Por mundos divergentes – Vários autores

IMG_3199

Publicada recentemente pela Editorial Divergência, Por Mundos Divergentes é uma pequena compilação de histórias distópicas, da autoria de cinco autores portugueses. Uma iniciativa interessante que se destaca tanto por conceito como pela divulgação de escritores nacionais numa área tão escassa da literatura portuguesa como a ficção científica, ainda mais se considerarmos a ficção distópica.

Depois de apresentados a um verdadeiro Big Brother em ambiente lusitano (Patriarca de Ricardo Dias) segue-se Em Asas Vermelhas de Nuno Almeida, uma história distópica e pós-apocalíptica que retrata uma Lisboa futurística de altos muros isolantes, que visam separar a população rica de pele clara, dos mais pobres e escuros que subsistem na lixeira. Claro que, em tais condições, fervilha uma revolta na qual dois jovens terão um papel fulcral. Uma história divertida onde se realçam os elementos futuristas e o ambiente distópico – bons elementos apesar da inocência genérica do enredo juvenil.

IMG_3231

Num Portugal acossado pela crise que tenta produzir alimento para toda a população, a solução encontra-se na classificação de dispensável – cidadãos que, por causa de alguma deficiência, acidente ou simplesmente, idade, já não conseguem produzir o suficiente para serem considerados úteis. É nestes indivíduos que se centra Dispensáveis de Ana C. Nunes, mais propriamente num velhote, pai e avô, que, após uma queda, fractura a bacia e se vê marcado como dispensável. É levado contra vontade pelo filho para um dos locais isolados onde se largam os dispensáveis, esperando-os a morte ou a desumanização da miséria extrema.

Arrábida8 de Pedro G. P. Martins é o conto de que mais gostei. Num Portugal totalmente futurista, governado por uma autoridade absoluta e estrangeira, conhecemos um centro de investigação biológica na Arrábida. Criado com o principal objectivo de fornecer arroz aos governantes externos, permite que um grupo de investigadores estude o equilíbrio ecológico, tarefa secundária no momento em que se torna necessário descobrir qual a praga que se encontra no arrozal. Aldo9 é um desses investigadores, um ser humano que já vai na nona clonagem, sendo que as versões anteriores terão sido descontinuadas por conta de erros que agora desconhece.

O último conto, Somos Felizes, de Sara Farinha retrata uma distopia onde todos têm o dever de ser felizes. Para tal existem anúncios constantes ou medicamentação para os mais resistentes. Quem não for feliz é internado e sujeito a diversas sessões de terapia até ser curado. Bruno é um dos indivíduos que se sente infeliz. Após assistir ao enterro de um amigo (cerimónia de assistência proibida) não consegue deixar passar o sentimento de tristeza. Após um longo internamento é seguido em consultas sucessivas. E talvez conseguisse esconder os seus sentimentos, não fosse ter conhecido uma artista pouco vulgar.

No conjunto a colectânea surpreendeu-me pela positiva. É agradável descobrir histórias com elementos lusos conhecidos, mais que não sejam pelas expressões, locais ou pelas referências históricas. Arrábida8 agradou-me pela apresentação de um futuro típico de Hard Scifi – humanos ligados mentalmente a uma rede tecnológica, clones das suas próprias versões originais que intercalam horas de trabalho com horas de lazer obrigatório. Por sua vez, Dispensáveis será a história mais humana do conjunto, descrevendo-nos a pobreza de espírito que advém da alienação dos cidadãos enquanto pessoas – uma boa história que, no meu entender, ganharia com o corte de algumas cenas que acabam por repetir elementos.

Patriarca é, também, uma boa história que ganharia em se conter nas reviravoltas nas últimas páginas, reviravoltas que inundam quer a personagem principal, quer o leitor. Já Somos Felizes é uma abordagem interessante apesar do final expectável. Tenho pena que nem todos os elementos tenham sido mais explorados (em suma, qual a necessidade de integrar uma personagem como a artista?). Por último (mas sem qualquer ordem de preferência) Em Asas Vermelhas possui uma premissa peculiar mas tenho pena que se tenha tornado uma história de contornos juvenis.

IMG_3207

Parabenizando a iniciativa que resultou numa compilação acima da média no que diz respeito a produções nacionais, não posso deixar de destacar um dos aspectos mais negativos: o aspecto grafico. Passo a explicar. A imagem da capa é engraçada, e os vários tipos de letra completam-no. Mas é mesmo nestes vários tipo de letra que se confunde o leitor, relembrando caracteres russos, o que é totalmente desadequado. Por outro lado, a letra demasiado disforme dificulta a leitura da sinopse ou dos conteúdos – escusado será dizer que não me esforcei por terminar a sinopse.

No interior esperam-nos também algumas falhas desagradáveis que fazem mais lembrar uma fanzine do que propriamente um livro. Detalhes que seriam totalmente normais numa edição que não se pretende levar a sério, tornam-se impróprios numa edição que pretende ser mais profissional. Exemplos concretos? O índice é uma tabela na primeira página, que ocupa o canto da folha, e por entre os contos vislumbram-se pequenas imagens de publicidade. Mas claro, estes são apenas aspectos secundários.

4 pensamentos sobre “Por mundos divergentes – Vários autores

  1. Pingback: Resumo de leituras – Março de 2015 (3) | Rascunhos

  2. Pingback: Universos Literários – Vários autores | Rascunhos

  3. Pingback: Eventos: Lançamento Nos Limites do Infinito | Rascunhos

  4. Pingback: Nos limites do Infinito – Vários autores | Rascunhos

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s