TOP de Agosto

Entre novos jogos de tabuleiro e novos livros, eis o que se destacou durante o mês de Agosto.

Jogos de tabuleiro

Dr. Eureka

Dr. Eureka é um jogo que pretende melhorar a motricidade fina e o raciocínio e tem como objectivo fazer, com as bolas nos nossos tubos de ensaio, fazer o mesmo padrão que se encontra descrito nas cartas. O jogador a conseguir realizar este objectivo ganha a ronda. O primeiro a conseguir ganhar 5 rondas, ganha o jogo. Ainda que pareça (e seja) um jogo destinado a um público mais infantil, tem feito sucesso como party game, envolvendo jogadores inexperientes e tornando-se, rapidamente, viciante.

Century: A New World

Terceiro jogo de uma trilogia de jogos independentes (mas que podem ser combinados entre si para criar novos jogos), este Century consegue utilizar princípios semelhantes ao do primeiro, mas colocando-as num tabuleiro com mecânica de worker placement. Mais complexo que o primeiro, mas, talvez por isso, mais apreciado por jogadores experientes, este Century 3 fez sucesso cá em casa.

Klask

Não é novo cá em casa, mas começou a ser distribuído pelal MEBO em Portugal. É um jogo rápido que precisa de bons reflexos. Os pontos podem ser feitos de três formas diferentes:

  1. Fazer o adversário perder o controlo do manípulo;
  2. Fazer com que, ao manípulo do adversário, se colem dois ímanes;
  3. Conseguir colocar a bola na “baliza” adversária.

É um daqueles jogos que fascina os mais pequenos mas que qualquer adulto quer experimentar e testar os seus reflexos.

Banda desenhada

Sweet Tooth

O auge do mês foi atingido com Sweet Tooth, uma história apocalíptica de Jeff Lemire em que a humanidade é atingida por uma praga avassaladora. Os poucos sobreviventes assistem à degradação da civilização e da sociedade. Mas o ponto de destaque vai para as crianças que começam a nascer após a praga, que apresentam características animais, mais ou menos acentuadas, sendo este o mistério que o autor explora ao longo da série.

Gorazde

Gorazde foi, também, uma das principais leituras do mês, mas por motivos diferentes. A banda desenhada retrata a sobrevivência em clima de guerra, numa cidade que se viu, de repente, dividida entre origens e religião, com vizinhos a tornarem-se cada vez mais hostis. A comida escasseia e os tiros sucedem-se. Joe Sacco, o autor, jornalista, deslocou-se á cidade logo após à inauguração de uma estrada da ONU que lhe permitia entrar e sair do local. Mas os habitantes, esses, continuavam fechados na sua própria realidade. A população encontra-se sub nutrida, pobre, traumatizada e com poucas perspectivas de futuro.

Punk Rock Jesus

Punk Rock Jesus, por sua vez, surpreendeu como história pesada, carregada de acção, mas também de premissas que nos fazem pensar a sociedade e a religião. Fala-se de Jesus Cristo, do IRA, da clonagem, de crença e de reality shows, mas todos estes elementos concentrados numa história forte.

Livros

Um dos livros que mais teve impacto foi Vigilance de Robert Jackson Bennett. Na realidade descrita os tiroteios em massa são autorizados e fazem parte de um espectáculo televisivo que, simultaneamente, apela à corrida às armas e vende direitos publicitários milionários. É interessante constatar como a população reage, achando que a culpa é das vítimas que deviam ter armas para se defender. É interessante perceber como os inimigos começam por ser os outros, e passam a ser os vizinhos.

Máquinas como eu, de Ian McEwan, não é uma leitura dura de ficção científica. Está mais preocupado com os elementos psicológicos e sociais da integração de uma inteligência artificial, usando como factor alienante uma realidade alternativa. Não é uma leitura excelente, mas é uma leitura que escorrega pelos dedos facilmente, podendo ser caracterizada como uma boa leitura para a época de Verão.

City of Miracles, também de Robert Jackson Bennett é o último volume de uma trilogia fantástica de histórias independentes. No mundo em que decorre a acção existiram duas civilizações distintas, uma que se baseia na ciência, outra nos favores dos deuses (milagres). Digo existiram porque, após uma guerra, a civilização da ciência venceu, resultando no colapso de parte das cidades dos perdedores (as estruturas construídas pelos deuses, desapareceram quando estes foram eliminados). Algumas décadas depois, continuam a existir traços divinos que indicam a sobrevivência de algumas entidades. Trata-se de um mundo bem construído e interessante, de premissa simples, em torno da qual o autor desenvolve, de forma competente uma narrativa movimentada.

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Assim foi – Worldcon Dublin 2019 – uma perspectiva pessoal

Foto oficial do Centro de Convenções de Dublin (edifício à direita)

Este ano a Worldcon foi em Dublin, num edifício que desafia a imaginação, quer em termos de formato, quer em termos de tamanho! Já o evento em si tem um tamanho inesperado – existem tantas palestras e actividades em simultâneo que cada visitante terá uma experiência única. Esta é a minha.

Infelizmente apenas pude estar no evento dois dias, Domingo e Segunda. A sensação, à chegada, é de um mundo à parte. A Worldcon ocupou pelo menos 6 pisos do centro de convenções, e cada piso tinha várias salas. Cada sala tinha uma lotação de 60 a 400 pessoas. E mesmo assim, existiam pessoas a ficar de fora consecutivamente.

 

Estive com pouca bateria durante o evento pelo que várias das fotos usadas nesta entrada foram disponibilizadas por Dan Ofer.

Exposições / comércio

O primeiro local a visitar é, claro, o piso térreo onde se encontram as bancas de comerciantes, as exposições e várias mesas de vários fandom. À entrada deparávamo-nos com este fabuloso DeLorean. Do lado esquerdo encontravam-se exposições, inclusivé uma do autor das capas da série fantástica The Elephant and Macaw Banner de Christopher Kastensmidt, Guilherme Da Cas.

Entre simuladores de pontes de comando de naves espaciais, encontramos bancas de todas as grandes editoras anglosaxónicas de ficção científica e fantasia! Mas não só! Também encontramos editoras mais pequenas mas marcantes no meio, bem como vários artesãos que vendem os seus próprios trabalhos.

Para além das exposições presentes neste edifício, existia outro (ao qual não tive oportunidade de ir) com um grande espaço dedicado a Lego.

Ainda que tivesse um tamanho considerável, esta zona foi a que, simultaneamente, me desiludiu e superou as expectativas. Comparando com a Eurocon Barcelona, e dada a quantidade de pessoas na Worldcon, esperava que a zona de comércio fosse maior e com mais oportunidades de compra.

A capacidade de organização

Eis uma componente que merece ser destacada. Sei que existiram várias queixas (quer relativas a festas com lotação máxima, quer relativas ao streaming dos prémios) mas, mesmo assim, foi uma questão essencial para que tudo corresse dentro do previsto.

Por razões de segurança, a assistência não podia ser maior do que a lotação da sala. De forma a garantir tal limitação, existia sempre, para cada sala, alguém responsável por garantir que as pessoas com falta de mobilidade entravam primeiro (existiam sempre lugares reservados) e que só entravam pessoas até serem preenchidos todos os lugares.

Tendo participado em duas palestras, assisti ao outro lado da organização. Para além de existir troca de pareceres algumas semanas antes do evento, na chegada era distribuído um envelope a cada participante. Este envelope continha um horário personalizado que indicava onde e quando teria de estar, bem como as regras de etiqueta a garantir durante as palestras. Era esperado que, meia hora antes da palestra, os participantes se reunissem numa zona reservada para trocar impressões e criar empatia.

Assim que entrávamos na sala já existiam etiquetas com os nossos nomes e um técnico de som. Para cada sala existia uma fila organizada que só prosseguia para a sala quando os “sinaleiros” assim o indicassem. No final, alguém alertava para os últimos cinco minutos. Assim se garantia que a palestra terminava a horas e que todas as pessoas saíam antes de poder deixar entrar para a seguinte.

Ninguém se aguenta sem comida

Existiam diversos pontos disponíveis por todo o edifício. O preço não era excessivo, mas também não era propriamente barato. Sim, eram muitas pessoas. Mas dada a quantidade de locais disponíveis, as filas para comer oscilavam entre 4 e 5 pessoas nos locais a que fomos.

Livros gratuitos

Alguns dos livros gratuitos disponíveis.

Não apanhei os dos primeiros dias, mas mesmo assim, eram vários. Podiam ser recolhidos numa zona própria (assim como pin’s e outros materiais publicitários de fandom, editoras e escritores) ou mesmo na zona de comércio.

Para além disto

Entre o cansaço, as palestras em que participei e alguns contratempos, não foi possível assistir aos espectáculos. Existiam actividades com desenhadores de jogos de tabuleiro, concertos, peças de teatro, bailes de máscaras, leituras e workshops. Ainda assim, descansámos os pés na sala de jogos de tabuleiro (no meu entendimento pequena para este evento mas com uma boa selecção de jogos).

Conclusão

Ir à Worldcon é ir na mesma escada rolante que o George R. R. Martin, cruzarmo-nos com Scott Lynch no corredor e trocar umas frases com Charles Stross ou Steve Jackson. É vermos dezenas de escritores de que gostamos, ao vivo e a cores, num só local. É percebermos que Joe Abercrombie tem um sentido de humor peculiar e que a fabulosa Jo Walton tem um discurso altamente inteligente. É falarmos com os editores de algumas das mais conhecidas editoras dos géneros da ficção especulativa, descobrirmos livros assinados nas bancas e ainda trazermos uns quantos gratuitos de autores que conhecemos. Nos intervalos de tudo isto descobrem-se outros fãs, exploram-se recantos e descansam-se as costas do peso dos livros.

Máquinas Como Eu – Ian McEwan

Depois de expostas algumas considerações sobre o género da ficção científica eis que posso falar, então, um pouco sobre o livro. Máquinas como Eu decorre numa Londres alternativa dos anos 80. Em que difere esta realidade? Bem, Turing não morreu, desenvolvendo novas invenções que anteciparão o avanço tecnológico dos computadores e da inteligência artificial. A Inglaterra perdeu a Guerra das Malvinas (ou Guerra do Atlântico Sul) – um conflito armado contra a Argentina nas Ilhas Malvinas, Geórgia do Sul e Sandwich do Sul (entre os dias 2 de Abril e 14 de Junho de 1982). O conflito tinha por base a soberania sobre os arquipélagos austrais. No Reino Unido da nossa realidade, a vitória no nosso confronto terá sido decisivo para Margaret Thatcher obter a vitória nas eleições de 1983.

Na realidade de Máquinas como eu, as invenções de Turing permitiram um maior desenvolvimento da Inteligência Artificial e no início dos anos 80 desenvolvem-se os primeiros andróides – seres artificiais de aspecto humano capazes de raciocínio e pensamento, de captar informação do que os rodeia, de agir sobre esta informação e de construir os seus próprios modelos da realidade.

Charlie, a personagem principal, é um daqueles jovens que tem algum dinheiro deixado pelos pais e que passa os dias a investir na bolsa. Fascinado pelas últimas inovações tecnológicas, apressa-se a comprar um dos novos andróides que possuem 1001 adaptações para se parecerem com humanos e causarem a empatia equivalente. Apaixonado pela vizinha com quem sai regularmente, Charlie decide-se a partilhar, com ela, a definição do carácter do andróide – não faltam, claro, os paralelismos com o criar um filho, numa versão mais simplista.

O relacionamento a três é estranho. A máquina vê-se a si própria como um indivíduo, com a capacidade de amar e de agir de forma autónoma, enquanto que os humanos o vêem como uma curiosidade – capaz, inteligente, mas demasiado naive e alienado dos relacionamentos humanos, ainda que se diga, também ele, apaixonado.

Independentemente do andróide, algo que se destaca na narrativa é o relacionamento amoroso entre os dois humanos. Um relacionamento que se apresenta pouco honesto e até conflituoso, que envolve duas pessoas que, em vários episódios, não sabem manter o respeito mútuo e que parecem possui a maturidade de dois adolescentes. Sim, existe uma cena de sexo com o andróide. Mas sendo este percepcionado como uma máquina, não é exactamente neste ponto que defino a existência de falta de respeito. Charlie, a personagem principal, procura atingir os seus fins à base de enganos e mentiras e as conversas nem sempre são racionais.

Este ponto é essencialmente importante porque estes dois seres humanos, demasiado emotivos e pouco dados à capacidade de se verem na pele do outro num relacionamento a dois, vão abrigar um andróide – um ser altamente racional e lógico que não percebe os conflitos éticos quando as leis se confrontam com os sentimentos. Sim, o andróide diz estar apaixonado. Mas até nessa suposta paixão age de forma directa e racional. Quase sempre.

Assim se confronta a máquina com a humanidade. Talvez por esse motivo o autor tenha criado duas pessoas tão emotivas, como forma de as confrontar com a máquina – pessoas com passados, com acções irracionais baseadas em emoções e, sobretudo, que precisam de tomar decisões e que colocam outros aspectos no prato da balança. Os sentimentos e as emoções têm forte peso, bem como as promessas feitas aos falecidos.

E em que patamar deve ser colocado um andróide? Parece um ser humano, parece agir como um. Mas terá o mesmo valor nas considerações éticas e sociais? Sexo com um andróide deve ser considerado ao mesmo nível que sexo com outro humano? Será apenas uma máquina que satisfaz o humano? Terminar um andróide é o mesmo que matar um ser humano? Qual o valor que têm os sentimentos artificiais de um andróide, quando comparados com os sentimentos fabricados biologicamente de um humano? A comparação com um andróide leva-nos a questionar a própria essência do que é ser humano e do que é um ser vivo – em que patamar está um andróide.

Para além do confronto homem-máquina, aqui exposto em ambiente doméstico, em pano de fundo desenvolve-se o futuro do trabalho com a robotização. Ainda que o andróide de Charlie seja destinado à convivência humana, desenvolvem-se outros que têm como objectivo substituir os humanos nas suas tarefas mais rotineiras, começando com a recolha do lixo. E quem deve lucrar com a robotização das nossas tarefas? A humanidade num todo, agora livre para perseguir ocupações mais imaginativas ou as organizações que assim acumulam maior riqueza, levando-se o resto da humanidade à precariedade?

Máquinas como Eu debruça-se sobre tudo isto enquanto desenvolve a narrativa em torno de um trio amoroso criado pelos dois humanos e um andróide. As páginas escorregam em frases fáceis de percepcionar, que se vão focando, ora nas personagens, ora na sua própria percepação da realidade. As acções dos humanos nem sempre são lógicas e compreensíveis fazendo com que a minha empatia pelas personagens fosse diminuída – mas compreendendo que este modo de agir pode ter como principal objectivo o contraste com o andróide.

Trata-se de uma narrativa ligeira, passada numa realidade alternativa com divergências que poderiam ser sido mais exploradas no ponto de vista político. O romance segue um homem comum num mundo diferente, numa premissa que pouco traz de novo ao que já foi feito na ficção científica, tanto do ponto de vista psicológico, como tecnológico, ainda que seja uma leitura leve que se possa aconselhar a quem pretende uma leitura pouco densa em referências científicas.

In Vino Veritas – João Ventura – Winepunk

Pegando na frase em Latim, João Ventura dá-lhe um novo significado integrando um novo tipo de vinhas combatentes que são capazes de ter uma acção determinante contra forças inimigas.  O conto ganha especial interessante por usar figuras históricas da época, integrando-as de forma coerente.

A premissa do conto é simples e João Ventura trabalha-a de forma consistente e elegante, transformando-se numa história imaginativa, interessante e de bom ritmo. A história mostra o novo tipo de vinhas combatantes, mas consegue focar-se em várias localizações para dar uma visão maior dos conflitos entre o Norte e o Sul do país.

Outros contos da antologia Winepunk

Resumo de leituras: Maio de 2019 (1)

33 – The Big Ship – A Farm Noir – André Mateus e Rahil Mohsin – Uma pequena história que se enquadra no género noir e que apresenta como detective uma tartaruga inteligente e lenta. O pequeno livro explora os clichés do género de forma engraçada, conseguindo fechar com um humor peculiar e de leitura satisfatória;

34 – Batman: Noel – Lee Bermejo – A história aproveita o Conto de Natal de Dickens para apresentar o Batman obcecado pelo Joker – de tal forma que usa os que o rodeiam de qualquer forma para prender o vilão. A história é mais interessante do ponto de vista visual do que narrativa, com páginas deslumbrantes;

35 – Dylan Dog – Até que a morte nos separe –  Marcheselli, Sclavi e Brindisi – Uma história bastante diferente de Dylan Dog que tem como tema os atentados do IRA, colocando Dylan Dog como um jovem polícia, apaixonado por uma irlandesa que tem um papel bastante menos inocente do que parece;

36 – Black hammer vol.1 – Vários – Uma extraordinária história de super-heróis com narrativa de Jeff Lemire, em que os heróis são apresentados como pessoas quase comuns, com dúvidas, fragilidades e incertezas, demasiado centradas nos seus próprios dramas para verem o que os rodeia.

The Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction

Se bem repararam, o Rascunhos tem estado mais silencioso nestas últimas semanas. Tal redução de publicações deve-se ao surgir de um novo projecto que estou a coordenar conjuntamente com o Carlos Silva – o The Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction.

Ainda que apenas tenha sido lançado no passado Sábado, dia 11, é um projecto que fervilha desde que a sua necessidade se tornou evidente na Eurocon de Barcelona, há alguns anitos. É que, após apresentarmos vários livros, autores e iniciativas portuguesas, não tinhamos nenhum portal que pudesse dar continuidade ao interesse que se gerava pelo que é feito em Portugal.

É neste seguimento que surge, então, o portal – um esforço conjunto de mais de 20 pessoas que inclui associações e vários bloggers para divulgar tudo o que ocorre a nível nacional em várias vertentes – literatura, jogos de tabuleiro, banda desenhada, videojogos, rgp, cinema, música, teatro. E em língua inglesa para podermos dar maior visibilidade internacional!

O arranque de dia 11 trouxe artigos sobre videojogos, jogos de tabuleiro, livros (claro) e banda desenhada – mas já estão programados artigos sobre cinema, teatro, eventos e muito mais. Estamos abertos a contribuições, sugestões, ideias e muito mais – basta contactarem-nos pelo formulário que se encontra na página.

Resumo de leituras: Abril de 2019 (2)

 

29 – O outro lado de Z – Nuno Duarte e Mosi – Nuno Duarte volta à banda desenhada com traço de uma nova autora nacional, Mosi, numa história fantástica onde a monotomia do real é quebrada, e as personagens (trabalhadores de call center) que levam vidas cinzentas, são empurradas para melhores existências ;

30 – Isola – Vol.1 – Brenden Fletcher, Karl Kerschl, Masassyk – Visualmente interessante, este primeiro volume denota alguns elementos narrativos que precisavam de ter sido melhor polidos. Existe, desde a primeira página, um sentido de urgência que, sem elementos suficientes, torna difícil ao leitor sentir-se cativado pela história. Percebemos apenas que a rainha foi transformada num tigre e que uma soldado tenta protegê-la e encontrar quem reverta a transformação;

31 – A cidade que não existia – Pierre Christin, Enki Bilal – A história começa como um usual confronto de classes numa cidade à beira do colapso. O homem rico que comandava a cidade morre no meio de uma série de greves laborais – os trabalhadores, contagiados pelo espírito político, pretendem ganhar mão no seu próprio destino e uma percela na fábrica em que trabalham, compreendendo que não existem, ali, outras formas de subsistirem;

32 – Filhos do Rato – Luís Zhang e Fábio Veras – A par com a guerra os soldados descrevem outros cenários nojentos e horríveis, talvez como forma de se afastarem dos horrores que vivem diariamente numa guerra particularmente violenta do ponto de vista psicológico. As facções políticas oscilam, bem como os lados das batalhas e o resultado é brutal.

Assim foi: Contacto 2019

O Contacto, organizado pela Imaginauta, começou em 2018 no Palácio Baldaya em Benfica. Dedicado à ficção científica e fantástico, é um evento que se destaca por ter, para além de palestras e um espaço dedicado à literatura, muitas outras actividades apropriadas para todas as idades – lutas de sabres de luz, aulas de magia influenciadas pelo mundo do Harry Potter, exposições, jogos de tabuleiro, steampunk e muito mais.

Lançamentos

A minha perspectiva do evento é mais literária, destacando os eventos de lançamento que foram decorrendo. O primeiro a que assisti foi o lançamento do novo livro em português de Bruno Martins Soares, As Crónicas de Byllard Iddo – um lançamento em que o autor falou do livro e do interesse nos mundos que cria.

Já no Sábado, ainda presenciar um pouco do lançamento do livro de Nuno Duarte, O outro lado de Z, onde o autor Nuno Duarte falou do mundo fantástico de este livro e de outros. Seguiu-se o lançamento da antologia Winepunk onde participei (no lançamento, não na antologia). A antologia destaca-se por ser uma realidade alternativa que tem por base a história de Portugal, mais propriamente o Reino do Norte que, no meio das convulsões, surgiu no Norte de Portugal mas que apenas durou 3 semanas. E se tivesse durado 3 anos? Após ter iniciado o lançamento, o Rogério Ribeiro falou um pouco da forma como geraram a base antes de enviarem o desafio aos autores, Pedro Cipriano falou da produção que se seguiu por parte da editora, e os dois autores presentes (João Barreiros e João Ventura) falaram do seu processo criativo neste mundo fictício.

O último lançamento a que pude assistir foi o lançamento de Amadis de Gaula por Nuno Júdice, em que o autor falou da incerteza da autoria do livro, da forma como influenciou e é referido em obras posteriores, mostrando um exemplar com vários séculos de existência.

Banda desenhada

Para além do lançamento de O outro lado de Z, o Contacto reservou espaço na agenda para que pudessemos conhecer um pouco melhor outros autores de banda desenhada, como Joana Afonso, Henrique Gandum, Fábio Veras e Luís Zhang (autores de Filhos do Rato).

Ainda, no Lagar (zona central do edifício) estiveram alguns artistas a projectar enquanto desenhavam: FIL e Miguel Santos (da Associação Tentáculo) bem como Diogo Mané.

Ponto de encontro

Este tipo de eventos fantásticos e de ficção científica costumam ser ponto de encontro entre autores e editores, levando à criação de vários projectos. Neste caso o evento ajudou nestes encontros, disponibilizando uma sala para estes pudessem decorrer de forma mais oficial. Destacam-se dois encontros, um para a geração de um portal português de ficção científica e fantástico e outro para o encontro de autores de ficção científica e fantástico onde vários autores trocaram experiências.

Outros detalhes

Durante o evento decorreu uma taberna medieval e uma feira do livro que apresentava bancas das mais conhecidas editoras de ficção científica e fantástico – desde a Saída de Emergência com a colecção Bang!, à Europa-América com a colecção de livros de bolso de ficção científica, passando pela Imaginauta e pela Editorial Divergência entre outras.

Para além das exposições encontrávamos salas temáticas: Steampunk, Harry Potter e Star Wars, mais voltadas para o público jovem; bem como uma pequena oferta de jogos de tabuleiro.

A ira da Ferreirinha – Carlos Eduardo Silva – Winepunk

O segundo conto desta antologia é de Carlos Silva, o autor de ficção científica e fantástico que venceu o prémio Imaginauta com o livro Anjos, e que tem participado em várias antologias portuguesas. Aproveitando uma das figuras mais emblemáticas ao Vinho do Porto (a Dona Antónia Adelaide Ferreira que era detentora de dezenas de quintas na região do Douro) Carlos Silva confere-lhe uma aura sobrenatural associada ao próprio Vinho do Porto.

Mulher independente e destemida, gera ira ao recusar um pretendente (ou não achassem sempre os homens que nunca podem ser recusados). Esta ira dá lugar a despeito e a traição, levando a um confronto no ar e à tentativa de acabar com as enormes plantações.

Imaginativo, carregado de elementos fantásticos, este conto aproveita várias referências históricas do Vinho do Porto mas cruza-as com circunstâncias ficiconais de cariz sobrenatural, aligeirando um pouco o tom pesado do conto anterior de Joel Puga, e fazendo de Dona Antónia uma figura marcante.

A antologia Winepunk é uma publicação da Editorial Divergência que tem como premissa que a Monarquia do Norte se manteve durante  3 anos e não apenas uma semana. A antologia foi lançada no Norte de Portugal e terá o seu lançamento a Sul no próximo evento da Imaginauta, Festival Contacto.

A antologia encontra-se disponível na Editorial Divergência.

Resumo de Leituras – Março de 2019 (1)

17 – Arkwright – Alan M. Steele Eis uma Space Opera original em soluções tecnológicas para levar a humanidade a colonizar outros planetas! Interessante na forma como arranca, centrando-se num escritor de ficção científica, e na forma como resolve alguns dos possíveis problemas das longas viagens espaciais, falha na forma como mostra o surgir de cada geração;

18 – East of West Vol.6 – Hickman, Dragotta e Martin – A série prossegue resolvendo alguns conflitos cuja tensão já se acumulava há algum tempo. É um volume carregado de violência, mas com alguma violência satisfatória, no sentido em que acaba com algumas personagens de índole duvidosa. Graficamente excelente e com detalhes narrativos arrepiantes e deliciosos;

19 – Batman 80 anos Vol.1 – Jogo FinalScott Snyder e Greg Capullo – De visual sólido, obscuro e sombrio, este volume de Batman é uma boa história de ficção científica que apresenta o Joker como uma figura mítica, central e geradora de conflito e, consequentemente, de narrativa. Existiria Batman sem Joker? Os opostos geram-se e desenvolvem-se, levando à busca de maior perfeição do outro, numa tentativa interminável de superação. De realçar a obsessão, neste volume, com a velhice e a regeneração;

20 – Farmhand – Vol.1 – Rob Guillory – Depois de Tony Chu, Rob Guillory arranca com este projecto a solo onde é autor e desenhador. A série possui uma premissa engraçada que recorda o humor de Tony Chu, centrando-se numa quinta onde partes de seres humanos crescem em árvores, permitindo que se façam transplantes rapidamente – transplantes com excelentes resultados! Tão excelentes que decerto trarão algum aspecto negativo!

Resumo de Leituras: Fevereiro de 2019 (2)

13 – Y: O Último Homem – Vol. 7 – Bonecas de Papel – Yorick chega finalmente à Austrália e descobre pistas da sua namorada – mas esta há muito que deixou o continente e foi para Paris. Paralelamente, uma jornalista tenta divulgar a existência de Yorick e não olha a fins para o fazer;

14 – Injection – Vol.3 – Ellis, Shalvey e Bellaire – Um local histórico torna-se o cenário de um horrendo crime revelando-se, também, um local de grandes forças sobrenaturais. Se, no volume anterior, se tinha investido na lógica para perceber a IA, neste volume seguem-se caminhos menos óbvios mas mais macabros;

15 – Jessica Jones – Vol.1 – Sem Limites – Bendis, Gaydos e Hollingsworth – A heroína sai da prisão e é envolvida por uma organização que pretende acabar com os super heróis – precisando, para tal, de Jessica para conhecer os seus segredos;

16 – Y: O Último Homem – Vol. 8 – Dragões de Kimono – Neste oitavo volume a busca pelo macaco capuchinho de Yorick leva-os ao Japão, onde encontram uma máfia conduzida por uma cantora pop americana!

As melhores leituras de 2018 – Banda desenhada

À semelhança do que fiz com as restantes leituras de 2018, eis uma listagem dos melhores livros de banda desenhada que tive oportunidade de ler este ano! Entre os 220 livros que li em 2018 entre 2/3 e 3/4 é de banda desenhada, pelo que muitos livros excelentes terão de ficar de fora! Irei começar com as melhores leituras nacionais!

Obras portuguesas

Melhor banda desenhada de ficção científica

 

 

 

 

 

 

 

A escolha de um destes estava tão difícil que optei por seleccionar ambos. Ambos são bastante irónicos na forma como abordam as transformações em curso na nossa sociedade. No caso de Futuroscópio de Miguel Montenegro encontramos vários contos que abordam aspectos diferentes, exagerados, levados ao extremo, numa caricatura aos movimentos sociais. O futuro não é risonho, apesar de haver uma aparente felicidade dos cidadãos (da ignorância vem a felicidade) – é um beco sem saída sem evolução, uma regressão da humanidade que deixa, como legado, a tecnologia avançada, mas que não poderia ser criada pelos humanos que com ela coexistem.

Já em Watchers de Luís Louro seguimos, numa realidade futura, um grupo de jovens denominados watchers que usam a tecnologia para criar canais que expõem o mundo que os rodeia. Sem filtros, sem análises nem contextos, as filmagens são divulgadas para todos os que as quiserem ver. Começando com episódios fofinhos e caricatos, a busca de mais seguidores e de mais reacções nas redes sociais depressa leva a que sejam filmadas situações mais inusitadas, ridículas, perigosas e violentas. Até onde se vai pela busca de seguidores?

Comentário mais detalhado:

Futuroscópio – Miguel Montenegro;

Watchers – Luís Louro. 

Melhor banda desenhada de fantasia – Zahna – Joana Afonso

Zahna possui o estilo característico de Joana Afonso, um estilo que se destaca na transmissão de emoções e sentimentos e que conferem traços de caricatura às suas personagens. A protagonista é uma mulher guerreira, rabugenta mas leal às suas responsabilidades, que se vê literalmente com uma maldição sob a cabeça! Leitura divertida, Zahna deturpa ligeiramente os clichés da fantasia para apresentar uma história engraçada.

Comentário mais detalhado

Melhor banda desenhada cómica – Conversas com os putos e os pais deles – Álvaro

À semelhança do volume anterior, Álvaro reúne neste Conversas com os putos e com os pais deles, uma série de conversas com os seus alunos e os respectivos pais. Se as conversas com os jovens se encontram entre o absurdo e o quase impossível de tao idiotas, as conversas com os seus pais ainda são piores.

Comentário mais detalhado.

Melhor narrativa de ficção – Olimpo Tropical – André Diniz e Laudo Ferreira

Quem é o vilão? O traficante ou a polícia corrupta? Em Olimpo Tropical retrata-se a realidade da favela onde os estudos são largados cedo por falta de sucesso, a favor das ocupações de mais fácil dinheiro, quase sempre relacionadas com o tráfego de droga e a criminalidade. Quem manda é quem se mostra mais destemido, quase louco, na sua capacidade de se fazer temer pelos outros. Visualmente expressivo, exagerado em expressões e traços físicos, Olimpo Tropical é um trabalho excelente que é capaz de cativar o leitor, fazendo-nos perceber a realidade inevitável das favelas que engole os seus moradores num ciclo interminável – quem tenta arranjar um emprego fora da favela é descriminado ou ganha tão pouco que se torna impossível sustentar uma família.

Comentário mais detalhado

Obras de autores estrangeiros

Melhor banda desenhada de super-herói – Ms. Marvel – G. Willow Wilson e Adrian Alphona

Ms. Marvel não é uma heroína comum – muçulmana, distingue-se fisicamente do aspecto tradicional das heroínas enquanto altas e louras; e culturalmente pelas suas origens pouco ocidentais. O resultado é uma heroína que se preocupa com os comuns cidadãos e que apresenta conflitos pessoais diferentes do que é habitual. Este volume apresenta como surgiu Ms.Marvel, dando grande foco à componente pessoal, ainda que não faltem os característicos episódios de acção.

Comentário mais detalhado.

Menção honrosa – Michael Chabon’s The Escapists

No seguimento de uma tradição ficcional de livros sobre livros que não existem, a história centra-se num rapaz fascinado pelos livros de banda desenhada do falecido pai. Estes livros de banda desenhada centravam-se num herói há muito esquecido que o jovem tenta recuperar. Para tal compra os direitos do super-herói e tenta montar uma pequena gráfica para produzir novas aventuras!

A história vai intercalando episódios da vida deste rapaz, com episódios da velha banda desenhada e episódios da nova. São três histórias que ecoam umas nas outras, enquanto a ficção se imiscui na realidade, e a realidade se traduz numa nova ficção, sendo que o próprio autor entra neste jogo e constrói uma excelente homenagem ao livro de Michael Chabon.

Comentário mais detalhado.

Menção honrosa – Batman – O príncipe das trevas – Marini

O príncipe encantado das trevas alterna o foco entre dois casais peculiares – o de Batman com a Catwoman, e o de Joker com Harley Quinn, mostrando dois relacionamentos disfuncionais, cada um da sua forma. Lançado em dois volumes de formato maior do que é habitual, esta história destaca-se pelo belíssimo aspecto gráfico, em que Marini é narrador e desenhador. A linha narrativa tem vários pontos previsíveis com vários clichés, mas a leitura consegue captar o leitor e dar-nos a sensação final de termos assistido a um filme.

Comentário mais detalhado.

Melhor adaptação – Afirma Pereira – Pierre-Henry Gomont

Afirma Pereira é o despertar da consciência política de um homem que, até então tinha vivido demasiado voltado para si mesmo e preso no passado. Neste acordar, quase forçado por novas empatias, não se consegue remediar totalmente pela anterior apatia, mas tenta, enfrentando as consequências. Depois de anos preso às memórias de um passado distante, Pereira começa a reconhecer as pequenas notas políticas no que o rodeia, tanto no jornal, como nas ruas em que dantes passava como inocente. Reconhece, também, que o enfrentar desta situação tem um custo elevado.

Comentário mais detalhado.

Menção honrosa – O jogador de xadrez – David Sala

O tema da história é simples e roda em torno de um jogador de xadrez. Mas se esperamos que a história se centre no maior jogador de xadrez, um imbatível mas inculto jovem que vence qualquer jogo, somos rapidamente desenganados. No barco em que viaja encontram-se vários homens curiosos pela presença do campeão, não sendo, assim, de estranhar, que organizem um jogo de xadrez em que todos, em conjunto, enfrentam o campeão.

Após as primeiras jogadas, destaca-se, entre o grupo de amadores, um homem cujo intelecto parece competir com o do campeão, referindo jogadas que deixam o campeão surpreso. Este homem misterioso não só esconde um enorme talento no xadrez, como um passado pesado que liga a prática xadrez a eventos psicologicamente marcantes. Utilizando elementos artísticos de pintores famosos do fim do século XIX ou início do XX (que a sinopse da editora identifica como Klimt ou Schiele) a história é tudo menos linear ou, até, aborrecida. A tensão que se cria ao longo do jogo de xadrez transporta o jogo para outra dimensão e o foco deixa de estar nas jogadas, confrontando-se a curta história do campeão, com a traumática história de um anónimo que se lhe iguala.

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Melhor banda desenhada história – O Comboio dos órfãos – Vol.2 – Philippe Charlot e Xavier Fourquemin

Esta série centra-se nas crianças que foram deslocadas das grandes cidades para serem adoptadas ao longo dos Estados Unidos, nos anos 20. Mas nem todos os que recebem estas crianças têm boas intenções, e algumas crianças são usadas como trabalhadores, ou são levadas a casar prematuramente. Para além do bom aspecto visual, a série destaca-se por conseguir apresentar uma situação trágica mas, ao mesmo tempo, dar-lhe pequenos detalhes cómicos entre os diálogos infantis. Esta mistura resulta numa excelente leitura – uma das favoritas de 2019.

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Menção honrosa – Marcha para a morte – Shigeru Mizuki

Marcha para a Morte é um livro sobre a Guerra. Mas acima de tudo, um livro que nos mostra o quão absurda é a guerra, desperdiçando a vida dos soldados por estratégias mal definidas, levando adolescentes imberbes a enfrentar outros imberbes adolescentes, uma constante falta de consideração pela vida – e para quê? Aproveitando a sua própria experiência na guerra, Mizuki traça um retrato crítico, de elevada tensão, onde os momentos trágicos são acompanhados por tiradas de humor negro que dão nova perspectiva aos acontecimentos.

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Melhor banda desenhada de ficção científica – Descender – Jeff Lemire e Dustin Nguyen

Existem várias séries de ficção científica e fantasia em curso, publicadas principalmente pela Image mas Descender continua a ser, para mim, uma das melhores. Por um lado, a temática corresponde ao meu género favorito (a ficção científica) mostrando um Rise of the machines num futuro distante. Por outro, a história consegue a proeza de mostrar várias linhas narrativas que se vão cruzando e dando diferentes pontos de vista aos acontecimentos. Por último, o estilo gráfico de Dustin Nguyen adequa-se totalmente à história e torna as páginas fascinantes.

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Menção honrosa – Imperatriz – Vol.1 – Mark Millar e Stuart Immonen

Visualmente fabuloso, este Imperatriz parecia, nas primeiras páginas, trazer uma história quase cliché, com a mulher de um homem poderoso mas violento, a fugir pela galáxia com os filhos. Toda a história nos leva a pensar numa determinada situação passada que não se verifica acabando por nos surpeender. Do ponto de vista gráfico, os autores aproveitam a possível diversidade de planetas para contrastar cidades sobrepopuladas e futuristas com desertos gelados e desolados. O resultado é movimentado e visualmente fabuloso!

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Menção honrosa – Ciudad – Giménez e Barreiro

Com algumas semelhanças a Parque Chas, Ciudad centra-se numa cidade sem tempo, uma espécie de buraco negro onde vão parar habittantes de todos os tempos e lugares – imensa e diversa, uma cidade sem fim nem saída. A cidade não é contínua, nem no espaço, nem no tempo, e a dupla de exploradores experimenta o passado e o futuro, ambos traumatizantes, não percebendo as diferenças na duração da noite e do dia entre as diferentes partes da cidade. Cruzando outras ficções com esta narrativa (não só pela apresentação de monstros, como pelo surgir da figura Eternauta, e por referências indirectas a outras obras) Ciudad funde vários elementos para se transformar numa longa e rica viagem.

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Melhor narrativa ficcional – Essex county – Jeff Lemire

Este volume reúne três histórias diferentes que se interligam e que decorrem em Essex County  – o ambiente é frio e inóspito, e os relacionamentos humanos mostram-se difíceis. A razão de tal dificuldade deriva de uma série de segredos familiares e desgraças passadas que o autor vai desenvolver em várias linhas narrativas. As personagens ultrapassam a ficção e passam a ser pessoas com passado e densidades – pessoas que se encontram e desencontram tal como o leitor.

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Menção honrosa – O cão que guarda as estrelas – Takashi Murakami

Neste pequeno livro aproveita-se a figura do animal de estimação, neste caso um cão, como forma de explorar a complexidade dos relacionamentos (e a sua evolução). O cão oferece uma visão simples, mas através dele vamos interpretando os sinais de algo diferente, como o afastamento do casal, em que, ao invés de apoio mútuo, encontramos sacrifício e apoio de uma das partes, mas, da outra, egoísmo e quebra completa. O animal de estimação acaba por se tornar o único ponto de consolo e de amizade, o único relacionamento que se mantém, e que serve de consolo para o homem que se vê fora da própria casa e da própria vida.

Com uma pequena aura de tragicidade (já conhecemos o final da dupla desde o início) e passando o sentimento de destino que se irá cumprir, a história coloca-nos a tentar perceber o percurso das duas personagens. O animal fornece uma perspectiva interessante, com elementos que ele não compreende, mas que o leitor percebe.

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As melhores leituras de outros anos

Resumos / melhores de 2018

Almanaque – Curtas de BD – André Oliveira e Vários Artistas

Almanaque, a mais recente aposta da Bicho Carpinteiro, reúne várias histórias criadas por André Oliveira na qualidade de narrador, e por vários desenhadores. Algumas destas histórias foram criadas para a Cais, publicação para a qual André Oliveira produziu regularmente durante algum tempo, e outras são inéditas.

Tendo sido criadas em alturas diferentes com objectivos distintos, as histórias oscilam em temas e tons criando uma amostra bastante diversa das possibilidades narrativas compostas por André Oliveira. O volume abre com a arte de André Diniz, e passa à de Rui Lacas (ambas facilmente reconhecíveis em estilo), seguindo-se uma reformulação moderna de Volta ao Mundo em 80 dias (com desenhos de Phermad).

Entre as histórias encontramos narrativas de ficção científica (com uma invasão alienígena que critica a paixão dos humanos pelos desportos, ou com um primeiro contacto embaraçoso), narrativas cómicas (onde se retratam as impossibilidades de execução de várias tarefas por um T-Rex ou um dentes de sabre, por exemplo) e de fantasia (com velhos e novos deuses).

Não faltam os temas mais mundanos, como a diversidade da vizinhança, a fanfarronice ou a velhice. Existe espaço para a morte e para a saudade, para a confidência e para a família. Explora-se a cidade e o campo. O passado e o futuro. Cruzam-se conceitos e ideias, ironiza-se em tiradas imaginativas, recolhe-se o pensamento em perspectivas mais íntimas.

Tudo isto, em pouco mais de 60 páginas, muito bem aproveitadas, em que André Oliveira explora vários tons e temas, acompanhado por diversos artistas que ajudam a conferir, a cada história, uma aura muito própria. Tal como estados de espírito, estas histórias oscilam e fazem oscilar humores, aconselhando-se, por isso, que a sua leitura se faça aos solavancos. Uma história de cada vez.

Entrevista com André Oliveira

Outras obras do autor

O Feminino no Fantástico

Antologia de contos de ficção científica e fantástico onde o corpo da mulher tem papel fundamental

Desde o passado Fórum Bang! (no qual participei, com a Inês Botelho, numa palestra sobre a mulher na ficção especulativa) que ando com vontade de espelhar alguns pensamentos na forma escrita. Sim, a representação da mulher tem-se alterado nos últimos anos. Porquê? Será a moda do politicamente correcto? Bem, mais do que uma moda, a minha percepção é que resulta da pressão do próprio público, farto do mesmo.

 

 

 

 

 

 

 

Porque digo isto? Bem, dou-vos como exemplo bastante óbvio as nomeações para os prémios Hugo. Para quem não está a par, aqui há uns anos surgiu um grupo de escritores de ficção científica revoltado com o afastamento dos protagonistas ou escritores tradicionais, brancos hetero. Estavam a ser nomeados, e premiados, sucessivamente, autores diferentes deste padrão original.

 

 

 

 

 

 

 

Este grupo de autores, designado como Sad Puppies, não só fizeram campanha pela ficção científica de homens para homens (ocidentais e hetero, claro) como tentaram concentrar votos em obras específicas. O resultado? Conseguiram algumas nomeações mas não o prémio, existindo algumas categorias em que o resultado foi até “sem premiado”. Pelo meio ainda houve uma nomeação curiosa a Chuck Tingle, um autor de pornografia homossexual de ficção científica, que aproveitou para parodiar o destaque, numa obra curiosa.

 

 

 

 

 

 

 

Bem, julgo que a resposta do público a este movimento demonstra que a verdadeira pressão sobre a indústria literária não é tanto pelo politicamente correcto, mas pela vontade, do público, em ver diversidade nas personagens, e ler obras que representem pessoas e não os típicos estereotipos de heróis, há muito ultrapassados. Personagens que se parecem com pessoas, densas, variáveis e, sobretudo, representativas da realidade que nos rodeia. Representativas da diversidade.

 

 

 

 

 

 

 

Não estou a falar, portanto, só de uma representação diferente do feminino, mas, também, uma diferente representação do masculino. Trata-se de criar histórias mais equilibradas em termos de papéis – nem as personagens femininas têm de ser ridiculamente fortes e destemidas para poderem ser protagonistas, abdicando de sentimentos para poderem ser tomadas a serio; nem as personagens masculinas têm de ser a personificação da certeza e da autoridade, podendo ser apenas pessoas com as suas dúvidas, incertezas e sentimentos.

 

 

 

 

 

 

 

Claro, que na componente feminina, outras questões de levantam. O uso do corpo como elemento para apimentar uma história (neste detalhe já existem exemplos que usam o corpo feminino e masculino) ou o consentimento no uso desse corpo. Não é, totalmente de estranhar que as histórias tradicionais, como as da Disney, os contos de fadas (sobretudo as mais recentes versões Disney), de princesas indefesas e passivas, tenham de ser revistos. Habituámo-nos a aceitar, sem questionar, os papéis que são concedidos às mulheres.

 

 

 

 

 

 

 

Detalhando. Se pensarmos bem, que tipo de homem encontra uma mulher, morta ou inconsciente, no meio de uma floresta e a beija? Que papel tem a mulher na escolha do seu parceiro , se se pressupõe que o príncipe que a salva a possui – sem se conhecerem previamente, a princesa passa de cativeiro a cativeiro. Numa gaiola dourada, claro. Mas nem por isso menos questionável. Que tipo de mensagem passa uma história onde um príncipe não reconhece a mulher pela qual se apaixonou e a procura pela medida de um sapato?

 

 

 

 

 

 

 

Sim, estas histórias reflectem a época em que foram construídas. Mas pouca ou nada se tem feito para as adaptar à realidade que nos rodeia. Quantas características ditas femininas não resultarão das expectativas que nos rodeiam? E o mesmo se pode dizer dos rapazes que não podem expressar sensibilidade ou sentimentos sem serem gozados. As personagens têm de evoluir – e não só as femininas. Deixo-vos com esta provocação. E, espero, algo para pensar. E debater.

Rascunhos na Voz Online – Sugestões

Esta semana recomendo livros, banda desenhada, eventos e jogos de tabuleiro! De realçar, claro, a presença de Mike Carey em Portugal no Mensageiros das Estrelas, evento que está a decorrer na Faculdade de Letras na Universidade de Lisboa (evento gratuito). Desejo que estas recomendações vos tragam bons momentos de lazer!

Assim foi – Fórum Fantástico 2018

 

O Fórum Fantástico deste ano foi caracterizado por vários lançamentos de autores portugueses pelas editoras Imaginauta e Editorial Divergência, destacando-se, também, a presença do autor de ficção especulativa Chris Wooding e da editora Gilian Redfearn, que trabalha para a Gollancz.

Lançamentos

Aproveitando um dia mais direccionado para a cidade de Lisboa (até no seguimento do recente espaço de reflexão de que o futuro da cidade que se tem criado), ocorreu o lançamento de Lisboa Oculta – Guia Turístico.  Tratando-se de um projecto que está em curso há algum tempo, era dos lançamentos que mais esperava. A apresentação ficou a cargo de Anísio Franco, licenciado em História da Arte e conservador no Museu Nacional de Arte Antiga, que bem conhece a história de muitos dos locais retratados, e que deu uma perspectiva interessante a este lançamento. Nesta antologia de contos com a forma de guia turístico, vários espaços da cidade são convertidos em cenários fantásticos, sobretudo envoltos em horror, destacando-se o visual cuidado das páginas, diferente de conto para conto.

Outro dos livros cujo lançamento teve grande destaque no Fórum Fantástico, foi Tudo Isto Existe de João Ventura. João Ventura é um dos autores mais prolíferos do meio da ficção especulativa portuguesa, que tem publicado em diversas antologias. Os seus contos encontravam-se, por isso, até agora, dispersos, sendo que Tudo Isto Existe constitui a primeira colectânea do autor. A apresentação foi precedida por uma pequena peça de teatro, que consistiu na adaptação de um dos contos curtos de João Ventura, Outro Sentido, com encenação de Sara Afonso.

Outra das obras de ficção especulativa apresentada foi O Resto é Paisagem, uma antologia que teve como editor o Luís Filipe Silva, e que foi lançada pela Editorial Divergência. Esta antologia reuniu vários contos que decorrem num cenário rural, cenário inquietante e que não é totalmente dominado pelo homem e que, como tal, é propício a histórias com elementos de terror.

Neste caso o espaço da apresentação foi partilhado com André Oliveira que também aproveita o cenário rural para tecer várias das suas histórias, exactamente pelos mesmos motivos.  Neste caso, a conversa começou por referir as obras de André Oliveira e prosseguiu para o seu mais recente projecto, como editor da JBC.

Na componente de banda desenhada lançou-se, como já é habitual, o mais recente volume da Apocryphus, Femme Fatale, com a presença de vários dos autores. Falou-se, claro, do processo criativo e da cooperação entre narradores e desenhadores, sem esquecer as adversidades e a evolução da antologia ao longo dos volumes. Infelizmente, esta sessão passou do Sábado para o Domingo (no seguimento do temporal que se esperava) tendo, por isso, sido realizada com menor presença de autores do que seria expectável.

Convidados internacionais

Mas o Fórum Fantástico não apresentou apenas novos livros. Este ano teve dois convidados internacionais, Chris Wooding e Gilian Redfearn que participaram em duas conversas sobre publicação e edição, em dois dias diferentes, sexta e sábado. Na sexta a conversa centrou-se mais em Gilian Redfearn, editora na Gollancz, uma das mais conhecidas editoras mundiais no género da ficção especulativa. Falou-se do processo de edição, das diferentes formas de editar e da forma como se escolhem as obras a publicar.

Já no Sábado a conversa centoru-se em Chris Wooding, que falou das suas obras e da forma como se adaptou à temática YA por ter mais liberdade do que nas restantes secções, em que os livros são demasiado catalogados e direccionados para um rótulo. A conversa tocou, claro, na sua perspectiva sobre a componente de edição, e na forma como recebe as sugestões (por exemplo, de Gilian Redfearn.

Chris Wooding foi, ainda, responsável por um workshop do Domingo de escrita, com o título: Character, character, character: putting people in you story.

Lisboa, cidade fantástica de futuros diversos

Ainda que, para mim, o dia de sexta tenha começado mais tarde do que o horário oficial, ainda apanhei parte da conversa “A Lisboa que teria sido… a Lisboa que poderá ser” em que se falou da cidade enquanto espaço de pessoas e para pessoas, espaço em mudança e adaptação constante. Claro que, tendo esta conversa, a presença de João Barreiros, Lisboa foi arrasada por monstros e alienígenas, mas sobrevive ainda, com vários futuros possíveis.

Aniversários

Na sequência dos 25 anos de Filipe Seems foi inaugurada uma exposição com algumas pranchas da obra, e os autores, Nuno Artur Silva e António José Gonçalves, tiveram presentes para uma conversa sobre o surgir da obra, sobre o processo criativo e a evolução da forma de publicação, passando de tiras para volume que as reúne.

Ainda, por ocasião dos 20 anos da morte de Lima de Freitas, foi feita uma homenagem com a presença de José Hartvig de Freitas, o filho que é conhecido como tendo um papel bastante importante na banda desenhada portuguesa. Lima de Freitas, pintor, desenhador e escritor português é conhecido, entre os leitores de ficção científica, como o criador de várias capas dos livros da colecção Argonauta, tendo sido apresentadas várias das que criou. Hartvig de Freitas falou, não só da sua experiência como filho (crescendo com os cenários fantásticos) como da carreira do pai.

Prémios

Este ano foi caracterizado pelo anúncio de dois prémios, um o prémio António de Macedo, como homenagem ao falecido escritor de ficção especulativa, que é atribuído pela Editorial Divergência, com publicação do trabalho escolhido (sem que o autor tenha, claro, de pagar seja o que for – a Divergência não é uma Vanity). O prémio teve, como júri, Rui Ramos e Bruno Martins Soares (para além de Pedro Cipriano, claro) e foi atribuído a Pedro Lucas Martins.

Foram, ainda, revelados os vencedores do prémio Adamastor nas várias categorias. O prémio teve uma fase de nomeação e uma fase de votação, sendo que indico os nomeados e os vencedores (a negrito em cada categoria):

Grande Prémio Adamastor de Literatura Fantástica Portuguesa

Anjos, de Carlos Silva
Dormir com Lisboa, de Fausta Cardoso Pereira
Espada que Sangra, de Nuno Ferreira
Lovesenda, de António de Macedo
As Nuvens de Hamburgo, de Pedro Cipriano
Proxy, de vários

Prémio Adamastor de Literatura Fantástica Estrangeira

Coração Negro, de Naomi Novik
Fome, de Alma Katsu
Livro do Pó, de Philip Pullman
Lovestar, de Andri Snaer Magnason
Normal, de Warren Ellis
O que se vê da última fila, de Neil Gaiman
Quem Teme a Morte, de Nnedi Okorafor
Reino do Amanhã, de J.G. Ballard
Revelação do Bobo, de Robin Hobb
Semente de Bruxa, de Margaret Atwood

Prémio Adamastor de Ficção Fantástica em Conto

Aranha, de Pedro Cipriano
Bastet, de Mário Seabra Coelho
Coração de Pedra, de Diana Pinguicha
Crazy Equoides, de João Barreiros
Modelação ascendente, de Júlia Durand
Videri Quam Esse, de Anton Stark

Prémio Adamastor de Ficção Fantástica em Banda Desenhada

Cemitério dos Sonhos, de Miguel Peres
Dragomante, de Manuel Morgado e Filipe Faria
Free Lance, de Diogo Carvalho
Futuro Proibido, de Pepedelrey
Hanuram, de Ricardo Venâncio
Lugar Maldito, de André Oliveira e João Sequeira
SINtra, de Inês Garcia e Tiago Cruz

Outras conversas

Vencedor do prémio Utopiales, com A Instalação do Medo, Rui Zink falou do seu livro e do respectivo prémio (pouco mencionado na media tradicional) bem como de vários factores sociais (e das redes sociais) actuais. Foi uma conversa divertida com alguns pontos interessantes (ainda que não subscreva várias das perspectivas apresentadas) como a constante desumanização do outro (e por isso passível de linchamento) que passou pela componente literária e sobre o facto das pessoas ficarem fascinadas com um livro na medida do que leram (em relação a outros livros). Ou do que não leram.

Outros espaços

A maioria das actividades decorreu no auditório, mas o Fórum Fantástico é mais do que esta componente. À semelhança de outros anos, existiam várias bancas de várias editoras com livros publicados de fantástico (como Imaginauta, Editorial Divergência ou Saída de Emergência) para além de bancas de alguns autores com material próprio. Destaca-se, também, a tenda com banda desenhada e livros de ficção especulativa (em português e inglês), bem como a exposição alusiva a Philip Seems.

Esta componente (outros espaços) estava um pouco mais fraca do que o ano anterior, em que o agendamento do evento para datas mais próximas do Verão, permitiu uma melhor exploração do espaço da biblioteca. Tanto quanto percebi da programação estava previsto um espaço com demonstração e jogos de tabuleiro, mas sempre que fui à zona assignada, não encontrei esta componente, julgo que, também, por constrangimentos metereológicos.

Outras opiniões

Resumo – 2º trimestre de 2018

Se o primeiro trimestre já tinha começado bem, este segundo permitiu a consolidação das novas vertentes do Rascunhos, apesar dos contratempos pessoais (mudança de casa e novos projectos profissionais). As visualizações ultrapassaram as 26 000 mantendo a tendência do primeiro trimestre, e continuei com a nova vertente do Rascunhos na rádio (na Voz Online, onde falei sobre livros, sozinha e acompanhada, bem como de eventos como o Sci-fi LX – os programas encontram-se disponíveis também na Mixcloud). A componente de jogos de tabuleiro prosseguiu mais lentamente, mas estabeleci a minha primeira parceria de jogos (A Floresta Misteriosa).

EVENTOS

O evento que marcou este segundo trimestre foi definitivamente o Festival Contacto. Apesar de ter decorrido apenas numa tarde em Benfica (num local priveligiado, o Palácio Baldaya) forneceu grande momentos de diversão para todas as idades, com a Escape Room da Liga Steampunk, jogos de tabuleiro diversos, lançamentos de livros, lutas de sabres – entre outros. De destacar o espaço ao ar livre e a existência de um bar de apoio que permitiu a permanência no evento durante toda a tarde.

Este trimestre foi, também, a minha estreia no Lisboacon (sobre este evento falarei mais detalhadamente nos próximos dias). Trata-se de um evento focado exclusivamente em jogos, sobretudo em jogos de tabuleiro (tendo, também, RPG’s) onde se pode experimentar uma enorme diversidade de jogos e adquirir outros tantos a preço mais acessível do que é comum nas lojas. Outro evento que marcou o trimestre foi o breve retorno do Sustos às sextas (ao qual não pude comparecer).

Alguns dos jogos disponíveis no Lisboacon

Mas os últimos trimestres também prometem! Aproximam-se o Sci-fi LX e a Comic Con Portugal, e começaram a ser anunciadas algumas novidades para o último trimestre do ano – Fórum Fantástico e Festival Bang!

LIVROS E BANDA DESENHADA – Portugueses 

Com o mesmo número de leituras do trimestre passado (cerca de 60) destaco, de autoers portugueses, Comandante Serralves – Expansão, The Worst of Álvaro e Han Solo. O primeiro é uma continuação da primeira antologia Serralves, contendo contos Space Opera de vários autores num mesmo Universo. Esta antologia destaca-se pelos elementos portugueses na sua narrativa, desde o humor às expressões e alguns detalhes culturais das personagens.

 

 

 

 

 

 

 

 

The Worst of Álvaro apresenta as piores tiras de Álvaro, num  conjunto divertido que começa com uma paródia certeira às seitas religiosas que realizam espectáculos de diversão (e engodo) nas suas cerimónias. Han Solo de Rui Lacas destaca-se pela expressividade das personagens, criando uma história envolvente com poucas palavras.

LIVROS

 

 

 

 

 

 

 

Este ano tem sido marcado por bons lançamentos de ficção especulativa (não em grande quantidade, mas o que tem havido é de qualidade) e este trimestre li, sobretudo, as novidades publicadas no mercado português. A Cavalo de Ferro surpreendeu com o lançamento de um clássico de horror de Shirley Jackson, A Maldição de Hill House. Não sendo a melhor leitura desta autora, apresenta uma história claustrofóbica que nunca se afimar sobre a origem dos supostos detalhes sobrenaturais, deixando a possibilidade de várias interpretações para o autor.

Num tom bastante diferente, Os Humanos é um relato divertido de um alienígena que tem de se integrar como humano para limpar as pistas de uma importante descoberta científica. Proveniente de uma sociedade bastante diferente, onde os indivíduos são imortais e poderosos, a perspectiva do alienígena é, simultaneamente, perspicaz e cómica.

 

 

 

 

 

 

 

 

Tendo no título a palavra Love, Love Star corre o risco de ser incluído na secção de romance fofinho e cor de rosa (como já o vi). Não poderia ser uma classificação mais enganadora. Love Star apresenta uma sociedade onde a tecnologia se aliou à publicidade com a perspectiva de responder a todas as necessidades de consumo da população, apresentando produtos inovadores como a disposição de corpos humanos em foguetes para serem incinerados automaticamente quando entrem novamente na atmosfera. Trata-se de uma história interessante carregada de reviravoltas irónicas, carregadas de crítica social.

O Poder é outro dos grandes lançamentos deste ano. Bastante aclamado no estrangeiro, apresenta uma reviravolta no equilíbrio de poder nas sociedades humanas – e se as mulheres tivessem a capacidade de electrocutar? O poder surge sobretudo em situações de violência física e psicológica contra mulheres, resultante numa reviravolta interessante. Deste surgir por necessidade ao exercício de poder, a história apresenta novos equilíbrios e desequilíbrios.

 

 

 

 

 

 

 

 

Amatka é, também, um lançamento inesperado para o mercado português, contendo uma sociedade distópica onde os objectos têm de ser constantemente marcados para manterem a sua forma e funções. Quem teme a morte de Nnedi Okorafor não é uma leitura deste ano (li-o em inglês em 2015) mas é um grande lançamento em Portugal. Trata-se de um dos grandes exemplos de afrofuturismo que não teme tratar de temas como o controlo das mulheres através da castração ou como a luta entre populações através das violações que visam diluir o sangue dos vencidos.

 

 

 

 

 

 

 

 

Em inglês, destacou-se The Tangled Lands, um livro de fantasia pouco optimista em que o exercício de magia tem um preço muito elevado e onde o destino das personagens nunca é o programado, com contratempos e reviravoltas difíceis. Já The Martian in the Wood é um dos contos da TOR.com e centra-se num mundo pós Guerra dos Mundos de H. G. Wells, mostrando a vida dos que sobreviveram e como tentam lidar com o desaparecimento dos familiares – mas… nem todos os alienígenas conseguiram abandonar a Terra!

BANDA DESENHADA

A colecção Novela Gráfica ainda agora começou e já proporcionou duas das melhores leituras dos últimos meses, Os Guardiões do Louvre de Taniguchi e Aqui mesmo de Tardi. O primeiro centra-se no Louvre, enquanto museu e espaço que sofreu alterações, falando de alguns autores que influenciaram artistas japonses. Trata-se de um trabalho a cores que dá grande representação a algumas obras clássicas captando o seu próprio estilo. Não sendo dos trabalhos favoritos do autor em termos narrativos, fascina pelo grafismo.

Aqui mesmo (que ainda não tive oportunidade de comentar detalhadamente) é um trabalho excelente que pode ter interpretações políticas (ainda que o autor, na sua introdução descarte grande parte delas), centrando-se numa personagem demasiado agarrada ao passado, traumatizada com as guerras entre famílias e por isso, decidida a manter a sua posição desconfortável, nem que para isso deixe de ter vida própria.

Não tendo lido o romance original no qual se baseia, Afirma Pereira é um fascinante retrato da sociedade portuguesa antes do 25 de Abril mostrando como se exercia influência, poder e medo sobre a população e, neste caso, sobre a classe jornalística portuguesa.

Outra das colecções lançadas pela Levoir foi a colecção Bonelli em que se lançaram álbuns representativos das colecções italianas da editora Bonelli. Em geral são álbuns que dão especial destaque à narrativa, bastante movimentados e centrados em heróis peculiares. Dragonero foi dos meus favoritos contendo referências às mais clássicas séries de Fantasia. Já este volume de Dylan Dog, Os Inquilinos Arcanos, destaca-se pela introdução de Filipe Melo e contém uma diversidade interessante das histórias deste herói com um grafismo competente onde não se podem esquecer os efeitos sobrenaturais e fantásticos.

Próximos tempos? Espera-me o Sci-fi LX, com duas palestras, uma sobre ficção especulativa nacional e outra sobre robots (com João Barreiros), muitos livros e muitos jogos de tabuleiro!

Resumo – 1º trimestre de 2018

Com mais de 20 000 visualizações desde Janeiro e mais de 60 leituras, 2018 tem-se revelado um ano interessante, com novos projectos e direcções. Para quem tem acompanhado, já se deve ter apercebido que foi lançado um programa de rádio na Voz Online, que é uma extensão do Rascunhos (o programa de rádio aparece, também, na Mixcloud, como outros programas da rádio), e que se iniciou uma nova rubrica de jogos de tabuleiro (ainda que não tenha tido a regularidade pretendida).

Passando à ficção especulativa, este primeiro trimestre viu o retorno dos Devoradores de livros na Tigre de Papel e o lançamento de Crazy Equóides de João Barreiros, bem como o agendamento de alguns dos mais importantes eventos de ficção especulativa em Portugal:

 

 

 

 

 

 

 

A nível de publicações, o ano começou bem para a ficção especulativa portuguesa – não porque haja publicação em quantidade, mas mas porque o pouco que existiu é de qualidade. Estou a falar da publicação de Crazy Equóides de João Barreiros. Trata-se de uma história que foi criada para a Antologia Erótica de ficção fantástica, mas que, na falha de pubilcação da antologia, foi direccionada para publicação isolada e acabou publicada pela Imaginauta – e ainda bem.

Considerando o tema da antologia à qual se destinava não é de estranhar que tenha uma grande componente associada à sexualidade, mas nem por isso se trata de uma história que pretenda fornecer uma experiência erótica. João Barreiros caminha o limite da premissa sem resvalar para caminhos demasiado obscuros, fornecendo uma história com máximo prejuízo e pequenas reviravoltas que vão entusiasmando o leitor.

Dormir com Lisboa é outra das obras de ficção especulativa portuguesa que se destaca nas minhas leituras. Trata-se do vencedor do prémio Antón Risco de 2016, um dos livros falados durante o Fórum Fantástico de 2017 que só agora li. Como o nome indica a obra explora Lisboa e a perspectiva que cada um tem da cidade, expondo a diversidade de locais, resultado da construção e da recombinação ao longo dos séculos.

 

 

 

 

 

 

 

Este ano tem sido marcado pelo sucesso de Jeff Vandermeer. Um dos seus mais recentes livros foi adaptado para cinema, Aniquilação, e, ainda que não tenha sido distribuído para as salas de cinema de todo o mundo, mas através da Netflix, trata-se de um filme que não tem deixado a audiência indiferente. Confusa, por vezes, sim. De realçar que alguns dos cenários do primeiro livro foram inspirados numa visita a Portugal, mais concretamente à Quinta da Regaleira (como a torre invertida que não se vê no filme).

Após esta trilogia Jeff Vandermeer já lançou outras obras, entre elas Borne e The Strange Bird, ambos passados no mesmo Universo, uma realidade futura em que a biotecnologia criou seres que contaminam todos os nichos ecológicos. O resultado são monstros inteligentes capazes de interagir com seres humanos, e de mudar a sua aparência quando querem, alimentando-se por fagocitose, ou raposas inteligentes capazes de comunicar sem palavras, ou monstros em forma de urso.

Borne é o primeiro livro nesta realidade, mas achei-o demasiado longo nalgumas partes, centrando-se no seu relacionamento com a humana que o acolhe o cria, formando-o como uma pessoa, mas não como um humano, e saciando a sua capacidade para aprender. Desta forma, gostei mais de Strange Bird, mais conciso, e centrado  num novo ser, belíssimo, resultante do cruzamento de genes de diferentes animais, que é utilizado por vários seres humanos para fins diferentes.

 

 

 

 

 

 

 

Passando à banda desenhada, secção onde a leitura foi mais extensa, Ciudad de Giménez e Barreiro, destacou-se por apresentar uma imensa cidade paralela, onde o tempo e o espaço não são contíguos e as pessoas que lá caem deambulam, sob influência do ambiente que os rodeia, construindo maravilhosas mas nefastas cidades, ou fugindo de grupos armados. No decorrer encontram comboios que os levam a vislumbrar o passado e o futuro, pessoas que atraem milhões de ratazanas (simultaneamente uma benção e uma maldição) ou imensos jardins predadores que se dissipam. Trata-se de uma obra com inúmeras referências literárias, um intrincado de caminhos e de questionamentos.

Ministry of Space, de Warren Ellis, foi outra das grandes leituras deste trimestre. Trata-se de uma obra que recorda o sentimento inglês em relação ao imperialismo que coloca os ingleses no topo da corrida ao espaço. A origem do dinheiro que proporciona este avanço é obscura e o objectivo também. É uma banda desenhada carregada de simbolismos e de alusões ao espírito nacionalista que levou alguns países para a guerra, mostrando o orgulho do soldado perfeito e do confronto bélico.

 

 

 

 

 

 

 

Com o terceiro volume publicado em Portugal, Harrow County continua a ser uma das grandes séries de horror em lançamento. Este volume introduz algumas variações em relação aos anteriores, com uma história de final aberto, menos centrado na personagem principal e introduzindo novas personagens com poderes sobrenaturais – personagens com interesses próprios que se prevê opostos.

El fantasma de Gaudí apresenta um assassino em série na cidade de Barcelona. Não é uma história impressionante do ponto de vista narrativo mas surpreende no visual que aproveita as cores da cidade e o trabalho de Gaudí para episódios em belíssimos cenários em que se discorre sobre os mais grandiosos edifícios da cidade.

O segundo trimestre também promete boas novidades, com o festival Contacto já no próximo fim de semana!