
Um homem acorda, nú, jovem e saudável entre outros seres humanos adormecidos na mesma condição física, quando, momentos antes, estava velho, numa cama, à beira da morte. Dos que o rodeiam, é o único consciente, visualizando alguns corpos ainda em estado inacabado. O que se sucede é o início de um estranho estado – todos são depositados num local desconhecido, bastante diferente das paisagens terrestres que conhece.
Quando todos acordam percebe-se que não provém todos da mesma época, civilização ou credo existindo, até um alienígena entre eles. A combinação de local paradisíaco (sem chamas infernais) e a ausência de roupa confundem os religiosos puritanos que associavam a nudez ao inferno, não conseguindo perceber se encontraram, por fim, a existência pós-vida.

Sir Richard Francis Burton, a personagem principal inspirada num controverso escritor do século XIX, é um homem inteligente e prático que rapidamente antevê as primeiras reacções humanas – esperando o pior de todos, consegue garantir a sua sobrevivência e daqueles que o seguem, estabelecendo um pequeno acampamento.
Esta nossa personagem não acredita prontamente no conceito de paraíso, estranhando tanto a forma como foram colocadas neste local, como o aparecimento regular de mantimentos, drogas e algumas roupas. Curioso, decide-se a partir com o seu grupo em exploração, ao longo do grande rio que parece atravessar todo o planeta. Pelo caminho encontram algumas sociedades mais organizadas, assentes sobretudo na violência e na escravidão, que irão capturá-los e separá-los.

Personagem curiosa, de mente flexível e explorador por natureza, inteligente mas conhecido pelo seu anti-semitismo, Burton inicia uma longa missão com o objectivo de compreender a confusão pouco paradisíaca que o rodeia, e o intuito dos constructores do Riverworld.

Questionando as várias crenças humanas numa existência pós-vida e misturando tecnologia bastante avançada com alienígenas, a história explora também as possíveis interacções entre culturas distantes que, neste contexto, têm oportunidade de trocar impressões, ideias e costumes.
Este contexto permite, não só interacções curiosas entre as diferentes culturas mas, também, interacções entre pessoas de diferentes locais e épocas. Neste primeiro volume destaca-se Burton, bem como Alice Hargreaves e Hermann Goring, sendo que estas duas personagens demonstram ter pouca flexibilidade e evolução mental, características que poderão estar relacionadas com as capacidades únicas de Burton que o tornam uma entidade especial neste mundo.

Apesar da história se encontrar carregada de violência (há que perceber que estas circunstâncias geram medo, pânico e consequentemente violência num contexto onde não existe ainda uma estrutura social) não deixa de parte o lado inventivo da espécie humana, capaz de recorrer aos mais diversos elementos para construir o que necessita para sobreviver.
Série vencedora do prémio Hugo e nomeada para o prémio Locus, destaca-se pela crítica religiosa, pela originalidade e pela forma como explora o mundo que criou, apesar de se centrar (neste primeiro volume) numa só personagem. Em Portugal To Your Scattered Bodies Go foi publicado na colecção Argonauta como Mundo sem Morte.
