Almanaque – Curtas de BD – André Oliveira e Vários Artistas

Almanaque, a mais recente aposta da Bicho Carpinteiro, reúne várias histórias criadas por André Oliveira na qualidade de narrador, e por vários desenhadores. Algumas destas histórias foram criadas para a Cais, publicação para a qual André Oliveira produziu regularmente durante algum tempo, e outras são inéditas.

Tendo sido criadas em alturas diferentes com objectivos distintos, as histórias oscilam em temas e tons criando uma amostra bastante diversa das possibilidades narrativas compostas por André Oliveira. O volume abre com a arte de André Diniz, e passa à de Rui Lacas (ambas facilmente reconhecíveis em estilo), seguindo-se uma reformulação moderna de Volta ao Mundo em 80 dias (com desenhos de Phermad).

Entre as histórias encontramos narrativas de ficção científica (com uma invasão alienígena que critica a paixão dos humanos pelos desportos, ou com um primeiro contacto embaraçoso), narrativas cómicas (onde se retratam as impossibilidades de execução de várias tarefas por um T-Rex ou um dentes de sabre, por exemplo) e de fantasia (com velhos e novos deuses).

Não faltam os temas mais mundanos, como a diversidade da vizinhança, a fanfarronice ou a velhice. Existe espaço para a morte e para a saudade, para a confidência e para a família. Explora-se a cidade e o campo. O passado e o futuro. Cruzam-se conceitos e ideias, ironiza-se em tiradas imaginativas, recolhe-se o pensamento em perspectivas mais íntimas.

Tudo isto, em pouco mais de 60 páginas, muito bem aproveitadas, em que André Oliveira explora vários tons e temas, acompanhado por diversos artistas que ajudam a conferir, a cada história, uma aura muito própria. Tal como estados de espírito, estas histórias oscilam e fazem oscilar humores, aconselhando-se, por isso, que a sua leitura se faça aos solavancos. Uma história de cada vez.

Entrevista com André Oliveira

Outras obras do autor

O Feminino no Fantástico

Antologia de contos de ficção científica e fantástico onde o corpo da mulher tem papel fundamental

Desde o passado Fórum Bang! (no qual participei, com a Inês Botelho, numa palestra sobre a mulher na ficção especulativa) que ando com vontade de espelhar alguns pensamentos na forma escrita. Sim, a representação da mulher tem-se alterado nos últimos anos. Porquê? Será a moda do politicamente correcto? Bem, mais do que uma moda, a minha percepção é que resulta da pressão do próprio público, farto do mesmo.

 

 

 

 

 

 

 

Porque digo isto? Bem, dou-vos como exemplo bastante óbvio as nomeações para os prémios Hugo. Para quem não está a par, aqui há uns anos surgiu um grupo de escritores de ficção científica revoltado com o afastamento dos protagonistas ou escritores tradicionais, brancos hetero. Estavam a ser nomeados, e premiados, sucessivamente, autores diferentes deste padrão original.

 

 

 

 

 

 

 

Este grupo de autores, designado como Sad Puppies, não só fizeram campanha pela ficção científica de homens para homens (ocidentais e hetero, claro) como tentaram concentrar votos em obras específicas. O resultado? Conseguiram algumas nomeações mas não o prémio, existindo algumas categorias em que o resultado foi até “sem premiado”. Pelo meio ainda houve uma nomeação curiosa a Chuck Tingle, um autor de pornografia homossexual de ficção científica, que aproveitou para parodiar o destaque, numa obra curiosa.

 

 

 

 

 

 

 

Bem, julgo que a resposta do público a este movimento demonstra que a verdadeira pressão sobre a indústria literária não é tanto pelo politicamente correcto, mas pela vontade, do público, em ver diversidade nas personagens, e ler obras que representem pessoas e não os típicos estereotipos de heróis, há muito ultrapassados. Personagens que se parecem com pessoas, densas, variáveis e, sobretudo, representativas da realidade que nos rodeia. Representativas da diversidade.

 

 

 

 

 

 

 

Não estou a falar, portanto, só de uma representação diferente do feminino, mas, também, uma diferente representação do masculino. Trata-se de criar histórias mais equilibradas em termos de papéis – nem as personagens femininas têm de ser ridiculamente fortes e destemidas para poderem ser protagonistas, abdicando de sentimentos para poderem ser tomadas a serio; nem as personagens masculinas têm de ser a personificação da certeza e da autoridade, podendo ser apenas pessoas com as suas dúvidas, incertezas e sentimentos.

 

 

 

 

 

 

 

Claro, que na componente feminina, outras questões de levantam. O uso do corpo como elemento para apimentar uma história (neste detalhe já existem exemplos que usam o corpo feminino e masculino) ou o consentimento no uso desse corpo. Não é, totalmente de estranhar que as histórias tradicionais, como as da Disney, os contos de fadas (sobretudo as mais recentes versões Disney), de princesas indefesas e passivas, tenham de ser revistos. Habituámo-nos a aceitar, sem questionar, os papéis que são concedidos às mulheres.

 

 

 

 

 

 

 

Detalhando. Se pensarmos bem, que tipo de homem encontra uma mulher, morta ou inconsciente, no meio de uma floresta e a beija? Que papel tem a mulher na escolha do seu parceiro , se se pressupõe que o príncipe que a salva a possui – sem se conhecerem previamente, a princesa passa de cativeiro a cativeiro. Numa gaiola dourada, claro. Mas nem por isso menos questionável. Que tipo de mensagem passa uma história onde um príncipe não reconhece a mulher pela qual se apaixonou e a procura pela medida de um sapato?

 

 

 

 

 

 

 

Sim, estas histórias reflectem a época em que foram construídas. Mas pouca ou nada se tem feito para as adaptar à realidade que nos rodeia. Quantas características ditas femininas não resultarão das expectativas que nos rodeiam? E o mesmo se pode dizer dos rapazes que não podem expressar sensibilidade ou sentimentos sem serem gozados. As personagens têm de evoluir – e não só as femininas. Deixo-vos com esta provocação. E, espero, algo para pensar. E debater.

Rascunhos na Voz Online – Sugestões

Esta semana recomendo livros, banda desenhada, eventos e jogos de tabuleiro! De realçar, claro, a presença de Mike Carey em Portugal no Mensageiros das Estrelas, evento que está a decorrer na Faculdade de Letras na Universidade de Lisboa (evento gratuito). Desejo que estas recomendações vos tragam bons momentos de lazer!

Assim foi – Fórum Fantástico 2018

 

O Fórum Fantástico deste ano foi caracterizado por vários lançamentos de autores portugueses pelas editoras Imaginauta e Editorial Divergência, destacando-se, também, a presença do autor de ficção especulativa Chris Wooding e da editora Gilian Redfearn, que trabalha para a Gollancz.

Lançamentos

Aproveitando um dia mais direccionado para a cidade de Lisboa (até no seguimento do recente espaço de reflexão de que o futuro da cidade que se tem criado), ocorreu o lançamento de Lisboa Oculta – Guia Turístico.  Tratando-se de um projecto que está em curso há algum tempo, era dos lançamentos que mais esperava. A apresentação ficou a cargo de Anísio Franco, licenciado em História da Arte e conservador no Museu Nacional de Arte Antiga, que bem conhece a história de muitos dos locais retratados, e que deu uma perspectiva interessante a este lançamento. Nesta antologia de contos com a forma de guia turístico, vários espaços da cidade são convertidos em cenários fantásticos, sobretudo envoltos em horror, destacando-se o visual cuidado das páginas, diferente de conto para conto.

Outro dos livros cujo lançamento teve grande destaque no Fórum Fantástico, foi Tudo Isto Existe de João Ventura. João Ventura é um dos autores mais prolíferos do meio da ficção especulativa portuguesa, que tem publicado em diversas antologias. Os seus contos encontravam-se, por isso, até agora, dispersos, sendo que Tudo Isto Existe constitui a primeira colectânea do autor. A apresentação foi precedida por uma pequena peça de teatro, que consistiu na adaptação de um dos contos curtos de João Ventura, Outro Sentido, com encenação de Sara Afonso.

Outra das obras de ficção especulativa apresentada foi O Resto é Paisagem, uma antologia que teve como editor o Luís Filipe Silva, e que foi lançada pela Editorial Divergência. Esta antologia reuniu vários contos que decorrem num cenário rural, cenário inquietante e que não é totalmente dominado pelo homem e que, como tal, é propício a histórias com elementos de terror.

Neste caso o espaço da apresentação foi partilhado com André Oliveira que também aproveita o cenário rural para tecer várias das suas histórias, exactamente pelos mesmos motivos.  Neste caso, a conversa começou por referir as obras de André Oliveira e prosseguiu para o seu mais recente projecto, como editor da JBC.

Na componente de banda desenhada lançou-se, como já é habitual, o mais recente volume da Apocryphus, Femme Fatale, com a presença de vários dos autores. Falou-se, claro, do processo criativo e da cooperação entre narradores e desenhadores, sem esquecer as adversidades e a evolução da antologia ao longo dos volumes. Infelizmente, esta sessão passou do Sábado para o Domingo (no seguimento do temporal que se esperava) tendo, por isso, sido realizada com menor presença de autores do que seria expectável.

Convidados internacionais

Mas o Fórum Fantástico não apresentou apenas novos livros. Este ano teve dois convidados internacionais, Chris Wooding e Gilian Redfearn que participaram em duas conversas sobre publicação e edição, em dois dias diferentes, sexta e sábado. Na sexta a conversa centrou-se mais em Gilian Redfearn, editora na Gollancz, uma das mais conhecidas editoras mundiais no género da ficção especulativa. Falou-se do processo de edição, das diferentes formas de editar e da forma como se escolhem as obras a publicar.

Já no Sábado a conversa centoru-se em Chris Wooding, que falou das suas obras e da forma como se adaptou à temática YA por ter mais liberdade do que nas restantes secções, em que os livros são demasiado catalogados e direccionados para um rótulo. A conversa tocou, claro, na sua perspectiva sobre a componente de edição, e na forma como recebe as sugestões (por exemplo, de Gilian Redfearn.

Chris Wooding foi, ainda, responsável por um workshop do Domingo de escrita, com o título: Character, character, character: putting people in you story.

Lisboa, cidade fantástica de futuros diversos

Ainda que, para mim, o dia de sexta tenha começado mais tarde do que o horário oficial, ainda apanhei parte da conversa “A Lisboa que teria sido… a Lisboa que poderá ser” em que se falou da cidade enquanto espaço de pessoas e para pessoas, espaço em mudança e adaptação constante. Claro que, tendo esta conversa, a presença de João Barreiros, Lisboa foi arrasada por monstros e alienígenas, mas sobrevive ainda, com vários futuros possíveis.

Aniversários

Na sequência dos 25 anos de Filipe Seems foi inaugurada uma exposição com algumas pranchas da obra, e os autores, Nuno Artur Silva e António José Gonçalves, tiveram presentes para uma conversa sobre o surgir da obra, sobre o processo criativo e a evolução da forma de publicação, passando de tiras para volume que as reúne.

Ainda, por ocasião dos 20 anos da morte de Lima de Freitas, foi feita uma homenagem com a presença de José Hartvig de Freitas, o filho que é conhecido como tendo um papel bastante importante na banda desenhada portuguesa. Lima de Freitas, pintor, desenhador e escritor português é conhecido, entre os leitores de ficção científica, como o criador de várias capas dos livros da colecção Argonauta, tendo sido apresentadas várias das que criou. Hartvig de Freitas falou, não só da sua experiência como filho (crescendo com os cenários fantásticos) como da carreira do pai.

Prémios

Este ano foi caracterizado pelo anúncio de dois prémios, um o prémio António de Macedo, como homenagem ao falecido escritor de ficção especulativa, que é atribuído pela Editorial Divergência, com publicação do trabalho escolhido (sem que o autor tenha, claro, de pagar seja o que for – a Divergência não é uma Vanity). O prémio teve, como júri, Rui Ramos e Bruno Martins Soares (para além de Pedro Cipriano, claro) e foi atribuído a Pedro Lucas Martins.

Foram, ainda, revelados os vencedores do prémio Adamastor nas várias categorias. O prémio teve uma fase de nomeação e uma fase de votação, sendo que indico os nomeados e os vencedores (a negrito em cada categoria):

Grande Prémio Adamastor de Literatura Fantástica Portuguesa

Anjos, de Carlos Silva
Dormir com Lisboa, de Fausta Cardoso Pereira
Espada que Sangra, de Nuno Ferreira
Lovesenda, de António de Macedo
As Nuvens de Hamburgo, de Pedro Cipriano
Proxy, de vários

Prémio Adamastor de Literatura Fantástica Estrangeira

Coração Negro, de Naomi Novik
Fome, de Alma Katsu
Livro do Pó, de Philip Pullman
Lovestar, de Andri Snaer Magnason
Normal, de Warren Ellis
O que se vê da última fila, de Neil Gaiman
Quem Teme a Morte, de Nnedi Okorafor
Reino do Amanhã, de J.G. Ballard
Revelação do Bobo, de Robin Hobb
Semente de Bruxa, de Margaret Atwood

Prémio Adamastor de Ficção Fantástica em Conto

Aranha, de Pedro Cipriano
Bastet, de Mário Seabra Coelho
Coração de Pedra, de Diana Pinguicha
Crazy Equoides, de João Barreiros
Modelação ascendente, de Júlia Durand
Videri Quam Esse, de Anton Stark

Prémio Adamastor de Ficção Fantástica em Banda Desenhada

Cemitério dos Sonhos, de Miguel Peres
Dragomante, de Manuel Morgado e Filipe Faria
Free Lance, de Diogo Carvalho
Futuro Proibido, de Pepedelrey
Hanuram, de Ricardo Venâncio
Lugar Maldito, de André Oliveira e João Sequeira
SINtra, de Inês Garcia e Tiago Cruz

Outras conversas

Vencedor do prémio Utopiales, com A Instalação do Medo, Rui Zink falou do seu livro e do respectivo prémio (pouco mencionado na media tradicional) bem como de vários factores sociais (e das redes sociais) actuais. Foi uma conversa divertida com alguns pontos interessantes (ainda que não subscreva várias das perspectivas apresentadas) como a constante desumanização do outro (e por isso passível de linchamento) que passou pela componente literária e sobre o facto das pessoas ficarem fascinadas com um livro na medida do que leram (em relação a outros livros). Ou do que não leram.

Outros espaços

A maioria das actividades decorreu no auditório, mas o Fórum Fantástico é mais do que esta componente. À semelhança de outros anos, existiam várias bancas de várias editoras com livros publicados de fantástico (como Imaginauta, Editorial Divergência ou Saída de Emergência) para além de bancas de alguns autores com material próprio. Destaca-se, também, a tenda com banda desenhada e livros de ficção especulativa (em português e inglês), bem como a exposição alusiva a Philip Seems.

Esta componente (outros espaços) estava um pouco mais fraca do que o ano anterior, em que o agendamento do evento para datas mais próximas do Verão, permitiu uma melhor exploração do espaço da biblioteca. Tanto quanto percebi da programação estava previsto um espaço com demonstração e jogos de tabuleiro, mas sempre que fui à zona assignada, não encontrei esta componente, julgo que, também, por constrangimentos metereológicos.

Outras opiniões

Resumo – 2º trimestre de 2018

Se o primeiro trimestre já tinha começado bem, este segundo permitiu a consolidação das novas vertentes do Rascunhos, apesar dos contratempos pessoais (mudança de casa e novos projectos profissionais). As visualizações ultrapassaram as 26 000 mantendo a tendência do primeiro trimestre, e continuei com a nova vertente do Rascunhos na rádio (na Voz Online, onde falei sobre livros, sozinha e acompanhada, bem como de eventos como o Sci-fi LX – os programas encontram-se disponíveis também na Mixcloud). A componente de jogos de tabuleiro prosseguiu mais lentamente, mas estabeleci a minha primeira parceria de jogos (A Floresta Misteriosa).

EVENTOS

O evento que marcou este segundo trimestre foi definitivamente o Festival Contacto. Apesar de ter decorrido apenas numa tarde em Benfica (num local priveligiado, o Palácio Baldaya) forneceu grande momentos de diversão para todas as idades, com a Escape Room da Liga Steampunk, jogos de tabuleiro diversos, lançamentos de livros, lutas de sabres – entre outros. De destacar o espaço ao ar livre e a existência de um bar de apoio que permitiu a permanência no evento durante toda a tarde.

Este trimestre foi, também, a minha estreia no Lisboacon (sobre este evento falarei mais detalhadamente nos próximos dias). Trata-se de um evento focado exclusivamente em jogos, sobretudo em jogos de tabuleiro (tendo, também, RPG’s) onde se pode experimentar uma enorme diversidade de jogos e adquirir outros tantos a preço mais acessível do que é comum nas lojas. Outro evento que marcou o trimestre foi o breve retorno do Sustos às sextas (ao qual não pude comparecer).

Alguns dos jogos disponíveis no Lisboacon

Mas os últimos trimestres também prometem! Aproximam-se o Sci-fi LX e a Comic Con Portugal, e começaram a ser anunciadas algumas novidades para o último trimestre do ano – Fórum Fantástico e Festival Bang!

LIVROS E BANDA DESENHADA – Portugueses 

Com o mesmo número de leituras do trimestre passado (cerca de 60) destaco, de autoers portugueses, Comandante Serralves – Expansão, The Worst of Álvaro e Han Solo. O primeiro é uma continuação da primeira antologia Serralves, contendo contos Space Opera de vários autores num mesmo Universo. Esta antologia destaca-se pelos elementos portugueses na sua narrativa, desde o humor às expressões e alguns detalhes culturais das personagens.

 

 

 

 

 

 

 

 

The Worst of Álvaro apresenta as piores tiras de Álvaro, num  conjunto divertido que começa com uma paródia certeira às seitas religiosas que realizam espectáculos de diversão (e engodo) nas suas cerimónias. Han Solo de Rui Lacas destaca-se pela expressividade das personagens, criando uma história envolvente com poucas palavras.

LIVROS

 

 

 

 

 

 

 

Este ano tem sido marcado por bons lançamentos de ficção especulativa (não em grande quantidade, mas o que tem havido é de qualidade) e este trimestre li, sobretudo, as novidades publicadas no mercado português. A Cavalo de Ferro surpreendeu com o lançamento de um clássico de horror de Shirley Jackson, A Maldição de Hill House. Não sendo a melhor leitura desta autora, apresenta uma história claustrofóbica que nunca se afimar sobre a origem dos supostos detalhes sobrenaturais, deixando a possibilidade de várias interpretações para o autor.

Num tom bastante diferente, Os Humanos é um relato divertido de um alienígena que tem de se integrar como humano para limpar as pistas de uma importante descoberta científica. Proveniente de uma sociedade bastante diferente, onde os indivíduos são imortais e poderosos, a perspectiva do alienígena é, simultaneamente, perspicaz e cómica.

 

 

 

 

 

 

 

 

Tendo no título a palavra Love, Love Star corre o risco de ser incluído na secção de romance fofinho e cor de rosa (como já o vi). Não poderia ser uma classificação mais enganadora. Love Star apresenta uma sociedade onde a tecnologia se aliou à publicidade com a perspectiva de responder a todas as necessidades de consumo da população, apresentando produtos inovadores como a disposição de corpos humanos em foguetes para serem incinerados automaticamente quando entrem novamente na atmosfera. Trata-se de uma história interessante carregada de reviravoltas irónicas, carregadas de crítica social.

O Poder é outro dos grandes lançamentos deste ano. Bastante aclamado no estrangeiro, apresenta uma reviravolta no equilíbrio de poder nas sociedades humanas – e se as mulheres tivessem a capacidade de electrocutar? O poder surge sobretudo em situações de violência física e psicológica contra mulheres, resultante numa reviravolta interessante. Deste surgir por necessidade ao exercício de poder, a história apresenta novos equilíbrios e desequilíbrios.

 

 

 

 

 

 

 

 

Amatka é, também, um lançamento inesperado para o mercado português, contendo uma sociedade distópica onde os objectos têm de ser constantemente marcados para manterem a sua forma e funções. Quem teme a morte de Nnedi Okorafor não é uma leitura deste ano (li-o em inglês em 2015) mas é um grande lançamento em Portugal. Trata-se de um dos grandes exemplos de afrofuturismo que não teme tratar de temas como o controlo das mulheres através da castração ou como a luta entre populações através das violações que visam diluir o sangue dos vencidos.

 

 

 

 

 

 

 

 

Em inglês, destacou-se The Tangled Lands, um livro de fantasia pouco optimista em que o exercício de magia tem um preço muito elevado e onde o destino das personagens nunca é o programado, com contratempos e reviravoltas difíceis. Já The Martian in the Wood é um dos contos da TOR.com e centra-se num mundo pós Guerra dos Mundos de H. G. Wells, mostrando a vida dos que sobreviveram e como tentam lidar com o desaparecimento dos familiares – mas… nem todos os alienígenas conseguiram abandonar a Terra!

BANDA DESENHADA

A colecção Novela Gráfica ainda agora começou e já proporcionou duas das melhores leituras dos últimos meses, Os Guardiões do Louvre de Taniguchi e Aqui mesmo de Tardi. O primeiro centra-se no Louvre, enquanto museu e espaço que sofreu alterações, falando de alguns autores que influenciaram artistas japonses. Trata-se de um trabalho a cores que dá grande representação a algumas obras clássicas captando o seu próprio estilo. Não sendo dos trabalhos favoritos do autor em termos narrativos, fascina pelo grafismo.

Aqui mesmo (que ainda não tive oportunidade de comentar detalhadamente) é um trabalho excelente que pode ter interpretações políticas (ainda que o autor, na sua introdução descarte grande parte delas), centrando-se numa personagem demasiado agarrada ao passado, traumatizada com as guerras entre famílias e por isso, decidida a manter a sua posição desconfortável, nem que para isso deixe de ter vida própria.

Não tendo lido o romance original no qual se baseia, Afirma Pereira é um fascinante retrato da sociedade portuguesa antes do 25 de Abril mostrando como se exercia influência, poder e medo sobre a população e, neste caso, sobre a classe jornalística portuguesa.

Outra das colecções lançadas pela Levoir foi a colecção Bonelli em que se lançaram álbuns representativos das colecções italianas da editora Bonelli. Em geral são álbuns que dão especial destaque à narrativa, bastante movimentados e centrados em heróis peculiares. Dragonero foi dos meus favoritos contendo referências às mais clássicas séries de Fantasia. Já este volume de Dylan Dog, Os Inquilinos Arcanos, destaca-se pela introdução de Filipe Melo e contém uma diversidade interessante das histórias deste herói com um grafismo competente onde não se podem esquecer os efeitos sobrenaturais e fantásticos.

Próximos tempos? Espera-me o Sci-fi LX, com duas palestras, uma sobre ficção especulativa nacional e outra sobre robots (com João Barreiros), muitos livros e muitos jogos de tabuleiro!

Resumo – 1º trimestre de 2018

Com mais de 20 000 visualizações desde Janeiro e mais de 60 leituras, 2018 tem-se revelado um ano interessante, com novos projectos e direcções. Para quem tem acompanhado, já se deve ter apercebido que foi lançado um programa de rádio na Voz Online, que é uma extensão do Rascunhos (o programa de rádio aparece, também, na Mixcloud, como outros programas da rádio), e que se iniciou uma nova rubrica de jogos de tabuleiro (ainda que não tenha tido a regularidade pretendida).

Passando à ficção especulativa, este primeiro trimestre viu o retorno dos Devoradores de livros na Tigre de Papel e o lançamento de Crazy Equóides de João Barreiros, bem como o agendamento de alguns dos mais importantes eventos de ficção especulativa em Portugal:

 

 

 

 

 

 

 

A nível de publicações, o ano começou bem para a ficção especulativa portuguesa – não porque haja publicação em quantidade, mas mas porque o pouco que existiu é de qualidade. Estou a falar da publicação de Crazy Equóides de João Barreiros. Trata-se de uma história que foi criada para a Antologia Erótica de ficção fantástica, mas que, na falha de pubilcação da antologia, foi direccionada para publicação isolada e acabou publicada pela Imaginauta – e ainda bem.

Considerando o tema da antologia à qual se destinava não é de estranhar que tenha uma grande componente associada à sexualidade, mas nem por isso se trata de uma história que pretenda fornecer uma experiência erótica. João Barreiros caminha o limite da premissa sem resvalar para caminhos demasiado obscuros, fornecendo uma história com máximo prejuízo e pequenas reviravoltas que vão entusiasmando o leitor.

Dormir com Lisboa é outra das obras de ficção especulativa portuguesa que se destaca nas minhas leituras. Trata-se do vencedor do prémio Antón Risco de 2016, um dos livros falados durante o Fórum Fantástico de 2017 que só agora li. Como o nome indica a obra explora Lisboa e a perspectiva que cada um tem da cidade, expondo a diversidade de locais, resultado da construção e da recombinação ao longo dos séculos.

 

 

 

 

 

 

 

Este ano tem sido marcado pelo sucesso de Jeff Vandermeer. Um dos seus mais recentes livros foi adaptado para cinema, Aniquilação, e, ainda que não tenha sido distribuído para as salas de cinema de todo o mundo, mas através da Netflix, trata-se de um filme que não tem deixado a audiência indiferente. Confusa, por vezes, sim. De realçar que alguns dos cenários do primeiro livro foram inspirados numa visita a Portugal, mais concretamente à Quinta da Regaleira (como a torre invertida que não se vê no filme).

Após esta trilogia Jeff Vandermeer já lançou outras obras, entre elas Borne e The Strange Bird, ambos passados no mesmo Universo, uma realidade futura em que a biotecnologia criou seres que contaminam todos os nichos ecológicos. O resultado são monstros inteligentes capazes de interagir com seres humanos, e de mudar a sua aparência quando querem, alimentando-se por fagocitose, ou raposas inteligentes capazes de comunicar sem palavras, ou monstros em forma de urso.

Borne é o primeiro livro nesta realidade, mas achei-o demasiado longo nalgumas partes, centrando-se no seu relacionamento com a humana que o acolhe o cria, formando-o como uma pessoa, mas não como um humano, e saciando a sua capacidade para aprender. Desta forma, gostei mais de Strange Bird, mais conciso, e centrado  num novo ser, belíssimo, resultante do cruzamento de genes de diferentes animais, que é utilizado por vários seres humanos para fins diferentes.

 

 

 

 

 

 

 

Passando à banda desenhada, secção onde a leitura foi mais extensa, Ciudad de Giménez e Barreiro, destacou-se por apresentar uma imensa cidade paralela, onde o tempo e o espaço não são contíguos e as pessoas que lá caem deambulam, sob influência do ambiente que os rodeia, construindo maravilhosas mas nefastas cidades, ou fugindo de grupos armados. No decorrer encontram comboios que os levam a vislumbrar o passado e o futuro, pessoas que atraem milhões de ratazanas (simultaneamente uma benção e uma maldição) ou imensos jardins predadores que se dissipam. Trata-se de uma obra com inúmeras referências literárias, um intrincado de caminhos e de questionamentos.

Ministry of Space, de Warren Ellis, foi outra das grandes leituras deste trimestre. Trata-se de uma obra que recorda o sentimento inglês em relação ao imperialismo que coloca os ingleses no topo da corrida ao espaço. A origem do dinheiro que proporciona este avanço é obscura e o objectivo também. É uma banda desenhada carregada de simbolismos e de alusões ao espírito nacionalista que levou alguns países para a guerra, mostrando o orgulho do soldado perfeito e do confronto bélico.

 

 

 

 

 

 

 

Com o terceiro volume publicado em Portugal, Harrow County continua a ser uma das grandes séries de horror em lançamento. Este volume introduz algumas variações em relação aos anteriores, com uma história de final aberto, menos centrado na personagem principal e introduzindo novas personagens com poderes sobrenaturais – personagens com interesses próprios que se prevê opostos.

El fantasma de Gaudí apresenta um assassino em série na cidade de Barcelona. Não é uma história impressionante do ponto de vista narrativo mas surpreende no visual que aproveita as cores da cidade e o trabalho de Gaudí para episódios em belíssimos cenários em que se discorre sobre os mais grandiosos edifícios da cidade.

O segundo trimestre também promete boas novidades, com o festival Contacto já no próximo fim de semana!

Rascunhos na Voz Online – Mixcloud

Já aqui divulguei, por diversas vezes, que o Rascunhos virou, também, programa de rádio na Voz Online. À semelhança do que encontram na página o programa centra-se, sobretudo, em ficção científica, fantasia e banda desenhada. Os programas ficam depois, disponíveis para serem ouvidos na Mixcloud. Deixo-vos a ligação para dois deles:

Programa 2 – Festival Contacto – Entrevista a Carlos Silva

Programa 3 – Miguelanxo Prado

Evento: Jantar Devoradores de Livros – Luís Corredoura

O próximo jantar de devoradores de livros já tem convidado e data! Luís Corredoura é o convidado! Recordo que o autor foi o premiado com o Grande prémio Adamastor de Literatura Fantástica de 2014. O prémio foi atribuído durante o Fórum Fantástico e visou distinguir Nome de Código Portograal. O evento está marcado para dia 22 e começa com uma conversa na Tigre de Papel!

 

Austronauta – Assimetria – Danilo Beyruth

Desconheço totalmente a personagem original, mas mesmo sem contexto (e mesmo sabendo que esta versão da personagem já foi utilizada em histórias anteriores) trata-se de uma história legível, surpreendente e que questiona as decisões de vida de alguém aventureiro e complexo.

A história começa com o austronauta em férias, das quais retorna abruptamente após visualizar um episódio familar com uma criança. O motivo para tal reacção desconhecemos, mas percebe-se que terá recordado uma mágoa escondida.

O motivo para ter deixar, novamente, a terra, irá revelar-se um ponto decisivo na sua vida ao encontrar, em Saturno, uma versão de si mesmo, proveniente de um Universo alternativo. Ambos investigam uma perturbação no planeta e lutam lado a lado contra uma ameaça para ambas as realidades.

O motivo do seu encontro é também o que permite o encontro no ponto intermédio em que ambas as realidades se fundem, uma fusão que irá terminar de forma abrupta e deixar um tom amargo no final.

A história explora as escolhas de vida da personagem e funde vários destinos possíveis, numa complexidade narrativa maior do que as histórias habituais nesta colecção. O visual é futurista com boas (e estranhas) imagens da paisagem de Saturno.

Outros livros da mesma colecção

Alguns lançamentos nacionais para o ano de 2018 – parte 2

Mas não são só as pequenas editoras com a Saída de Emergência e a Editorial Presença que publicam fantasia e ficção científica no arranque de 2018 (como anunciado na parte 1).

A Relógio d’água já anunciou, para Janeiro, novo livro de Philip K. Dick, desta vez de Sonhos Eléctricos, uma antologia de contos do autor que terão inspirado uma série de ficção científica com o mesmo nome que está a ser lançada agora. Tendo lido alguns livros do autor recentemente, realço os jogos que constrói com a memória e a percepção da realidade, demonstrando que aquilo que perpecionamos é uma construção da mente. Mas não só. Vários dos contos do autor também se centram na tecnologia e na inteligência artificial, na capacidade de programação das máquinas que desempenham acções de acordo com o previsto sem capacidade de adaptação ou variação às circunstâncias.

Mais conhecido por Versículos Satânicos (que não li) surpreendi-me com um livro do autor, Dois Anos, Oito Meses e Vinte e oito noites (que é como quem diz, 1001 Noites). O que encontrei foi uma prosa fantástica que segue diversas personagens, fazendo colidir as várias linhas narrativas num romance envolvente que lança um piscar de olhos à ficção científica e aos heróis de banda desenhada.

O livro mais recente do autor é A Casa Golden, e parece ter uma premissa menos exótica, centrando-se nos Estados Unidos da América e aproveitando os eventos mais marcantes da sua história. O lançamento em Portugal está previsto pela Dom Quixote para Abril.

 

Shirley Jackson tornou-se uma das minhas autoras favoritas com Sempre vivemos no Castelo (publicado pela Cavalo de Ferro), mas foi The Lottery que mostrou o quão impacável a autora poderia ser. Já agora, The Lottery é uma das histórias distópicos mais brutais que tive oportunidade de ler (e não foram poucas).

A Cavalo de Ferro tem programado, para Fevereiro, o lançamento do seu livro mais conhecido, A maldição de Hill House, considerado como uma das melhores histórias de fantasmas de sempre.

Se Shirley Jackson é uma das minhas autoras favoritas, Dino Buzzati é um dos favoritos, tendo lido praticamente tudo o que foi publicado em português deste autor. Depois de O Segredo do Bosque Velho, que se encontra na minha lista de favoritos de todos os tempos, li O Deserto dos Tártaros (um dos seus livros mais conhecidos) e rapidamete tive de pegar em tudo o resto. A editora Cavalo de Ferro planeia lançar, durante o primeiro semestre de 2018, 60 contos, uma colectânea com os melhores contos do autor.

Pássaros na boca de Samantha Schweblin será re-editado pela 20|20. Trata-se de uma colectânea de contos da autora com toques de horror e de fantástico, relembrando, por vezes, contos tradicionais. O tom e a forma vai variando ao longo dos contos constituindo uma colectânea com histórias excelentes e outras que, aquando da leitura, não me interessaram tanto.

Ainda pela Cavalo de Ferro está previsto o lançamento de Prémios de Julio Córtazar. Trata-se do primeiro romance do autor que se centra nos vencedores de uma lotaria estatal (habitantes de Buenos Aires). O prémio é um cruzeiro de destino desconhecido. Logo após o início da viagem são informados de que uma doença se espalhou a bordo, pelo que devem permanece confinados numa zona do navio.

 

Solaris, de Stanislaw Lem, é um clássico de ficção científica com uma grande componente filosófica que se centra na memória, na experiência e na comunicação entre seres humanos e espécies não humanas. O livro será lançado em Fevereiro pela Antígona com introdução de Alberto Manguel.

Para os fãs de Tolkien será publicado Beren e Lúthien. Trata-se de uma edição da Planeta com ilustrações de Alan Lee. O conto será publicado 100 anos depois de ter sido escrito e terá tido especial significado para o autor, dado que na sua campa está gravado o nome de Beren e na da sua esposa, Lúthien.

 

Um dos clássicos da ficção científica, A Guerra das Salamandras terá uma nova edição em português pela Antígona, previsto para 11 de Junho. Neste clássico uma outra espécie sapiente habita a Terra, uma espécie de salamandras que acabam por ser escravizadas pelos humanos. A época de subjugação das salamandras não durará para sempre – unem-se sem diferenças ideológicas contra os seres humanos para a sua própria independência.

O projecto Hogarth Shapespeare convidou uma série de autores a re-interpretar ou a entrelaçar as histórias de Shakespeare noutras ficções. Margaret Atwood, mais conhecida pelo seu romance A História de uma Serva (recentemente adaptado para série televisiva) escolheu Tempestade para escrever este Semente de Bruxa (Hag-seed no original).

Alguns lançamentos nacionais para o ano de 2018 – parte 1

Algumas editoras começaram já a indicar o que podemos esperar em 2018 – e tenho a dizer que não há carteira que resista!

Editorial Divergência

Nuno Ferreira publica agora a sua trilogia fantástica pela Editorial Divergência o que será uma boa oportunidade para quem, como eu, se recusa a ler obras publicadas em vanities. Esta nova edição está prevista para Abril de 2018 e promete ser um grande lançamento no fantástica português.

A editora indica também a publicação de livros de contos por António de Macedo e de João Barreiros, em que cada uma das colectâneas terá contos inéditos! A colectânea de António de Macedo está prevista para Maio de 2018 e a de João Barreiros para Setembro de 2018.

As novidades não se ficam por aqui, com Avatar de Frederico Duarte para Outubro de 2018 e com várias antologias: Steampunk para Julho (com participação de autores de várias nacionalidades), O resto é paisagem (fantasia rural) para Novembro, Na Imensidão do Universo (Space Opera) para Dezembro.

Parece um extenso programa? A Editorial Divergência tem, ainda, em curso um concurso de contos de ficção especulativa (em parceria com a Imaginauta e o Sci-fi LX) bem como a primeira edição do Prémio António de Macedo.

Imaginauta

Está a decorrer o período de submissões para Amanhãs que cantam, uma antologia distópica organizada em parceria com a Associação Épica. Para além deste projecto em curso a Imaginauta já anunciou o lançamento de Crazy Equóides de João Barreiros e de Comandante Serralves: Expansão.

Saída de Emergência

A editora já anunciou o plano para o primeiro Semestre do ano e deste plano destaco o que mais interessou (ou que já li e aconselho):

Estou a seguir a série em inglês apenas porque já tinha começado a ler antes de ter sido publicada por cá – trata-se de um grande lançamento. Monstress é, na minha opinião uma das melhores séries actuais da Image, com um traço exótico e uma história apoiada por uma boa mitologia. Neste segundo volume, Maika, a personagem principal descobre algo mais sobre a mãe, revelações que são tanto perigosas como fascinantes. A série foi nomeada para vários prémios Eisner e venceu um prémio Hugo.

Opinião ao segundo volume de Monstress.

Quem teme a morte, ou Who Fears Death (no original) apresenta um mundo inóspito carregado de violência, um mundo pós-apocalíptico onde restam alguns pedaços de tecnologia funcional marcado pelo ódio entre dois povos. A história decorre em África contendo alguns elementos culturais relativos à região e centrando-se numa jovem personagem que se revela muito poderosa.

A história possui algumas reviravoltas fortes, mas um dos motivos para ter sido tão aclamada foi não se centrar no típico herói, homem caucasiano, utilizando o diferente contexto cultural para trazer uma história poderosa e carregada de elementos originais.

Quem teme a morte venceu um prémio World Fantasy Award, bem como um Carl Brando Kindred Award e encontra-se em adaptação para série televisiva pela HBO com George R. R. Martin como produtor executivo.

Opinião a Who Fears Death.

Este ainda não li mas, infelizmente, já tinha encomendado a versão inglesa. O Poder (ou The Power). Foi difícil seguir qualquer jornal ou blogue de opinião anglo-saxónica e não perceber a importância deste lançamento. Vencedor do prémio Baileys Women’s Prixe for Fiction, e em adaptação para série televisiva, trata-se de uma história distópica onde as mulheres ganham a capacidade de descarregar choques eléctricos pelos dedos, tornando o género feminino no género dominante.

Fahrenheit 451 é uma das distopias mais conhecidas e marcantes da ficção científica que decorre num futuro onde os bombeiros, ao contrário de apagarem fogos, queimam livros, como forma de censura. Tão grave quanto a queima de livros é o geral desinteresse nos livros, um dos focos principais do livro. Mais tarde o próprio autor iria falar da premissa como estando relacionada com o desinteresse pelos livros que a comunicação instiga. Vencedor de inúmeros prémios, e adaptado para diversos formatos (programa de rádio, filme, teatro, jogo de computador) é uma das obras mais relevantes de Ray Bradbury.

Guerra Americana é o primeiro livro de Omar El Akkad, um autor egípcio que, antes de escrever este seu primeiro livro, se formou como informático e trabalhou como jornalista na guerra do Afeganistão, Guantanamo (acompanhando os processos judiciais), Primavera Árabe no Egipto, ou nos Estados Unidos no seguimento de Black Live Matter.

Esta componente do currículo torna-se importante para perceber o relacionamento com este primeiro livro que retrata um futuro onde, no seguimento de fortes alterações climáticas, eclode uma Guerra (2074) que dá origem a profundas separações no país. A história é apresentada após esta guerra e consequentes separações, intercalando a narrativa centrada numa personagem com documentos que terão sido encontrados posteriormente.

A história tem sido muito bem aclamada pelos críticos e parece-me bastante interessante, tanto pelo tema, como pelo trabalho anterior do autor.

A opinião sobre Um Estranho numa terra estranha não é unânime entre os fãs de ficção científica. Há quem o refira como um clássico importante no género, há quem lhe tenha um profundo asco. Se a obra de Robert E. Heinlein consegue ser controversa, diria que este está no topo da dualidade, apresentando um ser humano que foi criado em Marte, entre marcianos.

Educado numa sociedade com valores bastante diferentes, onde a partilha de água é um gesto importante, este homem revolucionará o estar religioso e social dos seus seguidores, numa espécie de Messias futuro de onde se podem estabelecer paralelismos interessantes.

No mesmo mês em que é lançada a adaptação cinematográfica do primeiro volume, é lançado o terceiro volume em português. Trata-se de uma trilogia de ficção científica ecológica por Jeff Vandermeer, conceituado no género tanto pela actividade como escritor, como editor. Ainda não li este volume, mas diz-se que, após um segundo volume mais pausado este volta à acção, com uma grande revelação final.

Editorial Presença

A editora ainda não anunciou grandes novidades, mas está a lançar um dos livros de fantasia que mais interesse me despertou recentemente – trata-se de mais um livro que decorre na fabulosa trilogia de Mundos paralelos, uma trilogia destinada a um público mais juvenil mas que consegue não ser condescendente e conter alguns elementos de ficção científica entrelaçados.

Alguns anos após a leitura da trilogia ainda continuo a pensar nela como sendo das melhores no seu género e uma leitura altamente recomendável. De realçar que, com este lançamento a editora re-lançou a trilogia original, que já escasseava nas bancas.

Malcolm Polstead tem onze anos. Os pais gerem A Truta, uma estalagem muito frequentada nas margens do rio Tamisa, perto de Oxford. Malcolm é muito atento a tudo o que o rodeia, mas sem chamar a atenção dos outros. Talvez por isso, fosse inevitável vir a tornar-se num espião. É na estalagem que ele, juntamente com o seu génio Asta, descobre uma intrigante mensagem secreta sobre uma substância perigosa chamada Pó. Quando o espião, a quem a mensagem era dirigida, lhe pede que preste redobrada atenção ao que por ali se passa, o rapaz começa a ver suspeitos em todo o lado: o explorador Lorde Asriel; os agentes do Magisterium; Coram, o cigano; a bela mulher cujo génio é um macaco malicioso… Todos querem descobrir o paradeiro de Lyra, uma menina, ainda bebé, que parece atrair toda a gente como se fosse um íman. Malcolm está disposto a enfrentar todos os perigos para a encontrar…

Opinião ao segundo volume – A torre dos anjos

Opinião ao terceiro volume – O telescópio de âmbar

Retrospectiva 2017 – O Rascunhos em Banda desenhada

Numa contagem desatenta percebo que ultrapassei o número de leituras de banda desenhada do ano passado, rondando quase as 200 leituras, algumas (poucas) em francês ou espanhol, mas sobretudo em inglês e português (este registo passou a ser feito no Goodreads). Considero que este foi um grande ano na publicação da banda desenhada em Portugal, com a colecção de Novela Gráfica publicada pela Levoir em parceria com o jornal Público, a lançar grandes obras que, de outra forma, dificilmente veriam a luz da edição portuguesa, e editoras nacionais a lançarem-se, pela primeira vez, na publicação de banda desenhada.

Banda desenhada portuguesa

 

 

 

 

 

 

 

A melhor leitura – O problema de separar em categorias e ter uma só para a banda desenhada portuguesa é ter de comparar obras bastante diferentes em tom e tema. Eis, portanto, as duas melhores leituras do ano em banda desenhada portuguesa : O Elixir da Eterna Juventude de Fernando Dordio e Osvaldo Medina e Comer Beber de Filipe Melo e Juan Cavia. O primeiro destaca-se pelo tom leve com que integra as músicas de Sérgio Godinho numa aventura divertida e o segundo pela qualidade do desenho e pelos temas, mais sérios, abordados nas duas histórias que compõem o volume que, apesar de curtas, conseguem transmitir o peso dos acontecimentos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas – De Rui Lacas, Ermida é uma história curta mas caricata que inspira um enorme simpatia graças à força das expressões e dos modos que as personagens apresentam. Por sua vez, Hanuram de Ricardo Venâncio é visualmente interessante, tanto pela qualidade do desenho como pela composição, centrando-se num guerreiro que ousou desafiar os deuses ao se proclamar invencível. Totalmente diferente dos anteriores, Ermal de Miguel Santos destaca-se pela criação de uma realidade pós-apocalíptica em que o ocidente foge para território africano, resultando em guerras onde as várias facções tentam explorar interesses diferentes. No final o principal defeito é tratar-se de uma história curta. Finalmente, em tom humorístico, Conversas com os putos de Álvaro apresenta vários episódios cómicos que decorreram enquanto dava explicações.

Banda desenhada de ficção científica

A melhor leitura – Valerian de Christin e Mézières – A série publicada pela Asa em parceria com o jornal Público trouxe um conjunto de aventuras com uma qualidade que não esperava. Referida, por diversas vezes, como tendo influenciado Star Wars (ou mais do que influenciado) possui uma grande diversidade de mundos e de espécies alienígenas que se tornam fascinantes pela coerência que possuem. A dupla de agentes, por sua vez, ora viagem no espaço, ora no tempo, e se, nas primeiras aventuras as histórias são simples e quase clichés, sente-se que, com o avançar dos volumes, a série melhora, utilizando as histórias anteriores como alicerces para as seguintes, e ganha uma dimensão avassaladora.

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas – Pela primeira vez de que me recordo tenho de reclassificar o género de uma série. Autumnlands, que começou por parecer uma série fantástica com elementos extraordinários, assume-se, no segundo volume, como ficção científica, utilizando espécies alienígenas tecnologicamente avançadas para justificar a origem do que se pensava ser magia. Espero que o terceiro volume revele um pouco mais desta dualidade. Por sua vez, Surrogates apresenta um mundo sombrio onde se inventaram corpos artificiais para os quais as pessoas se projectam e com os quais saem à rua, protegendo-se assim de potenciais acidentes e problemas de discriminação (já que o corpo pode não ter qualquer semelhança física com o seu dono). As vantagens são, no entanto, submersas pelas desvantagens, numa sociedade cada vez mais superficial. Outra das grandes descobertas não é uma novidade em termos editoriais, mas trata-se de A feira dos imortais de Bilal, autor do qual apenas conhecia os álbuns mais modernos e só com estes percebi porque tanta gente os repudia.

Banda desenhada de horror

A melhor leitura – Harrow County de Cullen Bunn e Tyler Crook – Depois de um excelente primeiro volume, o segundo mantém o tom negro, e percebemos que a menina com capacidades de bruxa, ao contrário do estereotipo se preocupa com a correcta utilização dos seus poderes, por forma a que exista um equilíbrio de forças. Esta preocupação será exacerbada pela entrada de uma nova personagem, uma irmã gémea que terá os meus poderes mas que não os usa de igual forma.

Banda desenhada fantástica

A melhor leitura – Monstress de Marjorie Liu e Sana TakedaMonstress fascinou pelo aspecto exótico e pela mitologia densa num mundo semelhante ao nosso, com tecnologia semi-medieval, onde existem seres semelhantes aos humanos com características de animais. Estes seres são caçados pelos humanos a mando de feiticeiras que com eles pretendem realizar experiências. Enquanto os supostos monstros são emocionalmente mais humanos do que os humanos e os deuses se escondem, simultaneamente dependentes e poderosos, temos uma espécie inteligente de gatos que se dedica a registar e a passar, de geração em geração, a história deste complexo mundo;

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas – A famosa série Sandman foi finalmente publicada em Portugal numa parceria entre a Levoir e o jornal Público. Ainda não li todos os volumes mas a série, melancólica, centra-se na figura eterna responsável pelos sonhos cruzando as histórias mitológicas de várias civilizações. O resultado é uma história abismal onde Neil Gaiman explora personagens e mitos de forma envolvente. O Rei Macaco, de Manara e Silverio Piso é uma obra visualmente impressionante, onde a figura divina de um macaco usa o seu carácter irrequieto como explorador e parte do paraíso com o intuito de se tornar imortal e assim poder usufruir eternamente do paraíso. Irónico? Bastante. São comuns os comentários políticos e religiosos, bem como as insinuações fálicas ou a observação do decadente comportamento humano. Finalmente, comecei a série East of West, uma série que cruza tecnologia e fantástico apresentando-nos a demanda dos cavaleiros do apocalipse. A Morte busca o filho que está a ser manipulado para provocar o fim da existência.

Banda desenhada histórica

A melhor leitura – Os trilhos do acaso de Paco Roca – Nesta obra publicada em dois volumes o autor explora a guerra civil espanhola numa perspectiva pouco habitual, seguindo um refugiado espanhol – um homem que se viu obrigado a deixar Espanha num barco e que mesmo assim foi sortudo, considerando que a maioria não foi capaz de embarcar. Este homem é, agora, um velhote que ninguém suspeita ter sido um herói de guerra, lutando na Segunda Guerra Mundial. O que é peculiar não é só a personagem, mas a forma como Paco Roca cria empatia e explora a história mais pelo lado humano do que pela terror da guerra.

Menções honrosas – Também Destino Adiado de Gibrat tem como palco a guerra mas, desta vez, centra-se num jovem que desertou e que, por sorte, foi dado como morto. A partir daqui consegue esconder-se na vila de origem, passando os dias sem poder ser visto, mas numa casa que lhe permite observar o quotidiano de todos.

Antologia

A melhor leituraSilêncio – Das várias antologias de contos de banda desenhada que li este ano a que mais me impressionou foi o segundo volume The Lisbon Studio com o título Silêncio. Neste volume reúne-se o trabalho de vários autores portugueses que pertencem ao mesmo estúdio e se organizaram para entregar histórias curtas centradas no mesmo tema. Este é o segundo volume da série em torno do estúdio, sendo que achei que o trabalho apresentado neste ainda conseguia ser de melhor qualidade do que no primeiro volume. Os temas são diversos bem como o estilo, entregando-se boas histórias curtas.

Menções honrosas – Flight Esta é, no mínimo, uma antologia de banda desenhada competente. Todas transmitem alguma narrativa, ainda que nalgumas se perceba que esse não é o foco (são poucas), e todas são visualmente agradáveis (no mínimo), bastantes com detalhes caricatos que transmitem simpatia ao leitor. Ainda que Flight não devesse ser um tema, mas apenas o título do volume, várias das histórias têm o voo como premissa.

Registo autobiográfico

 

A melhor leitura – Tempos Amargos de Étienne Schréder – O autor apresenta os seus piores momentos de degradação originados pelo vício do vinho. Sem conseguir terminar os estudos pretendidos, pai demasiado cedo e trabalhando numa prisão, Étienne Schréder afunda-se cada vez mais na bebedeira como possibilidade de fuga da vida que leva. Aqui expõe-se (mas tem cuidado em não expor os outros) e demonstra os anos de escuridão.

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas – Em Histórias do bairro o autor mostra a sua infância e, até, adolescência num bairro problemático de onde é difícil escapar. Cedo os habitantes se envolvem em actividades ilícitas que são tão comuns que quase são tomadas por normais. Mas é a capacidade de desenhar e de querer fazer algo com essa capacidade que lhe concede a porta de saída deste mundo. Em Os Ignorantes dois homens trocam paixões com o autor a mostrar a banda desenhada a um produtor de vinho, e o produtor de vinho a demonstrar as fases e segredos da sua profissão.

Outras

A melhor leitura – NonNonBa de Shigeru Mizuki – Um rapaz endiabrado mas de bom coração entrelaça o sobrenatural em todos os momentos da sua vida, fazendo com que criaturas diferentes sejam vistas como a causa para os eventos que os rodeiam. Este rapaz encontra-se no Japão rural, fazendo com que percepcionemos a pobreza deste ambiente, afastado das maravilhas da cidade. Para além deste retrato, que é um factor de peso para ter gostado tanto deste livro, outro elemento importante é o caricato das personagens que nos envolve e cativa, contrastando com os cenários detalhados, bem como a forma como transforma episódios quase banais em grandes aventuras sobrenaturais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas Daytripper foi uma excelente surpresa, explorando a vida como uma série de pequenas fugas a eventos terminais numa história inspiradora e envolvente. Já The Fade Out destacou-se pela temática, com a apresentação de um crime nos bastidores do cinema de Hollywood dos anos 40 num ambiente negro e decadente. Da mesma dupla criativa, Criminal segue a vida de uma série de pessoas que retornam, voluntaria ou involuntariamente a vida do crime. Southern Bastards retrata  o interior americano onde o equilíbrio de forças é controlado pelo maior criminoso local que mantém debaixo de olho até a polícia. Num tom totalmente diferente, Jardim de Inverno é um relato delicioso e expressivo que apresenta a existência cinzenta de um rapaz na cidade.

A Melhor leitura – Tony Chu de John Layman e Rob Guillory A série centra-se em poderes associados à comida e, partindo de Tony Chu, um agente enfezado que percepciona a vida de tudo aquilo que come, tem conseguido centrar-se noutras personagens e manter o interesse do leitor com elementos cada vez mais estranhos.

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas – É impossível não falar de série de banda desenhada e deixar de fora Saga. Ainda que, nos últimos volumes, sinta que faltam elementos inovadores e que a narrativa está “apenas” a colocar as personagens no local que deseja para poder desenrolar um final, continua a ser uma série interessante e mirabolante, com elementos leves e trágicos, uma piada às séries de ficção científica e fantasia mais conhecidas. Finalmente, estou na leitura da série Fables que tem altos e baixos. Os últimos volumes (13 e 14) que li destacam-se visualmente, com belíssimas composições (que merecia uma melhor qualidade do papel em que é impresso, mas essa é a mesma discussão de sempre em relação à banda desenhada da Vertigo).

Outras retrospectivas

A ficção especulativa em Portugal – 2017

2016 foi, comparativamente a 2017, um ano muito bom. 2017 conseguiu manter alguns dos eventos, mas esmoreceu nas visitas estrangeiras. Veremos o que vem com 2018.

O ano começou em grande, com os eventos de lançamento de Terrarium (de Luís Filipe Silva e João Barreiros), sessão de Sustos às sextas, Devoradores de Livros, Comunidade de Leitores Culturgest e filme de culto de Filipe Melo.

Depois da apresentação inicial da Comic Con (ainda em 2016) decorreu uma sessão na Leituria, integrada nos Devoradores de Livros, e uma na FNAC com a presença de Rui Zink. As sessões foram divertidas e bem humoradas com as usuais boas tiradas do Tio Barreiros que podem ser ouvidas na entrevista sobre o livro.

O evento Devoradores de Livros sofreu uma pausa em 2017 mas já tem sessão para Janeiro de 2018 agendada!

Por sua vez, os Sustos às Sextas de 2017 também garantiu momentos interessantes, com exposições, contos ou marionetas, tendo aberto, este ano, espaço para sugestões de leitura! Infelizmente o evento não retorna em 2018, mas esperemos que não seja o fim de um dos poucos eventos dedicados ao Terror em Portugal que não cai e se baseia apenas no Gore.

O ano começou, também, com a ida à Comunidade de Leitores Culturgest (entre dois mundos) a dia 12 de Janeiro para a sessão de Santuário de Andrew Michael Hurley, mas desgostei tanto da sessão que foi a primeira e a única.

Destas sessões de culto organizadas por Filipe Melo (que infelizmente já não se verificam em 2018) fizeram parte filmes como Dellamorte Dellamore ou Fearless Vampire Killers e vieram convidados como Greg Sestero (actor no filme The Room) ou Lloyd Kaufman (TROMA). Este foi um dos eventos que marcou o ano e que nos fazia antecipar a ida mensal ao cinema pelo excelente clima que se verificava na sala.

Também o evento Recordar os Esquecidos parou em 2017, tendo sido efectuadas 29 sessões com a moderação de João Morales. A última sessão teve como convidados alguns editores ao invés dos usuais escritores: Guilhermina Gones (Círculo de Leitores e Temas e Debates), João Rodrigues (Sextante editora), Maria Afonso (Antígona) e Hugo Xavier (E-Primatur). Ao longo destas sessões foram várias as indicações que me fizeram ler algumas obras pouco prováveis.

Na  biblioteca de São Lázaro decorreram dois lançamentos da Editorial Divergência, o primeiro do livro Lovesenda de António de Macedo onde tive oportunidade de falar um pouco sobre o livro, e o segundo da antologia Monstros que nos habitam, que reúne vários contos sobrenaturais de autores nacionais.

O Sci-fi LX deste ano teve várias sessões ligadas à literatura e voltou a explorar o pavilhão central do IST, tendo espaço para vários workshops interessantes, jogos e cinema. Continua a ser um evento em expansão, gratuito e acessível para todas as idades e esperemos que continue a crescer nos próximos anos.

Uma das grandes novidades deste ano veio com a antecipação do Fórum Fantástico no calendário que decorreu em Setembro, permitindo a exploração dos espaços ao ar livre da Biblioteca, com uma tenda para a venda de livros e espaços para a venda de produtos relacionados com a fantasia ou o Steampunk. De realçar, também, a presença de Mike e Linda Carey, dois autores de ficção científica e fantástico que também têm estado envolvidos na banda desenhada.

Outra das grandes novidades deste ano foi o Festival Bang, organizado pela Saída de Emergência que teve como principal convidada a Anne Bishop. Não tendo podido estar presente, deixo-vos o relato do Artur Coelho.

Entre eventos dedicados a Tolkien e a Arthur C. Clarke, decorreu ainda a Comic Con com convidados como Andrzej Sapkowski e Claire Nort (que gostaria que tivessem tido algum evento no Sul do país, mas infelizmente tal não se verificou).

Lançamentos

O Jorge  Candeias já antecipou esta componente,  mas destaco que tanto Comandante Serralves – Expansão como Crazy Equóides são lançamentos previstos para 2018 (nota que o próprio levanta, dizendo que a compilação são de alertas de lançamento e não de lançamentos efectivos).

De 2017 realçaria os seguintes (ordem alfabética):

  • A Estrada Subterrânea – Colson Whitehead
  • A Rapariga que Sabia Demais – M. R. Carey
  • A Revolta de Atlas – Ayn Rand
  • A Súbita Aparição de Hope Arden – Claire North
  • Almanaque Steampunk – vários autores
  • Anjos – Carlos Silva
  • As nuvens de Hamburgo – Pedro Cipriano
  • Autoridade – Jeff VanderMeer
  • Contos do Gin-Tonic e Outros Preparados Inéditos – Mário-Henrique Leiria
  • Lovesenda – António de Macedo
  • Mulheres Perigosas – org. George R. R. Martin e Gardner Dozois
  • Normal – Warren Ellis
  • O Espírito da Ficção Científica – Roberto Bolaño
  • O Homem Duplo – Philip K. Dick
  • Os Cavalos de Abdera e Mais Forças Estranhas – Leopoldo Lugones
  • Os monstros que nos habitam – vários autores
  • Os Pássaros no Fim do Mundo – Charlie Jane Anders
  • Os Três Estigmas de Palmer Eldritch – Philip K. Dick
  • Reino do Amanhã – J. G. Ballard
  • Relatório Minoritário e Outros Contos – Philip K. Dick
  • Terrarium – João Barreiros e Luís Filipe Silva

Resumos de outros anos

Retrospectiva 2017 – O Rascunhos

2017 no Rascunhos

Quase 270 livros depois da última retrospectiva, eis a de 2017, em que consegui ultrapassar o número de leituras de 2016! Mantive a leitura de livros em outras línguas para além do português e do inglês e, não podendo estar numa CON internacional como no ano passado, tive oportunidade de falar sobre livros em mais eventos nacionais: Sustos às sextas, Sci-fi LX e o usual (mas nem por isso inferior) Fórum Fantástico.

Os valores globais de visualizações deste ano rondaram os do ano passado, 44 000, com alguns meses a exceder este valor e outros mais parados (resultado de compromissos profissionais). Tal como o ano passado verifica-se uma grande procura por informação dos livros do Plano Nacional de Leitura. Mas as entradas do ano de 2017 com maior número de visualizações são, por ordem crescente, Monstros que nos habituam (uma antologia de contos sobrenaturais de autoria portuguesa lançada pela Editorial Divergência), Crónica do Rei Pasmado (uma história irónica de uma corte hipócrita e imoral que tenta evitar que o rei veja a rainha nua), O Labirinto dos Espíritos de Carlos Ruíz Záfon (volume que finaliza a tetralogia O Cemitério dos livros esquecidos). Estes números de visualização excluem os volumes de banda desenhada que terão entrada própria.

As melhores leituras

Excluindo a banda desenhada, que será focada mais tarde, eis as melhores leituras de 2017:

Melhor colectânea – Relatório Minoritário e outros contos

Philip K. Dick gosta de brincar com a memória e com a nossa construção da realidade, sobrepondo diferentes visões, adicionando o efeito de substâncias duvidosas e fazendo-nos questionar o que achamos que existe à nossa volta. Esta fenomenal antologia não é excepção. Entre elementos programados que prosseguem sem a humanidade na concretização absurda do propósito para o qual foram construídos, encontramos adultos que se refugiam da realidade em casas de bonecas e pessoas capazes de perspectivar alguns futuros possíveis. Vários destes contos deram origem a filmes ou pequenas séries e o conjunto é sublime.

Melhor ficção curta – Kuszib de Hassan Abdulrazzak (Iraq +100)

Um dos melhores contos que li este ano (excluindo, claro, os do Philip K. Dick) encontra-se num local pouco provável, uma antologia de ficção científica iraquiana. Porquê pouco provável? Porque não é um país com tradição na ficção especulativa, onde o regime vigente não favorece o florescimento de especulações e previsões futuras. O próprio organizador da antologia começa por nos referir que a maioria dos autores não está habituado ao género e que terá aqui uma das suas primeiras explorações.

Este conto apresenta um planeta Terra governado por alienígenas. O casal que acompanhamos encontra-se num evento social, experimentando, pela primeira vez, uma determinada marca de vinho que tem, como característica peculiar, ser feito como antigamente, de uvas. Mas então, de que é feito o vinho que conhecem? De sangue. De seres humanos. Um conto extraordinário com reviravoltas viscerais.

Melhor ficção científica – Lágrimas na Chuva de Rosa Montero

Este ano parece centrar-se muito em Philip K. Dick – neste caso Lágrimas na chuva é um livro de uma autora espanhola com vários elementos de Blade Runner que nos apresenta uma rep, uma humana artificial, que se dedica à investigação de crimes. No mais recente caso que investiga ela próprio foi uma das potenciais vítimas e começa quando alguns reps aparecem com memórias deturpadas e tentam assassinar outras reps.

A história possui fortes referências à descriminação (e às suas origens sociais) ou à distinta justiça que é aplicada a ricos e a pobres: numa sociedade em que até o ar puro é pago e muitos humanos são obrigados a viver em zonas poluídas e marginais, expulsos por não serem capaz de pagar os elevados impostos de zonas melhores, a existência de reps bem sucedidos torna-se uma afronta e um bom bode expiatório para as desgraças pessoais.

Melhor não ficção – A Biblioteca à noite – Alberto Manguel

Quem bem me conhece sabe que livros sobre livros são das minhas leituras favoritas, uma paixão reconhecida tardiamente! Este, de Manguel é divinal, centrando-se nas bibliotecas desde tempos imemoriais para mostrar diversas formas de organização e de importância na sociedade. Cruzando diferenças culturais e históricas com a actualidade ocidental, realça o mistério da biblioteca à noite, obscura, carregando todas as possibilidades e todos os livros, os lidos e os não lidos.

Melhor fantasia – City of Blades de Robert Jackson Bennett

Depois de um extraordinário primeiro volume, este segundo não se encontra no mesmo nível mas, mesmo assim, é a melhor leitura de fantasia, considerando que não me dediquei muito ao género. Não me entendam mal – é uma excelente leitura, simplesmente fica aquém da expectativa criada em City of Stairs.

Com uma realidade que alterna os detalhes medievais com uma elevada cadência de descobertas tecnológicas, City of Blades apresenta uma mitologia completa mas não demasiado complexa que vai sendo apresentada sem sobrecarregar o leitor e episódios mais leves provocados por tiradas cómicas de personagens peculiares, constituindo um bom equilíbrio com as desgraças eminentes.

Melhor ficção científica nacional – Anjos de Carlos Silva

Esta não foi uma decisão fácil. Não por causa do livro indicado mas porque este ano li histórias excelentes de autores nacionais (mais, abaixo, nas menções honrosas). O elemento utilizado para o desempate foi o destaque da componente narrativa, elemento que muito prezo.

Partindo de um tema actual e adicionando vários elementos originais, Anjos possui diversas linhas narrativas que se combinam e divergem, resultando num romance de ficção científica carregado de acção e detalhes tecnológicos.

Melhor ficção histórica – Lovesenda de António de Macedo

Cineasta caído na obscuridade, professor, escritor competente mas pouco conhecido. António de Macedo era uma figura acarinhada do meio literário depois de ter deixado o cinema ao ser marginalizado e remetido ao esquecimento (talvez por não se enquadrar no que outros achavam que deveria ser o cinema português – podem ver o documentário Nos interstícios da realidade para mais informação).

Conhecedor tanto da história do fantástico português como da História Medieval portuguesa, escreveu este livro de frases sublimes que necessitam de uma atenta leitura onde o fantástico medieval se torna palpável aos nobres abrutalhados que não possuem o usual glamour romântico usualmente atribuído noutras obras. Infelizmente esta edição é limitada a 100 exemplares, fruto do  lançamento por uma pequena, mas esforçada editora nacional.

Menções honrosas:

 

 

 

 

 

 

 

Ficção científica – A súbita aparição de Hope Arden surpreendeu pelo conceito utilizando duas ideias entrelaçadas para concretizar um romance original, com uma personagem esquecível por todos e uma app que indica o caminho para a perfeição. Os três estigmas de Palmer Eldritch teria atingido o lugar de melhor ficção científica não fosse uma releitura. Por sua vez, Babel-17 foi outra das grandes leituras do ano ao se centrar nas possibilidades da linguagem para produzir uma guerra. E, claro, Normal de Warren Ellis com o seu abismo tecnológico, não pode ficar esquecido.

 

 

 

 

 

 

 

AntologiasNeutron Star de Larry Niven é um conjunto divertido carregado de estranhas mas interessantes espécies alienígenas e centrado num ser humano aventureiro que acaba por aceitar perigosas missões em troco de umas descargas de adrenalina e alguns trocos. Já Invisible Planets é uma antologia de contos de ficção científica chineses que possui alguns contos excepcionais e memoráveis!

 

 

 

 

 

 

 

Não ficçãoHistória natural da estupidez é memorável pelos exemplos de estupidez descritos. Que a humanidade tem uma capacidade incrível para realizar actos estúpidos já sabíamos mas a compilação apresenta casos sublimes! Por sua vez Desobediência Civil é um discurso genial de crítica à sociedade ocidental conseguindo, simultaneamente, ser subversivo e enaltecer a democracia.

 

 

 

 

 

 

 

Fantasia – Aliette de Bodard tem-se distinguido por apresentar ficção especulativa com elementos pouco ocidentais que conferem um ambiente exótico às suas histórias. Neste caso, The house of shattered wings é o primeiro livro de uma fantasia fantástica que apresenta uma cidade europeia após um apocalipse que fez colapsar a sociedade – existem seres mágicos, anjos caídos sem memórias, que constroem facções protegendo quem lhes interessa com motivos altruístas. As casas jogam um longo jogo de influências onde não é raro morrerem peões. Wintersmith é mais um livro de Discworld, destinado, neste caso a um público mais juvenil, com uma jovem mas cómica e decidida bruxa.

 

 

 

 

 

 

 

Ficção nacional – Em Diálogo das compensadas assistimos a uma paródia da nossa sociedade em que se opõe a adoração dos reality shows com uma vida mais pausada e dedicada à introspecção. As freiras constroem peças de computador que todos os fabricantes querem e cabe a um jovem director convencê-las a manter-se como cliente. Por sua vez, A Instalação do Medo é um episódio genial que deixa antever uma sociedade distópica onde os cidadãos são controlados – o próximo passo para esse controlo é a implementação do medo em todas as casas. Bastante diferente, em tom e tema, é As nuvens de Hamburgo uma história com elementos fantásticos onde o passado se materializa no presente (ou o presente no passado) mas sempre em torno de uma rapariga que desconhecia ter tais capacidades.

 

 

 

 

 

 

Ficção históricaO labirinto dos espíritos foi uma das primeiras leituras do ano e fechou a tetralogia passada na cidade de Barcelona. Apesar de ter gostado bastante deste volume peca por se alongar demasiado em episódios desnecessários, alguns que pretendem dar apenas uma noção de ambiente – elemento agradável mas que achei que era excessivo neste volume. Por sua vez, Crónica do Rei Pasmado é um retrato irónico que apresenta a hipocrisia da corte em que todos pecam, mas todos tentam evitar que o Rei veja nua a Rainha.

Perspectivas para o próximo ano

Aproximam-se mudanças. E novos projectos. Espero. Sem indicar prazos nem certezas, prevejo uma diversificação de formatos que ainda não sei em que moldes irá decorrer. E possivelmente passarei a ter espaço para jogos de tabuleiro e concertos.

Melhores leituras de anos anteriores


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2006

Silêncio – TLS

Como se tem visto pelos últimos dias (ver os livros comentados nos dias anteriores) a banda desenhada portuguesa está de saúde e recomenda-se. Neste volume reúne-se o trabalho de vários autores portugueses que pertencem ao mesmo estúdio e se organizaram para entregar histórias curtas centradas no mesmo tema. Este é o segundo volume da série em torno do estúdio, sendo que achei que o trabalho apresentado neste ainda conseguia ser de melhor qualidade do que no primeiro volume.

Silêncio foi apresentado durante o Amadora BD mas também mais recentemente no Museu Bordalo Pinheiro em Lisboa com entrega de prints inéditos numerados. Tal como o volume anterior quase todas as histórias são a preto e branco, destacando-se apenas uma a cores que corresponde à da capa deste volume.

Como a maioria das antologias de histórias, os estilos são diferentes bem como os tons narrativos, fazendo com que nem todas me tivessem interessado de igual forma. A primeira ( À luz da voz de Darsy Fernandes) destaca-se sobretudo pelo aspecto das criaturas que contém, numa história fantástica que me recorda, em efeitos, alguns trabalhos de manga.

Na segunda, Vislumbre de Bárbara Lopes, encontramos um casal que repete, em poucas horas, um episódio que antigamente era rotineiro de refeição caseira e envolvimento – um episódio que parece surge como hábito mas que está rodeado pelas habituais falhas de comunicação.

Monstros de Nuno Rodrigues e Filipe Duarte Pina surpreende pela reviravolta da personagem e da história mostrando um homem que escolhe profissões solitárias por ver todos os seres humanos transformados em horrendos monstros, alguns tentaculares e de dentições afiadas. Mas um dia esta fobia silenciosa será quebrada.

Se, por sua vez, em Sem rede de Marta Teives e Pedro Moura assistimos a uma história de encontros e reencontros onde o silêncio se alarga abruptamente, Monte Morte (a história a cores deste volume) junta a capacidade narrativa de André Oliveira com o desenho brutal de Jorge Coelho numa história carregada de violência e silêncio rural, onde os segredos da povoação mantém os costumes antigos.

Talvez porque a combinação de Monte Morte funcionou muito bem, as restantes histórias não me parecem tão fortes. Paula Bivar de Santos prossegue com Tempo, numa história de possibilidades enquanto Pedro Ribeiro Ferreira opta por dar voz ao lápis em Era uma vez – um truque divertido!

Por último, Ritual é uma história fantástica onde Ricardo Cabral dá largas ao desenho em cenários que remetem para civilizações antigas e cerimónias mágicas onde se exploram os sentidos e a realidade.

Silêncio consegue, de forma surpreendente, reunir histórias com uma qualidade narrativa e visual acima do que é comum neste tipo de antologias diversas. Contam-se histórias e surpreendem-se os sentidos numa combinação de autores e narradores que, de uma forma geral, funcionou bastante bem.

 

O velho Logan – Zonas de Guerra – Bendis e Sorrentino (Marvel Especial N.º 2)

Numa realidade alternativa os vilões exterminam os super-heróis controlando a mente de Wolverine. É desta realidade alternativa que provém O velho Logan, um Wolverine abatido e confuso. Depois de uma série de batalhas que o levam a mudar de realidade, depara-se no passado, com os super-heróis vivos. Incrédulo, mostra-se menos violento do que é usual, pois tenta perceber se se trata de novo truque.

Não é apenas Logan que está confuso. Nesta realidade morreu há muito, deixando um filho que lhe é parecido. Por outro lado os próprios super-heróis olham para o novo Logan com cuidado, analisando-lhe as memórias – receiam que se volte contra eles novamente.

Este volume começa por nos apresentar a realidade apocalíptica de onde este Logan é originário, em território inóspito e estéril. Depois de uma batalha acaba por ir parar às terras mortas onde tenta enfrentar dezenas de mortos-vivos, mas é salvo por uma mulher Hulk que o atira para fora daqueles domínios e para o mundo do passado onde os super-heróis ainda estão vivos.

De visual esmagador, por vezes demasiado sobrecarregado a cada página, O Velho Logan explica o surgir da personagem e o seu passado peculiar, servindo de base para a nova série X-men que será lançada pela Goody a partir de 29 de Dezembro. Contendo apenas as partes da história necessárias ao seu entendimento, é um volume carregado em acção.

O Velho Logan é o segundo volume da série Marvel Especial lançado em Portugal pela Goody.

Assim foi: Amadora BD

Tenho visto várias críticas negativas. E com razão. O programa é divulgado em cima da hora (com pontos incompletos) não permitindo organizar a(s) visita(s) e que livros levar para serem assinados, as exposições nem sempre estão disponíveis nos primeiros dias do evento, muitas são demasiado focadas no passado e pouco no que se faz actualmente.

Ainda assim, continuo a achar que é um evento que vale a pena, principalmente quando olho para o preço do bilhete. E têm existido algumas (pequenas) diferenças. O espaço para os autores assinarem já não é na garagem, escura e algo claustrofóbica, mas num espaço que coloca os autores num lugar mais aprazível para os leitores aguardarem a sua vez. A parte superior afasta-se mais do aspecto de ginásio ou de armazém com que me deparei nalguns anos e o espaço da garagem parece melhor aproveitado. O auditório tem uma disposição mais confortável e foi possível usufruir do evento mesmo estando de canadianas (com foi o meu caso este ano), algo que reparei não ser totalmente possível noutros anos. Só posso, claro, falar, comparando os anos em que fui e confesso que não puderam ser muitos.

Autógrafos

Posto isto, esta entrada resume duas visitas ao evento. A primeira no dia 04 em que cheguei a meio da tarde e me dediquei a explorar as exposições, e a segunda no dia 12 em que cheguei após o almoço e mais focada nos autógrafos que pretendia recolher. No dia 04 pude aproveitar apenas para assinar um livro de Marcello Quintanilha.

Já no dia 12, estranhei a pouca fila para John Layman, o autor de Tony Chu, que talvez se devesse à hora – a série é das minhas favoritas da Image e encontra-se actualmente a ser publicada em Portugal pela G Floy; e aproveitei para assinar alguns livros.

Já no caso de Grazia La Padula, cheguei mesmo em cima da hora em que se formou a fila para os autógrafos – felizmente! Porque tornou-se demasiado grande em pouco tempo. O peso excessivo dos livros para estes dois autores fez com que não tivesse conseguido, neste dia, pegar mais autógrafos.

O que gostei menos? Só soube da presença de alguns autores / eventos em cima da hora e o controlo do fim das filas ser descarregado em cima de quem já estava na fila “É o último – veja se mais ninguém se põe atrás de si”.

Exposições

Tendo só ido no segundo fim de semana, tive a possibilidade de ver todas as exposições já montadas (como já começa a ser usual, as exposições não estão todas disponíveis nos primeiros dias do evento). A área disponível no pavilhão principal tinha o inconveniente de ter cruzamentos estranhos com espelhos que dificultaram a navegação e perceber se já tinhas enveredado por aquele caminho antes.

Em Contar o Mundo – A reportagem em banda desenhada mostravam-se alguns eventos comparando a perspectiva jornalística e o respectivo retrato numa página de banda desenhada, seja na perspectiva de uma personagem, seja numa perspectiva mais neutra. Mostraram-se alguns trabalhos de banda desenhada que são peças não ficcionais e realistas, como biografias ou reportagens neste formato, mas também alguns trabalhos com componente ficcional onde se demonstram eventos reais.

Uma exposição interessante, mais coesa nalgumas partes que noutras, que realçava o papel da banda desenhada enquanto meio de transmissão, não só de histórias, mas de eventos reais.

Para além desta, destacaria, claro, as de Will Eisner e Jack Kirby, com Tormenta a destacar-se inesperadamente pelo efeito visual da sala (durante o tempo em que lá estive não houve visitante que não se tivesse fotografado com o boneco), e Revisão a reconhecer trabalhos antigos mas interessantes que assim voltam a estar disponíveis a novos leitores. A ala onde se destacam os autores portugueses com obra publicada no estrangeiro também era das mais interessantes (e das poucas com suporte audio visual para dar a conhecer algo mais dos autores).

 

Resumo de leituras – Novembro de 2017 (6)

 

231 – Papa-capim – Noite Branca – Esta colecção tem apresentado histórias de personagens conhecidas em contextos bastante diferentes do que lhes é usual. Desta vez a personagem escolhida é Papa-capim na sua juventude, um guerreiro em potencial que ainda não reconhecido como tal e que, por esse, motivo, não é levado a sério quando começa a ter fortes premonições de uma desgraça;

232 – O elixir da eterna juventude – Fernando Dordio e Osvaldo Medina – A história apresenta, como personagem principal, Sérgio Godinho! Mas um Sérgio Godinho que é envolvido, contra sua vontade, em teorias esotéricas de vida eterna que estarão associadas a algumas das suas letras. É uma aventura mirabolante e divertida, com elementos interessantes;

233 – O que se vê da última fila – Neil Gaiman – Livro não ficcional, compila vários textos do autor sobre leitura, banda desenhada, livros ou prémios que recebeu. Não faltam alusões à importância do acesso gratuito à leitura ou aos livros, nem alusões políticas às suas convicções, ainda que estas não estejam expressas de forma muito explícita. Um livro a não perder para quem aprecia a obra de Neil Gaiman;

234 – A desobediência civil – Henry David Thoreau – Eis uma leitura subversiva de uma época muito diferente mas que se aplica totalmente aos dias de hoje. Thoreau incita à revolta perante o estado. Não uma revolta violenta ou irracional, mas pequenos actos de rebeldia para expressar divergência de opinião – numa época em que a escravatura é legal, questiona-se a rectidão das leis, ou a justiça de condenar à forca um defensor dos escravos fugidos;

235 – Living Will 6 – André Oliveira e Pedro Serpa – Único defeito? ser pequeno. Este sexto número contém mais umas páginas de Living Will, uma história tocante e única que André Oliveira tem publicado em parceria com outros autores na componente gráfica. Será um projecto que ele próprio publica e que espero que veja o final  brevemente (bem como uma edição em volume único, que vale bem a pena);

236 – A máquina de prever o futuro de José Frotz – José Carlos Fernandes – Uma pequena história bem ao estilo de José Carlos Fernandes onde a profecia se concretiza. Será que se concretiza porque o futuro é mesmo adivinhado ou será esta máquina a origem das desgraças que antecipa?