Resumo de Leituras: Fevereiro de 2018 (2)

13 – Y: O Último Homem – Vol. 7 – Bonecas de Papel – Yorick chega finalmente à Austrália e descobre pistas da sua namorada – mas esta há muito que deixou o continente e foi para Paris. Paralelamente, uma jornalista tenta divulgar a existência de Yorick e não olha a fins para o fazer;

14 – Injection – Vol.3 – Ellis, Shalvey e Bellaire – Um local histórico torna-se o cenário de um horrendo crime revelando-se, também, um local de grandes forças sobrenaturais. Se, no volume anterior, se tinha investido na lógica para perceber a IA, neste volume seguem-se caminhos menos óbvios mas mais macabros;

15 – Jessica Jones – Vol.1 – Sem Limites – Bendis, Gaydos e Hollingsworth – A heroína sai da prisão e é envolvida por uma organização que pretende acabar com os super heróis – precisando, para tal, de Jessica para conhecer os seus segredos;

16 – Y: O Último Homem – Vol. 8 – Dragões de Kimono – Neste oitavo volume a busca pelo macaco capuchinho de Yorick leva-os ao Japão, onde encontram uma máfia conduzida por uma cantora pop americana!

Resumo de Leituras: Fevereiro de 2018 (1)

 

9 – Ms. Marvel – Vol. 2 – G. Wollow Vwilson e Adrian Alphona – Neste segundo volume de Ms. Marvel a heroína continua a distinguir-se pela sua diferente ascendência e pelas batalhas que escolhe, reparando no desaparecimento de elementos da sociedade que ninguém se preocupa em investigar. Com elementos divertidos e leves, é uma banda desenhada interessante, com alguma acção;

10 – Circe – Madeline Miller – A autora pega em Circe e romantiza a vida desta divindade, tornando-a numa personagem com dimensão, em que os elementos que a caracterizam são justificados, dando noção de coerência entre os vários mitos em que aparece;

11 – Injection Vol.2 – Warren Ellis, Sharlvey e Bellaire – O segundo volume centra-se na investigação de duas mortes para apresentar uma outra perspectiva sobre a peculiar Inteligência Artificial que tem uma forma própria de aprender e de manipular os seres humanos. A história possui detalhes grotescos (como seria de esperar de Warren Ellis), de horror fantástico e de ficção científica, numa mistura inquietante;

12 – Os crimes dos viúvos negros – Isaac Asimov – O famoso autor de ficção científica escreveu, também, algumas histórias no género de crime. Neste volume reúnem-se aquelas que decorrem com os Viúvos Negros, um clube de homens que não permite, nos seus serões, mulheres. Cada membro vai organizando um serão diferente, podendo convidar alguém que possa suscitar interesse – mas ao longo dos serões aqui relatados os convidados apresentam crimes para os quais não tinham solução, mas que o empregado de mesa do clube resolve com astúcia e humildade após o questionamento dos membros do clube.

Novidade: O Mel do Leão – David Grossman

A Elsinore publica novo volume da colecção Mitos! Esta colecção surgiu por sugestão do dono da editora Canongate que dirigiu um desafio a vários escritores contemporâneos para que escrevessem mitos antigos dando-lhes características actuais. Neste seguimento Margaret Atwood construiu o The Penelopiad, e Victor Pelevin O Elmo do Horror, mas a colecção atingiu os 18 volumes e O Mel do Leão é um destes.

«Há poucas outras histórias na Bíblia com tanto drama e ação, tanto fogo de artifício narrativo e emoção pura, como os que encontramos no conto de Sansão: a batalha com o leão; as trezentas raposas a arder; as mulheres com quem dormiu, e a única que amou; a traição por parte de todas as mulheres da sua vida, desde a sua mãe Dalila; e, no final, o seu suicídio homicida, quando fez desabar a casa sobre si próprio e três mil filisteus. Contudo, para além da fera impulsividade, do caos e do barulho, podemos entrever uma história de vida que é, no fundo, a viagem atormentada de uma alma isolada, solitária e turbulenta, que nunca encontrou, em lado algum, um verdadeiro lar no mundo, cujo corpo era ele próprio um duro lugar de exílio.»

Em O Mel do Leão, David Grossman escolhe um dos mais vivos e controversos personagens da Bíblia. Ao revisitar a famosa luta de Sansão com o Leão, as suas muitas mulheres e a traição de todas elas – incluindo a única que ele amou – Grossman dá-nos uma provocatória visão da história e do seu clímax, a última ação mortal de Sansão quando faz ruir um templo sobre ele próprio e milhares de filisteus.

Numa prosa extremamente lúcida, Grossman revela-nos a vida de uma alma só e torturada, que nunca encontrou uma verdadeira casa no mundo, que nunca se sentiu bem no seu corpo e que, poderão dizer alguns, foi o percursor dos modernos bombistas suicidas.

Uma viagem fascinante e controversa pela história e psicologia de uma das personagens mais significativas da Bíblia, que lança um novo olhar sobre o passado, projetando-o no mundo de hoje.

Humanus – Vários autores

Humanus é uma antologia de banda desenhada publicada pela Escorpião Azul que possui tanta diversidade nas suas histórias quantos os livros publicados pela editora, resultando de um convite a todos os seus autores (e mais alguns) para construirem novas e curtas histórias.

O volume abre com uma belíssima história de Rui Lacas que apresenta o confronto de criaturas antigas com a humanidade, passando para uma história de fantasia e ficção científica de Miguel Santos (conhecido por Ermal). A partir daqui vamos lendo todo o género de histórias em todo o género de estilos – futuristas como João Monteiro, distópicas como João Vasconcelos, cómicas como Álvaro ou Derradé, poéticas como a da dupla de Inês Garcia e Tiago Cruz.

Com 270 páginas e mais de 30 histórias, Humanus apresenta histórias de todos os géneros, podendo ser um óptima forma de introduzir os autores que tem em catálogo ou de os rever, para quem já os conhece. O resultado é um excelente conjunto de pequenas curtas de banda desenhada de autores que publicam no mercado português!

As melhores leituras de 2018 – Banda desenhada

À semelhança do que fiz com as restantes leituras de 2018, eis uma listagem dos melhores livros de banda desenhada que tive oportunidade de ler este ano! Entre os 220 livros que li em 2018 entre 2/3 e 3/4 é de banda desenhada, pelo que muitos livros excelentes terão de ficar de fora! Irei começar com as melhores leituras nacionais!

Obras portuguesas

Melhor banda desenhada de ficção científica

 

 

 

 

 

 

 

A escolha de um destes estava tão difícil que optei por seleccionar ambos. Ambos são bastante irónicos na forma como abordam as transformações em curso na nossa sociedade. No caso de Futuroscópio de Miguel Montenegro encontramos vários contos que abordam aspectos diferentes, exagerados, levados ao extremo, numa caricatura aos movimentos sociais. O futuro não é risonho, apesar de haver uma aparente felicidade dos cidadãos (da ignorância vem a felicidade) – é um beco sem saída sem evolução, uma regressão da humanidade que deixa, como legado, a tecnologia avançada, mas que não poderia ser criada pelos humanos que com ela coexistem.

Já em Watchers de Luís Louro seguimos, numa realidade futura, um grupo de jovens denominados watchers que usam a tecnologia para criar canais que expõem o mundo que os rodeia. Sem filtros, sem análises nem contextos, as filmagens são divulgadas para todos os que as quiserem ver. Começando com episódios fofinhos e caricatos, a busca de mais seguidores e de mais reacções nas redes sociais depressa leva a que sejam filmadas situações mais inusitadas, ridículas, perigosas e violentas. Até onde se vai pela busca de seguidores?

Comentário mais detalhado:

Futuroscópio – Miguel Montenegro;

Watchers – Luís Louro. 

Melhor banda desenhada de fantasia – Zahna – Joana Afonso

Zahna possui o estilo característico de Joana Afonso, um estilo que se destaca na transmissão de emoções e sentimentos e que conferem traços de caricatura às suas personagens. A protagonista é uma mulher guerreira, rabugenta mas leal às suas responsabilidades, que se vê literalmente com uma maldição sob a cabeça! Leitura divertida, Zahna deturpa ligeiramente os clichés da fantasia para apresentar uma história engraçada.

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Melhor banda desenhada cómica – Conversas com os putos e os pais deles – Álvaro

À semelhança do volume anterior, Álvaro reúne neste Conversas com os putos e com os pais deles, uma série de conversas com os seus alunos e os respectivos pais. Se as conversas com os jovens se encontram entre o absurdo e o quase impossível de tao idiotas, as conversas com os seus pais ainda são piores.

Comentário mais detalhado.

Melhor narrativa de ficção – Olimpo Tropical – André Diniz e Laudo Ferreira

Quem é o vilão? O traficante ou a polícia corrupta? Em Olimpo Tropical retrata-se a realidade da favela onde os estudos são largados cedo por falta de sucesso, a favor das ocupações de mais fácil dinheiro, quase sempre relacionadas com o tráfego de droga e a criminalidade. Quem manda é quem se mostra mais destemido, quase louco, na sua capacidade de se fazer temer pelos outros. Visualmente expressivo, exagerado em expressões e traços físicos, Olimpo Tropical é um trabalho excelente que é capaz de cativar o leitor, fazendo-nos perceber a realidade inevitável das favelas que engole os seus moradores num ciclo interminável – quem tenta arranjar um emprego fora da favela é descriminado ou ganha tão pouco que se torna impossível sustentar uma família.

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Obras de autores estrangeiros

Melhor banda desenhada de super-herói – Ms. Marvel – G. Willow Wilson e Adrian Alphona

Ms. Marvel não é uma heroína comum – muçulmana, distingue-se fisicamente do aspecto tradicional das heroínas enquanto altas e louras; e culturalmente pelas suas origens pouco ocidentais. O resultado é uma heroína que se preocupa com os comuns cidadãos e que apresenta conflitos pessoais diferentes do que é habitual. Este volume apresenta como surgiu Ms.Marvel, dando grande foco à componente pessoal, ainda que não faltem os característicos episódios de acção.

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Menção honrosa – Michael Chabon’s The Escapists

No seguimento de uma tradição ficcional de livros sobre livros que não existem, a história centra-se num rapaz fascinado pelos livros de banda desenhada do falecido pai. Estes livros de banda desenhada centravam-se num herói há muito esquecido que o jovem tenta recuperar. Para tal compra os direitos do super-herói e tenta montar uma pequena gráfica para produzir novas aventuras!

A história vai intercalando episódios da vida deste rapaz, com episódios da velha banda desenhada e episódios da nova. São três histórias que ecoam umas nas outras, enquanto a ficção se imiscui na realidade, e a realidade se traduz numa nova ficção, sendo que o próprio autor entra neste jogo e constrói uma excelente homenagem ao livro de Michael Chabon.

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Menção honrosa – Batman – O príncipe das trevas – Marini

O príncipe encantado das trevas alterna o foco entre dois casais peculiares – o de Batman com a Catwoman, e o de Joker com Harley Quinn, mostrando dois relacionamentos disfuncionais, cada um da sua forma. Lançado em dois volumes de formato maior do que é habitual, esta história destaca-se pelo belíssimo aspecto gráfico, em que Marini é narrador e desenhador. A linha narrativa tem vários pontos previsíveis com vários clichés, mas a leitura consegue captar o leitor e dar-nos a sensação final de termos assistido a um filme.

Comentário mais detalhado.

Melhor adaptação – Afirma Pereira – Pierre-Henry Gomont

Afirma Pereira é o despertar da consciência política de um homem que, até então tinha vivido demasiado voltado para si mesmo e preso no passado. Neste acordar, quase forçado por novas empatias, não se consegue remediar totalmente pela anterior apatia, mas tenta, enfrentando as consequências. Depois de anos preso às memórias de um passado distante, Pereira começa a reconhecer as pequenas notas políticas no que o rodeia, tanto no jornal, como nas ruas em que dantes passava como inocente. Reconhece, também, que o enfrentar desta situação tem um custo elevado.

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Menção honrosa – O jogador de xadrez – David Sala

O tema da história é simples e roda em torno de um jogador de xadrez. Mas se esperamos que a história se centre no maior jogador de xadrez, um imbatível mas inculto jovem que vence qualquer jogo, somos rapidamente desenganados. No barco em que viaja encontram-se vários homens curiosos pela presença do campeão, não sendo, assim, de estranhar, que organizem um jogo de xadrez em que todos, em conjunto, enfrentam o campeão.

Após as primeiras jogadas, destaca-se, entre o grupo de amadores, um homem cujo intelecto parece competir com o do campeão, referindo jogadas que deixam o campeão surpreso. Este homem misterioso não só esconde um enorme talento no xadrez, como um passado pesado que liga a prática xadrez a eventos psicologicamente marcantes. Utilizando elementos artísticos de pintores famosos do fim do século XIX ou início do XX (que a sinopse da editora identifica como Klimt ou Schiele) a história é tudo menos linear ou, até, aborrecida. A tensão que se cria ao longo do jogo de xadrez transporta o jogo para outra dimensão e o foco deixa de estar nas jogadas, confrontando-se a curta história do campeão, com a traumática história de um anónimo que se lhe iguala.

Comentário mais detalhado.

Melhor banda desenhada história – O Comboio dos órfãos – Vol.2 – Philippe Charlot e Xavier Fourquemin

Esta série centra-se nas crianças que foram deslocadas das grandes cidades para serem adoptadas ao longo dos Estados Unidos, nos anos 20. Mas nem todos os que recebem estas crianças têm boas intenções, e algumas crianças são usadas como trabalhadores, ou são levadas a casar prematuramente. Para além do bom aspecto visual, a série destaca-se por conseguir apresentar uma situação trágica mas, ao mesmo tempo, dar-lhe pequenos detalhes cómicos entre os diálogos infantis. Esta mistura resulta numa excelente leitura – uma das favoritas de 2019.

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Menção honrosa – Marcha para a morte – Shigeru Mizuki

Marcha para a Morte é um livro sobre a Guerra. Mas acima de tudo, um livro que nos mostra o quão absurda é a guerra, desperdiçando a vida dos soldados por estratégias mal definidas, levando adolescentes imberbes a enfrentar outros imberbes adolescentes, uma constante falta de consideração pela vida – e para quê? Aproveitando a sua própria experiência na guerra, Mizuki traça um retrato crítico, de elevada tensão, onde os momentos trágicos são acompanhados por tiradas de humor negro que dão nova perspectiva aos acontecimentos.

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Melhor banda desenhada de ficção científica – Descender – Jeff Lemire e Dustin Nguyen

Existem várias séries de ficção científica e fantasia em curso, publicadas principalmente pela Image mas Descender continua a ser, para mim, uma das melhores. Por um lado, a temática corresponde ao meu género favorito (a ficção científica) mostrando um Rise of the machines num futuro distante. Por outro, a história consegue a proeza de mostrar várias linhas narrativas que se vão cruzando e dando diferentes pontos de vista aos acontecimentos. Por último, o estilo gráfico de Dustin Nguyen adequa-se totalmente à história e torna as páginas fascinantes.

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Menção honrosa – Imperatriz – Vol.1 – Mark Millar e Stuart Immonen

Visualmente fabuloso, este Imperatriz parecia, nas primeiras páginas, trazer uma história quase cliché, com a mulher de um homem poderoso mas violento, a fugir pela galáxia com os filhos. Toda a história nos leva a pensar numa determinada situação passada que não se verifica acabando por nos surpeender. Do ponto de vista gráfico, os autores aproveitam a possível diversidade de planetas para contrastar cidades sobrepopuladas e futuristas com desertos gelados e desolados. O resultado é movimentado e visualmente fabuloso!

Comentário mais detalhado.

Menção honrosa – Ciudad – Giménez e Barreiro

Com algumas semelhanças a Parque Chas, Ciudad centra-se numa cidade sem tempo, uma espécie de buraco negro onde vão parar habittantes de todos os tempos e lugares – imensa e diversa, uma cidade sem fim nem saída. A cidade não é contínua, nem no espaço, nem no tempo, e a dupla de exploradores experimenta o passado e o futuro, ambos traumatizantes, não percebendo as diferenças na duração da noite e do dia entre as diferentes partes da cidade. Cruzando outras ficções com esta narrativa (não só pela apresentação de monstros, como pelo surgir da figura Eternauta, e por referências indirectas a outras obras) Ciudad funde vários elementos para se transformar numa longa e rica viagem.

Comentário mais detalhado.

Melhor narrativa ficcional – Essex county – Jeff Lemire

Este volume reúne três histórias diferentes que se interligam e que decorrem em Essex County  – o ambiente é frio e inóspito, e os relacionamentos humanos mostram-se difíceis. A razão de tal dificuldade deriva de uma série de segredos familiares e desgraças passadas que o autor vai desenvolver em várias linhas narrativas. As personagens ultrapassam a ficção e passam a ser pessoas com passado e densidades – pessoas que se encontram e desencontram tal como o leitor.

Comentário mais detalhado.

Menção honrosa – O cão que guarda as estrelas – Takashi Murakami

Neste pequeno livro aproveita-se a figura do animal de estimação, neste caso um cão, como forma de explorar a complexidade dos relacionamentos (e a sua evolução). O cão oferece uma visão simples, mas através dele vamos interpretando os sinais de algo diferente, como o afastamento do casal, em que, ao invés de apoio mútuo, encontramos sacrifício e apoio de uma das partes, mas, da outra, egoísmo e quebra completa. O animal de estimação acaba por se tornar o único ponto de consolo e de amizade, o único relacionamento que se mantém, e que serve de consolo para o homem que se vê fora da própria casa e da própria vida.

Com uma pequena aura de tragicidade (já conhecemos o final da dupla desde o início) e passando o sentimento de destino que se irá cumprir, a história coloca-nos a tentar perceber o percurso das duas personagens. O animal fornece uma perspectiva interessante, com elementos que ele não compreende, mas que o leitor percebe.

Comentário mais detalhado

As melhores leituras de outros anos

Resumos / melhores de 2018

Retrospectiva 2018 – O Rascunhos

2018 no Rascunhos

Ultrapassando as 82 000 visualizações, este ano trouxe grandes novidades. Algumas programadas, outras inesperadas ainda que, por vários motivos pessoais, o número de leituras e de artigos tenha sido menor do que em 2017 (no caso dos livros lidos, foram 220 contra os 270 do ano anterior). Se tenho por objectivo a médio prazo aumentar a leitura noutros idiomas que não o inglês ou o português, ainda não foi este ano que o consegui.

Tal como tem sido habitual nota-se uma grande procura pelas obras que estão no Plano Nacional de Leitura mas eis um destaque para as entradas de 2018 para tiveram maior número de visualizações: A maldição de Hill House de Shirley Jackson, O Corpo dela e Outras Partes de Carmen Maria Machado, e Borne de Jeff Vandermeer. Na banda desenhada, O Ateneu de Marcello Quintanilha,  Beowulf de Santiago Garcia e David Rubín. e The Fade Out de Ed Brubaker e Sean Phillips foram os mais vistos. De destacar, também, Comer / Beber de Filipe Melo e Juan Cavia, entrada que foi publicada no final de 2017 mas que atingiu o topo de visualizações em 2018.

Este ano o Rascunhos cresceu em diversas direcções:

– Programa na Voz Online (rádio);

– Participação em eventos nacionais;

– Jogos de Tabuleiro.

O programa na Rádio Voz Online contou com 23 episódios, (também disponíveis na Mixcloud) onde aconselhei leituras e jogos de tabuleiro, ou onde entrevistei autores, editores e organizadores de eventos, centrando-me sobretudo na banda desenhada e na ficção científica.

As participações em eventos aumentaram este ano. A participação no Fórum Fantástico para as Leituras do Ano repetiu-se e ainda estive numa mesa sobre Podcasts literários. No Festival Bang! estive com a Inês Botelho a falar sobre o papel da mulher no fantástico e no Sci-fi LX falei de naves na ficção científica portuguesa e de robots literários com João Barreiros. No Literal (em Alenquer) falámos do futuro da ficção científica em Portugal. Na área da banda desenhada estive à conversa com Daniel Henriques na Comic Con e apresentei o Rascunhos na Tertúlia BD de Lisboa.

Para além de participar novamente como júri no concurso de mini conto da Saída de Emergência com a FNAC, participei no júri para os Galardões Comic Con. Este ano viu ainda a publicação de Quem chama pelo senhor Aventura?, o livro escolhido para a primeira edição do prémio Divergência (no qual participei no júri).

Conforme previsto o ano passado, concretizou-se o espaço para jogos de tabuleiro (com uma rubrica mais ou menos quinzenal, aos Sábados, onde falo de jogos e de experiências envolvendo jogos) e estabeleceram-se parcerias nessa área.

Perspectivas para o próximo ano

O ano passado previa começar a falar de música, mas ainda não se concretizou um espaço para esta componente. Espero começar, lentamente, a apresentar algo nesta secção. Em termos de programa de rádio já tenho alguns convidados previstos pelo que espero recomeçar logo em Janeiro.

E para o ano? Bem, participei na edição de uma antologia de Space Opera portuguesa, a sair em 2019 pela Editorial Divergência (tenho a dizer que fiquei muito surpreendida com a qualidade das participações) e tenho planos para lançar um novo projecto no primeiro trimestre.

O Comboio dos Órfãos – Ciclo II – Philippe Charlot e Xavier Fourquemin

Há dois anos tive a oportunidade de comentar o primeiro tomo de O Comboio dos Órfãos, que adorei. Trata-se de uma série francobelga lançada pela Arcádia que retrata a vida das crianças abandonadas nas grandes cidades americanas nos anos 20. Estas crianças eram levadas para o interior do território americano onde lhes arranjavam famílias de acolhimento. Mas se algumas famílias tratam estas crianças como membros das suas famílias, noutras são uma espécie de escravos, habitantes de segunda categoria sem condições nem possibilidades de educação.

No primeiro volume (que, tal como este, reúne duas histórias) conhecemos a história de dois rapazes cujo destino foi trocado, sendo que um deles, com esta troca, perde a irmã. Os irmãos, ainda que não sejam órfãos, são abandonados pelo pai que não tem condições para os educar. Apesar da situação trágica em que se encontram as crianças, os episódios são envoltos em pequenos detalhes cómicos e apresentam pequenos diálogos quase inocentes que refletem a visão infantil, menos prática, mas mais pura dos acontecimentos. A dura realidade percebe-a o leitor que sabe algo do destino que os espera.

Neste volume conhecemos, mais detalhadamente, a história de Lisa e de Joey – Lisa, uma rapariga de quinze anos, que percebe muito bem a distribuição dos rapazes e que ajuda a cuidar deles. Não espera é ela, também, ser adoptada, mas não com o intuito de fazer dela uma filha, antes uma noiva – o “dono” de uma cidade mineira quer casar e celebra o futuro casamento na taberna local. Por sua vez, Joey foi adoptado por uma família mexicana que o trata bem, mas vê-se arrancado dessa família pelo desejo de um bêbado em ter alguém que trabalhe para ele – o motivo para que os interesses do bêbado possam ser sobrepostos aos da família mexicana? Ser branco.

Ambos se encontram na taberna onde se celebra o noivado e decidem fugir para Nova Iorque em busca do irmão de Joey. Mas como podem viajar sem dinheiro? Ajudados por alguns que pouco têm, ludibriando a entrada em comboios e pedindo esmolas, conseguem encontrar o homem que distribuiu as crianças e que deveria saber qual o destino que deu a cada um. Na realidade a investigação vai-se tornar mais difícil e carregada de imprevistos.

Oscilando entre as perspectivas de várias personagens e as duas linhas temporais (aquela em que decorre a distribuição de crianças, e uma mais actual em que as crianças se transformaram em idosos), O Comboio dos órfãos é uma série carregada de sentimentos contraditórios. Por um lado, as personagens são retratadas com pequenos exageros, tornando-as caricatas e de fácil empatia, por outro, a situação em que se encontram é psicologicamente pesada. A combinação das duas componentes torna a história sublime e não é por acaso que, após a leitura do primeiro volume em português, adquiri a restante série em francês, voltando agora ao português com este segundo volume duplo (os volumes da edição francesa possuem apenas uma história cada um).

A série é publicada em Portugal pela Arcádia.

Outros volumes da série

Almanaque – Curtas de BD – André Oliveira e Vários Artistas

Almanaque, a mais recente aposta da Bicho Carpinteiro, reúne várias histórias criadas por André Oliveira na qualidade de narrador, e por vários desenhadores. Algumas destas histórias foram criadas para a Cais, publicação para a qual André Oliveira produziu regularmente durante algum tempo, e outras são inéditas.

Tendo sido criadas em alturas diferentes com objectivos distintos, as histórias oscilam em temas e tons criando uma amostra bastante diversa das possibilidades narrativas compostas por André Oliveira. O volume abre com a arte de André Diniz, e passa à de Rui Lacas (ambas facilmente reconhecíveis em estilo), seguindo-se uma reformulação moderna de Volta ao Mundo em 80 dias (com desenhos de Phermad).

Entre as histórias encontramos narrativas de ficção científica (com uma invasão alienígena que critica a paixão dos humanos pelos desportos, ou com um primeiro contacto embaraçoso), narrativas cómicas (onde se retratam as impossibilidades de execução de várias tarefas por um T-Rex ou um dentes de sabre, por exemplo) e de fantasia (com velhos e novos deuses).

Não faltam os temas mais mundanos, como a diversidade da vizinhança, a fanfarronice ou a velhice. Existe espaço para a morte e para a saudade, para a confidência e para a família. Explora-se a cidade e o campo. O passado e o futuro. Cruzam-se conceitos e ideias, ironiza-se em tiradas imaginativas, recolhe-se o pensamento em perspectivas mais íntimas.

Tudo isto, em pouco mais de 60 páginas, muito bem aproveitadas, em que André Oliveira explora vários tons e temas, acompanhado por diversos artistas que ajudam a conferir, a cada história, uma aura muito própria. Tal como estados de espírito, estas histórias oscilam e fazem oscilar humores, aconselhando-se, por isso, que a sua leitura se faça aos solavancos. Uma história de cada vez.

Entrevista com André Oliveira

Outras obras do autor

Rascunhos na Voz Online – Sugestões

Esta semana recomendo livros, banda desenhada, eventos e jogos de tabuleiro! De realçar, claro, a presença de Mike Carey em Portugal no Mensageiros das Estrelas, evento que está a decorrer na Faculdade de Letras na Universidade de Lisboa (evento gratuito). Desejo que estas recomendações vos tragam bons momentos de lazer!

Marcha para a Morte – Shigeru Mizuki

Marcha para a Morte é  bastante diferente de outro livro do autor, Nonnonba – mas ambos possuem elementos verídicos e biográficos. Se, em Nonnonba, o autor se remete à infância numa zona rural japonesa onde as criaturas sobrenaturais fazem parte do quotidiano, conferindo uma aura de fantástico a tudo o que rodeia as personagens, em Marcha para a Morte acompanhamos uma companhia de infantaria na Segunda Guerra Mundial, uma companhia da qual o autor fez parte.

Misturando elementos históricos com ficcionais (a parte final da história afasta-se dos verdadeiros acontecimentos) Marcha para a Morte consegue o feito de intercalar mortes com episódios cómicos pelo seu absurdo – os soldados são tratados como carne para canhão, elementos sem grande valor, e as decisões militares reflectem esta perspectiva.

Na prática é esta falta de consideração pela vida do outro que acaba por fazer com que más decisões militares sejam tomadas, levando os soldados para a carnificina sem que existam sérias razões estratégicas e colocando a vontade de morrer com honra de um graduado como elemento principal de decisão.

Apesar do ambiente claustrifóbico (a história passa-se numa ilha quase paradisíaca, mas o tipo de terreno proporciona algumas surpresas desagradáveis, seja sob a forma de tiros perdidos, seja sob a forma de predadores naturais) e das circunstâncias pesadas que levam os soldados a este local, o autor consegue intercalar as sucessivas desgraças com elementos caricatos que aligeiram o ambiente – seja o episódio de uma companhia inteira visitar uma carrinha de prostitutas antes de partirem, seja a forma que alguns soldados arranjam para terem o seu fornecimento pessoal de mantimentos.

Aqui os soldados são as principais personagens, o seu quotidiano desgraçado entre as responsabilidades que lhes cabem (como lavar a roupa interior dos oficiais) e a morte à espreita. Há quem morra engolido por um crocodilo ou a pescar um peixe, há quem desapareça em circunstâncias nublosas – e tudo isto antes de enfrentarem qualquer inimigo humano.

Os mal tratos são comuns. Entre murros e chapadas dos oficiais a comida escasseia e os soldados sentem-se duplamente perdidos – perdidos porque não desejam combater nem compreendem o que os coloca naquele local, perdidos porque sentem-se alvo de escárnio e desconsideração, perdidos porque as ordens mudam constantemente e eles, enquanto jovens, não possuem perspectiva alguma sobre os próximos momentos.

Marcha para a Morte é um livro sobre a Guerra. Mas acima de tudo, um livro que nos mostra o quão absurda é a guerra, desperdiçando a vida dos soldados por estratégias mal definidas, levando adolescentes imberbes a enfrentar outros imberbes adolescentes, uma constante falta de consideração pela vida – e para quê?

Marcha para a Morte foi publicado em Portugal pela Devir.

Outros livros do autor

Resumo de Leituras – Setembro de 2018 (3)

168 – Mensur – Rafael Coutinho – Com saltos narrativos e movimentações pouco directas, de termos algo difíceis de apanhar para português, Mensur de Rafael Coutinho é uma banda desenhada interessante, movimentada e graficamente brilhante onde a honra tem papel principal;

169 – Visão – Vol. 1 – Há vários anos que tenho este livro na lista de livros a adquirir! E realmente corresponde às várias críticas positivas! A família de Visão tenta integrar-se entre os humanos fazendo-nos questionar o que é humano, o que é máquina e pensamento lógico, bem como o poder dos relacionamentos e da vontade de querer a concretização de um sonho;

170 / 171 – Batman – O príncipe encantado das trevas vol.1 /2- Marini – Ainda que a narrativa tenha algumas falhas (clichés, desenvolvimentos expectáveis) o aspecto gráfico é fabuloso, fazendo com que a leitura se transforme no assistir de um brutal filme de acção.

Novidade: Corto Maltese – Sob o signo do Capricórnio – Hugo Pratt

A Arte de Autor anuncia dois novos  lançamentos de Corto Maltese para este mês, dois livros a preto e branco com prefácio a cores. Deixo-vos a sinopse do volume, bem como algumas páginas disponibilizadas pela editora:

No início do seu período tropical, em plena I Guerra Mundial, Corto Maltese – «o último representante de uma dinastia completamente extinta que acreditava na generosidade e no heroísmo» – faz amizade com o jovem inglês Tristan Bantam, meio-irmão de Morgana Dias dos Santos, praticante de macumba e pupila da visionária Boca Dourada, a quem visita na Baía acompanhado por Steiner, antigo professor da universidade Praga e futuro companheiro de viagens, na pista de tesouros misteriosos, cumprindo o seu destino de cavalheiro da fortuna.

 

 

 

Jogos aos Sábados: Novidades

Aproveitando o aproximar do Verão lançam-se novos jogos de tabuleiro! Para além do Sagrada pela MEBO (cujo lançamento já tinha destacado), a Devir e a Morapiaf também aproveitaram. Eis alguma informação sobre os jogos, sendo que ainda não tive oportunidade para os jogar:

Lançado em 2017, Ganges (Rajas of the Ganges, no original)  é um jogo de estratégia com mecanismos de worker placement e dice rolling e tem como cenário a Índia. Visualmente atrante, Ganges encontra-se no lugar 300 no BGG e destina-se a jogadores com mais de 12 anos.

Também bem colocado no BGG (lugar 394), Alhambra é outro dos lançamentos da Devir. Vencedor do prémio Spiel des Jahres de 2003, é já um clássico de estratégia que possui vários mecanismos: card drafting, hand management, set collection e tile placement. De aspecto mais clássico, tem como palco a cidade de Granada que em 1278 estava em construção, integrando arquitectura europeia e árabe. O objectivo do jogo será construir a cidade, havendo necessidade de pagar o seu preço que pode estar numa das quatro moedas diferentes – sim, pelo que percebi, durante o jogo é necessário gerir quatro tipos de moedas e os seus câmbios.

 

Pela Morapiaf chega Cortex challenge, um jogo de memória e reconhecimento de padrões que se destina entre 2 a 6 jogadores, a partir dos 8 anos. O jogo desafia várias capacidades: memória, cognição e percepção sensorial, havendo até cartas com texturas.

A Chave de Gaudí – Esteban Martin e Andreu Carranza

A Chave Gaudí foi publicado há uns bons anitos (mais de 10) pela Saída de Emergência, mas não o li na altura. Mais recentemente, em El Fantasmas de Gaudí vi, na introdução, uma referência a este livro e a um dos seus escritores, Esteban Martín, onde estaria a teoria de que Gaudí seguiria uma linha de construção mais antiga, que pretendia reproduzir na Terra o que existe no céu.

A Chave Gaudí cruza várias teorias sobre os trabalhos do arquitecto em Barcelona e as suas supostas relações com grupos secretos, reproduzindo perspectivas matemáticas e artísticas para desenvolver estas teorias. Paralelamente acompanhamos uma jovem que se apercebe que a morte do avô poderá não ter sido acidental – tal suspeita é fortalecida quando, nesse dia, é perseguida por brutamontes que atiram nela e no namorado.

Como desenvolver teorias sobre Gaudí sem acabar com um livro chato e académico? Ou com um duvidoso livro de Ficção especulativa? Cruzando as várias teorias com uma história movimentada, onde o perigo eminente justifica os constantes episódios de acção numa fórmula muito explorada por Dan Brown.

Neste romance não falta o casal de apaixonados para sentirmos empatia e torcermos, nem as mortes horrorosas para conceder o sentimento de perigo, nem os vilões que se revelam maus por natureza e não pelas circunstâncias – o mal consciente e propositado que pretende corromper e dominar.

Dentro das limitações da fórmula que pretende transformar a história num page turner, A Chave Gaudí consegue ser competente.  No entanto, a componente mais interessante é exactamente a exposição de teorias que pretendem revelar grupos milenares, secretos que transportam missões tão antigas quanto Cristo, missões que nem os Apóstolos nem outros grupos teriam identificado como necessárias nas palavras deixadas pelo Messias. Ainda, desenvolvem-se teorias matemáticas mostrando que as formas naturais que inspiraram Gaudí apresentam fortes estruturas tri dimensionais pouco usadas pelos restantes arquitectos.

O resultado é uma leitura movimentada e rápida que não me deixou grandes memórias pelas personagens e pelo seu percurso pessoal, mas que contém alguns pontos interessantes que também foram apresentados em El Fantasma de Gaudí (publicado recentemente na colecção Novela Gráfica, publicada pela Levoir em parceria com o jornal Público).

Corto Maltese – Fábula de Veneza – Hugo Pratt

O livro começa com uma pequena introdução onde se discorre sobre uma avô em Veneza que levaria o neto a visitar uma amiga. A casa desta amiga seria uma espécie de labirinto, construído como resultado do cruzamento de várias crenças e mitos, religiões e culturas, numa sucessão de enigmas cabálicos e obscuros  – um lugar mágico que alimenta a imaginação da criança e, mais tarde, do homem.

Neste Fábula de Veneza Corto Maltese explora a cidade em busca de uma pedra rara numa aventura carregada de referências à experiência infantil do autor. A aventura começa com a interrupção de um encontro maçónico, onde Corto Maltese cai do telhado. Entre amigos de interesses diversos (e opostos), vai seguindo as pistas de um enigma impossível deixado por um antigo e louco poeta.

Se outros encontram, nas referências do poema chave, um intrincado obscuro de palavras, Corto desembrulha-as sem grande dificuldade, entrelaçando lendas e culturas, e encontrando, na própria cidade os pontos associados às pistas. A pesquisa é carregada dos usuais sobressaltos – não falta uma aparição de Rasputine, mulheres belíssimas que se revelam vilãs ou conhecidos que enlouquecem por amor ou por dinheiro. Todos estes elementos são comuns a outras histórias de Corto Maltese e voltam a ser usados aqui, eficazmente.

Mais curta que as histórias que li antes deste volume, Fábula de Veneza sabe a pouco, deixando alguns mistérios por resolver e possuindo um final que não me foi totalmente satisfatório. Claro que, sendo Corto Maltese estamos a falar de um volume de qualidade bastante acima da média, que fascina pelas referências históricas e culturais, sobretudo quando toca nas histórias de tesouros perdidos e antigas apostas milionárias entre personalidades divergentes.

A recruta dos azuis – Os túnicas azuis – Willy Lambil e Raoul Cauvin

De tom leve e divertido, Os Túnicas Azuis baseia-se na dinâmica entre duas personagens – um homem que deseja a carreira militar mas que, por medo da mãe, não prosseguia, e um taberneiro que nunca pensou em integrar o exército. Nesta história explica-se como se aproveitou um momento de menor discernimento de ambos para os fazer integrar no exércioto.

Antes de iniciar a sua carreira militar, Chesterfield trabalhava como aprendiz num talho, fugindo dos olhares sedutores da filha do patrão, uma senhora pouco feminina que já tinha passado a idade usual para se casar. Entre o espírito protector da mãe (que vê nos favores da jovem, filha do dono do talho, um futuro promissor) e as histórias de coragem militar contadas pelo pai que se encontra numa cadeira de rodas, Chesterfield sonha secretamente com a farda, mas não ousa demonstrar esse desejo à mãe.

Por sua vez, Blutch tem uma taberna e está contente com esta vida, não aspirando a qualquer outra profissão. Conhece o caso de indecisão de Chesterfield e, após uns quantos copos, uns militares que se encontravam de passagem percebem que esta é uma oportunidade de ouro para captar dois novos recrutas.

Depois de ingressarem, contra vondade, no exército, o progresso até à cavalaria é carregado de sobressaltos e, como já é habitual, vêem-se recorrentemente nas posições mais perigosas e idiotas!

As histórias de Os Túnicas Azuis são curtas e divertidas e esta não é excepção. Aproveitando detalhes históricos bem posicionados (mas sem sobrecarregar a narrativa) e a dinâmica entre as duas personagens consegue divertir o leitor.

A série Os Túnicas Azuis foi publicada pela Asa em parceria com o jornal Público.

Dormir com Lisboa – Fausta Cardoso Pereira

O prémio Antón Risco pretende distinguir obras de literatura fantástica, concedendo-lhes um prémio monetário e a publicação através da editora galega Urco. A primeira edição deste prémio foi realizada em 2015 e a segunda foi ganha por esta obra, Dormir com Lisboa.

Num dia, sem qualquer aviso ou razão, a cidade de Lisboa começa a engolir pessoas. Apenas algumas. Pontualmente. Abrem-se burados no chão que duram o suficiente para fazer desaparecer alguém, mas não mais do que isso. Nada parece unir os alvos de Lisboa. Os locais em que desaparecem são diversos, as idades e costumes também. Alguns moram na cidade, outros apenas lá trabalham, outros, ainda, estão apenas de passagem.

Instala-se o pânico. Que fenômeno estará por detrás dos desaparecimentos? E quem? Reúne-se um grupo de emergência composto por diversas entidades – ministros e presidente da câmara, general e cientistas. Cada um tem a sua própria visão dos acontecimentos e cada um tem ideias muito diferentes de como controlar a situação.

A investigação policial parece não descobrir muito, para além dos factos. Nem motivos, nem causas. Antes de cada desaparecimento ouve-se um estrondo. De seguida, abre-se um buraco e a pessoa desaparece. Alguns não deixam quem dê por falta deles, mas são dados como desaparecidos por quem viu a ocorrência.

Tecendo um fenômeno na cidade, a autora transforma Lisboa na personagem principal, uma personagem presente mas silenciosa que se expressa de formas nem sempre perceptíveis pelos seus habitantes. Cada pessoa tem a sua própria visão da cidade, vendo-a como uma mulher misteriosa que pode fugir facilmente ao poder de um político ou como uma velhota de múltiplos retalhos.

Dormir com Lisboa explora a pluralidade da cidade – a diversidade dos habitantes e dos locais, uma cidade que foi construído ao longo de séculos e que possui restos de todas as suas fases. Não é uma cidade homogénea, mas uma cidade que abriga diferentes habitats, de amores e humores, com locais de lazer e introspecção e com locais frios de passagem apressada.

 

Dormir com Lisboa foi publicado pela Urco Editora.

Resumo de Leituras – Fevereiro de 2018 (3)

 

23 – Ministry of Space – Ellis, Weston e Martin – Visualmente fabuloso, decorre numa realidade alternativa onde a corrida do espaço é vencida pelo Reino Unido graças  a uma reviravolta na obtenção dos segredos militares dos alemães. A partir daqui assistimos à construção de um novo Império, concretização das aspirações superiores dos ingleses;

24 – O ateneu – Quintanilha – De visual bastante diferente do usual no autor, adapta um romance brasileiro que se centra num rapaz que larga as saias da mãe para integrar um colégio interno que tem todos os filhos da elite brasileira. Não esperem amizades e companheirismo, à semelhança dos adultos que espelham, são jovens carregados de vícios que tecem jogos de influências e poder para concretizar as suas intenções;

25 – Torpedo 1936 Vol.1 – Abulí, Bernet – O assassino a soldo concretiza os seus planos de forma dura e vai aproveitando as oportunidades que se lhe apresentam para ganhar mais algum dinheiro. Os seus esquemas nem sempre funcionam, e por vezes altera os seus planos para ganhar momentos de menor remuneração imediata;

26 – Dormir com Lisboa – Fausta Cardoso Pereira – Vencedor do prémio Antón Risco, o livro da autora portuguesa foi publicado numa editora Galega e apresenta-nos as várias facetas de Lisboa numa história de detalhes fantásticos onde alguns trauseuntes vão desaparecendo sem deixar rasto, iniciando-se, assim, uma crise nacional pela busca e necessidade de explicação do fenómeno.

El fantasmas de Gaudí – El Torres e Jesús Alonso Iglesias

Qualquer livro que decorra na cidade de Barcelona e que explore a cidade na sua narrativa é um bom candidato a ser um preferido, por se tratar de uma das minhas cidades favoritas. Neste caso a história centra-se, sobretudo, na obra de Gaudí que se encontra em Barcelona, cruzando significados das obras com intenções em reflectir as constelações numa cidade, enquanto decorre a tentativa de apanhar um assassino em série.

O primeiro corpo foi encontrado na casa Vincens, pendurado, de vísceras de fora. Trata-se de um crime difícil de concretizar, pois percebe-se que a morte ocorreu noutro local, tendo o corpo sido transportado através da cidade, por uma rua movimentada. O inspector que foi chamado a investigar o caso percebe tratar-se de uma tentativa de chamar à atenção mas não acredita na relação com a obra de Gaudí.

Paralelamente, uma jovem salva um homem de ser atropelado e vai parar ao hospital. A partir desse momento será envolvida no enredo, fascinando-se com a obra de Gaudí e visitando as construções na cidade de Barcelona, sem perceber que existe mais do que casualidade nos estranhos episódios que ocorrem à sua volta.

Quando os corpos seguintes começam a aparecer nos restantes edifícios de Gaudí, deixa de ser possível ignorar a relação. Os corpos reflectem alguma da arte dos edifícios e pensa-se que os crimes poderão estar relacionados com a degradação (ou alteração) de alguns dos edifícios e respectivos jardins construídos por Gaudí.

A narrativa é relativamente simples, mas coesa, seguindo os crimes e dando-nos algumas pistas sobre quem estará por detrás dos corpos que se vão encontrando. Sem ser uma história que dê especial relevância ao desenvolvimento de personagens (apesar de as diferentes personagens terem personalidades bem vincadas e perceptíveis) é uma boa história que capta o essencial da cidade e que aproveita o cenário para embelezar as páginas da banda desenhada.

El fantasma de Gaudí aproveita a obra fascinante de Gaudí para (dando uma estocada sobre o actual estado dos edifícios, conservados mas alterados e, talvez, corrompidos no seu enquadramento) tecer uma história que entretém o leitor e deixa uma boa recordação.