Um dos livros mais conhecidos de ficção científica, principalmente pela adaptação ao cinema por David Lynch, Dune é novamente publicado em português, depois de uma primeira edição em três volumes pela Livros da Brasil, agora desaparecida do mercado. Com quase 600 páginas, esta nova edição da Saída de Emergência terá sem dúvida como ponto fraco a capa: não que seja feia, mas por relembrar, como tantos já apontaram, o Imperador da Guerra das Estrelas.
Criado por uma Bene Gesserit, Paul Atreides é o único filho do duque Leto Atreides, resultado de uma combinação geneticamente feliz entre várias raças e casas nobres, a quem foi dado o treino de uma Benne Gesserit, ao lado de um treino de guerreiro.
Quando a família Atreides se torna suficiente poderosa para ser temida pelo Imperador, este resolve eliminar a família, recorrendo à fachada de um outra família nobre, e aproveitando a mudança para o planeta Arrakis, um planeta árido conhecido pelas intermináveis dunas, mas onde é produzida a especiaria, uma substância fulcral que desperta as capacidades mentais.
Treinado para sobreviver a tentativas de assassinato desde jovem, Paul sobrevive ao atentado com a mãe, escondendo-se entre os povos locais, para os quais a água é o bem mais precioso – todos os hábitos e costumes adquiridos ao longo dos tempos têm por objectivo preservar os líquidos, chegando a drenar-se a água dos corpos dos mortos.
Mas não é só à cultura do mundo de Arrakis que somos introduzidos: a raça humana espalhou-se pelo espaço, existindo várias famílias reais que governam os seus planetas, sob o Imperador. Ainda que não existam computadores, existem seres humanos que desempenham as mesmas funções analíticas, denominados de Mentats. O transporte entre os planetas é controlado pela Companhia, uma organização com cotas, que controla o poderio das famílias nobres. Também mentalmente poderosas são as Bene Gesserits, mulheres que usam a especiaria para poderem aceder a um local fictício na mente de onde se pode aceder a todos os locais em todas as épocas.
O meu primeiro contacto com a obra tinha sido há vários anos com o primeiro volume da edição Livros do Brasil, não tendo ficado particularmente fã. Finalmente li todo o livro e a minha opinião é, agora, bastante mais positiva. Aproveitando vários conceitos ecológicos para explorar a terramorfose num planeta de dunas, um dos pontos mais positivos da história será a forma como toda uma cultura humana se desenvolve em torno deste ambiente peculiar: filosofia, ciência ou religião.
Esta é uma óptima leitura, facilmente acessível a quem não seja particularmente fã do género da ficção científica, por não possuir termos técnicos ou explicações científicas. Como único ponto negativo realçaria a forma como Paul Atreides é um herói sem máculas, um ser superior, praticamente perfeito, o que deixa pouco espaço para o tornar uma personagem simpática.

“Como único ponto negativo realçaria a forma como Paul Atreides é um herói sem máculas, um ser superior, praticamente perfeito, o que deixa pouco espaço para o tornar uma personagem simpática.”
Não concordo com esta interpretação. Na minha óptica a Bene Gesserit pretende, e consegue, a criação do Ser Supremo por uma aturada e complexa manipulação genética, ora Paul é o produto desse projecto daí necessariamente nos ser apresentado como perfeito e imaculado, além disso a profecia da vinda do Kwisatz Haderach fala dum Messias e por definição os Messias devem apresentar-se puros e imaculados. Nesse sentido, o da descoberta de si próprio, este romance é o princípio e assim nos é apresentado Paul Atreides. Na continuação da trilogia clássica veremos então os defeitos e idiossincracias de Paul virem à superfície.
Bem, os próximos volumes ainda não os li, pelo que só posso falar deste 🙂
Mas o facto de ter uma personagem daquela perfeição limitou a simpatia que pudesse nutrir por ela – não é bem uma interpretação do texto, mais uma consequência, algo que, comigo não resultou bem.
Os próximos são mais «levezinhos». Lêem-se num fósforo. De qualquer forma agora que li melhor o teu parágrafo na crítica entendo que não é tanto «ponto negativo» em relação à personagem do Herbert mas antes «ponto negativo» na tua óptica. Eu diria mais, praticamente todas as personagens são algo frias e distantes à excepção da mãe de Paul Atreides que por amor se sujeitou ao que se sujeitou e ao treinador de Paul que permaneceu leal até ao fim. E, por estranho que possa parecer, também o traidor que fez o que fez por amor. No geral é um livro que se debruça mais sobre ecologia do que sobre pessoas. O João Barreiros há muitos anos no catálogo da Gulbenkian mencionava que era estranho um planeta sem água reter atmosfera. Gosto de pensar que Herbert emendou isso mais tarde por causa dele. 😀
É um livro que me desperta interesse, e segunda esta opinião deve ser bom, mas concordo contigo na capa, realmente não cativa muito, o que até estranho porque a SdE costuma ter capas bem apelativas, mas também não seria por isso que não o compraria. Para mim o problema deste volume é mesmo o preço … exorbitante.
Está na minha lista de desejos, mas não o vou adquirir tão cedo.
Sim, o preço é um pouco puxado. Mas deve ficar mais baixo entretanto, e se encomendares no site da Saída de Emergência ainda pode vir outro atrás 🙂