Depois da leitura dos dois livros da Prado, Microenciclopédia micro-organismos, microcoisas, nanocenas e seus amigos de A a Z e O caso do Cadáver Esquisito, fiquei curiosa com as participações de Joana Bértholo e Patrícia Portela. Eis que tive oportunidade de pegar neste Para cima e não para Norte, título que corresponderá a uma das frases mais marcantes de Flatland de Edwin A. Abbott. E a referência não é por acaso.
Em Para cima e não para Norte um homem vive pacificamente no mundo das duas dimensões sem considerar sequer a existência de uma terceira dimensão com homens. Entre a rotina familiar e os passeios por páginas de aventuras de 007, o quotidiano é perturbado quando encontra uma letra diferente de todas as outras, mais complexa e intrincada – uma impressão digital.
A partir daqui percorre páginas atrás de páginas, inquieto, até que fórmula uma hipótese impensável, de que existirão homens a três dimensões, com circulação e cocktails, poucos serão bons mas lutarão eficazmente contra os maus. Obcecado pela sua nova teoria convoca uma conferência de impressa onde a expõe, mas esta termina com a sua prisão. Mas nem confinado a um círculo deixa de pensar na sua teoria, e arranja métodos para continuar a desenvolvê-la.
Baseando-se no livro de Abbott, escrito em 1884, desenvolve a mesma história sem se debruçar nas questões matemáticas das figuras geométricas, mas explorando a indivualidade num mundo bidimensional que desconhece a existência de outra dimensão, ainda que seja influenciado por ela. E se o conceito de cinco ou seis dimensões parece tão insólito ao cidadão comum, também uma terceira dimensão para estes homens é algo estranho.
Intercalando em estilo visual e escrita consoante a acção que se desenrola, é uma história engraçada com algumas porções demasiado estendidas que criam alguma circularidade no texto. Ainda assim, uma leitura imaginativa, principalmente para quem conhece Flatland.



