
Eis um texto curioso considerando a época em que foi escrito. Um texto subversivo em que o autor instiga à rebeldia e ao não cumprimento de algumas obrigações como cidadão. Esta seria uma forma de mostrar quebra em relação ao Estado, não o reconhecendo como instituição suprema – não só porque algumas leis não são justas, mas porque parece agir de uma forma mecânica que não dá espaço à evolução legal.
Não será possível que o indivíduo tenha razão e que o governo esteja errado? Aplicam-se leis pelo simples facto de terem sido feitas? Ou porque um certo número de pessoas as declararem boas, quando não o são de facto?
Questiona-se, sobretudo, o sistema legal e a sua cegueira – lá porque alguém redigiu uma lei, não quer dizer que esta seja justa e deva ser aplicada. Questiona-se, acima de tudo, o sistema de escravos, base de sustentação de um sistema económico que, na prática, é a verdadeira razão para se manterem, sob clausura, seres humanos.
Este texto, bem como o que se segue, no mesmo livro, Defesa de John Brown, terá tido raízes, não só na ideia de que as leis servem, por vezes, propósitos menos nobres e parcelas menos pobres da sociedade, mas também na prisão de John Brown, um homem que, tendo passado a vida longe das armas, não hesita em pegar numa para defender a fuga de escravos.
Chamado de loucos por muitos, menos nobres e rectos, John Brown, com os seus filhos e outros homens que alistou na sua causa, defendem, contra o estado, os ex-escravos, homens que fugiram dos seus donos e que procuram a liberdade.
Louco, não porque os princípios que expressa não sejam reconhecidamente correctos pela maioria, mas louco por ousar desafiar a autoridade ao invés de permanecer no conforto do lar, concordando silenciosamente com o texto escrito por alguém que defende o fim da escravatura.
Os homens, habitualmente, vivem segundo uma fórmula, e sentem-se satisfeitos desde que a ordem legal seja respeitada; neste caso, porém, voltaram aos preconceitos originais, dando-se assim um ligeiro reavivar da antiga religião.
De louco passa a julgado e condenado, morto pelo estado na aplicação do sistema legal existente, ainda que o seu discurso atordoe a mente de muitos que com ele concordaram.
Este pequeno livro foi publicado pela Antígona.
