
Poderia começar por analisar o forte simbolismo da história apresentada em Three Hearts and Three Lions, onde a realidade se transforma em reino encantado e se apresentam factos históricos sob máscaras. Mas este simbolismo é demasiado evidente, e a história em si é forte o suficiente para que não seja necessário realçar esse aspecto.
Holger é um jovem dinamarquês, de origem desconhecida (terá sido descoberto em bebé e adoptado) que, após emigrar para os Estados Unidos da América, se vê compelido a retornar aquando do avanço militar alemão sobre a Europa. Numa missão a favor da Resistência é descoberto e são disparados alguns tiros, acabando por desmaiar. O cenário onde acorda é, em tudo, diferente.
Com uma armadura e um cavalo oportunamente ao dispor, Holger viaja agora numa extensa floresta – tão extensa que não recorda nenhuma outra que exista na Europa. Sem encontrar nenhum dos companheiros da missão, encontra uma bruxa de motivações duvidosas que lhe irá fornecer um guia para encontrar aqueles que talvez o possam ajudar, as fadas. Na demanda para encontrar um caminho de volta à nossa realidade, irá ser acompanhado por uma inocente rapariga cisne.
Considerando a possibilidade das realidades paralelas que se interligam em referências míticas e História; Three Hearts and Three Lions poderá recordar as novelas de cavalaria, tanto pelas personagens, como pelas referências a várias lendas, sendo a mais importante, a de Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda. Holger é um cavalheiro acompanhado pela donzela virgem e inocente, que parte numa demanda honrada. Felizmente, não estamos perante um herói sem defeitos, pelo contrário. Nem sempre consciente das suas capacidades, é facilmente seduzido e coloca, por vezes, os seus objectivos acima das necessidades do mundo em que se encontra.
No mundo em que se encontra agora, a magia é uma componente real, mas nem por isso as leis da Física deixam de funcionar e é a elas que recorre quando defronta Dragões, Trolls ou outros seres sobrenaturais que se encontram a cargo das Fadas, que representam o Caos – a força que luta contra os homens e procura expandir o domínio das sombras. Sem desconfiar que poderá ter um papel decisivo nesta guerra, Holger procura o caminho de retorno.
Felizmente, com menos romantismo do que seria de esperar, é uma narrativa agradável, curta e envolvente, de final interessante, onde o fantástico tem um papel mais complementar do que principal. A magia existe, assim como os seres sobrenaturais, mas não é em torno destes que roda a história. Mesmo decorridos cinquenta anos após a publicação, Three Hearts and Three Lions não sofreu com a passagem do tempo, tornando-se uma das surpresas mais agradáveis que tive nos últimos tempos.
