A Idade de Ouro – John C. Wright

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Alegoria, alusão a mitos gregos, filosófico, futurista e humano – todas estas palavras podem ser usadas para descrever A Idade de Ouro de John C. Wright, uma história que decorre num futuro distante em que a imortalidade está acessível a todos, mas que se torna tão densa em detalhes e alusões filosóficas que, por vezes, se torna aborrecida.

O nome da personagem principal é Faetonte em homenagem ao filho de Hélio que escolhe, como favor do pai, conduzir o carro do sol por um dia. Imprudente – o desejo é-lhe concedido mas ele é incapaz de controlar os cavalos e acaba abatido por Zeus para evitar que a Terra se queime. Ou assim diz a versão mais popular do mito. A outra versão, o verdadeiro motivo para a escolha de tal nome iremos saber apenas no final.

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A história começa com uma mascarada, uma festa carregada de estímulos estéticos aos quais Faetonte está a reagir apaticamente, razão pela qual deixa um duplo em seu lugar e resolve percorrer os jardins. É nesta pequena deambulação ao exterior que encontra um velhote (de características físicas de idoso, coisa impensável neste futuro distante) que o leva a pensar que algo na sua mente está incompleto.

Este é o primeiro de muitos encontros e conversas com várias personagens que levam Faetonte à dúvida. Quando percebe que memórias de alguns séculos foram apagadas questiona-se sobre que motivo poderia tê-lo feito eliminar estas memórias voluntariamente. Seria o mesmo homem sem elas? A curiosidade aumenta mas um obstáculo surge – se abrir a caixa que contém as memórias será eternamente exilado, algo que, naquele mundo em que todos dependem dos serviços para manter a vida eterna, corresponde a uma sentença de morte lenta.

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É neste ponto que o livro se torna mais aborrecido – é óbvio que Faetonte irá abrir a tal caixa, qual Pandora. No mínimo, tentará perceber o que lá se encontra por outros meios, mas tal impasse vai durar durante 200 páginas que nos vão assim descrevendo um pouco mais daquele futuro. E se alguns detalhes são interessantes, outros são exaustivos e poderiam ter sido fornecidos através de uma história mais movimentada. É que a vida de cada indivíduo adequa-se totalmente à escola filosófica em que se insere, e esta componente encontra-se carregada de alusões à filosofia clássica.

Qual o sumo principal a retirar da história? Mesmo numa sociedade futurística, imortal, de tecnologia impensável, existirão sempre aqueles que, apelando ao bom sendo, aos bons costumes e tradições, têm, na estagnação, um caminho seguro a impor a todos. E se uns impõem a estagnação, decerto surgirão aqueles poucos que, acusando bicho carpinteiro, formulam planos para iniciar o caminho do descobrimento, não ficam entretidos eternamente com futilidades. É isso que aqui encontramos – Faetonte é um visionário impedido de concretizar o seu plano, por teorias obscuras e amedrontadas de riscos improváveis e distantes.

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Pelo meio podemos ver várias questões sobre personalidade e sociedade – que efeito têm as memórias e o conhecimento na personalidade de um homem? Será que se pode considerar o mesmo homem antes e depois de determinados acontecimentos? Ou constituirão personalidades distintas com possibilidade de se dissociarem eternamente? Neste futuro em que uma mesma pessoa pode criar reproduções temporárias de si mesmo para realizar determinadas acções, integrando as memórias destes alter-ego, mesmo estes alter-ego poderão constituir novas pessoas emancipadas, e novas pessoas podem ser geradas quebrando personalidades e memórias de um pai.

As personagens apresentadas são quase todas representativas, referências a outras obras de ficção, alguma recente, ou a mitos gregos, onde encontramos, até Emphyrio, o eterno defensor da verdade absoluta e da liberdade:

– Ouve-me, ó Socrates! Aqueles que anseiam por destruir a coragem, a liberdade e a inovação utilizam sempre o «dever» como o seu grito de guerra. A verdade é que Faetonte não é um escravo, nem uma criatura de tão baixo valor que deva morrer sempre que tal morte possa agradar aos caprichos dos seus donos.

«Exortadores! – continuou Emphyrio, num tom cortante: – Não pelejemos entre nós. Faetonte conhece a alegria e a tristeza, a dor e a paz de espírito, tal como nós conhecemos. Ele é um homem igual a nós. Não queremos todos nós fazer o que Faetonte fez? Abraçar a grandeza, triunfar sobre os elementos da natureza e aspirar a conquistar mais? Garanto-vos, meus caros, que nada é mais certo do que um dia a nossa raça ter de viver sob a luz de outros sóis.

Numa época de eterna discussão, etérea, esta densidade de diálogos exaltados, argumentativos e de grande significado tornam a leitura interessante, mas também, por vezes, cansativa. Apresentando uma realidade a que, ao cérebro orgânico, se sobrepõe um mecanizado e muito mais rápido, este é um livro para ser lido pausamente.

Em Portugal a trilogia foi publicada pela Editorial Presença, na colecção Viajantes do tempo.

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