O que se vê da última fila – Neil Gaiman

De Neil Gaiman conheço mais os livros de fantasia do que a banda desenhada, tendo lido Sandman e Miracleman mais recentemente. Algo que sempre me surpreendeu é a capacidade que o autor tem para provocar a empatia com os leitores mesmo quando nos apresenta personagens com as quais nos pareceria difícil se as analisássemos friamente. Não só provoca empatia como aquela necessidade de virar a próxima página.

Apesar de conter vários textos, todos não ficcionais, esta sensação de texto a escorrer permanece. Neil Gaiman pode ser um escritor, mas lê o suficiente para carregar os textos com referências conhecidas de obras várias, demonstrando que é, nas áreas de conhecimento mais díspares que podem surgir ideias para uma nova história.

Era suposto que na manhã seguinte eu fizesse uma intervenção formal (em evento académico) acerca do tema dos mitos e dos contos de fadas. E quando chegou a altura, deitei fora os meus apontamentos e, em vez de lhes dar um sermão, contei-lhes uma história.

Era uma nova versão da história da Branca de Neve, contada do ponto de vista da rainha malvada. Levantava questões como: “Que tipo de príncipe se depara com o cadáver de uma rapariga num caixão de vidro e declara estar apaixonado e que irá levar o corpo de volta ao castelo” e, por falar nisso, “Que tipo de rapariga tem a pele branca como a neve, cabelo negro como o carvão, lábios vermelhos de sangue e permanece deitada, como se estivesse morta durante muito tempo?” Ao ouvirmos a história, apercebemo-nos de que a rainha malvada não era malvada: ela simplesmente não foi longe demais”.

O livro começa por apresentar as coisas em que Neil Gaiman acredita, e é fácil concordar com vários destes textos: a importância das bibliotecas para as comunidades como forma de escapar ao quotidiano menos positivo, a importância dos mitos que são menorizados pelos académicos como histórias lineares para crianças ou a liberdade de expressão.

Ao apresentar um conto de fadas tradicional com algumas questões extra Neil Gaiman demonstra que estas histórias tem nuances não perceptíveis pelos leitores comuns. Nem pelos académicos. Já na componente da liberdade de expressão apresenta uma história em torno de Outrageous Tales, onde se apresentam várias histórias bíblicas do velho testamento, passagens que já são, no seu original, bastante violentas.

Neil Gaiman segue falando sobre alguns dos autores mais reconhecidos nos géneros do fantástico (não pode faltar, claro, Terry Pratchett) ou sobre livros, como Fahrenheit 451, passando, também, pelos prémios Nebula. Mais tarde, irá falar, também, de música e de outros autores, alguns controversos, como Kipling ou Lovecraft.

Comentam erros. Cometam erros crassos, cometam erros maravilhosos,  cometam erros gloriosos. É melhor cometer cem erros do que ficar a olhar para uma página em branco com receio de fazer alguma coisa mal, com receio de fazer seja o que for

Este é um conselho que vamos ver em vários discursos de Neil Gaiman. O que ele nos diz é que, não sabendo escrever, iniciou-se com o jornalismo e com ele treina uma escrita limpa de floreados e artefactos. Paralelamente vai escrevendo ficção. E com o escrever ganhou o treino que pretendia.

De vez em quando mete-se em projectos que sabe não ter as bases teóricas, mas com este desconhecimento fez, por vezes, a novidade. Na prática, o que o autor aconselha é a realização de todos os projectos que se conseguir, treinar e produzir, no estilo próprio de cada um, não ter medo de errar, uma e outra vez.

O que se vê da última fila é um livro de agradável leitura onde o autor expressa ideias sobre a produção de ficção e sobre a vida, demonstrando o fascínio por outros artistas, sejam desenhadores ou escritores. Ainda que ache que alguns dos livros do autor não obtiveram o efeito desejado em mim como leitora, as ideias expressas por Neil Gaiman são coesas e facilmente transforma episódios que viveu em relatos vivos para serem apreciados pelo leitor.

O que se vê da última fila foi publicado em Portugal pela Elsinore.

Resumo de leituras – Novembro de 2017 (4)

219- Ecos invisíveis – Tony Sandoval e Grazia La Padula – Com desenhos particularmente emotivos onde se realçam as expressões, Ecos invisíveis é uma pequena história envolvente que segue um homem que perdeu a esposa. Este episódio trágico provoca o despertar de uma capacidade que o leva a isolar-se;

220- A Asa Quebrada  – Antonio Altarriba e Kim – Depois de fazer uma banda desenhada em torno do pai, Altarriba percebeu que tinha sido injusto com a mãe, a mulher que viveu toda a vida com um braço aleijado sem que ninguém tenha dado por isso, nem o marido ou o próprio filho;

221 – Homem-aranha Vol.5 – Este volume apresenta uma aventura onde os Santeiros têm um papel preponderante. Quando um homem regressa à vida depois de enterrado muitos parecem crer num milagre mas o homem parece comportar-se de maneira diferente e provavelmente o seu regresso terá origens obscuras;

222 – As serpentes de água – Tony Sandoval – Uma menina aventureira encontra a parceira de brincadeiras perfeita – muito imaginativa e algo lunática, andar com ela é uma diversão. Mas quando se apercebe que nem o irmão a vê, só a ouve, apercebe-se que a nova companheira de brincadeiras não é mesmo uma menina normal;

223 – Alice num mundo real – Isabel Franc e Susanna Martin – A autora enfrenta o cancro da mama a apresenta os vários passos e situações por que passou de uma forma leve com pitadas de humor;

224 – Homem-aranha Vol.6 – Este volume marca o início da Guerra Civil com o homem de ferro a puxar Miles Morales para o seu lado.

El Sueñero – Enrique Breccia

Eis um livro que difere bastante em tom entre os primeiros e os últimos episódios. Talvez porque, como explica o próprio autor, no início, o intuito e a publicação dos primeiros diferente bastante dos últimos. Enquanto o início se destinava a um editor catalão, com espaço e tempo imprecisos, e explorando várias figuras mitológicas, com o corte por parte deste, a obra passa a ser lançada na argentina, com possibilidade para explorar uma componente mais política.

A história começa num futuro em que a humanidade atinge, finalmente a paz. Mas com a paz vem a inércia e os humanos deixam de ter objectivos concretos. Contrata-se, então, um antigo guerreiro para procurar, no espaço e no tempo, outros guerreiros que possam construir uma espécie de circo, um espectáculo de gladiadores, que forneça novo propósito de vida aos cidadãos.

Num barco destinado a todos os portos existentes e por existir, o guerreiro começa com o Minotauro, besta conhecida pela sua ferocidade, que convence a acompanhá-lo. Entre lobisomens e outras figuras da mitologia catalã, assistimos a fantásticas deambulações pelos caminhos dos contos e crenças rurais.

O conjunto de personagens que se reúne no barco é caricato e logo há-de ir parar às guerras civis argentinas onde se exploram as motivações e as personagens históricas da Argentina. Não faltam, também, os toques das crenças populares, com personagens míticas e sonhadoras, monstros reais e surreais.

De aspecto caricato, por vezes sonhador, este El Sueñero é, apesar das oscilações de tom e conteúdo, um conjunto engraçado com bons momentos que entrelaçam o futurismo com o fantástico ou com a história da humanidade.

Resumo de leituras – Outubro de 2017 (8)

183 – Kingsman – Serviço secreto – Mark Millar, Dave Gibbons e Matthew Vaughn – Nem todos os agentes secretos têm uma origem aristocrática. A história apresenta um jovem numa existência problemática, um bairro carregado de vícios e vazio de possibilidades que dita o destino criminoso de quase todos os que nele habitam. Felizmente para este jovem o tio é um grande agente secreto que tentará levar o sobrinho a seguir-lhe as pisadas por um caminho demasiado árduo;

184 – Tony Chu Vol.7 – John Layman e Rob Guillory – O sétimo volume mostra um Chu mais determinado e focado, enquanto os casos exploram as possibilidades dos vários poderes envolvendo comida. Menos centrado em Chu, é um volume nojentamente divertido carregado de peripécias mirabolantes;

185 – Strange Fruit – J.G. Jones e Mark Waid – Uma história que aproveita um período marcante da história americana em que a população afro-americana, apesar de livre, continua a ser vista como propriedade, trabalhadores inferiores que podem ser comandados e dispostos como gado. O período das cheias intensificou as tensões existentes, mas neste volume cria-se um herói que vira a calamidade eminente;

186 – As Bruxas – Stacy Schiff – Uma reconstrução interessante em torno dos acontecimentos que envolveram Salem e o surgir de um sem fim de bruxas no meio de uma comunidade que seria tão religiosa. Tédio, falta de atenção, possibilidade de não trabalhar – as acusações partem de um pequeno grupo de raparigas que se dizem embruxadas e que vão acusando vários elementos da comunidade. Começam com os alvos fáceis e vão aumentando de importância as suas vítimas;

187 – Tio Patinhas 2 – O segundo volume de Tio Patinhas possui uma série de aventuras, diversas, carregando fortes componentes de ciência e mistério, mas nem sempre centradas na personagem que dá nome ao volume;

188 – Um gladiador só morre uma vez – Steven Saylor – Há mais de uma década li todos os livros publicados, em português, da série Sub-Rosa. Com este volume volto à mesma Roma, com uma série de pequenos mistérios, alguns de fácil solução, em que Gordiano se apresenta não só como o Descobridor, mas como um homem responsável e dedicado à família.

Resumo de leituras – Outubro de 2017 (6)

173 – The Overneath – Peter Beagle – Livro de contos de um mestre! Com algumas histórias excelentes e outras menos envolventes, não há que negar a capacidade de escrita do autor. Mesmo quando os contos são menos interessantes revelam-se bem construídos e coesos;

174 – Histórias de um rapaz mau – Thomas Bailey Aldrich – A infância e a adolescência do autor enquanto rapaz endiabrado e dado para as partidas e aventuras sem medir as consequências;

175 / 176 – Os trilhos do acaso – parte 1 e 2 – Paco Roca – Incidindo sobre os refugiados da Guerra Civil Espanhola, Os trilhos do acaso é um relato muito humano em torno de um refugiado que se tornou soldado e que acabou entre os franceses a guerrear contra Hitler. Actualmente é um velhote, um herói anónimo do qual ninguém sabe a história.

Resumo de leituras – Outubro de 2017 (4)

165 – O lar da Senhora Peregrine para crianças peculiares – Ransom Riggs – Uma história mais voltada para um público juvenil com características engraçadas, falhando apenas nas coincidências narrativas que, não só simplificam a história, como fazem perder alguma credibilidade. Tirando este detalhe não é uma história condescendente e apresenta elementos fantásticos interessantes;

166 – Tempos Amargos- Étienne Schréder Antes de se tornar um conhecido autor de banda desenhada, Schréder foi um sem abrigo, entre a Bélgica e a França, bêbado e companheiro de diversos outros homens que, como ele, deambulavam com o único objectivo de conseguir mais um copo de vinho;

167 – Memórias do eterno presidente – Benoit Peeters Uma história pós-apocalíptica e distópica que mostra uma sociedade que paga o crime moral de, anteriormente, terem ascendido à categoria de deuses e ousarem manipular a Natureza. Um rapaz encontra um livro e é este encontro que abre um novo futuro;

168 – Fables Vol.14 Witches – Vários – Quando as fábulas pensavam que poderiam retornar aos seus Mundos após a queda do Império, eis que surgem novas ameaças, monstros fantásticos que se libertam e ameaçam as personagens dos contos de fadas.

Resumo de leituras – Outubro de 2017 (3)

161 – A Dança das Andorinhas – Zeina Abirached – Numa cidade dividida por um muro e por uma guerra, sair à rua para visitar um vizinho é uma pequena aventura mortal. Os sobreviventes que resistem na cidade agrupam-se em pequenos serões quase familiares enquanto os bombardeamentos e as más notícias continuam a chegar;

162 – Lágrimas na chuva – Rosa Montero – Livro de ficção científica que me passou despercebido aquando do lançamento, revelou uma extraordinária história futurista com humanos replicados de curta duração, alienígenas (alguns refugiados, outros nem tanto) e colónias fora da terra com legislação própria. Um cenário excelente para explorar preconceitos, racismo e manobras de manipulação de opinião pública;

163 – Clockwerx – Vários Graficamente excelente, possui algumas lacunas narrativas. A história é algo linear, mas o volume compensa pelos magníficos robots de aspecto retro no ambiente soturno de uma Londres há muito extinta;

164 – Cage – Azzarello, Corben e Villarrubia – A dureza das ruas nada é para o nosso herói ainda mais duro. Resistente às balas é mais susceptível aos murros e mostra numa história curta como se podem fazer más escolhas nos bairros mais pobres.

Novidade: Emal – Quando a Guerra Fria Aqueceu – Miguel Santos

Eis novo título da Escorpião Azul que parece interessante, que decorre numa realidade alternativa. Deixo-vos a sinopse e algumas páginas:

A Guerra Fria aqueceu e as super-potências devastaram o hemisfério norte com fogo nuclear. O 25 de Abril nunca aconteceu.

Milhares de refugiados fogem das ruínas de Portugal para o Ultramar, onde novos senhores da guerra competem com os últimos resquícios do Império. E esta é a história de um homem determinado a encontrar um sentido para tudo isto.

 

Assim foi: Fórum Fantástico – as escolhas do ano

 

A minha selecção era um pouco mais alargada, abrangendo obras portuguesas como Lovesenda, Anjos e As nuvens de Hamburgo. Havendo sobreposição com escolhas de outras pessoas (e sabendo que iriam ser muito bem tratadas) retirei da minha secção.

Eis ligações para opiniões mais detalhadas dos livros escolhidos. Infelizmente o João Barreiros não tem blogue próprio (apesar de ter começado a transcrever algumas opiniões para um blogue próprio que deixei de ter tempo de manter).

 

Assim foi: Fórum Fantástico 2017

As diferenças

O Fórum Fantástico cresceu, este ano, de forma bastante positiva! Por um lado notou-se a forte aposta em workshops, o que possibilitou integrar camadas mais jovens e manter um programa mais dinâmico. A par com a usual (e fantástica) impressão a 3D organizada pelo Artur Coelho, houve espaço para desenvolver a imaginação dos mais pequenos, construir Zepellins e armaduras, ou para aprender um pouco mais de ilustração com Ricardo Venâncio.

Por outro, é de realçar a maior ocupação do espaço da Biblioteca Orlando Ribeiro que deu nova vida ao espaço – era impossível não reparar na tenda que ocupava parte do pátio com uma pequena feira do livro, onde se viam exemplares de livros de ficção científica e fantasia, sem faltarem os da autoria de Mike Carey, o escritor convidado deste ano. Nesta pequena feira do livro exterior encontravam-se a Leituria e a Dr. Kartoon.

Mas não foi só com a feira do livro que houve uma maior ocupação do espaço. O bom tempo permitiu a existência de bancas de produtos diversos, com especial destaque para o Steampunk (ou não estivesse a decorrer a EuroSteamCon integrada no Fórum Fantástico), bem como de mesas e cadeiras no exterior que permitiram usufruir do bom tempo. O terraço, bem como outras salas da biblioteca foram ocupadas, permitindo a apresentação de jogos de tabuleiro (com participação da Morapiaf) e a exibição de pranchas de Ricardo Venâncio.

E as diferenças não acabaram por aqui – a existência de um bar aberto durante todo o evento facilitou a permanência no Fórum Fantástico pois em anos anteriores era usual ter-se de deixar o recinto para comer alguma coisa. O menu, fantástico, possuía várias alusões ao evento e a comida fornecida era de boa qualidade (pela Cacaoati).

Mike e Linda Carey

Mike Carey produziu mais de 200 comics, vários livros e guiões para cinema. Com a adaptação para cinema de The Girl with all the gifts tem-se tornado cada vez mais requisitado. Por sua vez, Linda Carey escreveu também alguns livros (alguns sob pseudónimo). O destaque para a imensa obra, principalmente a de Mike Carey, serve para contrastar com o espírito que ambos demonstraram, sem prepotências ou projecções de importância, atenciosos e simpáticos durante todo o evento.

Na sexta-feira Mike Carey, conjuntamente com Filipe Melo e José Hartvig de Freitas, falou da larga experiência na produção de comics, da forma como trabalha com diversos desenhadores e da sua própria evolução e adaptação. Destacou-se a produção da série Unwritten, ideia que surgiu em cooperação com Peter Gross, com o qual já se habituou a desenhar. Foi uma palestra interessante e bem disposta.

No Sábado decorreu a conversa com ambos, Mike e Linda Carey, moderada por Rogério Ribeiro, mais voltada para os restantes livros (fora do formato da banda desenhada) onde se falou intensivamente do The Girl with all the gifts, que foi escrito em simultâneo com a adaptação, para cinema, da mesma história. Ambos os autores demonstraram uma queda para pequenos elementos subversivos nas suas histórias.

As restantes palestras de sexta

E com esta nomenclatura não pretendia referir menor prestígio das restantes palestras, mas sim destacar as que envolveram o autor convidado.

15:30 – Sessão Oficial de Abertura do Fórum Fantástico 2017

O Fórum iniciou-se na sexta (para mim, que não pude ir aos worksops) com uma sessão de apresentação de João Morales e Rogério Ribeiro onde expuseram algumas das diferenças deste ano e destacaram algumas sessões e workshops.

16:00 – Sessão “A Ficção Científica: Espelho de ansiedades políticas e pessoais”, com Jorge Martins Rosa, Maria do Rosário Monteiro, Daniel Cardoso e Aline Ferreira

Nesta sessão referiram-se várias obras e respectivas projecções das ansiedades sociais, não só em relação à evolução tecnológica e respectiva perda dos papéis tradicionais (com especial referência à mulher grávida e aos úteros artificiais), como a novos modelos sociais.

16:45 – Sessão “O lugar do Fantástico na Arte Contemporânea”, com Carlos Vidal, Henrique Costa e Opiarte – Núcleo de Ilustração e BD da FBAUL

A sessão apresentou a Opiarte enquanto espaço que permite, a alguns artistas, explorarem a vertente fantástica e de ficção científica nos seus trabalhos, espaço que visou responder a uma necessidade sentida pelos alunos da faculdade. Durante a sessão mostraram-se trabalhos produzidos neste núcleo, alguns dos quais se destacam pela qualidade.

17:45 – Sessão “Narrativa em Videojogos”, com Nelson Zagalo, Ricardo Correia e João Campos

(Cheguei no final)

As restantes palestras de sábado

14:30 – Sessão “Identidades autorais”, com Ana Luz, Joel Gomes e Pedro Cipriano

Os autores aproveitaram o espaço para falar sobre o seu percurso enquanto escritores, desde influências a desenvolvimento de método (destacando-se a referência de Ana Luz ao conto O Teste de João Barreiros), mostrando os livros em que já participaram, bem como os projectos futuros em que se encontram envolvidos.

16:00 – Lançamento “Almanaque Steampunk” (Editorial Divergência)

Cada EuroSteamCon costuma ser acompanhada pela publicação de um Almanaque Steampunk. O deste ano foi produzido em tempo recordo com a colaboração da Editorial Divergência. Ainda não tive oportunidade de ler, mas a publicação é curiosa, bastante atractiva visualmente, com conteúdos diversos e que promete bastante diversão para o leitor.

17:45 – Sessão “Prémio Adamastor”, com João Barreiros e Luís Filipe Silva

O prémio Adamastor este ano foi atribuído a João Barreiros e Luís Filipe Silva, dois dos poucos autores de ficção científica portuguesa que se têm destacado na divulgação do género dentro e fora do país. De realçar as várias antologias que João Barreiros organizou recentemente, bem como as colecções que organizou enquanto editor. Por seu lado, Luís Filipe Silva tem participado em diversas Con’s onde fala da ficção especulativa portuguesa, divulgando o que se fez em Portugal há várias décadas e o que se continua fazendo.

18:00 – Sessão “Dormir com Lisboa”, com Fausta Cardoso Pereira

Premiado e publicado na Galiza pela Urco Editora, Dormir com Lisboa é um romance de ficção especulativa que decorre na capital portuguesa, partindo da premissa de desaparecimento injustificável de várias pessoas. A passagem lida por João Morales denota um humor peculiar, com caricaturas de personagens e situações insólitas.

18:30 – Lançamento “Apocryphus #2”, com Miguel Jorge

Este projecto de banda desenhada português apresentou, no primeiro volume, uma qualidade gráfica excepcional, com elevado cuidado no tipo de papel utilizado e uma selecção cuidada de autores. À semelhança do primeiro volume, também o segundo foi publicado no Fórum, com a presença de tantos autores que por pouco transbordavam do palco.

Restantes palestras de Domingo

Infelizmente, Domingo apenas pude assistir à palestra do João Morales, Novas Metamorfoses Musicais, para além de participar em As Escolhas do ano com João Barreiros e Artur Coelho (sobre a qual dedicarei uma entrada específica para publicar as escolhas de cada um, como é usual).

A sessão de João Morales demonstrou o usual bom humor, com óptimas escolhas musicais onde se cruzam estilos e épocas, novas conjugações de musicas conhecidas em que destaco as seguintes:

(Venus in Furs: Versão portuguesa em Uma Outra História)

No final, há a destacar que o Fórum Fantástico é um evento TOTALMENTE gratuito, onde, todos os anos, várias pessoas se organizam para proporcionar, ao público, três dias de extrema diversão geek!

Eventos: Fórum Fantástico – segundo dia

O programa de Sábado é bastante marcado pela vertente Steampunk (não estivesse a decorrer o EuroSteamCon no mesmo espaço) destacando-se os workshops de criação de Zeppelins ou de criação de armaduras e props, bem como duelos de chá e o lançamento do Almanaque Steampunk deste ano.

A parte da tarde é, ainda, marcada pela conversa I See Dead People entre Mike Carey e Linda Carey, bem como pelo lançamento do segundo volume de Apocryphus, dedicado ao crime – um livro com excelente aspecto visual que ainda não tive oportunidade de ler, mas que espero poder detalhar nos próximos dias. Estou, também, curiosa, quanto à apresentação de Dormir com Lisboa de Fausta Cardoso Pereira. Aproveito, para vos deixar algumas páginas de Apocryphus:

 

 

1602 – Witch hunter Angela – Bennett, Gillen e Hans

O mundo deste volume começou com 1602, um livro de Neil Gaiman que apresenta uma realidade alternativa onde os super-heróis apareceram durante os Descobrimentos, em auge pleno da Inquisição. Julgados como aberrações, demonstrações do poder do diabo ou resultado de bruxarias, os heróis surgem em meio pouco propício e facilmente acabam na fogueira.

Depois de 1602 de Neil Gaiman seguiram-se outras aventuras no mesmo Universo por outros autores, Fantastic Four ou Spider Man, aventuras mais standard num enquadramento diferente. Em Witch hunter Angela o ambiente difere de todos os volumes anteriores, com um ambiente mais negro e denso que contrasta a religiosidade com a magia, conferindo à caçadora de bruxas um aspecto angelical apesar da sua missão.

Entre peças de teatro e apresentações da corte que revelam monstros entre humanos, Angela avança, implacável e impiedosa, percebendo que alguns dos novos monstros não nasceram assim, mas escolheram o seu próprio destino e são, por isso, menos propensos à sua piedade ou simpatia.

Mas até a caçadora tem pontos fracos e será através destes que será testada e corrompida, manipulada apesar da força que demonstra. O poder da magia encontra-se em todo o lado, alimentado pelas preces de quem pouco tem e algo precisa.

Com coloração densa, escura e brilhante, a maioria das páginas contém uma composição arrojada que nem sempre está de acordo com a história que se apresenta, de narrativa mais classicamente fantástica apesar dos toques de super-herói, em que personagens conhecidas como Fury ou os Guardiões da Galáxia.

Ainda que, visualmente, não me tenha agradado (salvo algumas páginas) a história é interessante por cruzar personagens históricas com o Universo Marvel, e por retirar a perspectiva simplista de bom / mau usada nalguns outros volumes. Angela chacina os que já não são humanos sem dó, a serviço de algo em que acredita.

Outros volumes do Universo 1602

Comix N.º200

Este é último volume desta colecção. Em troca a Goody lança três novas, dedicadas cada uma a uma personagem diferentes da Disney, Tio Patinhas, Mickey e Donald. Este último volume inicia-se com uma história de viagens no tempo em que o vilão, submetido a hipnose, percebe que o Mickey frustrou os seus planos de controlar o mundo.

A partir daqui, por forma a salvar a Minie, o Mickey tem de viajar ao passado, percebendo que a sua viagem já estava pré-determinada e seria necessária para compor o passado. Uma história engraçada que nos faz rever o estilo antigo de Mickey.

Depois de A Queda do Morcego onde se mostra uma aventura menos bem sucedida de Morcego Verde, Donald enfrenta em lobisomem em A Ameaça de Loup Garou e o Tio Patinhas vê o seu bom nome em perigo por conta de um plano da Maga Patalógica.

Populada, sobretudo, por histórias leves e engraçadas, este volume reúne várias personagens Disney num conjunto diverso que toca levemente nas temáticas da ficção científica e da fantasia.

Resumo de leituras – Setembro de 2017 (3)

137 – Iraq + 100 – Vários autores – Sem grande tradição no género, foram convidados vários autores para perspectivarem o futuro do país. O resultado é diverso, com altos e baixos. Ainda que a qualidade não seja grande ao longo de todos os contos, a verdade é que vamos descobrindo excelentes e inesquecíveis contribuições;

138 – Valerian Vol.4 – O Embaixador das Sombras / Em terras fictícias – O quarto volume apresenta duas histórias que me parecem de qualidade distinta. A primeira expressa toda a variedade e originalidade que já espero da série enquanto na segunda se simulam várias viagens no tempo numa sucessão de rápidas missões em que Valerian é clonado e enviado;

139 – One Punch Man. Vol. 1 – One e Yusuke Murata – Não estou habituada a ler este género, mas achei este volume fabuloso. O nosso herói é meio deprimido, principalmente pela facilidade com que acaba com os monstros, num só murro. Com uma excelente qualidade gráfica, por vezes em desenhos detalhados, por vezes em imagens mais estrondosas, apresenta um herói pouco típico em episódios ligeiramente cómicos pelo tom;

140 – Os Ignorantes – Étienne Davodeau – Dois homens trocam paixões. Um expressa a paixão pelas vinhas e pela produção de vinho ensinando ao autor da banda desenhada todos os detalhes que rodeiam o seu quotidiano. Por sua vez, o autor mostra obras de banda desenhada diversas, entre o francobelga e o comic americano, obtendo respostas pouco esperadas para algumas das obras.

Halt-5 – Vários autores

Este é o quinto volume de H-Alt, uma revista que cria parcerias entre narradores e desenhadores para, juntos conseguirem criar histórias de melhor qualidade, tanto a nível visual como narrativo.

Ainda que não seja dos meus volumes favoritos, H-Alt continua a mostrar-se como uma boa compilação de histórias, com algumas re-edições e traduções, numa combinação agradável e interessante, onde se exploram, sobretudo, premissas de ficção especulativa, seja ficção científica, fantasia ou terror.

 

Resumo de leituras – Setembro de 2017 (1)

 

129 – Polina – Bastien Vivés – A vida de uma bailarina de sucesso não é linear. Começando como bailarina clássica e passando à dança contemporânea, Polina foi sendo reconhecida pelo seu talento em alturas chave. Uma altura de grande tensão causou a mudança para a Europa e, consequentemente, marcou a carreira de forma decisiva;

130 – Dylan Dog – Mater Morbi – Recchioni e Carnevale – Banda desenhada excelente que aproveita a personagem para a apresentar sob maleita e, consequentemente, dependente. O tema da doença é abordado de forma pouco usual numa história complexa e interessante;

131 – Fireside Magazine – Issue 44 – Revista de ficção especulativa pouco conhecida que tem alguma ficção interessante. Nota-se a necessidade de mais forte edição, por forma a conferir voz mais forte a boas ideias;

132 – Comix 200 – Último número da Comix apresenta histórias engraçadas onde não faltam as viagens no tempo e os feitiços malignos contra o Tio Patinhas.

Resumo de leituras – Agosto de 2017 (5)

 

121 – Homem-Aranha Vol.1 – Slott e Pérez – Primeiro volume que mostra como surgiu o Homem-aranha, história já conhecida por muitos, mostra também como surgiu um dos seus inimigos, um vilão que, tal como Homem-Aranha se interessa por ciência;

122 – Valerian Vol.2 O Império dos Mil Planetas / O País sem estrela – Mézières – Depois de um primeiro volume centrado em combater um vilão usando viagens no tempo, este segundo dedica-se a viagens intergalácticas, apresentando civilizações diversas e imaginativas, carregadas de elementos originais que enriquecem grandemente a história global;

123 – Anjos – Carlos Silva – Um dos poucos livros de ficção científica portugueses que não é de um dos autores usuais. Carlos Silva tem publicado no género mas, até agora, sempre pequenos contos e, com Anjos arranca para os romances com uma história movimentada, num Portugal alternativo carregado de tecnologia e lutas subversivas pelo poder total do país;

124 – As nuvens de Hamburgo – Pedro Cipriano – Uma jovem tem a capacidade de viajar instantaneamente no tempo. Mas é um dom que não controla que descobre na cidade de Hamburgo quando começa a ter visões de um outro tempo em que os nazis tinham o controlo da cidade. Sem perceber o que origina as visões percebe que em quase todas se encontra o mesmo soldado.

The new voices of fantasy – Vários autores

O mercado anglo-saxónico de ficção especulativa vai-se renovando, seguindo novas tendências, estilos e culturas, gerando cruzamentos impensáveis entre géneros em contos que reflectem as preocupações do seu próprio tempo. Ao longo dos anos vão surgindo novos autores que começam a ser conhecidos pelos contos destacados por prémios ou em antologias de melhores do ano. Este volume pretende reunir algumas histórias destes novos autores e destacá-los como promissores para os próximos tempos.

A antologia começa com um conto de Alyssa Wong, a quarta história publicada da autora, com a qual venceu o Nebula e o World Fantasy Award (a mesma história que foi, também, nomeada para um Shirley Jackson, um Bram Stoker e um Locus Award). Claro que prémios e nomeações não são garantia de boas histórias, mas este conto, Hungry Daughters of Starving Mothers contém detalhes de horror e fantástico num cenário actual onde a corrupção alastra, resultado do consumo imediato e da fome interminável.

Selkie stories are for losers é a história seguinte da autoria de Sofia Samatar, uma autora que não é propriamente uma voz emergente, antes uma autora já reconhecida no género com histórias como A Stranger in Olondria que venceu vários prémios. Cruzando lendas diversas sobre mulheres que se mantém entre os humanos até ao momento em que alguém encontra a sua antiga pele (ou descobre que são algo mais do que parecem), esta história quase banal consegue surpreender pela estrutura e desenvolvimento.

Depois de tornados apaixonados por raparigas (em Tornado’s Siren de Brooke Bolander que apenas possui como elemento distintivo o tornado capaz de sentimento) encontramos Left the century to sit unmoved de Sarah Pinsker que nos traz um fenómeno local, um lago que faz desaparecer totalmente algumas pessoas sem critério específico – mesmo depois de drenado o lago apenas se encontram os objectos e roupas da pessoa.

Max Gladstone também não é propriamente um autor desconhecido, escrevendo sobretudo fantasia urbana. Em A Kiss With Teeth não foge ao género mas apresenta uma das melhores histórias do conjunto, com um tom levemente cómico sobre as preocupações de um pai que vê o seu filho ter más notas. Como pai tenta perceber o que se passa, mas a sua própria natureza torna difícil ajudar sem dicas da professora, a presa perfeita. Ah. É que o pai é um vampiro reformado que tenta passar por humano, simulando os nosso gestos e forma de andar.

Em The Cartographer Wasps and the Anarchist Bees de E. Lily Yu explora-se uma premissa que não é totalmente nova. Recordo que em The Bees de Laline Paull já se apresentava a vida numa colmeia apresentando aspectos sociais da hierarquia e como esta poderia ser subvertida por um único elemento. Confrontando as abelhas com as vespas possuidoras de uma tecnologia mais avançada este conto de E. Lily Yu consegue ser um relato apaixonante sem necessitar de se centrar num único elemento, e comparar vários sistemas de sociedade.
A. C. Wise traz-nos outro dos melhores contos do conjunto, um guia cómico de como a bruxa pode arranjar uma casa. Começando com as formas aborrecidas como aquisição e ocupação, passa por nos apresentar como se pode domar uma casa ou fazer crescer uma, expressando para cada método os cuidados a ter (os humanos podem não gostar muito de ter uma bruxa dentro de casa e podem tentar queimá-la, por exemplo, ou a casa pode pregar partidas a quem a tenta influenciar).
Depois de Hauting o Apollo A7LB (um conto que já conhecia da excelente colectânea do autor Hannu Rajaniemi), segue-se uma história irónica de Chris Tarry, Here be dragons, onde dois homens simulam a existência de dragões para extorquírem dinheiro das vilas mostrando depois entranhas de vários animais como prova de uma chacina. Um dia esta trapaça pode voltar-se contra os supostos salvadores – de mais formas do que o leitor imagina.
Mais juvenil, mas enternecedora pela forma inocente e desiludida como nos apresenta o amor de um pato por uma rocha, The Duck de Ben Loory é um dos contos que vale a pena ler, nem que seja para ver a forma como transforma este premissa simples e aparentemente idiota numa boa história.
Publicado no The New Yorker, The Philosophers de Adam Ehrlich Sachs traz uma história demente de problemas genéticos hereditários que supostamente não trariam problemas psicológicos. Geração após geração, os homens desta família perdem na idade adulta todos os movimentos e passam a comunicar com os restantes recorrendo ao piscar de olhos com o intuito de transmitir as próximas palavras do seu livro. Arrepiante, claustrofóbico e assustador pela degradação, é um bom conto que vai elevando a premissa ao extremo absurdo .
Esta colectânea termina com uma novela mais longa, The Pauper Prince and the Eucalyptus Jinn, de Usman T. Malik, que se centra na problemática da emigração e da integração cultural sob uma fábula contada pelo avô (talvez demente) que recorda interacções com princesas e génios e que foi mudando de país em país até atingir determinados objectivos. Demonstrando como existe sempre muito para revelar da vida dos nossos antepassados, segredos dolorosos que ficaram enterrados, feitos que se silenciaram pelas circunstâncias, esta é uma novela excelente.
Ainda que não tenha apreciado todos os contos de igual forma, até porque os estilos e géneros são muito diversos, esta colectânea possui uma qualidade narrativa bastante elevada. Nem todas as histórias apresentam elementos que se destaquem pela originalidade, mas todos se encontram bem escritos e estruturados. São, na sua maioria, contos que possuem o necessário para envolver, mas sem excesso de detalhes que quebrem o ritmo ou desbalanceiem a história. Para os interessados em se actualizar para o que tem sido publicado recentemente, eis uma boa aposta.
(esta colectânea foi fornecida pela editora via NetGalley)

Resumo de Leituras: Maio de 2017 (2)

65 – O Incrível Hulk – Part 1 – Greg Pak, Carlo Pagulayan e Aaron Lopresti – O primeiro volume desta aventura coloca o herói num planeta carregado de estranhas espécies alienígenas que farão parte dos mais espectaculares cenários de batalha. A narrativa, apesar de possuir pontos cliché, consegue surpreender nalguns pontos com a progressão no segundo volume;

66 – Monstress – Vol.1 – Marjorie Liu e Sana Takeda – Fascinante, fabuloso, negro e imenso. Assim é o mundo de Monstress, de forte influência oriental onde os gatos possuem um papel preponderante;

67 – Herland – Charlotte Perkins Gilman – Um grupo de exploradores procura uma sociedade composta apenas por mulheres esperando encontrar a mais primitiva das combinações. O que encontra é a irmandade perfeita, evoluída mental e tecnologicamente com uma progressão estável – um choque para estes homens habituados a ver as mulheres como potes, belos, indefesos e utilizáveis;

68 – Apenas um peregrino – Garth Ennis e Carlos Ezquerra – Uma história violenta num mundo pós-apocalítptico carregado de salteadores e monstros, onde um homem, justiceiro, religioso mas obscuro, se coloca como bom samaritano, apesar da sua postura violenta e assustadora.