Os Engonços da Quionga / A loja do desejo agridoce – Rhys Hughes

Ainda que a maioria dos contos da antologia Winepunk sejam de autoria nacional, existem dois de Rhys Hughes que decorrem no mesmo Universo. Na primeira história um estrangeiro explora as origens da sua estranha casa, percebendo que a casa viajou vários milhares de quilómetros. No segundo conto parte este mesmo estrangeiro para salvar uma donzela, utilizando-se elementos narrativos criados no primeiro conto.

Quem conhece o autor percebe o seu fascínio por culturas não ocidentais. Não é, assim, de estranhar, que o autor tenha situado os dois contos em África, começando com os conflitos armados que aí decorriam. Nostálgicos pela terra natal e sem querer largar as suas casas, seguem um inventor louco que cria um mecanismo capaz de viajar longas distâncias, transportando, numa plataforma, todas as casas de quem deseja regressar. A convivência permanente dos viajantes e os trios amorosos resultam em conflitos difíceis de resolver. Os viajantes acabam por se separar de forma inesperada.

Num segundo conto, o mesmo estrangeiro explora as lojas locais e encontra uma de desejos agridoce onde se fala de árvores de bochechas e outros eventos improváveis. A compra de uma poção leva-o à praia, onde encontra uma garrafa com uma mensagem de socorro. Ainda sob o efeito da poção, o estrangeiro parte para salvar uma donzela, sem saber que será uma viagem de reviravoltas inesperadas.

Ainda que as duas histórias possuam um ambiente algo diferente do resto da antologia, são dois contos imaginativos e fantásticos, de leitura divertida pela forma como jogam com ideias mirabolantes.

Outros contos da antologia Winepunk

Anúncios

O Rascunhos em Rádio

Esta é a novidade deste ano, um novo formato para o Rascunhos que passa a ser, também, um programa de rádio na Voz Online. O primeiro programa foi lançado no dia 21 de Fevereiro, mas como me encontrava fora do país não tive oportunidade de divulgar. À semelhança do blogue, o programa ira centrar-se em ficção científica e banda desenhada e o próximo programa, que foca o Festival Contacto 2018, irá passar na próxima quarta-feira, dia 14, pelas 21h.

À espera de … (lançamentos internacionais)

É nesta altura do ano que se começo a antecipar alguns lançamentos, imaginando estes novos livros na minha biblioteca.

Vencedora de dois prémios BSFA no mesmo ano para categorias diferentes, Aliette de Bodard tem lançado várias histórias de ficção científica e fantasia com elementos culturais diferentes do usual. De origem vietnamita e francesa, a autora fala diversas vezes sobre os elementos que encontra noutras fantasias em que se assume que os hábitos ocidentais são gerais ao restante planeta Terra (como o comer pão ao pequeno almoço) e em formas de evitar tal generalização ou de tornar os hábitos descritos lógicos ao habitat em que ocorrem. Depois do sucesso que tem feito com a trilogia iniciada com The House of Shattered Wings, a autora lança agora uma  ficção científica que parece ter detalhes orientais:

Welcome to the Scattered Pearls Belt, a collection of ring habitats and orbitals ruled by exiled human scholars and powerful families, and held together by living mindships who carry people and freight between the stars. In this fluid society, human and mindship avatars mingle in corridors and in function rooms, and physical and virtual realities overlap, the appareance of environments easily modified and adapted to interlocutors or current mood.

A transport ship discharged from military service after a traumatic injury, The Shadow’s Child now ekes out a precarious living as a brewer of mind-altering drugs for the comfort of space-travellers. Meanwhile, abrasive and eccentric scholar Long Chau wants to find a corpse for a scientific study. When Long Chau walks into her office, The Shadow’s Child expects an unpleasant but easy assignment. When the corpse turns out to have been murdered, Long Chau feels compelled to investigate, dragging The Shadow’s Child with her.

As they dig deep into the victim’s past, The Shadow’s Child realises that the investigation points to Long Chau’s own murky past… and, ultimately, to the dark and unbearable void that lies between the stars…

Catherynne M. Valente já venceu diversos prémios no área do fantástico, tendo sido publicada em Portugal uma das suas obras premiadas (A menina que circum-navegou o reino encantado num barco que ela mesma fez – infelizmente com falhas de tradução e de revisão que tornam o livro pouco legível nalgumas partes). Inicialmente conhecida pela série The Orphan’s Tales, a autora tem-se distinguido com várias outras obras e uma extensa publicação de contos. Aqui dá todo um novo sentido ao termo Space Opera:

IN SPACE EVERYONE CAN HEAR YOU SING

A century ago, the Sentience Wars tore the galaxy apart and nearly ended the entire concept of intelligent space-faring life. In the aftermath, a curious tradition was invented-something to cheer up everyone who was left and bring the shattered worlds together in the spirit of peace, unity, and understanding.

Once every cycle, the civilizations gather for Galactivision – part gladiatorial contest, part beauty pageant, part concert extravaganza, and part continuation of the wars of the past. Instead of competing in orbital combat, the powerful species that survived face off in a competition of song, dance, or whatever can be physically performed in an intergalactic talent show. The stakes are high for this new game, and everyone is forced to compete.

This year, though, humankind has discovered the enormous universe. And while they expected to discover a grand drama of diplomacy, gunships, wormholes, and stoic councils of aliens, they have instead found glitter, lipstick and electric guitars. Mankind will not get to fight for its destiny – they must sing.

A one-hit-wonder band of human musicians, dancers and roadies from London – Decibel Jones and the Absolute Zeroes – have been chosen to represent Earth on the greatest stage in the galaxy. And the fate of their species lies in their ability to rock.

Paolo Bacigalupi é o autor de uma das minhas obras de ficção científica favoritas, The Windup Girl. Conhecido por publicar obras em que se expressa a preocupação ecológica, apresentou neste volume um futuro pós-apocalíptico em que a subida das águas provoca uma crise energética e de alimentação, com a extinção da grande maioria das espécies vegetais comestíveis. No seu novo livro estabelece uma parceria com Tobias S. Buckell para escrever um livro de fantasia:

From award-winning and New York Times bestselling authors Paolo Bacigalupi and Tobias Buckell comes a fantasy novel told in four parts about a land crippled by the use of magic, and a tyrant who is trying to rebuild an empire – unless the people find a way to resist.

Khaim, The Blue City, is the last remaining city in a crumbled empire that overly relied upon magic until it became toxic. It is run by a tyrant known as The Jolly Mayor and his devious right hand, the last archmage in the world. Together they try to collect all the magic for themselves so they can control the citizens of the city. But when their decadence reaches new heights and begins to destroy the environment, the people stage an uprising to stop them.

In four interrelated parts, The Tangled Lands is an evocative and epic story of resistance and heroic sacrifice in the twisted remains surrounding the last great city of Khaim. Paolo Bacigalupi and Tobias Buckell have created a fantasy for our times about a decadent and rotting empire facing environmental collapse from within – and yet hope emerges from unlikely places with women warriors and alchemical solutions.

Um momento na história acompanhado por um alienígena que deveria manter-se como mero observador da tragédia. Mas o saber do desenrolar não será capaz. Trata-se do primeiro livro de um novo autor publicado na Angry Robots, uma das principais editoras anglo-saxónicas do género.

In medieval Italy, Niccolucio, a young Florentine Carthusian monk, leads a devout life until the Black Death kills all of his brothers, leaving him alone and filled with doubt. Habidah, an anthropologist from an alien world racked by plague, is overwhelmed by the suffering. Unable to maintain her neutrality, she saves Niccolucio from the brink of death. Habidah discovers that neither her home’s plague nor her assignment on Niccolucio’s ravaged planet are as she’s been led to believe. Suddenly the pair are drawn into a worlds-spanning conspiracy to topple an empire larger than the human imagination can contain.

 

Depois de A Súbita Aparição de Hope Arden, a autora já publicou um romance que me parece bastante diferente (mas apetecível) The End of the day onde explora a figura da morte. 84K será o título que tem planeado para 2018, centrado num auditor criminal, responsável por garantir que os culpados por um crime pagam a dívida na totalidade à sociedade.

Theo Miller knows the value of human life – to the very last penny.
Working in the Criminal Audit Office, he assesses each crime that crosses his desk and makes sure the correct debt to society is paid in full.
But when his ex-lover is killed, it’s different. This is one death he can’t let become merely an entry on a balance sheet.
Because when the richest in the world are getting away with murder, sometimes the numbers just don’t add up.

 

Cory Doctorow tem escrito vários livros distópicos envolvendo a tecnologia actual e a excessiva vigilância do estado. Um dos seus livros mais conhecidos é Little Brother (publicado por cá com o mesmo título pela Editorial Presença) onde se faz uma analogia a 1984, mas nos tempos modernos e contendo como jovens as principais personagens. Por sua vez, Charles Stross é conhecido por livros de ficção científica pura e dura, com uma grande pitada de humor (como The Atrocity Archives). Este humor não é característico apenas dos livros, verificando-se, também, nas apresentações que tive oportunidade de assistir do autor. Juntos, criam este livro que, pelo título e pela premissa, parece, no mínimo engraçado:

Welcome to the fractured future, at the dusk of the twenty-first century.

Earth has a population of roughly a billion hominids. For the most part, they are happy with their lot, living in a preserve at the bottom of a gravity well. Those who are unhappy have emigrated, joining one or another of the swarming densethinker clades that fog the inner solar system with a dust of molecular machinery so thick that it obscures the sun.

The splintery metaconsciousness of the solar-system has largely sworn off its pre-post-human cousins dirtside, but its minds sometimes wander… and when that happens, it casually spams Earth’s networks with plans for cataclysmically disruptive technologies that emulsify whole industries, cultures, and spiritual systems. A sane species would ignore these get-evolved-quick schemes, but there’s always someone who’ll take a bite from the forbidden apple.

So until the overminds bore of stirring Earth’s anthill, there’s Tech Jury Service: random humans, selected arbitrarily, charged with assessing dozens of new inventions and ruling on whether to let them loose. Young Huw, a technophobic, misanthropic Welshman, has been selected for the latest jury, a task he does his best to perform despite an itchy technovirus, the apathy of the proletariat, and a couple of truly awful moments on bathroom floors.

Mitologia Nórdica – Neil Gaiman

Eis um conjunto de histórias que gostei mas, tratando-se de Neil Gaiman, do qual esperava mais. Neil Gaiman é famoso por conseguir dar personalidade própria às suas personagens e fazer-nos sentir empatia por elas. E ainda que tal aconteça nalgumas destas pequenas histórias, senti-as demasiado simples e lineares, vazias de detalhes que poderiam conferir um maior envolvimento do leitor.

Neste conjunto Neil Gaiman expõe os mitos principais que envolvem Odin, Thor ou Loki, desde o início da humanidade, passando pelo desenvolvimento do seu paraíso e terminando com as profecias do fim do mundo que fazem parte da mitologia nórdica.

Pelo caminho encontramos os enredos que caracterizam Loki como trapaceiro e manhoso, um Deus sempre envolvido em confusões em que, mesmo quando tem boas intenções, acaba por causar mais mal do que bem; ou Thor como um guerreiro forte que resolve quase tudo recorrendo ao seu martelo de cabo tão curto que só pode ser usado por uma das mãos, enquanto as mulheres são secundárias (mantendo as versões originais), utilizadas como moeda de troca para resolver alguma contenda ou utilizadas como forma de picardia entre os Deuses.

Para além dos Deuses existem outras espécies poderosas em magia e capacidades que se encontram noutros reinos. São quase todas vistas negativamente ou com normas (ou falta delas) que as fazem parecer primitivas e violentas. Mas enfim, na sua maioria os Deuses nórdicos não são muito melhores (ou quaisquer outros Deuses de outras mitologias). São frequentes as vinganças ou os planos para enganar elementos das outras espécies, consideradas moralmente inferiores.

Em suma, Mitologia Nórdica é um curto conjunto de histórias mitológicas, onde Neil Gaiman parte dos mitos originais que tanto o fascinaram, para apresentar os Deuses nórdicos como personagens em episódios de valor moral questionável onde a demonstração de esperteza, com interpretações dúbias de pactos, são bastante comuns.

Mitologia Nórdica foi publicado pela Editorial Presença.

Metabarons Genesis: Castaka – Alejandro Jodorowsky e Das Pastoras

Nem todos os antepassados do Metabarão foram grandes guerreiros Castaka. Neste volume conta-se como os Castaka foram cruzados com uma tribo de piratas que aniquilou a totalidade da semente masculina dos Castaka, deixando, apenas um bebé, Dayal, resultado da mistura de ambos os povos.

A mãe de Dayal, a rainha Castaka terá sido raptada e violada por um chefe pirata. Por vingança os Castaka atacam e são assim contaminados com um poderoso produto que os torna estéreis. Dayal é o fruto desse cruzamento.

Os Castaka, sem outras possibilidades para se poderem perpetuar usam o jovem para fertilizar as jovens até à idade adulta, altura em que o Rei revelou a sua repulsa pelo jovem mestiço e o exilou. Treinado como um grande guerreiro e encurralado, irá juntar-se à filha do homem que o educou para formar a sua família.

A repulsa do Rei por Dayal continua a crescer e chega o dia em que decide aniquilá-lo e à família. Sabendo de antemão, estes escondem-se num esconderijo estanque do território de caça. Simultaneamente, o Rei Castaka hostiliza uma civilização de tecnologia bastante avançada que decide destruir o planeta. Como resultado salva-se apenas o componente estanque onde se encontra Dayal e a restante família. A partir daqui segue-se a história de como esta pequena família enriquece e acede a tecnologia bastante avançada, lançando assim as sementes para o Metabarão que já conhecemos.

Esta história possui os elementos clássicos da restante saga Metabarão, com lutas honradas e desonradas, carregadas de sangue e pedaços de corpos, onde não falta a nudez e a sexualidade em bruto, mais como forma de perpetuar uma herança do que como forma de prazer. Os guerreiros que a família enfrenta são impiedosos e convencidos das suas capacidades, não esperando que as jovens sejam capazes de grandes feitos.

Outros volumes dos autores

Killer of Demons – Yost e Wegener

Um anjo que sussurra no ouvido, instigando a matar as pessoas que rodeiam quem o ouve, dizendo que se tratam de demónios. Parece a história de mais um assassino em série, um louco violento internado no hospício – só que neste caso até é verdade e cabe a Dave assumir a matança dos demónios que encontra.

O problema começa logo no local de trabalho – Dave trabalha numa grande empresa envolvida em produzir publicidade para a venda de tabaco e os colegas pouco escrupulosos que o rodeiam têm todos um par de chifres na cabeça, indicando tratarem-se de demónios. Ao invés de se preocuparem em trabalhar, as ideias discorrem em bares de striptease, e dá-se maior valor ao relacionamento pouco moral com os chefes do que à qualidade do trabalho.

Instigado pelo anjo, Dave perpetua pequenas chacinas, um pequeno café aqui, uma empregada de bar acolá, pequenos massacres que alertam as autoridades mas que demoram pouco tempo e que consegue esconder facilmente, até da esposa, uma polícia que investiga as mortes, e do irmão que é agente do FBI e que navega nos jogos de computador online para caçar pedófilos.

Assediado pelo diabo, provocado por agentes humanos do inferno que pretendem eliminá-lo, Dave julga-se, até, maluco e interna-se num hospício. Estadia de pouca dura, já que ao vislumbrar, também naquela instituição, demónios de todo o mundo, Dave escala a violência.

Divertido, com uma pitada de tom crítico em relação às empresas de moral duvidosa, Killer of demons é uma leitura movimentada que não se leva a sério. O aspecto gráfico não é muito cuidado, mas relaxado e de acordo com o tom da narrativa. Em suma, uma leitura engraçada que distrai mas que não roça o excelente.

Evento: Apresentação Os Monstros que nos Habitam

Os Monstros que nos Habitam é uma antologia de contos sobrenaturais lançada pela Editorial Divergência. O lançamento ocorreu há uns meses na fabulosa Biblioteca de São Lázaro em Lisboa, com presença de alguns dos autores que assinaram os exemplares.

A antologia será apresenta na Biblioteca de Arruda-dos-vinhos, no dia 23 de Setembro, enquadrando-se esta apresentação na comemoração do 28º aniversário da Biblioteca Municipal Irene Lisboa. Podem consultar mais detalhes sobre o evento na página oficial da editora.