Cidades Inventadas – Ferreira Gullar

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Eis um livro curioso cuja existência me passou despercebida até vaguear pela secção de literatura lusófona de uma Bertrand. O título interessou-me logo, ou não fossem os volumes de falsas enciclopédias um dos meus pontos fracos.

A premissa corresponde totalmente ao título, ou seja, ao longo de 40 anos Ferreira Gullar foi criando cidades imaginadas, algumas semelhantes e paralelas a cidades existentes, outras inacreditáveis e metafóricas.

A colecção começa com Odon, uma cidade que terá florescido no meio do deserto quando existiam grandes cursos de água. Após vários desastres ambientais e apesar das várias tentativas em combater a falta de água, é a própria cidade que seca e se desertifica.

Esta não é a única cidade a florescer e a quase desaparecer por conta de factores externos. Mais à frente iremos conhecer Inoa que apresenta o típico desenvolvimento urbano em torno de uma fábrica, para mais tarde tombar com a competição. No final a descrição dos acontecimentos torna-se crítica em relação às exigências de melhores condições laborais.

Em expansão pela transformação de matéria prima em produtos de consumo é Ufu, uma cidade cancro que se vai alagando e agregando às cidades vizinhas, a tal ritmo e dimensão que ninguém conhece a cidade e não há estudo demográfico que se consiga realizar:

É certo que o rádio e a televisão lhes trazem notícias de fatos que ocorrem noutros pontos da cidade, mas a tendência geral é pensar que tudo aquilo é mera fição. Tanto mais que os programas tratam de problemas que já foram ultrapassados pelos habitantes da rua ou que ainda não chegaram a se pôr para eles, já que a vastidão de Ufu e seu crescimento desordenado estabelecem uma espécie de descontinuidade histórica entre os vários setores da cidade.

Cidades de preguiça que assim se condenam à desgraça ou cidades que relaxam na sombra da sua fama – é o caso de Aldrova, cuja capacidade dos ferreiros faz crer na existência de armas invencíevis.

De algumas cidades restam poucos testemunhos – tão poucos que se duvida da existência da cidade, como Rti, de dimensão minúscula ocupada por minúsculos humanos, mas cuja descrição faz referência a outros relatos inexistentes.

Depois de uma enorme cidade de ouro e jade, descobrimos Fraternópolis, uma pequena sátira às ideias políticas actuais, onde se cultiva a desigualdade:

A desigualdade foi se tornando tão escandalosa que alguns intelectuais sentiram-se na obrigação moral de denunciá-la. Mas logo os ideólogos do regime vieram a público reafirmar a tese que a escolha não era entra e igualdade e a desigualdade, mas entre o desenvolvimento e a estagnação. “Está demonstrado pela história”, escreveu R. Field, “que a tentativa de dividir igualmente entre todos a riqueza da sociedade conduz à  inibição da capacidade produtiva. Engessa-se a economia e tolhe-se a iniciativa dos mais capazes. O resultado é a redução da actividade económica, o desemprego e o agravamento da pobreza. A desigualdade não é um mal, mas um bem”.

Enquanto Tuxmu é uma cidade que cresceu com base na indolência das que a ajudam sempre, Minofagasta contem um dos desenvolvimentos mais cómicos do conjunto. Começando a população por subsistir da pesca da baleia, e depois da pesca na ausência da baleia, tenta matar os pelicanos que ali se instalam em número cada vez maior. Para descobrir que a salvação da cidade estará num químico existente nas fezes da ave:

A notícia causou impacto. Naturalmente, havia os céticos, que preferiram inventar piadas em torno do assunto. Mais havia também os que confiaram nela. Estes se dividiram entre os que concordavam em exportar toda a merda disponível e os que se perguntavam porque os ingleses não montavam em Minofagasta uma usina para produzir nitrado de sódio ali mesmo.

(…) É verdade que as pessoas sentiam certo constrangimento, no exterior, em falar de principal riqueza de sua terra. Os humoristas se divertiam: “Deixamos de viver na merda, para viver da merda”.

Nem todas as cidades terminam pela extinção dos recursos hídricos ou do emprego. Algumas são atacadas e desaparecem, enquanto outras resistem heroicamente. Pelo meio encontramos, ainda, cidades construídas de raiz apenas para gente perfeita que deixe de lado os afectos e a imaginação – gente prática e ocupada.

Se nalguns contos se descrevem cidades, a sua história e o seu desenvolvimento, noutros, a cidade é apenas palco para um acontecimento, não parecendo ter nada de excepcional enquanto espaço urbano. Algumas distinguem-se pela definição das características das pessoas que albergam, enquanto outras, pelas políticas que implementam.

Apesar de ter gostado bastante dos relatos, a verdade é que estes são bastante díspares entre si, quer em tom e conteúdo, quer em formato, linguagem e tamanho. Talvez seja uma consequência destes contos terem sido escritos ao longo de quatro décadas, mas se nalgumas o estilo é quase formal e académico, noutras passa a apresentar um vocabulário mais prático e mundano.

Algumas são sátiras a políticas e realidades, outras são representativas da evolução e decadência urbana, umas parecem relatos históricos ou de explorações, enquanto outras são retratos actuais e modernos.

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