Eis o mais recente livro de T. Kingfisher! Com título promissor e sinopse curiosa, conhecendo bastantes outros livros da autora, posso dizer que havia alguma expectativa. Infelizmente, não se tornou num dos meus favoritos.

A progressão de um autor nem sempre é constante e coerente. T. Kingfisher tem histórias fantásticas excelentes, numa forma que julgava ser impossível. Isto porque não cria grandes mundos fantásticos carregados de elementos impossíveis e surpreendentes, mas porque costuma pontuar os elementos criativos de forma a terem mais impacto e significado, com coerência e contenção. Não que este livro abuse desta componente mágica. Não é neste ponto que não convence.

Mas comecemos por falar da história. Sam (ou Samantha) retorna à casa materna entre trabalhos. A sua área de estudo, uma mistura de entomologia com arqueologia, não apresenta um fluxo constante de trabalho e salário. Apesar da breve conversa com o irmão sobre a mãe, que refere estar a passar-se algo estranho, nada prepara Sam para o que encontra – a casa parece ter retornado à decoração mais sóbria da avó, onde se pode encontrar uma decoração mais… polémica (ou até, racista).

Ainda que esta alteração visual pareça estranha, os abutres que vigiam a casa, e os pequenos fenómenos e coincidências são os elementos que fazem Samantha acreditar que se passa algo de estranho – algo a que o seu cérebro altamente lógico resiste.

Quer a alteração de decoração, quer alguns fenómenos, levam Samantha a investigar o passado da sua família, descobrindo alguns episódios bizarros, ligados a magia ou feitiçaria. Que a avó era estranha, ela já sabia, mas que tais episódios tivessem existido, desconhecia.

A história roda, não só em torno dos estranhos acontecimentos naquela casa, mas também em torno de relacionamentos familiares e de como estes podem ser traumáticos no crescimento. A avó era nitidamente alguém muito estranho e controlador, alguém que procurava normalidade e perfeição absolutas nos seus descendentes. Mas ninguém é perfeito e, claro, Samantha também não.

Em A House with Good Bones, a autora parece tentada a testar os seus limites ou a alterar o seu foco. Por um lado, os elementos mágicos ou sobrenaturais que usa são diferentes, deixando-os coexistir num final semi aberto e ligeiramente desconfortável ou inquietante (como as boas histórias de horror). Não conseguimos ter um padrão óbvio sobre a magia usada, nem uma coerência lógica como noutras histórias da autora. Há detalhes que ficam por perceber e enquadrar, apesar da explicação tangencial. Mas, novamente, não foi na aplicação da magia ou dos elementos sobrenaturais que o livro não me convenceu totalmente.

Como outras personagens da autora, Samantha não é perfeita. Mas esta falta de perfeição, não sendo sempre aceite pela própria personagem, costuma ser mais coerente com a personalidade da personagem. De alguma forma, com Samantha, a auto-perceção e a forma como aborda as suas próprias imperfeições nem sempre me pareceu convincente. Por um lado parece aceitar-se e afirmar-se, por outro, parece ter um discurso totalmente oposto, sem que pareça existir algo que o justifique.

Samantha é uma personagem gorda, ou seja, tal como outras personagens de T. Kingfisher, foge a alguns padrões. Mas parece existir algum desconforto nesta caracterização. A personagem fala do preconceito na abordagem médica, mas de alguma forma o discurso parece retirado de outro contexto e colado aqui, aparecendo num momento específico durante uma descrição demasiado exaustiva, ao invés de pontuada e espalhada.

Esta forma de representar a personagem pareceu-me algo incoerente, não me soando legítimo. A mesma questão já tinha percepcionado com personagens gay noutros seus livros, em que a autora parece conter-se na caracterização, dizendo mais do que mostra, o que lhe não é usual noutras histórias e com outras personagens.

Este foi, sem dúvida, um dos elementos principais para não me ter envolvido tanto com a história. O outro foi, decerto, a existência de alguns comportamentos incoerentes nas personagens. A mãe parece ter receio de que algo possa fazer mal à filha, mas parece demorar demasiado tempo a fazer algo. Algumas das outras personagens demonstram-se demasiado complacentes e afastadas.

Não é, sem dúvida, um mau livro. É antes uma história pela qual tinha uma grande expectativa, sobretudo depois de ter colocado algumas das histórias da autora como das melhores que já li.