobre o livro, e o segundo da antologia Monstros que nos habitam, que reúne vários contos sobrenaturais de autores nacionais.

O Sci-fi LX deste ano teve várias sessões ligadas à literatura e voltou a explorar o pavilhão central do IST, tendo espaço para vários workshops interessantes, jogos e cinema. Continua a ser um evento em expansão, gratuito e acessível para todas as idades e esperemos que continue a crescer nos próximos anos.

Uma das grandes novidades deste ano veio com a antecipação do Fórum Fantástico no calendário que decorreu em Setembro, permitindo a exploração dos espaços ao ar livre da Biblioteca, com uma tenda para a venda de livros e espaços para a venda de produtos relacionados com a fantasia ou o Steampunk. De realçar, também, a presença de Mike e Linda Carey, dois autores de ficção científica e fantástico que também têm estado envolvidos na banda desenhada.

Outra das grandes novidades deste ano foi o Festival Bang, organizado pela Saída de Emergência que teve como principal convidada a Anne Bishop. Não tendo podido estar presente, deixo-vos o relato do Artur Coelho.

Entre eventos dedicados a Tolkien e a Arthur C. Clarke, decorreu ainda a Comic Con com convidados como Andrzej Sapkowski e Claire Nort (que gostaria que tivessem tido algum evento no Sul do país, mas infelizmente tal não se verificou).

Lançamentos

O Jorge  Candeias já antecipou esta componente,  mas destaco que tanto Comandante Serralves – Expansão como Crazy Equóides são lançamentos previstos para 2018 (nota que o próprio levanta, dizendo que a compilação são de alertas de lançamento e não de lançamentos efectivos).

De 2017 realçaria os seguintes (ordem alfabética):

  • A Estrada Subterrânea – Colson Whitehead
  • A Rapariga que Sabia Demais – M. R. Carey
  • A Revolta de Atlas – Ayn Rand
  • A Súbita Aparição de Hope Arden – Claire North
  • Almanaque Steampunk – vários autores
  • Anjos – Carlos Silva
  • As nuvens de Hamburgo – Pedro Cipriano
  • Autoridade – Jeff VanderMeer
  • Contos do Gin-Tonic e Outros Preparados Inéditos – Mário-Henrique Leiria
  • Lovesenda – António de Macedo
  • Mulheres Perigosas – org. George R. R. Martin e Gardner Dozois
  • Normal – Warren Ellis
  • O Espírito da Ficção Científica – Roberto Bolaño
  • O Homem Duplo – Philip K. Dick
  • Os Cavalos de Abdera e Mais Forças Estranhas – Leopoldo Lugones
  • Os monstros que nos habitam – vários autores
  • Os Pássaros no Fim do Mundo – Charlie Jane Anders
  • Os Três Estigmas de Palmer Eldritch – Philip K. Dick
  • Reino do Amanhã – J. G. Ballard
  • Relatório Minoritário e Outros Contos – Philip K. Dick
  • Terrarium – João Barreiros e Luís Filipe Silva

Resumos de outros anos

Agentes do C.A.O.S – Nova O.R.D.E.M – Fernando Dordio, Osvaldo Medina e Mário Freitas

Não tive oportunidade de ler o primeiro livro de C.A.O.S mas a história deste volume apanha-se bastante bem, sem necessidade de enquadramentos adicionais. Na Lisboa onde decorre a história ocorreu um grande atentado que marcou o quotidiano de todos os portugueses que se apercebem que estes grandes acontecimentos catastróficos afinal também acontecem em Portugal.

Em Nova O.R.D.E.M. um novo acontecimento terrorista está em curso e para o impedir é necessário convocar o talento bruto de um polícia retirado da acção exactamente pelos métodos old school que usa. Sem dó nem piedade dos mal feitores, Franco consegue dobrar os criminosos e extrair as informações de que necessita.

Utilizando ameaças actuais com tecnologia avançada, Nova O.R.D.E.M consegue trazer o sentimento dos policias carregados de acção onde o agir e o reagir são de extrema importância – sucedem-se os episódios com diálogos intensos que transparecem a emergência necessária.

Este volume entrega exactamente o que promete, ou seja, uma história movimentada com personagens típicas dos policiais e um plano criminoso que necessita de alguma investigação policial para ser percebido. Agentes do C.A.O.S Nova O.R.D.E.M. foi lançado em Portugal pela Kingpin Books.

Retrospectiva 2017 – O Rascunhos

2017 no Rascunhos

Quase 270 livros depois da última retrospectiva, eis a de 2017, em que consegui ultrapassar o número de leituras de 2016! Mantive a leitura de livros em outras línguas para além do português e do inglês e, não podendo estar numa CON internacional como no ano passado, tive oportunidade de falar sobre livros em mais eventos nacionais: Sustos às sextas, Sci-fi LX e o usual (mas nem por isso inferior) Fórum Fantástico.

Os valores globais de visualizações deste ano rondaram os do ano passado, 44 000, com alguns meses a exceder este valor e outros mais parados (resultado de compromissos profissionais). Tal como o ano passado verifica-se uma grande procura por informação dos livros do Plano Nacional de Leitura. Mas as entradas do ano de 2017 com maior número de visualizações são, por ordem crescente, Monstros que nos habituam (uma antologia de contos sobrenaturais de autoria portuguesa lançada pela Editorial Divergência), Crónica do Rei Pasmado (uma história irónica de uma corte hipócrita e imoral que tenta evitar que o rei veja a rainha nua), O Labirinto dos Espíritos de Carlos Ruíz Záfon (volume que finaliza a tetralogia O Cemitério dos livros esquecidos). Estes números de visualização excluem os volumes de banda desenhada que terão entrada própria.

As melhores leituras

Excluindo a banda desenhada, que será focada mais tarde, eis as melhores leituras de 2017:

Melhor colectânea – Relatório Minoritário e outros contos

Philip K. Dick gosta de brincar com a memória e com a nossa construção da realidade, sobrepondo diferentes visões, adicionando o efeito de substâncias duvidosas e fazendo-nos questionar o que achamos que existe à nossa volta. Esta fenomenal antologia não é excepção. Entre elementos programados que prosseguem sem a humanidade na concretização absurda do propósito para o qual foram construídos, encontramos adultos que se refugiam da realidade em casas de bonecas e pessoas capazes de perspectivar alguns futuros possíveis. Vários destes contos deram origem a filmes ou pequenas séries e o conjunto é sublime.

Melhor ficção curta – Kuszib de Hassan Abdulrazzak (Iraq +100)

Um dos melhores contos que li este ano (excluindo, claro, os do Philip K. Dick) encontra-se num local pouco provável, uma antologia de ficção científica iraquiana. Porquê pouco provável? Porque não é um país com tradição na ficção especulativa, onde o regime vigente não favorece o florescimento de especulações e previsões futuras. O próprio organizador da antologia começa por nos referir que a maioria dos autores não está habituado ao género e que terá aqui uma das suas primeiras explorações.

Este conto apresenta um planeta Terra governado por alienígenas. O casal que acompanhamos encontra-se num evento social, experimentando, pela primeira vez, uma determinada marca de vinho que tem, como característica peculiar, ser feito como antigamente, de uvas. Mas então, de que é feito o vinho que conhecem? De sangue. De seres humanos. Um conto extraordinário com reviravoltas viscerais.

Melhor ficção científica – Lágrimas na Chuva de Rosa Montero

Este ano parece centrar-se muito em Philip K. Dick – neste caso Lágrimas na chuva é um livro de uma autora espanhola com vários elementos de Blade Runner que nos apresenta uma rep, uma humana artificial, que se dedica à investigação de crimes. No mais recente caso que investiga ela próprio foi uma das potenciais vítimas e começa quando alguns reps aparecem com memórias deturpadas e tentam assassinar outras reps.

A história possui fortes referências à descriminação (e às suas origens sociais) ou à distinta justiça que é aplicada a ricos e a pobres: numa sociedade em que até o ar puro é pago e muitos humanos são obrigados a viver em zonas poluídas e marginais, expulsos por não serem capaz de pagar os elevados impostos de zonas melhores, a existência de reps bem sucedidos torna-se uma afronta e um bom bode expiatório para as desgraças pessoais.

Melhor não ficção – A Biblioteca à noite – Alberto Manguel

Quem bem me conhece sabe que livros sobre livros são das minhas leituras favoritas, uma paixão reconhecida tardiamente! Este, de Manguel é divinal, centrando-se nas bibliotecas desde tempos imemoriais para mostrar diversas formas de organização e de importância na sociedade. Cruzando diferenças culturais e históricas com a actualidade ocidental, realça o mistério da biblioteca à noite, obscura, carregando todas as possibilidades e todos os livros, os lidos e os não lidos.

Melhor fantasia – City of Blades de Robert Jackson Bennett

Depois de um extraordinário primeiro volume, este segundo não se encontra no mesmo nível mas, mesmo assim, é a melhor leitura de fantasia, considerando que não me dediquei muito ao género. Não me entendam mal – é uma excelente leitura, simplesmente fica aquém da expectativa criada em City of Stairs.

Com uma realidade que alterna os detalhes medievais com uma elevada cadência de descobertas tecnológicas, City of Blades apresenta uma mitologia completa mas não demasiado complexa que vai sendo apresentada sem sobrecarregar o leitor e episódios mais leves provocados por tiradas cómicas de personagens peculiares, constituindo um bom equilíbrio com as desgraças eminentes.

Melhor ficção científica nacional – Anjos de Carlos Silva

Esta não foi uma decisão fácil. Não por causa do livro indicado mas porque este ano li histórias excelentes de autores nacionais (mais, abaixo, nas menções honrosas). O elemento utilizado para o desempate foi o destaque da componente narrativa, elemento que muito prezo.

Partindo de um tema actual e adicionando vários elementos originais, Anjos possui diversas linhas narrativas que se combinam e divergem, resultando num romance de ficção científica carregado de acção e detalhes tecnológicos.

Melhor ficção histórica – Lovesenda de António de Macedo

Cineasta caído na obscuridade, professor, escritor competente mas pouco conhecido. António de Macedo era uma figura acarinhada do meio literário depois de ter deixado o cinema ao ser marginalizado e remetido ao esquecimento (talvez por não se enquadrar no que outros achavam que deveria ser o cinema português – podem ver o documentário Nos interstícios da realidade para mais informação).

Conhecedor tanto da história do fantástico português como da História Medieval portuguesa, escreveu este livro de frases sublimes que necessitam de uma atenta leitura onde o fantástico medieval se torna palpável aos nobres abrutalhados que não possuem o usual glamour romântico usualmente atribuído noutras obras. Infelizmente esta edição é limitada a 100 exemplares, fruto do  lançamento por uma pequena, mas esforçada editora nacional.

Menções honrosas:

 

 

 

 

 

 

 

Ficção científica – A súbita aparição de Hope Arden surpreendeu pelo conceito utilizando duas ideias entrelaçadas para concretizar um romance original, com uma personagem esquecível por todos e uma app que indica o caminho para a perfeição. Os três estigmas de Palmer Eldritch teria atingido o lugar de melhor ficção científica não fosse uma releitura. Por sua vez, Babel-17 foi outra das grandes leituras do ano ao se centrar nas possibilidades da linguagem para produzir uma guerra. E, claro, Normal de Warren Ellis com o seu abismo tecnológico, não pode ficar esquecido.

 

 

 

 

 

 

 

AntologiasNeutron Star de Larry Niven é um conjunto divertido carregado de estranhas mas interessantes espécies alienígenas e centrado num ser humano aventureiro que acaba por aceitar perigosas missões em troco de umas descargas de adrenalina e alguns trocos. Já Invisible Planets é uma antologia de contos de ficção científica chineses que possui alguns contos excepcionais e memoráveis!

 

 

 

 

 

 

 

Não ficçãoHistória natural da estupidez é memorável pelos exemplos de estupidez descritos. Que a humanidade tem uma capacidade incrível para realizar actos estúpidos já sabíamos mas a compilação apresenta casos sublimes! Por sua vez Desobediência Civil é um discurso genial de crítica à sociedade ocidental conseguindo, simultaneamente, ser subversivo e enaltecer a democracia.

 

 

 

 

 

 

 

Fantasia – Aliette de Bodard tem-se distinguido por apresentar ficção especulativa com elementos pouco ocidentais que conferem um ambiente exótico às suas histórias. Neste caso, The house of shattered wings é o primeiro livro de uma fantasia fantástica que apresenta uma cidade europeia após um apocalipse que fez colapsar a sociedade – existem seres mágicos, anjos caídos sem memórias, que constroem facções protegendo quem lhes interessa com motivos altruístas. As casas jogam um longo jogo de influências onde não é raro morrerem peões. Wintersmith é mais um livro de Discworld, destinado, neste caso a um público mais juvenil, com uma jovem mas cómica e decidida bruxa.

 

 

 

 

 

 

 

Ficção nacional – Em Diálogo das compensadas assistimos a uma paródia da nossa sociedade em que se opõe a adoração dos reality shows com uma vida mais pausada e dedicada à introspecção. As freiras constroem peças de computador que todos os fabricantes querem e cabe a um jovem director convencê-las a manter-se como cliente. Por sua vez, A Instalação do Medo é um episódio genial que deixa antever uma sociedade distópica onde os cidadãos são controlados – o próximo passo para esse controlo é a implementação do medo em todas as casas. Bastante diferente, em tom e tema, é As nuvens de Hamburgo uma história com elementos fantásticos onde o passado se materializa no presente (ou o presente no passado) mas sempre em torno de uma rapariga que desconhecia ter tais capacidades.

 

 

 

 

 

 

Ficção históricaO labirinto dos espíritos foi uma das primeiras leituras do ano e fechou a tetralogia passada na cidade de Barcelona. Apesar de ter gostado bastante deste volume peca por se alongar demasiado em episódios desnecessários, alguns que pretendem dar apenas uma noção de ambiente – elemento agradável mas que achei que era excessivo neste volume. Por sua vez, Crónica do Rei Pasmado é um retrato irónico que apresenta a hipocrisia da corte em que todos pecam, mas todos tentam evitar que o Rei veja nua a Rainha.

Perspectivas para o próximo ano

Aproximam-se mudanças. E novos projectos. Espero. Sem indicar prazos nem certezas, prevejo uma diversificação de formatos que ainda não sei em que moldes irá decorrer. E possivelmente passarei a ter espaço para jogos de tabuleiro e concertos.

Melhores leituras de anos anteriores


– 2016

2015

2014

2011

2010

2009

2008

2007

2006

Assim foi: Amadora BD

Tenho visto várias críticas negativas. E com razão. O programa é divulgado em cima da hora (com pontos incompletos) não permitindo organizar a(s) visita(s) e que livros levar para serem assinados, as exposições nem sempre estão disponíveis nos primeiros dias do evento, muitas são demasiado focadas no passado e pouco no que se faz actualmente.

Ainda assim, continuo a achar que é um evento que vale a pena, principalmente quando olho para o preço do bilhete. E têm existido algumas (pequenas) diferenças. O espaço para os autores assinarem já não é na garagem, escura e algo claustrofóbica, mas num espaço que coloca os autores num lugar mais aprazível para os leitores aguardarem a sua vez. A parte superior afasta-se mais do aspecto de ginásio ou de armazém com que me deparei nalguns anos e o espaço da garagem parece melhor aproveitado. O auditório tem uma disposição mais confortável e foi possível usufruir do evento mesmo estando de canadianas (com foi o meu caso este ano), algo que reparei não ser totalmente possível noutros anos. Só posso, claro, falar, comparando os anos em que fui e confesso que não puderam ser muitos.

Autógrafos

Posto isto, esta entrada resume duas visitas ao evento. A primeira no dia 04 em que cheguei a meio da tarde e me dediquei a explorar as exposições, e a segunda no dia 12 em que cheguei após o almoço e mais focada nos autógrafos que pretendia recolher. No dia 04 pude aproveitar apenas para assinar um livro de Marcello Quintanilha.

Já no dia 12, estranhei a pouca fila para John Layman, o autor de Tony Chu, que talvez se devesse à hora – a série é das minhas favoritas da Image e encontra-se actualmente a ser publicada em Portugal pela G Floy; e aproveitei para assinar alguns livros.

Já no caso de Grazia La Padula, cheguei mesmo em cima da hora em que se formou a fila para os autógrafos – felizmente! Porque tornou-se demasiado grande em pouco tempo. O peso excessivo dos livros para estes dois autores fez com que não tivesse conseguido, neste dia, pegar mais autógrafos.

O que gostei menos? Só soube da presença de alguns autores / eventos em cima da hora e o controlo do fim das filas ser descarregado em cima de quem já estava na fila “É o último – veja se mais ninguém se põe atrás de si”.

Exposições

Tendo só ido no segundo fim de semana, tive a possibilidade de ver todas as exposições já montadas (como já começa a ser usual, as exposições não estão todas disponíveis nos primeiros dias do evento). A área disponível no pavilhão principal tinha o inconveniente de ter cruzamentos estranhos com espelhos que dificultaram a navegação e perceber se já tinhas enveredado por aquele caminho antes.

Em Contar o Mundo – A reportagem em banda desenhada mostravam-se alguns eventos comparando a perspectiva jornalística e o respectivo retrato numa página de banda desenhada, seja na perspectiva de uma personagem, seja numa perspectiva mais neutra. Mostraram-se alguns trabalhos de banda desenhada que são peças não ficcionais e realistas, como biografias ou reportagens neste formato, mas também alguns trabalhos com componente ficcional onde se demonstram eventos reais.

Uma exposição interessante, mais coesa nalgumas partes que noutras, que realçava o papel da banda desenhada enquanto meio de transmissão, não só de histórias, mas de eventos reais.

Para além desta, destacaria, claro, as de Will Eisner e Jack Kirby, com Tormenta a destacar-se inesperadamente pelo efeito visual da sala (durante o tempo em que lá estive não houve visitante que não se tivesse fotografado com o boneco), e Revisão a reconhecer trabalhos antigos mas interessantes que assim voltam a estar disponíveis a novos leitores. A ala onde se destacam os autores portugueses com obra publicada no estrangeiro também era das mais interessantes (e das poucas com suporte audio visual para dar a conhecer algo mais dos autores).

 

Novidade: Europeana – uma breve história do século XX

Ainda que não me pareça englobar-se no tipo de livros que normalmente leio, eis um lançamento da Antígona que me parece interessante (mais que não seja porque o cúmulo da estupidez humana consegue ser sempre fascinante):

Saudado pela crítica como um passeio (im)pertinente e inconformista pelo século passado, Europeana (2001) tem por propósito dar-nos uma amostra da invariável estupidez humana ao longo de cem anos. Tempo de panaceias universais, de alianças entre a tecnologia e o mal e de histeria colectiva, o século xx de Europeana, à luz das estatísticas de um narrador frenético, converte-se num negro burlesco, numa grotesca enumeração de tirar o fôlego, em que coexistem a revolução bolchevique, barbies e a cientologia. No fim, fica a pergunta: terá este bárbaro século realmente terminado? Na senda de Bouvard e Pécuchet, de Flaubert, da falsa ingenuidade de Cândido, de Voltaire, e num estilo à Kurt Vonnegut, Europeana realça a vacuidade dos lugares-comuns e dos estereótipos e o autoritarismo dos discursos do saber, para melhor os combater.

 

 

Novos projectos literários em curso

Amanhãs que cantam

Este é o novo projecto da Imaginauta, em parceria com a Épica, que já nos trouxe obras como Comandante Serralves, uma obra de ficção científica portuguesa que ultrapassou todas as expectativas e nos presenteou com um conjunto coeso de histórias que decorre numa realidade alternativa interessante – o que tem de peculiar este conjunto? Está carregado de referências bem portuguesas!

Amanhãs que cantam, o novo projecto pretende agregar histórias que decorram numa realidade alternativa em que Portugal ficou sob um regime comunista desde 1968, ano em que Salazar caiu da cadeira. Neste projecto os contos não têm de ser concordantes e podem expressar a sua própria versão deste regime, podendo constituir histórias utópicas ou distópicas.

Interessados? Podem consultar o regulamento na página oficial da Imaginauta.

Concurso nacional de contos de ficção especulativa

Este concurso resulta numa parceria entre o Sc-fi LX, a Imaginauta e a Editorial Divergência e pretende premiar contos de ficção especulativa, ou seja, fantasia, ficção científica ou terror. O concurso tem, associado, um prémio e um acordo de exploração comercial. Para mais detalhes podem consultar a página da Imaginauta sobre o prémio.

 

Antologia de Space Opera “Na imensidão do Universo”

Trata-se de um projecto da Editorial Divergência, uma das poucas editoras portuguesas que tem vindo a apostar na publicação de ficção especulativa de autores nacionais, com obras como Lovesenda de António de Macedo ou Anjos de Carlos Silva, para além das inúmeras antologias.

Para mais detalhes podem consultar a página oficial com o regulamento e informação sobre o que é pretendido.

Antologia de Fantasia Rural “O resto é paisagem!”

Esta antologia resulta de uma parceria com Luís Filipe Silva, conhecido autor de ficção científica português que já organizou outros projectos e que tem representado Portugal nalguns eventos internacionais de ficção especulativa, como a Eurocon.

Para mais detalhes podem consultar a página oficial com o regulamento e informação sobre o que é pretendido.

Base de dados de ficção especulativa Portuguesa

Este projecto distingue-se dos anteriores por não se referir à organização de uma antologia ou por envolver a escrita de contos. Ou melhor. Já envolveu a escrita. Pretende-se criar uma antologia que seja representativa da produção nacional dentro da Ficção Científica, do Fantástico e do Horror.

Para tal criou-se uma base de dados de acesso livre com os contos portugueses já publicados, e criou-se um fórum para facilitar o debate sobre que contos devem ser escolhidos para tal antologia.

Deixo-vos as ligações para cada uma das componentes