pale blue eyes

São raras as histórias de detectives que me fascinam. Talvez porque a maioria se centra demasiado na descoberta final, o único ponto alto que justifica o enredo que se foi construindo, havendo pouco espaço para outras histórias paralelas ou construção de personagens. Os Olhos de Allan Poe é uma excepção feliz – existe a investigação de um crime, mas em torno desta investigação exploram-se as personagens principais, o detective e o seu ajudante.

Reformado, Augustus Landor foi um detective na cidade de Nova Iorque, que se retirou para o campo por razões de saúde. Viúvo, aguarda o regresso da filha e mantém uma existência pacífica até encontrar, à porta de casa, um cadete. Este leva-o à Academia de West Point, com o objectivo de investigar o roubo do coração do cadáver de um outro cadete. Sem autonomia para questionar os jovens militares sozinho, Augustus escolhe o cadete Edgar Allan Poe para se infiltrar nos grupos suspeitos.

Poe destaca-se dos seus colegas quer pelas capacidades intelectuais e forma de pensar, como pela melancolia que expressa e uma certa fragilidade emocional. Ridicularizado pelos restantes, Poe aceita as tarefas propostas por Augustus com o objectivo de se revoltar contra a autoridade na Academia e simultaneamente destacar-se a seus próprios olhos.

Desde logo nos apercebemos que, tal como o crime não é vulgar, a investigação também não o será. Entre os dois, Angustus e Poe estabelece-se uma relação intrigante, enquanto o primeiro carece de companhia inteligente, o segundo sente a falta de alguém que lhe oiça os poemas e escritos. Para além das tardes passadas em conjunto, Poe aproveita para expor as suas capacidades artísticas nos relatórios que vai fornecendo por carta, revelando bem mais do que factos.

Entrelaçando detalhes da vida do próprio escritos Edgar Allan Poe, Bayard apresenta-nos uma história em que nada é o que parece inicialmente, nem os crimes, nem os próprios investigadores. Entre as discussões de Augustus e Poe desenrola-se a investigação onde não faltam os detalhes macabros e as revelações inesperadas, assim como alguns detalhes cómicos ou trágicos. Com um enredo cativante e inteligente, Os Olhos de Allan Poe é um daqueles que impele a uma leitura cada vez mais rápida.