Imaginem uma versão mais recente de We de Yevgeny Zamyatin ou de 1984 de George Orwell, uma sociedade distópica onde se cultiva a normalidade e a vigilância com base no medo, mas que não decorre numa realidade paralela nem num futuro distante – antes no nosso mundo, daqui a alguns anos. Imaginem e terão uma ideia do que é a trilogia The Fourth Realm por John Twelve Hawks.

O primeiro volume da trilogia, The Traveller é introdutório, mas nem por isso, deixa de nos impressionar pela acção e novidade constantes. O palco principal da história é a vasta máquina – o extenso circuito de vigilância montado na maioria dos países civilizados, onde perpetuamente se segue o dia-a-dia de todos. Câmara de vigilância captam os nossos movimentos, biosensores captam a nossa presença, caixas pretas nos automóveis permitem segui-los, monitorizá-los e até controlá-los, as chamadas telefónicas são escutadas e, finalmente, todas as transacções são registadas e analisadas por um computador.

Estes são os mecanismos que supostamente protegeriam os cidadãos de ataques terroristas ou do despertar de assassinos. Mas quem os controla e com que intenção? Em The Fourth Realm, é a Távola, uma organização milenar que se esconde por detrás de uma empresa sem fins lucrativos, Evergreen, que detém o controlo destes meios, com o objectivo de implementar uma prisão para todos os cidadãos: captam-se comportamentos públicos e privados em busca de desvio à normalidade enquanto se testam novos meios de controlo mais apertado, mecanismos que permitam analisar pensamentos e sentimentos.

Em oposição à Távola, existem os Harlequins, guerreiros temíveis de comportamento imprevisível, cujo objectivo de vida é proteger os Viajantes, pessoas de aspecto comum com a capacidade de viajar entre universos paralelos. Serão estes os messias que terão permitido a existência de pontos de ruptura em relação à extrema vigia da Távola, com a introdução de novos conceitos onde a individualidade permite a invenção e a evolução das sociedades humanas. Para manter as populações sob controlo, a Távola pretende exterminar os viajantes, e a única forma de estes se esconderem é viver fora da vigilância, fora da grelha.

Centrando-se em dois Viajantes que seguem caminhos opostos e numa Harlequim que protege um deles, a história afasta-se bastante da teoria da conspiração inicial que parecia ir dominar o livro, criando a sua própria mitologia. Existem pequenas comunidades que vivem fora da sociedade dita normal, procurando afastar-se do controlo e do consumo desenfreado, e a par dos tiroteios e das lutas corpo-a-corpo entre mercenários da Távola e Harlequins, acompanhamos as visitas dos Viajantes a outros mundos: infernos de fantasmas frios que desejam despedaçar a carne quente do viajante, pequenos mundos em ciclos de renovação constante, ou mundos compostos por ilhas onde grupos de humanos há muito esqueceram as anteriores vidas e agora se juntam para se matarem.

Extremamente movimentado, The Traveller torna-se uma leitura arrepiante ao explorar a temática do controlo Vs privacidade. Ainda que a vigilância seja instalada com o suposto objectivo de proteger o cidadão comum e seguir o criminoso, verdade é que raras vezes um crime é antecipado pela vigilância, e ninguém sabe ao certo quem tem acesso à informação. Sob a capa do medo e da falácia “se não fiz nada de mal nada tenho a temer”, vão-se instalando novos e mais complexos mecanismos que permitem captar informação detalhada sobre cada cidadão. Hábitos indicam maneiras de pensar, leituras indicam o quão dentro do sistema alguém se encontra, e comportamentos que fujam a um padrão de normalidade poderão marcar alguns cidadãos. Mais fácil ainda, quando se pretende eliminar alguém, introduz-se uma informação suspeita no perfil e eis uma forma de justificar o desaparecimento.

Mais do que uma teoria da conspiração extremamente elaborada e inteligente, The Traveller apresenta-nos outras realidades que mais não são que decomposições da nossa própria realidade, interpretações simbólicas onde algumas facetas são levadas ao extremo com cenários arrepiantes. Estes cenários são explorados de forma interessante, e injectam o factor de novidade na intensa história de acção que se desenrola em paralelo, permitindo que o leitor não se sinta extenuado. Finalmente, as personagens serão o ponto menos interessante de The Traveller. Ainda que consigamos sentir empatia, algumas são demasiado estereotipadas, cumprindo o papel correcto, mas sem surpreender.

Esqueçam as comparações com Dan Brown que poluem a capa. The Traveller apresenta-nos uma narrativa bastante mais inteligente e interessante, destacando-se pela introdução das realidades paralelas. Estas foram, para mim, o ponto mais positivo do livro. As ideias sobre a vigilância extrema dos cidadãos são simultaneamente negativas e positivas: algumas são interessantes, outras exaustivas; mas serão as personagens o ponto mais fraco da história. Como seria de esperar, as realidades alternativas foram o que mais me captou e o que gostaria de ver explorado noutra temática.

Em Portugal apenas foi publicado o primeiro volume com o título O Viajante, pela Dom Quixote.