Os Engonços da Quionga / A loja do desejo agridoce – Rhys Hughes

Ainda que a maioria dos contos da antologia Winepunk sejam de autoria nacional, existem dois de Rhys Hughes que decorrem no mesmo Universo. Na primeira história um estrangeiro explora as origens da sua estranha casa, percebendo que a casa viajou vários milhares de quilómetros. No segundo conto parte este mesmo estrangeiro para salvar uma donzela, utilizando-se elementos narrativos criados no primeiro conto.

Quem conhece o autor percebe o seu fascínio por culturas não ocidentais. Não é, assim, de estranhar, que o autor tenha situado os dois contos em África, começando com os conflitos armados que aí decorriam. Nostálgicos pela terra natal e sem querer largar as suas casas, seguem um inventor louco que cria um mecanismo capaz de viajar longas distâncias, transportando, numa plataforma, todas as casas de quem deseja regressar. A convivência permanente dos viajantes e os trios amorosos resultam em conflitos difíceis de resolver. Os viajantes acabam por se separar de forma inesperada.

Num segundo conto, o mesmo estrangeiro explora as lojas locais e encontra uma de desejos agridoce onde se fala de árvores de bochechas e outros eventos improváveis. A compra de uma poção leva-o à praia, onde encontra uma garrafa com uma mensagem de socorro. Ainda sob o efeito da poção, o estrangeiro parte para salvar uma donzela, sem saber que será uma viagem de reviravoltas inesperadas.

Ainda que as duas histórias possuam um ambiente algo diferente do resto da antologia, são dois contos imaginativos e fantásticos, de leitura divertida pela forma como jogam com ideias mirabolantes.

Outros contos da antologia Winepunk

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As melhores leituras de 2018 – Banda desenhada

À semelhança do que fiz com as restantes leituras de 2018, eis uma listagem dos melhores livros de banda desenhada que tive oportunidade de ler este ano! Entre os 220 livros que li em 2018 entre 2/3 e 3/4 é de banda desenhada, pelo que muitos livros excelentes terão de ficar de fora! Irei começar com as melhores leituras nacionais!

Obras portuguesas

Melhor banda desenhada de ficção científica

 

 

 

 

 

 

 

A escolha de um destes estava tão difícil que optei por seleccionar ambos. Ambos são bastante irónicos na forma como abordam as transformações em curso na nossa sociedade. No caso de Futuroscópio de Miguel Montenegro encontramos vários contos que abordam aspectos diferentes, exagerados, levados ao extremo, numa caricatura aos movimentos sociais. O futuro não é risonho, apesar de haver uma aparente felicidade dos cidadãos (da ignorância vem a felicidade) – é um beco sem saída sem evolução, uma regressão da humanidade que deixa, como legado, a tecnologia avançada, mas que não poderia ser criada pelos humanos que com ela coexistem.

Já em Watchers de Luís Louro seguimos, numa realidade futura, um grupo de jovens denominados watchers que usam a tecnologia para criar canais que expõem o mundo que os rodeia. Sem filtros, sem análises nem contextos, as filmagens são divulgadas para todos os que as quiserem ver. Começando com episódios fofinhos e caricatos, a busca de mais seguidores e de mais reacções nas redes sociais depressa leva a que sejam filmadas situações mais inusitadas, ridículas, perigosas e violentas. Até onde se vai pela busca de seguidores?

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Futuroscópio – Miguel Montenegro;

Watchers – Luís Louro. 

Melhor banda desenhada de fantasia – Zahna – Joana Afonso

Zahna possui o estilo característico de Joana Afonso, um estilo que se destaca na transmissão de emoções e sentimentos e que conferem traços de caricatura às suas personagens. A protagonista é uma mulher guerreira, rabugenta mas leal às suas responsabilidades, que se vê literalmente com uma maldição sob a cabeça! Leitura divertida, Zahna deturpa ligeiramente os clichés da fantasia para apresentar uma história engraçada.

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Melhor banda desenhada cómica – Conversas com os putos e os pais deles – Álvaro

À semelhança do volume anterior, Álvaro reúne neste Conversas com os putos e com os pais deles, uma série de conversas com os seus alunos e os respectivos pais. Se as conversas com os jovens se encontram entre o absurdo e o quase impossível de tao idiotas, as conversas com os seus pais ainda são piores.

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Melhor narrativa de ficção – Olimpo Tropical – André Diniz e Laudo Ferreira

Quem é o vilão? O traficante ou a polícia corrupta? Em Olimpo Tropical retrata-se a realidade da favela onde os estudos são largados cedo por falta de sucesso, a favor das ocupações de mais fácil dinheiro, quase sempre relacionadas com o tráfego de droga e a criminalidade. Quem manda é quem se mostra mais destemido, quase louco, na sua capacidade de se fazer temer pelos outros. Visualmente expressivo, exagerado em expressões e traços físicos, Olimpo Tropical é um trabalho excelente que é capaz de cativar o leitor, fazendo-nos perceber a realidade inevitável das favelas que engole os seus moradores num ciclo interminável – quem tenta arranjar um emprego fora da favela é descriminado ou ganha tão pouco que se torna impossível sustentar uma família.

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Obras de autores estrangeiros

Melhor banda desenhada de super-herói – Ms. Marvel – G. Willow Wilson e Adrian Alphona

Ms. Marvel não é uma heroína comum – muçulmana, distingue-se fisicamente do aspecto tradicional das heroínas enquanto altas e louras; e culturalmente pelas suas origens pouco ocidentais. O resultado é uma heroína que se preocupa com os comuns cidadãos e que apresenta conflitos pessoais diferentes do que é habitual. Este volume apresenta como surgiu Ms.Marvel, dando grande foco à componente pessoal, ainda que não faltem os característicos episódios de acção.

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Menção honrosa – Michael Chabon’s The Escapists

No seguimento de uma tradição ficcional de livros sobre livros que não existem, a história centra-se num rapaz fascinado pelos livros de banda desenhada do falecido pai. Estes livros de banda desenhada centravam-se num herói há muito esquecido que o jovem tenta recuperar. Para tal compra os direitos do super-herói e tenta montar uma pequena gráfica para produzir novas aventuras!

A história vai intercalando episódios da vida deste rapaz, com episódios da velha banda desenhada e episódios da nova. São três histórias que ecoam umas nas outras, enquanto a ficção se imiscui na realidade, e a realidade se traduz numa nova ficção, sendo que o próprio autor entra neste jogo e constrói uma excelente homenagem ao livro de Michael Chabon.

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Menção honrosa – Batman – O príncipe das trevas – Marini

O príncipe encantado das trevas alterna o foco entre dois casais peculiares – o de Batman com a Catwoman, e o de Joker com Harley Quinn, mostrando dois relacionamentos disfuncionais, cada um da sua forma. Lançado em dois volumes de formato maior do que é habitual, esta história destaca-se pelo belíssimo aspecto gráfico, em que Marini é narrador e desenhador. A linha narrativa tem vários pontos previsíveis com vários clichés, mas a leitura consegue captar o leitor e dar-nos a sensação final de termos assistido a um filme.

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Melhor adaptação – Afirma Pereira – Pierre-Henry Gomont

Afirma Pereira é o despertar da consciência política de um homem que, até então tinha vivido demasiado voltado para si mesmo e preso no passado. Neste acordar, quase forçado por novas empatias, não se consegue remediar totalmente pela anterior apatia, mas tenta, enfrentando as consequências. Depois de anos preso às memórias de um passado distante, Pereira começa a reconhecer as pequenas notas políticas no que o rodeia, tanto no jornal, como nas ruas em que dantes passava como inocente. Reconhece, também, que o enfrentar desta situação tem um custo elevado.

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Menção honrosa – O jogador de xadrez – David Sala

O tema da história é simples e roda em torno de um jogador de xadrez. Mas se esperamos que a história se centre no maior jogador de xadrez, um imbatível mas inculto jovem que vence qualquer jogo, somos rapidamente desenganados. No barco em que viaja encontram-se vários homens curiosos pela presença do campeão, não sendo, assim, de estranhar, que organizem um jogo de xadrez em que todos, em conjunto, enfrentam o campeão.

Após as primeiras jogadas, destaca-se, entre o grupo de amadores, um homem cujo intelecto parece competir com o do campeão, referindo jogadas que deixam o campeão surpreso. Este homem misterioso não só esconde um enorme talento no xadrez, como um passado pesado que liga a prática xadrez a eventos psicologicamente marcantes. Utilizando elementos artísticos de pintores famosos do fim do século XIX ou início do XX (que a sinopse da editora identifica como Klimt ou Schiele) a história é tudo menos linear ou, até, aborrecida. A tensão que se cria ao longo do jogo de xadrez transporta o jogo para outra dimensão e o foco deixa de estar nas jogadas, confrontando-se a curta história do campeão, com a traumática história de um anónimo que se lhe iguala.

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Melhor banda desenhada história – O Comboio dos órfãos – Vol.2 – Philippe Charlot e Xavier Fourquemin

Esta série centra-se nas crianças que foram deslocadas das grandes cidades para serem adoptadas ao longo dos Estados Unidos, nos anos 20. Mas nem todos os que recebem estas crianças têm boas intenções, e algumas crianças são usadas como trabalhadores, ou são levadas a casar prematuramente. Para além do bom aspecto visual, a série destaca-se por conseguir apresentar uma situação trágica mas, ao mesmo tempo, dar-lhe pequenos detalhes cómicos entre os diálogos infantis. Esta mistura resulta numa excelente leitura – uma das favoritas de 2019.

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Menção honrosa – Marcha para a morte – Shigeru Mizuki

Marcha para a Morte é um livro sobre a Guerra. Mas acima de tudo, um livro que nos mostra o quão absurda é a guerra, desperdiçando a vida dos soldados por estratégias mal definidas, levando adolescentes imberbes a enfrentar outros imberbes adolescentes, uma constante falta de consideração pela vida – e para quê? Aproveitando a sua própria experiência na guerra, Mizuki traça um retrato crítico, de elevada tensão, onde os momentos trágicos são acompanhados por tiradas de humor negro que dão nova perspectiva aos acontecimentos.

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Melhor banda desenhada de ficção científica – Descender – Jeff Lemire e Dustin Nguyen

Existem várias séries de ficção científica e fantasia em curso, publicadas principalmente pela Image mas Descender continua a ser, para mim, uma das melhores. Por um lado, a temática corresponde ao meu género favorito (a ficção científica) mostrando um Rise of the machines num futuro distante. Por outro, a história consegue a proeza de mostrar várias linhas narrativas que se vão cruzando e dando diferentes pontos de vista aos acontecimentos. Por último, o estilo gráfico de Dustin Nguyen adequa-se totalmente à história e torna as páginas fascinantes.

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Menção honrosa – Imperatriz – Vol.1 – Mark Millar e Stuart Immonen

Visualmente fabuloso, este Imperatriz parecia, nas primeiras páginas, trazer uma história quase cliché, com a mulher de um homem poderoso mas violento, a fugir pela galáxia com os filhos. Toda a história nos leva a pensar numa determinada situação passada que não se verifica acabando por nos surpeender. Do ponto de vista gráfico, os autores aproveitam a possível diversidade de planetas para contrastar cidades sobrepopuladas e futuristas com desertos gelados e desolados. O resultado é movimentado e visualmente fabuloso!

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Menção honrosa – Ciudad – Giménez e Barreiro

Com algumas semelhanças a Parque Chas, Ciudad centra-se numa cidade sem tempo, uma espécie de buraco negro onde vão parar habittantes de todos os tempos e lugares – imensa e diversa, uma cidade sem fim nem saída. A cidade não é contínua, nem no espaço, nem no tempo, e a dupla de exploradores experimenta o passado e o futuro, ambos traumatizantes, não percebendo as diferenças na duração da noite e do dia entre as diferentes partes da cidade. Cruzando outras ficções com esta narrativa (não só pela apresentação de monstros, como pelo surgir da figura Eternauta, e por referências indirectas a outras obras) Ciudad funde vários elementos para se transformar numa longa e rica viagem.

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Melhor narrativa ficcional – Essex county – Jeff Lemire

Este volume reúne três histórias diferentes que se interligam e que decorrem em Essex County  – o ambiente é frio e inóspito, e os relacionamentos humanos mostram-se difíceis. A razão de tal dificuldade deriva de uma série de segredos familiares e desgraças passadas que o autor vai desenvolver em várias linhas narrativas. As personagens ultrapassam a ficção e passam a ser pessoas com passado e densidades – pessoas que se encontram e desencontram tal como o leitor.

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Menção honrosa – O cão que guarda as estrelas – Takashi Murakami

Neste pequeno livro aproveita-se a figura do animal de estimação, neste caso um cão, como forma de explorar a complexidade dos relacionamentos (e a sua evolução). O cão oferece uma visão simples, mas através dele vamos interpretando os sinais de algo diferente, como o afastamento do casal, em que, ao invés de apoio mútuo, encontramos sacrifício e apoio de uma das partes, mas, da outra, egoísmo e quebra completa. O animal de estimação acaba por se tornar o único ponto de consolo e de amizade, o único relacionamento que se mantém, e que serve de consolo para o homem que se vê fora da própria casa e da própria vida.

Com uma pequena aura de tragicidade (já conhecemos o final da dupla desde o início) e passando o sentimento de destino que se irá cumprir, a história coloca-nos a tentar perceber o percurso das duas personagens. O animal fornece uma perspectiva interessante, com elementos que ele não compreende, mas que o leitor percebe.

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As melhores leituras de outros anos

Resumos / melhores de 2018

Ether – Vol.1 – Matt Kindt e David Rubín

Em Ether a realidade que conhecemos é corrompida por uma série de portais para uma outra realidade fantásticas. Curioso, um homem de ciência viaja por estes portais com o objectivo de provar que mesmo este mundo fantástico pode ceder às regras das descobertas científicas e ser percebido de forma lógica.

A história começa com o inusitado processo de passagem, em que um gorila, após obter uma série de respostas, dá um pontapé no cientista e assim o encaminha para o mundo mágico. Mas desta vez a missão do cientista não seguirá o percurso normal pois houve um assassinato e os habitantes deste mundo precisam das suas capacidades dedutivas para perceber quem foi o assassino.

Oscilando entre a melancolia da obsessão pelo mundo fantástico (que impede a concretização de outros planos pessoais por parte da personagem principal) e os detalhes cómicos conferidos pelo seu sidekick (o gorila), Ether não explora uma premissa nova, mas fâ-lo de uma forma que achei de agradável leitura, destacando-se a forma como o cientista tenta aplicar as regras da lógica e se torna conhecido no mundo fantástico por esse processo estranho e incompreensível.

Do ponto de vista narrativo não é uma história perfeita, oscilando entre vários objectivos sem fechar algum (opinião que pode ser refeita quando ler o volume seguinte) e possuindo alguns saltos que se podem tornar ligeiramente confusos. Já do ponto de vista visual possui o estilo de David Rubín, que neste caso se une bem à componente narrativa, destacando o tom caricato de algumas personagens e os elementos do mundo fantástico.

O resultado é agradável, de fácil e divertida leitura apesar do contraste entre o ar bem disposto (cores alegres e aspecto caricato) e a urgência final quando as diferentes realidade perdem a sua integridade. Sem considerar excelente é uma boa e recomendável leitura.

Resumo de Leituras – Agosto de 2018 (5)

144 – O Farol Intergaláctico – João Pedro Oliveira – eis mais um grande exemplo de boa ficção científica publicada pela Imaginauta num formato acessível (em preço) e de fácil transporte. O conto de 12 páginas centra-se na distância temporal criada pelas viagens espaciais, mostrando dois amigos que não se vêem há uma viagem – um no auge da sua juventude, outro velhote e melancólico;

145 – Joe The Barbarian – Grant Morrison e Sean Murphy – Após a morte do pai, a mãe luta para manter o tecto sobre a cabeça dela e do filho. Já o rapaz, que é diabético, soturno, é marginalizado pelos restantes rapazes. Resta-lhe sonhar pelos seus desenhos, até ao dia em que se materializa noutro mundo fantástico onde a sua presença é fulcral;

146 – Seis drones – António Ladeira – Falhei o lançamento na Barata por distração mas ainda assim comprei um exemplar. As referências a várias obras de ficção científica revelam que o autor sabe o que está a escrever e efectivamente os seis contos que apresenta parecem ter inspiração nos clássicos – Orwell, Bradbury, Dick. O resultado é bom, com pontinhas de ironia relativamente à tecnologia e à possibilidade de servirem de forma de controlo das populações;

147 – Portais – Octavio Cariello e Pietro Antognioni – Esta banda desenhada de ficção científica foi lançada há alguns meses, mas só agora a li. Visualmente bastante boa, possui uma história futurista com portais entre épocas diferentes que visam transportar elementos decisivos para a luta por um trono distante.

Resumo de Leituras – Agosto de 2018 (4)

140 – O corpo dela e outras partes – Carmen Maria Machado – Uma série de contos de ficção especulativa, com elementos de ficção científica, fantasia e horror, que apresentam personagens com diferentes sexualidades e nas quais a sexualidade é parte da história, como algo natural. Estes contos podem servir de ponto de partida para discussões mais profundas sobre dinâmica de género ou de relação, ou podem ser simplesmente apreciados conforme se apresentam;

141 – Cicatriz – Sofia Neto – Enquadrado no género da ficção científica, apresenta um futuro em que a o sociedade é dividida. Alguns escolheram permanecer dentro das cidades, com acesso a todas as componentes tecnológicas, enquanto outros ficam nos campos. Duas realidades fechadas, alimentando rumores sobre a outra metade que é demonizada sobre os aspectos mais propícios. Uma leitura interessante e inesperada ainda que saiba a pouco a incursão neste mundo;

142 – Tatuagem – Hernán Migoya e Bartolomé Seguí – Adaptação de um romance policial, apresenta alguns clichés do género, fazendo piada sobre estes mesmos aspectos comuns a tantas outras obras de ficção policial. A personagem principal é um homem que não perde a oportunidade de se aproximar de mais uma donzela, aliás, algo que partilha com o homem de quem procura a identidade;

143 – O jogo – Carmo Cardoso e José Machado – Trata-se de um dos mais recentes contos de ficção científica publicados na colecção Barbante que nos apresenta a situação limite de uma vida dependente do resultado de um jogo.

Joe The Barbarian – Grant Morrison e Sean Murphy

De premissa simples, esta é daquelas bandas desenhadas que vale mais pelo visual do que pela narrativa, centrando-se num jovem que, de repente, se vê num mundo fantástico onde terá um papel fundamental no afastamento e derrota de vilões. Órfão de pai, o rapaz é diabético e escapa comummente do convívio com os da sua idade para desenhar.

Um dia, não escapa somente para desenhar, mas começa a ter fortes alucinações provocadas por uma oscilação glicémica que o levam a experimentar uma aventura no reino fantástico. Enquanto a mente deambula o corpo passa por uma situação grave de possibilidade mortal.

A premissa de um jovem que se vê num reino fantástico, em que as leis do mundo real não se aplicam, é uma das mais comuns nas histórias do género. Ainda assim existem vários autores que conseguem pegar neste princípio comum e entregar uma boa aventura, seja por construirem personagens interessantes ou reviravoltas inesperadas. Não encontrei elementos distintivos em Joe The Barbarian que permitissem dizer que é uma boa leitura do ponto de vista narrativo. No máximo é legível.

O grande destaque desta banda desenhada será, sobretudo, a nível visual – elementos fantásticos, paisagens com toques medievais de cores fortes e dislumbrantes, de grande luminosidade. O autor aproveita a diversidade de cenários e de ambientes psicológicos para variar as composições, resultando em páginas fascinantes.

O corpo dela e outras partes – Carmen Maria Machado

Nomeada para vários prémios, entre os quais um Nebula (e na semana passada, um World Fantasy Award), Carmen Maria Machado possui contos publicados em várias revistas de ficção especulativa e uma colectânea. E eis algo que nunca pensei ver publicado em Portugal – a colectânea, de nome O corpo dela e outras partes.

Trata-se de um conjunto de histórias com elementos de ficção especulativa (desde horror a ficção científica e fantástico), mas o que surpreende é a forma como entrelaça a sexualidade das suas personagens. Encontramos heterossexuais, homossexuais ou bissexuais em semelhante proporção, em contextos quase banais, sendo que o que distingue do banal se deve aos elementos fantásticos.

Se, na primeira história acompanhamos a dinâmica de poder num casal quase tradicional transformada em tema de horror, em várias das outras histórias as mulheres expressam a sua sexualidade com um desprendimento libertador, sem tabus ou preocupações de julgamento social, algo que me pareceu tão natural que só após a leitura me apercebi desta componente.

Tratam-se de histórias muito focadas no ponto de vista da personagem narradora, que, em quase todas é feminina, destacando-se a forma fluída como o faz. A sucessão de episódios assemelha-se ao fluxo de pensamentos (numa pessoa lúcida), com pequenos saltos narrativos e intercepção de outros episódios, mas nada que seja em excesso e que dificulte a leitura. Noutros contos a apresentação de cada parágrafo é antecida por uma palavra chave, elemento que marca a percepção do sentimento de cada parte.

Encontramos elementos de ficção especulativa para todos os gostos: desde apocalipses em que a espécie humana é dizimada por uma doença mortal de rápida e silenciosa propagação, a elementos fantásticos num conto de terror, a histórias de crime com componentes sobrenaturais que, em simultâneo, exploram relacionamentos, amores e desamores.

O Corpo dela e outras partes foi publicado em Portugal pela Alfaguara.

Os mundos decadentes de Jeff Vandermeer

Jeff Vandermeer – foto retirada do site oficial http://www.jeffvandermeer.com/

Jeff Vandermeer é o autor da trilogia Área X, do qual o primeiro volume, Aniquilação, foi adaptado recentemente para filme. Vencedor de vários prémios (World Fantasy Award, BSFA, Locus, Nebula ou Shirley Jackson Award), Jeff Vandermeer é, para além de escritor, editor e organizador de várias antologias de ficção especulativa e bem como crítico, publicando regularmente as opiniões em diversos jornais e revistas.

Desde a maravilhosa cidade de Ambergris carregada de esporos à cidade sem nome de Borne, em que as ruínas se tornam nichos ecológicos para construções biotecnológicas, grande parte da ficção de Vandermeer decorre em cenários de corrupção crescente, seja por acção humana, seja por circunstâncias histórias e ecológicas anteriores aos acontecimentos que acompanhamos.

Se em Venice Underground nos é apresentado um local transformado pela biotecnologia em que se esmorece a fronteira entre animais e humanos, dando origem a novos seres mas, também, baixando o valor do humano, num desenvolvimento que se enquadra no género New Weird (para quem desconhece, foi um sub-género da ficção especulativa que, aqui há uns anos originou trabalhos como Perdido Street Station de China Miéville ou The Etched City de K. J. Bishop onde se sobrecarrega a realidade com elementos estranhos levados ao extremo e que, nalguns casos provocam hostilização e inquietação no leitor), em Borne, os elementos estranhos são enquadrados de forma a parecerem quase normais, levando o leitor a empatizar com as novas criaturas.

 

 

 

 

 

 

 

 

Assim, em Borne, temos uma criatura que, não sendo humana, quer ser uma pessoa, mas a sua natureza fagocítica impele-o a comportamentos inclusivos pouco sociáveis. Por sua vez, em The Strange Bird, segue-se um pássaro com resquícios de humano, que cruza elementos de vários animais e é um ser pensante. As suas características especiais levam-no a ser usado por vários seres humanos com objectivos distintos, objectivos dos quais se vinga sorrateiramente. Esta segunda história, mais pequena, fornece alguns detalhes que tinham sido omitidos (sem desproveito da narrativa) em Borne, dando novos sentidos irónicos a alguns acontecimentos.

Tal como seres refeitos de partes de outros, a imagem de Urso é comum. Em Borne um dos novos seres é um urso enorme, um constructo com proxies à sua imagem, que ameaça toda a realidade. Já em The Situation  a imagem do urso tinha sido marcante, desta vez uma representação metafórica de um trabalhador num ambiente profissional corrosivo. Trata-se de um conto carregado de elementos representativos onde se destaca o ambiente claustrofóbico provocado por um líder incompetente que desagrega a equipa. O resultado é a transformação das personagens consoante o estado psicológico.

Ainda não localizei o terceiro volume da trilogia depois das mudanças… Nem esse nem outros que tenho do autor…

A corrupção do mundo encontra-se, também, presente na trilogia Area X. O primeiro livro, Aniquilação, apresenta uma bolha na realidade descrita, uma descontinuação que é de difícil exploração pelo homem e onde decorrem uma série de fenómenos inexplicáveis – fenómenos que parecem iteracções fractais de vários elementos. A trilogia prossegue, num tom bastante diferente, conferindo perspectivas totalmente opostas da fornecida no primeiro volume. O ambiente é inóspito e propositadamente confuso para os seus visitantes (e, consequentemente, para os leitores) destacando-se alguns cenários não presentes directamente na adaptação cinematográfica como a torre invertida, inspirada na Quinta da Regaleira.

Desde City of Saints and Madmen (Ambergris) a Borne, Jeff Vandermeer leva o leitor a passear por realidades impossíveis – realidades que constrói povoando de detalhes estranhamente coerentes e personagens peculiares, duas componentes que possibilitam o envolvimento absoluto do leitor.

Mas o espírito criativo de Jeff Vandermeer não se fica pela escrita. Conjuntamente com a esposa, Ann Vandermeer, tem organizado várias antologias que ficam para a história da ficção científica. Recordo, por exemplo, o Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas onde uma série de autores cria novas e fantásticas doenças. Trata-se de um manual totalmente ficcional, publicado em português com doenças inéditas por autores portugueses, e que já foi encontrado na secção de medicina da FNAC como se fosse um livro académico.

Recordo, também, os belíssimos manuais Steampunk, livros de mesa que reúnem as mais maravilhosas referências do género, ou, mais recentemente, The Big Book of Science Fiction que pretende conter histórias representativas de todos os géneros.

Alguns livros publicados pela Livros de Areia, entre eles, no topo, um pequeno livro com histórias de Ambergris, a cidade dos fungos!

Em Portugal ainda é um autor pouco publicado. Para além do almanaque de doenças ficcionais referido acima, mais recentemente foi lançada a trilogia da Área X (aproveitando a adaptação cinematográfica) e houve, há vários anos, uma pequena parte da história de Ambergris publicada pela Livros de Areia – A transformação de Martim Lake & Outras histórias – numa belíssima edição.

Outros artigos sobre livros de Jeff Vandermeer

À espera de … (lançamentos internacionais)

É nesta altura do ano que se começo a antecipar alguns lançamentos, imaginando estes novos livros na minha biblioteca.

Vencedora de dois prémios BSFA no mesmo ano para categorias diferentes, Aliette de Bodard tem lançado várias histórias de ficção científica e fantasia com elementos culturais diferentes do usual. De origem vietnamita e francesa, a autora fala diversas vezes sobre os elementos que encontra noutras fantasias em que se assume que os hábitos ocidentais são gerais ao restante planeta Terra (como o comer pão ao pequeno almoço) e em formas de evitar tal generalização ou de tornar os hábitos descritos lógicos ao habitat em que ocorrem. Depois do sucesso que tem feito com a trilogia iniciada com The House of Shattered Wings, a autora lança agora uma  ficção científica que parece ter detalhes orientais:

Welcome to the Scattered Pearls Belt, a collection of ring habitats and orbitals ruled by exiled human scholars and powerful families, and held together by living mindships who carry people and freight between the stars. In this fluid society, human and mindship avatars mingle in corridors and in function rooms, and physical and virtual realities overlap, the appareance of environments easily modified and adapted to interlocutors or current mood.

A transport ship discharged from military service after a traumatic injury, The Shadow’s Child now ekes out a precarious living as a brewer of mind-altering drugs for the comfort of space-travellers. Meanwhile, abrasive and eccentric scholar Long Chau wants to find a corpse for a scientific study. When Long Chau walks into her office, The Shadow’s Child expects an unpleasant but easy assignment. When the corpse turns out to have been murdered, Long Chau feels compelled to investigate, dragging The Shadow’s Child with her.

As they dig deep into the victim’s past, The Shadow’s Child realises that the investigation points to Long Chau’s own murky past… and, ultimately, to the dark and unbearable void that lies between the stars…

Catherynne M. Valente já venceu diversos prémios no área do fantástico, tendo sido publicada em Portugal uma das suas obras premiadas (A menina que circum-navegou o reino encantado num barco que ela mesma fez – infelizmente com falhas de tradução e de revisão que tornam o livro pouco legível nalgumas partes). Inicialmente conhecida pela série The Orphan’s Tales, a autora tem-se distinguido com várias outras obras e uma extensa publicação de contos. Aqui dá todo um novo sentido ao termo Space Opera:

IN SPACE EVERYONE CAN HEAR YOU SING

A century ago, the Sentience Wars tore the galaxy apart and nearly ended the entire concept of intelligent space-faring life. In the aftermath, a curious tradition was invented-something to cheer up everyone who was left and bring the shattered worlds together in the spirit of peace, unity, and understanding.

Once every cycle, the civilizations gather for Galactivision – part gladiatorial contest, part beauty pageant, part concert extravaganza, and part continuation of the wars of the past. Instead of competing in orbital combat, the powerful species that survived face off in a competition of song, dance, or whatever can be physically performed in an intergalactic talent show. The stakes are high for this new game, and everyone is forced to compete.

This year, though, humankind has discovered the enormous universe. And while they expected to discover a grand drama of diplomacy, gunships, wormholes, and stoic councils of aliens, they have instead found glitter, lipstick and electric guitars. Mankind will not get to fight for its destiny – they must sing.

A one-hit-wonder band of human musicians, dancers and roadies from London – Decibel Jones and the Absolute Zeroes – have been chosen to represent Earth on the greatest stage in the galaxy. And the fate of their species lies in their ability to rock.

Paolo Bacigalupi é o autor de uma das minhas obras de ficção científica favoritas, The Windup Girl. Conhecido por publicar obras em que se expressa a preocupação ecológica, apresentou neste volume um futuro pós-apocalíptico em que a subida das águas provoca uma crise energética e de alimentação, com a extinção da grande maioria das espécies vegetais comestíveis. No seu novo livro estabelece uma parceria com Tobias S. Buckell para escrever um livro de fantasia:

From award-winning and New York Times bestselling authors Paolo Bacigalupi and Tobias Buckell comes a fantasy novel told in four parts about a land crippled by the use of magic, and a tyrant who is trying to rebuild an empire – unless the people find a way to resist.

Khaim, The Blue City, is the last remaining city in a crumbled empire that overly relied upon magic until it became toxic. It is run by a tyrant known as The Jolly Mayor and his devious right hand, the last archmage in the world. Together they try to collect all the magic for themselves so they can control the citizens of the city. But when their decadence reaches new heights and begins to destroy the environment, the people stage an uprising to stop them.

In four interrelated parts, The Tangled Lands is an evocative and epic story of resistance and heroic sacrifice in the twisted remains surrounding the last great city of Khaim. Paolo Bacigalupi and Tobias Buckell have created a fantasy for our times about a decadent and rotting empire facing environmental collapse from within – and yet hope emerges from unlikely places with women warriors and alchemical solutions.

Um momento na história acompanhado por um alienígena que deveria manter-se como mero observador da tragédia. Mas o saber do desenrolar não será capaz. Trata-se do primeiro livro de um novo autor publicado na Angry Robots, uma das principais editoras anglo-saxónicas do género.

In medieval Italy, Niccolucio, a young Florentine Carthusian monk, leads a devout life until the Black Death kills all of his brothers, leaving him alone and filled with doubt. Habidah, an anthropologist from an alien world racked by plague, is overwhelmed by the suffering. Unable to maintain her neutrality, she saves Niccolucio from the brink of death. Habidah discovers that neither her home’s plague nor her assignment on Niccolucio’s ravaged planet are as she’s been led to believe. Suddenly the pair are drawn into a worlds-spanning conspiracy to topple an empire larger than the human imagination can contain.

 

Depois de A Súbita Aparição de Hope Arden, a autora já publicou um romance que me parece bastante diferente (mas apetecível) The End of the day onde explora a figura da morte. 84K será o título que tem planeado para 2018, centrado num auditor criminal, responsável por garantir que os culpados por um crime pagam a dívida na totalidade à sociedade.

Theo Miller knows the value of human life – to the very last penny.
Working in the Criminal Audit Office, he assesses each crime that crosses his desk and makes sure the correct debt to society is paid in full.
But when his ex-lover is killed, it’s different. This is one death he can’t let become merely an entry on a balance sheet.
Because when the richest in the world are getting away with murder, sometimes the numbers just don’t add up.

 

Cory Doctorow tem escrito vários livros distópicos envolvendo a tecnologia actual e a excessiva vigilância do estado. Um dos seus livros mais conhecidos é Little Brother (publicado por cá com o mesmo título pela Editorial Presença) onde se faz uma analogia a 1984, mas nos tempos modernos e contendo como jovens as principais personagens. Por sua vez, Charles Stross é conhecido por livros de ficção científica pura e dura, com uma grande pitada de humor (como The Atrocity Archives). Este humor não é característico apenas dos livros, verificando-se, também, nas apresentações que tive oportunidade de assistir do autor. Juntos, criam este livro que, pelo título e pela premissa, parece, no mínimo engraçado:

Welcome to the fractured future, at the dusk of the twenty-first century.

Earth has a population of roughly a billion hominids. For the most part, they are happy with their lot, living in a preserve at the bottom of a gravity well. Those who are unhappy have emigrated, joining one or another of the swarming densethinker clades that fog the inner solar system with a dust of molecular machinery so thick that it obscures the sun.

The splintery metaconsciousness of the solar-system has largely sworn off its pre-post-human cousins dirtside, but its minds sometimes wander… and when that happens, it casually spams Earth’s networks with plans for cataclysmically disruptive technologies that emulsify whole industries, cultures, and spiritual systems. A sane species would ignore these get-evolved-quick schemes, but there’s always someone who’ll take a bite from the forbidden apple.

So until the overminds bore of stirring Earth’s anthill, there’s Tech Jury Service: random humans, selected arbitrarily, charged with assessing dozens of new inventions and ruling on whether to let them loose. Young Huw, a technophobic, misanthropic Welshman, has been selected for the latest jury, a task he does his best to perform despite an itchy technovirus, the apathy of the proletariat, and a couple of truly awful moments on bathroom floors.