Pandemonium, de Daryl Gregory, foi dos livros mais surpreendentes que tive a oportunidade de ler em 2009, acabando por fazer parte da lista de melhores leituras do ano. Desta forma, foi com grande expectativa que peguei em The Devil’s Alphabet.

Paxton terá deixado a cidade do interior americano onde terá nascido após uma briga com o pai, retornando numa viagem apressada, vários anos depois, ao lhe ser comunicada a morte de uma amiga de infância, Jo. Mas ao regressar a Switchcreek, não é só o pai que tem de enfrentar, mas a realidade da cidade, que terá sobrevivido a uma estranha doença, a TDS (síndroma da transcrição divergente).

Longe de qualquer outra doença conhecida, a TDS terá transformado os habitantes da cidade, em três vagas distintas que terão originado três classes divergentes de seres humanos: Argos, Betas e Charlies. Os primeiros são gigantes acizentados possuidores de uma força sobre-humana, os segundos serão semelhantes a focas, sem pêlos, e por últimos os Charlies caracterizam por uma obesidade extrema.

Paxton terá sido um dos poucos sobreviventes às três vagas que não terá sido transformado, mas assistiu à morte da mãe, à transformação do pai num Charlie e da melhor amiga, Jo, numa beta. Ao regressar depara-se com uma sociedade dividida consoante as novas classes, mantida pela Tia Rhoda, uma mulher de aparência ingénua que se revela uma líder suficiente perversa para fazer o que deve ser feito, de forma a manter a estabilidade da cidade.

Com o aparecimento de Paxton, o pai começa a produzir um perigoso alucinogéno,  característico dos Charlies mais idosos, e Paxton vê-se dividido entre voltar a Chicago ou tomar conta do pai e descobrir a verdade por detrás do suicídio da amiga de infância, ao mesmo tempo que se questiona se não terá sofrido alguma mutação, como os restantes habitantes da cidade, mas não visível.

Paxton é, como o próprio reconhece, uma personagem quase apática, tomado inicialmente por uma sensação de pânico que quase o faz regressar a Chicago, mas que se transforma ao longo da história, talvez pelo efeito da droga produzida pelo pai. Apesar da inicial apatia de Paxton, não falta sentimento à história, transmitido pelo que o rodeiam: os pouco casais Argos procuram a todo o custo uma forma de se reproduzirem enquanto as mulheres Beta se reproduzem por partenogénese, acabando por formar um culto de mulheres jovens que se crêem símbolos de pureza; o pai segrega copiosamente a substância química a cada encontro com o filho; e as filhas de Jo resolvem conhecer melhor o amigo de infância da mãe.

Entre o fantástico e a ficção científica, The Devil’s Alphabet revela-nos uma realidade em tudo semelhante à nossa, não fosse uma doença estranha que terá atingido uma pequena cidade, e separado esta do mundo envolvente, ao mesmo tempo que dividiu os seus habitantes em classes. Com a divisão surge um pensamento mesquinho de pertença a um grupo restrito, a espécie de pensamento que poderá prejudicar a sobrevivência da população. Original tanto pela realidade que descreve, como pela forma como a aborda, The Devil’s Alphabet é uma daquelas histórias que apreciamos ainda mais quando, fechado o livro, descobrimos os vários detalhes e camadas que a constituem.