Rosa Montero – Lágrimas na Chuva

Talvez por causa do título, não reparei neste livro de ficção científica quando foi lançado. Não tivesse tido uma recomendação do João Barreiros aquando do lançamento de O Peso do Coração e não teria olhado duas vezes para nenhuma das obras de Rosa Montero. Aliás, a autora esteve recentemente em Portugal sem que tivesse dado por isso – não me recordo (pode ser um problema da minha memória) de ter visto qualquer menção entre blogues ou grupos de ficção científica.

E porquê o meu espanto? Bem, este é dos melhores livros de ficção científica que li recentemente. Passado no futuro e apresentando uma história rica em detalhes que explica a evolução dos seres humanos entre os dias de hoje e o ano de 2109, Lágrimas na chuva centra-se numa rep, uma humana artificial que é detective.

Rapidamente se vê no centro de uma grande manobra para ostracizar os reps, começando com uma tentativa de assassinato. A partir daqui é contratada para investigar a origem das memórias danificadas que provocam surtos de violência nos reps em que são introduzidos.

Entre a investigação conhecemos detalhes do Arquivo central dos Estados Unidos da Terra onde se explica a origem dos reps, a forma  como se libertaram da escravidão para a qual foram criados, a fundação de, pelo menos, duas colónias satélite com terrestres, e o encontro com outras espécies alienígena que deambulam na Terra.

Com todo este detalhe, importante na história e não apenas mero elemento decorativo, a história centra-se em Bruna, a rep detective. Os reps nascem com cerca de 25 anos biológicos, com um conjunto de falsas memórias que têm como objectivo dar-lhes um contexto, a ideia de uma família e de carinho, bases para uma personalidade própria e única. A vida de um rep é curta, não chegando a uma década.

A conspiração que Bruna encontra é contra os reps. Uma conspiração em larga escala que pretende erradicar estes seres humanos fabricados, em que a introdução de memórias danificadas em alguns reps induz comportamentos altamente violentos que, por sua vez, justificam a expressão dos discursos de ódio acumulados durante anos. Gradualmente, parecem legitimar-se as acções violentas e abertamente discriminatórias.

«-Incomoda-te saber que estamos fartos de vos aturar? Que não vamos deixar que continuem a abusar de nós? E, além disso, o que fazes tu aqui? Não te deste conta de que és o único monstro? (…)

Sim, definitivamente, o mais inquietante era que um tipo daqueles se sentisse suficientemente seguro e apoiado para insultar alguém como ela. »

Numa sociedade em que até o ar puro é pago e muitos humanos são obrigados a viver em zonas poluídas e marginais, expulsos por não serem capaz de pagar os elevados impostos de zonas melhores, a existência de reps bem sucedidos torna-se uma afronta, um bode expiatório para as desgraças pessoais.

Demasiado semelhantes aos restantes seres humanos, mas visivelmente diferentes (olhos de gato, óptimos para visão nocturna, e melhores reflexos, entre outros), com uma esperança de vida muito reduzida, os reps são suficientemente humanos para se sentirem isolados, e até falsos por conta das memórias que sabem fabricadas.

Coeso, Lágrimas na Chuva apresenta uma sociedade lógica, derivada dos acontecimentos do último século em que cada um dos elementos que possui está devidamente integrado na história e nas personagens. A história centra-se numa única personagem mas nem por isso fornece uma visão afunilada e não parece ter episódios desnecessários ou em excesso. Por tudo isto, Lágrimas na chuva é uma das melhores leituras dos últimos tempos.

Lágrimas na chuva foi publicado em Portugal pela Porto Editora.

4 pensamentos sobre “Rosa Montero – Lágrimas na Chuva

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