Tendo lido recentemente várias histórias de Paolo Bacigalupi, cada vez que escrevo sobre uma, corro o risco de parecer um disco riscado, dado o contexto comum em que a maioria decorre: mundo caracterizado por desastre ecológico, subida drástica do nível das águas, origina profundas transformações sociais, culturas e económicas que se reflectem de forma diferente ao longo do globo. Apesar do contexto comum, as possibilidades são quase infinitas, e Paolo Bacigalupi vai explorando perspectivas várias em cada história.
Nesta história juvenil, que decorre no mesmo universo que Ship Breaker, as cidades alagadas terão sido submetidas ao domínio chinês durante vários anos. Durante este domínio os chineses tentam incutir a necessidade de explorar o solo ao invés de guerrear, de proteger a cultura e o conhecimento ao invés de o saquear. Sem grandes resultados – quando se vêem forçados a deixar as cidades alagadas voltam as milícias armadas que saqueiam sucessivamente as aldeias pobres.
Por ódio a tudo o que os chineses tentaram forçar culturalmente nas cidades alagadas, Mahlia, filha de pai chinês, já perdeu uma mão e refugia-se agora, por caridade de um médico, numa pobre aldeia. Apesar de maneta, consegue ser útil como enfermeira, mas não escapa à descriminação supersticiosa dos restantes aldeões, devendo suportar em silêncio as provocações proferidas diariamente.

Apesar das contrariedades o dia a dia é pacífico para Mahlia e Mouse, os dois protegidos do médico, até ao dia em que, buscando alimento, se deparam com o corpo de um homem cão – um animal construído através de engenharia genética que cruza ADN de vários animais, que, tendo escapado da prisão, atrai uma milícia para a aldeia. O médico morre e Mouse é forçado a ingressar no grupo armado. Sobrevivente, Mahlia consegue convencer o homem cão a segui-la numa demanda para recuperar o rapaz.
De tom juvenil, não deixa de ser uma história engraçada e inteligente que combina trechos de alguma inocência narrativa com episódios de extrema violência física e emocional que pretendem retratar as atrocidades sofridas nas cidades alagadas às mãos das sucessivas milícias. Mahilia e Mouse são duas personagens resistentes que se adaptam às adversidades, mas que são responsáveis por grandes feitos que os destacam como heróis da história.
A combinação de todos estes elementos resulta numa história engraçada com alguns momentos de dispersão que resultam numa narrativa menos pesada do que seria expectável, uma boa história juvenil, ainda que de qualidade inferior quando comparada com as histórias mais adultas do autor.

