Retrospectiva 2016 – O Rascunhos

2016 no Rascunhos

Ultrapassadas todas as perspectivas de leitura, com 267 livros lidos, este ano não só consegui ler em espanhol, como em francês (coisa pouca, banda desenhada, mas tem de se começar por algum lado). As parcerias aumentaram, ainda que tal não se tenha traduzido num aumento de livros recebidos por ter investido em áreas não relacionadas com estas parcerias. Neste seguimento, para além da usual participação nas sugestões literárias do Fórum Fantástico, ainda estive na Eurocon Barcelona a apresentar a Ficção Especulativa portuguesa, mais especificamente sobre o que era publicado actualmente pelas grandes editoras.

As visualizações aumentaram, com cerca de 44 000, a página facebook continua a crescer, lentamente, mas o inesperado acontece com novas subscrições diárias directamente por e-mail. Notou-se um grande aumento na leitura dos artigos sobre livros do Plano nacional de Leitura, Aventuras de João sem Medo de José Gomes Ferreira a liderar com quase 2500 visualizações, seguido de perto por As Cruzadas Vistas pelos árabes de Amin Maalouf O Japão é um Lugar estranho de Peter Carey com cerca de 2200. A surpresa deste ano está associada ao Destaque para a Colecção Admiráveis Mundos da Ficção Científica que atingiu as 1000 visualizações (visualizações directas que as que são feitas na página inicial não são contabilizadas)

As melhores leituras

Dado o volume de leituras que corresponde a banda desenhada, este ano vou separar a banda desenhada numa entrada própria que será lançada durante a semana.

dark-tales

– Melhor colectânea – Dark Tales de Shirley Jackson – Se Sempre Vivemos no Castelo é uma história sombria repleta de tiques neuróticos de ambiente gélido que apela ao eterno sentimento do perseguido, The Lottery é o primeiro conto curto da autora que me deu a conhecer a mestria em formato mais curto de apresentar uma forte distopia e brutal, capaz de fazer desaparecer qualquer resto de fé na humanidade. O que encontrei em Dark Tales foi algo semelhante, contos aparentemente banais, quase quotidianos, não fosse revelaram-se autênticas peças de horror em tom pausado e medido, onde o que acontece pode, muitas vezes, ser perspectivado mas nem por isso deixa de ser menos brutal para o leitor;

sandkings

Melhor ficção curta – Sandkings de George R. R. Martin – A novela pertence a uma antologia com o mesmo nome e encontra-se publicado em português no livro O Cavaleiro de Westeros & Outras Histórias. A história centra-se num homem poderoso e exibicionista que gosta de adquirir espécimes raros, de preferência alienígenas, para os poder mostrar aos amigos em grandes festas. A mais recente aquisição é um pequeno mundo fechado em vidro onde quatro comunidades se desenvolvem. À primeira vista são semelhantes a formigas, mas capazes de empatia com o seu dono, desenvolvem guerras e estratégias enquanto criam cidades cada vez mais complexas, competitivas e ávidas de novos territórios. A colectânea possui outros bons contos que oscilam entre a ficção científica e a fantasia onde o autor explora os seus típicos finais esmagadores;

Emphyrio_9

– Melhor Ficção Científica – Emphyrio – Jack Vance – Apesar da extensa tecnologia, o mundo que se nos apresenta vive numa sociedade quase medieval onde se dá primazia extrema ao trabalho manual. Esta obsessão é de tal forma, que se torna uma sociedade distópica em que qualquer mecanismo ou automatismo é severamente penalizado. Quando finalmente consegue deixar o planeta, o jovem personagem descobre que este estado de existência quase feudal é perpetuado por interesses económicos para que noutros mundos os produtos aí produzidos sejam pagos a preços exorbitantes. Paralelismo com a exploração capitalista do terceiro mundo, apresenta a revolução contra uma distopia através da memória de um herói há muito caído;

dois anos

Melhor fantasiaDois anos, oito meses e vinte e oito dias – Salman Rushdie – Quando a magia volta a verter para o nosso mundo, provinda da realidade dos génios (gimnis) os descendentes de Sherazade (que afinal era uma e bastante poderosa) começam a apresentar uma série de capacidades estranhas e nem sempre com utilidade. Ao longo da história vão-se conhecendo os vários descendentes que agora habitam pelo mundo inteiro e fazendo cruzar as suas histórias;

santuário

– Melhor horror – Santuário – Andrew Michael HurleyNão há nenhuma acção que seja surpresa. Tudo o que presenciamos é antecipado páginas antes, gerando uma expectativa que transforma o desenrolar dos acontecimentos num ambiente sombrio de horror permanente, mais psicológico e interior. Lentamente os vários episódios, que decorrem em ambiente rural, entre a hostilidade fechada dos locais, a superstição e a religiosidade extrema, vão-se encaixando num final agridoce;

bibliotecas

– Melhor não ficção – Bibliotecas cheias de fantasmas – Jacques Bonnet – Livros sobre livros são sempre uma boa opção mas neste caso o autor consegue expressar toda a sua paixão por livros e bibliotecas. Passando por modos de organização e aquisição, o autor disserta sobre algumas obras que entraram para a minha lista de aquisições futuras e será, sem dúvida, um livro para rever;

Casos do direito galáctico e outros textos esquecidos

– Melhor livro de autor nacionalCasos de direito Galáctico e outros textos esquecidos – Mário-Henrique Leiria – Reunindo outros trabalhos do autor para além daquele que lhe dá o título, destaca-se na apresentação de vários casos de conflito legal entre diferentes espécies alienígenas em dissertações de lógica tão alienígena quanto os seres envolvidos, numa espécie de sátira, uma caricatura ao sistema legal.

Outras menções honrosas:

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  • Ficção científicaThe atrocity archives de Charles Stross surpreendeu pelo bom humor, com uma série de personagens geeks num universo onde é possível existirem possessões através da electricidade, e um pedaço de código pode originar um apocalipse. Não bastasse tudo isto, de outras realidades paralelas, abrem-se buracos e erguem-se tentáculos que raptam quem perto deles estiver. Por sua vez, To Your Scattered Bodies Go de Philip José Farmer apresenta um conceito interessante. Um homem que já teria morrido acorda, nú, percebendo que ao seu lado outros corpos são reconstruídos. Todos são deitados num planeta selvagem onde tentam sobreviver e lutar pelos recursos que encontram. Por último, Kallocaína de Karen Boye apresenta uma distopia típica de contornos militarizados que une os cidadãos convencendo-os de um inimigo comum. É nesta sociedade que se inventa uma droga capaz de fazer revelar os sentimentos mais íntimos de qualquer ser humano;

KALLOCAÍNA

negocio-dos-livros

 

 

 

 

 

  • Não ficção – O Negócio dos livros de André Schiffrin apresenta a evolução da indústria livreira ao longo de décadas. Tendo o pai fundado uma editora acompanhou de perto como se desenrolava o negócio dos livros, e, mais tarde, fazendo parte de uma editora assistiu à forma como foi implementado um novo modelo que dá primazia às modas e aos sucessos rápidos, ao invés da qualidade do que é publicado;

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  • Fantasia – O Livro de Zoran Zivkovic torna o livro consciente, uma personagem feminina que se sente mal tratada por leitores incivilizados, tece uma crítica ao negócio editorial numa sátira sobre prémios, fabrico de autores, construção de capas e títulos e publicidade. Bastante diferente do usual, Thimblestar de Westley centra-se numa pequena fada que parte em demanda para bem de toda a família passando por episódios desafiantes com diálogos shakesperianos. Finalmente, O Gigante Enterrado de Kazuo Ishiguro contém uma história extremamente emotiva de um casal que parte em busca do filho, numa névoa de esquecimento que atinge aquele território, causada por um dragão idoso, num contexto arturiano, melancólico e metafórico;

gigante

ensaio sobre a cegueira

 

 

 

 

 

  • Nacional – Eu sei que colocar Ensaio sobre a cegueira de José Saramago nas menções honrosas e não no topo vai ser considerado crime por alguns. Apesar de ter gostado imenso do livro do autor galardoado com o Nobel, o de Mário-Henrique Leiria faz mais o meu género. Ainda assim, esta ficção apocalíptica com forte peso metafórico lê-se de um trago e consegue ser bastante mais poderoso que o filme.

Melhores leituras de anos anteriores

2015

2014

2011

2010

2009

2008

2007

2006

7 pensamentos sobre “Retrospectiva 2016 – O Rascunhos

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