Em Sou o seu silêncio Jordi Lafebre consegue pegar numa premissa comum (a morte de um ricaço causa tumulto para decidir a herança, ainda que a sua morte possa ter mão criminosa e, portanto, decorre uma investigação) e conferir-lhe contornos muito próprios, explorando não só as interacções familiares caricatas, como a doença mental, em várias perspectivas.
Pegando na mesma personagem, o autor cria uma nova história em torno da psicóloga alucinada, Eva, e cheia de vícios, que, para além de falar com as mulheres falecidas da sua família, tem tendência para se ver no centro de investigações criminosas.
Neste caso, a história começa com Eva a ser apanhada no local do crime – uma localização cheia de cimento, onde terá aterrado um homem de cabeça para baixo, enterrando-se até à cintura. A partir daqui, será interrogada pela polícia na presença do seu psicólogo, contando não só a forma como chegou ali, como a investigação que fez até ao momento, incluindo detalhes mais íntimos, que acrescentam a habitual aura mirabolante da personagem.



A investigação de Eva terá começado com o desaparecimento de um dos seus mais jovens clientes – um promissor futebolista que não é visto há alguns dias. Depois de ser chamada ao clube e quase responsabilizada pelo desaparecimento, Eva começa a investigar. As pistas levam-na a perceber que, em redor do clube existem pressões económicas sobre os terrenos, sobretudo naqueles onde se encontram uma série de prostitutas que, desprotegidas, são pressionadas a deixar a localização por um grupo de nazis. Mas este grupo de homens medíocres estará associado a forças bem mais obscuras.
Tal como Sou o seu silêncio, a história apresenta os traumas que são originários das relações familiares ou herdados, e que acabam por impactar a personagem principal. A exploração desta vertente é um pouco menos forte neste volume, sendo as alucinações das mulheres já assumidas quase como algo normal quando encontramos Eva.



Já a investigação apresenta aspectos interessantes do cenário urbano de Barcelona. Por um lado, percepcionamos o mundo glamoroso dos futebolistas, muitas vezes vistos em companhia de modelos. É um mundo de luxo onde se espera que os envolvidos apresentam um determinado padrão de comportamento, e relacionamento. No caso do futebolista em causa, um homem que não encaixa no padrão esperado, a adesão a este mundo funciona como uma fachada, que lhe permite esconder várias vertentes de si próprio.
Por oposição, encontramos as prostitutas. Usadas mas marginalizadas, são figuras fragilizadas que estão nitidamente numa posição inferior debilitada, expostas à violência masculina sob várias formas, desprotegidas e ignoradas pelas figuras oficiais. Ainda para mais, quando se colocam, também, questões de identidade de género e de liberdade individual. São como objectos necessários mas inconvenientes e vergonhosos, facilmente descartáveis por quem tem interesses económicos na zona onde operam.



A investigação do desaparecimento e, o interesse policial pelo local do crime onde Eva foi encontrada, permitem abordar esta e outras questões numa sucessão de episódios de acção. Eva toma, sucessivamente, más escolhas, e coloca-se em situações duvidosas ou, até, duvidosas, com o intuito de encontrar o jovem futebolista.
Apesar de ter adorado a leitura deste volume, gostei um pouco mais de Sou o seu silêncio. Um dos factores é, decididamente a novidade. Claro que a figura caricata de mirabolante de Eva surpreendeu e cativou no primeiro. Ainda que, neste segundo, se mantenha a empatia, os seus aspectos absurdos já são quase normais. Por seu lado, a progressão da história não é totalmente surpreendente, ainda que feche de forma elegante e coesa. O resultado é uma boa e recomendável leitura, sobretudo para quem gosta de personagens mais extravagantes e delirantes.

