O título e a capa fizeram-me pensar tratar-se de mais um romance de fantasia urbana. A sinopse recordou-me mais um livro de zombies, onde os tacos de basebol para rebentar cabeças seriam comuns. O tratar-se do primeiro livro de um autor não ajudou. Felizmente, li várias críticas positivas de origem confiável que me levaram a pegar no livro. Comprovou-se a última impressão – este não é um livro comum, seja qual for o sub-género onde pretendam enquadrá-lo.

Esqueçam os seres alados de auréola e cabelos loiros. Entre os seres pouco naturais que encontramos, os anjos não aparecem. Ao invés de anjos, encontramos mortos, vulgares zombies, que perseguem persistentemente qualquer ser humano que encontrem. Como zombies, estes correspondem à descrição típica, não sentem dor nem frio, e não se importam de por em causa a integridade física – enquanto existirem mandíbulas estas servem para morder.

O que torna a história pouco comum, é a personagem principal, uma jovem rapariga, Temple, que se encontra sozinha numa ilha, subsistindo do que encontra na natureza. Até encontrar um corpo quase despedaçado pelas rochas da praia, que ainda assim a tenta morder. Depois de friamente acabar com o zombie, Temple sente que a ilha deixou de ser segura, e retorna ao continente, arranjando um carro para se deslocar.

Com o regresso voltam as memórias de outras pessoas, das que a terão ensinado a sobreviver e de outras que terão estado a seu cargo. Pelo caminho vai encontrando outros seres humanos ainda saudáveis. Mas se encontrar outros poderia ser um alívio, torna-se antes um fardo – os zombies apenas têm como objectivo consumir a presa que se encontra mais perto, sem outras pretensões.

As pequenas comunidades ainda existem, pequenos grupos de seres humanos que se tentam isolar do mundo que as rodeia, e viver em reclusão, tentando ignorar os zombies, construindo uma espécie de sonho. Temple, no entanto, vive assaltada pelas memórias, e prefere viver independente, enfrentando os mortos vivos.

The Reapers are the Angels não apresenta apenas o declínio da espécie humana como dominante na Terra, mas também a degradação da estrutura social, do ponto de vista de alguém que nunca chegou a conhecer um mundo normal. Com o desenrolar dos acontecimentos vamo-nos apercebendo das diferentes camadas de uma personagem supostamente simples que se recusa viver enclausurada em segurança fictícia.

A história apresenta-se uma surpresa agradável e diferente, um género de I Am Legend mais frágil e melancólico, mais actual ainda que com alguns pontos menos positivos. Existem momentos menos coesos com a restante história, que se tornam necessários para conhecer melhor as personagens mas que poderiam ter um melhor enquadramento: provavelmente fruto da menor experiência do autor. Ainda assim, aconselhável.