The new voices of fantasy – Vários autores

O mercado anglo-saxónico de ficção especulativa vai-se renovando, seguindo novas tendências, estilos e culturas, gerando cruzamentos impensáveis entre géneros em contos que reflectem as preocupações do seu próprio tempo. Ao longo dos anos vão surgindo novos autores que começam a ser conhecidos pelos contos destacados por prémios ou em antologias de melhores do ano. Este volume pretende reunir algumas histórias destes novos autores e destacá-los como promissores para os próximos tempos.

A antologia começa com um conto de Alyssa Wong, a quarta história publicada da autora, com a qual venceu o Nebula e o World Fantasy Award (a mesma história que foi, também, nomeada para um Shirley Jackson, um Bram Stoker e um Locus Award). Claro que prémios e nomeações não são garantia de boas histórias, mas este conto, Hungry Daughters of Starving Mothers contém detalhes de horror e fantástico num cenário actual onde a corrupção alastra, resultado do consumo imediato e da fome interminável.

Selkie stories are for losers é a história seguinte da autoria de Sofia Samatar, uma autora que não é propriamente uma voz emergente, antes uma autora já reconhecida no género com histórias como A Stranger in Olondria que venceu vários prémios. Cruzando lendas diversas sobre mulheres que se mantém entre os humanos até ao momento em que alguém encontra a sua antiga pele (ou descobre que são algo mais do que parecem), esta história quase banal consegue surpreender pela estrutura e desenvolvimento.

Depois de tornados apaixonados por raparigas (em Tornado’s Siren de Brooke Bolander que apenas possui como elemento distintivo o tornado capaz de sentimento) encontramos Left the century to sit unmoved de Sarah Pinsker que nos traz um fenómeno local, um lago que faz desaparecer totalmente algumas pessoas sem critério específico – mesmo depois de drenado o lago apenas se encontram os objectos e roupas da pessoa.

Max Gladstone também não é propriamente um autor desconhecido, escrevendo sobretudo fantasia urbana. Em A Kiss With Teeth não foge ao género mas apresenta uma das melhores histórias do conjunto, com um tom levemente cómico sobre as preocupações de um pai que vê o seu filho ter más notas. Como pai tenta perceber o que se passa, mas a sua própria natureza torna difícil ajudar sem dicas da professora, a presa perfeita. Ah. É que o pai é um vampiro reformado que tenta passar por humano, simulando os nosso gestos e forma de andar.

Em The Cartographer Wasps and the Anarchist Bees de E. Lily Yu explora-se uma premissa que não é totalmente nova. Recordo que em The Bees de Laline Paull já se apresentava a vida numa colmeia apresentando aspectos sociais da hierarquia e como esta poderia ser subvertida por um único elemento. Confrontando as abelhas com as vespas possuidoras de uma tecnologia mais avançada este conto de E. Lily Yu consegue ser um relato apaixonante sem necessitar de se centrar num único elemento, e comparar vários sistemas de sociedade.
A. C. Wise traz-nos outro dos melhores contos do conjunto, um guia cómico de como a bruxa pode arranjar uma casa. Começando com as formas aborrecidas como aquisição e ocupação, passa por nos apresentar como se pode domar uma casa ou fazer crescer uma, expressando para cada método os cuidados a ter (os humanos podem não gostar muito de ter uma bruxa dentro de casa e podem tentar queimá-la, por exemplo, ou a casa pode pregar partidas a quem a tenta influenciar).
Depois de Hauting o Apollo A7LB (um conto que já conhecia da excelente colectânea do autor Hannu Rajaniemi), segue-se uma história irónica de Chris Tarry, Here be dragons, onde dois homens simulam a existência de dragões para extorquírem dinheiro das vilas mostrando depois entranhas de vários animais como prova de uma chacina. Um dia esta trapaça pode voltar-se contra os supostos salvadores – de mais formas do que o leitor imagina.
Mais juvenil, mas enternecedora pela forma inocente e desiludida como nos apresenta o amor de um pato por uma rocha, The Duck de Ben Loory é um dos contos que vale a pena ler, nem que seja para ver a forma como transforma este premissa simples e aparentemente idiota numa boa história.
Publicado no The New Yorker, The Philosophers de Adam Ehrlich Sachs traz uma história demente de problemas genéticos hereditários que supostamente não trariam problemas psicológicos. Geração após geração, os homens desta família perdem na idade adulta todos os movimentos e passam a comunicar com os restantes recorrendo ao piscar de olhos com o intuito de transmitir as próximas palavras do seu livro. Arrepiante, claustrofóbico e assustador pela degradação, é um bom conto que vai elevando a premissa ao extremo absurdo .
Esta colectânea termina com uma novela mais longa, The Pauper Prince and the Eucalyptus Jinn, de Usman T. Malik, que se centra na problemática da emigração e da integração cultural sob uma fábula contada pelo avô (talvez demente) que recorda interacções com princesas e génios e que foi mudando de país em país até atingir determinados objectivos. Demonstrando como existe sempre muito para revelar da vida dos nossos antepassados, segredos dolorosos que ficaram enterrados, feitos que se silenciaram pelas circunstâncias, esta é uma novela excelente.
Ainda que não tenha apreciado todos os contos de igual forma, até porque os estilos e géneros são muito diversos, esta colectânea possui uma qualidade narrativa bastante elevada. Nem todas as histórias apresentam elementos que se destaquem pela originalidade, mas todos se encontram bem escritos e estruturados. São, na sua maioria, contos que possuem o necessário para envolver, mas sem excesso de detalhes que quebrem o ritmo ou desbalanceiem a história. Para os interessados em se actualizar para o que tem sido publicado recentemente, eis uma boa aposta.
(esta colectânea foi fornecida pela editora via NetGalley)

Resumo de Leituras: Maio de 2017 (2)

65 – O Incrível Hulk – Part 1 – Greg Pak, Carlo Pagulayan e Aaron Lopresti – O primeiro volume desta aventura coloca o herói num planeta carregado de estranhas espécies alienígenas que farão parte dos mais espectaculares cenários de batalha. A narrativa, apesar de possuir pontos cliché, consegue surpreender nalguns pontos com a progressão no segundo volume;

66 – Monstress – Vol.1 – Marjorie Liu e Sana Takeda – Fascinante, fabuloso, negro e imenso. Assim é o mundo de Monstress, de forte influência oriental onde os gatos possuem um papel preponderante;

67 – Herland – Charlotte Perkins Gilman – Um grupo de exploradores procura uma sociedade composta apenas por mulheres esperando encontrar a mais primitiva das combinações. O que encontra é a irmandade perfeita, evoluída mental e tecnologicamente com uma progressão estável – um choque para estes homens habituados a ver as mulheres como potes, belos, indefesos e utilizáveis;

68 – Apenas um peregrino – Garth Ennis e Carlos Ezquerra – Uma história violenta num mundo pós-apocalítptico carregado de salteadores e monstros, onde um homem, justiceiro, religioso mas obscuro, se coloca como bom samaritano, apesar da sua postura violenta e assustadora.

Resumo de Leituras – Maio de 2017

(já foram lidos há mais tempo, mas só agora tive tempo de actualizar esta rubrica)

61 – Edição Extra – Geral & Derradé – Este volume compila histórias mais antigas de Geral & Derradé, entre as quais algumas que foram publicadas em formato solto em jornais e outras publicações do género. Volume menos coeso que A Demanda do G, apresenta o mesmo espírito cómico, leve e divertido revelando-se, por isso, uma leitura muito agradável;

62 – Coisas de adornar paredes – José Aguiar – Uma história pausada sobre a procura de boas premissas quando a mais óbvia se encontra no quotidiano;

63 – Lovesenda – António de Macedo – Conhecido primeiro como cineasta que chegou a ter um filme seleccionado para o festival de Cannes, tem-se dedicado, nos últimos anos à escrita. Entre ficção científica, histórias mais esotéricas e textos que acompanham o desenvolvimento da fantasia, António de Macedo também produz Fantasia! De realçar que este será, sem dúvida, uma das grandes publicações em Portugal nos últimos anos! Apresentando a Ibéria numa época em que os cavaleiros cristãos co-existiam com a presença moura, Lovesenda contém uma história mítica, mística e extraordinária, contada através de uma escrita pausada e bem tecida;

64 – Hoje acontece-me uma coisa brutal – El Torres e Julián López – Partindo com a premissa usual de herói que surge quase do nada com poderes sobrenaturais que usa para o caminho da justiça, apresenta alguns detalhes narrativos poucos usuais e explora a cidade de Barcelona em páginas de excelente visual.

Resumo de Leituras – Março de 2017 (1)

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53 – O ouro do Quebeque – Túnicas Azuis – Vol. 10 – Ambos os lados da Guerra enviam um par de soldados disfarçados ao Canada com o intuito de capturarem o ouro acumulado por um garimpeiro. Não esperam é que o guia que arranjam seja pior que eles a orientarem-se nas florestas…;

54 – Louco: Fuga – Rogério Coelho – Visualmente esplendoroso, centra-se no Louco, uma personagem da Turma da Mónica que é conhecido pelos episódios mirabolantes. Aqui mostra algumas das suas aventuras entre mundos, fugindo ao cinzento, e aspirando à liberdade das ideias;

55 – Deadpool – A Guerra de Wade Wilson – Duane Swierczynski e Jason Pearson – Neste volume da colecção da Salvat reúnem-se duas histórias sobre a origem desta personagem contadas pelo próprio, e alteradas para sua própria conveniência consoante a situação. Na primeira faz parte de um plano demente como soldado a soldo, e com a segunda pretende angariar alguém que adapte a sua história para um bom filme;

56 – Through the woods – Emily Carroll – De ambiente negro, este livro reúne várias histórias de horror curtas que terminam, quase todas de forma péssima para as personagens, ou, no mínimo, traumática.

Resumo de Leituras – Fevereiro de 2017 (7)

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49 – Terra de Sonhos – Jiro Taniguchi – Este volume reúne duas histórias bastante distintas, uma primeira, mais longa em que assistimos aos últimos dias de um cão, um animal doméstico muito bem tratado que aguenta o sofrimento da velhice por longos dias, a que se segue a adopção de uma gata prenha que vem preencher o espaço deixado. A segunda é uma história sobre a exploração e o ultrapassar de barreiras físicas e mentais;

50 – Black Face – Túnicas azuis Vol. 9Willy Lambil e Raoul Cauvin – A série continua a explorar a guerra da Secessão aproveitando, neste caso, para explorar o tema da escravatura, um pretexto para fazer uma guerra de ambição e de busca por lucros, que pouco tem a ver com o trabalho escravo;

51 – Histórias de Vigaristas e canalhasOrganizada por George R. R. Martin e Gardner Dozois, a antologia reúne várias histórias fantásticas protagonizadas por vilões em diversos cenários e premissas mirabolantes e imaginativas;

52 – Drifter – Vol.2 – Ivan Brandon e Nick Klein – Tal como no primeiro, a história não é linear e directa. Vamos observando o desenrolar de acontecimentos como meros espectadores, com pouco enquadramento ou compreensão e temos de ir construindo a história, com pistas espalhadas ao longo das várias narrativas.

Destaque: Novas edições

Não são só os novos livros que devem ser destacados, mas também aqueles que se recuperam no mercado para não caírem em esquecimento. Eis alguns que serão lançados novamente nos próximos tempos:

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Um dos grandes livros de Italo Calvino, As Cidades Invisíveis, terá nova edição na colecção RTP, em capa dura e preço acessível. Este clássico da literatura fantástica apresenta várias cidades ficcionais descritas por Marco Polo ao Imperador Kublai Khan. Nomeado para o prémio Nebula, o livro já serviu de inspiração para uma Opera. Eis a sinopse:

A este imperador melancólico, que percebeu que o seu poder ilimitado conta pouco num mundo que caminha em direção à ruína, um viajante visionário fala de cidades impossíveis, por exemplo, uma cidade microscópica que se expande, se expande até que termina formada por muitas cidades concêntricas em expansão, uma cidade teia de aranha suspensa sobre um abismo, ou uma cidade bidimensional como Moriana. […] Creio que o livro não evoca apenas uma ideia atemporal de cidade, mas que desenvolve, ora implícita ora explicitamente, uma discussão sobre a cidade moderna. […] Penso ter escrito algo como um último poema de amor às cidades, quando é cada vez mais difícil vivê-las como cidades.» Italo Calvino «Ao projetar a sua própria voz nos relatos de cidades que pontuam o diálogo entre Marco Polo e Kublai Kan, Calvino reencontra essa capacidade dos antigos construtores de fábulas, e sabe transmitir o prazer que aquele que conta tem de suscitar no ouvinte, que é o próprio leitor.» Nuno Júdice Prefaciado por Nuno Júdice.

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Adaptado para cinema, O Prestígio é a história fantástica da rivalidade tempestuosa entre dois mágicos:

Uma história de segredos obsessivos e curiosidades insaciáveis. Londres, 1878. Dois jovens mágicos cruzam caminhos enquanto actuam em luxuosas salas de espectáculo vitorianas. E cedo nasce um feudo cruel que irá assombrar as suas vidas, levadas ao extremo pelo mistério de uma espantosa ilusão que ambos fazem em palco. A rivalidade instiga-os a atingir o pico das respectivas carreiras, mas com consequências terríveis. Na busca de um truque que conduza à ruína do rival, escolhem o caminho da ciência mais negra. O sangue será derramado, mas não será suficiente. No fim, o legado dos mágicos irá passar para as futuras gerações e serão os descendentes a ter de desvendar a teia de loucura que envolve estranhos actos de magia…

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Publicado há algum tempo no mercado português, retorna pela G Floy:

Há dois lados para cada história, e agora chegou a altura de ouvir o lado de Loki: o filho preterido de Odin vai contar a história toda do seu ponto de vista, a sua sede insaciável de poder, os seus sentimentos ambíguos para com Sif, a sua antipatia para com Balder, e o seu imenso ressentimento contra o seu irmão mais velho, Thor. Com a excepcional arte de Esad Ribic, um dos maiores artistas da Marvel, e argumento do romancista Robert Rodi, esta história auto-contida vai mostrar-nos Asgard como nunca a tínhamos visto! Loki tornou-se finalmente soberano de Asgard, e Odin foi colocado a ferros, tal como todos aqueles que batalharam em seu nome. No entanto, Loki vê-se cercado de antigos aliados e interesses vários, todos em busca de recompensa pela ajuda prestada na sua ascensão. E Hela, deusa do Reino dos Mortos, empurra-o para completar o seu triunfo com a execução de Thor. Loki terá de ponderar se a sua existência fará algum sentido sem o seu meio-irmão…

Sobre Loki deixo-vos, também, algumas páginas disponibilizadas pela editora:

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H-Alt – 3 – Diversos autores

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Cada vez maior, cada vez reunindo o talento de autores mais diversos e mais diferentes, a terceira revista da H-Alt possui histórias que se enquadram na ficção científica, na fantasia e no horror.

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O volume abre com uma história de bruxarias e destinos onde as intenções divergem bastante do esperado e prossegue para a exploração do desespero com a venda de um fármaco milagroso. Novamente as intenções divergem e o resultado é, no mínimo, irónico.

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Depois dos alienígenas que caminham quase invisíveis entre nós segue-se uma irónica história de Arthur Cordeiro que apresenta, para além do bom visual, uma boa narrativa. De seguida, voltamos a encontrar alienígenas – o espaço pode ser um local medonho mas quem fica assustado com o que encontra são os visitantes, numa história curta, amorosa e engraçada.

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Depois das espectaculares imagens do autor da capa, voltamos a encontrar alienígenas que tecem um plano para, com o mínimo esforço, conseguirem o que pretendem da humanidade, e viagens intergalácticas onde se usam teorias sobre a matéria negra para se escapar a um fim quase inevitável.

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Cruzando diversos géneros, estilos narrativos e abordagens visuais, H-Alt volta a trazer boas histórias curtas onde se destaca a componente gráfica mostrando que a maioria das parcerias atinge um resultado com um nível acima da média.

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Eventos: Devoradores de Livros – Fevereiro

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A tertúlia Devoradores de Livros tem data marcada para o dia 23 de Fevereiro e irá decorrer no lugar habitual, a Leituria em Lisboa. Esta sessão tem como convidado Tomás Múria, o guionista que adaptou o Ministério do Tempo para português.

Para mais detalhes podem consultar a página do evento.

Resumo de Leituras – Fevereiro de 2017 (1)

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25 – Azul – Michael Pastoureau – Cruzando a evolução da cor e a sua utilização ao longo de várias sociedades e culturas, peca pela demasiada centralização no ocidente. Inicialmente sem associação simbólica, a cor começa a ser usada com o desenvolvimento de novas técnicas de coloração e associação a estereotipos sociais;

26 – Memórias d’Além Espaço – Enki Bilal – Série de histórias curtas de ficção científica com finais irónicos de máximo prejuízo em que o autor apresenta algumas boas páginas. Sem ser um conjunto excelente é bem disposto e irónico, uma combinação agradável;

27 – A Ermida – Rui Lacas – Pequena história de poucas falas que inspira uma enorme simpatia pela forma carinhosa como se expressa. As páginas apresentam apenas uma cor o que, neste caso, funciona muito bem para dar o aspecto e o ambiente pretendido. Apesar de curta é uma excelente e agradável história;

28 – Orchidea – Cosey – Quando comecei a leitura não pensei que fosse gostar da história. As personagens pareceram distantes, com os seus diálogos de show-off mas depois percebemos que estes diálogos e postura fazem parte de piadas partilhadas entre familiares e que na verdade são a sua forma de contribuir para o ambiente familiar. Contra todos os clichés esperados, Orchidea consegue supreender surpreender pela positiva

Resumo de Leituras – Janeiro de 2017 (5)

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17 – Starve – vol.2 – Brian Wood, Daniel Zezelj, Dave Stewardo segundo volume fecha a história de forma belíssima, mostrando alguém que consegue, finalmente, enfrentar-se a si próprio, romper com as convenções sociais e reverter os conceitos que determinam um suposto estatuto social baseado em falsidades;

18 – Descender – Vol. 3- Jeff Lemire e Dustin Nguyen – Depois de dois volumes movimentados, este terceiro explora as histórias de cada uma das personagens, mostrando as privações e traumas que tiveram de passar para se tornarem naquilo que vemos. Ainda que seja uma componente interessante da história, estas várias histórias poderiam ter sido dispersas pelos dois volumes anteriores, sendo que aqui, ocupam quase a totalidade do volume, quebrando o ritmo da série;

19 – I Hate Fairyland – Vol.2 – Skottie Young – Ao tornar-se rainha Gertrude inicia um reinado  de horror, com jogos de morte, muitas cabeças cortas e várias guerras com todos os reinos vizinhos. O reinado termina após uma fiscalização e Gertrude encontra-se novamente livre para tentar sair do reino e voltar a casa. Com uma lista de possíveis saídas, este volume é episódico, mostrando Gertrude em cada uma das hipóteses a decidir-se, quase sempre, pela opção violenta, apesar do contexto aparentemente fofinho e querido;

20 – Muros – os muros que nos dividem – José Jorge Letria – A história da humanidade contada em construções de divisão, materialização do medo e influenciadoras do pensamento. Os muros não são meras divisórias, expressam políticas e sentimentos, expressam receios e hostilização, materializam-se a partir dos desejos de alguns, e acabam por se reflectir na mente dos restantes. Um interessante apanhado dos principais muros e muralhas que o homem foi construindo ao longo dos séculos, com espaço para reflexão.

Destaque: 4,3,2,1 – Paul Auster

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De uma forma muito simplificada, a mecânica quântica permite, do ponto de vista teórico que se formule a possibilidade de existirem várias realidades paralelas, que diferem entre si por pequenos eventos que podem ter originado grandes diferenças no desenvolvimento de cada um dos mundos. Esta premissa tem servido de base para diversos livros de ficção científica e fantástico, apresentando ora mundos em que as regras científicas divergem, ora mundos em que eventos importantes da história não ocorreram causando alterações visíveis nas sociedades.

Paul Auster parece ter adoptado com o seu livro mais recente, 4,3,2,1, uma ideia mais centrada numa única personagem que vive quatro possibilidades. O livro é lançado este mês também em Portugal, pelas Edições Asa:

O que nos motiva verdadeiramente? O que nos leva a optar por um caminho em detrimento de outro? De que futuros abdicamos pelo simples facto de termos apenas uma vida para viver? No dia 3 de março de 1947, na maternidade do hospital Beth Israel em Newark, New Jersey, nasce Archibald Isaac Ferguson, filho único de Rose e Stanley Ferguson. Uma só criança a quem são dados quatro caminhos ficcionais diferentes, quatro direções possíveis. Uma pessoa que se desdobra em quatro, para assim viver quatro vidas paralelas e absolutamente diferentes, mercê das circunstâncias, do acaso, e das escolhas. Os contrastes entre os quatro Fergusons são evidentes. As distintas relações com a família e as amizades, o amor romântico e as paixões intelectuais percorrem a tumultuosa paisagem da América, entretecendo-se com momentos cruciais da História do século xx. Em comum, o fascínio por uma mulher: a magnífica Amy Schneiderman. Todavia, cada uma das relações entre os quatro Fergusons e Amy é única. E nós, leitores, somos as testemunhas de cada momento de prazer, cada momento de dor, cada lento avançar rumo ao inevitável culminar das suas – de todas – as vidas. “4,3,2,1” é o primeiro romance que Paul Auster escreve em sete anos, e sem dúvida uma das suas obras mais complexas. Uma criação de um autor no auge do seu talento, um testemunho de paixão pelo realismo, pela História e a própria vida. Um tour de force absolutamente inesquecível.

Eventos: Sustos às sextas 2017

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Finalmente está divulgado o programa da terceira temporada de Sustos às sextas que começa num dia muito propício, a próxima sexta feira 13 em Janeiro. Entre música, cinema, entrevista, espectáculos este ano cada sessão é marcada por um espaço de sugestões literárias que começa com João Barreiros. De destacar, também, o painel de Ficção científica e horror para dia 19 de Maio. Marquem na agenda!

 

 

Retrospectiva 2016 – Banda Desenhada

Este foi o ano em que li mais banda desenhada, com 146 volumes lidos, aproveitando para ler em francês, para além do usual inglês e português. Este maior foco deve-se sobretudo à expansão das publicações no mercado nacional, em que destaco os lançamentos da G Floy e da Levoir, bem como à disponibilização, através do NetGalley, de vários volumes da Image que me despertaram para algumas novas séries.

Banda desenhada Portuguesa

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A melhor leitura – Vampiros – Filipe Melo e Juan Cavia – Depois de Dog Mendonça e Pizzaboy, Filipe Melo e Juan Cavia abraçaram um desafio de temática mais séria, retratando uma das mais duras realidades portuguesas, a Guerra Colonial, principalmente na Guiné. Em terreno de difícil controlo como são as florestas, a guerra é, sobretudo, psicológica, por conta das emboscadas permanentes que incutem o terror pela expectativa sempre presente de algo repentino e definitivo. Captando o ambiente incerto, o nervosismo que se transformar em paranoia, o desenvolvimento de uma aparente insensibilidade às desgraçadas, Vampiros não apresenta heróis, mas homens que ficarão para sempre marcados pela Guerra.

Menções honrosas – Para quem não conheceu o conteúdo da revista, como eu, Revisão revelou-se uma boa surpresa, diversa em conteúdos e estilos, mas com muitas histórias inteligentes de excelente visual. Contendo, também, algum conteúdo com carácter experimental, é uma leitura aconselhável a quem gosta de banda desenhada e desconhece o que foi produzido neste período. A Demanda do G (Geral & Derradé) foi uma revelação bem humorada, carregada de espírito cómico onde se destaca a estrutura peculiar, uma demanda mirabolante e divertida, acompanhada por tiras em voz-off que tecem comentários a propósito da acção principal. Por sua vez, Milagreiro com narrativa de André Oliveira centra-se numa entidade secreta composta por agentes sem vida própria que têm por missão criar pequenos milagres para perpetuar a fé. Ao longo da história o desenho de vários artistas vai sendo intercalado, dando um carácter muito próprio ao conjunto. Ainda, Apocryphus revela uma excelente qualidade gráfica cruzando o trabalho de vários autores sob o tema fantástico numa edição de aspecto cuidado;

Banda desenhada de horror

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A melhor leitura Harrow county de Cullen Bunn e Tyler Crook (volum 1)- Desde que comecei a ver esta série em todos os topos de ficção de horror que senti curiosidade para lhe pegar. O primeiro volume foi publicado recentemente por cá e esteve à altura das expectativas. Utilizando o poder da magia antiga, das bruxas rurais que se envolvem com criaturas sobrenaturais, Harrow county mostra como nem sempre os monstros são os que aparentam;

Menções honrosas – Começando pelo fantástico Wytches (de  Snyder, Jock, Hollingsworth e Robins) com criaturas sobrenaturais e milenares como bruxas, num cenário rural de bosques sombrios e passando pela serie lovecraftiana Locke & Key de Joe Hill Gabriel Rodriguez, onde uma série de chaves moldadas com demónios não corporizados possuem faculdades imagináveis mas só podem ser utilizadas por um preço demasiado elevado, o destaque vai também para a série Fatale de Ed Brubaker e Sean Philips, outra série de influência lovecraftiana que segue uma femme fatale com a capacidade de se fazer obedecer por todos os homens, capacidade que distribui a desgraçada por onde passa, com violência desmedida e irracional.

Banda desenhada fantástica

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A melhor leitura – The Autumnlands de Kurt Busiek e Benjamin Dewey – Com imagens de bom detalhe que originam páginas de aspecto arrasador, a história decorre numa realidade onde várias espécies de animais coexistem numa única cidade, apresentando uma civilização de contornos medievais centrada nas artes mágicas. A magia está, no entanto, a desaparecer, ameaçando a vida das populações urbanas, que assim ficariam desprotegidas à rapina pelas restantes espécies. Num acto de desespero convocam, por artes mágicas, um antigo e mítico herói. O que surge é um homem, quase nú, incapaz de realizar magia, mas capaz de utilizar meios científicos para desenvolver formas de luta.

Menções honrosasI Hate Fairyland de Skottie Young é um dos livros mais hilariantes que li este ano. Quem nunca leu uma história que tem como principal personagem uma criança que “cai ” num reino mágico onde tem uma importante missão a cumprir? Neste caso Gertrude vai parar ao reino das fadas, fofinho, amoroso e carregado de músicas animadas e doces. O que parece ser o sonho de qualquer criança transforma-se, 27 anos sem conseguir resolver charadas, num pesadelo e Gertrude transforma-se numa psicopata implacável que mata e come qualquer um que aparecer no seu caminho. Tudo num ambiente fofinho, queriducho e amoroso. Sharaz-De de Toppi fascinou-me pelo visual, diferente do usual, com cada página a constituir uma obra de arte, carregado de texturas diferentes para melhor diferenciar o preto e branco das páginas. De destacar, também, o ambiente e a lógica pouco ocidentais que contribuem para transformar estas histórias numa boa leitura.

Banda desenhada de ficção científica

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A melhor leitura – Trees de Warren Ellis e Jason Howard – Os alienígenas chegaram à Terra, mas não iniciaram nenhuma tentativa de interação. As enormes estruturas cilíndricas esmagaram tudo o que se encontrava no caminho da aterragem provocando diversas catástrofes, algumas em cidades com grande densidade populacional. O terror dos primeiros momentos dá lugar ao nervosismo da incerteza, e as populações que permanecem perto das estruturas apresentam sintomas de elevado stress psicológico. Graficamente brutal, alternando cores conforme o intercalar de locais, Trees consegue combinar uma boa premissa para qualquer história de ficção científica com a excelente qualidade do desenho;

Menções honrosasFragmentos da enciclopédia délfica de Miguelanxo Prado foi o meu primeiro contacto com o trabalho do autor e despertou-me interesse pelas semelhanças para com A Guerra da Elevação da David Brin, com a espécie humana a desenvolver a inteligência de outras espécies da terra, mas continuando a tratá-las como escravos, seres de segunda categoria. Miguelanxo Prado utiliza este contexto para estabelecer um paralelismo com a espécie humana, em episódios de constante crítica social.  Descender de Jeff Lemire e Dustin Nguyen recorda-me um cruzamento de A.I. com Battlestar Galactica retratando um robot, Jim, com aparência de criança que é recebido numa família como um verdadeiro filho. Aquando da revolta dos robots, Jim encontrava-se desligado e não participou. Anos mais tarde, quando acorda, sente falta da sua família e tenta procurá-los, apesar de perseguido por diversas entidades. Parque Chas de Eduardo Barreiro e Eduardo Risso decorre num bairro residencial que tem assistido, ao longo dos anos, a diversos fenómenos inexplicáveis. O autor projectado como personagem na própria história, assiste a alguns e começa a investigar por conta própria o que se poderá estar a passar aqui. Quando se apaixona por uma femme fatale sabemos que se envolverá mais do que pretendia numa aventura mirabolante por várias realidades onde se cruza com várias personagens ficcionais.

Banda desenhada Histórica

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A melhor leitura – Foi assim a guerra das trincheiras de Tarti – Esqueçam a visão romântica de jovens heróis, guerreiros, cheios de vontade de combater e de perder a vida pela nação. A vida nas trincheiras é suja e pestilenta, os soldados inimigos são apenas um dos perigos e os jovens levados para uma guerra em que não se revêm acabam por se dessensibilizar para os horrores a que assistem a cada hora de permanência na linha da frente. A par com este retrato pungente, Tarti compõem tiradas críticas bem colocadas, sobre a situação dos soldados, sobre as populações que acabam por perecer com a guerra e sobre os colonizados que aqui acabam sem saber muito bem como nem porquê.

Menções honrosasDemocracia de Alecos Papadatos, Abraham Kawa e Annie Di Donna decorre na Antiga Grécia e visa mostrar como se desenvolveu o modelo que conhecemos como Democracia. Baseado em factos históricos e preenchido com suposições é uma abordagem interessante que se preocupa em criar e desenvolver personagens para fazer desenrolar os acontecimentos. Por sua vez, O Comboio dos órfãos de Philippe Charlot, Xavier Fourquemin e Scarlett Smulkowski é a história verídica das crianças que viviam nas ruas das cidades. Órfãos, ou não, a quantidade de crianças atingiu tal ordem que se criaram instituições para distribuir por famílias de todos os Estados Unidos da América, sem qualquer registo, e separando irmãos. Décadas depois, alguns procuram saber algo mais sobre as suas origens, investigação difícil nestas circunstâncias.

Outras bandas desenhadas

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A melhor leitura – Ardalén de Miguelanxo Prado – Apesar de ter gostado imenso de tudo o que li de Miguelanxo Prado (Presas fáceis é uma mordaz crítica à forma como foram geridas as crises bancárias com pagamentos milionários para os responsáveis e desaparecimento das poupanças de milhares de pessoas poupadas da classe média, Crónicas Incongruentes um conjunto de episódios satíricos da sociedade onde são exageradas situações comuns criando-se um desassossego cómico mas desconcertante no leitor), Ardalén foi o álbum de que gostei mais. Apresentando uma história contínua, explora a memória e os relacionamentos, as saudades e as experiências de vida pelos encontros de uma jovem com um velhote que se desloca a uma vila no interior em busca de alguma memória do avô.

Retrospectiva 2016 – O Rascunhos

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Ultrapassadas todas as perspectivas de leitura, com 267 livros lidos, este ano não só consegui ler em espanhol, como em francês (coisa pouca, banda desenhada, mas tem de se começar por algum lado). As parcerias aumentaram, ainda que tal não se tenha traduzido num aumento de livros recebidos por ter investido em áreas não relacionadas com estas parcerias. Neste seguimento, para além da usual participação nas sugestões literárias do Fórum Fantástico, ainda estive na Eurocon Barcelona a apresentar a Ficção Especulativa portuguesa, mais especificamente sobre o que era publicado actualmente pelas grandes editoras.

As visualizações aumentaram, com cerca de 44 000, a página facebook continua a crescer, lentamente, mas o inesperado acontece com novas subscrições diárias directamente por e-mail. Notou-se um grande aumento na leitura dos artigos sobre livros do Plano nacional de Leitura, Aventuras de João sem Medo de José Gomes Ferreira a liderar com quase 2500 visualizações, seguido de perto por As Cruzadas Vistas pelos árabes de Amin Maalouf O Japão é um Lugar estranho de Peter Carey com cerca de 2200. A surpresa deste ano está associada ao Destaque para a Colecção Admiráveis Mundos da Ficção Científica que atingiu as 1000 visualizações (visualizações directas que as que são feitas na página inicial não são contabilizadas)

As melhores leituras

Dado o volume de leituras que corresponde a banda desenhada, este ano vou separar a banda desenhada numa entrada própria que será lançada durante a semana.

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– Melhor colectânea – Dark Tales de Shirley Jackson – Se Sempre Vivemos no Castelo é uma história sombria repleta de tiques neuróticos de ambiente gélido que apela ao eterno sentimento do perseguido, The Lottery é o primeiro conto curto da autora que me deu a conhecer a mestria em formato mais curto de apresentar uma forte distopia e brutal, capaz de fazer desaparecer qualquer resto de fé na humanidade. O que encontrei em Dark Tales foi algo semelhante, contos aparentemente banais, quase quotidianos, não fosse revelaram-se autênticas peças de horror em tom pausado e medido, onde o que acontece pode, muitas vezes, ser perspectivado mas nem por isso deixa de ser menos brutal para o leitor;

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Melhor ficção curta – Sandkings de George R. R. Martin – A novela pertence a uma antologia com o mesmo nome e encontra-se publicado em português no livro O Cavaleiro de Westeros & Outras Histórias. A história centra-se num homem poderoso e exibicionista que gosta de adquirir espécimes raros, de preferência alienígenas, para os poder mostrar aos amigos em grandes festas. A mais recente aquisição é um pequeno mundo fechado em vidro onde quatro comunidades se desenvolvem. À primeira vista são semelhantes a formigas, mas capazes de empatia com o seu dono, desenvolvem guerras e estratégias enquanto criam cidades cada vez mais complexas, competitivas e ávidas de novos territórios. A colectânea possui outros bons contos que oscilam entre a ficção científica e a fantasia onde o autor explora os seus típicos finais esmagadores;

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– Melhor Ficção Científica – Emphyrio – Jack Vance – Apesar da extensa tecnologia, o mundo que se nos apresenta vive numa sociedade quase medieval onde se dá primazia extrema ao trabalho manual. Esta obsessão é de tal forma, que se torna uma sociedade distópica em que qualquer mecanismo ou automatismo é severamente penalizado. Quando finalmente consegue deixar o planeta, o jovem personagem descobre que este estado de existência quase feudal é perpetuado por interesses económicos para que noutros mundos os produtos aí produzidos sejam pagos a preços exorbitantes. Paralelismo com a exploração capitalista do terceiro mundo, apresenta a revolução contra uma distopia através da memória de um herói há muito caído;

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Melhor fantasiaDois anos, oito meses e vinte e oito dias – Salman Rushdie – Quando a magia volta a verter para o nosso mundo, provinda da realidade dos génios (gimnis) os descendentes de Sherazade (que afinal era uma e bastante poderosa) começam a apresentar uma série de capacidades estranhas e nem sempre com utilidade. Ao longo da história vão-se conhecendo os vários descendentes que agora habitam pelo mundo inteiro e fazendo cruzar as suas histórias;

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– Melhor horror – Santuário – Andrew Michael HurleyNão há nenhuma acção que seja surpresa. Tudo o que presenciamos é antecipado páginas antes, gerando uma expectativa que transforma o desenrolar dos acontecimentos num ambiente sombrio de horror permanente, mais psicológico e interior. Lentamente os vários episódios, que decorrem em ambiente rural, entre a hostilidade fechada dos locais, a superstição e a religiosidade extrema, vão-se encaixando num final agridoce;

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– Melhor não ficção – Bibliotecas cheias de fantasmas – Jacques Bonnet – Livros sobre livros são sempre uma boa opção mas neste caso o autor consegue expressar toda a sua paixão por livros e bibliotecas. Passando por modos de organização e aquisição, o autor disserta sobre algumas obras que entraram para a minha lista de aquisições futuras e será, sem dúvida, um livro para rever;

Casos do direito galáctico e outros textos esquecidos

– Melhor livro de autor nacionalCasos de direito Galáctico e outros textos esquecidos – Mário-Henrique Leiria – Reunindo outros trabalhos do autor para além daquele que lhe dá o título, destaca-se na apresentação de vários casos de conflito legal entre diferentes espécies alienígenas em dissertações de lógica tão alienígena quanto os seres envolvidos, numa espécie de sátira, uma caricatura ao sistema legal.

Outras menções honrosas:

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  • Ficção científicaThe atrocity archives de Charles Stross surpreendeu pelo bom humor, com uma série de personagens geeks num universo onde é possível existirem possessões através da electricidade, e um pedaço de código pode originar um apocalipse. Não bastasse tudo isto, de outras realidades paralelas, abrem-se buracos e erguem-se tentáculos que raptam quem perto deles estiver. Por sua vez, To Your Scattered Bodies Go de Philip José Farmer apresenta um conceito interessante. Um homem que já teria morrido acorda, nú, percebendo que ao seu lado outros corpos são reconstruídos. Todos são deitados num planeta selvagem onde tentam sobreviver e lutar pelos recursos que encontram. Por último, Kallocaína de Karen Boye apresenta uma distopia típica de contornos militarizados que une os cidadãos convencendo-os de um inimigo comum. É nesta sociedade que se inventa uma droga capaz de fazer revelar os sentimentos mais íntimos de qualquer ser humano;

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  • Não ficção – O Negócio dos livros de André Schiffrin apresenta a evolução da indústria livreira ao longo de décadas. Tendo o pai fundado uma editora acompanhou de perto como se desenrolava o negócio dos livros, e, mais tarde, fazendo parte de uma editora assistiu à forma como foi implementado um novo modelo que dá primazia às modas e aos sucessos rápidos, ao invés da qualidade do que é publicado;

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  • Fantasia – O Livro de Zoran Zivkovic torna o livro consciente, uma personagem feminina que se sente mal tratada por leitores incivilizados, tece uma crítica ao negócio editorial numa sátira sobre prémios, fabrico de autores, construção de capas e títulos e publicidade. Bastante diferente do usual, Thimblestar de Westley centra-se numa pequena fada que parte em demanda para bem de toda a família passando por episódios desafiantes com diálogos shakesperianos. Finalmente, O Gigante Enterrado de Kazuo Ishiguro contém uma história extremamente emotiva de um casal que parte em busca do filho, numa névoa de esquecimento que atinge aquele território, causada por um dragão idoso, num contexto arturiano, melancólico e metafórico;

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  • Nacional – Eu sei que colocar Ensaio sobre a cegueira de José Saramago nas menções honrosas e não no topo vai ser considerado crime por alguns. Apesar de ter gostado imenso do livro do autor galardoado com o Nobel, o de Mário-Henrique Leiria faz mais o meu género. Ainda assim, esta ficção apocalíptica com forte peso metafórico lê-se de um trago e consegue ser bastante mais poderoso que o filme.

Melhores leituras de anos anteriores

2015

2014

2011

2010

2009

2008

2007

2006

A ficção especulativa em Portugal – 2016

Se o ano 2016 foi catastrófico em diversas áreas, na ficção especulativa, não sendo extraordinário, foi um ano muito razoável, ultrapassando o ritmo de 2015 e abrindo portas para um 2017 que promete.

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Tivemos poucas visitas estrangeiras, quando comparamos com 2015 (marcado pela presença de David Brin na Leituria e por Lauren Beukes e Fábio Fernandes em Outras Literaturas entre muitos outros) mas a presença de Brandon Sanderson em Portugal, vindo da Eurocon em Barcelona foi um sucesso que levou muitos à FNAC, bem como a de Carlos Ruíz Záfon na Academia das Ciências. Com menor assistência mas, para mim, de maior destaque foi a vinda de Zoran Zivkovic para o lançamento de O Livro. De nota, a presença de Ken MacLeod nos Mensageiros das Estrelas, evento mais académico dedicado à Ficção Especulativa.

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Olhando para os eventos regulares, Os Sustos às sextas tiveram uma segunda época de sucesso e estão já a preparar a terceira onde alguns detalhes mais literários aguardam o anúncio oficial. Resta-nos aguardar impacientemente! Também este ano o Scifi-LX pareceu mais consolidado voltando ao Pavilhão Central do IST com robots, jogos, livros, palestras e várias outras coisas muito geeks. O Fórum Fantástico também retornou ao espaço habitual, em Telheiras, com os usuais três dias carregados de eventos fantásticos – e já há datas para a edição de 2017 ( 29 de Setembro a 01 de Outubro). De temática não especulativa, Recordar os Esquecidos escorrega de vez em quando na ficção científica e na fantasia, destacando-se pelas tardes bem passadas no Saldanha, revendo livros e autores.

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Mas 2016 também foi marcado pelo aparecimento dos Devoradores de Livros, uma tertúlia mensal que termina em jantar, que decorre na Leituria e onde se fala sobretudo de livros de ficção especulativa, mas não só. Ainda em solo nacional, João Barreiros apresentou Viagem ao retrofuturo, e deu-se especial destaque a António de Macedo, com o filme O Segredo das Pedras Vivas no MotelX, e o divertidíssimo documentário sobre a sua obra, Nos interstícios da Realidade. Ainda na Península Ibérica, mas fora de Portugal, é de destacar a forte presença portuguesa na Eurocon de Barcelona, associada ao evento Scifi-Lx e à Editorial Divergência, com Luís Filipe Silva a marcar presença em vários painéis.

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A nível de publicações de ficção especulativa nacional, também não foi um mau ano, com o lançamento de Terrarium na Comic Con (mas apenas disponível nas livrarias a partir de 27 de Janeiro), de Galxmente de Luís Filipe Silva (nova edição), A Provocadora Realidade dos Mundos Imaginários de António de Macedo, Os Marcianos somos nós de Nuno Galopim, e da primeira antologia Cyberpunk portuguesa, Proxy, pela Editorial Divergência. Em caminhos mais internacionais, foi publicado um conto de um autor português, Mário de Seabra Coelho, na Strange Horizons!

Sem estranhar, a publicação de livros estrangeiros continua escassa e camuflada em etiquetas genéricas e pouco alusivas à ficção especulativa. Eis os que achei mais relevantes:

Sobre o ano de 2015, podem consultar a entrada equivalente, A ficção especulativa em Portugal – 2015.

Smokopolitan n.º7

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Ao longo da Eurocon foram sendo distribuídas vários zines em papel, mas entre elas destacou-se a Smokopolitan, por um lado pelo formato, esteticamente mais apresentável do que um folhetim, por outro lado por se apresentar em inglês e apresentar, desta forma legível, contos dos seus autores.

Entre entrevistas e artigos sobre ficção científica e fantástico encontramos seis histórias de temática e autoria diversa, alguns marcados por uma herança mitológica curiosa com figuras sobrenaturais e rituais que me são, de todo, desconhecidos.

O  primeiro conto da revista, Dragon and Capricorn, é também o primeiro da autora, Magdalena Kucenty, agora traduzido para esta edição em inglesa, e encontra-se dentro da ficção científica apresentando crianças com capacidades extraordinárias que lhes conferem um carácter tenebroso e assustador.

A primeira criança, Capricorn, é tão inteligente que é capaz de correr simulações de todas as possibilidades no decorrer de uma acção, na sua mente. É com base nestes simulações que toma decisões. A irmã, que o acompanha quase sempre, Pisces, possui uma dupla personalidade, sendo que a que está escondida além de sanguinária é bastante poderosa e desinibida.

Oriundas de experiências genéticas, os nomes das crianças são uma alusão às suas capacidades, capacidades que serão postas à prova quando um homem usa o laço entre os dois para forçar Capri a um torneio mortal com um invencível lutador.

Demonstrando, sem revelar directamente, as capacidades de ambos, Dragon e Capricorn é um conto movimentado e interessante, que vai optando por caminhos viáveis no mundo relatado e despertando a curiosidade necessária para a continuidade da leitura.

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Em I Give Life de Marta Krajewska o cenário é rural e pouco evoluído, carregado de superstições e rituais que se revelam, não só habituais como necessários. No seguimento de um parto difícil uma mãe morre deixando o bebé a cargo da filha mais velha e do pai, destroçado. Quando o tempo finalmente aquece e a filha, ainda criança, é convencida pelo pai a desfrutar da tarde, um ser semelhante à mãe aparece.

Uma história de construção clássica que usa o ser sobrenatural como figura matreira que se quer imiscuir entre os humanos para os seus próprios objectivos, de clima pesado e melancólico, é um conto agradável que não traz nada de novo ao género.

O conto seguinte, A Silent Blue de Karolina Fydek, decorre num futuro apocalíptico onde os aparelhos electrónicos desapareceram e as espécies animais extinguiram-se, salvo pelas que foram recolhidas em domos isolados. Neste mundo os meios de transporte escasseiam e poucos saem das suas terras para estudar ou trabalhar.

Salvo Farid, que regressa de uma longa ausência da faculdade onde estuda a tecnologia que já não funciona. Depois de muitos amuos entre irmãos, um deles mostra-lhe algo impensável – algumas espécies animais estão a apresentar comportamentos pouco típicos e demonstradores de algo mais.

Interessante pelo mundo apresentado e pela ideia que o originou, acaba por não ter um fecho conclusivo para as personagens ou para o desenvolvimento dos animais, deixando em aberto uma série de questões importantes. Excepto pelo aspecto não conclusivo, é um bom conto.

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Em Beginning / end of a Century de Pawel Majka, explora-se um conceito semelhante ao do livro de Philip K. Dick, Counter-clock world. A história aqui apresentada centra-se um pouco mas nas consequências civilizacionais de uma realidade em que o relógio anda ao contrário, destacando o desaparecimento da memória e na transformação de entes queridos em desconhecidos com o avanço para a infância.

Apesar da premissa interessante, este conto resolve avançar para a resolução de mistérios com a integração de um investigador ficcional famoso que se revela fulcral para o fenómeno temporal em que se encontram.

Partindo da mesma ideia que o livro de Philip K. Dick e dando-lhe um desenvolvimento interessante ao colocar a personagem principal como um assassino curioso que tenta perceber as consequências da morte indevida no fluxo temporal, fecha a história de uma forma confusa e banal, desviando o foco de todas as acções que decorreram ao longo da história para um enredo paralelo, introduzido precipitadamente no final.

The Alarm Clock de Andrzej Pilopiuk é uma curta e mirabolante sucessão de acções, divertida mas com pouco conteúdo, passada num cemitério que termina totalmente revolto.

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O último conto, Science in the service de Michal Cholewa, introduz bombas capazes de aniquilar todos os mecanismos consumidores de derivados de petróleo e todos os mecanismos eléctricos. Depois de testarem a primeira bomba no Afeganistão, contra os Taliban, atingem, sem querer, uma parte do território da Rússia que, afinal, revela ter bombas semelhantes. De bomba em bomba, o Mundo inteiro é atingido, deixando-nos com carruagens como meio de transporte e pombos como meio de comunicação. Um conto engraçado que, sem explorar personagens, apresenta uma hipótese e desenvolve-a de forma interessante.

Caso pretendam ler a revista, a mesma encontra-se disponível gratuitamente em formato digital, no site.

Resumo de Leituras – Dezembro de 2016 (5)

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249 – O que está escrito nas estrelas – José Carlos Fernandes – Transformado em astrólogo, José Carlos Fernandes apresenta 2 anos de previsões, uma para cada mês, que constituem pequenos alertas satíricos, notações cómicas transformando-se algumas em pequenos contos  curtos. Todos acompanhados por ilustrações muito a propósito onde se realça o espírito do conjunto;

250 – O espectacular homem-aranha: Revelações –  J. Michael Straczynski, John Romita Jr – Continuando a história de Origens, este volume destaca-se pela descoberta do segredo da identidade do homem-aranha pela tia que reage melhor do que se esperava e pelas contínuas tentativas de aproximação do Homem-Aranha a Mary Jane;

251 – Symmetry – Vol.1 – Matt Hawkins – Futurista, apresenta-nos uma falsa utopia que é, na realidade, uma distopia, onde os grupos de cada raça são isolados uns dos outros, numa tentativa de manter populações semelhantes entre si, controladas por ligação a um computador que impede picos emocionais e hormonais. Interessante, mas a premissa não é nova, e terei de ler mais algum volume para perceber se irá ter desenvolvidos que justifiquem a série;

252 – Trees – Vol.1 – Warren Ellis e Jason Howard – Excelente. Partindo do conceito do alienígena que não tenta comunicar connosco e que provavelmente nem sequer nos reconhece como habitantes inteligentes deste planeta, explora o efeito pesado da presença estranha nas populações em torno das novas estruturas.

O meu ano em fotos…

Bem sei que o ano ainda não terminou, mas eis um apanhado de alguns momentos que marcaram este horrível ano de 2016. Olhando assim, nem parece.

1

Parede

2

Feira do Livro

3

4

David Lloyd

5

Lisboa

6

Lisboa

7

António de Macedo – apresentação do filme O Segredo das Pedras Vivas

8

O trabalho

9

Lisboa

10

11

12

13

AmadoraBD

14

Barcelona

15

Barcelona

16

Lisboa

17

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Resumo de Leituras – Dezembro de 2016 (4)

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245 – The Monarch of the Glen – Neil Gaiman Um conto do autor que decorre no mesmo Universo que American Gods, onde várias lendas antigas se cruzam, dando existência contemporânea a monstros e deuses míticos. Esta edição é enriquecida por belíssimas ilustrações;

246 – O Astrágalo – Pandolfo e Risbjerg – Nitidamente, a existência de alguns está condenada, sobretudo quando nasceram e cresceram em circunstâncias que os levam por caminhos tortos para conseguirem sobreviver em liberdade. Ou apenas em condições ligeiramente melhores do que aquelas aos quais são condenados;

247 – Apocryphus Volume 1 – Vários autores – Primeiro volume de uma publicação anual que reúne o trabalho de vários artistas portugueses. Este volume tem como título Fantasia e possui histórias diversas, que utilizam vários ângulos desta temática;

248 – Dark Tales – Shirley Jackson Excelente conjunto de histórias da autora do melhor conto distópico de sempre, The Lottery. Contos negros de narrativa pausada, onde o fundamental é o ambiente e a concretização do inevitável, já percepcionado pelo leitor, mas nem por isso com menos impacto.