O Baile e Deixa-me entrar – Joana Afonso

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Terá sido com O Baile que primeiro ouvi falar no nome de Joana Afonso, como a ilustradora do album vencedor do prémio Amadora BD de 2013. Mais recentemente, em 2014, no mesmo evento, lançou Deixa-me entrar, agora a solo. Em ambos é visível o mesmo traço, o mesmo estilo, ainda que se distingam pela cor e temática.

No primeiro explora-se o interior de Portugal durante a ditadura, um país fechado e supersticioso, de gente calada como quem sabe mais do que diz, mas que não se atreve a abrir a boca. Ainda para mais em frente a um inspector da PIDE, pessoa da cidade pouco acostumada ao ambiente rural.

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É assim que nada prepara o jovem inspector para o pesadelo sobrenatural que o espera, em que durante a noite seres se erguem do mar, para consigo levarem os que neles se transformam. A causa apontada é uma rapariga, dada como bruxa ou feiticeira, mas que o inspector na sua incredibilidade acaba por proteger.

História engraçada e interessante, uma crítica não muito súbtil aos poderes vigentes na época – entre o estado e a igreja, as populações incultas seguem o que se lhes diz, nem sempre com os resultados esperados.

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Também de enredo português, a história de Deixa-me entrar é mais simples. Mais história de pessoas do que de costumes ou sociedades, desenrola-se em torno de um homem sem ligações afectivas que se hospeda numa pequena pensão. Na sequência de uma inundação é convidado a permanecer num quarto melhor, dentro do que será o núcleo mais pessoal da dona da pensão.

Sem surpresa, a proximidade espacial resulta também em proximidade quotidiana, e entre a partilha de refeições e dos serões à televisão, acaba por se estabelecer um previsível ritual caseiro entre a dona da pensão e o homem que, pouco habituado a tais familiaridades, se começa a sentir estranho.

Bastante focado no que se pretende transmitir, o estilo de Joana Afonso, sem ser dos meus favoritos, enquadra-se bem às duas histórias. Na primeira, mais interessante em relato e conteúdo, o estilo ajuda a transmitir a estranheza do pesadelo em curso. Já na segunda, mais simples, os desenhos caricatos fazem-nos criar empatia para com as personagens.

Mas se o estilo é bastante semelhante nos dois volumes, já a narrativa difere bastante. A primeira, mais densa em história e mensagem é bastante mais coesa. Já em Deixa-me entrar, achei o desenlace algo tosco e forçado, que resulta numa história engraçada mas previsível.

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