Se existe género com o qual sou rigorosa é o horror. Talvez porque não ser facilmente impressionável, talvez por, muitas vezes, achar cómico o show off de descrições sangrentas e violência gratuita, sem enquadramento lógico. É daqueles géneros que não funciona comigo se não estiver excelentemente narrado. E ainda que outras histórias no género horror de David Soares não me tenham impressionado, neste caso, gostei imenso do conjunto.

A Sombra sem Ninguém é um conto estranho, com uma grande componente de fantástico, onde uma rapariga, quase comida por porcos, tem o dom de visualizar e de tornar visíveis os elementais. Achei este conto o mais fraco do conjunto, essencialmente por causa do final.  Ainda que a história tenha sido bem narrada e se tenha tornado interessante, achei que o final, ainda que original, não se enquadrou totalmente no resto da história, tornando-se insípido.

A segunda história tem o mesmo título do conjunto, apresentando-nos três homens que sobreviveram à guerra, mas que vivem assombrados pelos fantasmas do passado, com medo da morte. Um desses homens, a personagem principal, é um violador e assassino  de crianças, alguém com quem facilmente se antagoniza,  tornando a tortura sobrenatural de que é alvo um acto irónico e até, libertador.

Em O Rei Assobio somos com por uma história de horror centrada numa personagem típica de outros contos do género – um velho que é ridicularizado pelos mais jovens pela forma de falar, e pelos membros mutilados. Os ferimentos terão sido provocados pela passagem de um comboio, mas como foi parar aos carris é a razão pela qual o velho inicia um plano de vingança. O que parecia uma brincadeira com armas torna-se uma caçada sangrenta.

A mais longa e última história do conjunto cativa o leitor não só pela escrita, mas também por não se centrar apenas na caçada, contando-nos como o velhote ganhou em rapaz a alcunha de O Rei Assobio,  assim como os acontecimentos que causaram a mutilação do rapaz.

Ainda que não considere, no conjunto, A Luz Miserável como o melhor livro de contos de horror que já li, a segunda e a terceira história são bastante boas, não ficando atrás de outras de grandes autores internacionais. Em relação ao livro em si, esteticamente é bastante interessante, com folhas pretas e letras brancas. No entanto, a combinação dificulta a leitura.