Eis um autor de que não me recordo de ouvir falar. Aparentemente, terá começado a ser publicado aos 20 anos, com um conto na famosa revista Amazing Stories, The Metal Man. Para além de vários trabalhos a solo, publicou também com Frederick Pohl, tendo recebido prémios Nebula e Hugo já com uma idade bastante avançada. Entre as suas contribuições, destacam-se o ter cunhado dois termos que são, ainda hoje, bastante usados – terraforming, e engenharia genética.
Depois de vários anos a escrever para revistas pulp e em tom mais solto, Jack Williamson também ficou conhecido por criticar quem tentava escrever ficção científica séria, ao mesmo tempo que reconhece as dificuldades (e as etiquetas) que são atribuídas aos escritores deste género.
Em Português, segundo a Bibliowiki (Starchild (série) – Bibliowiki ) encontra-se publicada uma série que escreveu com Frederik Pohl, Starchild, com três volumes, Estrela Errante, Missão Impossível, e Ultimato à Terra, bem como Os Cantores do Tempo.
Bem, mas depois de ter decorrido todo este espaço a falar deste autor que desconhecia, passemos à história, ou mais propriamente, à novela, With Folded Hands Publicada inicialmente em 1947 na Astounding Science Fiction, foi considerada em 1965 como uma das melhores Novelas. A história cruza a dualidade de fascínio / receio perante a tecnologia, não só na referência aos robots, mas também na introdução de comentários ao possível resultado bélico de avanços tecnológicos (ecos das bombas atómicas).
With Folded Hands centra-se num homem, Underhill, que detém um pequeno comércio de robots. O negócio não é dos mais prósperos, existindo algumas dificuldades financeiras, o que trouxe amarguras à vida conjugal. Mas quando um novo grupo de androides chega à cidade (ou mais propriamente ao planeta Terra) e torna as invenções que vende obsoletas, tudo vai ter uma reviravolta negra – bastante mais negra do que uma simples falência. É que estes androides, gratuitos, pretendem fazer a humanidade feliz. Nem que seja à força.
Claro que a primeira reacção de Underhill é de negação – sem perceber muito bem a extensão do problema, rejeita, claro, a ajuda gratuita dos androides que lhe extinguiram o negócio. Mas para além disso, os androides parecem focar-se em acabar com qualquer necessidade de trabalho (ocupando-se de tudo), de decisão (já que os humanos não são confiáveis) ou de risco (claro que não se pode deixar um humano conduzir).
A novela vai para além deste aspecto quando confronta Underhill com o suposto criador destes androides, um físico que descobriu uma nova forma de energia e, consequentemente de arma – descoberta esta que terá sido usada para criar uma nova arma, com graves consequências para a vida no seu planeta.
With Folded Hands é, tal como outras histórias desta antologia, uma novela pouco positiva e esperançosa na tecnologia. Os androides tomam conta dos humanos, não lhes reconhecendo autonomia nem capacidades, levando a um regime que poderá ser considerado distópico pela excessiva vigilância e controlo dos humanos.
A perspectiva, apesar de centrada num só homem, Underhill, é interessante, levando-o a fazer um percurso mental curioso, em que deixa de estar focado apenas naquilo que o irrita, para perceber as consequências daquele percurso para os que o rodeiam e para o futuro dos seus filhos.
Apesar de ter sido escrita há várias décadas a história encontra-se surpreendentemente actual, sendo o aspecto mais datado talvez a total separação de papéis (sendo que a mulher fica em casa, cozinha e trata das lides domésticas, e o homem trabalha), mas que é abordado de forma bastante leve.
É uma história sombria, um alerta à tecnologia, numa vertente pouco vista noutras histórias. A eliminação do trabalho até é em favor da humanidade, mas a novela explora as consequências que tal eliminação poderia ter. Se não houver riscos e desafios, o que será da humanidade? Em paralelo, ecoa as consequências de determinadas descobertas, principalmente quando usadas para alimentar o ego e a ambição de homens de poder.


