City of Blades – Robert Jackson Bennett

Depois da excelente surpresa que constituiu o primeiro volume da trilogia, City of Stairs, a novidade esmoreceu um pouco. Mantendo a boa disposição do anterior e com uma história totalmente autónoma, este City of Blades peca por se perder um pouco em episódios menos importantes que quebram o ritmo e por se centrar demasiado numa única personagem, não deixando grande margem para as restantes.

What a divinity said was true, was instantly, irrefutably true. In saying this they overwrote reality – including their own. In some ways the Divinities were salves of themselves.

A premissa é original – este é mundo de contrastes onde existem duas civilizações que se desenvolveram de forma bastante diferente, uma assente no poder tecnológico, outra centrada dos Deuses e nos seus caprichos. Se, no livro anterior, conhecemos a cidade de Bulikov onde, com a morte dos Deuses desapareceram todos os edifícios de origem divina, deixando apenas as escadas construídas pelos homens, aqui conhecemos a cidade costeira de Voortyashtan.

Retrato realizado por Chanh Quach

“N-No!” says the bearded man. “No, I Don’t … I don’t want to get shot”.

“Well, you do have a funny way of following that dream”, says the woman, “since the second your foot falls on my property, the opposite is most likely to happen”.

A personagem principal deste livro também é uma mulher, mas uma veterana de guerra que finalmente se reformou e tenta gozar os dias calmos na sua nova propriedade. Infelizmente a reforma que aufere vai ser acertada por razões burocráticas e, como tal, para garantir uns anos mais calmos e relaxados, vai ter de fazer mais uns meses de serviço. Ao invés de ir integrar um exército foi destacada para a cidade de Voortyashtan para investigar alguns acontecimentos estranhos que poderão estar relacionados com as antigas divindades.

Na cidade de Voortyashtan assistimos a diferentes forças políticas em acção. Apesar de o Mundo agora ser governado pela civilização que se baseou na tecnologia, décadas depois continuam a existir resistentes, os que preferiam a época dourada das divindades. Por outro lado, em torno da cidade persistem pequenas tribos com leis própria e todos querem um pedaço do potencial económico da cidade enquanto sede comercial.

Até aqui, nada de novo. O factor estranho é uma substância que está a ser explorada em minas naquela cidade e que tem uma condutividade demasiado elevada. Apesar de se provar que não corresponde a uma substância de origem divina, vão ocorrendo diferentes episódios que se assemelham a milagres e põem em causa o que se conhecia da fronteira entre a vida e a morte.

Espirituoso, City of Blades aproveita o mesmo mundo para explorar a temática de guerra e o trauma do soldado que, apenas obedecendo a ordens, acaba por chacinar civis. A vida de guerra pode ser deixada para trás, mas os pesadelos e o sentimento de culpa permanece.

Em paralelo volta a explorar o choque cultural entre o conquistador e o conquistado, o sentimento de inferioridade e de revolta que provoca, bem como o demasiado apego e melancolia que se gera perante o passado. Sentimentos que combinados com o menor acesso a meios económicos e a poder político podem germinar em revoluções e loucura de pessoas bem colocadas.

Com uma mitologia completa mas não demasiado complexa, que vai sendo apresentada no decorrer da história sem sobrecarregar o leitor, City of Blades possui, também, uma componente de investigação nesta realidade com detalhes quase medievais (com a descoberta recente de electricidade e de outras tecnologias). Com momentos leves provocados pelas tiradas cómicas, a história expande-se demasiado nalguns episódios pouco relevantes como tentativa de causar suspense na investigação e centra-se demasiado numa única personagem. Apesar destes dois detalhes que, a meu ver, poderiam ser facilmente melhorados, City of Stairs é uma história de fantasia rica, com elementos que lhe dão fundação e textura que não tem medo de apresentar personagens traumatizadas, menos perfeitas e capazes de violência.

Outros volumes da trilogia

Um pensamento sobre “City of Blades – Robert Jackson Bennett

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