A doença, o sofrimento e a morte entram num bar – Ricardo Araújo Pereira

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Ainda que não seja o primeiro livro de Ricardo Araújo Pereira, é o primeiro que li do humorista. Apesar de sentir curiosidade pelo que escreve o humorista que costuma ter umas tiradas inteligentes, foi sobretudo o título que me captou o interesse. O que encontrei foi um pequeno livro de dissertações que fala sobre o conceito de comédia e as ferramenta que podem ser usadas, tecendo paralelismo entre obras e referências culturas e cruzando, por vezes, ditados e expressões para associar estas noções ao senso comum.

Sendo uma abordagem inteligente e que conseguirá captar a maioria dos leitores, nem sempre funcionou comigo. O chamado senso comum está carregado de ideias erróneas que facilmente podem ser usadas para suportar, de forma falaciosa, qualquer ideia ou teoria.

Talvez as pessoas que fazem do humor uma segunda natureza sejam mais frágeis do que as outras, tenham mais dificuldade em lidar com a aspereza do mundo. Por isso, inventamos um estratagema que lhes permite assistir à vida a partir de um refúgio, observar as suas próprias desgraçadas como se elas acontecessem a uma representação de si mesmas, enquanto permanecem num plano de realidade diferente, a uma distância cuidadosa das coisas – demasiado duras para serem experimentadas directamente, sem um filtro que se interponha entre elas e o coração.

Ainda assim, o livro possui pensamentos interessantes, alguns deles frontalmente retirados (e referenciados) de outros autores, interligando-os com obras e exemplos específicos em que determinado tipo de humor é usado. Seja como forma de protecção ou de superioridade, como alienação ou como tentativa de definir familiaridade, o humor pode ser repetição inesperada, silêncio, atitude, ou situação. O humor pode não ser propositado, pode ser simplesmente uma opinião que, expressa e lida (ouvida) por determinada pessoa em determinado contexto, apresentar relevância ou perspectiva diferente.

Um dia, alguém censurou Aristipo de Cirene por repelir o próprio filho. Disseram que o tratava como se não tivesse sido ele a gerá-lo. O filósofo respondeu que também gerava expectoração e, sendo ela inútil, a repelia igualmente para o mais longe possível. (…) (Ogden Nash) escreveu um poema sobre as pessoas que, pelo simples facto de terem gerado uma criaturinha, passam a considerar-se admiráveis. Se isso é verdade, argumenta Nash com rima e graça, uma simples mosca é vários milhões de vezes mais admirável.

Entre referências bibliográficas e exemplos por si cómicos, Ricardo Araújo Pereira demonstra as várias técnicas usadas para o humor em pequenos textos que espelham cultura e bom humor inteligente. O resultado é um livro engraçado, mas demasiado curto, uma reunião de diferentes textos sobre o assunto que se complementam e apresentam uma boa introdução sobre o tema do humor.

A doença, o sofrimento e a morte entram num bar foi publicado pela Tinta da China.

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