Dias de Areia, lançado recentemente pela Asa numa edição de capa mole, foi uma excelente surpresa, quer a nível visual, quer a nível narrativo. Pouco tempo depois, a mesma editora lançou outro livro da mesma autora, a adaptação do clássico O Deus das Moscas, desta vez em capa dura.

Li o original há uns anitos valentes. Trata-se de uma narrativa que recorda inicialmente Robinson Crusoe, mas centrando-se num grupo de rapazes que, ao se despenhar um avião, se encontra numa ilha isolada. Todos os sobreviventes são crianças ou jovens rapazes – e se inicialmente é um pequeno e caricato grupo, com o surgir de um grupo de rapazes mais velhos e mais aguerridos, o quotidiano vai-se degradando até aos momentos mais drásticos e chocantes.

A adaptação é muito bem sucedida. Dá o devido espaço ao desenvolvimento de personagens para sentirmos empatia com elas, não nos inunda em descrições ou verborreias, e dedica-se mais a mostrar do que a contar o que precisa de ser percebido pelo leitor. E, um dos elementos mais importantes para o sucesso narrativo, criamos empatia para com as personagens.

O desenvolvimento da narrativa faz-se com um ritmo adequado, desenvolvendo os acontecimentos a seu tempo e, portanto, proporcionando o devido impacto que devem ter. Sente-se o crescente de tensão entre os rapazes e sente-se o aumento de violência e demência, com manipulações pelo medo e mentiras elaboradas. Percebe-se, claro, a criação de dois grupos distintos, com o mote “se não estás connosco, estás contra nós”.

Visualmente, intercalam-se páginas de visual fabuloso e detalhado, com páginas de desenhos mais práticos (impecáveis, mas mais simples) e empáticos. Os desenhos expressam a componente infantil (e mais inocente), bem como a tensão crescente, o horror face à morte e ao que a rodeia, e a vertente maléfica que se vai impondo e contrastando com a inocência que esperávamos das personagens.

Ainda que a história de O Deus das Moscas seja conhecida (e ainda que já a tivesse lido) a adaptação consegue tornar-se uma forte e envolve leitura, aconselhável tanto a quem já conhece a história como a quem a vai ler pela primeira vez. Aimée de Jongh faz um belíssimo trabalho de adaptação, conseguindo transmitir a força do clássico e surpreender o leitor.