Evento: Fórum Fantástico

Começa amanhã, dia 12, um dos mais esperados eventos do ano em torno da ficção científica e fantasia, o Fórum Fantástico. O Fórum apresenta, como já nos habituou, um programa extenso e diverso, onde se discutem e apresentam projectos. Neste seguimento entrevistei o Rogério Ribeiro, um dos organizadores (conforme já tinha divulgado),  mas aproveito para realçar algumas componentes, cujo programa podem consultar na página oficial do evento:

Workshops de escrita – com Bruno Martins Soares e Pedro Cipriano ou com Chris Wooding (o convidado internacional deste ano);

Lançamento de livrosLisboa Oculta (Guia Turístico), Tudo isto existe de João Ventura, O Resto é paisagem, Apocryphys vol. 3 (banda desenhada);

Palestras com vários autores nacionais e internacionais – de banda desenhada, ficção científica e fantástico;

– Jogos de tabuleiro;

– Exposições – Nos 25 Anos de Filipe Seems; de Nuno Artur Silva e António Jorge Gonçalves; Jardim Secreto, de Bruno Caetano;

– Feira do fantástico.

Novidade: Saga Vol. 8

Uma das melhores séries de banda desenhada em curso chega ao oitavo volume no mercado português, sendo que o nono está programado para o Verão de 2019 e em 2020 o décimo (os autores decidiram fazer uma pausa maior entre os volumes da série). Deixo-vos a sinopse bem como algumas páginas disponibilizadas pela editora:

SAGA narra a luta de uma jovem família para encontrar o seu lugar num universo vasto e hostil, e já foi descrito como um encontro entre a Guerra das Estrelas e Romeu e Julieta no espaço. Depois dos eventos traumáticos da Guerra por Phang, Hazel e a sua família e companheiros iniciam uma aventura que os irá mudar para sempre, nos limites mais distantes da galáxia. E teremos a oportunidade de descobrir o que aconteceu a Ghüs e à Vontade!

Fantasia e ficção científica – e sexo, traição, morte, amor verdadeiro e vinganças obsessivas – juntam-se como nunca antes neste épico subversivo e provocante do escritor Brian K. Vaughan e da artista Fiona Staples, que questiona incessantemente as narrativas e preconceitos do nosso tempo através do contraste com o seu mundo surreal e bizarro.

“O génio de SAGA não está só no seu argumento hábil e inteligente ou na sua arte maravilhosa, mas na simples e tremenda coragem de ter uma aristocracia robot, assassinos com corpo de aranha, e uma gata mentirosa incrivelmente cativante. Esta explosão de ideias que existe em SAGA de algum modo condensa-se e transforma-se na mais essencial das bandas desenhadas modernas.”

– THE IRISH TIMES

SAGA já venceu doze Prémios Eisner – o galardão máximo da banda desenhada anglo-saxónica – entre os quais prémios para Melhor Série em Continuação, Melhor Nova Série, Melhor Argumento e Melhor Arte. Foi também premiado com o Hugo para Melhor História Gráfica – os Hugos distinguem a melhor ficção científica publicada em cada ano, e com uns incríveis dezassete Harveys, que premeiam os melhores comics independentes, incluindo Melhor Argumento, Melhor Artista, e Melhor Nova Série.

O volume 9 está programado para o início do Verão de 2019 em Portugal. Os autores fizeram uma pausa na produção da série, que deverá regressar depois em 2020 com o volume 10.

 

 

Ether – Vol.1 – Matt Kindt e David Rubín

Em Ether a realidade que conhecemos é corrompida por uma série de portais para uma outra realidade fantásticas. Curioso, um homem de ciência viaja por estes portais com o objectivo de provar que mesmo este mundo fantástico pode ceder às regras das descobertas científicas e ser percebido de forma lógica.

A história começa com o inusitado processo de passagem, em que um gorila, após obter uma série de respostas, dá um pontapé no cientista e assim o encaminha para o mundo mágico. Mas desta vez a missão do cientista não seguirá o percurso normal pois houve um assassinato e os habitantes deste mundo precisam das suas capacidades dedutivas para perceber quem foi o assassino.

Oscilando entre a melancolia da obsessão pelo mundo fantástico (que impede a concretização de outros planos pessoais por parte da personagem principal) e os detalhes cómicos conferidos pelo seu sidekick (o gorila), Ether não explora uma premissa nova, mas fâ-lo de uma forma que achei de agradável leitura, destacando-se a forma como o cientista tenta aplicar as regras da lógica e se torna conhecido no mundo fantástico por esse processo estranho e incompreensível.

Do ponto de vista narrativo não é uma história perfeita, oscilando entre vários objectivos sem fechar algum (opinião que pode ser refeita quando ler o volume seguinte) e possuindo alguns saltos que se podem tornar ligeiramente confusos. Já do ponto de vista visual possui o estilo de David Rubín, que neste caso se une bem à componente narrativa, destacando o tom caricato de algumas personagens e os elementos do mundo fantástico.

O resultado é agradável, de fácil e divertida leitura apesar do contraste entre o ar bem disposto (cores alegres e aspecto caricato) e a urgência final quando as diferentes realidade perdem a sua integridade. Sem considerar excelente é uma boa e recomendável leitura.

Apocryphus – Vol.3 – Femme Power

Apocryphus surpreendeu positivamente nos primeiros dois volumes pela elevada qualidade de impressão e pelo aspecto gráfico. Já neste terceiro mantém a qualidade visual e aumenta bastante a qualidade narrativa, com pequenas histórias para todos os géneros que se centram em protagonistas femininas.

A primeira história, Scouting for girls, de Fernando Lucas, traz-nos um mundo decadente em guerra onde qualquer truque é bem vindo para passar a perna ao inimigo. Na segunda, Os níveis inferiores, o futuro continua deprimente, com argumento de Keith W. Cunningham e desenho de Miguel Jorge onde se apresenta uma sociedade distópica onde as rações podem ser cortadas àqueles que não contribuam da maneira desejada para a sociedade.

Em Suor e Aço, João Oliveira (argumento), Diana Andrade (Arte) e Mariana Flores (cores) colaboram para apresentar uma história em que os género masculino e feminino competem em igualdade. Já em Azul de Mariana Flores utiliza-se a arte como escapatória.

A Cura, a história de Maria João Lima (Argumento) e Ana Varela (Arte) apresenta uma perseguição pela floresta em busca de uma pessoa, enquanto em Femme Power de Miguel Montenegro se começa com um cenário misógeno quebrado por uma feminista que enfrenta a representação tradicional feminina.

Em Os Lobos de White Mist de Inocência Dias (argumento) e Daniel da Silva Lopes (Arte) apresenta-se uma história fantástica em que uma cidade se encontra coberta de espinhos e sem vida! Ainda que esta descrição seja conhecida, o desenrolar não vai de encontro às expectativas.

Este volume fecha com O Mito da Recriaçao, por Sofia Freire (Argumento), Felipe Coelho (Arte) e Fernando Madeira (Legendagem), uma história futurista em que os humanos deixam de ter caracteres primários e secundários de género por conta de uma intervenção!

Apocryphus regressa este ano com um terceiro volume de melhor qualidade narrativa, mantendo o nível gráfico a que já nos habituou. Entre cada história alterna-se o estilo e o resultado é um volume visualmente chamativo onde se denota o especial cuidado que houve em aumentar a presença feminina.

O terceiro volume esteve na banca na Comic Con mas encontra-se prevista uma sessão oficial de lançamento no Fórum Fantástico. Os vários volumes de Apocryphus encontram-se disponíveis na Convergência (este terceiro ainda não). 

Novidade: Demolidor Vol.1

Está prevista uma nova minissérie da Marvel pela Goody, desta vez de Demolidor! Deixo-vos sinopse, bem como o agendamento da minissérie, algum detalhe de conteúdo e páginas do primeiro volume:

O Matt Murdock abandou a sua carreira de advogado de defesa e arranjou emprego nos escritórios do procurador. Mas o seu novo trabalho não é tão simples como ele esperava, principalmente quando entra em choque com o chefe do crime local, o dez-dedos. Será esta uma missão para o Demolidor? Lutar contra o crime nas sombras e processar criminosos durante o dia – é todo um novo capítulo na vida do homem sem medo, e traz consigo um aprendiz. Bem-vindo a Hell’s Kitchen, Blindspot. Em breve vais descobrir que a vida do Demolidor traz consigo uma mão cheia de ninjas.

Detalhe de conteúdo:

DAREDEVIL (2015) #1-5 — POR CHARLES SOULE, RON GARNEY, MATT MILLA E GORAN SUDZUKA
MATERIAL DE ALL-NEW, ALL-DIFFERENT POINT ONE #1 — POR CHARLES SOULE, RON GARNEY E MATT MILLA.

Calendário da minissérie Demolidor

Volume 1: 11-set-18
Volume 2: 18-set-18
Volume 3: 25-set-18
Volume 4: 04-out-18

 

 

Resumo de Leituras – Agosto de 2018 (5)

144 – O Farol Intergaláctico – João Pedro Oliveira – eis mais um grande exemplo de boa ficção científica publicada pela Imaginauta num formato acessível (em preço) e de fácil transporte. O conto de 12 páginas centra-se na distância temporal criada pelas viagens espaciais, mostrando dois amigos que não se vêem há uma viagem – um no auge da sua juventude, outro velhote e melancólico;

145 – Joe The Barbarian – Grant Morrison e Sean Murphy – Após a morte do pai, a mãe luta para manter o tecto sobre a cabeça dela e do filho. Já o rapaz, que é diabético, soturno, é marginalizado pelos restantes rapazes. Resta-lhe sonhar pelos seus desenhos, até ao dia em que se materializa noutro mundo fantástico onde a sua presença é fulcral;

146 – Seis drones – António Ladeira – Falhei o lançamento na Barata por distração mas ainda assim comprei um exemplar. As referências a várias obras de ficção científica revelam que o autor sabe o que está a escrever e efectivamente os seis contos que apresenta parecem ter inspiração nos clássicos – Orwell, Bradbury, Dick. O resultado é bom, com pontinhas de ironia relativamente à tecnologia e à possibilidade de servirem de forma de controlo das populações;

147 – Portais – Octavio Cariello e Pietro Antognioni – Esta banda desenhada de ficção científica foi lançada há alguns meses, mas só agora a li. Visualmente bastante boa, possui uma história futurista com portais entre épocas diferentes que visam transportar elementos decisivos para a luta por um trono distante.

Artemis – Andy Weir

Não li o famoso Marciano de Andy Weir. Nem vi o filme. Apesar da curiosidade inicial, a excessiva fama levou-me a afastar da história durante uns tempos para não ir com excessiva expectativa. Apesar de ser do mesmo autor, este Artemis ainda não tem um grande histórico de fama, pelo que me resolvi a experimentá-lo.

Fluído e divertido, centra-se na personagem ideal – Jazz, alguém de bons princípios que seguiu um percurso à margem da lei, desviada pelas circunstâncias da vida e as más companhias. Ainda assim não se safa mal e gere o contrabando da cidade lunar, Artemis, tendo como objectivo acumular uma soma que a deixará confortável.

O livro começa com uma cena movimentada em que Jazz tenta regressar à cidade com toda a rapidez, depois de ter um problema técnico com o seu fato. Conseguiu-se salvar mas chumba o exame que lhe permitiria servir de guia para turistas, uma ocupação que lhe concediria uma maior remuneração.

Frustrada, continua com a ocupação legal de transporte de mercadorias que lhe permitem camuflar o contrabando – e é nessa altura que lhe propõem um outro tipo de trabalho, algo mais arriscado mas também com uma margem de lucro muito superior. Algo que a irá colocar no caminho de mafiosos que, felizmente, não têm agentes suficientes em Artemis. Ainda.

Demasiado centrado numa única personagem, muito inteligente e de imenso potencial, Artemis é uma leitura movimentada e divertida que nos leva à primeira cidade fora da Terra, com todos os constrangimentos que esta existência terá na sua construção e nos seus habitantes. O espaço escasseia, o ar é controlado, os possíveis incêncios são a prioridade máxima da cidade e a comida é sobretudo uma tentativa de reconstrução terrestre ou uma gosma de mau sabor.

É neste contexto que Artemis explora, com competência, as características do espaço (falta de atmosfera, pouca gravidade ou recursos locais) para nos levar por uma história de acção onde existem vilões relativos e bonacheirões prejudiciais. Existe uma tentativa constante de nos fazer simpatizar com a personagem principal (Jazz, a rapariga inteligente que se deixou levar por maus caminhos) que comigo nem sempre resultou – mas nem precisou de resultar para se tornar uma leitura absorvente.

Artemis foi publicado pela Topseller.

Resumo de Leituras – Agosto de 2018 (4)

140 – O corpo dela e outras partes – Carmen Maria Machado – Uma série de contos de ficção especulativa, com elementos de ficção científica, fantasia e horror, que apresentam personagens com diferentes sexualidades e nas quais a sexualidade é parte da história, como algo natural. Estes contos podem servir de ponto de partida para discussões mais profundas sobre dinâmica de género ou de relação, ou podem ser simplesmente apreciados conforme se apresentam;

141 – Cicatriz – Sofia Neto – Enquadrado no género da ficção científica, apresenta um futuro em que a o sociedade é dividida. Alguns escolheram permanecer dentro das cidades, com acesso a todas as componentes tecnológicas, enquanto outros ficam nos campos. Duas realidades fechadas, alimentando rumores sobre a outra metade que é demonizada sobre os aspectos mais propícios. Uma leitura interessante e inesperada ainda que saiba a pouco a incursão neste mundo;

142 – Tatuagem – Hernán Migoya e Bartolomé Seguí – Adaptação de um romance policial, apresenta alguns clichés do género, fazendo piada sobre estes mesmos aspectos comuns a tantas outras obras de ficção policial. A personagem principal é um homem que não perde a oportunidade de se aproximar de mais uma donzela, aliás, algo que partilha com o homem de quem procura a identidade;

143 – O jogo – Carmo Cardoso e José Machado – Trata-se de um dos mais recentes contos de ficção científica publicados na colecção Barbante que nos apresenta a situação limite de uma vida dependente do resultado de um jogo.

Battle Pope -Kirkman, Moore e Staples

Herege, idiota e divertido – nesta banda desenhada a influência de Deus na Terra parece ter desaparecido e os demónios sentem-se livres para andar pelo Mundo, impondo as suas vontades nos humanos. Não contam com a existência de um Papa guerreiro, treinado em artes marciais e muito pouco puro no que diz respeito a práticas.

O livro começa com o enfrentar de demónios para salvar uma donzela e depressa evolui para uma missão concedida por Deus para salvar um arcanjo. Acompanhado por um Jesus ridículo e fraco (quase cómico) o Papa (agora com maiores músculos) dirige-se ao Inferno para enfrentar tudo e todos, tendo como objectivo atingir o Paraíso!

E não se pense que o Paraíso é um local aborrecido, pois nem só os puros chegam ao céu. Outrora o anjo que guarda as portas do Paraíso aceitava favores sexuais em troca da entrada, pelo que podem-se encontrar várias pessoas interessantes no céu.

Em Battle Pope corrompem-se todas as personagens principais da Igreja Católica, desde os anjos ao Papa, passando por freiras e por Jesus Cristo, como forma de construir uma paródia movimentada e pouco profunda. Battle Pope é uma leitura inconsequente mas divertida que poderá não agradar a todos os leitores, principalmente aos que sejam religiosos.

Novidade: Kid Lucky – Siga a Flecha

Encontra-se nas bancas, desde ontem, novo volume de Kid Lucky, lançado pela Asa. Deixo-vos a sinopse!

Neste quarto volume das aventuras do aprendiz de cowboy mais turbulento de todo o Far West, Kid Lucky continua a fazer das suas: armado com um laço e uma fisga, não há rufia ou touro que lhe resista! Mas, em contrapartida, a tia Martha, Hurricane Lisette e Joannie Molson têm o condão de o fazer perder a paciência!

O Farol / O jogo lúgubre – Paco Roca

A presença de Paco Roca na colecção Novela Gráfica (publicada pela Levoir em parceria com o jornal Pùblico) já começa a ser habitual. Felizmente. Do autor têm sido publicadas várias obras, e desta vez são publicadas duas histórias num só volume – duas histórias algo diferentes do que é usual do autor, sobretudo a segunda, de carácter mais fantástico, ainda que possua traços reconhecíveis do autor.

A primeira história começa com os tempos conturbados da guerra civil espanhola centrando-se num rapaz em fuga do país para não ser fuzilado. A corrida dirige-o para o mar e quase se afoga mas é salvo por um faroleiro que sobrevive pescando o que o mar lhe traz. Esquecendo, lentamente, as guerras civis, como numa espécie de pausa, paraíso fora do plano terreno, o rapaz restabelece-se e aceita os sonhos do velhote numa cumplicidade de fascínio e esperança. O velhote sonha com o dia em que partirá para uma ilha, onde várias maravilhas o esperam.

A segunda história é uma história de horror. Algo pouco típico do autor, mas que ele própria indica como sendo das suas primeiras obras, baseando-se numa antiga banda desenhada que encontrou. Aqui tenta reproduzir o aspecto facsimilado dessa antiga banda desenhada e apresenta os pesadelos que assombram um jovem por ter vivido na casa de um artista demoníaco.

Ainda que o teor da história seja bastante diferente do que é usual para Paco Roca, reconhece-se a forma como aborda personagens e como desenvolve a história com pequenos detalhes que podem ser inferidos. A história quase parece ter duas camadas distintas. Uma que diz respeito ao trabalho do jovem como assistente do artista (que lhe provoca pesadelos e insónias) e outra que o relaciona com uma rapariga da aldeia com a qual simpatiza.

Na primeira história fala-se de esperanças vãs e sonhos vazios, perspectivas que os homens constroem para não enfrentarem as adversidades com que se deparam – o farol torna-se no local da espera eterna, onde o tempo se suspende. Por sua vez, no segundo conto, o tempo é pesado, corre lentamente e os pesadelos (reais e sonhados) possuem uma elevada carga psicológica. Aqui o local onde se encontra a personagem sobrecarrega-se de más experiências.

Ainda que não estejam entre as melhores do autor, são duas histórias bastante compostas, agradáveis e que conseguem transmitir grande empatia para com as personagens.

Este volume, contendo as duas histórias de Paco Roca, foi publicado pela Levoir na colecção Novela Gráfica em parceria com o jornal Público.

Novidade: Fantomius Vol.2

Já se encontra nas bancas, desde dia 05 de Julho, o segundo volume da série Disney Fantomius. Esta série é publicada num formato diferente do que estamos habituados para a Disney, com uma página maior do que o habitual, em papel mais cuidado e melhor edição (não faltando, por exemplo, desenhos e entrevistas aos autores sobre o ladrão justiceiro). Para os interessados, podem consultar a minha opinião ao primeiro volume da série. Em relação a este segundo volume, deixo-vos a sinopse, bem como conteúdo e algumas páginas disponibilizadas pela editora:

Conteúdo

Silêncio na Sala
A Maldição do Faraó
A Oitava Maravilha do Mundo
Fantomius na Neve
e ainda…
Uma nova entrevista a Marco Gervasio, o criador da série, e ainda um artigo especial onde pode conhecer em detalhe algumas das engenhocas mais espectaculares criadas pelo Copérnico Pardal que podem encontrar nas histórias de Fantomius.

 

Os mundos decadentes de Jeff Vandermeer

Jeff Vandermeer – foto retirada do site oficial http://www.jeffvandermeer.com/

Jeff Vandermeer é o autor da trilogia Área X, do qual o primeiro volume, Aniquilação, foi adaptado recentemente para filme. Vencedor de vários prémios (World Fantasy Award, BSFA, Locus, Nebula ou Shirley Jackson Award), Jeff Vandermeer é, para além de escritor, editor e organizador de várias antologias de ficção especulativa e bem como crítico, publicando regularmente as opiniões em diversos jornais e revistas.

Desde a maravilhosa cidade de Ambergris carregada de esporos à cidade sem nome de Borne, em que as ruínas se tornam nichos ecológicos para construções biotecnológicas, grande parte da ficção de Vandermeer decorre em cenários de corrupção crescente, seja por acção humana, seja por circunstâncias histórias e ecológicas anteriores aos acontecimentos que acompanhamos.

Se em Venice Underground nos é apresentado um local transformado pela biotecnologia em que se esmorece a fronteira entre animais e humanos, dando origem a novos seres mas, também, baixando o valor do humano, num desenvolvimento que se enquadra no género New Weird (para quem desconhece, foi um sub-género da ficção especulativa que, aqui há uns anos originou trabalhos como Perdido Street Station de China Miéville ou The Etched City de K. J. Bishop onde se sobrecarrega a realidade com elementos estranhos levados ao extremo e que, nalguns casos provocam hostilização e inquietação no leitor), em Borne, os elementos estranhos são enquadrados de forma a parecerem quase normais, levando o leitor a empatizar com as novas criaturas.

 

 

 

 

 

 

 

 

Assim, em Borne, temos uma criatura que, não sendo humana, quer ser uma pessoa, mas a sua natureza fagocítica impele-o a comportamentos inclusivos pouco sociáveis. Por sua vez, em The Strange Bird, segue-se um pássaro com resquícios de humano, que cruza elementos de vários animais e é um ser pensante. As suas características especiais levam-no a ser usado por vários seres humanos com objectivos distintos, objectivos dos quais se vinga sorrateiramente. Esta segunda história, mais pequena, fornece alguns detalhes que tinham sido omitidos (sem desproveito da narrativa) em Borne, dando novos sentidos irónicos a alguns acontecimentos.

Tal como seres refeitos de partes de outros, a imagem de Urso é comum. Em Borne um dos novos seres é um urso enorme, um constructo com proxies à sua imagem, que ameaça toda a realidade. Já em The Situation  a imagem do urso tinha sido marcante, desta vez uma representação metafórica de um trabalhador num ambiente profissional corrosivo. Trata-se de um conto carregado de elementos representativos onde se destaca o ambiente claustrofóbico provocado por um líder incompetente que desagrega a equipa. O resultado é a transformação das personagens consoante o estado psicológico.

Ainda não localizei o terceiro volume da trilogia depois das mudanças… Nem esse nem outros que tenho do autor…

A corrupção do mundo encontra-se, também, presente na trilogia Area X. O primeiro livro, Aniquilação, apresenta uma bolha na realidade descrita, uma descontinuação que é de difícil exploração pelo homem e onde decorrem uma série de fenómenos inexplicáveis – fenómenos que parecem iteracções fractais de vários elementos. A trilogia prossegue, num tom bastante diferente, conferindo perspectivas totalmente opostas da fornecida no primeiro volume. O ambiente é inóspito e propositadamente confuso para os seus visitantes (e, consequentemente, para os leitores) destacando-se alguns cenários não presentes directamente na adaptação cinematográfica como a torre invertida, inspirada na Quinta da Regaleira.

Desde City of Saints and Madmen (Ambergris) a Borne, Jeff Vandermeer leva o leitor a passear por realidades impossíveis – realidades que constrói povoando de detalhes estranhamente coerentes e personagens peculiares, duas componentes que possibilitam o envolvimento absoluto do leitor.

Mas o espírito criativo de Jeff Vandermeer não se fica pela escrita. Conjuntamente com a esposa, Ann Vandermeer, tem organizado várias antologias que ficam para a história da ficção científica. Recordo, por exemplo, o Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas onde uma série de autores cria novas e fantásticas doenças. Trata-se de um manual totalmente ficcional, publicado em português com doenças inéditas por autores portugueses, e que já foi encontrado na secção de medicina da FNAC como se fosse um livro académico.

Recordo, também, os belíssimos manuais Steampunk, livros de mesa que reúnem as mais maravilhosas referências do género, ou, mais recentemente, The Big Book of Science Fiction que pretende conter histórias representativas de todos os géneros.

Alguns livros publicados pela Livros de Areia, entre eles, no topo, um pequeno livro com histórias de Ambergris, a cidade dos fungos!

Em Portugal ainda é um autor pouco publicado. Para além do almanaque de doenças ficcionais referido acima, mais recentemente foi lançada a trilogia da Área X (aproveitando a adaptação cinematográfica) e houve, há vários anos, uma pequena parte da história de Ambergris publicada pela Livros de Areia – A transformação de Martim Lake & Outras histórias – numa belíssima edição.

Outros artigos sobre livros de Jeff Vandermeer

Os Fabulosos Feitos de Fantomius – Ladrão Cavalheiro 1/5

Depois de uma reorganização nas revistas Disney pela Goody, a editora lança este primeiro volume de uma pequena série que tem um formato e qualidade bastante diferente das restantes.  De página maior, papel lustrado, esta edição apresenta, entre as histórias do mirabolante ladrão cavalheiro, entrevistas e esboços. Fala-se da dinâmica das personagens e da inspiração para as histórias.

Algumas histórias de Fantomius já tinham aparecido noutros volumes das revistas Disney, onde se explica como Fantomius conheceu Dolly Paprika, cúmplice e companheira. Os dois formam uma dupla charmosa e imparável, arquitectando novos golpes para distribuirem os lucros pelos mais necessitados. As suas vítimas são, sobretudo, ricos prepotentes e ansiosos das suas riquezas.

Fantomius tem, claro, um arqui-inimigo, o Comissãrio Pinko que tenta descobrir a verdadeira identidade do ladrão e apanhá-lo. Fantomius consegue, entre várias façanhas, ser preso e mesmo assim, continuar a fazer golpes e ocultar quem é. Pinko é, assim, a personagem que confere o ridículo às histórias, o eterno investigador frustrado que ignora as pistas mais óbvias.

Neste primeiro volume não faltam referências a personagens famosas (como Hercule Poirot) nem invenções fantásticas. É que Fantomius é ajudado pelo Copérnico Pardal, um inventor fabuloso, mas bastante distraído, que fornece a Fantomius os mecanismos prefeitos para desempenhar os golpes.

A série Fantomius é publicada em Portugal pela Goody e terá cinco volumes.

Eventos: Sci-fi LX 2018

Cartaz da autoria de Edgar Ascenção

A menos de uma semana do evento (gratuito) vou começar a divulgar algumas componentes já anunciadas para o próximo fim de semana no Instituto Superior Técnico!

Isaque Sanches vem falar da relação entre a construção de narrativas e os videojogos

António de Sousa Dias apresenta uma homenagem a um dos mais prolíficos cineastas e escritores do Fantástico português. Conheçam a obra e o percurso de António de Macedo (1931-2017).

Entre os workshops disponibilizados este ano (em que se podem inscrever aqui) encontra-se um de Impressão 3D (dado por Artur Coelho) de Crochet, Amigurimi, pintura de miniaturas, desenho manga, criação de marcadores, como escrever um conto apocalíptico (por Pedro Cipriano) e de escrita criativa em Como Matar Personagens (de Bruno Martins Soares e Pedro Cipriano).

One-Punch Man – Vol.3

De leitura leve e divertida, One-Punch Man centra-se num poderoso mas pouco típico herói. De cabeça rapada e capaz de dar cabo de qualquer monstro num único murro (resultante em lutas anti clímax que terminam mais rapidamente do que começaram) Saitama resolve inscrever-se, por indicação do seu pupilo, na associação dos heróis.

Ambos realizam os testes mas Saitama é englobado num dos escalões mais baixos, tendo de realizar pequenas acções como herói frequentemente para manter o seu estatuto. Na realidade, Saitama é bem mais forte do que oficialmente se classificou, mas a sua postura algo insolente e descontraída irrita outros heróis que se julgam bastante mais importantes.

Este volume torna-se bastante movimentado e divertido pelo contraste de Sataima para com os heróis típicos, de posturas distantes e calculistas, carregados de uma suposta importância e poder. Sataima afasta-se dos assuntos mundanos quando confrontado com monstros que derrota facilmente, sem todos os gestos e apresentações trágicas que costumam anteceder a entrada de um herói em cena.

A série One Punch Man é publicada em Portugal pela Devir.

Resumo de Leituras – Junho de 2018 (2)

104 – Terra 2.7 – MAF – Ainda que o tema seja interessante (os seres humanos tentam colonizar um novo planeta mas são travados nas suas ambições de conquista), os desenhos são demasiado estáticos e os diálogos estereotipados não soam naturais, pelo que o conjunto não me cativou.

105 – Prazeres estivais – Vilhena – Um livro ao estilo de Vilhena, onde o autor expõe as canalhices dos humanos;

106 – The Tangled Lands – Paolo Bacigalupi e Tobias S. Buckell – O livro é composto por quatro histórias no mesmo Universo, sendo que duas tinha já lido porque tinham sido publicadas em volumes independentes. Neste mundo a magia tem um preço – alimenta uma erva daninha cujo contacto com os seres humanos é perigoso. Cidade após cidade os humanos ficam sem espaço e refugiam-se nos poucos locais a salvo. Neste mundo não há heróis absolutos nem vitórias extremas – tratam-se de histórias bem equilibradas;

107 – Os Guardiões do Louvre – Taniguchi – A colecção novela gráfica deste ano abriu com um livro de Taniguchi, a cores, onde o autor explora o Louvre enquanto espaço e enquanto museu, falando sobre artistas e sobre a forma como as obras sobreviveram às invasões nazis. Visualmente excelente.

Novidade: Assassin’s Creed em banda desenhada

Para além de Pantera Negra, a Goody lança esta semana uma nova série mensal que não pertence à Marvel – Assassin’s Creed! Trata-se de uma pequena série de três volumes, e o primeiro volume já anda nas bancas desde dia 07 de Fevereiro. Deixo-vos a sinopse, bem como algumas páginas disponibilizadas pela editora:

QUANDO TUDO PARECE PERDIDO, O CREDO PERSISTE.

A vida banal de Charlotte De La Cruz é virada do avesso quando esta é catapultada para o mundo obscuro da Irmandade dos Assassinos.

Juntando-se a eles numa disputa milenar contra a Ordem dos Templários, Charlotte é introduzida aos rituais da Irmandade à medida que entra nas memórias genéticas do seu antepassado assassino, Tom Stoddard.

Ao procurar desesperadamente por uma pista que possa salvar vidas, Charlotte testemunha em primeira mão o pânico e a histeria dos aterradores Julgamentos das Bruxas de Salem!

 

 

Ciudad – Giménez , Barreiro

O conhecer ambos os autores de outras obras foi o factor decisivo para a aquisição. De Ricardo Barreiro foi publicado Parque Chas na colecção  Novela Gráfica, e de Giménez é de realçar a participação na saga Metabarão. Com algumas semelhanças a Parque Chas, Ciudad centra-se numa cidade sem tempo, uma espécie de buraco negro onde vão parar habittantes de todos os tempos e lugares – imensa e diversa, uma cidade sem fim nem saída.

Depois de uma saída nocturna com a namorada, Jean separa-se saturado e resolve ir para casa a pé, sozinho. A meio do curto percurso encontra uma rua que desconhece existir no bairro onde vive. A partir daqui o caminho revela-se muito mais longo do que seria de esperar e é, com espanto que se vê alvo de metralhadoras na ruela em que está perdido. Salva-o uma mulher destemida, Karen

Tentando antecipar uma retaliação pela luta disputada anteirormente, a dupla constituída por Jean e Karen, parte num carro. Infelizmente, não partem a tempo. A partida é marcada por uma perseguição de desfecho violento em que Jean dispara, pela primeira vez, contra alguém. Escapam fisicamente ilesos mas encontram-se numa parecela desconhecida da cidade na qual deambulam sem encontra outras pessoas ou comida por longos dias.

A descoberta que os irá salvar é a de um supermercado enorme e automático, bem fornecido em todos os items de que poderiam necessitar. Desde comida a armas, tudo se encontra, reposto automaticamente por robots. Os problemas começam para ambos quando tentam sair do supermercado sem pagar – activam-se sistemas de defesa que decretam, logo, uma sentença pesada à dupla. Aqui são salvos por alguém que tenta, há muito, destruir o supermercado, mas sem sucesso. Tal como as fábricas de Philip K. Dick este supermercado recupera-se e mantém o funcionamento, mesmo sem clientes que desejem utilizá-lo, cumprindo o dever para o qual foi construído.

O restante caminho pela cidade vai ser feito de maravilhas e pesadelos de elementos fantásticos e de ficção científica, alternando eventos inexplicáveis com máquinas elaboradas. Encontram homens há muito perdidos que já perderam as esperanças de fugir da cidade e se deixam enrolar numa série de eventos cíclicos, e monstros dos clássicos de horror que aqui se tornam heróis. Dentro da grande cidade há cidades ordeiras de pessoas que cedem a liberdade a troco de uma comunidade e seitas caninais que recebem bem as futuras refeições.

Tal como Parque Chas, Ciudad apresenta uma cidade ficcional dentro da cidade real, uma cidade maior e mais complexa com múltiplas portas de entrada. Mas se em Parque Chas as deambulações na cidade alternativa são curtas, aqui prolongam-se pela eternidade, constituindo um local sem fim, repleto de absurdos monstruosos e locais ordeiros.

A cidade não é contínua, nem no espaço, nem no tempo, e a dupla experimenta o passado e o futuro, ambos traumatizantes, não percebendo as diferenças na duração da noite e do dia entre as diferentes partes da cidade. Se chove excessivamente numa parte da cidade causando uma inundação, no momento seguinte pode-se experimentar uma seca intensa que leva os viajantes a duvidar da sanidade. Cruzando outras ficções com esta narrativa (não só pela apresentação de monstros, como pelo surgir da figura Eternauta, e por referências indirectas a outras obras) Ciudad funde vários elementos para se transformar numa longa e rica viagem.

Outras obras dos autores