Esta foi mais uma das boas surpresas que adquiri em Leilão. A capa tem um visual curioso, recordando a arte de David Rubin, ainda que mais contida, e a premissa é futurista e tecnológica, levando-nos para um mundo pós-apocalíptico. A expectativa foi cumprida e, até, nalguns momentos, ultrapassada.

A história começa com a chegada, à superfície de um planeta, de um humanóide, que terá perdido a memória de quem é, e os detalhes da missão. Deambulando pela floresta, encontra outros como ele que, aguardam impassivos enquanto são trucidados por macacos gigantes – até ao momento em que autoriza que se defendam.

O planeta será a Terra, numa época distante. A superfície do planeta terá ficado contaminada, sendo que alguns humanos se terão congelado para posteriormente regressarem e popularem a Terra novamente. Este humanóide, que depois se vem a perceber se um robot, será um dos que suporta a missão e acompanha o Homem que irá fundar a nova humanidade. Ao contrário dos restantes, este será o alfa, capaz de resistir a algumas ordens e dotado de capacidade de julgamento. Quando o Homem descobre que a sua parceira terá aterrado várias décadas antes e falecido à espera, a demência instala-se.

A narrativa apresenta vários elementos que costumam funcionar bem com os admiradores da ficção científica: mundo pós-apocalíptico, futuro distante, robots e tecnologia avançada. O resultado recorda O Planeta dos Macacos, dada a existência de várias espécies peludas que se assemelham a macacos. Estas espécies parecem viver numa espécie da Idade da Pedra, em tribos, mas de aparentemente simples expressão linguística / ou de inteligência. Por oposição ao referido filme, não parece existir propriamente uma civilização neste planeta distante.

Neste caso, a história opta antes por explorar o conceito da importância de uma espécie – será a humana assim tão importante que justifique a sua reintrodução no planeta que quase destruiu? Esta abordagem não é directa, nem explícita. O Homem irá continuar focado no seu objectivo, enquanto estuda as espécies locais, raptando-as e aprisionando-as, não lhes reconhecendo identidade ou relevância. É o andróide que parece aperceber-se dos contrastes e das injustiças, reagindo com sensibilidade e senso.

A perspectiva do andróide é, pois, a principal da narrativa, sendo através dos seus olhos que vislumbramos e nos alienamos do Humano que caminha para a loucura. É, também, pelos seus olhos, que sentimos empatia pelas espécies locais, mais simples, mas que revelam, também, sentimentos e relacionamentos familiares.

A narrativa aborda estes temas num desenvolvimento subtil, despertando empatia e criando envolvimento no leitor, numa progressão lenta mas cadenciada e propositada, que não deixa de lado a coerência dos acontecimentos ou o fluxo da história.

O desenho segue o visual da capa. A duas cores, entre os tons de cinzento e de vermelho, apresenta detalhes ligeiramente fantasiosos (ou destaca elementos tecnológicos), com personagens ligeiramente toscas, mas passíveis de captar empatia, transmitindo sentimentos e emoções. De novo, o desenho recorda Rubín, ainda que menos ostensivo – algo que apreciei. Os diálogos são quase sempre sucintos e objectivos, expressando o estritamente necessário para apresentar os conflitos e as interacções chave.

Resumindo, El Humano revelou-se uma surpresa agradável, quer a nível narrativo, quer visual, utilizando elementos cliché das histórias de ficção científica mas dando-lhes uma perspectiva interessante – até porque o cliché funciona se bem usado. Diria que mesmo as revelações ou surpresas finais não são totalmente originais, mas a perspectiva e o desenrolar são os elementos que distinguem esta história.